Portunhol ‒ 2

Quando yo me fui das casa

Fabián Severo (*)

Cuando yo me fui das casa
mi madre me deu uma caya de zapato
llena de rollo de foto.
‘Algún día Fabi, tu vai podé revelá esas foto
de cuando tu y teus irmaum era piqueno.’

Cuando pudíamos festeyá algún cumpliano
yo consiguía la máquina con doña Selia.
Solo se pudía sacar doce foto
sempre del cumplañero
atrás del bolo con los invitado.
Nunca pudemo revelá. Nou había plata.

Ainda tengo la caya guardada nel ropero.
Teño las palabra, faltan las imagen.

Quando eu fui embora de casa

Fabián Severo (*)

Quando eu fui embora de casa
minha mãe me deu uma caixa de sapato
cheia de rolos de fotos.
‘Algum dia, Fabi, você vai poder revelar estas fotos
de quando você e seus irmãos eram pequenos.’

Quando podíamos festejar algum aniversário
eu conseguia a máquina com dona Célia.
Só se podiam tirar doze fotos
sempre do aniversariante
atrás do bolo com os convidados.
Nunca pudemos revelar. Não havia dinheiro.

Ainda tenho a caixa guardada no guarda-roupa.
Tenho as palavras, faltam as imagens.

(*) Fabián Severo (1981-) é escritor e poeta uruguaio, nascido em Artigas, cidade encostada no Rio Grande do Sul, às margens do Quaraí. Grande parte da obra deste autor está escrita em portunhol, um concentrado dos falares ibéricos em que se exprimem os viventes da fronteira. É uma língua que, ainda que soe estrangeira, toca a sensibilidade do leitor. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro. Para escutar o poema declamado pelo autor, clique aqui.

 

Falsos amigos ‒ 1

José Horta Manzano (*)

Para aqueles que acham que Espanhol é fácil, é bom saber que lá: Boliche se diz Bolos, Bolo se diz Bizcocho, Biscoito é Galleta, Cupcake é Madalena, Waffle é Gofre e Porra é Churros.

Pra piorar, Taza é Xícara, Copa é Taça, Vaso é Copo, Lentilla é Lente de contacto, Lentilha é Lenteja, Bolso da calça é Bolsillo, Bolsa de braço é Bolso e Bolsa é saco plástico de mercado.

Também é importante saber que: Cajones é Gaveta, mas Cojones não é algo legal. Pollo é frango, mas polla não é a mulher do galo. Carrera é Corrida, mas Corrida é… bem, deixa pra lá.

E se tudo isso parece esquisito, saiba que, na Espanha, Exquisito é Gostoso, Gostoso é Rico e gente adinheirada é Rica também.

(*) Com base nas informações de Andrea Martínez.

Publicado originalmente em 16 out° 2018.

Portunhol ‒ 1

Cuarenticuatro

Fabián Severo (*)

El Negro deu de Navidá
la sía de Judas pra mi madre.

Los visiño dinfrente fiserum um Judas
i botarum ele sentado na sía.
De noite puserum bomba i prenderum fogo.

Au otro día, bien sediño
el Negro foi i trose la sía pras casa.
Limpó toda, lijó i deu uma boa mano de pintura
dispós clavó uma almuada veia
i la sía ficó noviña.

Mi madre istava felis
agora tiña sía pra fasé as costura.
Ela nunca avía tido Navidá.

Quarenta e quatro

Fabián Severo (*)

O Negro deu de Natal
a cadeira de Judas pra minha mãe.

Os vizinhos de frente tinham feito um Judas
e o puseram sentado na cadeira.
De noite, puseram bomba e atearam fogo.

Dia seguinte, bem cedinho,
o Negro trouxe a cadeira pra casa.
Limpou toda, lixou, deu uma boa demão de pintura,
depois pregou uma almofada velha
e a cadeira ficou novinha.

Minha mãe estava feliz
agora tinha cadeira pra costurar.
Ela nunca tinha tido Natal.

(*) Fabián Severo (1981-) é escritor e poeta uruguaio, nascido em Artigas, cidade encostada no Rio Grande do Sul, às margens do Quaraí. Grande parte da obra deste autor está escrita em portunhol, o concentrado de falares ibéricos em que se exprimem os viventes da fronteira. É uma língua que, ainda que soe estrangeira, toca a sensibilidade do leitor. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro.