Os tenistas

José Horta Manzano

Clima frio

Clima frio

Estes dias realizaram-se no Brasil partidas de tênis de exibição. Alguns dos melhores jogadores do mundo se apresentaram, uma festa! Ainda por cima, coincidiu com um período de calor excepcional. Se alguém não gostou, não ousou reclamar.

O Brasil conseguiu apresentar os dois únicos campeões nacionais que, em 50 anos (meio século), conseguiram a proeza de subir aos pódios mais importantes. Somente dois: Maria Esther Bueno e Gustavo Kürtner.

Concordamos todos que o tênis não é, nunca foi, nem nunca será um esporte de arromba, daqueles de arrastar multidões. Mas, convenhamos, para uma população que, neste meio século, mais que triplicou, passando dos 60 milhões dos anos 50 aos 200 milhões de hoje, dois campeões é muito pouco.

Ainda hoje uma amiga e grande apreciadora de tênis, comentava comigo sobre essa escassez de tenistas tupiniquins. Ela me dizia, muito justamente: “E logo no Brasil, onde faz calor!”. É verdade. Nestas latitudes geladas em que vivemos, não se pode treinar o ano inteiro. Quadras cobertas custam os olhos da cara e não se encontram em cada vilarejo.

Clima quente

Clima quente

Já no Brasil, grosso modo, basta delimitar o espaço, instalar uma rede no meio e… pronto! Pode-se jogar 365 dias por ano ― desde que não chova, é claro. A própria Austrália, que tem clima comparável ao do Brasil mas um décimo de nossa população, é grande produtora de bons tenistas.

Alguém poderia me dizer qual é a razão dessa disparidade? Será que o futebolístico Fuleco não poderia dar uma mãozinha aos abandonados tenistas?

A tutela oficializada

José Horta Manzano

A câmara de Campinas (SP) votou e o prefeito sancionou uma nova lei publicada no Diário Oficial de 6 de dezembro de 2012. O novo preceito obriga bares e restaurantes do município a dar desconto de 50% a clientes que tenham passado por cirurgia de redução de estômago.

Fico aqui pensando se não conviria votar também uma lei que obrigasse vendedores de aparelhos de rádio a dar desconto a clientes que comprovassem ter problemas auditivos.

Para não ficar atrás, cinemas deveriam ser obrigados ― por que não? ― a cobrar meia entrada de todos os que conseguissem provar ter acuidade visual abaixo da média da população. Com justificativa médica, evidentemente.

Donos de companhias de transporte coletivo teriam de ser instados a cobrar meia passagem de passageiros obrigados a viajar de pé por falta de assentos suficientes.

Caminhões sem carga, fazendo viagem de retorno, deveriam, naturalmente, pagar apenas meio pedágio. E assim por diante.

Parece brincadeira. Não tivesse saído no Estadão, eu não acreditaria. É impressionante a tendência que se afirma hoje em dia de transferir a terceiros a responsabilidade que deveria ser de cada um.

Quando éramos pequenos, nossos pais tentaram nos inculcar a noção de responsabilidade. Aprendíamos que cada um devia responder por seus atos. Não se esperava que outros fizessem por nós: cada um tinha de fazer sua parte. Essa era a lógica da época.

Hoje percebo que, mais e mais, o Estado mostra um estranho viés paternalista. «Deixe pra lá, filho, que eu faço por você». É um total contrassenso.

Quem fez cirurgia bariátrica e, em consequência, costuma ingerir alimentos em quantidade menor que a média da população deve evitar frequentar rodízios. Ninguém é obrigado a escolher esse tipo de restaurante. Cabe a cada um decidir onde quer almoçar. Se insistir em instalar-se à mesa de um restaurante de preço fixo, terá de conformar-se com a regra geral. Coma mais ou coma menos, o preço será sempre o mesmo.

Pelo andar da carruagem, dentro de poucos anos o povo brasileiro estará completamente infantilizado. Estarão todos de mão estendida à espera de que alguém tome as decisões que mudarão seu destino.

