Contorcionismo contábil

José Horta Manzano

O assunto é meio árido. Melhor deixar que especialistas analisem, que não é minha seara. Assim mesmo, vale uma reflexão.

Jornais anunciam que, para «fechar as contas» de 2012, a União está lançando mão de contabilidade pra lá de criativa. Como um prestidigitador tira coelhos do chapéu, os guardiães das contas da nação têm se prestado a malabarismos nem sempre ortodoxos.

Os gregos, embora ortodoxos em religião, também tiveram o azar de contar com governantes que se valeram de expedientes bem distantes da ortodoxia para encobrir rombos nas contas nacionais. Alguns chamam a isso maquiagem. Os mandachuvas locais pediram ajuda a um grande banco internacional de investimentos e dele obtiveram cumplicidade. A malandragem durou anos. Quando a população descobriu, já era tarde demais.

Como todos sabem, mentira tem perna curta. O que tinha de acontecer aconteceu: o castelo de areia um dia desmoronou. O banco se safou lampeiro, quem pagou o pato foi o povo grego. A farra devastou a economia, além de afetar gravemente parceiros economicamente mais vulneráveis.Currencies

Já se passaram dois ou três anos e, neste momento, ninguém pode ainda afirmar ― com certeza ― que o euro, moeda única utilizada por 17 países, resistirá ao baque. Numa visão catastrófica, há quem enxergue até a extinção da União Europeia, tal como a conhecemos hoje.

Dá calafrios pensar que os magos da economia brasileira possam estar brincando com fogo. Malabarismo pode ficar bem no circo, mas contabilidade é ciência exata.

A contabilidade nada mais é que o espelho da realidade econômica nacional. Quebrar o espelho não vai consertar os problemas econômicos. Melhor atacá-los pela raiz.

Notícias de Ponta Grossa

José Horta Manzano

Passeando pelos jornais de hoje, topei com um relato um tanto confuso de uma vereadora de Ponta Grossa (PR), presa por ter forjado seu próprio sequestro. Não se lançou à aventura sozinha, mas acumpliciada com Suzicleia, Idalécio e Adalto. Para espíritos mais curiosos, a notícia completa está aqui.

Se entendi a história ― mas não tenho certeza ― a edil fez o que fez para escapar da eleição da Câmara. Confesso não saber a que eleição da Câmara se refere o articulista. Pensava que, para não votar, bastasse não comparecer. Parece que é bem mais complicado.

Contra a vereadora e seus cúmplices, será apresentada denúncia por crime de formação de quadrilha, simulação de sequestro e fraude processual. Não é pouca coisa. Mas parece que a eleita municipal já providenciou advogado. O causídico, naturalmente, entrará logo com pedido de habeas corpus. E assim, vão todos para casa torcer para que o processo se eternize nos escaninhos da Justiça brasileira. E tudo bem.

Crédito: Thiago Schuina

Crédito: Thiago Schuina

Não conheço Ponta Grossa. A curiosidade me levou a consultar a Wikipédia. Fiquei sabendo de muita coisa. O município não é nenhuma Xiririca da Serra, não, senhor. A população estimada é de mais de 300 mil almas, como Genebra!

Uma outra informação me deixou pasmo. O inverno é mais frio e o verão é mais quente! Não é um fato digno de nota? Para quem quiser conferir, está lá com todas as letras, no tópico Clima. Aqui.

A Wikipédia traz um capítulo sobre a composição da população de Ponta Grossa. Fala dos desbravadores portugueses, dos tropeiros, das famílias vindas de São Paulo. Conta que, mais tarde, chegaram eslavos, árabes, italianos e outros estrangeiros. Curiosamente, nenhuma menção é feita aos habitantes primitivos do lugar, os indígenas. Não terá sobrado nenhum?

Não vamos atirar pedra nesse artigo. Não é o único, apenas segue a linha que nos ensinaram desde o curso primário. Nossa historiografia oficial menciona todos os imigrantes ― do português ao coreano ―, fala do africano trazido à força, mas faz abstração do habitante originário, como se nunca tivesse existido. O índio pode até servir como figurante de quadros épicos, mas na vida real atrapalha.

Por que razão isso acontece?

It’s human nature

Dilma 1

Você sabia?

José Horta Manzano

Ano-novo é época de balanços, resenhas, retrospectos. Um artigo do Estadão nos informa que nossa presidente atual faz menos discursos que o mandatário anterior. Não precisa ser doutor em Ciências Auditivas para já ter percebido isso.

Outra verdade evidente: ela fala menos que o antecessor. Usa menos palavras. Longe de mim insinuar que seu vocabulário seja menos extenso ― talvez simplesmente não tenha o dom de falar em público. Terá outros, sem dúvida.

O mais interessante da pesquisa é a contagem paciente de quantas vezes a senhora Rousseff pronunciou, em seus discursos, o nome do padrinho. Deve ter custado aos autores um trabalhão digno de beneditinos. Chegaram à conclusão que, em 2011, a presidente se referiu nominalmente a seu guru 96 vezes. Já em 2012, foram apenas 67 vezes, ou seja, 29 menções a menos.

A ser mantido o mesmo abatimento anual, o santo nome deverá ser articulado apenas 38 vezes em 2013. E nada mais que minguadas 9 vezes em 2014.

It’s human nature, como dizem os ingleses. Longe dos olhos, longe do coração. Rei morto, rei posto. A mesma água não passa duas vezes debaixo da ponte.

C’est la vie…

Para fechar o ano

José Horta Manzano

Vamos terminar o ano com algo mais leve. Vou relembrar alguns versos antológicos da MPB. É verdade que são meio antigos, mas ― que fazer? ― obras-primas andam rareando ultimamente. Fiquemos com o que nos marcou. Guardemos o que ninguém jamais poderá apagar.

