O brasileiro e o soluço

Ricardo Araújo Pereira (*)

Por que o brasileiro suporta a pandemia, mas se verga perante o soluço?

Veja como é caprichosa a medicina. Há pouco mais de um ano, o presidente do Brasil fazia aquela declaração célebre: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria, ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

E, nesta semana, o atleta indestrutível que é indiferente a uma pandemia planetária foi hospitalizado com uma crise de soluços. A Covid, que mata milhões de pessoas no mundo inteiro, pode vir à vontade, que não causa transtorno, mas isto, hic, por amor de, hic, não se aguenta, hic, por favor, hic, alguém chame uma, hic, ambulância depressa, hic.

A teorização da invulnerabilidade nacional ao coronavírus atingiu novos cumes com a também famosa observação: “Brasileiro não pega nada, o cara pula no esgoto e não fica doente”. Mas, tal como o Super-Homem sucumbe à kriptonita, também o brasileiro, que resiste a vírus e a germes, não aguenta um soluço. Difíceis de entender os desígnios da natureza. Por que razão há de o brasileiro suportar a doce pandemia e o gentil esgoto, mas se vergar perante o cruel soluço?

Em defesa do brasileiro, talvez seja importante referir que o soluço tem intrigado o ser humano desde sempre. E que, ainda assim, permanece misterioso. O soluço não tem solução. Ou tem, mas não é muito eficaz.

A certa altura d’O Banquete, de Platão, chega a vez de Aristófanes falar. Sucede que não consegue fazê-lo porque é acometido por um persistente ataque de soluços. Erixímaco, o médico, sugere então: “Experimente, Aristófanes, ir para o hospital e tirar uma fotografia descomposto, intubado e sem roupa, para tentar excitar nos seus conterrâneos uma compaixão pelos seus soluços que você não teve pelas doenças graves deles”.

Minto. O que Erixímaco recomenda é que Aristófanes sustenha a respiração, gargareje com um pouco de água ou faça cócegas no nariz até espirrar. E resulta. A estratégia da fotografia no hospital é que já não convence ninguém.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

A gripezinha

José Horta Manzano

«Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, talquei?»

Desde que soltou essa preciosidade pela primeira vez, em meados de março, doutor Bolsonaro já tornou a insistir na metáfora em diversas ocasiões. Sempre em público.

Não está clara a origem do negacionismo do doutor diante da pandemia. Há quem diga que ele se sente uma espécie de super-homem, invulnerável e ungido pelos deuses, a quem nada pode acontecer. Também há quem diga que o homem é tapado e não consegue enxergar o tsunami que ameaça o mundo todo – Brasil incluído. É ainda permitido acreditar que ele contraiu a doença e se curou, provavelmente com hidroxicloroquina. Isso explicaria o merchandising que ele faz para o fármaco.

Seja como for, a gripezinha e o resfriadinho do doutor estão dando trabalho a tradutores. É que nossa língua facilita a formação de diminutivos, o que não acontece em outras línguas. Em português, os sufixos inho, zinho, zico, zito resolvem o problema e são utilizados em ampla escala. Pomos substantivo, adjetivo e até advérbio no diminutivo.

Em outras terras, jornalistas usaram o adjetivo pequeno(a) para se aproximar do efeito da fala de Bolsonaro. Chegaram perto, mas um pouco da nuance se perdeu. “Resfriadinho” não é a mesma coisa que “pequeno resfriado”, especialmente se o “resfriadinho” for pronunciado com a boca torcida. Na fala de Bolsonaro, o diminutivo marca todo o desdém que ele sente pela doença. É difícil traduzir esse estado de espírito. O mesmo ocorreria se a gente quisesse traduzir «presidentezinho».

Na tradução da notícia, a mídia internacional tem adotado a palavra “pequeno”. Ficou assim:

Inglês:
little flu, little cold

Francês:
petite gripe, petit rhume

Italiano:
piccola influenza, piccolo raffreddore

Alemão:
kleine Grippe, kleine Erkältung

Espanhol:
pequeña gripe, pequeño resfrío