Falam de nós – 27

José Horta Manzano

De modo discreto, o Itamaraty destricota a trama trançada por Lula da Silva quando ocupava o trono do Planalto. Naqueles anos de desvario, os olhos gulosos de nosso guia enxergavam longe, bem pra lá da Presidência. O posto de secretário-geral da ONU seria um coroamento digno, uma prova incontestável de que o homem tinha chegado lá. Como proceder? – era a pergunta.

O melhor caminho era angariar a simpatia do maior número de pequenos países, pra conseguir apoio deles na hora decisiva. No que tange às ditaduras africanas, era fácil: bastava conquistar o «dono» de cada país, problema que dinheiro resolve facilmente. Quanto a pequenos Estados democráticos, onde governos mudam ao sabor das eleições, um jeito de agradar era abrindo embaixada lá. Uma representação do Brasil é sempre bem-vinda porque eleva a importância de pequenos países.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O lulopetismo adotou essa solução. Abriu uma rede de embaixadas nossas em ilhotas do Caribe, países que poucos seriam capazes de localizar no mapa e dos quais pouca gente já ouviu falar. Acontece que embaixada dá despesa. Virada a página do lulopetismo e afastada a ideia de o presidente do Brasil se tornar secretário-geral da ONU, as embaixadas em países microscópicos tornaram-se sorvedouro de dinheiro sem retorno nenhum.

Li a notícia no portal russo Sputnik: o Itamaraty está fechando algumas dessas representações. As embaixadas na Dominica (Roseau) e em Antígua e Barbuda (Saint John’s) já fecharam as portas. As próximas a cessar atividades são as de Granada (Saint George), São Cristóvao e Neves (Basseterre) e São Vicente e Granadinas (Kingstown). Considerando o volume de negócios entre o Brasil e esses pequenos países, as embaixadas não farão falta a ninguém. Apesar dos cortes, ainda há muita embaixada cuja existência é difícil justificar.

Foi mal

José Horta Manzano

Baita escorregão! É d’O Globo de hoje. Já ouvi muita acusação contra o presidente dos EUA. Prepotente, autoritário, trapalhão, inconsequente, mentiroso, presunçoso – são algumas delas. É a primeira vez que o vejo acusado de botar quebranto. Parece que a rainha Elizabeth, bem assessorada, já sabia do perigo. Nada como receber informações de primeira mão.

Chamada d’O Globo, 5 junho 2019

Pode até ser verdade; não posso garantir porque não sou amigo de infância de Mr. Trump. Mas, cá entre nós, o autor da chamada quis dizer uma coisa e acabou escrevendo outra. Aquele feitiço que, dizem, certas pessoas têm o condão de lançar com os olhos chama-se mau-olhado. Escreve-se com tracinho. E, naturalmente, é mau, não mal.

Desembarques da Normandia – 75 anos

José Horta Manzano

A história da Europa está salpicada de guerras. Da Idade Média até o fim do século 19, foram centenas de conflitos, uns mais longos, outros menos. Houve a interminável Guerra de Cem Anos, que durou de 1337 a 1453 e envolveu França, Inglaterra e mais uma dozena de principados e ducados. Outras guerras foram mais curtas, como a da Crimeia, travada nos anos 1850 entre a Rússia e uma coalizão de Estados europeus, que durou três anos.

Todos esses conflitos deixaram marcas. Modificaram fronteiras entre Estados. Derrubaram impérios e provocaram o surgimento de outros. Deixaram rastro de milhares e milhares de mortos. Foram determinantes na lenta fermentação que desembocou na Europa como a conhecemos. No entanto, apesar da importância histórica, a memória de todos esses conflitos sobrevive apenas em museus e em livros de história. Não se fazem cerimônias comemorativas.

Com os conflitos do século 20 – principalmente com as duas guerras mundiais – o panorama é outro. São constantemente lembrados pela grande mídia. Dirigentes mundiais se reúnem para comemorar esta ou aquela data. Estes dias, por exemplo, celebra-se o 75° aniversário do maciço desembarque de tropas aliadas nas praias da Normandia (França), operação organizada pra dar cabo da dominação do continente pela Alemanha nazista.

Comemoração do 75° aniversário dos Desembarques da Normandia
Entre outros, distinguem-se: Emmanuel Macron, Theresa May, o príncipe Charles, a Rainha Elizabeth, Donald Trump, Angela Merkel, o primeiro-ministro da Holanda, o primeiro-ministro do Canadá.

Hoje e amanhã, na Inglaterra e na França, estarão reunidos os chefes de Estado dos países que combatiam juntos em 1944. Até Frau Merkel, cujo país estava do outro lado da linha de combate, foi convidada – e compareceu. Só faltou Vladimir Putin, presidente da Rússia, país que era importante aliado à época. Segundo a imprensa britânica, ele não foi convidado. Se for verdade, não me parece justo. Afinal, a solenidade não foi convocada pra homenagear dirigentes atuais, mas pra lembrar o esforço que cada país despendeu faz três quartos de século. Não vale permitir que querelas atuais ofusquem heroísmos passados.

Por que será que as duas guerras mundiais, as do século 20, são lembradas e comemoradas todos os anos, enquanto conflitos mais antigos não saem do museu ou das bibliotecas? Sem dúvida, elas foram infinitamente mais destruidoras que as anteriores, mas não é só esse o motivo. Outros conflitos regionais do século 20, por exemplo, são também evocados com frequência: Guerra Civil Espanhola (1936-1939), Guerras da Iugoslávia (anos 1990), Revolução Húngara (1956).

A razão maior é a existência de imagens. Até meados do século 20, vivíamos num mundo de letras e de sons. O advento da televisão e da internet nos trouxe a imagem, componente hoje indispensável a toda informação. Quando se evocam os reis medievais, só temos alguma gravura colorida que nos mostra vagamente o rosto deles. Para os hábitos atuais, não basta. Só acontecimentos com imagem interessam. E temos fotos e filmes, às vezes abundantes, de todos os conflitos do século 20.

