O latim, sempre atual

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro foi escolhido para cuidar do Brasil e dos brasileiros. Saído do baixo clero do parlamento, não entendeu até hoje a mudança de patamar.

Pardus maculas non deponit
Leopardo não perde as manchas

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Por desgraça, é inimigo do saber. Se faltasse uma prova, acaba de permitir que um ministro seu proponha a cobrança de imposto sobre venda de livros, algo nunca visto antes.

Qui pauca legit, pauca scit
Quem pouco lê pouco sabe

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Passou um tempo em jejum, sem a companhia dos colegas baixo-clérigos. Depois de um ano, não resistiu. Sorriu para o Centrão e voltou a abraçar os antigos companheiros.

Ex aurea etiam sede in paludem rana resilit
Até de um trono dourado, a rã pula sempre de volta ao pântano

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Medroso, permite que os filhos e o entourage fabriquem e difundam dossiês e notícias falsas sobre adversários, sistematicamente elevados à categoria de inimigos.

Timendi causa est nescire
A causa do medo é a ignorância

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Costuma se esquecer da igualdade de todos, prometida pela Constituição.

Nemo est supra leges
Ninguém está acima da lei

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E pensar que, se agisse corretamente, nunca teria problemas.

Recte faciendo securus
Agir corretamente não traz preocupações

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Ao declarar: “Não sou coveiro”, “Todo o mundo tem de morrer”, “E daí?”, mostra total falta de empatia (pra não dizer total presença de antipatia) para com o povo que o elegeu. Nem bichos selvagens procedem assim.

Nutrit et accipiter pullos suos
Até o falcão alimenta seus filhotes

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Melhor faria se meditasse sobre a transitoriedade de tudo.

Omnia transibunt! Sic ibimus, ibitis, ibunt
Tudo há de passar! Passaremos, passareis, passarão.

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Publicado também no site Chumbo Gordo.

Meritocracia

José Horta Manzano

O Houaiss contém o verbete meritocracia e data seu aparecimento de 1958. Nestes tempos de fake news circulando rápido, não se verifica mais origem e autenticidade da informação. Este blogueiro, que guardou hábitos antigos, costuma verificar. Até o venerando Houaiss, que é considerado o nec plus ultra dos dicionários de nossa língua, tem de passar pelo filtro. Checar é prática útil: pode diminuir a velocidade do trabalho, mas é blindagem contra notícias falsas.

Fui procurar, na hemeroteca(*) da Biblioteca Nacional, se não havia mesmo registro da palavra meritocracia anterior a 1958. Havia. O substantivo é mencionado no Jornal do Brasil (RJ) em 1934, no Diário de Notícias (RJ) em 1931, n’O Jornal (RJ) em 1929 e no Jornal do Commercio (RJ) em 1928. O pesquisador do Houaiss havia de estar apressado.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

(*) Hemeroteca
É palavra que entrou na língua por via culta. É formada pelas raízes gregas heméra (=dia ) + teca (=lugar onde se guarda). Indica o lugar onde se conservam as coleções de jornais.

Hemer(o) entra na composição de numerosos termos técnicos e científicos como hemeropatia (doença que dura apenas um dia), hemerobatista (membro de uma seita cristã que reiterava o batismo todos os dias), hemeróbio (inseto cuja curta existência não ultrapassa um dia).

Teca é velho conhecido nosso. Aparece em termos que indicam o lugar onde se guarda uma coleção qualquer: biblioteca (livros), filmoteca (filmes), discoteca (discos), datilioteca (anéis), mapoteca (mapas), e por aí vai.

A Biblioteca Nacional mantém uma preciosa hemeroteca, com a versão digitalizada de praticamente todos os jornais publicados no Brasil, desde o primeirão, de 1808. Ainda não estão lá aqueles que seguem sendo publicados.

Pra finalizar
Embora o som de hemeroteca e de meritocracia guarde certa semelhança, as duas raízes não se conhecem nem de elevador. A primeira vem do grego, enquanto a segunda vem do latim.

Implicar: regência

Dad Squarisi (*)

O verbo implicar tem três empregos. Em dois, ninguém tem dúvida. Na acepção de ter implicância, pede a preposição com:

• O diretor implicou com ele.

Na de comprometer, envolver, é a vez do em:

• A secretária implicou o chefe no escândalo.

A dúvida surge no significado de produzir consequência. Aí, implicar implica e complica. O verbo parece, mas não é. No sentido de acarretar consequências, o malandro é transitivo direto. Não suporta a preposição em:

• Autonomia também implica responsabilidade.

• Deflação implica recessão.

• Aumento da taxa de juros implica crescimento do deficit público.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

Colocações

Sérgio Rodrigues (*)

No Brasil, adoramos colocar. Houve um tempo em que púnhamos com mais frequência, para não mencionar todas as ocasiões em que botávamos. Por razões que será preciso investigar melhor, hoje preferimos colocar. E como colocamos!

Ano passado, na mesma semana, lemos na Folha que uma cabeçada de Everton Ribeiro “colocou Cássio para trabalhar”, que “a China colocou a culpa dos protestos (de 1989) nos contra-revolucionários” e que Jean Wyllys anunciou medidas contra “a mentira abjeta que colocou nossas vidas em risco”.

São só três ocorrências, entre as incontáveis que nos cercam, em que o arrivista colocar rouba o posto de trabalho de colegas como pôr, botar, meter, pousar, depositar, atribuir, aplicar etc.

