Máximas do Barão ― 20
«O Brasil é feito por nós. Só falta, agora, desatar os nós.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
Lata d’água
José Horta Manzano
No Rio de Janeiro, na noite de 19 para 20 jan° 2009, faleceu o compositor paraense Joaquim Antônio Candeias Júnior, também conhecido como Jota Júnior. Tinha 85 anos.
O artista havia atingido seu apogeu nos anos 1950, quando suas obras foram gravadas por dezenas de cantores – dos bons. Francisco Alves, Jair Rodrigues, Marlene, as Irmãs Batista, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Nélson Gonçalves, Ângela Maria estavam entre os que se valeram de composições de Jota Júnior.
Sassaricando, Confete, Sapato de pobre (é tamanco), Garota de Saint-Tropez, Lata d’água (na cabeça) são algumas de suas centenas de composições. É justamente esta última que me inspira uma reflexão.
Nos tempos em que a personagem de Jota Júnior subia o morro levando sua reserva de água, todos dizíamos «lata d‘água». Ninguém ousaria o esquisito «lata de água». Simplesmente porque a expressão «lata d‘água» subentendia que a lata já estava cheia. «Lata de água» descrevia apenas o recipiente, sem informar se estava cheio ou não.
O mesmo se pode dizer de outra mazela carioca: a «falta d‘água», que já atormentava a população em tempos bem mais chuvosos que os atuais.
Quem tinha sede costumava pedir um «copo d‘água», jamais um «copo de água» nem – horror dos horrores! – um «copo com água».
Enchentes e racionamentos permanecem, mas a língua mudou. A «lata d‘água», a «falta d‘água», o «copo d‘água» têm perdido terreno. Fiz uma pesquisazinha caseira no site do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Considerando essas três locuções, contei o número de vezes em que aparecem na forma contraída (d’) e na forma extensa (de). É curioso notar que a forma extensa vem ganhando de goleada sobre a contraída.
Vejam o quadro com a porcentagem de ocorrência de cada forma:
Falta d’água 27%
Falta de água 73%
Copo d’água 16%
Copo de água 84%
Lata d’água 9%
Lata de água 92%
Faz sentido. Se morro e clima mudaram e os anseios de cada um também, por que a fala permaneceria estática? Que venha muita chuva e que nos deixe «debaixo de água»!
Advertência importante:
A amostragem que serviu de recheio para este artigo não tem valor científico. Eventuais reclamações devem ser endereçadas a Google Corporation, Mountain View (CA), EUA.
Clique aqui quem quiser recordar Marlene e sua Lata d’água, lembrança nostálgica de uma época em que, no morro, ninguém arriscava servir de ponto final para bala perdida.
Está na hora!
Frase do dia — 220
«A deslegitimação que vem por aí abalará primeiro o PT. Na mesa do juiz Moro há denúncias que abalarão também o PMDB e o PSDB, isso para se falar só dos três maiores partidos.
A Operação Mãos Limpas italiana varreu partidos políticos minados pela corrupção e fortaleceu o regime democrático. Até onde a vista alcança, no Brasil acontecerá a mesma coisa.»
Elio Gaspari em sua coluna d’O Globo, 28 jan° 2015.
Dilma não escapa das críticas
José Horta Manzano
Dia 22 de janeiro, publiquei o post Morreu de medo…, que trata da imperdoável ausência da presidente da República no Fórum Econômico Mundial.
Eu dizia que os ausentes costumam ficar na berlinda e ser alvo da maledicência dos que compareceram. Dito e feito. O jornalista Cláudio Humberto nos informa sobre a sequência dos acontecimentos em Davos.
Cláudio Humberto (*)
A comitiva brasileira no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, têm sido questionada sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, a mais global das grandes empresas brasileiras. Funcionário do governo alemão até pediu a um diplomata brasileiro para confirmar a informação de que há políticos de partidos governistas que, se não forem presos, poderão até virar ministros do governo Dilma Rousseff.
O funcionário alemão curioso referia-se a Henrique Alves (PMDB-RN) e Ciro Nogueira (PP-PI), que ainda podem virar ministros.