Nossos longínquos descendentes do século 25 terão de nós uma ideia melhor do que a que temos dos personagens medievais. Não estaremos aqui pra conferir, mas é um consolo ter a ilusão de que não seremos esquecidos.

Ministro evangélico

José Horta Manzano

O comportamento de doutor Bolsonaro e dos bolsonarinhos tem marcas peculiares. Uma delas é a intempestividade – qualidade daquilo que ocorre fora do momento ideal. Timing errado é como se deve dizer em portinglês(1). Outra característica dos atuais gestores do país é o costume de dirigir a fala ao auditório presente, esquecendo-se de que tudo o que dizem em público é gravado, filmado e reproduzido para plateia nacional. O Lula costumava fazer isso, só que, naquela época, internet e redes sociais estavam engatinhando. Hoje mudou. O que se diz a um público alegre e receptivo acaba extravasando e chegando aos ouvidos de uma multidão mal-humorada que rechaça aquela ideia. Aí, danou.

Na sexta-feira 31 de maio, o presidente esteve de visita a um templo da associação religiosa Assembleia de Deus, um dos numerosos grupos neopentecostais surgidos nos últimos vinte anos. Sentindo boa receptividade na fervorosa audiência, fincou pé e soltou o verbo. Disse estar convencido de que «está na hora de termos um ministro evangélico no Supremo Tribunal Federal». Abafou. Foi standing ovacionadover (1) durante quase um minuto, duração que o aplausômetro do envelhecido plantel atual de artistas brasileiros já não costuma registrar.

É, mas uma coisa é falar para plateia homogênea e outra é falar para o conjunto do eleitorado. Tudo o que o presidente diz em público, ainda que falando para círculo restrito, acaba ecoando no país inteiro. E a fala se alastra em questão de minutos. Levando em conta esse parâmetro, deduz-se que doutor Bolsonaro não foi muito esperto.

De fato, apesar do crescimento exponencial que vêm conhecendo estes últimos anos, as denominações neopentecostais (ditas ‘evangélicas’) englobam, grosso modo, um terço dos brasileiros. Por exclusão, conclui-se que dois em cada três conterrâneos não são adeptos de nenhum desses movimentos. É um contingente enorme.

Ao preconizar que o próximo ministro a ser nomeado para o STF seja ‘evangélico’, doutor Bolsonaro agrada um terço dos eleitores enquanto irrita os outros dois terços. Não me parece um bom cálculo. O marketing presidencial dá prova de continuar enguiçado.

E tem mais. A Constituição dá ao presidente total liberdade na hora de escolher ministro para o STF. Trocado em miúdos: quem decide é ele mesmo, sem precisar dar satisfações a ninguém. Portanto, além de imprudente, a fala presidencial é intempestiva – ocorre na hora errada. Irrita quem não devia, na hora em que não devia, sem necessidade real. É ruído desnecessário.

(1) Portinglês (ou portuglês, ou portenglish, ou portunglês) é uma língua mista – um crioulo, como dizem os linguistas – formado do encontro de uma língua estrangeira (inglês) com a língua nativa (português). A sintaxe segue o modelo da língua nativa, enquanto o léxico é fortemente alterado pela língua importada. O crioulo fica impregnado de termos ingleses tratados conforme a sintaxe portuguesa.

A parte importada é frequentemente truncada e sistematicamente pronunciada com sonoridade distante do original. Por exemplo, a palavra importada “doping” é pronunciada “dópinh”, quando o original é “dôuping”. Para o falante do crioulo, bem pronunciada ou não, a importada soa mais chique que a reles dopagem nacional – palavra, aliás, dicionarizada.

The Pixuleco

José Horta Manzano

Mr. Donald Trump está sendo esperado em Londres esta segunda-feira. A metade da população inglesa que não quer o Brexit e que não aprecia o jeitão ‘rolo compressor’ do visitante preparou-lhe uma recepção colorida. Inspirados no boneco que reproduz o Lula, inventaram The Pixuleco – a versão britânica do original brasileiro. É um very big balão inflável representando o presidente americano de fralda e topete. Inglês tem senso de humor.

Perfeitamente dentro de seu estilo tosco e brutal, mister Trump tuitou hoje de manhã que gostaria que Boris Johnson, político que já foi prefeito de Londres, assumisse o lugar de primeiro-ministro, em substituição à demissionária Theresa May. O presidente americano é useiro e vezeiro nesse tipo de intromissão em assuntos de outros países, atitude reprovada pela ética internacional.

“The Pixuleco”, o boneco inglês prontinho para homenagear Donald Trump.

O clã que nos dirige já agiu assim. O pai fez isso recentemente ao exprimir publicamente o desejo de que doña Cristina Kirchner não seja eleita nem para a presidência nem para a vice-presidência da Argentina. Quanto ao filho, aquele que funciona como ministro de Relações Exteriores bis, já apareceu em público, nos EUA, com o boné ‘Trump 2020’ enfiado no cocuruto.

Com isso, igualam-se a Trump em prepotência e descortesia. Só que tem um detalhe importantíssimo. Trump dirige o país mais poderoso do planeta, diante do qual os demais dão um reverente passo atrás. As patadas de mister president podem criar antipatia mas não prejudicam os negócios do Estado. Já os Bolsonaros não têm o mesmo poder. Se os EUA têm músculos pra aguentar a volta do bumerangue, o Brasil não tem.

Mas celebremos, irmãos! Para orgulho da raça, saibam todos que já estamos exportando gigantescos bonecos infláveis, uma genuína criação do engenho nacional. Bom mesmo seria se conseguíssemos exportar a corrupção que deu origem ao boneco. Que fosse inteirinha mandada para além-mar e não voltasse mais.