Seria absurdo dizer que aquelas frases estão erradas. Contudo, em sua política expansionista, colocar provoca um estrago vocabular equivalente ao do desmatamento de um belo naco da Amazônia.

Não há muito a fazer. É um fato linguístico banal uma notícia como “Homem coloca fogo na própria casa”. Verdade que, a olhos mais cevados na tradição, o fogo, com sua imaterialidade feroz, é um parceiro desajeitado de colocar, verbo a princípio mais técnico.

Acontece que o uso detém a última palavra, as opções coletivas sempre acabam por vencer – cartilhas e ouvidos delicados que se adaptem, ora. A banda toca essa música há séculos. Mesmo assim, é saudável ficar atento a abusos.

 

Coloquei!

Já foi pior. Nossa compulsão colocadora tornou epidêmico, nas últimas décadas do século 20, um vício nascido na linguagem universitária: aquele em que o verbo é (ou era) usado como sinônimo de dizer, sustentar, argumentar: “Entendo a sua colocação, mas gostaria de colocar que…”

Essa praga, se não passou, arrefeceu bastante. No entanto, quando hoje as galinhas optam por colocar ovos e a gente se dá conta de que, se fosse criado neste século, o bairro carioca de Botafogo se chamaria Colocafogo – nesse momento vale a pena parar e pensar.

Vindo do latim “collocare”, isto é, “cum + locare”, pôr em determinado local, colocar é uma palavra nascida no século 15, quando a língua portuguesa se sofisticava. Sinônimo de pôr, botar e meter, estas do século 13 e mais próximas das raízes orais do idioma, representava uma espécie de gentrificação linguística.

Pelo menos a princípio, era um termo mais fino, de maior precisão no onde e no como. O “chute colocado” da linguagem futebolística traduz bem essa ideia. Qual força, então, acabou por fazer de colocar esse irresistível genérico de massa?

A resposta que eu queria deixar como hipótese é: aquela ânsia mal-orientada de formalidade e apuro, quando não de pompa e pedantismo, que é uma marca da cultura brasileira.

Nossa inclinação coletiva pelo termo que parece mais erudito, menos popular, e que portanto imaginamos mais correto e bacana, tem prestado maus serviços à língua. O modismo do verbo possuir empregado indiscriminadamente no lugar de ter é o exemplo clássico.

Há anos temos lido e ouvido, no Brasil, que pessoas possuem resfriados, dúvidas, dores de cabeça, um picolé – como se tais coisas contingentes e fortuitas estivessem inscritas em seu corpo ou lavradas em escritura no cofre de sua casa.

É uma impropriedade vocabular e tanto, diante da qual o mais novidadeiro uso de colocar parece saído de uma página de Machado de Assis. Mas neste momento fica claro que o assunto é amplo demais para ser colocado por inteiro aqui.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Taj Mahal

José Horta Manzano

– Puxa, você desapareceu, hein! Tomou chá de sumiço?

– É, andei sumido sim.

– E o que é que andou fazendo?

– Tirei férias e fiz uma longa viagem. Passei anos economizando pra poder realizar meu sonho: uma viagem à Índia. Pode até parecer presunçoso, mas é que eu tinha muita vontade. Resolvi assumir.

– Índia? Fazer o quê? Visitar o Taj Mahal?

– Exatamente! Desde criança, aquele palácio de mármore me fascinou. Quando o assunto era viagem, sempre me vinha à mente aquele suntuoso palácio. Tem gente que prefere Miami; eu optei pela Índia. Meu sonho de consumo agora está consumado.

– Presumo que tenha custado uma fortuna?

– Isso lá é verdade. Escolhi viajar em agosto, no feriado da Assunção, que sai mais barato. Contando o transporte, o alojamento e as refeições, o total é elevado. Resumindo: saiu uma pequena fortuna. Mas agora estou de volta. Segunda-feira que vem, reassumo na repartição. Com a lembrança do curry (do qual sou grande consumidor) e do palácio de mármore.

– Se você for dar outra sumida, avise antes!

Historinha meio boba, né? Foi só um pretexto pra mostrar um fenômeno interessante que se repete vinte vezes por dia sem a gente se dar conta. Sem perceber, usamos palavras da mesma família: descendentes, primas, irmãs até.

De propósito, escolhi uma baciada de descendentes do verbo latino sumere. Na origem, tem o significado de tomar, agarrar. Esse verbo desapareceu em francês e italiano, mas sobrevive nas línguas ibéricas (catalão, espanhol e português). Já seus compostos, mais estáveis, encontram-se não só em todas as línguas latinas, mas também em inglês.

Abaixo vai o mesmo texto. Desta vez, sublinho os membros da mesma família.

– Puxa, você desapareceu, hein! Tomou chá de sumiço?

– É, andei sumido sim.

– E o que é que andou fazendo?

– Tirei férias e fiz uma longa viagem. Passei anos economizando pra poder realizar meu sonho: uma viagem à Índia. Pode até parecer presunçoso, mas é que eu tinha muita vontade. Resolvi assumir.

– Índia? Fazer o quê? Visitar o Taj Mahal?

– Exatamente! Desde criança, aquele palácio de mármore me fascinou. Quando o assunto era viagem, sempre me vinha à mente aquele suntuoso palácio. Tem gente que prefere Miami; eu optei pela Índia. Meu sonho de consumo agora está consumado.

Presumo que tenha custado uma fortuna?

