O inimigo comum

José Horta Manzano

Eu estava decidido a botar na geladeira, pelo menos por enquanto, essa história do discurso de dona Dilma na ONU. Como se diz em linguagem caseira, esse assunto de espionagem já está enchendo os picuá.

Surpreso, ainda vejo, aqui e ali, comentaristas e colunistas de bom nível a dirigir impropérios, com ar ofendido, contra a revoltante traição do governo dos EUA. Como quem dissesse: «Pô, eu podia esperar isso de qualquer um, menos de você!». Até escribas que aprecio ― gente fina, mesmo ― têm caído na rede.

Dentre as muitas dezenas de ministros e assessores que prestam serviço ao Planalto, tiro meu chapéu para os que cuidam do marketing. São campeões, sempre antenados e incrivelmente sintonizados com o Zeitgeist, o espírito dos tempos que correm. Costumam acertar. Aconselham a presidente a dar o murro certo, na mesa certa, na hora apropriada. E funciona.

Faz centenas de anos que todo governante esperto sabe que, quando a situação interna vai mal, a melhor solução é encontrar um inimigo externo. A ameaça comum tem o poder de aplainar rugosidades, aproximar adversários, unir o povo em volta de um líder que o possa salvar, defender ou vingar.

Como não acredito que os estrategistas de Brasília estejam dispostos a apostar um tostão furado na hipotética instauração de um marco mundial para regular a internet, chego à triste conclusão que o contundente discurso da presidente foi jogada de marketing, no duro. E funcionou!

Se alguém ainda tem alguma dúvida, que leia a opinião da colunista Eliane Cantanhêde, publicada na Folha de São Paulo deste 26 de set°. De costume, ela lança olhar distante e crítico sobre os fatos políticos, mas, desta vez, não esconde que sentiu o baque gerado pela perfídia do amigão de longa data. Está longe de ser a única a pensar assim. A colunista, como tantos outros, mostra acreditar que a fala «contundente e vigorosa» de nossa presidente possa ter tido o poder de envergonhar o governo dos EUA e de suscitar um olhar de reprovação do mundo inteiro sobre Obama. Miragem.

Dom Quixote procura moinho by Amorim

Dom Quixote e seu moinho
by Amorim

O governo da mais forte potência planetária está acostumado a ser vituperado. Fidel Castro passou boa parte de sua vida insultando o império. Mas o ditador já se afastou das luzes da ribalta, enquanto o império continua impávido, firme e forte.

Ahmadinejad também fez sua parte. Grande Satã foi a menor das ofensas que dirigiu ao temido inimigo. O frenético mandachuva já caiu, ao passo que o império permanece de pé.

Chávez recolheu o bastão e fez de sua curta vida uma batalha contra moinhos de vento. Também esse figurão já deixou o palco. Nenhum deles fez o mundo avançar.

Dona Dilma fez agora o que lhe aconselharam. Tampouco terá contribuído para a sublimação da humanidade. Nossa presidente usou o velho truque que já garantiu algum tempo de sobrevida a regimes em caimento.

Quando decidiram invadir as Falklands, os generais argentinos se valeram da mesma artimanha para unir a nação em torno de um ideal comum. O imortal companheiro Chávez sempre orientou suas ações pela mesma cartilha de paranoia contra um inimigo externo. É recurso infalível ― tiro e queda. No entanto, como acontece com todo remédio de ação rápida, seus efeitos tendem a dissipar-se em pouco tempo.

Daqui até a eleição de 2014, nosso ministério de Marketing terá de identificar outros moinhos que possam servir como inimigos externos.

Um pensamento sobre “O inimigo comum

  1. O Brasil costuma falar “grosso” c/ os EEUU, mas fala “fino” c/ a Bolívia, p. ex… (citado p/ Rogério Mendelski, em seu programa matinal na Rádio Guaíba) Qto à Eliane Cantanhêde, vale a expressão de Júlio César >>> Brutus, filho meu, tu também?… ><

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