Mãe analfabeta

José Horta Manzano

Tirei esta frase do editorial do Estadão deste domingo:

“Se o recorte for feito, por exemplo, entre jovens negros, residentes em áreas rurais do Nordeste e que a mãe é analfabeta, apenas 8% concluíram o ensino médio até os 18 anos.”

Muitos escribas, seja pra dar prova de maior proximidade com o leitor, seja por outra razão qualquer, reproduzem na escrita a linguagem oral. É um recurso de estilo muito útil, que este blogueiro usa com frequência.

Como sabemos, o português brasileiro apresenta crescente afastamento entre a escrita e a oralidade. Na verdade, ninguém aprende em casa o português dito “certo” ou “correto”. A língua materna de todos nós não tem nome, mas qualquer um concordará: ela é diferente da língua escrita. Esse não é um fenômeno universal. Em países como a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Suécia e tantos outros, a língua falada coincide com a escrita. Se diferenças há, elas se limitam a uma ou outra expressão familiar ou coloquial.

O respeito e o receio que nos inspira a língua culta vem do fato de nos sentirmos inseguros ao lidar com ela. Seria exagero classificar o português culto como língua estrangeira, mas a forma erudita não nos é nada familiar. Pra manejá-la, temos de calçar luvas, usar pinças e trabalhar com muito cuidado.

Em outras terras, o único problema de quem escreve é a ortografia, dificuldade que qualquer corretor automático elimina. Fora isso, quem escreve pode soltar as amarras. Basta escrever como está acostumado a falar, que vai dar certo. Uma delícia que nós outros não conhecemos.

Em contexto informal, o uso de fórmulas coloquiais na escrita é permitido. No editorial de um jornal de referência, cai mal. Pois foi o que fez o Estadão hoje, na frase que destaquei no alto desta página. Convido o distinto leitor a relê-la. Todo o mundo entende, é verdade, mas não é assim que se deve escrever em português culto. A frase é torturada. Pega mal, principalmente inserida em editorial que se alarma com os índices de evasão escolar.

Na linguagem oral, faz muito tempo que o pronome “cujo” desapareceu. Mesmo na escrita, só aparece raramente. Quem escreve, sempre dá um jeito de torcer a frase pra evitar usá-lo. Tivesse sido usado na frase do Estadão, teria aliviado a tortura – que, todos sabem, é proibida pela Constituição!

A frase do jornal reproduziu o formato popular que substituiu o “cujo” pelo “que”. É o que ocorre em frases como:

Aquela moça que o pai morreu (= moça cujo pai morreu)

O livro que a capa estragou (livro cuja capa estragou)

O carro que a porta caiu (carro cuja porta caiu)

No artigo do jornal, mesmo sem o “cujo” teria sido possível evitar essa reprodução da fala popular. Poderiam ter escrito:

“Se o recorte for feito, por exemplo, entre jovens nordestinos negros, com mãe analfabeta e residentes em áreas rurais, (vai-se constatar que) apenas 8% concluíram o ensino médio até os 18 anos.”

Há outras possibilidades de revirar a frase sem escorregar da forma culta para a coloquial. É sempre a mesma história: pra quem sabe, é fácil; pra quem não sabe, é mistério insondável.

Trompe-l’œil ‒ 6

José Horta Manzano

O japonês Akiyoshi Kitaoka (1961-) é professor de Psicologia no College of Letters da Universidade Ritsumeikan, em Kyoto (Japão). Há décadas vem-se especializando no estudo da percepção visual e de ilusões de óptica. Seus trabalhos demonstram que é possível «trapacear» com a visão humana, em especial a visão periférica.

Como se sabe, nossa visão bruta está longe de ser perfeita. As imagens que captamos precisam ser processadas pelo cérebro para fazerem sentido. Ao manipular as informações de que o cérebro necessita para interpretar o quadro, os desenhos do cientista conseguem dar um «nó nos miolos». Acabamos enxergando movimento em imagens estáticas.

Quando se passeiam os olhos pela imagem, as pétalas parecem girar embora estejam perfeitamente estáticas.
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Ao passear os olhos pela imagem, tem-se a impressão de que os corações pulsam.
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O quadrado no centro da folha impressa parece ter relevo e estar destacado do fundo. É ilusão.
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Esta é excelente, basta ampliar a imagem. As rodas parecem girar. Impressionante.
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Nota
Trompe-l’œil (literalmente ‘engana o olho’) é a expressão francesa para ilusão de óptica.

Macron e a casca de banana

José Horta Manzano

A notícia passou meio despercebida na imprensa francesa, neste momento mais preocupada com as consequências das eleições europeias, com o interminável folhetim do Brexit e com os irritantes protestos dos derradeiros Coletes Amarelos. Vamos rebobinar o filme.

Dia 21 de abril, Volodimir Zelenski, jovem ator ucraniano de 41 anos, foi eleito presidente de seu país. Exemplo de ficção que se torna realidade, o moço tinha encarnado, numa minissérie televisiva, um professor de História que se tornava, por acaso, presidente do país. No auge da popularidade mas sem nenhuma experiência política, candidatou-se à Presidência assim como quem não quer nada. Com estonteantes 73% dos votos, venceu, no segundo turno, o presidente atual, que disputava a reeleição. Foi bem sucedido num desafio que nem nosso Tiririca ousou enfrentar!

Como acontece nessas horas, todos os dirigentes do planeta sentiram a necessidade de dar parabéns ao recém-eleito e desejar-lhe boa sorte. Dois humoristas russos, especialistas em dar trotes e pregar peças a personagens importantes, resolveram preparar uma pegadinha pra Monsieur Macron, presidente da França. Valendo-se do caminho mais simples, ligaram para o palácio presidencial francês e deixaram o número de celular do novo presidente. O número, naturalmente, era do celular deles.