Além da expressão de espanto, diplomatas brasileiros ainda têm de enfrentar sorrisos dissimulados ridicularizando a corrupção no Brasil.
Joaquim Levy deixou boa impressão em Davos, mas diplomatas acham que a tarefa – insubstituível – de atrair investidores era de Dilma.
(*) Excerto de artigo do jornalista Cláudio Humberto, publicado no Diário do Poder.
Terra do cruz-credo
José Horta Manzano
Você sabia?
Como faz a cada ano, o respeitado instituto mexicano Seguridad, Justicia y Paz publicou estudo que mede a criminalidade urbana no planeta. Divulgou a lista das 50 cidades mais violentas do mundo – pelo critério de número de homicídios em relação à população.
O país campeão estourado em matéria de violência urbana – o distinto leitor já deve desconfiar – é nossa amada Terra de Santa Cruz. Que digo? Santa Cruz? Está mais para cruz-credo!
A lista de 2013 trazia 16 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas do mundo. A edição 2014 não só confirma a presença das mesmas dezesseis como também acrescenta três: são agora 19. Em números redondos, quatro entre as dez cidades mais violentas – considerados todos os continentes e todos os países – se encontram no Brasil. Nosso País segue firme na vanguarda do crime. Nossa dianteira é de tal importância que dificilmente poderemos ser alcançados. Somos imbatíveis.
Contrastando com as autoridades das outras 18 cidades brasileiras mencionadas no estudo, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não gostou de ver a capital do Estado mais uma vez na lista da vergonha.
Aderindo a estratégia muito em voga no Brasil atual, tentou menosprezar a mensagem e «desconstruir» o mensageiro. Criticou o instituto mexicano, sua metodologia e seus dados. Tentou desqualificar e desmerecer o estudo. Disse que estavam errados, que não era bem assim, que, no fundo, não se matava tanto em Goiânia.
Mexeram em vespeiro. Tiveram direito a uma longa resposta, com números, fontes e tabelas, assinada pelo presidente do instituto. O artigo está em destaque no site da ong, exposto a quem quiser ler. As autoridades goianas atiraram no estafeta e acertaram o próprio pé. Para coroar, ganharam a charge que vai reproduzida aqui acima.
As 19 cidades brasileiras constantes da lista das 50 mais violentas do mundo em 2014 são as seguintes:
Posição Cidade Taxa(1)
———————————————————————————————————
04 João Pessoa 79,41
06 Maceió 72,91
08 Fortaleza 66,55
10 São Luís 64,71
11 Natal 63,68
15 Vitória 57,00
16 Cuiabá 56,46
17 Salvador 54,31
18 Belém 53,06
20 Teresina 49,49
23 Goiânia 44,82
29 Recife 39,05
30 Campina Grande 37,97
33 Manaus 37,07
37 Porto Alegre 34,65
39 Aracaju 34,19
42 Belo Horizonte 33,39
44 Curitiba 31,48
46 Macapá 25,45
(1) Homicídios intencionais por 100 mil habitantes
Para efeito de comparação, note-se que a taxa global brasileira beira 25 homicídios intencionais por 100 mil habitantes, número altíssimo.
É verdade que estamos numa situação menos sinistra que a infeliz Venezuela (45 por 100 mil). No entanto, estamos bem longe de uma Alemanha (0,8), de um Japão (0,4) ou de uma pacífica Hong Kong (0,2). Ainda temos longo caminho a percorrer. Será trabalho para as próximas gerações. Com sorte, os netos de nossos netos conhecerão um país mais civilizado.
Obs:
Quem quiser consultar o estudo completo do instituto, pode descarregá-lo, em língua portuguesa e em formato pdf, aqui.
A deputada e as medalhas
José Horta Manzano
Não sei qual terá sido a repercussão do folclórico episódio protagonizado por uma deputada estadual gaúcha que outorgou a 21 de seus familiares a Medalha do Mérito Farroupilha – mais alta honraria oferecida pela Assembleia do Rio Grande do Sul.
Se alguém ficou sem saber, pode ler a notícia no Estadão ou na Folha de São Paulo. Transcrevo agora a reação irônica e bem-humorada do jornalista gaúcho David Coimbra.
