Dos paradoxos da pesquisa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias, li um artigo que tratava dos riscos de manipulação das pesquisas eleitorais. Com cuidado, o escrito alinhavava brechas que podem fragilizar ou até comprometer a credibilidade das sondagens. Provocativo, o texto terminava com a afirmação de que, considerando o impacto negativo que elas podem exercer sobre o ânimo do eleitorado, talvez fosse melhor abolir a divulgação de pesquisas eleitorais.

Fiquei pensativa e, confesso, um tanto incomodada com essa afirmação. Longe de mim o intuito de negar a existência de estratégias pouco éticas na área. Ao contrário, as teses que o artigo sustentava me fizeram lembrar de uma frase que ilustra bem como se pode destacar um determinado número para ludibriar a opinião pública: “A estatística vem sendo usada da mesma forma que um bêbado se utiliza de um poste de luz – não para iluminar, mas só como apoio”.

Há ainda uma velha piada que vai na mesma direção. Conta ela que o conselho de odontologia de uma cidadezinha do interior decidiu fazer um levantamento sobre as condições de trabalho dos dentistas locais. Ao cabo de poucas semanas, recebeu relatório bombástico de um pesquisador iniciante que apontava um dado inquietante: aumento de 50% no número de mortes entre os profissionais locais. Preocupado, o conselho destacou uma equipe para investigar in loco. Descobriu que a cidade contava com apenas dois dentistas e que um deles havia falecido no mês anterior.

O ponto crucial que pretendo levantar com essa pitada de humor é, portanto, que o problema não está só no modo como os institutos de pesquisa elaboram seus projetos, nem no modo como os dados são coletados. Está fundamentalmente na forma como os resultados são lidos pelos analistas e interpretados pela opinião pública.

O que nem todo mundo sabe é que não são feitos apenas levantamentos estatísticos de intenção de voto. Há diversos tipos de pesquisa eleitoral, que podem ser feitos isoladamente ou em conjunto.

As pesquisas quantitativas, o tipo mais difundido e gerador de muita polêmica, elaboram um retrato da concentração (ou da dispersão) de opiniões a favor deste ou daquele candidato. Funcionam, por assim dizer, como um termômetro do interesse popular. No entanto, deixam em segundo plano ‒ intencionalmente ou não ‒ os motivos que levam cada segmento da população a apoiar ou rejeitar cada candidato.

Esse é justamente o objetivo das pesquisas qualitativas, que propõem um mergulho profundo na motivação do eleitorado, independentemente do fato de uma dada opinião ser ou não majoritária ou representativa de seu segmento. Elas permitem a abertura de outras linhas de investigação, já que podem ser realizadas em grupo (para saber como as opiniões flutuam ao sabor da pressão da mídia e da visão de outros eleitores) ou através de entrevistas individuais.

Graças à abundância de dados sugeridos espontaneamente, as pesquisas qualitativas costumam anteceder os levantamentos quantitativos, e os resultados são normalmente usados para estruturar os questionários.

Não estou querendo dizer com tudo isso que as pesquisas qualitativas são mais confiáveis ou que deveriam sempre acompanhar a divulgação de números. Também não pretendo ingenuamente afiançar que elas são menos sujeitas a fraudes e a distorções intencionais.

Aonde quero chegar, então? Tão somente ao fato de que a força das pesquisas para alterar a disposição do eleitorado está intimamente ligada à falta de educação política. A crença disseminada de que optar livremente por um candidato mal colocado nas pesquisas seria o mesmo que “perder o voto” é icônica do analfabetismo ideológico e da indigência cultural.

Se o voto não fosse obrigatório por estas paragens, talvez ainda houvesse esperança de reverter esse quadro nefasto a curto prazo, mas…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lições de marketing

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O conturbado cenário político dos últimos dias me inspirou a rever e divulgar algumas das lições que aprendi ao longo dos meus muitos anos de trabalho como pesquisadora de mercado e de opinião pública. Guardadas as devidas proporções, elas podem nos ajudar a ver claro sobre as motivações em curso e, quem sabe, a encontrar saídas honrosas para nossa crise institucional. Vamos a elas.

A primeira e mais importante lição do marketing é também a mais óbvia, ainda que nem sempre totalmente compreendida: a embalagem tem importância vital para a primeira decisão de compra, muito maior do que a do próprio produto.