Tranquilizados pela voz com sotaque carregado, os responsáveis pelo cerimonial da Presidência francesa não desconfiaram. Transmitiram o número a Emmanuel Macron. Pouco depois, o francês liga para o número que lhe haviam dado e, convencido de que estava a conversar com o novo presidente ucraniano, sente-se à vontade e solta as amarras.

 Do outro lado, a suposta voz do presidente recém-eleito provoca:

«– Veja, Monsieur Macron, com meus 73%, eu me sinto como meu vizinho Vladimir Putin, o presidente da Rússia.»

E Macron, que não perde a ocasião pra responder na lata:

«– É, mas eu tenho a impressão de que o sistema na Ucrânia ainda não está tão bem organizado como na Rússia. Você ainda não botou todos os seus oponentes na cadeia.»

Ai, ai, ai… Os humoristas russos, que tinham gravado tudo, puseram o áudio à disposição em sua conta no Twitter. Estavam à mesa todos os ingredientes de um sério incidente diplomático. Alguns poucos comentaristas franceses se mostraram surpresos pelo fato de o Palácio do Eliseu ter se deixado tapear com tanta facilidade. E também pela imprudência de Macron ao pronunciar palavras sarcásticas contra o presidente da Rússia, país importante e amigo.

Passado um mês, uma constrangida Presidência francesa segue firme na recusa de confirmar o fato. Tampouco emitiu desmentido, o que já é meia confissão. Por seu lado, a embaixada da Rússia em Paris informou não ter intenção de tecer comentários sobre o ocorrido.

Como se vê, não é só nosso presidente linguarudo que se mete em palpos de aranha ao dizer o que não deve a quem não convém. A diferença é que, enquanto outros escorregam na casca de banana que alguém lhes colocou no caminho, doutor Bolsonaro atravessa a rua pra escorregar na casca que avistou na outra calçada.

Outras máximas ― 48

José Horta Manzano

Justiça autoriza transferência do detento Eduardo Cunha de Curitiba a uma prisão carioca.

Furem fur cognoscit, et lupum lupus.
Ladrão reconhece ladrão e lobo reconhece lobo.
Máxima latina

Salsicha, salame e charque

José Horta Manzano

A gente pronunciava salsicha e achava muita graça em quem dizia salchicha. Foi só muitos anos mais tarde que descobri que os castelhanos só conhecem a segunda variante. E só juram por ela. Na língua deles, a palavra foi vítima de assimilação fonética, bem conhecida dos estudiosos.

Dada a lentidão dos órgãos da fala, esse fenômeno de relaxamento ocorre com frequência. De fato, a sequência chi + cha é mais fácil de pronunciar do que si + cha. Este último parzinho requer certa dose de ginástica bucal. Bom exemplo de quebra-língua é o desafio infantil de mandar pronunciar rapidamente «um tigre, dois tigres, três tigres». O exercício é perigoso – experimente. A gente se surpreende ao não ser capaz de pronunciar essas seis palavrinhas com velocidade.

Tanto nossa salsicha quanto a salchicha espanhola derivam do italiano salsiccia, onde o primeiro componente é sal. É da família do salame e de outras salgaduras. O salgamento é um dos métodos mais antigos de conservação de alimentos.

Charcuteria pertence a outra família. É a palavra usada pelos franceses para designar coletivamente os embutidos. O termo se decompõe em chair (=carne) e cuite (=cozida). É caso pouco comum em que o nome do estabelecimento (charcuterie) precede o nome do profissional (charcuitier). Charcuteria corresponde, grosso modo, a nossa salsicharia. Mas, convenhamos, é bem mais chique.

Nossos dicionários dizem da palavra charque (carne seca) que é de origem desconhecida. O dicionário da língua espanhola informa que charque (ou charqui) é palavra platina de origem desconhecida. Sem querer ser mais esperto que os estudiosos, a semelhança com a ‘carne cozida’ francesa (chaircuite) me parece sugestiva. Pode ser apenas coincidência.

Recolha

José Horta Manzano

Uma das lembranças que guardo da infância é a dos ônibus que circulavam com o letreiro «Recolhe». Nem iam ao destino habitual, nem voltavam ao ponto de partida. Aquela palavrinha informal, pura expressão de português caseiro, ia direto ao que interessava. Sem floreios. Quem recolhia? Recolhia o quê? Não tinha importância. A informação era despretensiosa mas eficaz. De um relance, a gente entendia que aquele veículo não estava de brincadeira. Não ia parar. Acontecia, de raro em raro, que o motorista – que a gente chamava então de ‘chofer’ –, condoído da sorte de quem esperava no ponto, desse uma paradinha camarada e embarcasse algum passageiro. O homem atropelava o regulamento mas fazia a alegria de quem se dispusesse a compartilhar aquela viagem ao repousante destino. «Recolhe»…

Não sei se ainda se veem ônibus com convite tão explícito ao descanso e ao adeus às armas como aqueles da minha infância. Espero que sim. Afinal, ônibus também são seres humanos, como diria o outro, e têm direito a um descansozinho.

Li estes dias que a ideia de uma versão moderna de recolhimento perpassa o Congresso. Não visa a mandar veículos para o descanso. Bem mais ambicioso, o objetivo é aposentar o próprio presidente da República. Recolhida ou recolha há de ter soado jeca para os ouvidos de nossos sofisticados parlamentares. Vamos banir esse jeito primitivo de falar, que diabos! O projeto fala em «recall». A realidade é a mesma, mas a palavra estrangeira soa tão melhor. Fica muito chique.

