Quem tem padrinho

José Horta Manzano

Jacques Chirac, que foi presidente da República Francesa por 12 anos seguidos, é grande admirador do Japão e de sua cultura. Dizem que o respeito que ele nutre por aquele país é sincero.

Segundo diversas fontes, o antigo presidente fez mais de 50 viagens ao País do Sol Levante. Era apaixonado pelos combates de sumô. O objetivo de algumas de suas visitas teria sido exatamente o de assistir a torneios desse esporte.

François Hollande, presidente atual, está estes dias em visita oficial ao Japão. Fazia 17 anos que um evento dessa importância não ocorria. A última visita de um chefe de estado francês àquele país havia sido em 1996.

Que se saiba, Hollande não nutre nenhuma paixão especial pelo arquipélago nipônico. No entanto, em discurso pronunciado no parlamento de Tóquio nesta sexta-feira, não foi por caminhos tortuosos: declarou, explicitamente, que o Japão deve tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. É impossível ser mais claro.

Se a paixão que Chirac nutria pelo país oriental era pessoal e sincera, não se pode afirmar que a declaração de Hollande venha do fundo do coração. Em política, principalmente em relações internacionais, as atitudes obedecem a um emaranhado de interesses. O que parece nem sempre é.Interligne 10

Quando dona Dilma anunciou, semana passada, que o dinheiro emprestado aos governos corruptos da África será dado por perdido, não o fez porque tem bom coração. Há outras intenções por detrás dessa atitude estranha, intempestiva, inesperada. Alguns, como Elio Gaspari, veem lá interesses econômicos. Pode ser. Eu percebo, mais que isso, uma manobra malandra e sorrateira, que nenhum benefício trará ao povo brasileiro.

ONU ― Conselho de Segurança

ONU ― Conselho de Segurança

Já faz bem uns 10 anos que o alto escalão de nossa República elegeu como objetivo internacional principal a obtenção de assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Com o tempo, foi-se tornando fixação obsessiva. Dado que velhos rancores impedem a muitos mandachuvas brasileiros de se aproximar daqueles que realmente decidem, nossa diplomacia tem-se dedicado a fazer lobby junto a governos inexpressivos.

A África, com seus 54 países em maioria pobres, representa ― na visão da diplomacia brasileira ― um cabo eleitoral de peso na batalha que o governo decidiu travar para obter o ansiado assento. Daí o esforço para parecer simpático a tiranos e cleptocratas africanos, segundo a pluma irreverente de Gaspari. É o programa bolsa-família expandido em escala planetária. Cooptam-se dirigentes estrangeiros corruptos a fim de conseguir apoio à cruzada brasileira rumo ao CS.Interligne 10

Tampouco a declaração de Hollande corresponde a um sentimento de especial amor pelo Japão. É nada mais que um puxão de orelhas aplicado ao governo chinês. Eis o que aconteceu.

Alguns dias atrás, ao se dar conta de que a China estava praticando dumping para acaparar o mercado europeu de painéis de energia solar, o governo francês ameaçou penalizar a importação desses artefatos produzidos na China. Em represália imediata, o governo chinês garantiu que estava estudando aumentar drasticamente as tarifas de importação de vinhos franceses.

Pronto, está aí a continuação da novela. A declaração de Hollande não passa de retórica. Está mais para jogo de cena. São palavras vazias que, no entanto, podem trazer bom retorno. Por um lado, alfinetam a China ― grande adversária da entrada do Japão no CS; por outro, afagam o orgulho nipônico. Quem é que não gosta que se lhe alise o ego?

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Resumo da ópera
Cinco dos membros permanentes do CS da ONU têm poder de veto. Basta que um só deles ― EUA, Rússia, China, Reino Unido ou França ― oponha seu veto a uma resolução, e ela será rechaçada e despachada para o arquivo morto.

Portanto, claro está que não adianta Monsieur Hollande jogar flores ao hóspede. Enquanto a China se opuser, o Japão não entrará no CS.

Tampouco adianta dona Dilma esbanjar na África perto de um bilhão do dinheiro suado dos brasileiros. Melhor faria se gastasse seu tempo e seu esforço fazendo o necessário para cativar os grandes, os que decidem. Quem tem padrinho não morre pagão.

É melhor entrar pela porta da frente. Dá mais certo do que forçar a janela.