Um pedido para a deputada das medalhas
David Coimbra (*)
Não é verdade que a deputada Marisa Formolo, do PT, homenageou 21 parentes na Assembleia Legislativa. Nada disso. Foi VOCÊ quem homenageou os 21 parentes da deputada, o marido dela, filhos e netos, todos aqueles cunhados, mais um genro e, o que mais me surpreende, uma nora – as mulheres em geral não se dão bem com as noras.
Sim, foi VOCÊ e, glup, eu também, porque a Assembleia Legislativa representa o povo do Rio Grande do Sul. Nós é que pagamos aquelas medalhas que os Formolo ostentarão com orgulho cívico na galinhada de domingo. Espero que ninguém deixe a medalha que nós demos cair na sopa de capeletti.
A deputada disse que tomou essa iniciativa para valorizar a família. Achei bonito. Tanto que venho aqui, como contribuinte e cidadão, fazer uma solicitação à parlamentar. É o seguinte:
Dona Marisa, gostaria, por favor, que o povo do Rio Grande do Sul desse uma medalha para a minha mãe. Dona Diva, o nome dela. A minha mãe, digo.
Veja, deputada: minha mãe era professora da rede estadual de ensino. Só por isso ela merecia ser homenageada. Ensinou criancinhas por anos e anos e anos. Eu mesmo testemunhei galalaus se aproximando emocionados dela e balbuciando, como se ainda fossem meninotes: “Profe… senhora me ensinou a tabuada…”
Mas, depois de se desquitar, minha mãe não conseguiu sustentar os três filhos com o salário pago pelo mesmo Estado que paga o seu salário, deputada. Assim, ela foi ser vendedora de livros da Abril Cultural. Trabalhava sábados, domingos e, desta forma, os três filhos conseguiram fazer faculdade, sonho de toda família descendente de imigrantes.
Verdade que a minha mãe nunca foi do PT. Reconheço que isso pesa contra a concessão da homenagem. Ser do PT é legal porque você pode fazer o que quiser, mentir na campanha, montar caixa dois, tomar algum da Petrobrás, tudo, e continuará com a imagem de defensor dos oprimidos. Você pode até ser preso, que entrará no presídio de punho cerrado, vitorioso, uma vítima dos poderosos. É lindo ser do PT.
Li também que seu irmão foi agraciado com a maior honraria do Estado porque foi presidente de sindicato. Droga. Minha mãe nunca foi presidente de sindicato. Não dava tempo! Ela tinha de trabalhar para pagar as prestações do BNH, as contas da casa, os livros que a escola pedia todo começo de ano, essas coisas que as pessoas que não têm medalha pagam.
Por fim, fiquei sabendo que a senhora é autora do projeto de lei que institui a Política Estadual de Apoio ao Bambu, no que, evidentemente, teve o respaldo e o incentivo de toda a sua prolífica e engalanada família. Maldição! Que eu saiba, minha mãe nunca deu muita bola para o bambu.
É… pensando bem, deixa a minha mãe sem homenagem mesmo. Vou ter de avisar a Dona Diva que o almoço de domingo vai ser sem medalha.
(*) David Coimbra é colunista do jornal gaúcho Zero Hora.
Crise de vocações
José Horta Manzano
Você sabia?
«Procuram-se candidatos a vereador» – é anúncio que poderia ser feito na Suíça. E não é garantido que surtisse efeito. Nesse particular, o país atravessa verdadeira crise de vocações. Poucos são os que se dispõem a seguir carreira política.
Também, pudera. Boas estimativas indicam que o país conta com 150 mil eleitos(!), número elevado para uma população total de 8 milhões. Trocando em miúdos, um em cada 50 cidadãos exerce cargo eletivo. Parece uma orgia de dinheiro público desperdiçado, não é? Pois já verá o distinto leitor que a realidade é um bocado diferente.
Território escarpado, árido, sem riqueza mineral, de agricultura problemática, a Suíça atraiu pouca cobiça no passado. Até o advento de Napoleão – cujo objetivo era controlar a Europa inteira– ninguém tinha espichado olhos gananciosos para este rincão encarapitado nos Alpes.
