Desaforo poliglota

José Horta Manzano

O «E daí» de nosso refinado presidente ecoou lá fora. Ao dar a notícia, os jornais tiveram de traduzir. Ficou assim.

The Guardian (Londres, Reino Unido) escolheu
«So what?»

El Tiempo (Bogotá, Colômbia) preferiu
«¿Y entonces?»

AskaNews (Roma, Itália) optou por
«E allora?»

Frankfurter Allgemeine Zeitung (Frankfurt, Alemanha) ficou com
«Na und?»

France 24 (Paris, França) decidiu-se por
«Et alors?»

Como se vê, malcriação tem tradução fácil em qualquer língua. Já presidente malcriado e desaforado é menos comum, por isso dá manchete.

Alhos e bugalhos

José Horta Manzano

Você sabia?

Certamente todos já usaram, alguma vez, a expressão «alhos com bugalhos». Juntamos essas duas palavras para exprimir coisas disparates. «Não misturar alhos com bugalhos» ‒ é o que se ouve de costume. Mas… o distinto leitor saberia dizer o que são bugalhos? Atenção: o desafio só vale para brasileiros. Portugueses conhecem a resposta.

Pois é, alho, todo o mundo sabe o que é. Mas aposto que poucos de vocês se terão preocupado em conhecer o significado de bugalho. Na verdade, uma palavra não tem relação nenhuma com a outra. Estão aí justapostas só pra dar rima. Mas vamos ao significado.

Bugalho em folha de carvalho

O carvalho, árvore comum em regiões de clima temperado, é praticamente inexistente no Brasil, o que explica que o termo seja desconhecido. O bugalho é uma excrescência ‒ uma doença, pode-se dizer ‒ que aparece na folha de uma árvore, especialmente na do carvalho, quando picada por determinado tipo de inseto ou de parasita. Para quem nunca viu, imagine uma noz moscada. O bugalho tem aspecto semelhante.

Os franceses dão a essa bolinha o nome de noix de galle ‒ algo como «noz gálica». Dela se extrai o ácido gálico, que foi usado, durante séculos, em tinturaria.

Por extensão, os portugueses dão o nome de bugalho ao que conhecemos como bolinha de gude. No Brasil, a ausência de carvalhos e de bugalhos faz que o povo desconheça o significado da palavra.

Bolinha de gude, conhecida como bugalho em Portugal

Em compensação, permanece viva na língua brasileira de todos os dias a expressão «olhos esbugalhados», com o significado de olhos muito abertos, arregalados, redondos como dois bugalhos. Certos casos de cirurgia estética mal sucedida dão como resultado uma infeliz criatura com olhos permanentemente arregalados. Um perigo.

É interessante como a gente pode passar a vida usando palavras sem conhecer o sentido.

Artigo publicado originalmente em 24 abril 2017.

Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, os grandes profissionais especializados eram dois: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os petrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais maiores, praticamente todos os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, a tradição mandava que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era a forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra sustentado por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada podia ser habitada. Era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição entre duas águas.

Artigo publicado originalmente em 8 out° 2017.

Emergência no avião

José Horta Manzano

Você sabia?

Mayday
Em todo filme em que um avião descontrolado está prestes a cair, o piloto berra ao microfone: “Mayday! Mayday!”. Nem todos conhecem a origem da estranha expressão. De onde virá? Que significa na origem? Em inglês, traduzindo ao pé da letra, dá «dia de maio», conjunto de palavras sem sentido.

A explicação é que a expressão não foi criada na língua inglesa. O curioso Mayday é aproximação fonética, para ouvidos anglo-saxônicos, de uma expressão francesa. O original é: «Venez m’aider» ‒ venham me ajudar. Como pode não dar tempo, na emergência, de pronunciar a frase inteira, ficou combinado truncar e dizer somente «m’aider», que soa «mayday» em inglês. Portanto, Mayday é «me ajude». Ou «ajude-me», vai do gosto do freguês. Se a expressão francesa tivesse sido adaptada a nossa fonética, teríamos: «medê», palavra que também não tem significado. Dado que, em inglês, os sons vocálicos são quase todos ditongados, ficou «mayday».

Pouco importa o sotaque, o importante é que todos os profissionais ligados à aeronáutica conheçam o desesperado pedido de socorro. Na aviação, pilotos, controladores, tripulação e todos os outros sabem que, uma vez irradiado, não é como no cinema: esse código tem de ser levado a sério.

Pan-pan
O curioso ‘mayday’ não é a única expressão francesa usada pra pedir ajuda na navegação marítima e aérea. «Pan-pan» é outra, derivada do francês «panne-panne». Como fica evidente, informa que há pane a bordo. Tem menos força que Mayday. Pode indicar, por exemplo, que um passageiro está passando mal e precisa de assistência médica. «Pan-pan» também tem de ser pronunciada três vezes. É seguida obrigatoriamente de explicação.