– Isso lá é verdade. Escolhi viajar em agosto, no feriado da Assunção, que sai mais barato. Contando o transporte, o alojamento e as refeições, o total é elevado. Resumindo: saiu uma pequena fortuna. Mas agora estou de volta. Segunda-feira que vem, reassumo na repartição. Com a lembrança do curry (do qual sou grande consumidor) e do palácio de mármore.

– Se você for dar outra sumida, avise antes!

Extremamente medíocre

José Horta Manzano

A todo momento se ouve comentar que tal coisa ou tal pessoa é «extremamente medíocre». Verdade ou não? No entanto, considerando a filiação da palavra medíocre, a expressão não faz sentido.

Em latim, o termo já era usado com a mesma forma (mediòcris), talvez sem a carga pejorativa que lhe atribuímos. Designava simplesmente quem ou aquele que estava no meio, entre os extremos, entre o muito e o pouco, o bom e o mau, o pequeno e o grande.

A origem é medius (=o meio). Do que está no meio, diz-se medíocre. Nas demais línguas que utilizam a mesma raiz, o termo não é pejorativo como em português. Na pior das hipóteses, a carga pejorativa é leve, nunca pesada como em nossa língua.

by Joe Di Chiarro, desenhista americano

Resumindo, se algo está no meio, está longe dos extremos. Chamar a essa posição “extremamente medíocre” tem ares de contrassenso. A palavra medíocre dispensa qualificativos. Algo (ou alguém) é medíocre; não precisa acrescentar nada. Significa que não é bom nem ruim.

Em rigor, a máxima latina ‘virtus in medio’ (= a virtude está no meio) poderia ser traduzida por ‘a virtude é medíocre’. Estou brincando, distinto leitor. É melhor não traduzir assim. Havia de pegar mal à beça…

Pegar mal? Sei não. Com o copioso e persistente exemplo que nos vem atualmente do andar de cima, vamos acabar nos convencendo de que a mediocridade virou virtude.

Curiosidade 1
Tanto em latim quanto nas línguas da Europa ocidental (francês, alemão, italiano, inglês, espanhol, sueco) a palavra é paroxítona, com acento no ó (mediócre/mediôker). Em nossa língua, a tônica pulou uma sílaba pra trás. Sem dúvida, ficou com jeitão mais culto.

Curiosidade 2
Na liturgia católica, a depender do momento do ofício, há três graus de curvatura do tronco na hora de prestar vênia: a pequena reverência, a média e a profunda. Em italiano, a reverência média se diz “inchino mediocre” (=inclinação medíocre). Sem um pingo de sentido pejorativo.

A luva

José Horta Manzano

No ano de 1967, este escriba estava na Suécia para alguns meses de trabalho. Tendo deixado o ninho pouco tempo antes, o conhecimento das coisas da vida ainda era escasso. A experiência de usos e costumes europeus, então, não dava nem para o gasto.

Certa feita, eu caminhava por uma rua residencial. Algumas casas eram de madeira, outras de alvenaria, mas todas tinham um jardinzinho. A maioria das janelas não tinha veneziana nem cortina, a indicar que os moradores não se incomodavam de ser observados por quem passasse pela rua. Acho até que ninguém, além de mim, havia de prestar atenção ao que ocorria dentro das casas.

Alguns jardins eram delimitados por uma cerca viva baixinha, plantada junto à rua. De repente, enxergo uma luva dormindo no topo de uma cerca viva podada rentinho. Não era um par de luvas, era uma só. Conjecturando o que é que aquela peça de vestuário estava fazendo ali, mostrei a quem me acompanhava.

A explicação veio na hora. Tratava-se certamente de uma luva que algum passante tinha deixado cair sem se dar conta. Quem veio atrás, ao encontrar o objeto e sem saber a quem pertencia, apanhou-o do chão e pousou-o em cima da cerca. Quando se desse conta do ocorrido, o dono da luva provavelmente refaria o percurso; e acabaria encontrando o objeto perdido.

Foi uma de minhas primeiras surpresas na Europa. Muitas viriam mais tarde, mas essa marcou. Tanto é verdade, que, passado tanto tempo, me lembro ainda. Na hora, fiquei imaginando que, fosse na minha terra, não viria à cabeça do dono da luva refazer o caminho pra buscar o objeto perdido. Ainda que, esperançoso, refizesse o percurso, a luvinha teria desaparecido antes de ele chegar.

Luva – etimologia
Os dicionários informam que luva é palavra de origem gótica. (O gótico era um dialeto germânico, falado pelos godos.) Na origem, a palavra designava a palma da mão.

Na difusão desse nome entre as línguas da Europa ocidental, deu-se um fenômeno interessante e pouco comum. As línguas latinas – italiano, francês, catalão, espanhol – adotaram filhotes da mesma palavra para designar esse objeto: guanto / gant / guant / guante. O termo também é germânico, só que oriundo de outro dialeto, o frâncico, falado pelos francos. (É o povo que deu origem ao nome da França.) Todas as línguas irmãs foram por um lado, só o português é que foi por outro.

Note-se outra curiosidade: luva é da mesma família do inglês glove.

Engraçado mesmo é o termo que alemães e escandinavos usam para dar nome à luva. Em alemão, é Handschuh, literalmente: sapato de mão. Sueco, dinamarquês e norueguês usam a mesma imagem.