Um admirável mundo novo.

O treco

O treco imageJosé Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° dezembro 2012

Não sei se terá sido sempre assim ou se é porque hoje em dia a informação circula mais solta. Talvez essa danada de internet ― que, em seus primórdios, foi chamada de information superhighway ― esteja justamente cumprindo sua promessa: desvendar fatos e dar publicidade ao que antes se conseguia ocultar com facilidade.

Ou, quem sabe, o secular e proverbial descaso com que temos tratado a instrução pública esteja cobrando a conta. Pode ser que o decantado ‘jeitinho’ que, durante tanto tempo, foi de grande utilidade para encobrir e para emendar imperfeições do funcionamento do País não esteja mais dando conta do recado.

O fato é que, de uns tempos para cá, temos sido surpreendidos por casos assombrosos, daqueles que, alguns anos atrás, nem roçariam a imaginação do mais fértil dos ficcionistas. No entanto, acontecimentos que, em outra época, teriam causado comoção nacional, já não impressionam mais. Inegavelmente, já não se fazem mais escândalos como antes.

Escândalos antigos, esses sim, eram bons. Duravam um tempão, davam pano para mangas. Os mais antigos se lembrarão de aventuras como o sumiço da urna marajoara, que arrastou o velho Adhemar de Barros diante dos tribunais. Foi pelos anos 50 e durou muito tempo. Era como uma novela. Menos frenética que as atuais, mas distilada em capítulos semanais que tratavam de manter aceso o suspense até o desfecho. Que foi pífio, diga-se de passagem.

Os pecados, os malfeitos, as aberrações de hoje já não provocam mais o mesmo frisson. Tudo o que vem em demasia acaba por banalizar-se. O que é demais cansa. O ritmo dos descalabros tem-se acelerado de tal maneira, que um caso empurra o outro para o esquecimento. Nem bem deu tempo de assimilar uma barbaridade, lá vem outra atrás. Nada mais espanta. Não sobra tempo para assimilar e digerir cada fato. Nossa capacidade de nos indignar tem sido posta à prova, como se tivéssemos todos mergulhado num torvelinho. Está cada dia mais difícil acompanhar.

Veja este florilégio do que aconteceu de um mês para cá: tivemos figurões condenados ― pelo tribunal maior do País! ― a penas de prisão; assistimos impotentes a ondas de assassinato como se estivéssemos em guerra; vimos dirigentes de agências reguladoras serem acusados de malversações; descobrimos que quadros eminentes do governo federal tinham sido afastados em consequência de improbidade administrativa; ficamos sabendo que um banco situado num paraíso fiscal reconheceu que um histórico mandachuva tupiniquim ali escondia dinheiro subtraído ao erário.

Os escândalos são tantos e se sucedem em ritmo tão agitado que o cidadão mediano sente dificuldade de acompanhar. Se acontecimentos tonitruantes já não nos causam indignação, que dirá fatos menores. Se escandalões já não nos comovem, escandalinhos, então, passam batidos.

Vou pedir à elegante leitora e ao fino leitor que preste atenção à série de palavras corriqueiras que vem a seguir: livreco, teatreco, baileco, filmeco, repeteco, xaveco, romanceco, cacareco, padreco, jornaleco, boteco. Nessa lista, dois fatos saltam aos olhos. O primeiro, evidente, é que todas as palavras terminam em eco. O segundo é que todas elas trazem uma carga pejorativa, quando não francamente ofensiva. Não será difícil concluir que o sufixo eco, entre nós, costuma ser usado para rebaixar algo ou alguém. Taí um sufixozinho malicioso. A prudência aconselha a escolher outro, que evitar acidentes é dever de todos.

E o que tem esse eco a ver com os malfeitos nacionais? Chego lá. Esta semana foi anunciado que a mascote da Copa-14 foi batizada… Fuleco. Dizem que o nome foi proposto, junto com outros dois, por um comitê designado pela Fifa. Dizem também que esse nome era o melhor dos três. Mais vale nem perguntar quais eram as outras opções.

