Como se pronuncia Odebrecht?

José Horta Manzano

Certas palavras de origem estrangeira são verdadeiro desafio. Algumas delas, constantemente marteladas pela mídia e sempre pronunciadas da mesma maneira, acabam entrando no costume. Já outras, ouvidas com menor frequência, aparecem como pedra no caminho de locutores, narradores e do simples cidadão.

Uma delas é Odebrecht. Até alguns anos atrás, pouca gente tinha ouvido falar da empreiteira que leva o nome dos fundadores. Hoje a coisa mudou. Não se passa dia sem que a gente tenha de ler ou ouvir esse nome, goste ou não goste. Não tem como escapar. Pelo andar da carroça, ainda vamos topar com esse nome por meses, talvez anos. É bom aprender a pronunciá-lo direitinho.

Tradicionalmente, a língua alemã nunca fez parte do currículo escolar brasileiro. Portanto, na incerteza, cada um pronuncia como acha que deve ser. E nem todos estão de acordo.

Há quem pule por cima do ch, aterrissando direto no t. Sai algo como «Odebrét», com um t meio mudo. Parece chique, mas passa longe da pronuncia alemã.

odebrecht-1Outros trocam as letras de lugar. Fazem como se o t estivesse antes to ch formando um tch. Esforçam-se por articular mas sai um estranho «Odebrétch». De orelhada, um alemão não identificaria a palavra.

Já ouvi puristas que, levando em conta que a empresa é baiana, fazem questão de abrir as vogais. Ouve-se um peculiar «Ódebrétch». Tem charme, sem dúvida, mas o caminho não é esse não, meu rei.

Uns poucos tiveram aulas de alemão. Aprenderam que o ch indica pronúncia aspirada, próxima da jota espanhola. Capricham então num ríspido «Odebréxht», que soa como chicotada. Embora doa no ouvido, não corresponde à pronúncia original.

A maioria opta pela lei do minimo esforço. Fazendo pouco caso da inabitual sequência de letras, faz de conta que não viu o t final e solta um «Odebréch». É simples e tem a vantagem de não agredir o ouvido de ninguém. Só que não é assim que se articula.

Conhece o distinto leitor a pronúncia castiça, aquela que sairia da boca de um alemão de boa cultura? Não sabe? Pois vou lhe dizer. «Odebrecht» se pronuncia… exatamente como se escreve.

Ói o rapa!

José Horta Manzano

O termo «camelô» vem do francês «camelot». Não há consenso sobre a origem da palavra. Deriva provavelmente do árabe «hamlat» ‒ novelo de lã. Em nossa língua, designa o indivíduo que vende bugigangas, objetos de baixo valor. É comércio de rua, muitas vezes exercido furtivamente e sem anuência da autoridade encarregada de regulamentar esse tipo de atividade.

Numa dos raros sambas que fugiam ao habitual clima de fossa, a cantora e compositora Dolores Duran descrevia, lá pelos anos 50, as agruras da profissão.

Camelô esse dono da calçada,
Na conversa bem jogada
Vende a quem não quer comprar.
Se tivesse tido a chance de uma escola,
Muita gente de cartola
Lhe daria seu lugar.

Ele é vesgo pois a profissão ensina
A ter um olho na esquina e outro olho no freguês.
Assim de vez em quando ele escapa
Gozando a cara do “rapa”
Que bobeou outra vez….

O «rapa» é o fiscal da prefeitura, aquele que vem conferir se o ambulante está agindo dentro das regras. Se não estiver nos conformes, pode perder a mercadoria. Nesse caso, o agente cata tudo, rapa de vez.

Rapar

Rapar

Estes dias, um certo senhor Batista, milionário pra lá de conhecido, foi apanhado pela PF e mandado para o xadrez. Maldosa, a mídia mostrou fotos do homem antes e depois da prisão. Nos tempos áureos, o referido senhor ostentava basta cabeleira; encarcerado, apareceu praticamente careca.

Há quem afirme que o antigo topete não passava de peruca. Outros asseguram que o cabelo foi cortado rentinho. A maioria ‒ pra não dizer todos ‒ informam que o cocuruto de senhor Batista foi raspado. Só de pensar, dá arrepio. É que, habituado a lidar com línguas em que rapar e raspar são coisas diferentes, sinto-me um tanto incomodado com a confusão que se faz, no Brasil, entre os dois verbos.

É verdade que os falantes são os donos da língua e fazem dela o que bem entendem. Ainda assim, acho uma pena ver palavras adequadas serem abandonadas em favor de outras menos apropriadas.

Raspar

Raspar

Rapar é catar tudo, geralmente num único movimento. Rapa-se a cabeça (caso do prisioneiro que acabo de mencionar), rapa-se a mercadoria do camelô desprevenido, rapa-se o saldo da caderneta de poupança. O crupiê rapa as fichas dos perdedores no tapete verde da roleta. Rapa-se barba e bigode.

Raspar é outra coisa. Raspa-se um objeto ou uma superfície, ou por acidente, ou na intenção de limpar ou de eliminar alguma impureza ou excrescência. Raspa-se fundo de panela. Raspa-se a pintura da parede velha antes de aplicar nova camada. Raspa-se o carro no muro. Raspa-se casca de limão e pele de cenoura.

Sabemos que nossas prisões são sucursais do inferno. Mas ainda não chegamos ao ponto de raspar a cabeça de recém-chegados, esfregando até o sangue. Crueldade tem limites.

Interligne 18cNota poliglota

Rapar fica assim:
Em inglês: to shave, to raze
Em francês: raser
Em alemão: rasieren, abreißen
Em italiano: radere
Em espanhol: afeitar, rapar
Em sueco: raka

Raspar fica assim:
Em inglês: to scrape, to scratch
Em francês: râcler, gratter
Em alemão: klauen, abkratzen
Em italiano: grattare
Em espanhol: rascar
Em sueco: skrapa

Do século passado

José Horta Manzano

Dia sim, outro também, lê-se o relato de algo acontecido «nos anos 90 do século passado». Fala-se também de pessoas nostálgicas «dos anos 50 do século passado». O distinto leitor já há de ter notado o modismo.