É impossível reunir, num só post, todos os versos bonitos que nossa música já produziu. Seria uma lista cansativa, de tão extensa. Vou relembrar algumas poucas joias que me ocorrem agora. Dentre elas, uma só não é brasileira, mas é tão bonita que merece ser citada.Musica & letra

A  felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
Tom Jobim & Vinicius de Morais, 1959

E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer. Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.
Chico Buarque, 1967

A lua, furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão.
E tu pisavas os astros distraída.
Orestes Barbosa, 1935

Na Praça Clóvis minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato
Vinte e cinco, francamente, achei barato
Pra me livrar do meu atraso de vida
Paulo Vanzolini, 1967

Tire seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Nélson Cavaquinho, Guilherme de Brito & Alcides Caminha, 1974

À noite, dos seus cabelos os grampos
São feitos de pirilampos
Que a estrelas querem chegar
Ary Barroso, 1935

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Chico Buarque, 1971

Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti
Cartola, 1976

Moi, je t’offrirai des perles de pluie
venues de pays où il ne pleut pas
Eu te darei pérolas de chuva
vindas de países onde não chove
Jacques Brel, 1959

Musical NotesSe nós, nas travessuras das noites eternas,
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir
Tom Jobim & Chico Buarque, 1980

São casas simples,
Com cadeiras na calçada,
E na fachada,
Escrito em cima que é um lar!
Garoto, Vinícius de Moraes & Chico Buarque, 1952 ― 1969

Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima
Paulo Vanzolini, 1963

FELIZ 2013 A TODOS!

Los apagones

BarrageJosé Horta Manzano

Quando ouvem um lugar-comum, uma banalidade, os franceses e os ingleses costumam dizer que se trata de uma platitude. Políticos soem pronunciar discursos e frases recheadas de lugares-comuns, de afirmações evidentes. Mas alguns exageram.

Nos últimos dez anos, nossos governantes foram dominados por uma ideia fixa: a permanência no poder a qualquer custo. Não sejamos fariseus. Quem alcançou posição confortável agarra-se a ela. É natural e compreensível. It’s human nature. O exagero está em aferrar-se ao poder como se ele fosse um fim em si. Não é.

Posições de mando certamente fazem bem ao ego. Em compensação exigem que o titular exerça de facto suas funções.

Pelo aumento exponencial de episódios de falta súbita de energia que temos constatado estes últimos tempos, é forçoso concluir que a devida atenção não tem sido dada ao planejamento desse setor estratégico.

Não basta cruzar os dedinhos, fechar os olhinhos e mentalizar seus desejos para que as coisas aconteçam por milagre. Os que detiveram o poder estes últimos anos não fizeram a lição de casa. Acham que posições de ministro, diretor, superintendente e que tais são apenas títulos honoríficos. Imaginam que as coisas acontecem automaticamente. Têm sido ingênuos. Sua incúria e seu despreparo têm emperrado o desenvolvimento do País.

Nossa presidente recusa o termo apagão. Talvez não lhe agrade o fato de essa palavra ter sido importada diretamente da Argentina, cujos apagones precederam os nossos. A senhora Rousseff prefere que se fale em «interrupção de fornecimento de energia», uma troca de seis por meia dúzia. Parece-lhe menos violento, mas, no fundo, reflete a mesma realidade.

Além da implicância com a expressão importada, a presidente proferiu (mais) uma platitude ao atribuir a culpa dos apagões a falha humana. É uma evidência. Alguém errou ao prever o crescimento da demanda. Alguém errou na instalação de para-raios de proteção às torres de transmissão. Alguém descuidou da manutenção preventiva. Alguém se enganou e apertou o botão errado. Alguém errou ao abrir (ou fechar) as comportas Poteaude alguma barragem. Seja o que tiver acontecido, terá sido erro humano.

Dizer que apagão é consequência de falha humana é uma banalidade. Levando nosso raciocínio até o fim, temos de considerar que o equipamento que constitui o parque energético também foi projetado, produzido, controlado, transportado, instalado e manipulado por seres humanos. Portanto, qualquer pane do material será, em última instância, efeito retardado de alguma falha humana anterior.

Será que teremos um dia dirigentes não só imbuídos de seus direitos mas também compenetrados de seus deveres?

Gol contra

José Horta Manzano

Tenho um amigo que viaja ao Brasil agora em janeiro. Como de costume, comprou sua passagem de avião por internet, no site da Swiss Air Lines. Hoje em dia é tudo tão prático, não? Você chega, se identifica, e logo aparece um hello ou um bonjour do outro lado. Você se sente em casa. Faz sua reserva, paga com seu cartão, e na hora já lhe mandam o bilhete por email. Se quiser, pode até marcar o lugar, escolher o tipo de refeição. Uma simplicidade.

Meu amigo quis comprar também uma passagem doméstica, de São Paulo para o interior, ida simples. A localidade de destino é servida por uma companhia chamada Gol (sic). Ele imaginou que fosse uma manipulação simples. Não foi. Ontem tentou, pelejou, não conseguiu. Pediu minha ajuda.Gol

Hoje resolvi dar-lhe uma mão. Imaginei fosse questão de poucos minutos. Engano meu. Obediente, li as instruções e segui tudo ao pé da letra. Nada feito. Só consegui obter mensagens de que havia um erro aqui, outro ali, que não havia sido possível, que tentasse de novo, que o login não havia sido reconhecido, enfim, um monte de baboseiras.

De repente, vejo um botão que me pareceu interessante: clicando ali, você pode conversar diretamente com um atendente ― por escrito, naturalmente ―, como numa sala de bate-papo. Tentei essa opção. Funcionou.

Do outro lado da linha, estava um rapaz muito bem educado, daqueles que transpiram boa vontade e gostam do que estão fazendo, sempre prontos a ajudar. Juntos, tentamos tudo o que se possa imaginar para comprar a passagem: como se o passageiro fosse residente no estrangeiro, como se residisse no Brasil, pagando com cartão Visa, pagando com Mastercard, entrando no site com cadastro, entrando pela porta dos fundos (sem cadastro). Todas as vias foram exploradas, mas nada adiantou.Nenhum cartão foi aceito, todos rejeitados. Impossível comprar a passagem.

O atendimento via sala de bate-papo durou das 11h26 às 13h56, exatamente uma hora e meia. Tempo perdido para o atendente e para nós aqui. Fomos derrotados por um sistema malfeito, um esquema pensado para o pão nosso de cada dia, mas despreparado para qualquer coisa que saia do ramerrão quotidiano. Um cartão emitido no exterior está, aparentemente, fora dos parâmetros. Não há meio de fazer que o sistema o reconheça.