Seelonce
Há outros chamados decalcados da língua francesa. Por exemplo, o surpreendente «Seelonce», transcrição de «Silence», um pedido para que outros usuários se abstenham de utilizar a mesma frequência de rádio. Um pedido de emergência absoluta pode ser anunciado como «Seelonce Mayday». No final, para informar que a frequência está de novo liberada, o código é «Seelonce Feenee», transcrição inglesa de «Silence fini» ‒ acabou o silêncio.

Como é possível que subsistam expressões francesas num universo ultradominado pelo inglês? É que não foram introduzidas hoje. Vêm de um tempo em que a aeronáutica estava mais desenvolvida na França do que em outros países.

Inspirado em post de 2 dez° 2016

Falsos amigos ‒ 1

José Horta Manzano (*)

Para aqueles que acham que Espanhol é fácil, é bom saber que lá: Boliche se diz Bolos, Bolo se diz Bizcocho, Biscoito é Galleta, Cupcake é Madalena, Waffle é Gofre e Porra é Churros.

Pra piorar, Taza é Xícara, Copa é Taça, Vaso é Copo, Lentilla é Lente de contacto, Lentilha é Lenteja, Bolso da calça é Bolsillo, Bolsa de braço é Bolso e Bolsa é saco plástico de mercado.

Também é importante saber que: Cajones é Gaveta, mas Cojones não é algo legal. Pollo é frango, mas polla não é a mulher do galo. Carrera é Corrida, mas Corrida é… bem, deixa pra lá.

E se tudo isso parece esquisito, saiba que, na Espanha, Exquisito é Gostoso, Gostoso é Rico e gente adinheirada é Rica também.

(*) Com base nas informações de Andrea Martínez.

Publicado originalmente em 16 out° 2018.

Timoneiro

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro trata de maneira nojenta o povo que o elegeu. A cada passeio, ele se torna foco de contágio. Aperta a mão de um, limpa o nariz, aperta a mão de outro, passa mão no cabelo, roça a mão de um terceiro. E assim vai espalhando vírus e micróbios pra cima de gente simples e ingênua. Tira vírus da mão de um, deposita vírus na mão do outro. Um nojo.

Embora seu comportamento contribua para acelerar a propagação do vírus, a transmissão da doença está longe de suas preocupações. Como se diz em língua de casa, o homem não está nem aí para os outros.

Quando questionado sobre esse comportamento de alto risco, sai-se com um «Ninguém pode me tirar o direito de ir e vir». Como se vê, só consegue pensar nos direitos que tem, sem se dar conta de que os demais também têm direitos. Entre eles, o de serem protegidos do contágio.

O moço é de um egoísmo tenebroso. Se já não conseguia assumir o encargo de presidir a nação em tempo normal, com a pandemia ficou pior. Recordo uma sutil máxima latina que cai como luva para explicar o que ocorre.

A gripezinha

José Horta Manzano

«Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, talquei?»

Desde que soltou essa preciosidade pela primeira vez, em meados de março, doutor Bolsonaro já tornou a insistir na metáfora em diversas ocasiões. Sempre em público.

Não está clara a origem do negacionismo do doutor diante da pandemia. Há quem diga que ele se sente uma espécie de super-homem, invulnerável e ungido pelos deuses, a quem nada pode acontecer. Também há quem diga que o homem é tapado e não consegue enxergar o tsunami que ameaça o mundo todo – Brasil incluído. É ainda permitido acreditar que ele contraiu a doença e se curou, provavelmente com hidroxicloroquina. Isso explicaria o merchandising que ele faz para o fármaco.

Seja como for, a gripezinha e o resfriadinho do doutor estão dando trabalho a tradutores. É que nossa língua facilita a formação de diminutivos, o que não acontece em outras línguas. Em português, os sufixos inho, zinho, zico, zito resolvem o problema e são utilizados em ampla escala. Pomos substantivo, adjetivo e até advérbio no diminutivo.

Em outras terras, jornalistas usaram o adjetivo pequeno(a) para se aproximar do efeito da fala de Bolsonaro. Chegaram perto, mas um pouco da nuance se perdeu. “Resfriadinho” não é a mesma coisa que “pequeno resfriado”, especialmente se o “resfriadinho” for pronunciado com a boca torcida. Na fala de Bolsonaro, o diminutivo marca todo o desdém que ele sente pela doença. É difícil traduzir esse estado de espírito. O mesmo ocorreria se a gente quisesse traduzir «presidentezinho».

Na tradução da notícia, a mídia internacional tem adotado a palavra “pequeno”. Ficou assim:

Inglês:
little flu, little cold

Francês:
petite gripe, petit rhume

Italiano:
piccola influenza, piccolo raffreddore

Alemão:
kleine Grippe, kleine Erkältung

Espanhol:
pequeña gripe, pequeño resfrío

Grounding

José Horta Manzano

A língua inglesa é muito flexível, bem diferente de nosso engessado português, idioma cheio de proibições e de ciladas que nos obrigam a consultar o dicionário a toda hora. Em inglês, se um cidadão criar seu neologismozinho, não lhe cairá sobre a cabeça o raio da reprovação. O importante é que a palavra inventada faça sentido e seja compreendida por todos.

É o caso do termo grounding(*), que entrou na moda assim que a primeira grande companhia aérea foi à falência deixando seus aparelhos grudados no chão, sem voar. Nestes tempos de pandemia, grandes empresas do ramo estão sendo obrigadas a tirar de circulação a maior parte da frota, seja porque ninguém mais toma avião, seja porque fronteiras se fecharam.

Quanto a mim, a primeira vez que ouvi a palavra grounding foi quando a Swissair, a companhia nacional suíça, faliu. Aconteceu em 2 outubro 2001, da noite para o dia, sem aviso prévio. Milhares de passageiros ficaram desamparados: uns perderam o bilhete de ida; outros tinham chegado ao destino mas não podiam voltar; outros ainda ficaram em situação complicada, engaiolados em aeroporto estrangeiro, no meio de uma escala, às vezes sem dinheiro, sem poder prosseguir e sem saber que fazer. Foi o dia mais sombrio para a economia suíça – antes da epidemia de Covid-19, naturalmente.

Estão aqui algumas imagens de grounding devido à pandemia.

Cathay Pacific, Hong Kong

British Airways, Reino Unido

Southwest, EUA

Emirates, Emirados Árabes

Lufthansa, Alemanha

Swissair, Suíça
Grounding definitivo, 2001

(*) Grounding é palavra formada a partir de ground (=chão, solo). Antes de significar bloqueio de aeronaves, já era usada em eletricidade e também para indicar que alguém tem bons conhecimentos em alguma matéria. Exemplo:

He has very good grounding in physics
Ele tem muito boa base em Física.

Quarentena

José Horta Manzano

Temos novena para Santo Antônio. Temos dezena (de 10 unidades). Temos trezena para Santa Brígida. Temos quinzena, que corresponde a duas semanas ou, grosso modo, à metade de um mês. Temos vintena, que se usa para exprimir quantidade ao redor de 20 unidades. Temos ainda centena.

As pessoas suspeitas de estarem contaminadas pelo coronavírus devem cumprir 14 dias de confinamento. Todos, sem exceção, dizem que o indivíduo está de quarentena. O ano de 2020 marcará um pico de uso desse termo.

Bem, errado, propriamente, não está. Só que a palavra quarentena, nesse caso, está sendo utilizada por ampla extensão de sentido. Na origem, quarentena é o período de 40 dias, tempo de resguardo estabelecido desde a Antiguidade. No caso de a quarentena durar 14 dias, por que não usar quatorzena (ou catorzena)? O termo exprime exatamente o que tem de exprimir.

O Volp traz quatorzeno (ou catorzeno), um numeral que indica o décimo quarto de uma série. A partir daí, pelo menos foneticamente, a porta está aberta para que se ouse quatorzena (ou catorzena) para o período de resguardo de 14 dias.

Observação
Dizemos: quatro, quarenta, quarentena, quatrocentos, quadrado, quadragésimo, quatriênio, quatrilhão, quarto, quadra, quadrante, quadrar, quadratura, quadriculado, quadríceps, quadrifólio – e muitos outros da mesma família. Como veem, todos começam com qua.

O patinho feio, único a escapar do qua, é o 14. Na hora de dar-lhe nome, damos preferência a catorze, com ca. (Quatorze é forma menos comum.) Curioso, não?

Vistos gold em Portugal

José Horta Manzano

Pouquíssimas são as cidades que, em nossa língua, exigem o artigo. De cabeça, me ocorrem: o Cairo, o Rio de Janeiro, o Recife, o Crato, o Guarujá.

Quanto à cidade de Haia, na Holanda, alguns conservam o artigo do original neerlandês (Den Haag); outros acham esquisito dizer “a Haia”. Fica ao gosto do freguês. De qualquer maneira, não é nome de cidade que se pronuncie com frequência.

Já vi muita gente fina escrever “a Filadélfia” (EUA) e também “a Basileia” (Suíça). Não sei de onde tiraram o artigo. No original, não há. Continuo preferindo ambos os nomes sem artigo.

Quanto à boa cidade do Porto, portugueses em geral e portuenses em particular fazem questão fechada do artigo: o Porto, do Porto, no Porto, e assim por diante.

Portanto, a chamada reproduzida acima tem um problema. Não se pode dar tratamento igual a dois seres diferentes. Ficam aqui sugestões pra acertar da próxima vez:

Portugal aprova fim dos vistos gold em Lisboa e no Porto.
Lisboa e o Porto deixam de emitir vistos gold.
Portugal elimina vistos gold em Lisboa e no Porto.

Há outras opções.

Coronavírus e pânico

José Horta Manzano

Coronavírus
Uma amiga me pergunta, preocupada, o que penso do coronavírus chinês, e se os europeus estão entrando em pânico por causa da propagação da doença. Respondi que sim, como por toda parte, o coronavírus anda mexendo com os nervos.