Trecho de editorial do Estadão, 23 jan° 2017

Trecho de editorial do Estadão, 23 jan° 2017

Vamos refletir um pouquinho. Seria, por acaso, concebível relatar algo acontecido «nos anos 90 do século atual»? Ou falar de pessoas nostálgicas «dos anos 50 do século atual»? Ou, pior ainda, de pessoas nostálgicas «dos anos 50 de dois séculos atrás»? Parece coisa de louco, não?

Pois é isso. Certas palavras sobram, portanto são descartáveis sem prejuízo da clareza do enunciado. Sem elas, a frase fica mais enxuta, mais fluida, mais elegante. Para referir-se a uma década do século passado, basta mencionar qual delas é. Todos vão entender.

Carnificina

José Horta Manzano

Ah, o perigo está sempre à espreita do tradutor. Como costumo dizer, em matéria de tradução, nem sempre o que parece é.

Que não se preocupe o distinto leitor. A imprensa brasileira não foi a única a escorregar. Na França, rolaram pela mesma ladeira. Ao comentar o discurso de entronização de Mr. Trump, todos falaram em «carnificina» sem desconfiar que a afirmação não fazia sentido, que algo estava fora de esquadro.

Quando, no discurso de tomada de posse, o novo presidente falou em «American carnage», usou expressão informal, em princípio restrita a colóquio entre amigos.

Num pronunciamento importante como aquele, o homem deveria ter-se exprimido de outra maneira. Mas talvez seja exigir muito de um Lula de olhos azuis. Embora nascido e criado em berço de ouro, o novo presidente dá preferência a expressões caseiras, na intenção de aproximar-se, assim, do povão.

Chamada do Estadão, 20 jan° 2017

Chamada do Estadão, 20 jan° 2017

Carnage  entrou no inglês vindo diretamente do francês. A raiz latina caro/carnis deu prole importante. Em nossa língua, temos carne, carnal, carneiro, carnívoro, encarnar, descarnado. Temos também carnificina, termo utilizado justamente na chamada do Estadão. O estagiário, embasbacado, procurou no dicionário e ficou com a primeira acepção que encontrou.

Bobeou. Embora o significado usual de carnage seja realmente carnificina, não foi o que Mr. Trump quis dizer. Ele pensava na acepção secundária da palavra.

«American carnage» teria sido mais bem traduzido como fracasso americano, ruína americana, débâcle americana, tragédia americana. Nada que ver com carne sangrando.

Dividir para reinar

José Horta Manzano

Dividir para reinar. Os registros mais remotos dessa máxima vêm da antiguidade grega. Dois milênios mais tarde, foi adotada pelos latinos como «Divide ut regnes». Mil anos depois, Maquiavel acudiu-se dela sob a forma «Divide et impera». E não é que a máxima chegou até nossos dias? E olhe que continua valendo sem arredar. Exprime o exato oposto de nosso conhecido «unidos, venceremos».

O atual quiproquó(*) entre Trump e Putin deixa alguns preocupados enquanto enche outros de esperança. Levando em conta que ‘onde tem fumaça tem fogo’, a esquizofrênica troca de acusações e de gentilezas entre os dois líderes não é anódina. Há de haver um fundo de verdade nessas declarações de amor e ódio. Desde o fim da Guerra Fria, trinta anos atrás, não se via tamanho morde e assopra entre os líderes das antigas superpotências.

putin-trump-xi-jinpingPutin, matreiro como raposa, há de ter julgado que a eleição de Trump, populista meio bobão, seria proveitosa para a Rússia. É de crer, portanto, que tenha tentado influir nas eleições americanas. A suposição está longe de ser absurda.

E não é só: o mandachuva de Moscou pode muito bem ter ido além. Como antigo dignitário dos serviços secretos soviéticos, aprendeu a pegar cada um por seu ponto fraco, especialidade da casa. Trump é mulherengo, todos sabem disso. A existência de vídeos comprometedores do quase empossado presidente é arma poderosa, que Putin pretende usar, com parcimônia, em proveito próprio.

Enquanto isso… a milhares de quilômetros de Washington e de Moscou, senhor Xi Jinping, provavelmente o líder chinês mais poderoso desde Mao Tsetung, enche-se de júbilo. O comércio internacional já se tornou jogo de cartas marcadas, em que a China sai sempre ganhando. Essas são favas contadas. Mas o domínio do comércio não basta para levar um país ao topo do pedestal. Há outros requisitos.

by Marine Fargetton, artista francesa

by Marine Fargetton, artista francesa

Enquanto Trump e Putin trocam amabilidades e sopapos, que faz Xi Jinping? Já programou visita ao Forum Internacional de Davos (Suíça), marcado para a semana que se inicia. Pragmático, o líder chinês vem reafirmar que seu país mudou, que se tornou economia aberta, que está no mesmo nível dos demais países. Ninguém acredita muito, mas a economia mundial não vive de ideologia, mas de dinheiro. A presença do chinês na meca dos donos do dinheiro só pode ser benéfica para seu país.

Mr. Xi, ao ignorar o bate-boca entre EUA e Rússia, age como abre-alas da entronização de seu país como economia de mercado. Segue à risca outra máxima: «Os cães ladram e a caravana passa.»

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(*) O desastroso AO-90 ‒ acordo ortográfico firmado quase trinta anos atrás entre Brasil, Portugal e mais alguns pequenos países onde se fala, em certa escala, alguma variante da língua lusa ‒ cassou o direito de existir do simpático trema. Certas sumidades, julgando-se donas da língua, suprimiram o diacrítico. O resultado já se faz sentir.

O ensino do latim na escola regular tendo sido banido, os mais jovens não estão familiarizados com o que a língua dos césares nos legou. Quiproquó costumava escrever-se «qüiproquó». Na hora de ler, mesmo sem conhecer a palavra, ninguém se enganava. Todos liam «kuiprokuó». Já não é mais assim. Deve ter muita gente por aí lendo «kiprokó», que soa como nome de ilha grega.

Não é o caso, naturalmente, de nenhum de meus cultos leitores. Todos sabem que a expressão latina qüiproquó traz a ideia de «isto por aquilo», «uma coisa pela outra». Em suma, uma confusão.