O objetivo é deixar cair um grão de areia na engrenagem da Presidência. Dessacralizá-la. Fazer que o ocupante não se sinta onipotente e blindado contra vento de boreste ou tempestade de bombordo. Em princípio, tudo o que possa levar o presidente a refletir é bem-vindo. O projeto em tramitação, no entanto, parece-me de difícil aplicação. Para lançar um plebiscito revocatório, será preciso colher um número de assinaturas equivalente a 10% dos votantes na eleição precedente. Parece pouco, mas estamos falando de mais de dez milhões de peticionários, uma enormidade! Fica no ar um problema complementar: quem é que vai atestar a veracidade de cada assinatura? Com base em quê? Como evitar assinaturas repetidas?

Nosso país não tem tradição plebiscitária. Não há um órgão depositário da amostra da assinatura de cada cidadão. Não temos um registro de residência dos habitantes. Não vejo como um voto popular revocatório possa um dia ser implantado. O bom e velho impeachment – que já serviu um par de vezes – ainda me parece o único caminho viável. A recolha de presidente por iniciativa popular direta vai ficar pra uma próxima vez.

Cargos & encargos

José Horta Manzano

Ultimamente, os diagnósticos emitidos por gente que entende de política são convergentes quando apontam a causa da paralisia do governo Bolsonaro. Tirando as traquinagens dos bolsonarinhos, que atrapalham mas não paralisam, o motivo maior é o descontentamento de parlamentares. Suas Excelências não estariam sendo contemplados com os cargos que esperavam receber do governo.

Peço vênia para discordar. Suas Excelências não querem cargos. Vamos refletir um pouco.

A palavra cargo pentence a extensa família espalhada por todas as línguas latinas. Em italiano: carica, caricare, incarico, caricatura. Em francês: charge, charger, chargement, décharger. Em espanhol: carga, cargar, encargue, encargamiento. E em nossa língua: carga, carregar, encargo, encarregar, recarregar, descarregar, carregamento. Está também atestada a presença do termo medieval carcare.

Como pode o distinto leitor perceber, todas essas palavras, de perto ou de longe, têm a ver com peso, que lembra esforço, que lembra cansaço, que lembra deus me livre. Cargo é sinônimo de encargo, que é sinônimo de trabalho. Ora a distância que costuma separar nossos parlamentares da noção de esforço se mede em anos-luz. Quer um exemplo? No começo de maio, um dia feriado caiu numa quarta-feira. Foi a conta: a semana inteira foi praticamente enforcada no Congresso. Ninguém ficou em Brasília. Na caradura.

Agora diga-me com toda sinceridade: vosmicê acredita que Suas Excelências estejam buscando cargos? Nem aqui, nem na Lua! Os nobres parlamentares se contentam com as benesses que eventuais cargos lhes possam propiciar. Na verdade, dispensam os cargos. Bastam as benesses. Os governos petistas, especialistas no assunto, tinham entendido isso. Em vez de perder tempo com fachada, distribuíam diretamente as propinas.

Com o passar do tempo, talvez doutor Bolsonaro venha a ser obrigado a dobrar-se à realidade da mecânica parlamentar. Ou quem sabe encontrará a solução miraculosa na qual ninguém havia ainda pensado. Será?

Terremoto – 2

José Horta Manzano

Em nosso país, os terremotos mais frequentes são de natureza política – esses estouram dia sim, outro também. Tremores de terra no sentido original, daqueles que derrubam gentes e prédios, são fenômeno bem mais raro. Ocorrem, às vezes, mas em geral em zonas de escassa habitação, o que suaviza o problema. A gente só fica sabendo quando algum sismógrafo ultrassensível, montado a milhares de quilômetros dali, registra e publica o acontecido. Já nossos hermanos do Peru, do Chile, do Equador, da Colômbia estão muito mais expostos a esse tipo de ocorrência. Quando violentos, os terremotos podem causar perda de muitas vidas além de grande estrago material.

Terremoto de 26 maio 2019

No domingo 26 de maio, forte sismo de magnitude estimada em 7,5 graus na Escala Richter sacudiu a região do Alto Amazonas, no Peru. Foi sentido no país inteiro e até nos vizinhos Equador e Colômbia. É mais que provável que pudesse ter sido sentido também no Brasil, no oeste do Amazonas e no Acre, se essas regiões fossem mais densamente povoadas. Como há pouca gente por ali, só ficamos sabendo porque os sismógrafos peruanos registraram.

Em nota discreta, a notícia foi dada pela mídia brasileira. Como acontece a cada vez, escorregaram na hora de dar os detalhes. O Estadão, por exemplo, escreveu que o epicentro do tremor foi registrado a uma profundidade de 141km. Bobeou. Já falei nisso antes mas, como o erro se repete, repito eu também.

Estadão, 26 maio 2019

Epicentro é o ponto da superfície (da terra ou do mar) situado exatamente acima do lugar onde teve origem a ruptura que causou o terremoto. Portanto, é incorreto dizer que o epicentro está situado a tal profundidade. Está sempre na superfície. A palavra epicentro utiliza o prefixo grego epi = acima, na superfície. O hipocentro é o ponto onde se produziu a ruptura. Esse, sim, está sempre na profundidade.

O escorregão se explica. Pra terremoto político, estamos escolados. Já tremor de terra não é nossa praia. Cada qual com sua especialidade, ué.

Teoria dos conjuntos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 maio 2019.

Na Itália do pós-guerra, a vida era dura. O longo conflito deixou um país exangue e uma economia desarticulada. Todos se davam conta de que a reconstrução ia exigir muito trabalho. Só de pensar, dava desânimo – o que é compreensível. Escaldados pelas estrepolias de um guia iluminado que só lhes havia trazido sangue e lágrimas, os italianos descartavam a ideia de recorrer de novo a um salvador da pátria. O terreno tornou-se então fértil para o florescimento do comunismo, doutrina que prometia progresso e felicidade para todos sem muito esforço. De fato, fundado nos anos 1920, o Partido Comunista Italiano conheceu expansão fenomenal a partir do fim da Segunda Guerra. Chegou a ser o maior partido comunista do mundo ocidental – uma façanha.