Pra finalizar, note-se mais um fato interessante. É verdade que, divergindo das línguas irmãs, demos preferência a luva. Mas a raiz guanto / gant / guant / guante não foi banida de nossa língua. Está presente na nossa fala de todos os dias, sim, senhor! O digno representante é o verbo aguentar, descendente da mesma fonte. De fato, traduz a ideia de ‘aferrar, tomar um objeto com violência e agarrar forte’.

Dois sustos

José Horta Manzano

Você sabia?

Primeiro susto
Se alguém, na França, lhe propuser visitar uma maison troglodytecasa troglodita, o distinto leitor não deve se assustar. Não imagine que o cicerone vá conduzi-lo a lugar não recomendável a pessoas de boa família.

Troglodita 3

A língua francesa atual reserva o adjetivo troglodita para construções – em geral habitáveis, mas não necessariamente – que têm a particularidade de serem escavadas no flanco de parede rochosa. Corresponde ao que, na Espanha, chamam cueva. Têm a particularidade de manter temperatura constante ao longo do ano.

Troglodita 2

Ideal para os sem-teto medievais, abrigos desse tipo vêm sendo aproveitados para acolher turistas em busca de alojamento fora do corriqueiro. Quando bem ajeitadas, as casas trogloditas podem exibir charme incomum.

Na Idade Média, até castelos trogloditas foram construídos. Em vales estreitos, o aproveitamento da parede rochosa fazia ganhar espaço. Era prático: os fundos do imóvel já estavam prontos, só faltava construir a frente. Duro mesmo devia ser a escavação no muque para acrescentar um cômodo, quando a família crescia.

Segundo susto
Falando ainda da França, se alguém se apresentar como personne ordinairepessoa ordinária, não tome isso como sincericídio de criminoso. No francês de hoje, tudo o que não for extraordinário é ordinário. Portanto, ordinário significa comum, corriqueiro, usual. A pessoa que se qualifica como ordinária está simplesmente informando que é pessoa comum, sem atributos especiais.

Croissant 1

Se você entrar, por exemplo, numa boulangerie e pedir um croissant, virá a pergunta incontornável: beurre ou ordinaire? – de manteiga ou comum? Encomende o que lhe apetecer. No entanto, gordura por gordura, mais vale ficar com o de manteiga. Já que o destino é engordar, que seja com mais gosto.

Cujus regio

José Horta Manzano

A lei é conquista do homem civilizado. Justa ou nem tanto, é um guia, o corrimão seguro ao qual nos agarramos para seguir caminho.

Quando a humanidade ainda se encontrava em estágio civilizatório menos avançado, o universo legal era refletido pela máxima latina “Cujus regio, eius religio”, que pode ser adaptada por “Como for o príncipe, tal será a religião”. Em outros termos, a religião (e a lei) do governante eram automaticamente impostas aos súditos. Numa boa, sem contestação possível.

Aliás, em muitas regiões do globo, esse princípio de submissão automática ainda vigora. Até em nossa terra, não faz muito tempo, a lei não era igual para todos, mas flutuava conforme o réu.

Essa prática de imposição da vontade do príncipe é típica de ditaduras, se bem que resquícios desse tratamento desigual sempre sobrevivem na prática de países democráticos. Mas essa já é outra história. Por enquanto, vamos nos agarrando ao corrimão que está aí. É o que temos.

Observação
O fato de o lulopetismo ter escorregado fora das margens da lei ao caucionar a ladroagem pode ser descrito como derivação, um efeito colateral da ignorância e da permissividade do rei. Com Bolsonaro, o quadro é outro. Temos hoje o afrontamento sistemático e permanente da lei elevado ao patamar de política de governo.

O preço está caro?

José Horta Manzano

“Nessa base, dificilmente os articuladores governistas conseguirão evitar mais derrotas, porque as juras de apoio dos adeptos do toma lá dá cá são esquecidas assim que os ventos mudam – e, quanto pior a crise, mais caro será o preço do governismo.”

O trecho é citação de um dos editoriais do Estadão desta quarta-feira. Equilibrado e bem costurado, não há que contradizer: assino embaixo. O que me incomoda é o uso do adjetivo caro como modificador do substantivo preço.

Noto aí uma impropriedade – aliás, bastante comum. É daquelas esquisitices que costumam passar em branco e que só alguém muito chato consegue notar. Bem, o chato está aqui. Hello!

Caro/barato são conceitos subjetivos. O artigo que João acha caro pode até parecer barato para Pedro.

Preço não é noção subjetiva e não envolve julgamento de valor. O preço que João lê na etiqueta é exatamente o mesmo que Pedro lê. Preço não é caro nem barato; preço é preço, o valor do artigo. O artigo pode ser considerado caro ou barato – o preço, não.

by Martine ‘Althéia’ Vinsot, artista francesa

Voltando à citação do Estadão, ficaria melhor assim:

“… quanto pior a crise, mais elevado será o preço do governismo.”

“… quanto pior a crise, mais caro será o governismo.”

Viram? Se aparece a palavra preço, some o adjetivo caro; se aparece o adjetivo caro, some a palavra preço. Pôr os dois juntos é briga na certa.

Se você disser ao feirante: “Ô, seu Manuel, o preço do tomate está caro hoje, hein!”, não tem importância nenhuma. Seu Manuel não vai fazer cara feia. Em linguagem descompromissada, isso (e muito mais) é permitido. Já num editorial de jornal sério, não fica bem.

