Não fui eu, foi ele!

José Horta Manzano

«Não fui eu, foi ele!»

De criança, é comum, corriqueiro e compreensível que toda desavença seja levada à autoridade paterna ou materna para decisão. Cada litigante apresentará seus argumentos, e a Justiça adulta determinará.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Em outros termos, não se exige de criança pequena que assuma a responsabilidade por tudo aquilo que faz. Primeiro, porque ainda não está madura para entender os comos e os porquês de seus atos. Segundo, porque, de qualquer maneira, sempre aparecerá um adulto para consertar o estrago.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Com gente grande, a coisa muda de figura. De um adulto, espera-se que tenha entendido que mamã não virá correndo atrás para catar os brinquedos espalhados pelo chão. Compete a cada um recolher seus próprios pertences. Ou não os deixar cair.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Muitos de nossos concidadãos não conseguem enxergar o mundo assim. São do tipo eu sou mais eu e não estou nem aí. Essa dificuldade em se dar conta de que a infância acabou aparece, contundente, nas constrangedoras imagens de imundície captadas na praia de Copacabana no amanhecer de 1° de janeiro.

Os que fizeram isso ― e hão de ter sido milhares de pessoas ― continuam acreditando que mamã virá atrás catar os cacos.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014 Credit: Cezar Loureiro, O Globo

Praia de Copacabana, 1° jan 2014
Crédito: Cezar Loureiro, O Globo

Faz 500 anos que as políticas paternalistas de nossos sábios governantes só têm feito reforçar a infantilização do povo. «Não se preocupe, filho, que papai cuida disso. Vá brincar agora.»

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Está aí o resultado: uma população de ovelhas, sem iniciativa, sem noção de pertencimento a uma comunidade. Gente que não consegue enxergar além do próprio umbigo. É nesse terreno fértil que brotaram Getúlio, Jânio, Collor. E que continuam surgindo Lulas e Tiriricas.

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

Ah! Aos distraídos, quero lembrar que o pontapé inicial da Copa-14 será dado daqui a seis meses. Durante um mês, dois bilhões de pares de olhos estarão voltados para o Brasil. Não verão unicamente a beleza de Copacabana. Repórteres são curiosos por natureza. Hão de encontrar imagens mais picantes para impressionar seu público.

Feliz 2014!

Frase do dia — 69

«Copa do Mundo ― Evento que transformou o Brasil de gigante emergente em anão incompetente aos olhos do mundo. O evento que seria nosso baile de debutante planetário atraiu um foco negativo como nunca antes na história deste país. Morte de operários, goteiras e desabamento em estádios, corrupção, injustiça social, nossa continental roupa suja está sendo lavada em múltiplas línguas.»

Lúcia Guimarães, em seu Glossário de 2014, publicado pelo Estadão de 30 dez° 2013. Para ler o texto completo, clique aqui.

Previsões para a Copa

José Horta Manzano

A Copa do Mundo de Futebol, para quem não se deu conta, já começou faz uns dois anos. As 32 equipes que evoluirão este ano nas «arenas» (=estádios) do Brasil estarão disputando a fase final. O torneio começou com as eliminatórias regionais, das quais participaram perto de 200 países.

Os que integram a fase final são já uma elite, visto que 5 em cada 6 pretendentes já foram desclassificados. Para a maioria dos times nacionais, o objetivo era chegar a essa fase, ou seja, ganhar a passagem para o Brasil. Já se dão por satisfeitos de o terem conseguido. Outras equipes são mais ambiciosas e fixam a meta um bocadinho mais além: fazem de tudo para chegar às quartas de final, glória suprema.

Pelo que tenho constatado, nenhum país ousa declarar que tem como objetivo «ganhar» a Copa. É claro que todos os torcedores ficariam felizes se seu time nacional fosse campeão. Mas chegar às quartas de final já é façanha considerada de bom tamanho. Ninguém se arrisca a falar abertamente em levar o caneco.

Na cabeça do torcedor brasileiro, as coisas não funcionam exatamente assim. O objetivo é um só: ganhar o campeonato e levar a taça para casa. Terminar em segundo lugar ― o segundo entre 200 nações! ― é considerado, entre nós, um fracasso. Ficar em terceiro, então, é catastrófico. Menos que isso é vergonha nacional.

Por que isso acontece? Quem tiver uma explicação, que me diga. Confesso que não sei.

Interligne 18e
Sonia Racy colheu as costumeiras previsões para o novo ano formuladas por especialistas em tarô, numerologia e astrologia. A mesma série de perguntas foi feita a cada um deles. Entre as respostas, estão evidências que dispensam estudos esotéricos: haverá furacões, inundações, terremotos, manifestações populares durante a Copa, escândalos políticos. Para isso, dispensamos prevedores.

