Frase do dia — 185

«Do Brasil, emergente titular das Américas, sétima economia do mundo, sócio-fundador do grupo Brics, o mundo talvez imaginasse um discurso à altura. Pena que tenha ouvido mais um programa do horário eleitoral, com tradução simultânea.»

Mac Margolis, colunista do Estadão, ao comentar o discurso de dona Dilma, pronunciado na abertura da 69a. Assembleia-Geral da ONU.

Desincompatível?

José Horta Manzano

Inventaram o pesado verbo desincompatibilizar, não foi? Pois a prática da língua ensina que, como na vida real, todos os descendentes e dependentes têm direitos. Entre eles, o de existir. Os derivados do monstrengo têm, portanto, direito à cidadania.

Manda o figurino de nossa República que os titulares de cargos executivos (prefeito, governador e presidente) sejam acolitados por um substituto. O homem (ou a mulher) é inoperante. Está ali just in case, de prontidão.

Constituição 4Isso fazia sentido em 1889, quando um golpe militar despachou o imperador para a Europa e instaurou, à força, regime dito republicano. Cento e vinte e cinco anos atrás, viagem de mandatário durava, no mínimo, uma semana. Em alguns casos, meses. Comunicações eram precárias. O titular podia muito bem permanecer, dias e dias, fora do visor. Alguém tinha de assumir de facto suas funções.

Hoje já não funciona assim, que o mundo mudou. Até solitários navegadores que dão a volta ao globo em frágeis embarcações à vela costumam estar conectados ao resto da humanidade 24 horas por dia. Prefeitos, governadores e presidentes, então, nem se fala. Podem despachar de dentro de um avião exatamente como se estivessem em palácio.

O cargo de vice, assim, perdeu sua razão de ser. O artigo constitucional que institui essa figura continua a ser recopiado, de constituição em constituição, mais por inércia que por convicção. Talvez estejam esperando que seja antes abolido da Constituição do Grande Irmão.

Bom, deixei clara, mais uma vez, minha aversão pelo estranho cargo de vice ― aquela figura ociosa que fica no banco de reserva torcendo pra que algo de ruim aconteça com o titular. Agora passemos às atribulações do(s) vice-presidente(s) de nossa maltratada República.

Saiu nos jornais: o presidente do STF assumiu a presidência da República em caráter temporário. É um daqueles dois com sobrenome polonês ao qual parecem faltar algumas vogais. O referido senhor é o quarto suplente da presidência. Isso quer dizer que, para que chegue seu turno, é preciso que o presidente mais outros três substitutos estejam impossibilitados de exercer o cargo.

E como é que foi chegar até ele? Explicam os especialistas que, na ausência de dona Dilma ― ocupada em fazer campanha em Nova York ―, assume o vice. O vice, por sua vez, é candidato à própria sucessão. Para evitar contestação e impugnação, inventou uma viagem ao exterior e fugiu à responsabilidade.

Constituição 3Sobrou para o presidente da Câmara Federal. O homem está na mesma sinuca do primeiro substituto: é candidato a governador. Tem de se desincompatibilizar, senão, adeus eleição.

Sobrou para o presidente do Senado, que também tem problemas de compatibilização ― Senhor, que palavrão! Sua Excelência é pai de candidado. Não se desincompatibilizou, dançou.

O pesado encargo caiu no colo do ministro do Supremo. Seu nome aparecerá nos livros de História, assim como o de José Linhares, que se encontrou na mesma situação 70 anos atrás. Terá exercido a presidência do País.

Uma esquisitice me deu que pensar. O primeiro, o segundo e o terceiro suplentes foram impedidos de assumir a obrigação por problemas de… desincompatibilização. Poderiam ser suspeitados de utilizar o cargo para auferir sabe-se lá qual vantagem eleitoral. É isso, não?

E… a presidente, como é que fica? Ela, que é a principal interessada na própria reeleição, passa ao largo da desincompatibilização? Pode fazer campanha, aparecer na televisão, discursar na ONU, receber visitantes estrangeiros, subir em palanque, «fazer o diabo». Se ela pode, por que não os outros? Estão zombando de quem?

«Something is rotten in the state of Denmark» ― há algo de podre no Reino da Dinamarca.

Para redourar a imagem

José Horta Manzano

Precisa ser muito caradura. Um correspondente do Estadão nos informa que o Brasil está para apresentar, ao plenário da ONU, proposta de combate à impunidade de crimes contra a imprensa e contra a liberdade de expressão.

Anúncio 1Logo o Brasil, quem diria! E pensar que, em assuntos de reprimir a livre expressão de ideias, nosso País poderia dar aulas a qualquer principiante.

Quem não se lembra do caso do jornalista americano Larry Rohter? Em 2004, era correspondente no Brasil do New York Times. Foi ameaçado de expulsão do País por ter ousado pôr no papel o que todos já sabiam: que o Lula, então presidente da República, era forte apreciador de uma branquinha.

Quem já se esqueceu da Operação Boi Barrica? Era investigação sobre os ‘malfeitos’ do filho de José Sarney, suspeito de ter sacado ― sabe-se lá de onde ― 2 milhões de reais em dinheiro vivo para financiar a campanha da irmã Roseana. Uma decisão judicial cassou ao jornal Estadão o direito de publicar uma linha sequer sobre o assunto. Faz mais de cinco anos que a mordaça continua atada.

E aquele banco que, pressionado pelo Planalto, teve recentemente de demitir uma penca de analistas financeiros que haviam recomendado cautela a seus clientes, diante das perspectivas econômicas nacionais? Se isso não for cerceamento da liberdade de opinião, o que será?

Jornal 1Quem se lembra de ter passado alguns dias, nem que fosse uma semaninha só, sem ouvir declaração de um sempre furibundo Lula acusando a imprensa de todos os males? Para ele e para seus áulicos ― incluindo a atual presidente da República ―, imprensa boa é aquela que proclama o lado bom do governo e cala sobre o que não convém publicar. Mídia que conta as coisas como são é golpista e preconceituosa.

Depois de passar 12 anos pressionando a mídia, vem agora o governo brasileiro propor ao mundo a proteção da liberdade de expressão? É como se a China propusesse a proibição do ‘dumping’. Ou se a Argentina patrocinasse a publicação de estatísticas transparentes. Ou se Cuba lutasse pela adoção planetária do princípio da livre circulação dos indivíduos.

Francamente, tem gente que não teme o ridículo.

Embaixador sem teto

José Horta Manzano

Todos os países-membros da ONU mantêm embaixador permanente junto à organização, cuja sede principal está em Nova York(*). A França, membro fundador do organismo internacional, segue o caminho dos demais.

Nestes momentos de crise ― alguém, por acaso, se lembra de ter atravessado período que não fosse de crise? Eu, não. Enfim, voltemos à vaca fria. Nestes momentos de crise, dizia eu, o governo francês resolveu fazer um gesto simbólico.

Vendeu, por míseros 70 milhões de dólares, a antiga residência do embaixador junto à ONU. À vista do preço, imagino que a propriedade havia de ser um deslumbre.

Depois de longa procura, foi encontrada residência mais modesta, ainda assim com charme e prestígio. O preço do novo apartamento foi argumento de peso: apenas 7,8 milhões de dólares, quase um décimo do valor do anterior. A localização do imóvel, com vista para o East River, foi também importante na decisão.

Mas as coisas nem sempre saem como a gente gostaria. Por mais que o governo francês tenha peso político, as regras de cada país (democrático) costumam sobrepujar toda ingerência exterior. Assim aconteceu.

River House Residence, Nova York

River House Residence, Nova York

O apartamento de 460m2 situa-se num condomínio nova-iorquino. Pela regulamentação vigente, a venda de um apartamento é condicionada à aprovação dos demais coproprietários. Um deles ― uma riquíssima herdeira ― rejeitou terminantemente a entrada de um diplomata no prédio.

Com a alegação ― verdadeira, diga-se de passagem ― de que residência de embaixador costuma ser palco de festas e recepções frequentes, conseguiu convencer seus vizinhos a não anuir à transação. Assustados com o risco de serem perturbados pelo barulho e pelo entra e sai constante de visitantes, os condôminos negaram a autorização de venda.

Pronto. Monsieur François Delattre, embaixador da França junto à ONU, está sem teto. Caso alguém esteja em condições de propor abrigo digno, solicita-se encarecidamente que se dirija ao Ministério das Relações Exteriores, Quai d’Orsay, Paris. A nação francesa, comovida, agradece.

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(*) A ONU mantém sede secundária em Genebra, Suíça. Boa parte das organizações internacionais ligadas às Nações Unidas têm sua sede principal na cidade suíça. Entre elas, estão as seguintes:
Interligne vertical 11Organização Mundial do Comércio,
Alto-Comissariado para os Refugiados,
Comissão de Indenização das Nações Unidas,
Alto-Comissariado de Direitos Humanos,
Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento Social,
Instituto de Pesquisa sobre o Desarmamento,
Organização Internacional do Trabalho,
Organização Mundial da Saúde,
União Internacional de Telecomunicações.

Recordar é viver ― 4

José Horta Manzano

Turbante 1Em setembro 2013, dona Dilma esteve de visita aos EUA. Depois de discursar na abertura da sessão anual da ONU, pronunciou outra fala num seminário empresarial.

O site da presidência da República, no cumprimento de sua função de arquivo público, não nos deixa perder nem uma migalha dos envolventes pronunciamentos da presidente.

Eis aqui um excerto da elocução de dona Dilma diante de assombrados empresários:

Interligne vertical 11a«Tem uma infraestrutura muito importante para o Brasil, que é também a infraestrutura relacionada ao fato de que nosso país precisa ter um padrão de banda larga compatível com a nossa, e uma infraestrutura de banda larga, tanto backbone como backroll, compatível com a necessidade que nós teremos para entrarmos na economia do conhecimento de termos uma infraestrutura, porque no que se refere a outra condição, que é a educação, eu acho importantíssima a decisão do Congresso Nacional do Brasil em relação aos royalties.»

Ganha um turbante quem entendeu. Nada como ter as ideias claras.

De camisa florida

José Horta Manzano

Você sabia?

Palmeira 1Se eu lhes perguntar qual é o país mais visitado do mundo, que é que me responderão? Pois eu lhes conto: em números absolutos, a França, com 83 milhões de visitantes, ganha de longe.

Mas há uma outra resposta. Se considerarmos a quantidade de turistas como porcentagem da população residente, o panorama é mais nuançado. Com magros 800 habitantes, o minúsculo Estado do Vaticano ganha disparado, milhas à frente do segundo classificado. Cinco milhões e meio de estrangeiros passam por lá a cada ano, o que dá 6500 visitas por habitante. Uma enormidade.

Há que conceder que mini- e microestados falseiam as estatísticas. São ponto fora da curva ― expressão em voga atualmente. Melhor observar o que se passa em países de tamanho habitual.

Pelo critério de visitantes como porcentagem da população, os países europeus são campeões. Em primeiro, aparece a Áustria que, com população de 8 milhões e meio, acolhe 24 milhões de visitantes a cada ano. Dá quase três turistas por habitante! Logo atrás, vem a Croácia, destino apreciado para as férias de verão. No total, uns dez estados europeus recebem turistas em número superior ao de sua própria população.

Turismo no mundo Fonte: The Telegraph, UK

Turismo no mundo
Fonte: The Telegraph, UK

E como é que ficam as Américas? Ao norte, o Canadá se sai bem: os visitantes representam 46% da população. Os EUA, onde os forasteiros de passagem equivalem a 21% da população também não podem reclamar. As Antilhas são constituídas por microestados, fato que perturba o resultado estatístico.

Vamos falar da América do Sul. Quem seria o campeão? Difícil adivinhar, não é? Pois é nosso vizinho Uruguai. Visitantes representam 80% da população do país. Atrás dele, está o Suriname (45%). A Guiana (22%), o Chile (20%) e a Argentina (14%) seguem mais descolados.

E nosso país, como é que anda? Pois saibam que fica na rabeira da classificação continental, em penúltimo lugar. Os 5 milhões e meio de pessoas que visitam o Brasil perfazem apenas 2,86% da população local. Pior que nós, só a Venezuela.

Turismo 2E por que um afluxo de turistas tão diminuto em nossas terras? A lógica ensina que, quanto maiores forem os atrativos turísticos, mais visitantes virão. O Brasil tem beleza natural de sobra, cachoeiras, praias, pantanais, sol, calor. O que é que atravanca a vinda de mais gente?

A distância não há de ser: China, Nova Zelândia, Chile ― todos longe dos grandes centros emissores ― recebem proporcionalmente mais turistas que nós. Até Paraguai e Bolívia nos ultrapassam.

Não tenho respostas, infelizmente. Tenho apenas conjecturas ― e elas não são nada risonhas.

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Obs 1: Os dados vêm da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, e se referem ao ano de 2012.

Obs 2: Vale a pena examinar de perto o resultado de cada país. Clique no mapa para ter acesso ao site do jornal inglês The Telegraph. Em seguida, uma clicada em cada país vai-lhe dar a população, o número de visitantes e a porcentagem.

Nem só de futebol

José Horta Manzano

Com o título “No Brasil, há outra coisa além do futebol!”, o jornal Le Parisien anuncia uma exposição de obras de Cândido Portinari (1903-1962) no Grand Palais de Paris. Pela primeira vez, o distinto público parisiense poderá apreciar a arte do pintor maior, um dos três mestres da pintura latino-americana.

Um longo artigo informa sobre vida e obra do paulista de Brodowski. Portinari, que havia visitado Paris em 1930, morreu prematuramente aos 59 anos vítima de saturnismo ― envenenamento provocado pelo chumbo contido nas tintas que utilizava.

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Os painéis monumentais chamados Guerra e Paz (14m x 10m) são o ponto culminante de sua obra. Pintados em meados dos anos 1950, tinham sido encomendados pelo governo brasileiro para presentear a sede das Nações Unidas em Nova York.

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Esses painéis, exibidos em permanência na ONU, foram expostos no Brasil em 2012. E agora se oferecem ao olhar do público francês. Que os interessados tomem nota: a exposição abre as portas hoje, 7 maio, por cinco semanas. A entrada é grátis. Folga às terças-feiras.

Frase do dia — 112

«Na política externa, mesmo que a reforma do Conselho de Segurança da ONU andasse, qual a contribuição efetiva do Brasil à segurança internacional se, no próprio território, 50 mil homicídios/ano superam a destruição de vida nos conflitos do Afeganistão, do Iraque e do Sudão?»

Marcos Troyjo, economista e cientista social, em sua coluna in Folha de São Paulo, 28 fev° 2014.

O teste

José Horta Manzano

Os milhares de médicos importados de Cuba são, evidentemente, seres humanos como todos nós. Têm qualidades, defeitos, riem, choram, comem, dormem, exatamente como o resto da humanidade. Não são autômatos.

Para alcançar a graça de ser enviado ao estrangeiro por um período, o profissional cubano tem de dar a seu governo escravocrata alguma garantia de que vai cumprir a «missão» abnegadamente e, principalmente, de que vai voltar à miserável ilha. Em resumo, o missionário pode partir desde que um cordão umbilical o mantenha atado à terra de origem.

O espírito caritativo dos Castros é enorme, mas tem seus limites. Os bondosos irmãos estão de acordo em arrendar a países estrangeiros o serviço de seus cidadãos. Contudo, entregar seus profissionais assim, de mão beijada, ah, isso não!

Solidariedade mercantil à cubana é mais mercantil que solidária. Funciona assim: eu te empresto contra remuneração. De graça, não te dou nada. E não te esqueças de minha (polpuda) comissão.

Solidaridad... pero no mucho

Solidaridad… pero no mucho

Até que demorou, mas era inevitável: a primeira defecção acaba de acontecer. Trata-se de uma corajosa profissional despachada para exercer seu ofício no interior do Pará. Não há de ser uma adolescente descabeçada: exerce a medicina há 27 anos. Apesar de ter deixado uma filha na ilha-prisão, deu o passo arrojado: escapuliu de seu cativeiro amazônico e buscou refúgio em Brasília, junto a um dos (raros) partidos de oposição.

Pode até parecer estranho. Em princípio, pedidos de asilo costumam ser apresentados a autoridades alfandegárias ou policiais. Nossa valente profissional, que já deve ter-se dado conta de como as coisas funcionam no País, achou melhor evitar esse caminho. É possível que tenha tido notícia do caso dos esportistas desertores que foram despachados de volta a Cuba em 2007. Melhor evitar esse risco.

Fez bem a doutora. Cuba é um dos 58 membros fundadores da Organização das Nações Unidas. Em 1948, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, válida para todos os seus membros. O Parágrafo 2 do Artigo 13 do documento reza: «Toda pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar a seu país». Mais claro, impossível.

Essa primeira deserção ocorre num momento delicado e tem valor de teste. O momento é sensível porque, pouco a pouco, os olhos do planeta começam a se voltar para o Brasil por causa da copa que vem aí. O tratamento que for dado a esse primeiro pedido de asilo vai ter eco planetário.

Demorou, mas chegou a hora do vamos ver.

A omelete e os ovos

José Horta Manzano

A alegria de uns…
Curvados e contritos, alguns grandes deste mundo estão à cabeceira da moribunda Síria. Tentam pôr-se de acordo para salvar o que ainda puder ser salvo.

Não é a primeira vez que se reúnem para esse mesmo fim, mas a gente sempre espera que seja a última. Torcemos todos para que se alcance um compromisso que garanta aos diferentes estratos do infeliz povo sírio uma convivência pacífica. Atritos e tensões sempre haverá, não nos enganemos. Mas tomara que cheguem a um acordo para, pelo menos, mitigar o conflito. Inshallah!

Se isso acontecer, os homens de boa-vontade se alegrarão. Na Síria e no resto do mundo.

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… e a irritação de outros
Não se faz omelete sem partir ovos ― dizem os portugueses. Para juntar um punhado de figurões, é preciso cautela e extrema vigilância.

Não por acaso, as autoridades suíças estão habituadas a acolher mandachuvas. A cidade de Genebra abriga, entre outros organismos, a sede europeia da ONU, a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a OMM (Organização Meteorológica Mundial), a OMS (Organização Mundial da Saúde), a UIT (União Internacional das Telecomunicações), a UPU (União Postal Universal), o CICR (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), a OMC (Organização Mundial do Comércio). E muitas outras menos conhecidas, sem contar as embaixadas, legações, consulados e missões permanentes.

Conferência Genebra II Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Conferência Genebra II
Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Gente importante vem e vai todos os dias, mas há dias mais especiais que outros. As reuniões da Conferência Genebra II, sobre o problema sírio, chamam a atenção do mundo inteiro. Portanto, todo cuidado é pouco para evitar atentados ou qualquer tipo de perturbação.

Apesar do nome, o encontro não se realiza em Genebra, mas em Montreux, pequena cidade turística à beira do Lago Leman, uma centena de quilômetros mais adiante. O pequeno burgo está em polvorosa. O Palace Hotel, palco das reuniões e lugar de hospedagem de várias comitivas, foi tomado de assalto. O tráfego está perturbado, as redondezas bloqueadas, ninguém pode se aproximar a menos de 100m do local. Parece praça de guerra.

Montreux Palace Hotel

Montreux Palace Hotel

Alguns comerciantes estão furiosos, porque simplesmente não terão movimento estes três dias. A farmácia, o salão de beleza, os pequenos comércios situados nas proximidades do hotel não têm chance nenhuma de ver entrar algum cliente. Estão até preparando um pedido de indenização à prefeitura.

Vamos torcer para que os frutos sejam bons: que a conferência seja um sucesso e que os comerciantes de Montreux recebam uma compensação pelo prejuízo. Não será fácil ― nem para estes, nem para aqueles.

As boas-vindas

José Horta Manzano

Chega-me a notícia de que o sorridente Bill Clinton, antigo presidente ― de esquerda, frise-se ― dos EUA teve um encontro com dona Dilma faz dois dias.

Agindo com pouca elegância, nossa presidente aceitou que fossem incluídas frases agressivas no discurso que lhe prepararam para pronunciar na ocasião. Nossa presidente ainda não aprendeu que não convém assumir atitude professoral e desafiante do tipo conosco, ninguém podosco diante de visitantes estrangeiros. Pega mal pra danar.

Dona Dilma declarou que, no panorama atual, «não há espaço para relações hegemônicas»(*). Palavreado estabanado, malcriado, inútil, e típico de quem sofre do que Nélson Rodrigues chamou um dia de complexo de vira-lata. Explico.

Dilma Rousseff & Bill Clinton Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

Dilma Rousseff & Bill Clinton
Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

É estabanado porque visa a atingir em cheio o estrangeiro. É pisão no pé de propósito.

É malcriado porque colide com nossa tradição de dar boa acolhida a quem vem de visita. Não era hora nem lugar de proferir esse tipo de discurso.

É inútil porque se dirige a alguém que já deixou o poder há 12 anos e que não pode ser responsabilizado pela orientação política atual de seu país.

É marca de um governo que sofre manifestamente de complexo de vira-lata. Ou alguém imagina Frau Angela Merkel, Monsieur François Hollande ou Mr. David Cameron fazer esse tipo de advertência a um antigo mandatário dos Estados Unidos? É o tipo de discurso que se pode esperar de um Chávez, de um Castro, de um Evo. Na boca da presidente do Brasil, não cai bem.

A inflação voltou; o PIB empacou; o Mercosul emperrou; a cada mês que passa, mais famílias se credenciam a receber a bolsa família ― o que é péssimo sinal; o Brasil está cada dia mais longe de ser admitido com membro permanente do CS da ONU; nossas prisões, já superlotadas, passam a aceitar políticos que se julgavam acima do populacho. Com tudo isso acontecendo, é ousadia levantar a crista e tentar dar lição de relações políticas a quem entende do riscado.

Quer dona Dilma queira ou não, quer seus áulicos gostem ou não ― alô, doutor «top-top» Garcia! ― os EUA continuarão ainda por longos anos na dianteira tecnológica, econômica e bélica. Ainda não está à vista o dia em que a situação se alterará.

Em vez de dar murro em ponta de faca, nossa mandachuva-mor deveria se comportar mais como chefe de Estado e menos como chefe de facção.Interligne 12

(*) «Relações hegemônicas» é formulação tortuosa, daquelas que parecem eruditas, mas são pobres de significado. O que a presidente queria dizer ― mas provavelmente não ousou ― era que não há espaço para hegemonias. No entanto, ela se engana. Ou se ilude, o que é ainda pior. Hegemonias existirão sempre, que é assim desde que o mundo é mundo: o forte domina o fraco. O Planalto pode muito, pode mexer até em leis federais, mas não conseguirá mudar leis da natureza. Vai ficar no palavreado.

Ser ou não ser

José Horta Manzano

Faz mais de uma década que o Planalto decidiu proclamar, pela segunda vez, a independência do Brasil. Encasquetaram no bestunto a ideia de que nosso país já tinha atingido o patamar mais elevado, que nos tínhamos tornado grandes entre os grandes, fato que agora nos garante direitos reservados aos primeiros da classe. A obtenção de uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU tornou-se a obsessão maior de nossos medalhões.

Fizeram o que podiam e o que não deviam. Distribuíram dinheiro a ditadores sanguinários, acolheram foragidos internacionais, abriram embaixadas em lugares improváveis, fecharam os olhos para as barbaridades cometidas por nossos amáveis vizinhos. Não deu certo. Estamos hoje tão distantes da almejada cadeira quanto estávamos uma dúzia de anos atrás. Talvez até mais afastados. Por quê?

Mapa das Filipinas

Mapa das Filipinas

Porque, como sói acontecer na Terra de Santa Cruz, o enfoque é posto nos direitos, enquanto os deveres são esquivados. Direitos andam de mãos dadas com deveres ― eis aí uma verdade. Dito assim, parece uma evidência. Mas, no Brasil, temos grande dificuldade em assimilar essa correlação entre o esforço despendido e o prêmio conquistado. Não se pode levar o prêmio sem prévio esforço. Se isso acontecesse, as relações humanas se desequilibrariam. Se a gangorra sobe de um lado, tem de descer do outro. A física e o bom-senso concordam.

Sexta-feira passada, um tufão assolou as ilhas Filipinas. A História não tinha guardado notícia de um furacão dessa magnitude. Aldeias e cidades foram devastadas em poucas horas. Em certas regiões, nada ficou de pé ― todas as construções humanas desabaram. Fala-se em dez mil mortos. O número de vítimas não será jamais conhecido com exatidão.

Tufão Yolanda, nov° 2013

Tufão Yolanda, nov° 2013

O mundo se comoveu. Num primeiro momento, os Estados Unidos encaminharam ajuda de emergência por via aérea. Logo atrás, vem vindo o porta-aviões George Washington, carregando remédios, víveres, 5000 marinheiros e 80 aviões. Outros navios militares americanos receberam ordem de acudir ao local da catástrofe.

A Rússia cuidou de enviar um hospital de campanha (airmobile hospital). A França já despachou víveres e um destacamento de bombeiros especializados em localizar pessoas desaparecidas. A Espanha decidiu mandar dois aviões com material de ajuda humanitária. A Austrália remeteu material de emergência mais uma ajuda em dinheiro. O Vaticano deu ajuda financeira. O governo alemão informou que, além de uma primeira ajuda de meio milhão de euros, já havia enviado um avião com 25 toneladas de carga humanitária. Até a China, que mantém antigo diferendo com as Filipinas por questões territoriais, pôs a briga na geladeira por algum tempo e mandou ajuda financeira. Enquanto isso, no Brasil…

Juro que procurei. O Globo nos informa que brasileiros residentes nas Filipinas fazem o que podem para ajudar os sinistrados. Outro site de informação nos conta que o governo brasileiro «lamenta» a morte de tanta gente inocente. Não me pareceu suficiente. Fui diretamente à fonte. Consultei o site da mui oficial EBC ― Empresa Brasil de Comunicação, uma «instituição da democracia brasileira» ― como eles mesmos se apresentam. Procurei por notícias oficiais sobre a reação da «democracia brasileira» a essa infelicidade que se abateu sobre os pobres filipinos.

Manila, capital das Filipinas (Qualquer semelhança com nossa paisagem urbana pode não ser mera coincidência)

Manila, capital das Filipinas
(Qualquer semelhança com nossa paisagem urbana pode não ser mera coincidência)

Quem procura, acaba achando. Além dos renovados pêsames ao governo daquele arquipélago, a Empresa Brasil de Comunicação nos direciona para o site de dez ongs que coordenam doações que particulares queiram fazer. Ajuda oficial do governo brasileiro? Não encontrei.

Ok, admito que o fato de eu não ter encontrado não significa irremediavelmente que nossos mandachuvas não estejam pensando no assunto. Talvez eu não tenha buscado no lugar certo. Se algum leitor me puder mandar alguma luz, agradeço antecipadamente.

De um gigante despertado, de uma potência da magnitude da nossa, de uma nação pujante, soberana, independente, primeiro-mundesca e altaneira, o mundo espera algo mais que um telegrama de pêsames. O poderio não se alardeia com bravatas, mas se demonstra com atos.

Desapaixonadamente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 12 out° 2013

Nada é totalmente preto, nada é totalmente branco ― in medio stat virtus. A virtude está tão distante de um extremo quanto do outro.

De uns tempos para cá, nosso país tem vivido momentos excepcionais. Não dispomos ainda de recuo suficiente para analisar o impacto desse tropel. Nem bem deu tempo de curtir a ressaca de um episódio tenebroso, e já somos abalroados por nova batelada de assombros. Não passa um dia sem que as manchetes nos pasmem com uma saraivada de notícias inacreditáveis.

Tirando os beneficiários diretos de cada escândalo e aqueles que, por alienação ou ignorância, vão levando sua vidinha à margem da sociedade, pouca gente tem-se alegrado com os recentes sucedidos. Não há muito que festejar. A tentação é forte de achar que o período é de trevas e que o fim do mundo está ali na esquina.

Mas não é bom caminho. Pode dar desânimo ou até úlcera. Há que ter em mente que nada é inteiramente negativo nem totalmente positivo. Vamos dar uma espiadela nas comoções nacionais mais recentes e lançar sobre elas um olhar menos apaixonado.

Houve o caso do deputado que reside atualmente numa prisão. Pois é, aquele a cujos pares coube decidir, em voto secreto, se merecia conservar o mandato. Numa cena patética, o eleito da nação chegou algemado à Câmara. O país se decepcionou ― com razão ― com o resultado do voto. O mandato foi salvo, mas a grita popular abriu as portas para a abolição dessa estranha prática que oculta deputados atrás do anonimato. Foi o lado bom da história.

Houve o caso da prisão do diretor de um presídio baiano terceirizado. Segundo noticiou a imprensa, sua cadeia tinha-se tornado uma casa de mãe joana. Ali podiam entrar celulares e drogas, desde que a taxa cabida fosse paga à diretoria. Escândalo? Sem dúvida. Mas foi também um alerta. Mostrou que talvez não seja boa ideia confiar presídios à iniciativa privada. Foi o lado bom da história.

Houve casos de figurões de alto coturno ― deputado, senador, ministro ― flagrados em voos da alegria. Os pretextos eram pitorescos: um jogo de futebol, uma festa de casamento, um passeio familiar em Cuba. Desfaçatez? Sem dúvida. Mas é certeza que a divulgação vai refrear outras excelências que se sentissem tentadas a seguir o exemplo. Foi o lado bom da história.

Bandeira Brasil rasgada 2

Houve o caso da descoberta da espionagem americana. Todos sabem que, desde a esposa que remexe nos bolsos do marido até Estados e grandes empresas, todos espionam todos. Só não faz quem não tem como fazer. O escândalo foi apregoado a todos os ventos, mormente porque nossa voluntariosa presidente se sentiu pessoalmente visada. Rendeu até discurso na ONU, protocolarmente aplaudido pela plateia. Um horror? Uma traição? Sem dúvida. Mas o aviso terá servido para que nossos dirigentes ― que almejam elevar o País ao patamar dos primeiros da classe ― deixem de lado a ingenuidade e se apliquem em instaurar serviços eficientes de contraespionagem. Quem quer, faz. Quem não quer pede à ONU que controle a internet. Foi o lado bom da história.

Houve o caso das vaias na abertura da copinha, que abriram a porteira para vigorosas manifestações de protesto. Colhidos de surpresa, dirigentes e eleitos de todos os quadrantes se sobressaltaram. Afinal, fazia tanto tempo que o povo, apático, dormitava! Foi uma bagunça? Foi. Deu medo? Ô, se deu! Mas foi sinal tangível de que o povo está despertando de sua letargia. A circulação instantânea da informação anda estreando um Brasil novo. Que será, esperamos todos, melhor do que o antigo. Foi o lado bom da história.

Finalmente, houve o caso do mensalão. Ah, esse mensalão! Em cartaz há 8 anos, tem dado pano pra mangas. E parece que ainda está longe de terminar. Um escândalo e tanto! No entanto, assim como toda moeda tem duas faces, esse sucedido também tem dois flancos ― um medonho e um consolador. O lado sombrio já foi repisado ad nauseam. Não vale a pena aplicar mais uma demão.

Mas que ninguém se apoquente. Se vem polarizando as atenções da nação há anos, esse escândalo não ultrapassou nossas fronteiras. Na Europa, não mereceu da mídia nem nota de rodapé. As aparências estão salvas. Alegremo-nos!

No plano interno, assim que a poeira baixar e as paixões se arrefecerem, havemos de nos dar conta de que, no fundo, muita coisa boa terá ficado. Pouco importa que este ou aquele condenado seja preso em regime fechado, aberto ou semicerrado. O que importa é que foi aberta uma brecha na impunidade tradicional. E isso vai coibir futuras veleidades de transgressão que pudessem germinar no andar de cima. Alvíssaras!

Por que espionamos o Brasil

Will Washington support Brazil’s bid for permanent membership in the U.N. Security Council?

