Amigo é coisa para se guardar a sete chaves

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Amigo é aquele que…

Nem se dê ao trabalho de completar a frase, identificando as qualidades que você espera encontrar numa pessoa para fazer dela um amigo. Amigos não são escolhidos pela razão, não atendem a pré-requisitos. Eleitos pela alma, podem ser encontrados em diferentes formatos, tamanhos, cores e estilos. Não são fabricados em série, só podem ser confeccionados artesanalmente, cozidos em fogo brando e moldados de forma customizada. E, a cada vez que ganhamos um, novas surpresas e encantamentos nos esperam ao abrirmos a caixa.

Todos vêm com uma advertência clara já na própria embalagem: Atenção, este produto não contém promessa de concordância eterna e incondicional. Necessário explorar todas as características incorporadas de fábrica antes de julgar sua adequação. Não serão aceitos pedidos de devolução ou substituição por quebra caso fique comprovado que eventuais disfunções se deveram a mau uso.

Amizade não é resultado desejado. É um longo processo bilateral de ajuste, de um paciente aparar de arestas e de um corajoso desejo de contornar todos os obstáculos do caminho. Além da disposição de recomeçar sempre, é claro. A parte mais difícil de uma relação fraterna como essa é, sem sombra de dúvida, a que diz respeito à revisão e atualização das imagens um do outro. Muitas vezes nos prendemos nostalgicamente à configuração que a relação tinha em seu início, impedindo que ela floresça e frutifique como e quando quiser. Amizade é semente frágil que necessita de terreno anímico apropriado para prosperar e de muito sol de propósitos em comum para desabrochar em todo o esplendor de sua beleza.

Há uma canção de Jacques Brel que ilustra com perfeição o que quero dizer. Despedindo-se de um amigo que acabou de morrer, ele diz a certa altura: “On n´était pas du même bord mais on cherchait le même port”. De fato, para mim nunca foi preciso estar na mesma margem, o que sempre me importou foi o prazer de navegar e torcer para que os ventos nos empurrassem para o mesmo porto de destino.

Aviso aos navegantes: meu conceito pessoal de amizade é radicalmente diferente do comumente encontrado nas redes sociais hoje em dia. Não é uma categoria abrangente dentro da qual podem ser alocadas todas as pessoas que cruzaram meu caminho em algum momento. Talvez por falta de palavra melhor para designar uma relação que é mais do que simples coleguismo de escola ou de trabalho, concordamos em apresentar a pessoa como “amiga”. Pode ser um bom recurso para transmitir a ideia de que ela é de confiança, mas sempre faltará a essa descrição um elemento fundamental: o da intimidade testada e aprovada pelo tempo.

Também não é um conceito guarda-chuva que incorpore os assim chamados “seguidores”, seja lá o que isso quer dizer. Seguidor, para mim, é alguém que se submete à direção imposta por terceiros por não ter capacidade de se aventurar na criação das próprias trilhas. Para que uma amizade provoque prazer em ser degustada, é preciso que ela contenha um toque de rebeldia, de independência, de altivez, de autodeterminação.

Pensando bem, o único critério racional que considero essencial para qualificar uma pessoa como amiga é que ela seja portadora de irrestrita integridade. Que, na presença dela, eu possa também me mostrar por inteiro, sem temer nem a perda de afeto quando dos descaminhos, nem o tédio dos períodos de calmaria. Aprendi com a vida que uma verdadeira associação só pode ser conseguida por seres inteiros e separados que retêm sua separação mesmo em meio à união. Amizade é celebração contínua do dom da liberdade de espírito e dele se derivam todas as demais qualidades de caráter das duas partes.

Você pode estar se perguntando: por que essa defesa de tese tão apaixonada? Eu respondo com alegria: é que hoje é o dia do nascimento de um amigo querido. Mesmo acreditando que não existem amigos mais especiais do que outros, quero celebrar especialmente a existência e a constância dessa pessoa que vem iluminando minha vida com sua sabedoria há sete décadas. Que nunca se deixou desestimular por inúmeros contratempos nem se intimidar pelo distanciamento geográfico. Que tem a grandeza de perdoar e nunca se cansa de demonstrar compaixão.

Desculpe, Roberto Carlos, mas eu não quero ter um milhão de amigos. Como já dizia Aristóteles, ter muitos amigos é não ter nenhum. Esse amigo de quem vos falo é coisa fina, um artigo especial, raro ‒ e, por isso mesmo, precioso para mim.

Não se constranja, meu amigo, com tamanha efusividade. Em última instância, lembre que estou elogiando a mim mesma por ter sabido pinçá-lo em meio à multidão e por tê-lo conservado por tanto tempo bem perto do meu coração.

Obrigada pela longeva companhia. Que saibamos descortinar novos horizontes para nossa relação todos os dias.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Para fechar o ano

José Horta Manzano

Vamos terminar o ano com algo mais leve. Vou relembrar alguns versos antológicos da MPB. É verdade que são meio antigos, mas ― que fazer? ― obras-primas andam rareando ultimamente. Fiquemos com o que nos marcou. Guardemos o que ninguém jamais poderá apagar.

É impossível reunir, num só post, todos os versos bonitos que nossa música já produziu. Seria uma lista cansativa, de tão extensa. Vou relembrar algumas poucas joias que me ocorrem agora. Dentre elas, uma só não é brasileira, mas é tão bonita que merece ser citada.Musica & letra

A  felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
Tom Jobim & Vinicius de Morais, 1959

E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer. Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.
Chico Buarque, 1967

A lua, furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão.
E tu pisavas os astros distraída.
Orestes Barbosa, 1935

Na Praça Clóvis minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato
Vinte e cinco, francamente, achei barato
Pra me livrar do meu atraso de vida
Paulo Vanzolini, 1967

Tire seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Nélson Cavaquinho, Guilherme de Brito & Alcides Caminha, 1974

À noite, dos seus cabelos os grampos
São feitos de pirilampos
Que a estrelas querem chegar
Ary Barroso, 1935

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Chico Buarque, 1971

Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti
Cartola, 1976

Moi, je t’offrirai des perles de pluie
venues de pays où il ne pleut pas
Eu te darei pérolas de chuva
vindas de países onde não chove
Jacques Brel, 1959

Musical NotesSe nós, nas travessuras das noites eternas,
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir
Tom Jobim & Chico Buarque, 1980

São casas simples,
Com cadeiras na calçada,
E na fachada,
Escrito em cima que é um lar!
Garoto, Vinícius de Moraes & Chico Buarque, 1952 ― 1969

Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima
Paulo Vanzolini, 1963

FELIZ 2013 A TODOS!