O vírus vem do morcego?

José Horta Manzano

Você sabia?

O professor Luc Montagnier foi agraciado em 2008 com o Nobel de Medicina por seus trabalhos que, em 1983, tinham levado à descoberta do VIH, o vírus da aids.

Espírito turbulento, o professeur é chegado a uma polemicazinha. Volta e meia, apoia alguma tese ousada, daquelas que encontram resistência por parte da ciência oficial. No começo dos anos 2000, por exemplo, emprestou seu prestígio à defesa de um cientista francês que afirmava que a água tinha uma espécie de memória – realidade difícil de ser comprovada. Naturalmente, a tese foi rechaçada com vigor por uma indignada comunidade científica. É por isso que convém desconfiar quando o professeur vem com mais uma das suas.

Um site francês dedicado à medicina publicou em 16 de abril uma entrevista com Luc Montagnier, na qual ele dá opinião ousada sobre a origem do SARS-CoV-2, nome técnico do coronavírus que assola o planeta. Fala com a autoridade de quem já dirigiu um instituto de pesquisa em Xangai, na China.

Docteur Montagnier formula a hipótese de que a epidemia tenha tido início com o escape acidental de uma cepa de vírus que estava sendo manipulada num laboratório de Wuhan no âmbito de uma pesquisa de vacina contra aids.

Visto o histórico de tomadas de posição polêmicas do professeur, a mídia francesa não deu grande importância; e a internacional, menos ainda. Assim mesmo, a hipótese não deve ser descartada sem análise. Se bem que a missão é quase impossivel, dado que, ainda que a tese fosse verdadeira, Pequim dificilmente reconheceria o acidente. Transparência não é o forte de nenhum regime autoritário.

Quem havia de ficar feliz com a notícia são os bolsonarinhos e os associados do gabinete do ódio. A tese fortalece a narrativa de um “vírus chinês”, (que é como eles se referem ao coronavírus), criado e espalhado pra dar uma rasteira no mundo e impulsionar a dominação chinesa. Mas nenhum deles vai ler . Estão demais ocupados a arquitetar ruindades e tuitar boçalidades.

Se fosse bananinha

José Horta Manzano

Um dos bolsonarinhos – aquele que é deputado e americanófilo – voltou a fazer estrepolias. Irresponsável, seguiu os passos de Donald Trump e soltou um tuíte envenenado acusando «a ditadura chinesa» de ter contaminado o mundo com o coronavírus. Não precisa dizer (mas não custa repetir) que a China é o maior parceiro comercial do Brasil. O bolsonarinho não sabe, mas os chineses são muito ciosos de sua reputação; um nadinha os deixa eriçados; mexer com os brios deles é dar paulada em vespeiro.

Minutos depois de emitido, o tuíte chegou aos ouvidos dos dirigentes de Pequim. Furiosos, determinaram que o embaixador da China em Brasília protestasse imediatamente e em tom duro. Isso feito, a mídia nacional repercutiu o bate-boca. A mídia chinesa também. Nessa altura, o bolsonarinho começou a se dar conta do estrago que havia provocado. Parece que o pai, doutor Bolsonaro, ficou uma vara (será que alguém ainda entende essa expressão?).

Horas mais tarde, doutor Mourão, nosso vice-presidente, ensinou que «se o sobrenome dele fosse Bananinha, não era problema nenhum». Embora não fosse essa a intenção de Mourão, Bananinha fez lembrar as bananas que nosso fino presidente andou atirando a seus admiradores outro dia. Excetuando a infeliz escolha de sobrenome, o general pôs o dedo na ferida.

Só que o problema não está no sobrenome, está no comportamento clânico dos Bolsonaros. Se essa peculiaridade já havia sido detectada antes da eleição, ficou patente depois que doutor Bolsonaro foi eleito. Já no dia da tomada de posse, o mundo foi brindado com estranho espetáculo de um dos bolsonarinhos aboletado no carro oficial, como se pré-adolescente mimado fosse.

De lá pra cá, entre a derrubada de ministros por capricho de um dos filhos, a quase nomeação de outro deles para capitanear nossa embaixada em Washington e o funcionamento de um ‘gabinete do ódio’ gerido por bolsonarinhos, ficou claro que, no topo do Executivo, as decisões seguem as conveniências do clã. Trocando em miúdos: somos, sim, (mal) governados por uma famiglia. Para nossa sorte, agem desengonçadamente, o que atenua o impacto das maldades.

Espertos, os chineses já se deram conta disso há muito tempo. Tivesse sido um outro deputado a ofender-lhes os brios, não teriam se abalado pra retrucar. Se se alevantaram indignados, foi justamente porque o deputado ofensor era integrante do clã – logo, vice-presidente informal do Brasil.

O general Mourão pôs o dedo na ferida, mas não afundou nem torceu (o dedo). Sua frase merece reparo. Se o rapaz se chamasse Bananinha, os chineses teriam ficado enfurecidos do mesmo jeito. O problema não é o sobrenome, mas o pertencimento ao clã que se instalou no Planalto.

A gente pensava que esses casos de Poder acaparado por famílias era coisa de pequeno país latino-americano ou de ditadura hereditária do tipo cubano ou norte-coreano. Pra nosso pasmo, assistimos a esse inquietante espetáculo em nossa terra. O rapaz pode até não se chamar Bananinha, mas isto aqui está começando a parecer uma republiqueta de bananas.

A solução

José Horta Manzano

Tenho cá minha teoria para o azedume que reina nas altas esferas da República. Gabinete do ódio, troca de farpas, Executivo que convoca multidões a manifestar-se contra os demais Poderes, STF que abre inquérito contra o Executivo, o Legislativo que instaura CPIs contra o Executivo… ufa! Aquilo está parecendo uma sacola de caranguejos ou um ninho de víboras – é ferroada, é veneno.

Alguma coisa está perturbando a cabeça daquele pessoal. Saem daqui bonzinhos e, quando chegam lá, viram pelo avesso. Uns dirão que é a vertigem do poder, outros assegurarão que é a ganância diante da visão do pote de melado. Minha teoria é outra.

Olhem bem essa foto, onde se espreme meia República. É impossível não sentir desconforto à visão desses rostos torturados, azedos, descompostos. Pra começar, é gente demais em espaço pequeno – nem cabem todos na foto. Mas o problema maior, aquele que oprime essa gente fina é… o pé direito do salão.

Reparem como salas, salões e gabinetes de Brasília têm pé direito baixo. Compare-se com a amplidão, a majestade e os ouros do Kremlin (Moscou), da Moncloa (Madrid), do Eliseu (Paris) ou do Quirinale (Roma). Não sei se o projeto original do arquiteto era esse, mas o resultado atual é oprimente.

Que se alcem os tetos da Praça dos Três Poderes! Presidente, ministros, parlamentares e magistrados precisam respirar. Que se abram janelas. Ar fresco expulsa miasmas e clareia as ideias. Os brasileiros, aflitos, esperam por uma solução. Custa pouco, e os resultados serão espetaculares. Pode crer.