Seita

José Horta Manzano

Não se assuste o distinto leitor com o palavrão que vem a seguir. É o nome de uma língua: o protoindo-europeu. Bem, não é exatamente uma língua no sentido que damos habitualmente a essa palavra – um falar homogêneo usado por um povo como meio de comunicação. É, antes, uma criação hipotética, uma reconstrução feita ‘de trás pra diante’. Num trabalho de paciência beneditina, a partir de palavras existentes em línguas modernas aparentadas, linguistas procuram encontrar o tronco, o ancestral comum. Palavra por palavra, vai-se recompondo a língua-mãe.

Pronto, não me estendo mais. Minha intenção não é ministrar curso de linguística. Só queria que ninguém ficasse assustado com o nome do antepassado longínquo. Quando se sabe o que é, o protoindo-europeu se torna manso feito coelhinho.

Supõe-se que a língua ancestral contasse com uma raiz *sekw-, responsável por extensa prole que aparece no latim e em boa parte das línguas europeias. Chegou ao latim como sequi – verbo que significa seguir, vir depois. Em nossa língua, uma baciada de termos provém do mesmo ancestral.

Uns mais, outros menos, todos conservam algum traço do sentido original: seguinte (o que vem depois), conseguir (ir atrás de), perseguir (ir atrás de), prosseguir (continuar seguindo), segundo (o que vem depois, o que se segue ao primeiro), sequência/consequência (o que vem em seguida), obséquio (ir atrás do que se supõe ser o desejo do outro), sequestrar (perseguir e apoderar-se do objeto da perseguição), executar (prosseguir até a realização), sócio (o que caminha junto, o que segue o outro).

Seita é fruto da mesma árvore. Nos tempos de antigamente, a palavra tinha significado neutro, isto é, não carregava julgamento de valor. Seita não diferia muito do sentido que damos hoje a partido, a entidade que congrega os seguidores de determinada ideia.

Ao longo dos séculos, a palavra assumiu valor claramente pejorativo. Hoje, sectários – os componentes de uma seita – são os que divergem frontalmente da doutrina majoritária e preferem seguir orientação de um guru político ou espiritual. São olhados pela maioria como se estivessem fora da lei.

É curioso notar que maiorias e minorias são instáveis, portanto, evoluem. Assim, os que são hoje vistos como sectários, por serem devotos de uma seita minoritária, podem se tornar majoritários amanhã. A partir daí, sectários serão os outros. E o mundo continua a girar.

Lafontaine sempre atual

José Horta Manzano

Nestes tempos desagradáveis, em que o cordão dos puxa-sacos presidenciais é tão atuante – e o estrago que causam, tão profundo –, a sabedoria dos antigos mostra que os defeitos da alma humana são velhos como o mundo. De lá pra cá, muito tempo passou, mas parece que o homem continua a cair nas mesmas ciladas e a cometer os mesmo erros.

A fábula do rei que estava nu, conhecida por todos, é representativa desse fenômeno. Na intenção de comprazer a vaidade do poderoso, toda a corte repete diante do rei tudo o que ele quer ouvir. O resultado é um desastre: crédulo, o monarca acaba desfilando nu pelas ruas da capital do reino, convencido de estar vestido com o traje mais fino jamais costurado.

Jean de Lafontaine (1621-1695), poeta francês que transpunha para metafóricos animais os defeitos e qualidades que distinguia nos humanos, ficou conhecido por suas quase 250 fábulas. Retrato agudo e cru da sociedade, todas elas permanecem atuais.

Várias abordam a vaidade, perigoso defeito que, quando apimentado pela ingenuidade, fortalecido pela ignorância e atiçado por uma tropa de lambe-botas, é receita infalível para o desastre.

Não tenho muito esperança de ver minha sugestão atendida, mas digo assim mesmo: doutor Bolsonaro devia reler (ou pedir a alguém que lesse em voz alta) a fábula do corvo e da raposa. O ensinamento é de grande utilidade para quem está na situação dele.

Le corbeau et le renard

Maître Corbeau, sur un arbre perché,
tenait en son bec un fromage.
Maître Renard, par l’odeur alléché,
Lui tint à peu près ce langage:

«Hé! Bonjour, Monsieur du Corbeau.
Que vous êtes joli! Que vous me semblez beau!
Sans mentir, si votre ramage
Se rapporte à votre plumage,
Vous êtes le Phénix des hôtes de ces bois!»

A ces mots le corbeau ne se sent pas de joie;
Et, pour montrer sa belle voix,
Il ouvre un large bec, laisse tomber sa proie.

Le Renard s’en saisit, et dit: «Mon bon Monsieur,
Apprenez que tout flatteur
Vit aux dépens de celui qui l’écoute:
Cette leçon vaut bien un fromage, sans doute.»

Le Corbeau, honteux et confus,
Jura, mais un peu tard, qu’on ne l’y prendrait plus.

Lafontaine 2O corvo e a raposa

Senhor Corvo, numa árvore empoleirado,
Segurava no bico um queijo.
Dona Raposa, pelo odor atraída,
Dirigiu-lhe mais ou menos estas palavras:

«Olá! Bom-dia, senhor Corvo.
Como sois bonito! Como pareceis belo!
Sem brincadeira, se vosso gorjeio
For semelhante à vossa plumagem,
Sois a fênix dos habitantes deste bosque!»

Ao ouvir isso, o corvo não cabe em si de contente;
E, para mostrar sua bela voz,
Abre o grande bico e deixa cair a presa.