“If you ask me, no,” he says. “We already have two permanent adversaries: Russia and China. We don’t need a third one.”

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Washington dará seu apoio à tentativa do Brasil de tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU?

“Se depender de mim, não” responde ele. “Já temos dois adversários permanentes: Rússia e China. Não precisamos de um terceiro.”Interligne 18b

Trecho da conversa entre Carlos A. Montaner, do Miami Herald, e um diplomata americano. O artigo (em inglês) está no site do jornal Miami Herald. Clique aqui.

O inimigo comum

José Horta Manzano

Eu estava decidido a botar na geladeira, pelo menos por enquanto, essa história do discurso de dona Dilma na ONU. Como se diz em linguagem caseira, esse assunto de espionagem já está enchendo os picuá.

Surpreso, ainda vejo, aqui e ali, comentaristas e colunistas de bom nível a dirigir impropérios, com ar ofendido, contra a revoltante traição do governo dos EUA. Como quem dissesse: «Pô, eu podia esperar isso de qualquer um, menos de você!». Até escribas que aprecio ― gente fina, mesmo ― têm caído na rede.

Dentre as muitas dezenas de ministros e assessores que prestam serviço ao Planalto, tiro meu chapéu para os que cuidam do marketing. São campeões, sempre antenados e incrivelmente sintonizados com o Zeitgeist, o espírito dos tempos que correm. Costumam acertar. Aconselham a presidente a dar o murro certo, na mesa certa, na hora apropriada. E funciona.

Faz centenas de anos que todo governante esperto sabe que, quando a situação interna vai mal, a melhor solução é encontrar um inimigo externo. A ameaça comum tem o poder de aplainar rugosidades, aproximar adversários, unir o povo em volta de um líder que o possa salvar, defender ou vingar.

Como não acredito que os estrategistas de Brasília estejam dispostos a apostar um tostão furado na hipotética instauração de um marco mundial para regular a internet, chego à triste conclusão que o contundente discurso da presidente foi jogada de marketing, no duro. E funcionou!

Se alguém ainda tem alguma dúvida, que leia a opinião da colunista Eliane Cantanhêde, publicada na Folha de São Paulo deste 26 de set°. De costume, ela lança olhar distante e crítico sobre os fatos políticos, mas, desta vez, não esconde que sentiu o baque gerado pela perfídia do amigão de longa data. Está longe de ser a única a pensar assim. A colunista, como tantos outros, mostra acreditar que a fala «contundente e vigorosa» de nossa presidente possa ter tido o poder de envergonhar o governo dos EUA e de suscitar um olhar de reprovação do mundo inteiro sobre Obama. Miragem.

Dom Quixote procura moinho by Amorim

Dom Quixote e seu moinho
by Amorim

O governo da mais forte potência planetária está acostumado a ser vituperado. Fidel Castro passou boa parte de sua vida insultando o império. Mas o ditador já se afastou das luzes da ribalta, enquanto o império continua impávido, firme e forte.

Ahmadinejad também fez sua parte. Grande Satã foi a menor das ofensas que dirigiu ao temido inimigo. O frenético mandachuva já caiu, ao passo que o império permanece de pé.

Chávez recolheu o bastão e fez de sua curta vida uma batalha contra moinhos de vento. Também esse figurão já deixou o palco. Nenhum deles fez o mundo avançar.

Dona Dilma fez agora o que lhe aconselharam. Tampouco terá contribuído para a sublimação da humanidade. Nossa presidente usou o velho truque que já garantiu algum tempo de sobrevida a regimes em caimento.

Quando decidiram invadir as Falklands, os generais argentinos se valeram da mesma artimanha para unir a nação em torno de um ideal comum. O imortal companheiro Chávez sempre orientou suas ações pela mesma cartilha de paranoia contra um inimigo externo. É recurso infalível ― tiro e queda. No entanto, como acontece com todo remédio de ação rápida, seus efeitos tendem a dissipar-se em pouco tempo.

Daqui até a eleição de 2014, nosso ministério de Marketing terá de identificar outros moinhos que possam servir como inimigos externos.

O enxofre e as sapatadas

José Horta Manzano

Se pudesse falar, aquela parede revestida de granito verde que serve de pano de fundo para discursos na sede da ONU em Nova York teria muitas histórias para contar.

No dia 12 de outubro de 1960, um irritado Kruchev, primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética, subiu àquela tribuna para exprimir sua indignação. E fez isso de forma pouco ortodoxa mas assaz eloquente. Aos berros, brandiu um de seus sapatos e desferiu com ele violentos golpes sobre o púlpito. Passados mais de 50 anos, a foto da cena, captada por um sortudo profissional, ainda percorre a internet.

Nikita Kruchev 12 out° 1960

Nikita Kruchev
12 out° 1960

Outro momento burlesco, que fugiu à sucessão habitual de modorrentos discursos, aconteceu poucos anos atrás, em 20 de setembro de 2006. Foi quando o imortal companheiro bolivariano Chávez, ao se exprimir logo após o presidente americano, soltou sua memorável tirada: «¡Huele a azufre!». Quis com isso dizer que, após a passagem do diabo ― o presidente Bush ―, ainda pairava no ar um cheiro de enxofre.

O discurso que dona Dilma pronunciou no mesmo lugar nesta terça-feira repercutiu nos jornais online. Recebeu qualificativos tais como contundente, duro, incisivo. Mas a ressonância não foi muito mais longe. Com a notável exceção do Diário de Notícias português desta quarta-feira, a edição impressa dos principais jornais europeus não dá à fala da presidente do Brasil a importância esperada pela equipe que alinhavou os argumentos. Estamos a anos-luz do cheiro de enxofre e das sapatadas.

Se o discurso chamou a atenção, foi porque foge aos cânones. Não é todos os dias que o dirigente maior de algum país sobe à tribuna da ONU para confessar ao mundo que não dispõe de meios para lutar contra a bisbilhotagem alheia. E que, assim sendo, exige que parem de xeretar. O primeiro reflexo dos ouvintes foi de perplexidade. Mas ninguém se preocupa com as pequenas mazelas alheias. O espanto logo passou.

Como eu dizia ontem, a página foi virada. Os EUA não desmontarão seu programa de espionagem planetária. Para suas comunicações, o Brasil vai continuar morando de aluguel em canais estrangeiros durante muitos e muitos anos. Como não me parece cabível que os assessores de nossa presidente não se deem conta dessa realidade, só me resta concluir que a fala de ontem foi mera mise-en-scène dirigida ao distinto público interno. Uma fúria midiática, marqueteira e… malandra.