Talvez por ser a primeira forma de engajamento do consumidor/eleitor, ela se reveste de incomparável importância simbólica: corporifica os desejos mais íntimos e não-explicitados do usuário em potencial. Se atrai e agrada, é capaz de transferir a simpatia inicial e gerar maior tolerância para com as características organolépticas (cor, sabor, cheiro, textura, etc.) do produto. Sem dúvida, a satisfação inicial com a embalagem vai precisar ser corroborada mais tarde pela experimentação do produto. Caso surjam discrepâncias, a marca pode vir a ser abandonada ou preterida em favor de concorrentes cujas embalagens não sejam tão satisfatórias – e que a concorrência saberá alterar rapidamente no sentido desejado.

embalagem-1Politicamente falando, é não só a figura física do candidato que fica em primeiro plano e envia a primeira mensagem de adequação, mas também a forma como ele embala suas ideias e propostas. Tom de voz, articulação do pensamento, gestual condizente, capacidade de argumentação, escolha de linguagem de fácil compreensão, flexibilidade para incorporar novos ângulos à mensagem e, fundamentalmente, poder de sedução. Traduzindo o último quesito, é preciso que o produto/candidato diga sempre o que o consumidor/eleitor quer ouvir. Quando a promessa soa como música aos ouvidos do público-alvo, ele se deixa implacavelmente fisgar, ainda que de forma envergonhada e disfarçada.

A segunda lição ainda se refere à embalagem. Se já há várias opções de embalagem no mercado que atendem, mesmo que parcialmente, às expectativas do usuário, é preciso diferenciar a sua. Pode ser, por exemplo, através do conceito de “tamanho aparente”. Imagine que as embalagens mais apreciadas no momento são todas baixas e gordinhas, cheias de curvas generosas. Aí você concebe para seu produto (ou para si mesmo) uma embalagem alta e magra, toda reta – ou vice-versa. Graças à sua iniciativa, o consumidor/eleitor pode receber a mensagem de que você está ofertando melhor relação custo/benefício (mais ou melhor produto pelo seu dinheiro) ou a de que você é pessoa ousada, que não se deixa intimidar pela força da concorrência e demonstra forte capacidade de “inovação”.

A terceira lição está relacionada à necessidade de realizar um mapeamento qualitativo do mercado antes de nele penetrar. Se um determinado segmento é muito pulverizado, com uma infinidade de produtos/marcas competindo sem muito destaque, é preciso identificar nichos ainda inexplorados. Acima de tudo, é essencial introduzir um forte diferencial em seu apelo. Em marketing, isso se chama “benefício único” a ser oferecido pelo novo produto. Esse benefício pode estar ligado mais uma vez à embalagem ou a qualquer outra característica, inclusive e principalmente seu posicionamento de preço em momentos de crise econômica.

Como isso se dá no mercado político? Bem, eu diria que esse é o ponto mais difícil de implementar, ao menos nesta parte do globo terrestre. De qualquer forma, certamente – ou, melhor, assim me parece – o diferencial encontrado não deverá estar vinculado aos aspectos propriamente verbais, ligados ao discurso. Temos hoje em oferta todo tipo de propostas sendo gritadas aos quatro ventos, desde a preocupação com a qualidade de vida dos aposentados até a defesa intransigente da moralidade administrativa, passando pela diminuição de impostos e criação de mais empregos, até a configuração do candidato como um outsider (“não sou político”) bem-intencionado. Porém, é de bom alvitre lembrar que, caso a experimentação não consiga comprovar que os novos atributos realmente funcionam na prática, seu frustrado público consumidor/eleitor se voltará inapelavelmente para o que existe de mais tradicional e conservador no mercado.

elefante-3Finalmente, uma lição raramente lembrada do marketing, mas que pode ser fatal se não observada: o produto/marca precisa ter um forte caráter aspiracional. Dito de outra maneira, é o consumidor/eleitor que precisa sentir o desejo de ter acesso ao produto e não este se oferecer despudorada e indistintamente a todos. Se o público-alvo não for claramente identificado na mensagem publicitária e se não falar a sua linguagem, corre-se o risco de não atrair ninguém, dado o caráter de “baciada” da oferta. Em termos psicológicos, o consumidor/eleitor precisa ser afagado pela crença de que só pessoas “especiais” como ele próprio percebem o mérito do que está sendo anunciado.

Marketing, nunca é demais lembrar, é feito para criar necessidades, despertar desejos e inaugurar novas realidades. Basta pensar no mercado de alta tecnologia para entender isso. E, mesmo quando ele se caracteriza por um ‘revival’ de velhas tendências, como acontece na moda, as novas soluções apresentadas precisam incorporar avanços conceituais. Na sequência, o que faz toda a diferença é desenvolver uma propaganda consistente e que faça jus à imagem que se pretende imprimir ao produto/ marca. Aprendi a duras penas que a publicidade fala com o tamanho do ego de cada um de nós. Um exemplo corriqueiro: embora muitas pessoas reclamem do mau gosto das propagandas de produtos populares, ela será considerada bem-sucedida se o populacho for atraído pela “espontaneidade rústica” da comunicação.

Uma frase de efeito que resume bem todas essas lições circula entre os marqueteiros: “Lançar novo produto no mercado é como emprenhar elefanta: se der certo, é preciso esperar ainda dois anos para ver o resultado de seus esforços e, se der errado, você certamente morrerá esmagado”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.