Fico pensando na Copa do Mundo que o Brasil hospedará dentro de um ano e meio. Imagino os apuros em que vão se meter os turistas que pretenderem se deslocar de avião no interior do País. Se nós, que somos de lá, que conhecemos a língua, que temos condições de manter uma hora e meia de bate-papo online não conseguimos comprar uma simples passagem de avião, imagine a frustração programada para os temerários visitantes de 2014.

Uma coisa é «conseguir trazer a Copa para o Brasil», como alardearam os autores do feito magistral, como se isso fosse a apoteose, o objetivo final. Outra coisa, bem diferente e bem mais complexa, é preparar o Brasil para receber a Copa. Para isso, não basta desejar ardentemente, há que trabalhar.

Infelizmente, estamos ainda engatinhando. O Brasil, como destino turístico, ainda está ensaiando, hesitante, seus primeiros passos. Os resultados não vão surgir assim, de um momento para o outro. Pelo andar da carruagem, ainda vai demorar décadas.

Advertência aos incautos: se você tiver de utilizar uma companhia chamada Gol (sic), tome cuidado. Pode ser bola fora ou, o que é pior, gol contra.

O Velho Chico

Nascente do São Francisco

Nascente do São Francisco

José Horta Manzano

Faz exatamente três meses que o professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, assessorado por dezenas de pesquisadores, fez um balanço do estado atual de conservação do Rio São Francisco. Essa contribuição rara e preciosa à visão científica de um dos patrimônios maiores de nossa terra foi reunida no livro Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação, publicado por Andrea Jakobsson Estúdio.

A análise dos especialistas aponta para uma extinção inexorável do rio. Difícil acreditar, mas parece que assim é.  Um artigo do Globo Ciência, publicado em setembro, dá explicação mais extensa sobre o problema. Confira aqui.

O trem-bala

José Horta Manzano

Uma primeira licitação está sendo preparada para a construção de um trem-bala ligando três grandes núcleos urbanos brasileiros: São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro. O valor estimado? Uma bagatela: 35 bilhões. Estimativa inicial, natualmente, sujeita a dobrar ou triplicar nos próximos anos. Mas isso é detalhe. O que são 50 ou 100 bilhões para um país rico e sem problemas como o nosso?

Primeira consideração:
São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro são cidades servidas por aeroportos de primeira linha. Uma ponte aérea funciona há mais de 50 anos entre o Rio e São Paulo, com partidas a cada 10 minutos. Quem tem pressa chega logo.

Train 2Segunda consideração:
Os mais de quarenta mil mortos (40’000!) em acidentes rodoviários que o Brasil registra a cada ano revelam uma desgraça nacional, um descalabro. Assistimos, indiferentes, a um genocídio continuado. Uma diminuição no volume de tráfego rodoviário seria mais que bem-vinda.

Terceira consideração:
Falta visão aos políticos brasileiros. Simplesmente porque são gente despreparada para as funções que pretendem exercer. A mentalidade que trouxe os primeiros povoadores europeus da terra tupiniquim continua valendo entre eles: après moi, le déluge. Depois de mim, pode vir até o dilúvio, porque estou aqui apenas para passar bem e ganhar dinheiro fácil. Se a coisa ficar preta, me mando pra Miami. Tchau e bença.

Quarta consideração:
Desde que se implantaram no Brasil nos anos 50, os fabricantes de automóveis, além de montar carros, montaram um grupo de pressão ― em bom português, um lobby ― destinado a abortar todo plano de expansão da rede ferroviária. As pressões foram tão fortes que desde então o governo central deixou até de investir na manutenção da malha existente. O resultado conhecemos todos: os caminhos de ferro do Brasil foram sucateados.

Conclusão:
Mesmo sem levar em consideração os inevitáveis «ajustes» de última hora, 35 bilhões de reais já é muita coisa. Melhor seria se o governo central investisse essa enxurrada de dinheiro na reabilitaçãTrain 3o do transporte ferroviário.

Na Europa, tirando algum caso muito especial e localizado, o transporte público intermunicipal se faz por estrada de ferro. Os trens são frequentes, limpos, bem cuidados, respeitam o horário, viajam a velocidades de cruzeiro entre 100 e 140km/h. Há sistemas de assinatura para viajantes frequentes: paga-se por mês ou por ano, com bom desconto. Tanto se pode escolher assinar por um determinado percurso ou pela rede nacional.

Aviões não se arriscam a levantar voo ou a pousar sob certas condições meteorológicas. Automóveis e ônibus não conseguem trafegar em pistas alagadas. Os trens são mais confiáveis. Chuva, vento, nevoeiro, frio, calor, neve, gelo ― nada impede que cumpram o prometido. O trem leva seus passageiros do centro de uma cidade até o coração de outra. Confortável e silenciosamente e, o que é ainda mais importante: sem poluir.

No Brasil, o material ferroviário foi liquidado, mas sobrou o traçado das linhas. Pode não parecer, mas a existência dessas rotas já é um grande passo: elimina ― ou diminui drasticamente ― o gasto com expropriações.

Por que não reabilitar a linha Campinas-SP-Rio, já existente? Que se refaça o traçado de certas curvas para permitir velocidade mais elevada. Que se reinstalem os dormentes. Que se invista em material, que se reabram as antigas estações, que se construam novas. Tudo isso custará infinitamente menos que um trem-bala. E ainda sobrará muito pano para mangas. Se as malversações permitirem, vai dar para reabilitar toda a rede ferroviária do Sudeste brasileiro.

Conosco ninguém podosco.

Premi Internacional de Catalunya

José Horta Manzano

Poucos meses atrás, o governo da Região Autônoma da Catalunha solicitou, a contragosto, ajuda de Madrid. Suas contas estavam tão sufocadas que, sem um rescate de 5 bilhões de euros, simplesmente não fechariam.