Latinidade

José Horta Manzano

O distinto leitor que já me fez a honra de ler alguns artigos se deu conta de que faço o que posso para exprimir meu pensamento com precisão. A clareza me encanta. Sinto-me irritado quando não consigo entender o que um autor quis dizer. A escrita clara exige palavras adequadas ‒ taí uma regra incontornável.

Traduzir um texto, por exemplo, não é tarefa que se possa cumprir com um pé nas costas. Paradoxalmente, quanto mais próximos estiverem o idioma de origem e o de chegada, maior será o risco de o tradutor distraído se deixar ludibriar por um «falso amigo».

Estou-me referindo a falsos amigos em sentido figurado, evidentemente. São palavras e expressões traiçoeiras que, embora parecidíssimas, não significam a mesma coisa na língua estrangeira e na nossa. O problema assume proporções maiores quanto se traduz entre línguas da mesma família. O que parece nem sempre é.

obama-3Mais dia, menos dia, todo tradutor acaba caindo na armadilha. Até franceses, conhecidos pelo rigor no trato da língua, escorregam. Um exemplo de erro frequente é quando ingleses ou americanos utilizam a palavra «administration» para designar o conjunto dos governantes. As expressões «Obama administration» ou «future Trump administration» são frequentemente (mal) traduzidas ‒ tanto na França quanto no Brasil ‒ por «administração Obama» ou «futura administração Trump».

Não bate. Não é nossa maneira de dizer. A boa tradução será «governo Obama» ou «futuro governo Trump». Ou alguém ousaria se referir à finada «administração Lula»? Se não estiver convencido, faça uma busca rápida no google. A proporção é de uma menção a «administração Lula» para cada centena de referências a «governo Lula». Portanto, «administração Trump» é contaminação a evitar.

2017-0104-01-estadaoHá outras armadilhas à espera do tradutor negligente. Uma delas, que me irrita particularmente, é tratar nossos hermanos latino-americanos simplesmente de «latinos». Nos EUA, é o uso; entre nós, não. Em manchete, o Estadão escorregou ainda ontem. Disse que o grosso dos turistas que visitaram o Brasil em 2016 eram «latinos», seguidos de europeus. Sem se dar conta, o autor da manchete deu um golpe na latinidade. Abriu um fosso entre latinos europeus e latino-americanos.

A manchete aberrante tem mais de uma causa. Uma delas é o comportamento do tipo ‘maria vai com as outras’: é tão mais cômodo adotar o que vem escrito no despacho da agência de notícias e traduzir palavra por palavra… Outra causa é evidente falta de estudo. Talvez não esteja mais sendo ensinado na escola que «latinos» não são unicamente nossos vizinhos de fala espanhola. Diz-se latino de todo povo originário de país de língua latina. Franceses, portugueses, italianos, romenos, espanhóis, andorranos, monegascos são latinos. Sem mencionar parte dos suíços, dos belgas, dos canadenses.

Francamente… Excluir romanos e italianos dos povos latinos, como fez o autor da manchete, é de uma estupidez sem nome.

“Dividir”

José Horta Manzano

Não faltou boa vontade ao autor da chamada. No entanto, vasculhando na memória, não deu com palavra adequada pra exprimir seu pensamento. Empurrado pela celeridade que o ofício exige, não teve tempo de procurar.

Daí ter devidamente cercado «dividir» com esse par de aspas, como biombos a disfarçar o embaraço. Os urubus informam que o verbo não é o ideal mas, na falta de outro, vai assim mesmo.

Chamada Estadão, 29 dez° 2016

Chamada Estadão, 29 dez° 2016

De fato, dividir traz a ideia de decompor um todo em partes menores, mas não inclui necessariamente a noção de repartir, de oferecer pedaço(s) a outros. Fica faltando o mais importante. Dividir é informação colateral. A ideia principal é fazer que outros beneficiem da divisão.

A língua oferece verbos mais adequados. Destaco três deles.

Interligne 18c●  O mais utilizado:
«Pessoas com deficiência vão compartilhar sistema de cotas com (…)»

●  Embora menos utilizado, este é sinônimo exato do anterior:
«Pessoas com deficiência vão compartir sistema de cotas com (…)»

●  Agora vem um verbo raro, que nem o Houaiss menciona. Assim mesmo existe e, a meu ver, é o que melhor traduz a ideia:
«Pessoas com deficiência vão condividir sistema de cotas com (…)»

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Todos os três trazem ambas as ideias: dividir o todo e repartir pedaços. Se o autor tivesse utilizado um deles, não teria precisado de aspas.

De atentados

José Horta Manzano

É fácil ser profeta do passado. Acontecido o fato, é cômodo dizer “eu tinha avisado”.

Na esteira dos atentados que têm castigado a Europa ultimamente, muita gente tem aproveitado para emitir críticas. Depois da carnificina de Berlim, tenho ouvido comentários injustos. Até respeitados analistas vêm censurando a Alemanha por não se ter premunido contra camicases e atacantes. «Onde está a proverbial eficiência alemã? Deviam ter protegido melhor os frequentadores da feira berlinense!» É, falar é fácil.

feirinha-1Feiras natalinas são manifestações de rua tradicionais na Europa do norte, mas não só. Nesta época, são montadas por toda parte. Para se ter uma ideia de como são populares, leve-se em conta que, somente em Berlim contam-se quase sessenta feiras. Na Alemanha inteira, são muitas centenas. O mesmo acontece na França, na Suíça, na Áustria, assim como nos países escandinavos, nos Países Baixos e até na Europa mediterrânea. As barraquinhas oferecem sortimento variado: comes e bebes, artigos de Natal, artesanato, obras de artistas desconhecidos, roupas, tricô, crochê e muita coisa mais.

Prevenir atentado é tarefa impossível. Não se pode pôr um segurança ou um policial protegendo cada cidadão. É ilusório imaginar soluções miraculosas. Haverá sempre uma brecha para um coquetel molotov, uma rajada de Kalashnikov, um camicase com cintura de explosivo, um atropelamento múltiplo. Quando se sabe que um único indivíduo ‒ um «lobo solitário» ‒ pode causar estrago pesado agindo praticamente desarmado, a gente se sente indefeso. Com razão.

feirinha-2Até certo ponto, pode-se reforçar a segurança de aeroportos e estações ferroviárias, que são lugares confinados. Pórticos de detecção de metais, policiamento ostensivo, controles inopinados, câmeras de vigilância não eliminam todo risco, mas ajudam. Já nas ruas, em feirinhas, em grandes lojas, em centros comerciais, em igrejas, nunca se alcançará proteção total. O atentado de Berlim, infelizmente, não foi o último.

