Dinheiro vivo

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, dinheiro era raro, pelo menos sob a forma como o conhecemos hoje. Notas, não havia. Moedas, que eram poucas, circulavam mal e não atendiam as necessidades do comércio. Ainda que a economia fosse de subsistência ‒ cada um se alimentava do que plantava ‒, havia artigos que nem todos podiam fabricar em casa.

Para produzir objetos de ferro, por exemplo, precisava ter uma forja. O ferreiro era o especialista. Cavalo tem de ser calçado com ferradura. Todo dono de cavalo dependia das artes do ferreiro. O lavrador podia até plantar trigo, cevada ou outros cereais, mas não tinha meios de transformar a produção em farinha. Precisava dos serviços do moendeiro, o dono do moinho.

Sem moedas e sem notas, como pagar? A solução é velha como o mundo: o escambo. Trata-se da permuta de uma mercadoria por outra ou por um serviço. Eu lhe dou uma galinha e você, em troca, ferra meu cavalo.

Mercadorias mais comuns ‒ ovos, galinhas, legumes ‒ tinham pouco valor. Quanto mais raro fosse o artigo, mais valia. Numa época em que não havia avião e navios ainda não davam volta ao mundo, produtos exóticos eram raros e, por isso mesmo, muito apreciados. As especiarias vindas do Oriente estavam no topo da preferência.

Pimenta do reino, canela, gengibre, cravo, noz moscada, cardamomo & companhia entravam nessa categoria. A culinária da Idade Média europeia não era lá muito criativa. Sopas e pratos cozidos insossos com aparência de mingau dominavam. Os temperos davam realce à sem-gracice dos cozidos. Um punhado de pimenta valia um galinheiro inteiro.

Em francês medieval, «espèces» eram as especiarias. Enquanto o povão comerciava pagando com ovos e galinhas, os ricos pagavam com «espèces», produtos bem mais valiosos.

O advento das caravelas, que traziam as preciosas especiarias do Oriente, coincidiu com o início da formação dos Estados na Europa. Estados têm o direito e o poder de cunhar moeda. Com o passar dos séculos, a circulação de dinheiro se intensificou e foi, aos poucos, aposentando o escambo. Mas a expressão ficou e perdura até hoje, sabia?

Quando falamos em «pagamento em espécie», estamos utilizando, sem nos dar conta, uma relíquia de tempos idos. No entanto, diferentemente de certos usos do Brasil atual, o homem medieval, ainda que pagasse com espécies, não costumava carregar pimenta na cueca.

Nota
Especiarias, épices, spezie, spices, специя(spetsia) ‒ o nome da família aromática se espalhou por numerosas línguas europeias.

Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, só havia dois profissionais especializados: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os apetrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais, os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, era tradição que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada estava habitável. E era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição das duas águas.