Há muita gente entrando em pânico, mas acho que ainda é cedo pra exagerar. É verdade que o bichinho tem potencial de se alastrar rápido, embarcado no enorme volume atual de viagens internacionais.

Assim mesmo, autoridades do Sistema de Saúde da França afirmam que esse novo vírus não é mais letal do que o da gripe comum. Cálculos atuais indicam uma taxa de letalidade em torno de 2% a 3%. Quem corre mais risco são os que estão nos extremos da vida: recém-nascidos e velhos.

Todo ano, milhares morrem de gripe e não sai nos jornais. Quanto a nós, temos de nos orgulhar de nossos vírus nacionais endêmicos; a dengue, o sarampo e a ignorância matam muuuito mais do que qualquer vírus importado.

Representação do deus grego Pan

Pânico
Embora seja atualmente usado quase somente como substantivo, pânico entrou na língua como adjetivo. Como tantas outras palavras, nasceu no grego e viajou até nós através do francês.

Pânico refere-se ao deus Pan, protetor dos rebanhos e dos pastores, frequentemente representado como criatura fantástica, meio homem, meio bode. Diz a lenda que assustava e desorientava os que se aproximassem com os ruídos estranhos e fortes que emitia. Quem o ouvisse se sentia perdido, desorientado, assustado. Entrava em medo pânico (=medo de Pan).

Na língua francesa, ainda se diz peur panique (=medo pânico). Há também o verbo paniquer (=panicar), que nossos dicionários ainda não abonam. Qualquer dia destes, chega.

Com casca e tudo

José Horta Manzano

Você sabia?

O sítio onde hoje se ergue a cidade do Porto – maior metrópole portuguesa depois de Lisboa – está entre as zonas de povoamento mais antigo da Península Ibérica.

Livraria Lello & Irmão, PortoBem antes da chegada das primeiras legiões romanas, um povoado já lá estava, implantado bem à beira do Rio Douro. Durante séculos foi conhecido como Cale, mais tarde como Portus Cale. É geralmente aceito que o nome da aldeia se tenha transmitido ao país inteiro.

De fato, a evolução de Portus Cale a Portugal é difícil de contestar. Já quanto ao significado primitivo de Cale, não há consenso. Alguns vêem um descendente do latim calidus (=quente). Dado que não há registros escritos da época, não será fácil dar resposta definitiva.

Porto 1A língua portuguesa é avessa à letra L. Em inúmeros casos em que línguas irmãs apresentam um L simples, o português puramente o suprimiu. Exemplos? Aqui vão:

Italiano     Espanhol     Francês     Português
colare       colar        couler      coar
filo         hilo         fil         fio
tela         tela         toile       teia
volare       volar        voler       voar

Livraria Lello & Irmão, Porto

Livraria Lello & Irmão, Porto

Os artigos definidos seguiram o mesmo caminho. O L que aparece nas línguas hermanas desapareceu na nossa. Le, el, il transformaram-se em o. É um charme, não há dúvida, mas essa queda do L nos causou problemas. Um dia falarei sobre isso. Por hoje, vamos continuar nossa visita a Portugal.

A cidade do Porto é uma das raras que, em nossa língua, são sempre precedidas do artigo. As outras são: o Rio de Janeiro, o Recife, o Crato, o Cairo, o Guarujá. Se houver mais, são poucas. Vai daí, mapas antigos costumavam anotar O Porto, como se escrevessem O Rio de Janeiro ou O Recife.

Vuelo de Ginebra a Oporto

Vuelo de Ginebra a Oporto

Ignorando que aquele «o» não fazia parte do nome da cidade, espanhóis e ingleses engoliram o produto sem desembalar. Consumiram a mercadoria do jeito que veio.

Pelas bandas de Londres e de Madri, o nome da segunda cidade de Portugal é Oporto, sim, senhor. Aliás, o código internacional do aeroporto da cidade é OPO.

Curiosamente, os ingleses, maiores consumidores do vinho do Porto, não aglutinaram o artigo ao nome da bebida. Acertadamente, dizem Port Wine. É de crer que o consumo do néctar produzido nas encostas ensolaradas do Douro esclarece as ideias.(*)

(*) A consumir com moderação.

Publicado originalmente em 6 março 2015.

Saudação para iniciados

José Horta Manzano

Como escrever ano novo? Com hífen ou não? Com maiúsculas ou não? Melhor perguntar a quem sabe. O mais prático, hoje em dia, é dar uma olhada nos dicionários. Todas as consultas que fiz foram online (ou em linha, como preferem em Portugal).

Os dicionários brasileiros recomendam que se escreva com letras minúsculas e com hífen. Ano-novo e ano-bom quase sempre aparecem como sinônimos perfeitos. Atenção: quase sempre não é sempre! Mas vamos deixar pra lá essas sutilezas.

Praticamente todos os dicionários brasileiros dão como significado:

o ano entrante
a passagem de 31 dez° para 1° janeiro
o próprio dia 1° janeiro

Feliz ano novo!