Sobra um (magro) consolo: tudo acaba passando. A história é feita de ciclos, de altos e baixos, de vaivéns, de tempestades e bonanças. Durante os anos 70 e 80, sequestros de avião eram praga mundial. Não passava uma semana sem avião desviado. Hoje, já não se ouve mais falar. O dia chegará em que atentados às cegas, como os atuais, serão apenas amarga lembrança.

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Nota linguística
Os alemães chamam essas manifestações de Weihnachtsmarkt. Os franceses dizem Marché de Noël. Os espanhóis dizem Mercado (mercadillo) navideño, enquanto os italianos preferem Mercatino di Natale. Os suecos dizem Julmarknad. Ainda que adaptada ao espírito de cada língua, todas as expressões empregam a raiz mercado.

Alguns jornalistas se deixam contaminar pelo original estrangeiro e traduzem por «Mercado de Natal». Não me parece apropriado. Mercado, para nós, é outra coisa. Nossa expressão «Feirinha de Natal» é mais adequada.

Gato por lebre

José Horta Manzano

Quando a esmola é muita, todo santo devia desconfiar. Alguns, talvez mais ingênuos, acreditam ter encontrado a mina de ouro. Tsk, tsk. Não há almoço grátis, como sabe o distinto leitor.

Loucos para dar uma escapadinha de alguns dias ao exterior, mas com pouco dinheiro no bolso, quatro cidadãos de Bratislava (Eslováquia) procuraram uma opção que lhes coubesse no bolso. Depois de consultar numerosas opções de voo de baixo custo, deram de cara com uma incrível oferta para «Nis». O preço do bilhete era realmente imbatível.

Promenade des Anglais Nice, Côte d'Azur, França

Promenade des Anglais
Nice, Côte d’Azur, França

Imaginaram que nunca apareceria outra ocasião tão favorável de conhecer Nice, a ultrafamosa joia da Côte d’Azur. O grupo já se pôs a sonhar com um despretensioso passeio pela Promenade des Anglais, à beira do Mediterrâneo, aproveitando o sol que, mesmo no inverno, costuma brilhar por aqueles lados.

Decisão tomada, compraram a passagem. No dia aprazado, dirigiram-se ao aeroporto de Bratislava. Embarcaram. Ao pousar, uma hora mais tarde, surpreenderam-se com o aspecto modesto do aeroporto. Imaginavam que Nice, cidade importante, contasse com instalações mais majestosas. O susto maior ainda estava por vir.

Aeroporto de Niš, Sérvia Crédito: Google Street View

Aeroporto de Niš, Sérvia
Crédito: Google Street View

Deram uma olhada em roda e notaram que tudo estava escrito em caracteres cirílicos. Estranharam. Foi quando um deles, queixo caído, cutucou os companheiros apontando para o letreiro com o nome do aeroporto. Com certa dificuldade, soletraram: «Аэродром Ниш» ‒ Aeroporto de Nis. Passado o primeiro momento de estupor, um deles se lembrou de que, de fato, havia na Sérvia uma cidade industrial chamada Nis.

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O vento frio que lhes bateu no rosto confirmou: haviam desembarcado na Sérvia, a um pulinho de onde tinham saído, mas a mil quilômetros da Côte d’Azur. A história não conta se, ao voltar pra casa, deram queixa ao Procon local. De qualquer maneira, não teria adiantado, pois erraram sozinhos, sem ajuda de ninguém.

Baile das letras

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Foi uma daquelas idéias que no fim ninguém sabe dizer de onde surgiu. E da qual ninguém quer assumir a autoria. A maioria dos consultados a respeito concordaram em se reunir para uma espécie de, poderia assim se chamar, confraternização. Afinal, todos sempre trabalharam em equipe e, em princípio, parecia uma boa ideia.

Logo de saída, quando foram formalizar o convite, o C já foi logo dizendo que não prestaria nenhum tipo de colaboração. Poderia até participar da reunião, mas não queria ser usado, ficando mais uma vez entre duas vogais só para dar sentido à vida delas. Que fizessem o convite sem ele.

enluminure-k1Mantiveram o convite feito à letra C para participar do evento, apenas para não criar caso. E tiveram que improvisar com a letra K, que foi a solução mais próxima que encontraram. No alto, lia-se Konvite. O primo do C, o cê cedilha, ofereceu-se para a função. Todos agradeceram muito pela boa vontade, mas acharam melhor usar os préstimos do K. Mesmo porque o K, sempre tão esquecido, coitado, sentia-se orgulhoso com a honra oferecida. Além do mais, não haveria como esconder o rabinho do cê cedilha.

Tudo bem. Todo grupo sempre costuma ser dividido em alas. Sempre aparece algum ti-ti-ti. Houve até um princípio de confusão entre as vogais, que alegavam estarem cansadas de ficar dando sentido a tudo, sempre usadas pelas consoantes que, apesar de serem em maior número, sempre se mostram tão dependentes delas.

Mas a situação foi contornada pelos parênteses que, como sempre, acolheram a todos com braços e abraços apaziguadores. Alguns diziam que os parênteses só ficavam fazendo cochichinhos entre eles e que não eram confiáveis. Eles fingiram não ter entendido. Aliás, a idéia da reunião era justamente essa: promover confraternização e convivência pacífica entre todos.

enluminure-m1O M compareceu ao encontro e chegou, como sempre, antes do N. Sempre correu mais, por causa das três perninhas enquanto o companheiro andava em desvantagem, com duas. Assim que chegou à reunião, o M foi agradecer pessoalmente ao P e ao B pela deferência de serem precedidos por ele. Em detrimento do N, coitado.

A turma elogiou muito o hífen pelo trabalho que vinha desenvolvendo, sempre um fator de união que ninguém poderia deixar de reconhecer e comentar. Sempre auxiliou com sua presença a todos que um dia precisaram de sua ajuda para se unirem.

Chegou o W dando tapinhas nas costas do M, chamando-o de “colega”, fazendo-se de acróbata. Foi o que bastou para fazer com que o M fizesse verdadeiros contorcionismos com seu ego para manter a compostura.