Frustração

José Horta Manzano

Um pouco por seus próprios méritos, um pouco por ajuda de interesseiros, o Lula conseguiu, em sua quarta tentativa, ser eleito presidente do Brasil.

Um pouco por interesse dos que o tinham ajudado a guindar-se à presidência, um pouco por sua própria vontade, o Lula ansiava ficar na História. História mundial, se possível.Boina

Sob o conselho de assessores mais bem informados e sintonizados com a realidade, seu governo manteve, em suas grandes linhas, a mecânica de funcionamento que já havia destravado o País antes de sua eleição. Não transtornar a gestão da economia foi fundamental. O sol desanuviado que inundou as finanças planetárias até a crise de 2008 ajudou também. E muito.

Nosso presidente, embriagado pelo sucesso que ― para espanto de cidadãos mais antenados ― não hesitou em atribuir exclusivamente a seus méritos pessoais, queria mais. As fronteiras nacionais, embora extensas, tornaram-se estreitas para seu anseio de glória planetária.

Seus assessores ― acertada ou ingenuamente, só o tempo dirá ― sopraram-lhe que o caminho mais direto seria alçar contra os Estados Unidos, potência  dominante, uma bandeira de discordância explícita e sistemática.

O presidente anuiu e acumpliciou-se com os que lhe indicavam a senda exótica. Nossos dirigentes decidiram, então, entregar nossos anéis, de mão beijada, à China. Em sua ingenuidade, convenceram-se de que o país oriental, pobre e atrasado como o nosso, se tornaria nosso melhor aliado. Mais que isso: nossa melhor garantia de conquistar uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, obsessão do Planalto já faz 10 anos. Na garupa, viria, naturalmente, a glória eterna de nosso taumaturgo.

Doce ilusão. Esqueceram-se de Drummond. (Talvez jamais tenham ouvido falar dele.)

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

PedraÉ. A pedra se chamava Hugo Chávez. Com esse, ninguém contava. Até pouco tempo antes, a Venezuela era apenas conhecida como saco de pancada da seleção nacional de futebol. Cinco a zero, seis a zero, oito a zero, era tudo o que esperávamos dos hermanos do norte.

Acontece que Hugo Chávez também tinha acólitos que o aconselhavam. E seus auxiliares lhe haviam soprado a mesma recomendação que recebera nosso presidente: afrontar os Estados Unidos.

O inconveniente é que Chávez foi mais rápido, mais midiático e mais contundente. Terá sido por sua boina caída de lado, por sua camisa vermelha, por seu descaramento, por sua falta de compostura. Terá sido porque seu único produto de exportação era mais estratégico que todos os nossos reunidos. É difícil dizer.

O fato é que o presidente vizinho fez mais barulho que o nosso, projetou-se mais que o nosso, amedrontou mais que o nosso. Em uma palavra: enevoou a imagem que nosso Lula nacional gostaria de ter projetado no planeta.

Nosso guia teve de abandonar a ideia de tornar-se líder da rebeldia sulamericana. Foi obrigado a contentar-se com o papel de coadjuvante. Há de ter sido uma das maiores frustrações de sua carreira.

O destino, que é inexorável, decidiu e obrou. Enquanto nosso Lula era número um inconteste no Brasil e brilhava dentro das fronteiras, quem resplandecia no panorama global era Chávez. Ofuscava nosso presidente. Incomodava.

Agora acabou. Ao bolivariano, restam as homenagens dos irredutíveis, as obséquias nacionais, a comoção do bom povo, o culto póstumo. A nosso guia tupiniquim, resta a amargura do que poderia ter sido mas não foi.

Se nosso Lula guarda ― entre outros ― um desgosto particular, é certamente este: seu caminho ao estrelato foi sombreado por um concorrente com as mesmas ambições. Que fazer? Nada é perfeito.

Agora é tarde. Para ambos.

O remendo

O remendo 1José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 janeiro 2013

A língua portuguesa escrita não está longe de completar um milênio. Nos primeiros séculos, escrever não estava ao alcance de qualquer um. Só os eclesiásticos e os bem-nascidos eram letrados. Naquele contexto, a grafia das palavras dependia do gosto do freguês. Cada escriba manejava sua pluma da forma que melhor lhe aprouvesse.