Já os dicionários portugueses não hifenizam a expressão. A tendência lusa é grafar ambas as palavras com inicial maiúscula: Ano Novo, assim como Ano Bom. Quanto ao significado, as acepções são sensivelmente as mesmas que no Brasil.

Então, vamos resumir. Se o distinto leitor for festejar o réveillon de 31 dez°, à meia-noite estará brindando ao ano-novo (com hífen) e desejando um feliz ano novo (sem hífen) a todos. Como se vê, o ano-novo é como peixe, altamente perecível. No dia seguinte, fede. Tem de ser jogado fora e substituído por ano novo.

Agora, que sabemos saudar corretamente, vamos lá. Desejo a todos bons festejos de ano-novo e um feliz ano novo.

Observação
Em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, ninguém dá atenção a essas sutilezas. Não se usa hífen. Maiúscula ou minúscula? Fica ao gosto do freguês, mas geralmente se vê com maiúsculas.

Presente para presidentes

José Horta Manzano

Desde que o século virou, faz já duas décadas, a presidência de nossa maltratada República tem-se caracterizado por chefes de poucas letras. Não só os chefes – a característica se espalha pelos assessores e acaba marcando todo o pessoal que ocupa o palácio. Boa parte das decisões desatinadas que vêm freando o avanço do país encontra explicação nessa falta de luzes.

Um bom presente de ano-novo para a turma do Planalto seria um cartaz, a ser afixado em todos os locais e gabinetes (banheiros incluídos), com os seguintes dizeres:

Quem sabe acabam entendendo o recado? Não custa tentar. É para o bem do país, que não há outro jeito. Enquanto formos liderados por ignorantes, não vamos sair do atoleiro.

Motor lento

José Horta Manzano

Atiçar a paranoia presidencial é mau negócio. Weintraub, ministro da Educação, parece ser lento no aprendizado. Já andava meio assim assim, balança mas não cai, como bêbado tentando caminhar no meio-fio. Descabeçado, provocou de novo o iracundo chefe. Pisou-lhe bem no calo que dói. E com força! Fez o que não devia: repercutiu a seus seguidores um tuíte alheio que tratava o presidente de traidor. Nem mais nem menos – traidor! Com isso, não só assegurou que concordava com a afirmação, como também ajudou a propagar a difamação.

Apagou depois, em tentativa de jogar a sujeira pra debaixo do tapete. Mas o estrago estava feito. O que as modernas tecnologias têm de efêmero têm também de indelével. Parece paradoxal ser descartável e eterno ao mesmo tempo, mas assim é. Antigamente, para apagar um escrito, bastava jogar a folha de papel no lixo. Hoje mudou. Cada letrinha que se escreve fica gravada para sempre. Tudo estará estocado nalgum banco de dados ultrassecurizado em Utah ou nas redondezas. E lá permanecerá até o dia do Juízo Final.

Weitraub, que não passa de peixinho, está assustado com o peixe graúdo que o nomeou ministro. Tem um medo danado de perder a boquinha. Tratou de dar explicação para mitigar a ofensa feita ao chefe. Disse que está num navio e, sacumé, fica horas sem internet. Pergunto eu: que tem uma coisa a ver com a outra? Caso houvesse internet o tempo todo, Sua Excelência teria se comportado de modo diferente? Essa é muito boa. Atribuir os próprios erros à falta de internet… Só faltava.

Vamos supor que, para economizar, Weintraub tenha dispensado o avião para embarcar num navio cargueiro em direção a Miami, aonde deve chegar daqui a uns 15 dias, se tudo correr bem. Numa embarcação dessas, internet realmente funciona piscando feito vagalume. Mas ninguém acredita que ele esteja num cargueiro filipino. Olhe, minha gente: pra encontrar navio sem internet, hoje em dia, precisa procurar muito. Ou alguém imagina que aqueles imponentes palácios flutuantes que carregam milhares de turistas em cruzeiro pelo Caribe não dispõem de internet?

Mentira tem perna curta. Tenho a impressão de que senhor Weintraub não vai esquentar cadeira no ministério da Educação por mais muito tempo. Quem sabe a Instrução Pública tem agora uma pequena chance de entrar nos trilhos? Não tenho muita esperança, mas tudo é possível. O tempo dirá.

Briga

José Horta Manzano

A animosidade entre cidadãos, por razões político-ideológicas, é herança nociva da passagem do lulopetismo pelo topo do poder. Talvez seja o mal maior causado ao país por aquele bando de gananciosos. Diferentemente de uma crise econômica, que tem conserto, a cicatriz deixada por quinze anos de ‘nós x eles’ vai demorar pra desaparecer – se é que desaparecerá um dia.

A insistência nesse discurso excludente deu origem a disputas que se infiltraram no seio de famílias. Até hoje, tem pai que não fala com filho. Amizades se desfizeram. Vizinhos viram a cara um pro outro. Essa herança, sim, pode ser qualificada de maldita. Não pesou no bolso dos brasileiros: atingiu-lhes a alma. O ambiente belicoso deu margem a muita briga.