As aspas compareceram também. Muito humildes como sempre, desculparam-se com todos os presentes. Reconheceram o trabalho e o esforço de todas para formar as palavras e elas, as aspas, sempre deixando pairar no ar alguma dúvida quanto à veracidade delas. Explicaram que não faziam isso por mal. Era apenas por força da obrigação.

Enluminure V 1Avoadas, andando ordeiramente em fila indiana, as reticências também apareceram. Na ocasião conversaram muito com todos, muito embora nunca conseguissem terminar um pensamento com muita clareza. Já a interrogação, por mais que falasse, nunca demonstrava saber de nada. Não ajudava muito. Mas como já era mais velha do que os outros ‒ tanto que utilizava uma bengalinha para caminhar por onde quer que fosse ‒ era muito respeitada no lugar. Ninguém reclamava dela.

A exclamação apareceu calçada com seu saltinho alto. Muito magrinha, alta e elegante, teve alguma dificuldade quando lhe pediram para pular para a linha de baixo. Era quase um salto mortal. A letra A, que estava por perto, teve até que dar-lhe um empurrãozinho. E ela quase formava uma entrelinha vaga, não tivesse se enganchado no anzol do S que estava logo ali também. Ela não queria se fazer de esnobe. Não era charme. Era apenas o seu jeitão, coitada. Até que ela era legal! Só não gostava muito das freqüentes insinuações que a letra i (a minúscula) lhe fazia sempre que a encontrava. Ao contrário do que dizia o i, ela não andava de cabeça pra baixo. E como o i ainda era uma criança, minúscula que era, não provocava reação mais violenta.

A turma não gostava muito era da dona Vírgula, sempre se intrometendo nas conversas, interrompendo os outros. Fazia isso a toda hora e até sem necessidade. Pior que ela, só mesmo seu irmão mais velho, o ponto e vírgula. Esse era de desanimar qualquer um.

Enluminure B 1Aquela confraternização seria de grande utilidade para as vogais, que não viam com bons olhos os acentos. A nenhum deles. Tanto os agudos, quanto os graves, os circunflexos e até mesmo o simples til. Sentiam-se incomodadas. Diziam que os acentos eram perfeitos parasitas que se apoiavam nelas sempre e com sérias intenções de modificar seu caráter. Não deixavam que elas fossem quem elas realmente eram. Não se davam realmente muito bem. Para os acentos a idéia da confraternização pareceu muito boa.

Todos pararam de conversar quando chegaram os dois pontos. Egocêntricos, sempre exigiam a atenção de quem quer que fosse. Mania de querer explicar alguma coisa. Todos paravam para ouvir. Sabiam que, depois deles, sempre vinha alguma coisa.

A reunião estava boa, juntou todos num mesmo local. De A a Z. Até o asterisco, que compareceu à festa todo despenteado. O q e o p minúsculos permaneceram um de costas para o outro, dado ainda não contarem com a maturidade das letras maiúsculas. Falando nisso, o Q ficou a maior parte do tempo procurando pelo U. Sinal de alta insegurança.

De repente, tudo terminou. Não teve jeito de seguir em frente. Nem mesmo com a intervenção (de pura boa vontade) do parágrafo, tentando dar um tempo e começar tudo de novo. Foi só aparecer o ponto final e aí sim: acabou-se a reunião. Pronto. Ponto final.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

O comandado

José Horta Manzano

Por mais que a seleção brasileira de futebol conte com estrelas de renome planetário, quem seleciona e convoca jogadores é o técnico. Cabe a ele, pelo menos em princípio, orientar a equipe, formular a estratégia de cada partida, incentivar a turma.

O técnico, sobre o qual pesa enorme responsabilidade, se esforça para exercer comando sobre a Seleção.

Chamada do Estadão, 11 nov° 2016

Chamada do Estadão, 11 nov° 2016

Como todos os demais jornais, o Estadão publicou artigo sobre o clássico Brasil x Argentina, disputado ontem no Mineirão. No entanto, o subtítulo desorienta o leitor. Dá recado trocado. Diz o contrário do que tencionava dizer.

De fato, informa que o festejado técnico está sendo comandado pela equipe. Estranha situação. Levada a sério, a frase conta que quem dá as ordens é a Seleção e que o orientador está sob seu comando. Trocaram os pés pelas mãos.

Deveria estar escrito que o «técnico emplaca cinco vitórias no comando». Pelo menos, é o que se imagina.

O alfaiate

José Horta Manzano

Alfaiate 2Muitos anos atrás, meu professor de Inglês contava uma história que, nos garantia ele, era verídica. Um alfaiate português tinha acabado de estabelecer-se em Londres. Máquina de costura, tesourões, moldes, manequins e todos os petrechos comprados, abriu a portinha.

No frontispício, mandou pintar seu próprio nome: «PAIVA Taylor» – Alfaiataria Paiva. O primeiro cliente entrou e já soltou logo um gentil «Good morning, Mister Paiva!». Só que, seguindo hábitos da escrita inglesa, ele pronunciava “Mister Pêiva”. A partir daquele dia, todos os clientes – sem exceção – chamaram seu Paiva de Pêiva.

O alfaiate, cujo conhecimento de inglês ainda era incipiente, ficou sem entender por quê. Ao fim de alguns dias, rendeu-se ao que lhe pareceu evidente: os ingleses preferem assim.

Mandou chamar o letrista e encomendou nova placa. ‘Agora vai sair ao gosto local’, pensou ele. Dias depois, chegou o letreiro «PEIVA Taylor». Feliz, o artesão imaginou ter resolvido o problema.

Alfaiate 1Para decepção de seu Paiva, o primeiro cliente a entrar foi logo cumprimentando: «Good morning, Mister Peiva». Só que, respeitando os códigos da língua inglesa, ele pronunciava “Mister Piva”.

O alfaiate sentiu um nó nos miolos. ‘Ó raios! O gajo há de ser analfabeto‘, pensou. O segundo, depois o terceiro, em seguida o quarto cliente confirmaram a evidência: todos chamavam seu Paiva de Piva.