A raposa se apodera dela e diz: «Meu caro senhor,
Aprendei que todo bajulador
Vive à custa daquele que o escuta:
Essa lição vale bem um queijo, sem dúvida.»

O corvo, envergonhado e confuso,
Jurou, já meio tarde, que não o apanhariam mais.

Interligne 18hJean de Lafontaine (1621-1695), poeta francês.
Para ouvir a leitura do original francês, clique aqui.

Homeschooling

José Horta Manzano

Não sou especialista em Educação, o que não me impede de refletir sobre a Instrução Pública com consideração e bom senso. Embarcando na onda de uma pandemia que tem fechado escolas e impedido crianças de frequentar aulas, muitos preconizam o ‘homeschooling’ – neologismo desnecessário usado atualmente para designar a escola em casa. Há gente cogitando tirar os filhos definitivamente da escola e continuar a ministrar-lhes instrução em casa.

Para dar nome aos bois, a expressão nacional (escola em casa) me parece mais eloquente do que a importada. Se alguns preferem a inglesa, será sintoma do mesmo mecanismo que transformou liquidação em sale e entrega em delivery.

O ensino que se ministra a crianças e adolescentes é assunto sério. A aparente simplicidade da atividade é enganosa: a prática é cheia de armadilhas. Um professor é formado para exercer o magistério, o que não acontece com quem não estudou as técnicas da profissão. A escola é lugar de socialização da criança e do jovem, ambiente dificilmente reproduzível no ensino em casa. A escola propõe (pra não dizer impõe) frequência regular, horários, deveres para o dia seguinte; em casa, é inviável manter toda essa disciplina a longo prazo; com o passar do tempo, o afrouxamento é inevitável.

Se a escola é ruim, que se procure outra. O que não me parece razoável é privar os filhos do convívio com a meninada e da disciplina imposta a todos. Num país socialmente tão desigual, conviver com pessoas alheias ao núcleo familiar, ainda que estejam no mesmo nível social, já é um passo em direção à socialização. O passo é tímido mas, para a criança, é sempre melhor do que ficar em casa e crescer dentro de uma bolha.

Portunhol ‒ 2

Quando yo me fui das casa

Fabián Severo (*)

Cuando yo me fui das casa
mi madre me deu uma caya de zapato
llena de rollo de foto.
‘Algún día Fabi, tu vai podé revelá esas foto
de cuando tu y teus irmaum era piqueno.’

Cuando pudíamos festeyá algún cumpliano
yo consiguía la máquina con doña Selia.
Solo se pudía sacar doce foto
sempre del cumplañero
atrás del bolo con los invitado.
Nunca pudemo revelá. Nou había plata.

Ainda tengo la caya guardada nel ropero.
Teño las palabra, faltan las imagen.

Quando eu fui embora de casa

Fabián Severo (*)

Quando eu fui embora de casa
minha mãe me deu uma caixa de sapato
cheia de rolos de fotos.
‘Algum dia, Fabi, você vai poder revelar estas fotos
de quando você e seus irmãos eram pequenos.’

Quando podíamos festejar algum aniversário
eu conseguia a máquina com dona Célia.
Só se podiam tirar doze fotos
sempre do aniversariante
atrás do bolo com os convidados.
Nunca pudemos revelar. Não havia dinheiro.

Ainda tenho a caixa guardada no guarda-roupa.
Tenho as palavras, faltam as imagens.

(*) Fabián Severo (1981-) é escritor e poeta uruguaio, nascido em Artigas, cidade encostada no Rio Grande do Sul, às margens do Quaraí. Grande parte da obra deste autor está escrita em portunhol, um concentrado dos falares ibéricos em que se exprimem os viventes da fronteira. É uma língua que, ainda que soe estrangeira, toca a sensibilidade do leitor. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro. Para escutar o poema declamado pelo autor, clique aqui.

 

Ao nível de x em nível de

Dad Squarisi (*)

Ao nível de ou em nível de? Depende.

Ao nível de significa à altura de:

Recife fica ao nível do mar.
O cargo de Maria está ao nível de Luís.

Em nível de quer dizer no âmbito de:

Faço um curso em nível de pós-graduação.
A decisão foi tomada em nível de diretoria.
A ideia está em nível de projeto.

Nível

Cá entre nós: em nível de é dispensável. Como tudo que é dispensável, sobra. Livre-se dele. A frase ganha em concisão e elegância; veja:

Faço um curso de pós-graduação.
A decisão foi tomada pela diretoria.
O projeto ainda está no papel.

É isso. A língua é um sistema de possibilidades. Democrática, dá liberdade de escolha. Podemos dizer a mesma coisa de diferentes maneiras. A mais curta e enxuta ganha disparado. Fique com ela.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

Madame ou mademoiselle?

José Horta Manzano

Você sabia?

Por mais que se considerem progressistas, os franceses são bastante conservadores. Na hora de dirigirem a palavra uns aos outros, a coisa fica evidente. Há dois níveis de tratamento: tu e vous, ambos da segunda pessoa.

O tu, mais íntimo, é utilizado em família, entre camaradas de escola, entre adolescentes. É usado também no âmbito de associações sindicais. Fora disso, denota uma intimidade que pode soar forçada. Quando se diz tu a alguém com quem não se tem intimidade, o tratamento soa artificial, obrigatório. Quanto ao vous, mais formal, usa-se nos demais casos – a maioria.