Briga é palavra interessante. Etimologistas atribuem-lhe origem celta. Fora de dúvida, é pré-romana, utilizada há milênios. Está presente em numerosas línguas europeias. O significado não é idêntico em todas elas, mas sempre gira em torno da noção de litigar, combater, disputar, incomodar, quebrar, despedaçar.

É parente do alemão brechen (quebrar), do sueco bråka (lutar), do inglês break (quebrar). Em francês, briguer é disputar (uma promoção, por exemplo). O mesmo significado tem o italiano brigare. O espanhol bregar tem o mesmo sentido de nosso conhecido brigar. É interessante notar que a raiz aparece até em serbo-croata (брига = briga), que significa preocupação, distúrbio.

Há controvérsia, mas muitos acham que os celtas diziam brig ou briga para designar uma cidade fortificada. Assim, Coimbra, cujo nome originário era Conímbriga, faz parte da família. Há uma cidadezinha na Suíça chamada Brig. Devia ser fortificada desde tempos antiquíssimos porque está situada em lugar estratégico. Fica ao pé da estrada de montanha que conduz ao Colo do Sempione(*), a rota mais utilizada para atravessar os Alpes antes que perfurassem túneis.

Não por razões de ideologia do governo, mas devido ao Brexit, que rachou o país em dois, praticamente todos os britânicos perderam algum amigo de dois anos pra cá. São as brigas que estouram nos pubs depois de algumas canecas de cerveja.

Mas há uma diferença fundamental entre britânicos e brasileiros. Em Londres, os campos do ‘nós’ e do ‘eles’ estão perfeitamente delineados. Os cidadãos pró-Brexit estão de um lado e os anti-Brexit, do outro. Já no Brasil, o ‘nós x eles’ foi criação artificial, de geometria variável. A linha demarcatória entre os dois campos é nebulosa, podendo se modificar e variar dependendo da conveniência de quem discursa.

(*) Colo, palavra pouco utilizada em nossa língua, indica a parte mais baixa entre dois picos de uma cadeia de montanhas. É passagem propícia para a construção de estrada. Tem significado próximo de garganta, desfiladeiro.

Ho, ho, ho!

José Horta Manzano

Antes de se tornar frenesi comercial como conhecemos hoje, Natal já foi festa religiosa. Talvez os mais jovens não consigam dar-se conta disso.

Famílias reunidas – e com fome – iam à Missa do Galo, rito solene e demorado, que começava à meia-noite do 24 para o 25. Digo que iam com fome porque precisava estar em jejum pra receber a comunhão. O número de horas sem comer, que chegou a ser de 12 horas, foi-se afrouxando com o tempo. Depois da missa, ceia simples e levinha esperava em casa. A reunião familiar, de verdade, era para o almoço do dia 25.

É interessante saber também que, antes de ser comemoração religiosa, o fim de dezembro, período de solstício de inverno no hemisfério norte, era pontilhado por festas pagãs. O povo manifestava júbilo e alívio porque as longas noites iam começar a encurtar. A partir da época do Natal, os dias se alongam a olhos vistos. Dependendo da latitude, o período diurno vai mordiscando a noite e vai ganhando um, dois, quatro, cinco minutos por dia sobre o período de escuridão. O Natal anuncia a primavera e o renascimento.

A origem da figura do Papai Noel moderno é conhecida, mas não custa repetir. Até o começo do século XX, algumas regiões da Europa cultivavam a lenda do velhinho que vinha, na época do Natal, presentear as crianças bem-comportadas e castigar as que tivessem sido desobedientes.

Diferentemente do que ocorre hoje, presente de Natal não vinha automaticamente, não era uma evidência. Não bastava ser criança para merecer prêmio. Precisava ter-se comportado bem. Pequerruchos rebeldes arriscavam-se a levar umas chicotadas do velhinho. Era ensinamento útil. Inculcava, nos pequeninos, a noção de que não existe almoço grátis – para atingir um objetivo, há que se esforçar.

A imagem que hoje temos de Papai Noel nada mais é que fruto da imaginação de desenhistas americanos. Em 1921, por ocasião de uma campanha de propaganda encomendada pelos fabricantes de Coca-Cola, bolaram aquele velhinho gordo e sorridente, de bochechas rosadas, viajando num trenó puxado por renas. E dizendo “ho, ho, ho!”.

Na Holanda, identificavam o velhinho do Natal com São Nicolau e o chamavam Sinterklaas. Por influência de imigrantes holandeses, os americanos adotaram o nome depois de o terem anglicizado para Santa Claus. Nos EUA, esse é o nome de Papai Noel. Vai, aqui abaixo, uma pequena lista dos diferentes nomes que diferentes povos dão ao bom velhinho do “ho, ho, ho”.