Quando da ascensão da agremiação, lá pelo fim dos anos 1950, corria uma anedota reveladora do estado de espírito dos afiliados. Numa cidadezinha recuada, discorria um comício. A certa altura, o orador dirigiu-se a um rapaz de jeitão humilde que assistia atento. Inflamado, perguntou-lhe em voz bem alta pra ser ouvido por todos:

– Se o camarada tivesse duas casas, o que é que faria?

– Ficaria com uma e daria a outra ao partido.

– Muito bem. E se tivesse duas vacas, o que é que faria?

– Ficaria com uma e daria a outra ao partido.

– É assim que se faz. E se tivesse duas bicicletas, o que é que faria?

– Ei! Mas… Duas bicicletas, eu tenho!

À época, não havia gravador de bolso, de modo que ninguém pode confirmar a veracidade do diálogo. Assim mesmo, ele é espelho de como o cidadão comum encara doutrinas e ideologias. Todo ideário é bom até o ponto em que me é favorável. A partir do momento em que começa a exigir de mim um esforço que não estou disposto a fornecer, já não presta. «It’s human nature – é a natureza humana.» O bom camponês de nossa historinha disse amém à cartilha comunista enquanto ela lhe prometia as delícias de viver, sem contrapartida, no mundo do ‘venha a nós’. Quando se deu conta de que o ‘dá cá’ implicava um ‘toma lá’, a coisa azedou.

É que, ao mencionar a partilha das bicicletas, o predicador mostrou como pode ser desestabilizante, na prática, a Teoria dos Conjuntos. De repente, o camponês percebeu que o conjunto de generosos doadores que abriam mão de metade do patrimônio em prol da sociedade incluía também o conjunto dos possuidores de bicicleta – ou seja, ele entrava na dança. Meio cismado, voltou pra casa pensativo. No dia seguinte, rasgou a carteirinha do partido. E nunca mais assistiu aos comícios dos camaradas.

Universal, a Teoria dos Conjuntos se aplica também ao Brasil. O lulopetismo em geral – e doutora Dilma Rousseff em particular – aprenderam essa verdade na marra. A dicotomia nós x eles valeu enquanto se manteve no campo abstrato. A partir do momento em que inteiros grupos sociais se deram conta de que se situavam numa intersecção de conjuntos que lhes era desfavorável, passaram a engrossar o time dos batedores de panela. E deu no que deu.

É de crer que doutor Bolsonaro nunca ouviu falar na fábula das bicicletas do camponês italiano. Devia, pelo menos, ter analisado a débâcle do lulopetismo, mormente por ter sido ela a alavanca maior do sucesso eleitoral que o levou à Presidência. De certeza, não analisou. Embora acredite estar longe do modelo anterior, está a repetir os erros dos predecessores. As falas e os atos cortantes e excludentes são a exata reprodução do famigerado nós x eles.

O trágico é que a política ao molho bolsonaresco acicata a Teoria dos Conjuntos. O governo tem lançado muito anátema estes últimos tempos. Sua metralhadora giratória está agredindo até apoiadores da primeira hora, gente que, por infelicidade, se encontra numa intersecção desfavorável. As recentes manifestações estudantis são produto de intersecções que incomodam muita gente fina. Cidadãos situados no ponto de encontro entre os que aplaudiam a atuação do governo e os que contam com uma escola pública rica de verbas estão como o italiano da bicicleta. Não apreciaram que a navalha venha ferir-lhes a carne. Vão acabar batendo panela.

Quem diz o que quer

José Horta Manzano

Tem gente que não aprende. Lula da Silva, considerado por alguns como dotado de superior inteligência e de fino faro político, não me parece tão esperto assim. Entra nessa categoria daqueles que têm certeza de que já nasceram sabendo tudo e que, portanto, não precisam aprender mais nada. Nem os quase quatorze meses passados na cadeia foram suficientes pra livrá-lo do torpor e pra afinar-lhe a astúcia.

A prudência é qualidade supimpa. Quanto mais um indivíduo se encontra em situação delicada, mais deve medir o alcance dos próprios atos e gestos. Não convém destratar aqueles de quem se pode vir a precisar no futuro. Atropelar essa regra é tolice pura.

Chico Buarque – que é amigo do peito de Lula da Silva, batalhou contra a destituição de Dilma e defendeu a fracassada candidatura de Haddad à Presidência – foi agraciado com o Prêmio Camões. Nada mais justo, que o moço é verdadeiro ourives da língua pátria. Concorde-se ou não com suas posições políticas, há que reconhecer sua excelência no trato das palavras.

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Lula da Silva resolveu escrever uma cartinha ao amigo Chico. Não satisfeito em apenas dar-lhe os parabéns, aproveitou a carta aberta pra alfinetar a rede Globo de rádio e televisão. Contou ter ficado muito feliz porque «a Globo teve que colocar você no ar em horário nobre, pela primeira vez vi sua cara na Globo (sic)».

Magnânimo, o conglomerado carioca de mídia teve a clemência de responder. Retrucou que, nos últimos nove anos, Chico Buarque já apareceu 28 vezes no horário nobre da televisão. O Lula, que, em matéria de tevê, já confessou interessar-se unicamente por novela, certamente perdeu as aparições do amigo. Quem diz o que quer acaba ouvindo o que não quer.

Não é inteligente alfinetar a maior empresa de televisão do país. Quem tem esperança de um dia voltar à política não deveria fazer isso. Não digo que o demiurgo devesse ter-se prostrado diante da emissora – bastava ter mantido recato. O silêncio, que não pede esforço nenhum, nessas horas vale ouro.