O uso da terceira pessoa, em voga até um século atrás, é hoje considerado preciosismo démodé. Simbolizava um excessivo respeito que já passou de moda. Frases como «Madame est servie» (A senhora está servida = o jantar está na mesa), dita por serviçais, só é ouvida hoje em dia em filmes históricos. De toda maneira, poucos são os que ainda se podem dar ao luxo de pagar empregados domésticos.

As regras de uso de tu e de vous são muito rígidas. Há casos, comuns por aqui, que deixariam qualquer brasileiro boquiaberto. Suponhamos que um seu colega de escritório ocupe a mesa ao lado da sua. Se a empresa não for uma startup, você e seu colega perigam passar 20 anos sentando-se todos os dias um ao lado do outro e chamando-se reciprocamente de vous seguido do nome de família. Bonjour, Monsieur Dupont! Bonjour, Monsieur Dubois! Esquisito para nós, não? Imagine só: Bom dia, senhor Silva! Bom dia, senhor Souza! Parece filme mal dublado.

Se o ambiente de trabalho for menos rígido, talvez você se sinta autorizado a chamar seu colega pelo nome. Nesse caso, teremos: Bonjour, Jean! Bonjour Paul! Mas não se engane: Jean e Paul continuarão a se dizer vous até o fim dos tempos. Jamais ousarão transpor o muro invisível que retém cada um e o impede de entrar na intimidade do outro.

O que acabo de descrever é o caso genérico, representativo do estado de espírito mais disseminado. Evidentemente, há situações particulares em que o relacionamento pode funcionar de outra maneira.

Fora da intimidade, um homem será sempre chamado Monsieur. Pouco importa se é casado ou não, será sempre Monsieur. Já o mesmo não ocorre com uma mulher, não me pergunte por quê. Chegada à idade adulta, ela se apresentará como Madame, se já for casada, ou como Mademoiselle, se não o for. E assim será chamada. Atenção: esse termo de tratamento será sempre seguido pelo sobrenome, nunca pelo nome. Se não, fica parecendo nome de vidente ou daquelas que os antigos chamavam «mulheres de vida fácil».

Mas o tempo passa e os costumes mudam. Faz anos que movimentos feministas denunciam a flagrante diferença de tratamento entre homens e mulheres. Por que todos têm de ficar sabendo se uma mulher é casada ou não? Por que os homens escapam a toda inquirição sobre seu estado civil?

Depois de muita luta, senhoras e senhoritas conseguiram uma lei para acabar com essa diferença. Foi votada em 2013. No entanto, uma lei não consegue mudar mentalidades da noite para o dia. Não se pode proibir que formas consagradas por séculos de uso popular desapareçam por encanto. O que o novo regulamento determina é que, nos documentos oficiais, seja abolida a diferença entre casadas e solteiras. Todas as mulheres serão chamadas Madame.

Isso vale para o Imposto de Renda, a conta de eletricidade, o IPTU, documentos de identidade, passaporte, carteira de motorista, enfim, tudo o que for documento oficial. Na vida prática, no entanto, os velhos costumes resistem e não vão mudar tão já. Para fazer evoluir as mentalidades, ainda vai levar um tempinho. Modos de pensar não se mudam por decreto.

Publicado originalmente em 2 jan° 2013.

Reputações

José Horta Manzano

A direção do Facebook cassou páginas e perfis criados e mantidos pelo “gabinete do ódio”, milícia digital associada a doutor Bolsonaro. Essa central de difusão de informações enganosas tem por encargo, entre outras tarefas, a “destruição” de reputações. Pus “destruição” entre aspas porque, apesar de ser a palavra usada por dez entre dez jornalistas, não me parece adequada.

Por definição, reputação é conceito neutro; ela tanto pode ser boa quanto ruim. Tanto podemos dizer que “Fulano tem excelente reputação” quanto podemos afirmar que “a reputação de Beltrano é péssima”. Portanto, não faz sentido falar em “destruir” reputações. Boa ou má, reputação sempre haverá. Será melhor utilizar outro verbo. Há muitos à disposição: sujar, manchar, enxovalhar, emporcalhar, deslustrar, enlamear, encardir.

Antigamente, dizia-se denegrir, palavra hoje considerada politicamente incorreta. É paradoxal que “denegrir reputações” seja incorreto, enquanto “embranquecer de medo” é admitido. Fica difícil entender por que um pode e o outro não. Mas esse é assunto pra outro artigo. Vamos voltar ao que nos interessa hoje.

É interessante notar que a palavra reputação vem do latim reputatio, formada a partir do verbo reputare. Este verbo é filhote de putare, cujo sentido originário é ligado à pureza (putus = purus). Putare é a forma latina de nosso podar (=limpar, eliminar galhos inúteis).

Por associação de pensamento, putare evoluiu para o sentido mais abstrato de calcular, fazer as contas, opinar, julgar, considerar. Hoje a família é extensa. Dela fazem parte, entre outros descendentes: computar (computador), contar, deputar (deputado), imputar, amputar, disputar. E, naturalmente, todas as reputações que vêm sendo solapadas pelos gentis assessores presidenciais.

O marketing e o bom senso

José Horta Manzano

Para vender bem , convém esclarecer o público-alvo sobre as qualidades do produto. É o primeiro passo que o fabricante tem de dar. A informação pode ser passada com ar professoral, distante. Fica imponente, mas periga ser fria e pouco eficaz. Melhor será estabelecer uma proximidade com o consumidor. Mais que isso: uma cumplicidade.