Assim, a Suíça nunca viveu sob a lei de um monarca. É formada por territórios, ditos cantões, que se foram agregando ao longo dos séculos. Cada um dos cantões é composto por municípios. Na maioria dos casos, o território municipal é exíguo – herança da divisão medieval em paróquias.
A contagem de 1° jan° 2015 deu um total de 2324 municípios. Com o passar do tempo, o número deles vem caindo em consequência de fusões. Dá pra entender. Os tempos modernos exigem especialização. A infraestrutura e os equipamentos de que a prefeitura é responsável precisam ser planejados e geridos por gente do ramo. Municípios muito pequenos não têm massa crítica para enfrentar esses desafios.
De uns 20 anos pra cá, as fusões têm-se acelerado e o número de municípios tem diminuído. Veja a progressão:
Ano Total municípios
1990 3021
1995 2975
2000 2899
2005 2763
2010 2596
2015 2324
A população média de cada município não chega a 3000 pessoas. Assim mesmo, o Poder Executivo de todos os municípios segue o sistema colegial: é composto de pelo menos três eleitos. São assistidos por um conselho municipal cujos membros também são eleitos. Essa massa de gente deve custar os olhos da cara, não?
Pois é aí que reside a grande diferença entre os costumes helvéticos e os nossos. No Brasil, prefeito e vereadores são assalariados, vivem disso. Não é o que acontece na Suíça.
Somente municípios muito grandes remuneram seus eleitos e exigem deles dedicação integral. Municípios pequenos – que são a esmagadora maioria – limitam-se a dar indenização simbólica de alguns milhares de francos por ano. Em alguns casos, vereador e prefeito nem dinheiro recebem: devem contentar-se com algumas garrafas de vinho no Natal. Há ainda minúsculos municípios cujos eleitos têm de se contentar com um «muito obrigado».
Na Suíça, só faz política quem se interessa sinceramente pela gestão da coisa pública. Carreira política está mais para apostolado que para investimento. Já no Brasil…
O Egito antigo e nós
José Horta Manzano
O portal noticioso francês RTL comenta o fechamento temporário do estádio dito Arena Pantanal, inaugurado em Cuiabá um mês antes da Copa 2014. O complexo esportivo será interditado ao público para dar lugar a «intervenção de emergência», necessária para sanar «diversos problemas de construção».
Frise-se que o estádio foi entregue 6 meses atrás. Acolheu 4 (quatro) jogos do Campeonato do Mundo, entre eles um imperdível Nigéria x Bósnia. A construção da ‘arena’ custou módicos 254 milhões de dólares, que equivalem, ao câmbio atual, a 660 milhões de reais.
Dividindo o gasto total pelos quatro jogos que o estádio acolheu, chega-se ao veredicto: cada um dos encontros custou ao contribuinte brasileiro 165 milhões de reais. Sem contar o que vai ser gasto no «conserto». Não foi divulgada a porcentagem de superfaturamento incluída nesse valor.
O portal informa que o próprio governo do Estado de Mato Grosso reconhece que o futuro do campo de futebol está comprometido, dado que a previsão de receitas está longe de cobrir os custos de manutenção. É obra deficitária, como todos já sabiam.
Para fechar o artigo, uma última flechada. Fica-se sabendo que, para amortizar os 470 milhões de euros (1,3 bi de reais) investidos no estádio Mané Garrincha, de Brasília, serão necessários mil anos.
O distinto leitor e eu não temos nada que ver com o peixe. Mas pode ter certeza: os tataranetos dos tataranetos de nossos tataranetos nos amaldiçoarão.
Daqui a um milênio, se a humanidade ainda estiver povoando este planeta, nossa era será descrita como civilização atrasada, que gastava recursos construindo monumentos de concreto em vez de cuidar da saúde e da educação do povo. Exatamente como enxergamos o Egito antigo ou as monarquias absolutistas. No fundo, pouca coisa mudou de lá pra cá.
Ameaça
«Enquanto a população do Distrito Federal sofre com a precariedade da segurança pública e com o crescimentos dos índices de criminalidade, esta semana a Polícia Militar foi acionada para cumprir missão de emergência: capturar uma coruja que estava à espreita, nos jardins do Palácio da Alvorada, residência oficial de Dilma.