Desde que o velho Tancredo saiu de cena, a política brasileira tem sentido muita falta de um presidente sagaz. Perspicácia é artigo que há décadas anda em falta no Planalto.

Maiúsculas e minúsculas: quando usar

Dad Squarisi (*)

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) manda grafar com inicial grandona:

1. Nomes próprios
Rafael, Renascimento, Avenida Atlântida, Presidência da República, Poder Judiciário, Região Sul, o Sul do Brasil, Região Centro-Oeste, o Centro-Oeste, o Nordeste, Oriente, Ocidente, Antiguidade, Idade Moderna, Renascimento, Belle Époque, Seleção Brasileira, Seleção Chinesa de Vôlei Feminino, Campeonato Nacional, Copa do Mundo, Olimpíadas, Medalha do Pacificador.

2. Nome de disciplinas
Marcos levou pau em Português e Matemática. Mas safou-se em Inglês.

3. Nomes de impostos e taxas
Imposto de Renda, Imposto Predial Urbano, Taxa do Lixo.

4. Atos de autoridades quando especificado o número ou o nome
Lei 2.346; Medida Provisória 242; Decreto 945; Lei Antitruste.

O ato perde a majestade em dois casos

Um: depois da 1ª referência.
A medida provisória mencionada trata do Plano Real.

O outro: na ausência do número
O presidente vetou a lei.

5. Os pontos cardeais
Norte, Sul, Leste, Oeste.

Se o ponto cardeal define direção ou limite geográfico, usa-se a inicial minúscula
O carro avançava na direção sul. Cruzou o Brasil de norte a sul, de leste a oeste.

6. As palavras Estado (país), União e Federação (associação de estados)
A sociedade controla o Estado. A Constituição enumera as competências da União. Impõe-se preservar a Federação.

7. Datas comemorativas e nome de festas religiosas
Sete de Setembro, Proclamação da República, Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia da Árvore.

Atenção, gente fina. As festas pagãs se escrevem com a inicial pequenina: carnaval, ano-novo. Também: quaresma, semana santa, quarta-feira de cinzas, sábado de aleluia.

8. Nomes científicos de famílias animais e vegetais (o segundo elemento com minúscula)
Coffea arabica, Hevea brasiliensis, Ranitomeya vanzolinii.

9. Oração incluída dentro de parênteses quando constitui oração à parte, completa, precedida de ponto. No caso, começa com letra maiúscula e termina por ponto
Na praça, o sentimento geral era de grande frustração. (Nenhum candidato se dignara comparecer ao comício.)

10. Citação
Quando vem depois de dois pontos, a citação começa com letra maiúscula. Caso contrário, com minúscula:
Fernando Pessoa escreveu: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Segundo Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Curiosidade
Na língua dos Césares, majusculus quer dizer um tanto maior. Maioral, maioria, maioridade, major, majoritário, majorar pertencem à mesma família. Todos são aparentados com maior. Por isso, têm complexo de Deus. Se deixar, ocupam um senhor espaço. Manda o bom senso pôr-lhes o pé no freio. Para dar-lhes um chega pra lá, dois princípios se impõem. Um deles: só as use nos casos obrigatórios. O outro: não as empregue para valorizar ou destacar ideias. Maiúsculas devem ser as ideias, não as letras.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Dirceu e Cunha juntos

José Horta Manzano

Saiu estes dias a inacreditável notícia de que os arquiconhecidos grão-criminosos José Dirceu e Eduardo Cunha compartilham a mesma cela no Complexo Médico-Penal de Curitiba. E não é tudo. Instalados mesmo espaço, estão ainda João Vaccari (ex-tesoureiro do PT) e o ex-senador Gim Argello. Três outros presos menos midiáticos completam o septeto. A turma é do barulho, como se dizia antigamente.

Com esse povo, todo cuidado é pouco. São daqueles que, quando vêm vindo na calçada, a gente atravessa a rua rapidinho. Vale também segurar firme a carteira. Coisa do outro mundo! É absolutamente inconcebível trancafiar uma turminha dessas no mesmo espaço. Aquilo é uma verdadeira universidade do crime de colarinho branco! Imaginem as informações que se podem trocar, as dicas que se podem fornecer, o planejamento de golpes futuros, as maldades que se podem tramar.

Eu só entenderia que essa quadrilha fosse encarcerada na mesma cela se câmeras e microfones fossem instalados para ajudar a PF a recolher informações preciosas que pudessem levar ao esclarecimento de crimes que ninguém desconfia tenham sido cometidos. Fora isso, deixá-los juntos é inconsciência. Equivale a deixar conviver no mesmo cômodo o Marcola, o Fernandinho Beira-Mar, o Compensa e o ‘G’ Carnaúba.

Tanto estes últimos quanto os que citei anteriormente são chefes de organizações criminosas. Por que é que uns têm de ser apartados enquanto os outros podem seguir em convivência íntima? Manter bandidos desse jaez juntos é a melhor maneira de deixá-los recompor uma organização criminal pra ninguém botar defeito.

Manicômio geral

José Horta Manzano

Primeiro, foi o bolsonarinho senador. Começaram a aparecer uns podres sobre o rapaz, uma história meio sórdida de exploração do homem pelo homem. Circulou a notícia de que ele confiscava, em benefício próprio, parte do salário de cada colaborador. Aproveitar-se da fragilidade alheia, tsk, tsk, que coisa mais feia! Daí veio o pai e disse algo como: «Se ele errou, tem de pagar e consertar o que fez». E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era malandro, pelo menos o pai era equilibrado.

Em seguida, veio o bolsonarinho vereador. Começou aboletando-se no coche presidencial na hora do desfile inicial – coisa esquisita. Em seguida, sempre atendendo pelo doce apelido de ‘pit bull’, desembestou a metralhar conhecidos e desconhecidos pelas redes sociais – redes essas que, sob seus dedos ágeis, estão mais pra associais. A primeira façanha foi derrubar um ministro. De lá pra cá, não parou mais. Daí veio o pai e explicou que ‘pit bull’ era só um apelido, que o moço era mais manso que gatinho miúdo. E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era perturbado, pelo menos o pai era equilibrado.