Alguns dias atrás, o mesmo governo da rebelde região entregou ao Lula o Premi Internacional Catalunya, representado por uma estatueta mais um polpudo cheque de 80 mil euros (215 mil reais). Essa distinção honra pessoas «cuja trajetória tenha contribuído para promover valores culturais, científicos e humanos».

EuroPor uma dessas coincidências de que a História conserva o segredo, a cerimonia de entrega da honraria coincidiu com o desfecho do julgamento do Mensalão pelo STF. Os jornalistas queriam, a todo custo, colher as primeiras impressões e os comentários do Lula. Tirando o antigo presidente do Brasil, ninguém estava preocupado com o prêmio. O que todos queriam mesmo era ouvir o que o figurão tinha a dizer.

Perderam seu tempo. O Grande Timoneiro tupiniquim terá grandes qualidades, no entanto, a valentia não é a que sobressai. O homenageado esgueirou-se pelos muros, entrou e saiu pela porta de serviço. Tem mais: deu a sua guarda pretoriana ordens peremptórias para que não fosse tolerada a aproximação de nenhum jornalista.

Veja a informação sobre o prêmio no site da United Press International. E não perca a reportagem do enviado do Estadão sobre a entrega da honraria.

Edificante.

Cuidado com o cadinho!

Cadinho imageJosé Horta Manzano

Terá sido a mornidão, o mormaço, a malemolência tropical? Terá sido o fato de os primeiros estrangeiros que aportaram em nosso País terem vindo sem companhia feminina? Terá sido porque o português, em matéria de cama, é menos complicado que outros europeus?

Acho que ninguém pode afirmar ― qualquer resposta clara e definitiva seria mera conjectura. O fato é que, diferentemente da esmagadora maioria dos países colonizados por europeus, o nosso transformou-se num verdadeiro país miscigenado. Pouquíssimas são as nações com população composta de aportes raciais tão imbricados quanto o Brasil.

A colonização europeia na África não produziu miscigenação. Nem na Austrália, nem na Índia, nem na Nova Zelândia, nem na Indonésia. Se algum vestígio de mistura racial há nas antigas colônias espanholas, é coisa pouca ― com a notável exceção de Cuba. Na América do Norte, pretos e brancos constituem, até hoje, comunidades apartadas, que se toleram.

No Brasil, tutto andava secondo l’antichissima regola del mondo, como canta o segundo ato da Turandot. Seguindo seu destino, o País trilhava o caminho de uma mistura racial cada vez mais acelerada. Eis senão quando… alguns luminares se instalaram no poder e decidiram intervir no cadinho.

Os neorracistas ― que preferem a denominação mais suave de racialistas ― houveram por bem forçar um Congresso dócil a legislar sobre preferências raciais. É humilhante para uma parte da população. Se você for um pouco mais moreno e estiver cursando uma faculdade, todos imaginarão que entrou pelo sistema de quotas, ainda que não seja verdade. Ninguém ousará lhe fazer a pergunta diretamente, cada um imaginará o que bem entender. A partir de agora, os brasileiros são classificados segundo critérios raciais, decisão que seria considerada indecente até poucos anos atrás.

A Química tem suas leis. E leis são feitas para serem respeitadas. Há que dar tempo ao tempo. Aprendizes de feiticeiro andam tentando manipular o cadinho intempestivamente, para acelerar a reação.

Não vai dar certo. O feitiço periga virar contra o feiticeiro. Não se eliminam preconceitos por decreto.

NOTA: Este texto foi inspirado num artigo de Cláudia Collucci, publicado pela Folha de SP online neste 23/12/2012. Siga o link.

O piscinão e o rio

José Horta Manzano

Uma reportagem do Estadão informa que acabam de abrir uma praia artificial na cidade de São Paulo. Escrita com certo desmazelo, a notícia diz que vai ser possível curtir as férias «no mar» (sic) sem sair da cidade. Diz ainda que os termômetros da Zona Leste da cidade chegam a marcar temperaturas 14°C (!) mais elevadas que no resto do município. Afirmação fantasiosa. No dia em que fizer, ao mesmo tempo, 15° na Praça da Sé e 29° no Tatuapé, certamente já terá nevado em Caruaru.

O relaxo da repórter que jogou displicentemente palavras no papel sem refletir no que estava escrevendo ― e, principalmente, sem se preocupar com as consequências de sua incúria ― é sintomático. Entra na categoria do «não-estou-nem-aí», onipresente no dia a dia brasileiro.

O fato de a cidade ter tido de esperar até o século XXI para, enfim, conseguir que as autoridades municipais instalassem uma praia para o lazer de seus habitantes é outro exemplo do mesmo espírito.

Rio Tietê

Rio Tietê há 80 anos

São Paulo, plantada em região chuvosa, cresceu à beira d’água. A natureza é sábia: zonas tropicais, onde precipitações são constantes e abundantes, possuem drenos naturais. Se assim não fosse, pântanos e lagos se teriam formado. A área habitada do município conta com dezenas de escoadouros, fios d’água, tanques, ribeirões, córregos, riachos e rios. Por sinal, a cidade nasceu na junção de dois deles: o Anhangabaú e o Tamanduateí.

A mancha urbana foi-se expandindo lentamente. Um século atrás, a urbanização aproximou-se timidamente do pai de todos, o Tietê. A partir daí, a irresponsabilidade da administração pública encontrou na indiferença da população um forte aliado. Deram-se as mãos. Os danos causados ao conforto urbano têm sido, desde então, imensos e continuados. Em muitos casos, o mal é irreparável, não há volta possível. Um dos desastres maiores é o ‘desaparecimento’ dos cursos d’água que caracterizam nossa região.

Ocultou-se o Ribeirão do Anhangabaú, encoberto pelo vale homônimo. O Córrego do Saracura escondeu-se debaixo da Avenida 9 de Julho. O Ribeirão da Bexiga e o Itororó foram enterrados pela avenida 23 de Maio. Água Branca, Ipiranga, Lavapés, Água Espraiada e tantos outros sumiram do mapa. Literalmente.

Mas a natureza não deixou de ser tropical e úmida. As chuvas continuam caindo e a água, uma vez encharcada a terra, tem de escapar por algum lugar. Privada de seus drenos naturais, ela se acumula em baixios ― daí as enchentes e as inundações.