Hoje e oj eram equivalentes; ver e veer também; coraçon e corazon eram aceitos indistintamente. A escrita não estava codificada, nem muito menos normatizada. Era o paraíso dos escritores, que, livres e soltos, não precisavam consultar dicionários, nem gramáticas. O distinto público leitor era, de qualquer modo, minguado. E dicionários e gramáticas ainda não haviam surgido.

O tempo passou, Gutenberg redefiniu a arte de imprimir, a escrita pôde enfim se popularizar. A estagnação medieval foi perdendo sua característica de imutabilidade das gentes e das coisas. Copérnico e Galileu movimentaram planetas, e o universo deixou de ser estático.

O uso de nossa língua também se acelerou. Num movimento espontâneo, a grafia foi-se fixando. Na ausência de normas, a escrita se propagou por imitação. Oj, veer e corazon foram rareando, suplantados pelos modernos hoje, ver e coração.

O 7 de setembro nos separou da metrópole, mas não influenciou a língua. Durante os 50 anos seguintes, famílias abastadas continuavam a mandar seus rebentos a Coimbra. Mesmo assim, a distância linguística entre Portugal e o Brasil foi aos poucos se alargando.

No limiar do século 20, tanto lá quanto cá, muita coisa havia mudado. A produção literária se avolumava. A instrução pública havia dado alguns passos tímidos na difusão da alfabetização. A população brasileira crescia a taxas elevadas e já havia superado a de Portugal. Nossa imprensa, refletindo o falar nacional, já tomava certas liberdades com relação ao rigor da escrita lusa.

Parecia importante que a escrita dos dois países seguisse o mesmo diapasão. No entanto, entre reformas e acordos, o que se viu foi uma inacreditável sequência de contrarreformas e desacordos. De 1907 para cá, a história registra desencontros tais como: reformas impostas aos brasileiros mas não aos portugueses (1971), reformas impostas aos portugueses mas não aos brasileiros (1973), acordos cumpridos pelo Brasil mas não por Portugal (1943), acordos cumpridos por Portugal mas não pelo Brasil (1945), acordos ignorados por ambos (1931). Uma verdadeira casa de mãe joana.

Em 1990, foi costurado um enésimo «acordo», surpreendentemente tímido, confuso e ambíguo. As aberrações se exacerbam quando se chega ao capítulo dos hífens. Sabia o caro leitor que maria-sem-vergonha deve ser escrita assim, com hífen, enquanto maria vai com as outras não admite o tracinho? Sabia que para-choque se escreve separado, enquanto paraquedas se escreve de uma tacada só?

O governo brasileiro, no apagar das luzes de 2012, adiou por 3 anos a obrigatoriedade da nova escrita. A meu ver, fez muito bem. Poderia fazer melhor ainda: deixar o dito pelo não dito e simplesmente revogar esse famigerado «acordo».O remendo 2

Já tivemos reformas suficientes estes últimos 70 anos : 1943, 1971, 1990. Um cidadão de 80 anos está enfrentando seu quarto aprendizado de escrita. Quem tem mais de 50 anos está aprendendo a escrever pela terceira vez. É muita coisa.

O inglês da Inglaterra difere consideravelmente do inglês americano. Há diferenças lexicais, sintáticas, prosódicas e, last but not least, gráficas. Isso não impede que o inglês seja, de facto, a língua universal.

A argumentação dos que alinhavaram nossa nova reforma era de unificar a escrita dos dois lados do Atlântico. No entanto, o volume de exceções é tão grande que a justificativa inicial perde a força. Com ou sem acordo, a escrita de lá será sempre diferente da de cá.

Outra alegação era de que a unificação nos facilitaria a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU. Balela. Nem que a escrita fosse idêntica ― o que não está previsto no acordo ― nosso País estaria em condições de ser aceito naquela confraria. Há outras condições que, infelizmente, não preenchemos.

Quando o remédio parece pior que o mal, como é o caso do AO90, é melhor deixar como está para ver como fica. Se nunca nos pusemos de acordo antes, por que nos poríamos agora? Com acordo ou sem ele, teremos sempre diferenças gráficas entre as duas variantes de nossa língua.

Deixemos que o tempo faça seu trabalho. O que não tem remédio remediado está. No próximo século, voltamos ao assunto.