Alguém, no Alvorada, considerou ameaçadora a presença do animal-símbolo da sabedoria.»
Extraído do Diário do Poder, 24 jan° 2015.
Um pouco d’arte ― 30

by Carol H. Midlej
http://www.CarolMidlej.com
A internet é inocente
Dad Squarisi (*)
Mais de meio milhão de zeros no Enem? A notícia surpreendeu. Não pela nota mas pela quantidade de reprovados. Explicações caíram do céu e saltaram do inferno. Entre elas, a falta de familiaridade com o tema, a fuga do tema, a incompreensão do tema. Muitos responsabilizaram a internet pela calamidade. A rede teria o poder de deseducar. Quem escrevia deixou de escrever. Será?
Jornais, revistas, sites, blogues estão ao alcance de um toque. Ninguém precisa ir à banca comprar a informação. Cartas viraram lembranças de tempos idos e vividos. Deram vez a mensagens eletrônicas que vão e vêm em segundos. O Google relegou ao esquecimento enciclopédias que até há pouco enchiam as estantes de orgulho.
Em bom português: mudamos o suporte, mas continuamos a ler e a escrever. Em vez de papel, a tela. Culpar o suporte pelo fracasso da moçada é baratear o problema. O buraco é mais embaixo. Lê mal e escreve mal quem nunca aprendeu a ler bem e a escrever bem. O retrato exibido pelo Enem é obra da escola. Não entender o tema constitui problema de leitura. Não conseguir desenvolvê-lo, de escrita.
Criança é curiosa. Adora aprender. Estimula-se com desafios. Enfrenta embates. Mas… cadê? Encontra salas de aula do século 19, professores sem compromisso, material didático modernoso que, sem foco e não raras vezes com erros grosseiros, confunde em vez de ensinar. Com internet ou sem internet, o resultado não muda. Sem o domínio das habilidades de leitura e escrita – fruto de estudo, disciplina e treino – esperar nota azul nesse cenário é ignorância, má-fé ou ingenuidade.
Somos poliglotas na nossa língua. “Não falamos português”, ensinou Saramago. “Falamos línguas em português.” A mãe de todas elas – a norma culta – abre o caminho da liberdade. Com trânsito nas possibilidades do idioma, torna-se possível escolher. Gírias, regionalismos, estrangeirismos, abreviaturas, internetês & cia. ilimitada têm vez no universo da comunicação. Usá-los no contexto correto pressupõe conhecimento – o saber que a escola sonega aos brasileiros.
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.
Frase do dia — 219
«A posse do cocaleiro Evo Morales, na Bolívia – salada de crendices alimentada pela ignorância e pelo culto à folha de coca (matéria-prima da cocaína) – foi de um ridículo atroz. Dilma poderia ter evitado esse mico.»
Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder, 23 jan° 2015.
Morreu de medo…
José Horta Manzano
Estes dias, realiza-se o Fórum Econômico Mundial, simpósio que, ano após ano, congrega os grandes deste mundo durante alguns dias em Davos, Suíça. Em seus tempos de esplendor, nosso guia fazia questão de comparecer e aparecer. Este ano, quarenta chefes de Estado fizeram questão de estar presentes, assim como 1500 dirigentes de multinacionais – um total de 2900 participantes.
É possível que a Mongólia não tenha enviado representante. É também provável que nenhum responsável do Haiti ou do Butão esteja presente.
Pelo ordenamento constitucional brasileiro, os cargos de chefe de Estado e de chefe do governo são exercidos pela mesma pessoa. Atualmente, dona Dilma Rousseff encarna esse superpersonagem.
Pois dona Dilma, mostrando que sua autoestima anda mais baixa do que se imagina, fez saber que preferia desdenhar a Suíça e prestigiar a reentronização de seu ídolo Evo Morales. A escolha há de ser fruto de um daqueles ataques de voluntarismo de que nossa presidente é vezeira. Recuso-me a acreditar que seus assessores, posto que sejam tacanhos, lhe tenham aconselhado trocar Davos por La Paz.