Outro crime causado pela cupidez imobiliária acumpliciada com sucessivas administrações municipais foi a instalação de um pesado parque industrial nas margens do escoadouro maior: o rio Tietê. Um dos recantos mais bonitos e agradáveis da cidade foi assim trucidado.

Com mais de 1’500km2 de território municipal à disposição, foram escolher justamente o lugar mais aprazível para instalar indústrias poluentes. Aquela região costumava servir para pesca, para lazer e para piqueniques. Onde, até 70 ou 80 anos atrás havia regatas e competições de natação, temos hoje um escoadouro a céu aberto, negro, viscoso, malcheiroso, morto.

Remédio, há. Se os londrinos conseguiram reabilitar seu rio, por que não conseguríamos nós? Pois o governo brasileiro não se vangloriou recentemente de a economia brasileira ter ultrapassado a britânica? E então? O País há de ter capacidade tecnológica e econômica para tratar os dejetos lançados in natura pelas indústrias. Ou não?

Mãos à obra, minha gente! Um Tietê recuperado e despoluído oferecerá possibilidades de lazer bem mais amplas que o acanhado «piscinão» do Tatuapé.

É Natal. Não custa sonhar, não é mesmo? Sai baratinho.

PS: Por coincidência, um dos editoriais do Estadão deste 23/12/2012 discorre sobre uma das tantas consequências do descaso com que vêm sendo tratadas as águas paulistanas desde os tempos de Anchieta.

O desleixo

No Brasil, o desleixo é marca nacional. Poucos povos serão tão negligentes quanto o nosso. Para quem passou a vida em terras de Pindorama, o que digo pode parecer um exagero. No entanto, aqueles que tiveram ocasião de viver alguns anos fora do País hão de se dar conta da veracidade de minha afirmação.

O tristemente conhecido «jeitinho» brasileiro é caminho obrigatório para paliar consequências e efeitos colaterais do desmazelo nacional. Tem-se muitas vezes de apelar para soluções não convencionais ― às vezes até ilegais ― para compensar falhas de planejamento. Em resumo: aquele que tinha sido pago para planejar não fez sua parte direito; esse desleixo deu origem a um mau funcionamento da coisa planejada; o problema terá de ser resolvido, em caráter de urgência, por meio de um jeitinho qualquer.

Nosso País funciona à base de remendos. O descaso faz a vida parecer uma colcha de retalhos. Para dar um exemplo atual, todos sabemos que o País não tem infraestrutura decente para acolher Copas do Mundo. Mas todos ― a começar pelas autoridades maiores ― fecham um olho, fazem de conta que acreditam que tudo está em ordem, e vamos que vamos. Na última hora, se o milagre não acontecer, inventaremos um remendo, uma solução temporária.

Enquanto isso, o erário, fruto do trabalho suado dos brasileiros, continua sangrando. O que escapa ao assalto das quadrilhas de mandachuvas oficiais acaba escorrendo pelo ralo da incúria. Os remendos e os emplastros de última hora saem muito caro.

Qual é a solução? Só há um caminho: conscientizar a população para o problema. Para chegar lá, é preciso alargar a capacidade do povo de entender as falhas que se repetem cronicamente. Só a elevação do nível geral de instrução permitirá chegar lá.

É demorado? Um pouco, sim. Não se preenche em uma semana o vazio deixado pelo descaso de meio milênio. No entanto, vai bastar uma fagulha inicial, que terá de partir, necessariamente, da Autoridade central. Em seguida, acreditem: uma coisa puxa a outra. A universalização e, principalmente, a valorização do ensino tende a alargar as mentes. Profissões Pere Noeltécnicas, hoje desprezadas, também têm de ser valorizadas. Não há por que considerar que um artesão que trabalha com suas mãos vale menos que um intelectual que trabalha com seu cérebro.

No Brasil atual, o título parece ter mais importância que a formação do titulado. Qualquer dia lhes falo da formação profissional na Europa e na Suíça, em particular. Um povo pouco instruído tende a perpetuar esse secular desleixo. E, pior que isso, a porta continua escancarada para oportunistas de todo gênero: gurus, homens providenciais e autodeclarados salvadores da pátria.

Um povo pouco instruído vai continuar acreditando em Papai Noël. Combina com esta época do ano. No debería serlo, pero así nos están saliendo las cosas. Desgraciadamente.

O fim do mundo

José Horta Manzano

O francês Luc Mary, nascido em 1959, historiógrafo de formação, é escritor sui generis. Para seus livros, tem o dom de escolher temas e títulos irresistíveis, daqueles que nos incitam a comprar sem hesitar.

Desde a primeira, de 1980, já assinou mais de uma vintena de obras, praticamente todas variando ao redor de temas histórico-geográficos. Em tradução caseira, aqui está uma pequena coleção de seus títulos:

     * Viagem à extremidade da galáxia : Primeiro guia turístico da Via Láctea
     * Verdades e invencionices da História da França
     * Os quatro Napoleões
     * Essas descobertas que escondem da gente
     * As decisões mais absurdas da História
     * Os últimos segredos da Guerra Fria
     * As mentiras mais incríveis da História
     * O mito do fim do mundo

Após minuciosa pesquisa, Monsieur Mary catalogou nada menos que 183 previsões de fim do mundo já registradas por nossa História ocidental. Dentre aquelas de que sobrou notícia, as mais antigas datam da alta Idade Média.

Conforme a época em que eram feitas, as predições pressagiavam catástrofes baseadas na atualidade de então. Erupções vulcânicas, dilúvios, terremotos, línguas de fogo eram o apocalipse imaginado até meiFim do mundoo século atrás.

A partir da invenção da arma atômica e do surgimento da Guerra Fria, passou-se a conjecturar que o mundo acabaria em consequência de contaminação nuclear.

Desde que, nos anos 60, o homem voltou os olhos para o espaço e imaginou que poderia haver vida alhures, pareceu evidente que o fim do mundo só podia ser obra de invasores alienígenas verdes, baixinhos, orelhudos e mal-intencionados.