Alfaiate 3Paciente e preocupado em não decepcionar a crescente clientela, ele se resignou a substituir mais uma vez o letreiro. Não demorou mais que alguns dias para ser pregada a nova placa: «PIVA Taylor». ‘Agora, vai!’ – pensou o artesão.

Dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Meia hora depois da afixação da placa, entrou o primeiro cliente. Bem educado, soltou logo um: «Good morning, Mister Piva». Para espanto do artesão, o homem tinha pronunciado Mister Paiva! O alfaiate imaginou ter ouvido mal. Mas tinha ouvido muito bem. A partir daquele dia, todos os que entraram chamaram seu Paiva de Paiva.

Seu Paiva, cujas habilidades linguísticas não são lá essas coisas, continua sem entender até hoje. Devoto de São Sebastião, acredita ter alcançado uma graça.

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PS: Não posso garantir que a história seja verdadeira. No entanto, posso asseverar que o sobrenome do professor de Inglês era… Paiva. Fora de brincadeira.

O calvário é nosso

José Horta Manzano

Sabe aqueles dias em que, ao ligar o computador, você leva um susto logo de cara? Pois hoje aconteceu.

Veja a chamada estampada pelo venerando Estadão:

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016 clique para ampliar

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016
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Este blogueiro é do tempo em que, para indicar o passado, se costumava usar o verbo haver: há dois dias, há quinze minutos, há um ano.

Ao ir-se, a doutora há de ter levado consigo a “Pátria Educadora”.

De vices e suplentes

José Horta Manzano

Em filme policial, para investigar autoria de homicídio, começa-se pela clássica pergunta: qual o móvel do crime? Quando a vítima era abastada, a desconfiança recai naturalmente sobre o(s) herdeiro(s). É natural. É sabido que a cupidez pode levar ao crime.

Convivência de anos e anos entre possuidor e herdeiro pode ser desgastante. O dono da fortuna tem a incômoda impressão de que o outro não vê a hora de enterrá-lo. O herdeiro, muita vez, se impacienta com a longevidade do outro e pode até deixar transparecer a irritação. É da vida.

Voto 1O que são vices e suplentes? Nada mais que herdeiros presuntivos do titular. Estão ali, na esquina, de tocaia, com cara de quem não quer nada. No entanto, bastou o dono do cargo dar uma brecha, e pronto: lá estão eles aboletados e donos do pedaço. A meu ver, a existência de herdeiro designado cria situação malsã, susceptível de perturbar e até envenenar as relações do dia a dia. Melhor seria que não existissem.

No caso de suplente de deputado, o problema só se desanuviará com a instituição do voto distrital. Quando (e se) for implantado esse sistema, o país será dividido em 513 distritos de população equivalente. Cada circunscrição elegerá, em dois turnos, SEU deputado. O sistema traz grandes vantagens. Cada eleitor saberá quem é o deputado que o representa. O eleito saberá quem são seus eleitores e onde se encontram. E, vantagem suplementar, a figura do suplente desaparecerá.

Caso o deputado seja impedido de continuar a exercer o mandato ‒ seja por morte, renúncia, doença, prisão ou simplesmente por ter assumido outras funções ‒, nova eleição se realizará. O voto será organizado unicamente naquele distrito. O vencedor assumirá a vaga pelo tempo que restar de mandato. Caso um prefeito (ou um governador ou até o presidente) se encontre impossibilitado de continuar no cargo, aplica-se o mesmo sistema. Vota-se de novo e escolhe-se novo titular.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

O sistema funciona, sem grandes traumas, em numerosos países. Na França, quando Georges Pompidou morreu em pleno exercício da presidência da República, novas eleições foram convocadas. Três meses mais tarde, novo presidente estava eleito para mandato integral.

Se, no Brasil, não tivéssemos vice-presidente da República, o abalo da destituição de Dilma teria incomodado menos. Caída a doutora, nova eleição teria sido convocada. Em três meses, teríamos presidente novinho em folha pronto para dar melhor rumo ao país.

Como resultado das recentes eleições para prefeito, 18 deputados federais devem abandonar o cargo para se tornar alcaides(*). Na Câmara, assumirão suplentes. Teremos assim deputados novos, desconhecidos, que sequer foram eleitos. Tem cabimento?

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Nota etimológica
A palavra alcaide vem da língua árabe. Em nossa língua, é sinônimo de prefeito. No original, significa «o guia», «o chefe da tribo». O termo é utilizado em francês coloquial, sob a forma «caïd» (pronúncia: caíd). Carrega nuance pejorativa e designa o chefe de um bando de malfeitores. No Brasil, assumiu significado menos sinistro. Se bem que…

A canoa virou

José Horta Manzano

Dois mil anos atrás, os romanos já haviam pensado em conjugar duas tecnologias de navegação. As embarcações, ancestrais de nossos atuais carros «flex» ou «bi flex», podiam ser propulsadas de duas maneiras. Quando havia vento, desfraldavam-se as velas. Quando reinava a calmaria ‒ ou também em caso de vento desfavorável ‒ um batalhão de escravos punha-se a remar freneticamente. Para aumentar a velocidade, as duas modalidades de propulsão podiam ser postas a funcionar conjuntamente.

navio-3O número elevado de tripulantes tinha seu custo. Alojar e alimentar toda aquela tropa demandava recursos. Por seu lado, a multidão era útil em caso de a nave, por algum problema de vedação, fazer água. Cada um com seu balde, os marinheiros impediam o barco de ir ao fundo.

O problema maior não vinha, portanto, de defeito de fabricação. O perigo grande era a embarcação de madeira chocar-se contra escolhos. Aí, não havia balde que resolvesse. Quando a madeira batia com força em pedra, não havia como escapar: o barco se quebrava, se partia em dois e afundava.

Está aí a origem da palavra latina naufragium, que corresponde a nosso naufrágio. É evolução de navifragium, de navis (barco) e fragium (da raiz frangere). Frangere, que significa justamente partir ou quebrar, deu vários filhotes em nossa língua: fratura, fragmento, frágil, sufrágio. E, naturalmente, naufrágio.

No naufrágio romano, a nave ia necessariamente ao fundo. Quebrada, não tinha como escapar a seu triste destino. Dois mil anos mais tarde, embarcações continuam naufragando, ainda que nem sempre se partam ao meio.