Noël 8EUA:         Santa Claus      (São Nicolau)
França:      Père Noël        (Pai Natal)
Brasil:      Papai Noel       [francês traduzido pela metade]
Portugal:    Pai Natal
Rússia:      Санта Клаус      (Santa Claus)
Reino Unido: Father Christmas (Pai Natal)
Alemanha:    Weihnachtsmann   (Homem da noite de Natal)
Catalunha:   Pare Noel        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Dinamarca:   Julemanden       (Homem do Natal)
Lituânia:    Kalėdų senelis   (Vovô Natal)
Holanda:     Kerstman         (Homem do Natal)
Suécia:      Jultomten        (Gnomo de Natal ou Duende de Natal)
Bulgária:    Дядо Коледа      (Vovô Natal)
Noruega:     Julenissen       (Gnomozinho de Natal)
Romênia:     Moș Crăciun      (Antepassado do Natal)
Turquia:     Noel Baba        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Polônia:     Święty Mikołaj   (São Nicolau)

Publicado originalmente em 25 dez° 2014

Crescendo e minguando

José Horta Manzano

Você sabia?

O interesse pelos astros começou na noite em que o primeiro homem levantou a cabeça e viu aquele mundaréu de pontinhos luminosos no céu. Faz muito tempo, muito mesmo.

Cinco mil anos atrás, quando papirus e papel não haviam sido inventados, tabuinhas de argila já registravam informação sobre os astros e seu movimento aparente.

O Sol e a Lua, maiores e mais rápidos que os demais, foram os primeiros a chamar a atenção. O Sol, que aparecia sempre redondo e do mesmo tamanho, passou impressão de regularidade. A ideia de firmeza e constância foi reforçada pelo fato de o astro levantar-se e pôr-se, com pequenas variações ao longo do ano, sempre à mesma hora. Já a Lua variava de aparência com frequência. Embora os ciclos fossem regulares e graduais, a impressão que ficou foi de inconstância.

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

Num tempo em que o Direito da Mulher ainda não havia entrado nas preocupações humanas, vigorava a lei do mais forte. O mundo era machista, bem mais que hoje. As línguas que atribuíam gênero aos substantivos puseram o Sol no masculino e a Lua no feminino. Assim aprendemos nós, nunca ninguém reclamou nem achou esquisito.

É interessante notar que a língua alemã ‒ caso único, a meu conhecimento ‒ fez o inverso. Em alemão, Lua é palavra masculina (Der Mond) e Sol é do gênero feminino (Die Sonne). Curioso, não?

Quando a professora pede aos aluninhos, já no Kindergarten (Jardim da Infância) que desenhem o Sol e a Lua, já se sabe: o Sol virá de batom e trancinhas enquanto a Lua terá chapéu e bigode.

Crescendo e minguando
Continuando nosso assunto selenita(*), lembro que todos nós aprendemos, desde pequeninos, que a Lua crescente forma um C, enquanto a minguante desenha um D no céu. É fácil reter: C para crescente e D para decrescente.

É possível que o distinto leitor não saiba que, vista do Hemisfério Norte, a imagem é invertida. Por estas bandas, quando a Lua desenha um C é porque está na fase minguante. E vice-versa. Vasto mundo…

(*) Selenita
Selene vem de raiz grega que traz ideia de esplendor, luz. Os antigos não sabiam que a Lua não faz mais que refletir a luz do Sol. Pouco importa. Deram ao astro noturno um nome que traduzia essa luminosidade.

Publicado originalmente em 26 maio 2016.

Fröken

José Horta Manzano

Pessoalmente, não morro de amores pela ativista sueca Fröken Greta Thunberg(*). Um sorriso iluminaria seu rosto, mas, pra conseguir ver essa luz, precisa se levantar cedo e ter paciência.

De qualquer modo, o resto do mundo não está nem aí para o que este blogueiro acha ou deixa de achar. Com sua voz de adolescente, a moça diz verdades que incomodam muita gente fina. Tem a ousadia que a pouca idade lhe permite.

Que não se engane quem achar que ela tem um certo ar de maluquinha. Foi diagnosticada como autista Asperger, um tipo de autismo geralmente sinônimo de inteligência superior, muito acima da média. Alguns autistas Asperger, apesar do jeitão esquisito, são verdadeiros gênios.

O fato é que a jovem diz coisas que políticos não teriam coragem de dizer. Se continuarmos a maltratar o planeta em que vivemos, a coisa vai ficar feia logo logo. Ela, que ainda tem muitas décadas de vida pela frente, não quer viver num mundo superaquecido, envenenado, contaminado, poluído. Por isso, denuncia.

Por natureza, políticos são egoístas. No dia seguinte ao da eleição, já estão todos de olho na próxima. Falam e agem em função dos votos que suas falas e suas ações possam arrecadar. É por isso que nem sempre se pode confiar neles. Quando se adiciona, a essa carga de má fé, boa dose de ignorância, têm-se os ingredientes para um desastre completo.