Esta 183a. previsão é clara quanto à data: será amanhã, 21 de dezembro de 2012, sem falta. No entanto, o presságio é menos preciso quanto aos meios. Um asteroide? Uma invasão de homenzinhos verdes? Um dilúvio universal? Sabe-se lá.

Para quem fizer questão de sobreviver, há um meio infalível ― pelo menos é o que assegura um guru da localidade de Bugarach, aldeia de menos de 200 almas, situada no sul da França. Segundo a previsão do guia, um vórtice se abrirá naquele ponto preciso do planeta, sugará os humanos que por lá se encontrarem e os transportará para lugar seguro.

A municipalidade, assustada com o previsível afluxo de turistas, de crédulos e de curiosos, pediu ajuda a Paris. O governo tratou de despachar forças policiais para cingir o vilarejo e impedir a entrada desse povaréu todo. A partir de hoje, já ninguém mais pode entrar.

É pena. Poucos serão salvos pelo remoinho providencial. Quem viver verá.

Lunfardo

Você sabia?

José Horta Manzano

Lunfardo é a gíria que nasceu e cresceu em Buenos Aires, na malavita portenha, no submundo dos fora da lei. Com o passar das décadas, um número cada vez maior de expressões foi caindo, digamos assim, no “domínio público”. Palavras e expressões antes reservadas a bandidos são hoje utilizadas no dia a dia por pessoas comuns.

Surpreendentemente, muitos desses termos de argot argentino passaram ao português brasileiro. Não se sabe direito se atravessaram a fronteira ou se vieram de contrabando embutidos na letra de velhos tangos. Talvez um pouco de cada. O fato é que usamos, sem saber, gíria importada. Para os ultranacionalistas, pode até parecer um escândalo. No fundo, é simplesmente um aporte a mais, uma contribuição para a riqueza de nossa fala.

by Oskar Weiss (1944-), artista suíço

Aqui está uma pequena coletânea de expressões lunfardas e suas correspondentes brasileiras

Lunfardo       Brasileiro
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Machete          Macete (ajuda-memória)
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Malandro         Malandro
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Pirao                 Pirado
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Mamado            Mamado (bêbado)
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Campana         Campana (ajudante de ladrão que vigia)
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Mancar             Se mancar (compreender)
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Cana                 Cana (prisão)
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Matina              Matina (manhã cedo)
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Mortadela         Presunto (cadáver)
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Patota               Patota (bando)
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Punga              Punguista (batedor de carteira)
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Vivo                  Vivo (astuto)
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Bacanazo         Bacana (refinado)
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Bancar               Bancar (pagar)
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Dar bola           Dar bola (prestar atenção)
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Bronca             Bronca (raiva)
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Chupado         Chupado (bêbado)
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Burro                Burro (ignorante) (1)
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Tira                   Tira (investigador de polícia)
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Labia                 Lábia
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Mina                 Mina (moça)
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Llenar               Encher (aborrecer)
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Lleno                Cheio (mal-humorado)
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Cabrero            Cabreiro (furioso)
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Mangos            Reais (dinheiro)
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Caradura          Caradura
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Catinga             Catinga (mau cheiro corporal)
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Manyado           Manjado (conhecido)
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Chumbo            Chumbo (bala de revólver)
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Pechar               Peitar
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Coco                  Coco (cabeça)
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Gozar                 Gozar (zombar) (2)
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Grupo                Grupo (mentira, história inventada)
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Gurí                    Guri (criança) (3)
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(1) Normalmente, burro é usado para qualificar alguém cabeçudo
(2) Os espanhóis usam gozar com o sentido de passar um bom momento. Para dizer zombar, preferem mofarse
(3) Alguns etimólogos atribuem a essa palavra origem tupi, o que explicaria que se encontre no castelhano platino e também no português do Brasil

Juristas e advogados

José Horta Manzano

No Brasil, «não há curso de advocacia, mas bacharelado em Direito». As palavras não são minhas, mas de Marcus Vinicius Coêlho, Secretário-geral do Conselho Federal da OAB. Estão no artigo que ele publica no Estadão deste 18 de dezembro.

O Brasil não é o único a regulamentar a profissão dos que se decidem pelo estudo das leis. Conheço o ordenamento helvético e dele posso falar.

Também na Suíça, as escolas de Direito não formam advogados (avocats), mas bacharéis em direito (juristes). Muitos dos formados não se interessam em exercer a advocacia. São inúmeras as possibilidades de emprego para juristas.

Grandes multinacionais, sindicatos de trabalhadores, companhias de seguro, federações patronais, todas essas entidades contam com um departamento jurídico. Precisam, naturalmente, de profissionais que conheçam a fundo as leis, que possam elaborar pareceres, que sejam capazes de aconselhar a diretoria. Não seria vantajoso, para esse tipo de empregador, substituir Diplômeo corpo de juristas por advogados. Os causídicos, além de pouco ou nada acrescentar ao que se espera da Consultoria Jurídica, iam fatalmente acabar se sentindo frustrados por não exercer a profissão tal como a haviam sonhado.

Conseguindo ter sucesso no exame final do curso de direito, o novo bacharel suíço que desejar obter seu diploma de advogado (brevet d’avocat) ainda tem caminho pela frente.

O bacharel tem a obrigação de trabalhar durante um ou dois anos, dependendo do cantão, como estagiário num gabinete de advocacia. Sem direito ao título de advogado, naturalmente. O estágio pode igualmente ser cumprido num tribunal ou numa repartição cantonal ou federal.

Ao final desse período de aprendizado, o candidato terá de prestar um exame para obtenção do diploma de advogado (brevet d’avocat). Mas, antes disso, terá de apresentar, além do certificado de jurista, um comprovante de ter feito um master em Direito, uma prova de já ter emprego garantido num gabinete de advocacia, um certificado de idoneidade moral, um atestado negativo de antecedentes criminais (a «ficha-limpa» suíça) e um atestado negativo de cartório de protestos. Ufa!