Dilma & Obama ― 24 out° 2013 by Amarildo Lima

Dilma & Obama ― 24 set° 2013
by Amarildo Lima

Na Europa, ninguém deu maior importância ao que disse dona Dilma. O noticiário radiofônico e os jornais impressos destacam hoje os habituais problemas internos de cada país. No campo internacional, dois acontecimentos importantes fazem as manchetes: o atentado perpetrado por maometanos radicais num centro comercial queniano e as nuvens negras que dão sinais de querer dissipar-se sobre os céus de Teerã.

Esta última, sim, é novidade positiva, daquelas que trazem esperança e dão ânimo. Quem não gosta de notícia boa?

Mais um desperdício

José Horta Manzano

Seguindo uma tradição não escrita, o representante do Brasil é o primeiro a discursar, a cada ano, na abertura da Assembleia-geral das Nações Unidas. Essa praxe perdura há 65 anos, desde que o chanceler Oswaldo Aranha inaugurou a primeira dessas reuniões de gala.

Todo o mundo sabe que as grandes decisões não são tomadas em assembleias públicas, com a presença de representantes de quase 200 países, luzes, câmeras e ação. Os destinos do planeta são decididos em conciliábulos bem mais discretos. Conversas de corredor costumam ser mais produtivas que discursos inflamados e ostensivos.

Assim mesmo, o fato de o presidente do Brasil ser o primeiro a discursar é um privilégio a não desperdiçar. Exatamente como aconteceu com Oswaldo Aranha em 1947, os ouvidos do auditório estarão frescos e descansados quando dona Dilma fizer seu pronunciamento. Ser o primeiro é melhor do que ser o décimo nono ou o quinquagésimo segundo.

Os holofotes do mundo estão apontados para a guerra na Síria, para os tímidos sinais de abertura chegados de Teerã, para o crônico problema palestino, para o tráfico de entorpecentes, para os transtornos climáticos. Seria uma ocasião de ouro para o Brasil ― eterno candidato a uma cadeira cativa no Conselho de Segurança ― mostrar seu envolvimento nos assuntos planetários e fazer saber qual é sua posição com relação a cada um deles.

O discurso de dona Dilma by Amarildo Lima

O discurso de dona Dilma
by Amarildo Lima

Que esperança! Pelo que está anunciado, nossa presidente prepara-se para malbaratar, pela enésima vez, a oportunidade que nos é dada uma vez por ano. Os luminares do Planalto, que não conseguiram até hoje se libertar de seu complexo de inferioridade e de perseguição, prepararam para dona Dilma uma fala surreal.

No momento em que escrevo, o discurso ainda não foi pronunciado. Mas o que se prevê é que nossa presidente exponha à luz dos refletores o fato de ter descoberto que grandes potências se espionam entre si, e que, ocasionalmente, podem até espionar países menos relevantes, como o nosso. Horror!

Aonde queremos chegar com essas reclamações? Nem os ideólogos que prepararam o discurso da presidente parecem saber direito o que querem. É importante ser realista. O choramingar ofendido da discursante não comoverá ninguém. Todos aplaudirão polidamente, virarão a página, e passarão a assuntos mais sérios.

No rastro do famigerado controle social da mídia, objetivo sonhado pelos que nos governam há mais de dez anos, dona Dilma pretende propor uma espécie de controle planetário dos meios de comunicação. Na sua imaginação, esse controle fechará todas as portas à espionagem.

O que Sua Excelência omitirá é o fato de a CIA (inteligência americana) e a PF (Polícia Federal brasileira) estarem colaborando estreita e regularmente há décadas. Ela tampouco dirá que a PF e a embaixada dos EUA formalizaram um acordo em 2010, durante o governo de seu predecessor. Aos incrédulos, aconselho conferir rapidamente o que publicou a Folha de São Paulo no dia 15 set° 2013.

Vejo algumas explicações possíveis para essa aparente incongruência:

1) Talvez nossa presidente não esteja a par dessas práticas.
Se assim for, está aí a prova cabal de que estamos sendo governados por um elenco de amadores que não entende do riscado. Não tinham experiência e nada conseguiram assimilar nestes doze anos de poder.

2) Talvez nossos mandachuvas realmente acreditem que o caminho é esse.
Se assim for, está aí a demonstração de uma ingenuidade pueril, digna de mentes adolescentes. Na cabeça de governantes de um país como o nosso, destoa.

3) Talvez o Planalto esteja apenas jogando para a galeria.
Esse é o pior cenário. Se assim for, ficam patentes todos os defeitos: a incapacidade, a ingenuidade e, para coroar, a má-fé. Tudo junto.

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Como disse uma vez o grande Tom Jobim, «o Brasil não é para principiantes». Fosse o maestro ainda vivo, sabe Deus o que diria ao ver que os próprios governantes do País não passam de aprendizes.

O que é, o que é?

José Horta Manzano

Você sabia?

Entre os 193 membros da ONU, a maioria dispõe de costa marítima. Uma quarta parte, no entanto, é constituída de países encravados no continente, sem acesso ao mar.

Mas há um fato ainda mais curioso. Existem países duplamente encravados, ou seja, partindo deles, é preciso atravessar pelo menos dois outros países para chegar ao mar aberto. São somente dois, em todo o planeta. Quais são?

Um pouco de suspense. Resposta amanhã.

O jogo e a paz

José Horta Manzano

Ingenuidade é característica da infância. É enternecedor ler cartinhas escritas por crianças e endereçadas ao Papai Noel. Cada época da vida tem seus atributos. E é muito bem que assim seja.

À medida que o tempo vai passando, os marcadores vão-se modificando. À pureza infantil, segue-se a rebeldia do adolescente, a sensação de onipotência do jovem adulto, o realismo próprio da maturidade.

Carta a Papai Noel

Carta a Papai Noel

Assim deveria ser. No entanto, como já dizia o outro, na prática, a teoria é outra. Não é raro que adultos já bem crescidinhos conservem traços infantis. Não é perigo tão grande: cada um tem suas idiossincrasias.

Bem mais grave é ver a casta dirigente de um país ―todos à beira de uma idade provecta ― ser regida por delírios infantis. É assombroso constatar que os que têm nas mãos as rédeas do País continuam acreditando na existência do bom velhinho, aquele que ri «ho, ho, ho».

Em 2004, na certeza de que seria bom para nosso País, nossos mandachuvas insistiram para que nos fosse garantida participação significativa na Minustah, força de intervenção da ONU destinada a fazer reinar a ordem no pobre e atormentado Haiti.