¡Vaya nombre feo!, se exclamariam os espanhóis. Os adolescentes, os adultos e os anciãos de Xiririca da Serra, tenho certeza, engrossam o coro: que nome mais feio! Enfim, que é que se pode fazer nestes tempos estranhos em que diktats da Fifa sobrepujam as leis da nação? Vamos de Fuleco mesmo, que não há outro jeito. Coragem, cidadãos, ainda nos restam os olhos para chorar.

Ainda bem que, passados os festejos, a ressaca e a dor de cabeça, a mascote há de descer às profundezas do esquecimento e carregar junto seu nome bizarro. Por desgraça, ai de nós, vão sobrar as dívidas e o prejuízo. Afinal, a alegria do povo tem seu preço. Que treco!

O garrote

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 novembro 2012

Quem já tomou injeção na veia sabe o que é um garrote. Desde que deixou de ser utilizado para o cruel suplício de condenados, o termo designa o cadarço que susta momentaneamente o afluxo de sangue à veia a ser puncionada.

Andei pensando que boa parte de medidas oficiais tomadas com alarde acabam por revelar-se operações para inglês ver, como diria o outro. Como tiros de festim, são ações espalhafatosas, impactantes, feitas para impressionar a galeria. No entanto, teóricas e inconsequentes, essas medidas envelhecem mal e acabam tornando-se mais daninhas que benfazejas. Não passam do que os franceses chamam effet d’annonce, a promessa de mudanças radicais feita quando se sabe que tudo vai continuar como estava. Se não ficar pior.
O garrote
Esses ― vá lá o termo ― embustes envoltos numa aura de generosidade prosperam nestas plagas, mas não são exclusividade nossa. Governos e mandachuvas de todos os quadrantes lançam mão de estratagemas vários para entorpecer temporariamente populações inflamadas.

Tomemos um exemplo forasteiro. Diferentemente do que acontece em outros países europeus, poucos suíços vivem em casa própria. A maioria mora de aluguel. E não é de hoje: essa especificidade helvética vem de longe, do tempo em que as cidades começaram a atrair camponeses pobres e sem meios de adquirir sua própria vivenda. Bancos, grandes empresas e fundos de pensão tornaram-se, aos poucos, os principais proprietários do parque imobiliário.

Como corolário, o grande número de inquilinos fez surgir uma poderosa associação de defesa de seus interesses. Com o tempo, esse grupo adquiriu importância suficiente para pressionar autoridades e incitá-las a adotar leis de proteção aos inquilinos. Uma das mais percutentes é o enquadramento dos aluguéis.

A não ser em casos absolutamente excepcionais, o senhorio suíço não tem o direito de valer-se de uma troca de inquilinos para aumentar o aluguel do imóvel. O valor pago pelo locatário anterior tem de ser mantido, é de lei. Uma vez fixado o aluguel inicial ― e há normas rigorosas para isso também ― ele não poderá mais ser alterado, a não ser nos raros casos previstos em lei. Poderá ser indexado, mas não aumentado. Dito assim, até parece vantajoso para os locatários. Mas toda moeda tem duas faces.

Afugentados pelas rígidas restrições, os investidores vêm evitando, ano após ano, aplicar no mercado imobiliário. Quando se investe, é natural esperar um retorno razoável. Pouco investimento significa poucas construções novas. Ao fim e ao cabo, o mercado imobiliário vai sendo estrangulado. Até aqueles que poderiam, em tese, comprar seu próprio imóvel, fazem as contas e chegam à conclusão de que é preferível continuar sendo inquilinos. De qualquer maneira, o aluguel não aumentará. Então, por que se privar?

Nessa história toda, quem sai perdendo é justamente aquele que se pretendia proteger. O jovem recém-chegado à maioridade não encontra onde morar, por mais que procure. Construções novas são alugadas a peso de ouro, enquanto imóveis antigos já estão todos irremediavelmente ocupados.

Está aí o exemplo de uma legislação que surtiu efeito diametralmente oposto à intenção inicial. Ao invés de proteger o locatário, o feixe de leis restritivas acabou por prejudicá-lo. O mercado foi garroteado.

Tomemos agora um exemplo brasileiro e atual. Novas disposições legais obrigam estabelecimentos de ensino a reservar quotas para alunos oriundos de determinadas categorias da população.

Deixemos, por um instante, a vertente ideológica e filosófica do fato. Ideólogos estão aí justamente para ideologizar. Aos filósofos, cabe filosofar. Não invadamos terreno alheio. Sem pretender julgar a pertinência dessa curiosa seleção de alunos por padrões outros que a habitual meritocracia, antevejo aí, a médio prazo, um efeito perverso.

Como procederão os responsáveis pela contratação de profissionais dentro de, digamos, 10 anos? Os postulantes que provierem dos extratos da população que ora se imagina proteger perigam ter seus currículos automaticamente descartados. O beneficiário do sistema de quotas, ainda que estiver plenamente capacitado a assumir e bem desempenhar a função à qual se candidata, arrisca-se a passar o resto da vida à sombra do estigma e da rejeição que acreditava haver esconjurado. Malgrado sua nobre intenção, a norma das quotas terá sido medida traiçoeira.

O garrote utilizado na injeção endovenosa é transitório. Desata-se, e ele sai de cena. O currículo de um profissional é para a vida. Estaremos garroteando o futuro de uma parte significativa de nossos jovens?

Fui cassado

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 outubro 2012

Nos últimos 120 anos, o Brasil conheceu diversas ameaças à ordem política vigente. Algumas vingaram, outras não. Talvez a que mais nos tenha marcado, pelo menos é o que registra a historiografia oficial, foi a que despediu o regime imperial, embarcou a família reinante num vapor e instituiu novo regime. Falo, naturalmente, do que aconteceu em 1889, um golpe descrito inicialmente como ‘provisório’, mas que, salvo alguns parênteses, perdura até nossos dias.

Algumas ameaças à ordem foram chamadas revoluções, como a de 1924, a de 1930, a de 1932. Houve contendas de fundo messiânico, como a que rebentou no sertão baiano em fins do século XIX, aquela que, de tão impactante, passou à história com o vultoso título de Guerra de Canudos. Outras revoltas houve, como a Guerrilha do Araguaia, nos tempos de Juscelino. Golpes de palácio se passaram em relativa surdina, como o de 1945, que depôs Getúlio, e o de 1955, urdido para garantir a posse do novo presidente.

Houve ainda movimentos diversos e outros sustos como em 1922, quando se rebelaram oficiais do Forte de Copacabana. Uma dessas tentativas teve direito a nome sui generis: a Intentona de 1935. O século XX conheceu ainda uma reviravolta na ordem política em 1964, aquela que começou como alegre revolução e acabou se transformando em golpe duradouro e bem menos divertido que quando começou.

Poucas dessas cambalhotas ousaram alterar o nome do País. Por coerência, o golpe que passou à posteridade como Proclamação da República não teve outra opção: não ficava bem, instaurado o novo regime, continuar chamando o País de império. Ainda por cima, os teóricos republicanos tinham mergulhado de cabeça no positivismo de Auguste Comte. O nome da nação passou a ser Estados Unidos do Brasil. A lógica não deixava alternativa. Essa adaptação nos deixava em sintonia com vários outros Estados do continente.

Pelo fim dos anos 60, sabe-se lá por que recôndita razão, veio nova alteração. De Estados Unidos, passamos a República Federativa. Eu me senti cassado. Aliás, sinto-me até hoje. Minha cédula de identidade ― a original, que guardo com muito carinho e orgulho ― estampa, em letras brancas sobre fundo verde, Estados Unidos do Brasil. Não tendo sido consultado sobre a mudança, senti-me frustrado. Mas não há que reclamar: eram tempos de exceção e os que mandavam não costumavam consultar. Concertavam-se e impunham. Manifestações públicas de desacordo não eram particularmente bem-vindas.

E o barco seguiu. Um dia, uma louvável iniciativa instituiu o Mercosul. Apesar do nome insólito, a ideia de instaurar uma zona de livre comércio ― união aduaneira, como dizem pomposamente ― parecia boa, uma promessa de dias melhores. O bloco, como é chamado, procurava enfiar seus pés nas pegadas deixadas pela Comunidade Europeia. O caminho tinha tudo para dar certo.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

Hoje, passados mais de 20 anos, políticos são obrigados a reconhecer, à boca pequena, o que economistas bradam há tempos: não está dando certo. Não como tinha sido previsto, pelo menos. Populismo, vaidades pessoais, personalidades sulfurosas têm desvirtuado os objetivos e entravado o andamento. É possível que um dia, num futuro ainda distante, a coligação encontre seu caminho. Encontrará, com toda certeza, mas tudo indica que não é para amanhã.

Outro dia tive de renovar meu passaporte. O atendimento, em consulado fora do País, foi impressionante: hora marcada, funcionários gentis, balinhas de brinde, um por favor aqui, um desculpe ali. Fabuloso. A surpresa e o susto vieram depois. A surpresa foi por causa da nova cor. Desde o tempo em que ‘côr’ ainda levava acento, nosso passaporte sempre teve capa verde. Pois agora é azul. Por que não?, pensei. Afinal, é uma das cores de nossa bandeira. O susto veio em seguida.

Encimando a capa do precioso documento, estava lá, com todas as letras: MERCOSUL. O nome do Brasil só aparecia mais abaixo, como se de secundária importância fosse. Senti-me de novo cassado. E, desta vez, não foi em consequência de nenhum golpe, de nenhuma revolução, nem mesmo de uma guerra. Foi por mera decisão burocrática.

De forma brutal, dei-me conta de que somos todos agora cidadãos não mais de um país, mas de uma União Aduaneira. Os luminares que tomaram essa extravagante decisão não se preocuparam em consultar seus concidadãos. O roubo de dinheiro público, tão em moda atualmente, é picuinha se comparado ao roubo da nacionalidade de 200 milhões de brasileiros.

Mercossulino? Jamais! Quero meu País de volta!

Paralimpismo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° setembro 2012

Enganam-se o gentil leitor e a distinta leitora se imaginarem que estou aqui, a mando de sabe-se lá que multinacional, cumprindo a nobre missão de apresentar-lhes novo produto de limpeza. O que parece nem sempre é, como sabem todos os que, um dia, já passaram pela experiência de levar gato por lebre. Comecemos pelo começo, que dá mais certo.

Sentindo os ventos fétidos que prenunciavam as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, um certo Dr. Ludwig Guttman, cirurgião do Hospital Judeu de Breslau (hoje Wroclaw), deixou a Alemanha em 1939 e se refugiou na Inglaterra, onde continuou a exercer seu ofício.

Os Jogos Olímpicos previstos para 1940 e para 1944 não se realizaram, por razão de conflito mundial. Mas Londres fez questão de sediar os de 1948. Quis mostrar ao mundo que, apesar das perdas, dos bombardeios, das privações, o velho leão ainda estava de pé, alerta, pronto para mostrar-se sob seu perfil mais favorável.

Os combates haviam deixado um rastro de mutilados e estropiados. Dr. Guttman teve a brilhante ideia de valer-se dos holofotes dos Jogos Olímpicos para promover uma manifestação paralela, exclusivamente dedicada a atletas cadeirantes. Diga-se logo que a ideia não despertou no público nenhum entusiasmo delirante. A vista daqueles amputados reavivava feridas dolorosas e ainda não cicatrizadas. Aquilo trazia lembrança do que todos queriam justamente esquecer. Apesar de o bom doutor ter tentado oficializar sua iniciativa, o sucesso foi tênue. Ainda não era a hora.

A ideia cochilou. Foi preciso que uma geração inteira se passasse para que a humanidade estivesse pronta a aceitar a novidade. Veio aos poucos. Já em 1960, nos Jogos de Roma, houve um embrião de competições para atletas diminuídos por defeitos físicos. Pouco a pouco, a nova prática foi ganhando os espíritos, e diretórios nacionais foram-se formando. Logo veio a necessidade de criar um comitê internacional para coordenar os diretórios nacionais da nova modalidade esportiva. Em 1989, fundou-se em Düsseldorf o organismo tutelar. Faltava dar-lhe o nome.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

Não houve grandes discussões. Tomou-se o prefixo grego παρα (para), que evoca a semelhança, a proximidade, e juntou-se-lhe o nome tradicional das competições. Nasceram assim os Jogos Paraolímpicos. As duas raízes gregas compuseram um adjetivo novo, claro, explícito. Ingleses, alemães, franceses, castelhanos decidiram amputar a primeira letra do nome principal. Para nós, soa estranho. Resultaram formas como Paralympic Games, Paralympische Spiele, Jeux Paralympiques, Juegos Paralímpicos. Parece produto de limpeza.

Pelo menos desta vez — é tão raro, daí nosso orgulho — foi-nos permitido desdenhar com certa superioridade da falta de cultura dos falantes dessas línguas. Nós, com nossos Jogos Paraolímpicos, havíamos tido a sabedoria de manter o aspecto, o som e a ideia, tudo sem deturpar nenhuma palavra! Foi envaidecedor, digo sinceramente. No tempo em que ainda era permitido se exprimir assim, cheguei a pensar: «eles, que são brancos, que se entendam».

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ao contrário do que cantava Eduardo das Neves na marchinha que compôs em 1902 em homenagem a Santos Dumont — «a Europa curvou-se ante o Brasil» —, desta vez fomos nós que sucumbimos. O Brasil acabou dobrando-se diante da Europa.

Não sei quem teve a fabulosa ideia, nem quando esse espantoso estalo terá ocorrido. O fato é que a palavra tradicional foi atirada à lata de lixo da história. Atropelamos o espírito de nossa língua. Foram ignorados os usos e costumes de nossa norma culta que, tradicionalmente, impelem o prefixo a adaptar-se ao nome. Mil anos de formação de nosso falar foram alegremente desconsiderados. Se era para encurtar, que se oficializasse ‘parolímpicos’. Seria uma forma intermerdiária, nem lá nem cá, que talvez satisfizesse a gregos e a troianos.

Mas, não. O braço brasileiro da organização traz o exótico (e mui oficial) nome de… Comitê Paralímpico (sic) Brasileiro. Com site e tutti quanti. O nome de origem foi transfigurado através de uma verdadeira política de faroeste, daquelas que primeiro executam o suspeito, para impossibilitar o devido julgamento. Não se julgam cadáveres.

A adulteração foi heresia perpetrada ao arrepio da forma sacramentada pelo Vocabulário Ortográfico da ABL, guardião da língua! Que aqueles que patrocinaram esse ‘malfeito’ levantem os braços ao céu e agradeçam por não se queimarem mais hereges em fogueiras.

Se alguém pensou em colonização cultural, não há de estar longe da verdade.

Absoluto e relativo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 agosto 2012

Tudo é relativo. Está aí uma daquelas frases feitas que todos usamos regularmente. De fato, números e quantidades não têm valor intrínseco. Se lhe perguntarem, assim de chofre, sem preâmbulos: oito é muito? Qualquer resposta sua será puro chute. Oito o quê? Oito pessoas num elevador com capacidade máxima para quatro é muito, evidentemente. Oito assistentes num teatro lírico previsto para mil espectadores é, claro, pouquíssimo.

Assim mesmo, grandes quantidades e grandes números impressionam, ainda que só tenham existência no papel e estejam fora da cogitação de mortais comuns. As pessoas mais abastadas possuem fortunas estimadas em dezenas de bilhões. Bilhões em qualquer moeda, tanto faz. Muito poucos, ainda que espremamos as meninges, seremos capazes de imaginar a diferença entre possuir 30 bilhões e ser dono de 50 bilhões. É a mesma coisa. No entanto, mesmo sem conceber exatamente o que significam esses números, tendemos a respeitá-los.