Na hora de vender um sabonete, o anunciante pode dizer: «Compre meu sabonete, pois é o melhor da praça, feito com azeite de dendê e óleo de mamona». Fica bastante técnico, mas cria um fosso entre vendedor e potencial cliente. Melhor criar cumplicidade entre os dois. Assim, por exemplo: «Oi! Eu sou Maria da Silva, atriz de novelas. Minha pele andava feia, ressecada. Eu já não sabia mais o que fazer quando descobri este sabonete. Impressionante! Foi-se a secura! Fiquei com pele de recém-nascido! Experimente, que eu garanto».

Quem anuncia de maneira distante acaba tendo menos sucesso do que o fabricante que consegue passar a impressão de uma amiga aconselhando outra. Esse princípio vale para qualquer produto – desde que usado com moderação e bom senso.

No fim de 2019, um jornal importante teve a boa ideia de criar um podcast, difundido em episódios, para dar mão forte aos que se preparam pra enfrentar vestibular. Em matéria de exames, não se deve perder de vista a diglossia em que vivemos mergulhados, essa confusão mental que acaba transformando provas de redação em calvário. Passamos a vida nos exprimindo num dialeto em que nos sentimos à vontade quando, de repente, na hora do exame, temos de mudar de estação e utilizar um outro dialeto – chamado ‘norma culta’ –, que não nos é familiar. Daí o enrosco.

Os marqueteiros do jornal precisavam dar título à série de podcasts. No afã de estabelecer proximidade com o público-alvo, negligenciaram a encruzilhada linguística nacional. Foram com tudo: «Se liga no vestibular»(*) foi o título escolhido. Seria excelente, caso estivessem vendendo sabonete. Mas vestibular não é sabão. Numa prova em que será medido o desembaraço de cada candidato no trato da ‘norma culta’, não é boa ideia abandoná-la e pespegar título em linguagem caseira.

Atenção, estudantes, vestibulandos e concurseiros! É melhor reter a lição. Na hora da prova, que ninguém se atreva a reproduzir o linguajar relaxado do dia a dia. Não se pode começar uma frase com pronome oblíquo. Experimente – com certeza vai perder pontos.

(*) O distinto leitor pode achar que estou chovendo no molhado; afinal, todos sabem fazer a diferença entre língua de casa e norma culta. Pois acredite: tem muita gente que não sabe.

Bernardo Guimarães

José Horta Manzano

Em março de 1884, morria Bernardo Guimarães, homem de letras mineiro. Sua obra mais conhecida, o romance A Escrava Isaura, daria a volta ao mundo, cem anos mais tarde, nas asas de uma telenovela exportada para 150 países. Infelizmente para ele, esse sucesso planetário só viria um século depois de sua morte. Bem que teria ajudado se tivesse chegado enquanto o autor vivia.

O jornal Liberal Mineiro, de Ouro Preto, na edição de 29 de março de 1884, publicava a notícia de uma comissão formada para coletar fundos para ajudar a viúva do escritor e os filhos, todos menores. Vai com a grafia e o saboroso estilo da época:

«Consituio-se nesta cidade uma commissão central, que se encarrega de promover em toda a provincia uma subscripção em beneficio da viuva e filhos do finado poeta e romancista, Bernardo Guimarães.

Este homem illustre não deixou de certo sua familia na indigencia, mas não legou-lhe riquezas, que nunca ambicionou, nem sua viuva e parentes as possuem para poderem educar seis meninos, cujos talentos, que herdarão (=herdaram) do pai – honra dos mineiros – não se deve permittir que fiquem incultos.»

E o artigo segue com a menção dos integrantes da commissão, todos eles figurões da capital da província das Minas Gerais.

Liberal Mineiro (Ouro Preto), 29 março 1884

Fui conferir e encontrei, em outra fonte confiável, a informação de que Bernardo Guimarães teve oito filhos, não seis. Imaginei que pudesse haver um erro, um falando em seis, outro fazendo conta de oito. Mas o artigo que falava dos oito filhos dava o nome de cada um, acompanhado do ano de nascimento e morte. Não, não havia margem para erro. Com nome e data? Tinha cara de ser verdade. Por seu lado, o anúncio inserido pela commissão, redigido dias após a morte do escritor, tampouco podia estar errado. Era muita gente assinando embaixo. Como explicar o disparate?

Pensei um pouco, reli o nome dos filhos e… descobri! Quando o sujeito é constituído de nomes masculinos e femininos, nossa língua exige que o plural vá para o masculino. Ex: ‘laranjas, maçãs, uvas, peras, bananas e figos são bons para a saúde’. Na mesma linha, quando a filharada conta com meninos e meninas, costuma-se falar “dos meninos” do casal, expressão que agrupa todos os filhos. Esmiuçando o nome das crianças, constatei que, entre os oito filhos de Bernardo Guimarães, havia seis rapazes e duas moças.

Quando a commissão pediu contribuições para educar os filhos «para evitar que ficassem incultos», referia-se apenas aos rapazes. Para as meninas, não havia necessidade, que o caminho estava traçado: haviam de se casar, ter filhos, ficar em casa e cuidar da família. Não precisavam de maiores cuidados com a educação formal. Nas melhores famílias, o máximo que se ensinava à meninas era piano e bordado. Escola? Só a elementar. Estudos superiores? Isso não passava pela cabeça de ninguém. De lá pra cá, o mundo mudou.