Os mandarins do Planalto, comandados à época por um enfatuado presidente, imaginaram que a situação se resolveria num piscar de olhos. Um jogo de futebol para encantar e uma tropazinha de algumas centenas de soldados para distribuir barrinhas de cereais entre os miseráveis deveriam bastar. Ademais, seria um passo de capital importância para a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, neurose obsessivo-compulsiva do presidente de então.

As grandes potências, cujos dirigentes são menos deslumbrados, ficaram felizes em livrar-se do abacaxi. Aceitaram rapidinho.

Já vai para dez anos que isso se passou. O Haiti continua ocupando o pouco invejável lugar de país mais pobre das Américas. A calma por lá é só aparente ― todos sabem que terminará no exato instante em que as tropas de ocupação se retirarem. O Brasil continua tão distante da cobiçada cadeira cativa no Conselho de Segurança quanto estava em 2004.

A intervenção, que o Planalto acreditava ser coisa de poucos meses, não dá sinal de chegar ao fim. O erário ― cofre onde se guardam os impostos, diretos e indiretos, pagos por todos os habitantes do território nacional ― continua sendo sangrado. Não se sabe direito quantos bilhões a aventura terá custado até agora. De qualquer maneira, dar esmola com chapéu alheio não dói no bolso, não é mesmo?

Minustah Missão de estabilização no Haiti

Minustah
Missão de estabilização no Haiti

Reportagem da Folha de São Paulo esclarece que perto de 700 milhões de reais já foram gastos só com adicionais de soldo pagos aos militares estacionados lá. Só adicionais! Esse total, evidentemente, não inclui o montante gasto com transporte, armamentos, alimentação, logística, e tudo o mais que um deslocamento de tropa pode custar.

Resultado da façanha: gastamos rios de dinheiro e continuamos no ponto zero. Fica reforçada a impressão de nosso País vem sendo governado por cortesãos ingênuos e incapazes.

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Interligne vertical 5Nota de pé de página:
Em 18 de agosto de 2004, realizou-se o «jogo da paz». O povão, naturalmente, foi escorraçado do estádio. De qualquer maneira, não teriam dinheiro para pagar a entrada. O Brasil ganhou por 6 a zero. Mas a paz não veio.

Quem tem padrinho

José Horta Manzano

Jacques Chirac, que foi presidente da República Francesa por 12 anos seguidos, é grande admirador do Japão e de sua cultura. Dizem que o respeito que ele nutre por aquele país é sincero.

Segundo diversas fontes, o antigo presidente fez mais de 50 viagens ao País do Sol Levante. Era apaixonado pelos combates de sumô. O objetivo de algumas de suas visitas teria sido exatamente o de assistir a torneios desse esporte.

François Hollande, presidente atual, está estes dias em visita oficial ao Japão. Fazia 17 anos que um evento dessa importância não ocorria. A última visita de um chefe de estado francês àquele país havia sido em 1996.

Que se saiba, Hollande não nutre nenhuma paixão especial pelo arquipélago nipônico. No entanto, em discurso pronunciado no parlamento de Tóquio nesta sexta-feira, não foi por caminhos tortuosos: declarou, explicitamente, que o Japão deve tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. É impossível ser mais claro.

Se a paixão que Chirac nutria pelo país oriental era pessoal e sincera, não se pode afirmar que a declaração de Hollande venha do fundo do coração. Em política, principalmente em relações internacionais, as atitudes obedecem a um emaranhado de interesses. O que parece nem sempre é.Interligne 10

Quando dona Dilma anunciou, semana passada, que o dinheiro emprestado aos governos corruptos da África será dado por perdido, não o fez porque tem bom coração. Há outras intenções por detrás dessa atitude estranha, intempestiva, inesperada. Alguns, como Elio Gaspari, veem lá interesses econômicos. Pode ser. Eu percebo, mais que isso, uma manobra malandra e sorrateira, que nenhum benefício trará ao povo brasileiro.

ONU ― Conselho de Segurança

ONU ― Conselho de Segurança

Já faz bem uns 10 anos que o alto escalão de nossa República elegeu como objetivo internacional principal a obtenção de assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Com o tempo, foi-se tornando fixação obsessiva. Dado que velhos rancores impedem a muitos mandachuvas brasileiros de se aproximar daqueles que realmente decidem, nossa diplomacia tem-se dedicado a fazer lobby junto a governos inexpressivos.

A África, com seus 54 países em maioria pobres, representa ― na visão da diplomacia brasileira ― um cabo eleitoral de peso na batalha que o governo decidiu travar para obter o ansiado assento. Daí o esforço para parecer simpático a tiranos e cleptocratas africanos, segundo a pluma irreverente de Gaspari. É o programa bolsa-família expandido em escala planetária. Cooptam-se dirigentes estrangeiros corruptos a fim de conseguir apoio à cruzada brasileira rumo ao CS.Interligne 10

Tampouco a declaração de Hollande corresponde a um sentimento de especial amor pelo Japão. É nada mais que um puxão de orelhas aplicado ao governo chinês. Eis o que aconteceu.

Alguns dias atrás, ao se dar conta de que a China estava praticando dumping para acaparar o mercado europeu de painéis de energia solar, o governo francês ameaçou penalizar a importação desses artefatos produzidos na China. Em represália imediata, o governo chinês garantiu que estava estudando aumentar drasticamente as tarifas de importação de vinhos franceses.

Pronto, está aí a continuação da novela. A declaração de Hollande não passa de retórica. Está mais para jogo de cena. São palavras vazias que, no entanto, podem trazer bom retorno. Por um lado, alfinetam a China ― grande adversária da entrada do Japão no CS; por outro, afagam o orgulho nipônico. Quem é que não gosta que se lhe alise o ego?

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Resumo da ópera
Cinco dos membros permanentes do CS da ONU têm poder de veto. Basta que um só deles ― EUA, Rússia, China, Reino Unido ou França ― oponha seu veto a uma resolução, e ela será rechaçada e despachada para o arquivo morto.

Portanto, claro está que não adianta Monsieur Hollande jogar flores ao hóspede. Enquanto a China se opuser, o Japão não entrará no CS.

Tampouco adianta dona Dilma esbanjar na África perto de um bilhão do dinheiro suado dos brasileiros. Melhor faria se gastasse seu tempo e seu esforço fazendo o necessário para cativar os grandes, os que decidem. Quem tem padrinho não morre pagão.

É melhor entrar pela porta da frente. Dá mais certo do que forçar a janela.