Nós, brasileiros, somos propensos a admirar grandes números absolutos sem nos perguntar se, no frigir dos ovos, são tão significativos quanto parecem. Acontece com frequência que, relativizados e trocados em miúdos, certos números impressionantes deixem de ser tão grandes como pareciam.

Tenho visto muita gente, peito inflado, afirmar que somos a sexta economia do planeta. Dito assim, sem referencial, parece deveras impressionante.Mas o que geralmente se omite (ou não se sabe) é que nosso país ocupa o quinto lugar em população. Logo, nossa economia deveria ser a quinta, não a sexta. Se ainda lá não chegamos, não há razão para ufanismo. No dia em que nossa economia for não a sexta, nem a quinta, mas a quarta, aí sim! Será chegada a hora de abrir aquele champanhe que jaz no fundo da geladeira há anos.

Vivemos estes dias os Jogos Olímpicos. O mundo está impressionado com o número de medalhas obtidas pela China. Mas relativizemos, caro leitor, relativizemos. Com a população que tem, o país asiático teria de obter 4,3 vezes a quantidade de galardões obtidos pelos EUA. E mais de nove vezes as medalhas russas. E mais de 20 vezes as francesas. Dificilmente alcançará tal excelência.

Falando em Olimpíadas, cá entre nós, quem podia bem fazer um esforçozinho é nosso País. Principalmente em vista dos próximos jogos, no Rio. Nosso melhor desempenho olímpico até hoje — pelo critério de classificação com relação ao número de habitantes — deu-se nos Jogos de Pequim, de 2008, quando ocupamos o 68° lugar entre 88 países medalhados. Em 2004 tínhamos ficado em 67° lugar entre as 74 nações condecoradas. Pouca coisa, não?Absoluto e relativo image

Mas nem tudo é negativo, há que ser otimista, que faz bem ao fígado. Há pouco realizou-se a Eurocopa 2012, uma espécie de Copa do Mundo sem Brasil e Argentina. A Polônia e a Ucrânia foram encarregadas da organização. Antes do torneio, muita gente estava preocupada. Diziam que nenhum dos dois países estava preparado para empresa tão importante. Temia-se o caos. No final, o que é que se viu? Os milhões de telespectadores nada viram além de filmes de propaganda turística, olas, vistas espetaculares dos diferentes estádios tomadas de helicóptero. E, naturalmente, as partidas, que era o que realmente interessava. Será que a organização estava perfeita? Será que os visitantes conseguiram se locomover em trens decentes e em aviões pontuais? Será que a fluência em inglês dos garçons de restaurante deixou a desejar? Ninguém falou nisso. Ninguém ficou sabendo. O que ficou na memória foi o essencial: os jogos e seus resultados.

No Brasil, muitos andam preocupadíssimos com a imagem que o país vai dar daqui a dois anos, quando do próximo Campeonato Mundial de Futebol. Preocupação boba. Assim como ocorreu na Polônia e na Ucrânia, os bilhões de telespectadores que acompanharão os embates não verão senão filmes de propaganda turística, olas, vistas espetaculares dos diferentes estádios tomadas de helicóptero. E, naturalmente, as partidas. As agruras — se houver — ficarão circunscritas à memória individual daquela meia dúzia de visitantes que ousarão vir ver as coisas in loco.

Longe de mim a intenção pérfida de incentivar os responsáveis pela organização da Copa 2014 a fazer corpo mais mole do que já estão fazendo. Continuemos a trabalhar como se nos preparássemos para um julgamento severo. Mesmo se, no fundo, sabemos que não será assim. O marketing atual faz milagres. Ao mundo, só as maravilhas serão mostradas. Quem tiver de ganhar dinheiro ganhará. Como sabemos todos, o Brasil é uma festa.