A ausência da figura maior da nação brasileira no fórum assinala marcha à ré na política de projeção mundial entabulada por nosso guia doze anos atrás. Põe a perder o esforço – às vezes atabalhoado, mas sincero – de alçar o nome do Brasil entre as potências planetárias.
Não acredito em escolhas ideológicas. Se dona Dilma faltou à reunião, foi por orgulho. Fugiu para escapar às críticas e à reprovação a seu modo de gerir a coisa pública. O mundo sabe, hoje, que a gestão de seu primeiro quadriênio foi calamitosa. Todos sabem também que nada de auspicioso se apresenta para o futuro próximo.
Resultado: como em reuniões familiares, fala-se mal dos ausentes. O economista-chefe do IHS – instituto americano de análise econômica e tecnológica – chegou a qualificar de «moribundo» o estado de saúde do Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Índia e o México estão no foco da admiração. De fato, ninguém gosta de quem anda pra trás.
Dona Dilma tem perdido apoio internamente. Sua renúncia a representar o país em reuniões importantes periga ser interpretada como renúncia do Brasil a participar do clube dos grandes deste mundo. Nosso guia há de estar desgostoso.
De criança, a gente cantava um refrãozinho de deboche que assenta bem na atual chefe do Estado brasileiro. Começa com «Morreu de medo…». E termina com «… no dedo».
Forças ocultas
Antigo ministro e embaixador, José Aparecido de Oliveira aceitou debater com estudantes, nos anos 80, sobre os acontecimentos de 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo depois de tê-lo exercido por sete meses. Aparecido tinha sido secretário de Jânio.
Um rapaz muito agressivo e com a arrogância própria da idade criticou o gesto do antigo presidente – atribuído a “forças ocultas” – e declarou:
– Eu nunca teria feito isso!
Aparecido não perdeu a chance:
– Meu filho, você pode até estar certo, mas esse problema você nunca vai ter de enfrentar.
Reprodução do original publicado pelo jornalista Cláudio Humberto in Diário do Poder,
Nota deste blogueiro
Apesar do que acreditam muitos, a carta renúncia de Jânio Quadros não mencionava “forças ocultas”, mas “forças terríveis”.
Murro
Pensando bem – 6
Non-white
José Horta Manzano
Faz alguns dias, o renomado site de informações Huffington Post publicou artigo sobre os indicados para o Oscar 2015. O articulista lamenta que a safra deste ano seja a mais nefasta para a ‘diversidade racial’.
De fato, pela visão do autor, é a primeira vez nos últimos 17 anos que nenhum «não branco» aparece na lista. A última vez em que o lamentável episódio ocorreu foi em 1998.
De lá pra cá, a lista de indicados trouxe, a cada ano, pelo menos um «não branco». Como exemplo, o jornal nomeia, ano a ano, os artistas que salvaram a diversidade racial. Abaixo, vão alguns significativos exemplos.
O espanhol Javier Bardem garantiu a quota em 2011. Indicada em 2010, Penélope Cruz esteve entre as candidatas ‘não brancas’. Em 2001, o porto-riquenho Benicio del Toro reforçou o time. Em 1999 – pasme! – foi nossa Fernanda Montenegro quem salvou a lavoura. Indicada por sua atuação em Central do Brasil, a carioca foi a única artista ‘não branca’ aquele ano.
Para que não subsistam dúvidas, o Huffington Post, em nota de pé de página, deixa as coisas claras. Quanto à distinção entre brancos e ‘não brancos’, declara:
«We went with the very broadest interpretation and included actors like Javier Bardem and Penelope Cruz as “non-white,” due to their Hispanic ancestry, despite the fact that many Hispanics may identify racially as white.»
Em tupiniquim, fica assim:
«Demos preferência ao entendimento mais amplo possível. Assim, listamos atores como Javier Bardem e Penélope Cruz como “não brancos” por causa de sua ascendência hispânica – apesar do fato de muitos hispânicos se considerarem brancos.»
E o distinto leitor? Como é mesmo que se declarou no último recenseamento?



