Pensa que terminou? Ainda falta um pouco. Se o candidato conseguir reunir todas as qualificações e todos os documentos, pode prestar o exame. Se for aprovado, receberá seu diploma de advogado (brevet cantonal d’avocat). Com esse canudo no bolso, poderá ser funcionário assalariado de um escritório de advocacia. Caso pretenda abrir seu próprio gabinete, ainda falta um degrau: terá de inscrever-se obrigatoriamente no fórum da região onde pretende exercer. Só então será um profissional de pleno direito.

À vista disso tudo, fica difícil entender por que 18 (dezoito!) projetos tramitam atualmente pela Câmara Federal de Brasília visando todos a extinguir o temido Exame da Ordem. O advogado é um profissional que tanto pode representar a salvação como pode provocar a condena de um cidadão. Não é uma profissão vulgar nem trivial.

Sem ser a panaceia, o Exame da Ordem é uma garantia mínima de que os interesses dos clientes do futuro advogado serão corretamente defendidos.

Assim falava minha avó

Texto de autoria de Tereza Halliday, artesã de textos
publicado originalmente no Diário de Pernambuco de 3/12/2012

Chamava resfriado de defluxo e ladrão de gatuno ou larápio. Criança desobediente era mal-ouvida. Piada, gracejo, era pilhéria. Político desavergonhado? Um salafrário. Cacete dGrand-mèreesignava coisa chata, tediosa; costurar era coser (com s, evidentemente). Tinha nome preciso para mal-estar indefinido: macacoa. O dicionário o registra como “doença sem importância; indisposição”.  Mandava apagar com borracha um erro escrito a lápis, dizendo: “Raspe”. A fim de que lhe entregassem um objeto, pedia assim: “Dê cá…”

Misturar numa mesma frase a segunda e a terceira pessoa do singular ― o “tu” e o “você” ― era “coisa de gente inculta em geral e mau hábito de cariocas em particular”. Isto num tempo em que tal destempero de concordância ainda não era perpetrado por brasileiros de norte a sul. Pronunciava os infinitivos dos verbos com os corretos erres finais: partir, querer, contar… O ditongo “ei” era pronunciado em sua plenitude: janeiro, primeira. Corrigia imediatamente se avacalhássemos para “janero” e “primero”. Nunca, jamais em tempo algum de seus 70 anos de vida usou o pronome demonstrativo “esse” em lugar de “este”. E não tinha comiseração por gente letrada que usasse descuidadamente o português.

Pedante? Empolada? De jeito nenhum. Apenas dava testemunho da riqueza do idioma nacional como instrumento de precisão ou de linguagem figurada. Seu uso natural e competente do vernáculo muito me beneficiou, desde tenra idade. Foi professora de mão cheia, como tantas da sua geração. Formada pelo lendário Colégio Santa Margarida, Artemísia Sampaio Tavares tornou-se inesquecível para todos os seus ex-alunos, seja da escolinha do Arruda, seja filhos e netos. De uma carta, entre muitas que me escreveu quando passamos um ano separadas, destaco este primor de redação: “Notícias e novidades, aqui t´as envio cuidadosamente para não esquecer qualquer”. Meu saudoso mestre Sebastião de Albuquerque e minha sempre admirada professora Luzinete Pessoa haveriam de dar-lhe nota dez.

Sob fortíssima influência de minha avó, ainda sinto gastura, arrepios, sustos e desgosto com o atual descalabro (outro termo de sua preferência) no português escrito por aí afora, em todas as classes sociais. Nem ouso reclamar da linguagem oral, mais permissiva, mais informal, mais flexível. Não obstante, mesmo a tolerância linguística tem limites. Quando ouço “pode vim”, parece que estou vendo seu olhar consternado seguido de correção maternal. Consola-me saber que Dad Squarisi, perita em língua portuguesa e titular do Blog da Dad, seria também implacável, avisando que “Deus castiga” tal despautério.

A meia-entrada

Meia-entrada

Meia-entrada

José Horta Manzano

Um projeto de lei que estabelece obrigatoriedade de concessão de meia-entrada em manifestações culturais e esportivas está tramitando pela Câmara. Dado que já foi aprovado no Senado, deverá receber, dentro de pouco tempo, a bendição dos deputados. Vai tornar-se lei, uma lei estranha.

Vale-se do velho e conhecido truque de dar esmola com o dinheiro alheio. A lei obriga os organizadores de espetáculos a conceder favores a este ou àquele grupo, mas quem fica com o prejuízo são os próprios empresários. O governo fica com o papel de galã bonzinho sem ter de desembolsar um só real. Genial!

Como dizem os italianos, fatta la legge, fatta la burla, nem bem a lei acabou de ser votada, já aparece a maneira de burlá-la. No caso das meias-entradas, é relativamente simples: incha-se artificialmente o preço do ingresso normal.

Ou alguém imaginou que o empresário fosse enfiar a mão no bolso para distribuir esmolas obrigatórias? Grandes manifestações não são necessariamente obras caritativas. Ao fim e ao cabo, quem paga são os próprios espectadores.

Posso até admitir que preço de bens básicos seja, não digo controlado, mas fiscalizado pelo governo. Os cuidados com a saúde, os alimentos básicos, o transporte coletivo, entre outros, são necessidades essenciais do cidadão. É admissível ― e, até certo ponto, desejável ― que as autoridades interfiram na tarificação.

Outra coisa são «manifestações culturais e esportivas», nome chique para enfeitar a realidade tosca: estamos falando de jogo de futebol. Manifestações culturais, além de raras, não atraem multidões no Brasil.

Parece que a indústria de carteiras falsas de estudante anda florescendo no País. Também, pudera…

Brasília by Cingapura

Brasília by Cingapura, NÃO!

Brasília by Cingapura, NÃO!

José Horta Manzano

Pode-se apreciar ou não o estilo de Niemeyer. Cada um é livre de idolatrar ou de detestar o conceptor de muitos prédios de Brasília. De gustibus, non disputandum.

O que não cai bem é conspurcar a memória do arquiteto. Mas isso não parece incomodar mandachuvas de Brasília.

A enxurrada de falcatruas que têm vindo à tona estes últimos tempos ainda está longe de terminar. Você provavelmente ouviu falar do movimento «Brasília by Cingapura, não!». Há algo pestilencial nesse contrato feito, pelo que dizem os jornais, sem licitação.