Bolsonaro & bolsonarinhos
Crédito: vespeiro.com

Na continuação, veio o bolsonarinho deputado. Começou forte: apareceu logo nos EUA, de boné «Trump 2020» enfiado no cocuruto. E continuou na mesma linha. Organizou jantar para homenagear Steve Bannon (um desafeto de Trump) e, dia seguinte, sentou-se no salão oval com Trump. Sua façanha mais recente foi preconizar um Brasil membro do clube atômico. Daí veio o pai e explicou que não havia por que se preocupar porque, no fim das contas, é sempre ele – o presidente – a dar a última palavra. E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era destrambelhado, pelo menos o pai era equilibrado.

Esgotados os bolsonarinhos, chegou a vez do pai. Já faz algumas semanas que o presidente vinha emitindo sinais confusos, mordendo e assoprando, espalhando o calor e o frio. Faz dois dias, desandou de vez. Doutor Bolsonaro deu mostras de que não é fiel nem mesmo ao guru que o ajudou a eleger-se (segundo seu próprio diagnóstico). Abandonando o astrólogo boca-suja, jogou-se para o lado de outro iluminado, um residente francês de pai congolês e mãe angolana. O esclarecido personagem, que se considera milagreiro, declarou que doutor Bolsonaro é ungido pelos deuses e foi por eles designado para conduzir o povo brasileiro. E nosso presidente, babando de satisfação, repicou a mensagem!

Conclusão
O primeiro filho é malandro. O segundo é perturbado e o terceiro, destrambelhado. Quem achava que a sensatez do pai fosse salvar o cenário, pode perder a esperança. Era de desconfiar. Fruto não costuma cair muito longe da árvore.

Rabicho
Acaba de sair a notícia de que, pela segunda vez desde que assumiu o trono, doutor Bolsonaro atribuiu uma medalha nacional de mérito aos filhos. Desta vez, foi a medalha do Mérito Naval, concedida a dois bolsonarinhos. Como? Eles não têm mérito? Ora, que bobagem! Quem está ligando pra esses detalhes? Distribuição de medalha em família sempre reforça o sentimento de clã. Um dos dois bolsonarinhos medalhados é justamente o senador, aquele que está enrolado até o pescoço com a Justiça.

Bolsonaro & Bannon no mesmo saco

José Horta Manzano

Nascido no início dos anos 1970, o Front National (Frente Nacional), partido francês de extrema-direita, foi presidido durante décadas por Jean-Marie Le Pen, um dos fundadores. Polemista e provocador por natureza, o patriarca imprimiu ao partido a marca da pópria personalidade. O dirigente nunca se preocupou em disfarçar o caráter extremista da agremiação. No fundo, não acalentava ambições presidenciais. Contentava-se com ser um partido destoante e livre de amarras que lhe tolhessem a liberdade de permanecer ad æternum na oposição.

Com a velhice batendo à porta, o velho dirigente concordou que era hora de passar o bastão. Em 2011, fez o que se costuma fazer em organizações de vocação autoritária e dinástica: passou a coroa à própria filha. Exatamente como costuma ocorrer em Cuba ou na Coreia do Norte. Madame Le Pen, a filha, tinha outras ambições para o partido. Não se conformava em continuar à margem do tabuleiro político. Queria tornar sua legenda respeitável e capaz de guindá-la um dia à Presidência da República.

Quando o pai se tornou incômodo, com suas declarações insolentes e provocadoras, madame não teve dúvida: expulsou-o do partido. No ano passado, dando continuação ao saneamento da imagem, mudou o nome da agremiação. Em manobra bastante utilizada no Brasil – e bastante eficaz, diga-se – o Front National tornou-se Rassemblement National (Agrupamento Nacional).

Marine Le Pen e Steve Bannon
Em 2018, ao tempo em que andavam aos beijos e abraços

No ano passado, quando doutor Bolsonaro ainda fazia campanha para a Presidência, madame foi entrevistada na televisão francesa. O assunto eram as relações entre seu partido e signor Salvini, vice-primeiro-ministro da Itália. A entrevistadora quis saber o que madame Le Pen achava do então candidato a presidente do Brasil. Sabedora de que Bolsonaro, já à época, dizia muita besteira e ofendia muita gente, ela tirou o corpo fora. «A cada vez que alguém diz coisas desagradáveis, é logo etiquetado como de extrema direita» – foi o que disse. E continuou, sutil, a insinuar que maus modos são coisa de gente subdesenvolvida. E que não compactuava com esse tipo de indivído. E tome!

Marine Le Pen deu surpreendente demonstração de coerência e de lucidez estes dias. Ela está envolvida até o pescoço na atual campanha de eleição de deputados ao Parlamento europeu. Steve Bannon – aquele teórico de extrema-direita que foi homenageado com um jantar por doutor Bolsonaro quando de sua primeira visita aos EUA – andou metendo o bedelho na campanha. Insinuou estar envolvido na luta para eleger deputados do partido de madame. Como já tinha feito com doutor Bolsonaro, madame Le Pen afastou esse cálice. Declarou, a quem quis ouvir, que Steve Bannon «não é seu conselheiro político». E tome de novo!

Como se vê, a dirigente de um dos principais partidos de extrema-direita da Europa (e do mundo) rejeita, com gesto decidido, tanto Bolsonaro quanto Bannon. Mostra que não os considera dignos de sentar-se à mesa com ela. Enquanto isso, os dois rejeitados se encontram, confraternizam e elevam o cálice à saúde. Saúde de quem mesmo?