Prêmio Camões

José Horta Manzano

Já devo ter falado no assunto, mas certas coisas não posso deixar passar em branco. Não bebo da mesma fonte que Chico Buarque de Hollanda, tampouco comemos no mesmo prato. Regulamos na idade, é verdade (embora a vaidade me permita contar que ele é um pouco mais velho). Crescemos num mesmo Brasil, mas tivemos vivências diferentes – o que é, no fundo, natural. Afinal, cada um vive a própria vida, não a do outro.

O posicionamento político do Chico me deixa arrepiado. Mais que assustado, pensativo. Como é possível – cogito eu – que um rapaz tão inteligente, tão culto, tão estudado e tão sensível suba ao palanque de uma Dilma e se derreta por um Lula, a ponto de viajar a Curitiba pra visitá-lo na cadeia? Enfim, são coisas dele. Concluo que, embora tudo isso me pareça aberrante, não é, afinal, nenhum crime. Não seria justo tratá-lo de Geni e alvejá-lo com esterco, se é que me entendem.

Isso posto, vamos ao que interessa. Chico Buarque de Hollanda forma, junto com Tom Jobim e Ary Barroso, o trio maior da MPB no século XX. Cada um seguiu linha pessoal e tem mérito próprio: Tom Jobim, pela criação músical refinada; Chico, pelo sofisticado burilamento das palavras; Ary, pelo espírito incrivelmente avançado para a época. Para mim, estão os três num pedestal, todos no mesmo patamar. Até o momento, insuperados.

No entanto, há que considerar os comos e os porquês. Uma coisa é o posicionamento político do Chico, fora de meu limitado alcance intelectual. Outra coisa, bem diferente, são suas qualidades excelsas de ourives das palavras, de mestre da língua, daquele que tem o poder de concentrar, em meia dúzia de versinhos, o suco do modo de ser brasileiro. Para esse Chico, tiro meu chapéu e me inclino, reverente.

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Aos 75 anos, o artista acaba de ser agraciado com o Prêmio Camões, a marca maior da excelência dos escritores de língua portuguesa. É distinção rara, distribuída a conta-gotas – um agraciado por ano –, atribuída a Raquel de Queirós, Jorge Amado, Lígia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, José Saramago. Como se vê, não é pra qualquer um.

O Prêmio Camões foi instituído conjuntamente por Portugal e pelo Brasil. É, portanto, financiado pelos dois Estados. Tradicionalmente, o diploma que o oficializa vai assinado pelo presidente da República. É nada mais que formalidade, pois o prêmio, com ou sem assinatura, já foi atribuído. Doutor Bolsonaro, movido pela habitual arrogância que só a monumental ignorância lhe permite, negou-se a assinar o diploma. Decidiu esnobar. Prometeu assinar no dia de São Nunca.

Sua atitude tem várias consequências. Em primeiro lugar, ofende o artista que já encantava o Brasil quando doutor Bolsonaro não passava de moleque de calças curtas. Em segundo lugar, ofende os brasileiros que, inteligentes, conseguem enxergar o excepcional criador por detrás da cortina de inesperadas preferências políticas. Em terceiro lugar, doutor Bolsonaro reforça a própria imagem de homem tosco, primitivo e – agora se vê – mesquinho.

Quem diz o que quer

José Horta Manzano

Tem gente que não aprende. Lula da Silva, considerado por alguns como dotado de superior inteligência e de fino faro político, não me parece tão esperto assim. Entra nessa categoria daqueles que têm certeza de que já nasceram sabendo tudo e que, portanto, não precisam aprender mais nada. Nem os quase quatorze meses passados na cadeia foram suficientes pra livrá-lo do torpor e pra afinar-lhe a astúcia.

A prudência é qualidade supimpa. Quanto mais um indivíduo se encontra em situação delicada, mais deve medir o alcance dos próprios atos e gestos. Não convém destratar aqueles de quem se pode vir a precisar no futuro. Atropelar essa regra é tolice pura.

Chico Buarque – que é amigo do peito de Lula da Silva, batalhou contra a destituição de Dilma e defendeu a fracassada candidatura de Haddad à Presidência – foi agraciado com o Prêmio Camões. Nada mais justo, que o moço é verdadeiro ourives da língua pátria. Concorde-se ou não com suas posições políticas, há que reconhecer sua excelência no trato das palavras.

clique para ampliar

Lula da Silva resolveu escrever uma cartinha ao amigo Chico. Não satisfeito em apenas dar-lhe os parabéns, aproveitou a carta aberta pra alfinetar a rede Globo de rádio e televisão. Contou ter ficado muito feliz porque «a Globo teve que colocar você no ar em horário nobre, pela primeira vez vi sua cara na Globo (sic)».

Magnânimo, o conglomerado carioca de mídia teve a clemência de responder. Retrucou que, nos últimos nove anos, Chico Buarque já apareceu 28 vezes no horário nobre da televisão. O Lula, que, em matéria de tevê, já confessou interessar-se unicamente por novela, certamente perdeu as aparições do amigo. Quem diz o que quer acaba ouvindo o que não quer.

Não é inteligente alfinetar a maior empresa de televisão do país. Quem tem esperança de um dia voltar à política não deveria fazer isso. Não digo que o demiurgo devesse ter-se prostrado diante da emissora – bastava ter mantido recato. O silêncio, que não pede esforço nenhum, nessas horas vale ouro.

Desde que o velho Tancredo saiu de cena, a política brasileira tem sentido muita falta de um presidente sagaz. Perspicácia é artigo que há décadas anda em falta no Planalto.