Chamada do Estadão, 30 out° 2016

Chamada do Estadão, 30 out° 2016

Um barco fretado pela Justiça Eleitoral sofreu um acidente no norte do país. A mídia publicou a impressionante imagem da embarcação sinistrada. Disseram que o barco afundou. Erraram. Como o nome indica, afundar é ir ao fundo. Não foi o que aconteceu.

Vamos ressuscitar palavras pouco usadas? Se são úteis e dão bom recado, por que não? Para descrever a cena do acidente, o jornalista teria sido mais feliz se tivesse dito que o barco virou ou que se deitou. Podia também valer-se do verbo tombar. Para ser mais explícito, o jornalista poderia até ter dito que o barco encalhou e tombou. Outra opção teria sido a palavra adernar.

Tem mais uma: soçobrar(*). Diga-se, a bem da verdade, que soçobrar significa virar de ponta-cabeça, que não foi exatamente o que aconteceu com nossa embarcação. Seja como for, não convém anunciar que afundou. Não afundou.

Interligne 18cNota etimológica
Soçobrar vem do catalão sotsobrar. Lá pelas bandas de Barcelona, para dizer que algo está de cabeça pra baixo, dizem sotsobre ‒ literalmente «sob-sobre». O italiano se vale da mesma imagem: sottosopra.

Por culpa do pastel

José Horta Manzano

Especialistas nas artes da mesa, os franceses são bastante rigorosos ao denominar as diversas variedades de alimentos. Cada tipo de comida tem seu nome e ai de quem confundir: simplesmente não será compreendido.

Produtos de boulangerie francesa

Produtos de boulangerie francesa

Meus distintos e cultos leitores certamente já ouviram falar de Marie-Antoinette, esposa de Luís XVI, a última e infeliz rainha da França. No auge da balbúrdia engendrada pela Revolução Francesa, ambos terminaram seus dias na guilhotina. Importada da Áustria, a desaventurada rainha nunca foi bem aceita pelos franceses. Carregava fama de frívola e era desdenhosamente conhecida como «a estrangeira». Não que ela fosse muito diferente da nobreza de sua época. Vivia e agia de acordo com os costumes vigentes. Naqueles tempos, não havia Constituição, o que tornava o poder do rei absoluto. Governar resumia-se a pouco mais que coletar impostos. Imerso em miséria feia, o povão se virava como podia.

Produtos de confiserie francesa

Produtos de confiserie francesa

Quando de uma manifestação de revolta popular causada pela fome, a rainha teria indagado o que é que estava acontecendo. Explicaram-lhe que o povo reclamava porque não tinha pão. Dizem as más línguas que Marie-Antoinette teria retrucado: «Não têm pão? Ora, que comam brioches!» Pessoalmente, não acredito que o diálogo tenha realmente ocorrido. Há de ser intriga da oposição. No entanto, dá bom exemplo do fosso profundo que separava o povão dos nobres. Estes últimos, todo-poderosos, eram de fato os donos do país.

Briche - produto de patisserie francesa

Brioche – produto de pâtisserie francesa

Voltando à culinária francesa, é bom explicar que as artes em que a farinha de trigo entra como ingrediente principal se subdividem em três ramos principais: a boulangerie (padaria), a confiserie (confeitaria) e a pâtisserie (pastelaria). Urge dizer que esta última especialidade, a pâtisserie, é de difícil tradução em português do Brasil. Na verdade, nosso pastel, especialidade desconhecida na França, ocupou o espaço semântico. No Brasil, pastelaria é comércio especializado em vender pastéis. Traduzir pâtisserie ficou complicado. Em Portugal, onde nosso pastel é apenas curiosidade exótica, as pastelarias são lojas que correspondem exatamente às pâtisseries francesas.

Qual a diferença entre os três ramos que utilizam a farinha como matéria-prima principal? O boulanger (=padeiro) faz pão. O produto pode ser pequenino, enorme, comprido, massudo, redondo, macio, cascudo, escuro, com cereais, quadrado, torcido, com isto, com aquilo. Cada padaria tem especialidades próprias.

Croissant - produto de pâtisserie francesa

Croissant – produto de pâtisserie francesa

O confisier (=confeiteiro) especializa-se em doce confeitado. É frequente o uso de chocolate nas composições. Bala, bombom, caramelo e puxa-puxa, embora não levem farinha, são especialidades de confeiteiro.

E o pâtissier (=pasteleiro) fabrica especialidades em que farinha e açúcar assumem papel importante. Bolo, croissant e brioche(*) são artigos emblemáticos. Tortas, roscas e pães doces também são produtos de pâtisserie. Muitas vezes, o profissional utiliza massa folhada.

Toucinho do céu - especialidade portuguesa

Toucinho do céu – especialidade portuguesa

Se estiver de visita a Portugal e vir uma pastelaria, não peça pastel de carne nem de pizza, que não vai encontrar. Opte por pastéis de nata, de Santa Clara ou de Belém. Pode também experimentar um toucinho do céu ‒ vai adorar.

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(*) Diferentemente do que acontece em português, brioche é palavra feminina em francês.

Questão de gênero

José Horta Manzano

A Petrobrás, a General Motors, a Honda, a Amazon, a L’Oréal, a Gazprom, a Unilever, a Boeing, a Vale, a Samsung, a Nestlé, a Bayer.

Em nossa língua, como pode o distinto leitor constatar, todo nome de grande empresa ‒ seja de que origem for ‒ costuma ser posto no feminino.

Sexo 1Exceções são muito raras. À vista d’olhos, só encontrei duas: o Google e o Facebook. Por que será? Há de ser porque, antes de serem vistos como empresas, esses nomes designavam aplicação informática.

Seja como for, o gênero veio pra ficar. É difícil imaginar dizer um dia «a Facebook dispensou mil e duzentos funcionários» ou «comprei ações da Google». 

A cunha

José Horta Manzano

De tão acostumados que estamos a ouvi-los, nem sempre nos damos conta de que grande quantidade de sobrenomes têm significado. São palavras que, antes de se terem tornado nome de família, designavam objetos ou outras coisas da vida real. É o caso de Azeredo, Ramos, Andrade, Almeida, Oliveira e tantos outros. Cunha entra nessa lista.

cunha-1Para abater tronco de árvore ou para cortá-los em pedaços menores, os antigos usavam o machado. Para espedaçar porções menores de madeira, usava-se uma cunha, que os latinos chamavam cŭneus. A palavra se espalhou pelas línguas romances. Cùneo ou cònio em italiano, coin em francês, cuny em catalão, cuña em castelhano. Todas as versões se referem ao mesmo objeto.