O futuro de Brasília pensado pelos chineses de Singapura? Acho que, desta vez, estão indo longe demais. Os brasileiros estamos sendo tratados de boçais. Alguns podem até sê-lo, mas a maioria de nosso povo é simplesmente mal-informada. Daí a raiva que dá ver que figurões se aproveitam dessa ignorância generalizada para locupletar-se.

Para quem esteve de férias no planeta Marte nos últimos dias, está aqui a notícia. No Estadão e no site do IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil, secção RJ.

Não estivéssemos em dezembro, eu acreditaria num primeiro de abril.

Uma disputa enrolada

Primo Carbonari 2José Horta Manzano

Alguns meses atrás, a Folha de São Paulo publicou um texto do jornalista Rodrigo Salem. A reportagem descreve uma complicada pendenga judicial que tem a ver com rolos de filmes antigos. O pomo da discórdia são 13 mil rolos de documentários feitos por Primo Carbonari em 50 anos de trabalho. Um testemunho insubstituível de nossa História.

Litígios judiciais são corriqueiros. Sua frequência, alás, tem aumentado consideravelmente nestes tempos estranhos, em que tendemos a remedar comportamentos importados nunca dantes vistos neste País. Onde antigamente o bom senso e a boa vontade resolviam, depende-se hoje de decisão judicial. Lentas, as brigas se arrastam por anos. E sempre garantem à parte descontente o direito a recurso e a toda a parafernália que se costuma desembainhar nessas ocasiões.

Primo Carbonari 1

Primo Carbonari

Já litígios envolvendo rolos de filmes antigos são mais raros. É notória a indigência de nossa historiografia ilustrada. Fotos e filmes antigos são material escasso nesta parte do mundo. O Brasil orgulha-se de ter sido o primeiro país da América Latina a contar com a televisão. No entanto, se é verdade que, no recuado ano de 1950, alguns paulistanos privilegiados já podiam sintonizar o primeiro canal de tevê, poucas imagens dos anos pioneiros foram conservadas. Procure o leitor por registros dos primeiros 20 anos: excetuados retalhos de gravações miraculosamente conservados, não encontrará praticamente nada. Perdeu-se tudo. A ninguém ocorreu que estavam fazendo (e apagando) História.

Quem tem mais de 40 ou 50 anos já assistiu algum dia a um cinejornal de Primo Carbonari. Era praxe naqueles tempos pré-internet em que as imagens do mundo nos chegavam pelos jornais impressos, em fotos de qualidade sofrível. Assistir a um daqueles jornais cinematográficos era um colírio. Apesar da ausência de cor, as pessoas e os objetos eram visíveis, nítidos, enormes, se mexiam, tinham vida. Sem falar no fundo sonoro e na elocução caprichada dos narradores.

Como sabemos todos, filmes antigos deterioram-se com o tempo. Para perenizá-los, a melhor maneira é a digitalização. Não posso nem quero entrar no mérito do litígio sobre os documentários de Carbonari ― quando se toma o bonde andando, é melhor não se meter em briga de passageiros. Independentemente disso, acho que a memória nacional não deveria estar sujeita a contingências judiciais.

Faz seis meses que não se ouve mais falar na disputa pelos filmes documentários. Do jeito que se arrastam as coisas, a cada dia que passa mais um registro de nossa história periga desaparecer. É urgente que o Poder Público intervenha. Não há tempo a perder.

Um povo que despreza sua memória, além de escancarar sua indigência intelectual, condena-se a reviver seu próprio passado. Com as mesmas agruras e os mesmos apuros.

Un chat est un chat

José Horta Manzano

Uma conjectura atormenta filósofos desde a Grécia antiga: mudando o símbolo muda-se a coisa? Em palavrório mais chique: a coisa e seu símbolo são convergentes ou inapelavelmente antinômicos?

Os franceses, com sua longa experiência em matéria de conflitos, afrontamentos, revoluções e guerras, ensinam a «appeler un chat un chat» ― se for um gato, há que dizer que é um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a não ter medo de dizer as coisas como elas são. Dar nome aos bois, diríamos nós outros. Diríamos? Dizíamos, caro leitor, dizíamos.

Até alguns anos atrás, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. Até fenômenos fisiológicamente naturais como a trivial menstruação tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a moça estava «naqueles dias».

Costumes mudam com o passar do tempo. Não há que ser empacado nem caprichoso, que o mundo é assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as expressões. De uns tempos para cá, essa guinada tem-se acelerado em nosso País. É fenômeno importado, mas pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.

Uma lista de nomes e expressões a banir foi instituída. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. Não se fala mais assim, não se diz mais isso, nem pensar em pronunciar aquilo. Fica a desagradável impressão de que mentores mal-intencionados se concertaram para agir conscientemente a fim de acirrar ânimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antagônicos.

Elizete Cardoso

Palavras estranhas ― e nem sempre bem escolhidas ― nos vêm sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substituída por afrodescendente. Ora, há que ter em mente que todos os mulatos são também eurodescendentes, se não, não seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria precedência sobre o euro-? Devemos enxergar aí uma nova discriminação?

O Brasil já foi um país muito mais livre. O que digo pode soar estapafúrdio para os mais jovens, mas é o que ressinto. Éramos pobres, sim, mas podíamos sair à rua sem medo de ser assaltados, não precisávamos viver enjaulados como bichos no zoológico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nomes aos bois.

Hoje os brasileiros são mais ricos (ou menos pobres, conforme o critério estatístico adotado), mas vivem na apreensão permanente do assalto, da violência, da bala perdida, do sequestro relâmpago. São obrigados a cercar-se de jaulas, câmeras de controle, porteiros, vigias. E, para coroar tudo, como morango em cima de bolo de aniversário, já não se pode falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas expressões, policiar nosso discurso.

Será que, de uns dez anos para cá, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos filósofos? Será que, mudando o nome da coisa, mudamos também a essência dela? Será que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente será mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?

Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio ao qual já foram condenados Monteiro Lobato e o Saci-Pererê. Seu samba Mulata Assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional.

E é bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar lá dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa, isso só para começar. Pelas regras de hoje, estão todos em pecado mortal.