É o triste caso de nosso presidente. Doutor Bolsonaro, além de estar de olho na reeleição desde o dia em que foi eleito, é pessoa de poucas luzes. Pra piorar, tem uma característica incômoda: é malcriado e boca-suja. Em vez de fazer cara de paisagem como grande parte dos dirigentes ao redor do mundo, foi tratar Greta Thunberg de ‘pirralha’. Nenhum dirigente no planeta tinha ousado ir tão longe na ofensa gratuita.

Na outra ponta, a revista Time consagrou hoje a jovem sueca como Personalidade do Ano. E deu-lhe foto de capa e artigo com o subtítulo: The Power of Youth – A força da juventude.

Mais uma vez, doutor Bolsonaro fez figura de bronco. De toda maneira, ele não vai ficar sabendo do artigo da Time. Não costuma ler essa porcaria de revista comunista aí, talquei? Ainda por cima, é escrita em estrangeiro!

(*) Fröken é senhorita em sueco. Equivale ao alemão Fräulein, ao inglês Miss, ao francês Mademoiselle.

Dia da caça

José Horta Manzano

Mais dia, menos dia, doutor Bolsonaro volta pra casa. Pode ser que aguente até o fim do mandato, mas pode também ser que não. O futuro dirá. Até agora, não há sinais de a próxima residência ser na sede da PF em Curitiba. Vamos admitir que escape ileso. Pode ser que ele deixe o Planalto daqui a três anos, no fim deste mandato; pode também ser que fique mais sete anos, caso o reelejam (hipótese em que não acredito); pode até sair antes, como dona Dilma, aquela que todos imaginavam estar parafusada ao trono. O fato é que, um dia, ele sairá. Ninguém escapa ao destino.

Sabe o que vai acontecer então? Ora, as cartas estão dadas. Basta refletir um pouquinho. Vamos fazer isso juntos? Pois bem, ao assumir o cargo, o que é que doutor Bolsonaro anunciou, alto e bom som? Muitas bobagens que, na maior parte, acabaram esquecidas. Mas uma das promessas foi cumprida. O novo presidente tinha garantido, já durante a campanha, mandar «desaparelhar» a máquina do Estado. Dito assim, quem é que pode ser contra? Ou alguém gostaria de ser governado por um aparelho partidário – sinistra expressão que lembra o regime de Pequim, de Moscou, de Havana e outras excrescências por aí. Vade retro, Satanás!

Apesar disso – ou talvez justamente por causa disso – doutor Bolsonaro foi eleito com confortável maioria de votos. Desde então, o que tem feito? Ora, tem «desaparelhado» a máquina do Estado. Ou «despetizado», que é a expressão oficial pras bandas do Planalto. Só tem uma coisa. Quem é que está ocupando o lugar dos antigos picaretas? Novos picaretas, ora! Todos os recém-chegados se declaram bolsonaristas desde criancinhas, assim como os antigos eram lulopetistas de carteirinha. O ponto comum entre os antigos e os novos? A incapacidade, a ineficiência, a ausência de espírito público, a firme intenção de nunca contradizer o chefe.

Diante da paralisação do MEC em virtude do caos administrativo gerados por incompetentes instalados em postos que não têm capacidade de ocupar, o folclórico ministro da Educação mandou gastar as verbas atualmente «contingenciadas». Só que, na ausência de projetos e de gente qualificada, ninguém tem a menor ideia de como empregar o dinheiro. Pode uma coisa dessas? Dinheiro, há; só que ninguém sabe o que fazer dele.

Agora chegamos ao ponto. No dia em que o atual presidente, digamos assim, “se aposentar” do cargo, virá um outro – é o que reza a Constituição. Que fará esse outro? Seja ele quem for, tomará, entre as primeiras medidas, a «desbolsonarização» de ministérios, repartições, autarquias. Toda essa cambada de incapazes perderá a boquinha e cederá o lugar a nova… cambada de incapazes.

E assim vai nosso país. Aos trancos e barrancos. Só que fica a impressão de que os barrancos são sempre descendentes. Sente-se o tranco, e aí vem o barranco que leva pra baixo. Da vez seguinte, sente-se novo tranco e cai-se mais um pouquinho. E assim por diante. Depois do tranco, nunca se sobe. É uma pirambeira(*) sem fim.

No exame de aptidão para o cargo, que eu incluiria entre os requisitos obrigatórios para todo cidadão que quisesse se candidatar à presidência, eu incluiria que o postulante desse prova de ter lido – e entendido – pelo menos uma vintena de livros. Romance e HQ não valem. Enquanto isso não for implementado, continuaremos a suportar, empoleirados lá em cima, os que escolhemos. Não há que se iludir: a faixa presidencial não transforma ignorantes em sábios.

Pardus maculas non deponit.
O leopardo não perde as manchas.

Máxima latina

(*) À atenção de meus distintos leitores portugueses, explico que pirambeira (ou perambeira) é brasileirismo. Termo de origem pré-cabralina, corresponde ao panluso despenhadeiro, conhecido em todos os países de língua portuguesa.