A cunha é, por definição, um objeto estranho que se insere num meio relativamente uniforme. Não foi concebido para unir, mas para desirmanar. Há casos cômicos de gente cujo nome destoa. É o que ocorre com a morena chamada Clara, com o medroso chamado Valente, com o cabeludo de nome Calvo, com o ateu chamado Cristiano. Está parecendo que é também o caso de senhor Cunha, aquele antigo parlamentar que foi ontem convidado a passar uma temporada em Curitiba.

Num percurso assaz errático, esse senhor alternou momentos em que atraiu a simpatia de paramentares (e do Brasil inteiro) com tempos em que fez jus a seu sobrenome: tornou-se verdadeira ameaça de dividir seus pares entre «os de lá» e «os de cá».

cunha-2Deixo a análise política para especialistas, que os há de montão. Para encerrar, só gostaria de deixar aqui meu palpite. Tenho a impressão de que, no caso do ex-parlamentar preso, não haverá delação premiada. Não que senhor Cunha não a proponha ‒ os juízes é que perigam não estar interessados. Explico.

Em primeiro lugar, eventual delação envolveria um mundaréu de gente tão grande que poderia ser contraproducente aceitá-la. Quando dúzias e dúzias de parlamentares estão sob suspeita, o impacto se dissipa e socializa a culpa. Não interessa a ninguém prolongar ad aeternum a purga engendrada pela Lava a Jato.

Em segundo lugar, delação premiada costuma resultar em diminuição drástica da pena. No presente caso, dado que o parlamentar caído nunca hesitou em zombar da Justiça nem em desafiá-la, a imposição de pena longuíssima seria um preventivo, um meio de evitar que aventureiros pudessem ter a (má) ideia de retomar a “obra” iniciada pelo ex-deputado.

Mandrake e arrego

José Horta Manzano

De criança, a gente não gastava horas diante de video games. Não que faltasse vontade, é que simplesmente essas engenhocas não existiam. Brincadeiras não vinham feitas, exigiam maior criatividade dos participantes. Um exemplo era o Mandrake Licença. Mandrake era personagem de história em quadrinhos, um herói de capa e bastão, que tirava coisas incríveis da cartola.

De repente, um menino se dirigia a outro e ordenava: «Mandrake, licença!» Seguindo a regra da brincadeira, o outro tinha de permanecer imóvel, na posição em que se encontrasse, sem mexer um músculo. Tinha de continuar estático por alguns instantes até que o mandante o liberasse pronunciando «Licença!». Pronto estava acabada a brincadeira. Sem graça? Visto de hoje, é. Mas que a gente se divertia, ah!, a gente se divertia.

mandrake-1E quando a gente brincava de brigar, então? Dois se atracavam, até que um dos dois agarrasse o outro pelo pescoço e lhe aplicasse uma gravata, golpe supremo. Vendo-se vencido, o «engravatado» pedia arrego.

Arrego, tudo indica, é corruptela do castelhano arreglo, palavra que nos chegou mui provavelmente por via do lunfardo falado nas bordas do Rio da Prata. Na língua espanhola, a expressão é mais comum e mais usada que entre nós. Deriva de regla ‒ regra. Arreglar é ajustar, consertar, modificar algo para respeitar a regra. Assim, arreglo corresponde a nosso acerto.

Estive lendo que investigadores da Lava a Jato apresentaram proposta de delação premiada ao clã Odebrecht, o que desencadeou maratona de confabulações entre os que têm algo a contar e respectivos advogados. Segundo a Folha e o Estadão, uma ala de um grande hotel de Brasília foi reservada especialmente para acolher o mundaréu de participantes do conclave.

gravata-1Não sendo especialista em processo penal, muito menos em mecanismos de delação, posso não ter entendido bem. Todavia, dizem os jornalistas que foram os investigadores a apresentar proposta ‒ envelope fechado, parece ‒ já com definição de pena ao acusado principal, o herdeiro do império Odebrecht. Achei esquisito.

Em primeiro lugar, na minha ingenuidade, imaginava que coubesse ao «engravatado» pedir arrego, não ao «engravatador» oferecê-lo. Em segundo lugar, a mesma ingenuidade me levava a crer que tocasse à parte ameaçada tomar a iniciativa.

Acreditava que competia aos acusados procurar os investigadores, dar uma ideia das informações e das provas de que dispõem e comprometer-se a contar tudo, absolutamente tudo. Só após análise dos dados é que a acusação aceitaria (ou não) a proposta de delação. Quanto ao grau de atenuação da pena, é discussão que deveria ficar para mais adiante. O «engravatador» deve manter-se sempre senhor da situação.

Parece que estão trocando os pés pelas mãos. Mas devo ter entendido errado. «Mandrake, licença!»

A palavra alheia

José Horta Manzano

Quando a aparência física de um ator está bastante próxima do personagem que ele representa, os franceses dizem que o artista tem «le physique du rôle» ‒ o físico do papel.

Não tive o prazer de conhecer o novo porta-voz do governo, mas posso, desde já, constatar que ele tem «le nom du rôle» ‒ o sobrenome adequado para o papel que deve exercer. Para quem tem por função carregar a palavra alheia no bolso do paletó, difícil será encontrar nome mais apropriado.

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Parola é a forma moderna que os italianos usam para dizer palavra. Parole (francês) e paraula (catalão) são irmãs gêmeas. Todos correspondem ao latim clássico parabola, que desembocou, na Idade Média, no verbo parabolare, enquanto o latim clássico preferia loqui.

As duas formas foram produtivas em português. Loqui deu locução, locutor, eloquente, colóquio e tantas outras. Parabolare acabou gerando palavra, parlamento, parlatório, palra. Também é raiz de nosso falar.

Votos de sucesso ao senhor Parola, o bem nomeado!

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PS: Ter um senhor Parola como porta-voz corresponde a ter um hipotético senhor Leão como fiscal da Receita.