Já em outros assuntos, os três especialistas não conseguiram entrar em acordo. Há quem aposte na reeleição de mandatários atuais, há quem jure que serão varridos pelos eleitores. A ver. (Ou “haber”, como me escreveu uma vez um amigo espanhol. Não imite, que está errado, hein!)

Um tema, no entanto, uniu a predição dos três especialistas: o Brasil não será campeão de futebol.Copa 14 logo 2

O tarólogo foi pouco incisivo, mas bastante claro:
«O brasileiro costuma cantar vitória antes da hora (é pretensioso), e a pretensão é a maior inimiga da vitória».

A numeróloga foi direto ao ponto:
«Haverá uma queda de confiança na equipe, que levará o Brasil a perder a Copa».

E o astrólogo martelou um golpe seco e sem dó:
«O Brasil terá grande atuação, mas não vencerá».

É isso aí, minha gente. Melhor ir-se conformando.

Clique aqui se quiser ler a integralidade das previsões.

Frase do dia — 68

«Na crise aérea, Lula escanteou a Aeronáutica e os princípios militares de ordem e hierarquia para negociar com sargentos amotinados como se sindicalistas fossem.»

Eliane Cantanhêde, jornalista, relatando o papel do Brigadeiro Saito, da FAB, na saga da compra dos aviões de caça. In Folha de São Paulo, 31 dez° 2013

O bolso e a bolsa

José Horta Manzano

Chegou o fim do ano e, com ele, o tempo dos balanços. Uns medem o que venderam, o que compraram, o que construíram, o que gastaram. Outros avaliam quanto engordaram, quanto emagreceram, quanto envelheceram. Cada qual com seu problema.

Em artigo de 30 dez°, Josette Goulart, do Estadão, nos informa que o índice Bovespa ― da Bolsa de Valores de São Paulo ― caiu 15.5% em 2013.

Esclarece a jornalista que o esfacelamento de uma companhia petroleira pertencente a um certo senhor Batista responde por nada menos que 40% do baque. O resto vem principalmente do encolhimento da Petrobrás e da Vale. A retração do mercado chinês se encarregou de completar a derrocada.

Não é preciso ser doutor em Economia para entender que, por detrás desse fracasso, estão as impressões digitais do governo brasileiro.

Os negócios do senhor Batista foram encorajados pelo Planalto e generosamente regados com dinheiro nosso. Em atitude típica daquele que nunca tinha comido mel, os luminares que imaginam governar o País se lambuzaram. E acabamos todos melados.Estatísticas 2

A Petrobrás ― cujo capital, frise-se, é majoritariamente constituído de dinheiro nosso ― tem sido instrumentalizada à moda bolivariana.

Para coroar a trapalhada, a ideologia míope que domina nossas altas esferas optou por menosprezar clientes tradicionais e atrelar nosso destino econômico à China.

O negócio do senhor Batista era vidro e se quebrou. A Petrobrás, sugada, enxugada e usada para fins politiqueiros, anda mal das pernas. A China desacelerou. Deu no que deu: a bolsa brasileira, que reflete a confiança que o mundo deposita no futuro de nossa economia, desceu a ladeira.

A Bolsa de Tóquio logrou excepcional valorização de 55%. A de Nova York subiu mais de 25%. Com informações da Reuters, aqui abaixo está a lista da valorização anual das principais bolsas europeias até 30 dez° 2013:

    Dublin         + 33,5
    Helsinque      + 28,7
    Atenas         + 27,9
    Frankfurt      + 25,5
    Copenhague     + 24,0
    Oslo           + 23,0
    Madri          + 20,9
    Zurique        + 20,1
    Bruxelas       + 17,8
    Paris          + 17,3
    Amsterdã       + 16,7
    Lisboa         + 16,6
    Milão          + 16,6
    Londres        + 14,0
    Viena          +  6,1

Para o ano que vem ― quem sabe? ― nosso governo toma jeito. Não boto muita fé, mas estamos em época de festa, de euforia. Afinal, Deus é brasileiro, não?

Frase do dia — 67

«Como todos sabem (mas já esqueceram), a última coisa séria feita no Brasil foi o Plano Real. De lá para cá, só remendo e esparadrapo. Por isso, um país de 200 milhões de pessoas acredita que precisa de funcionários de Fidel Castro para cuidar da saúde da população carente.»

Guilherme Fiuza, escritor e colunista, in Revista Época. Texto integral accessível aqui.

Desinventando a imprensa

Ruy Castro (*)

Pesquisa científica divulgada há dias revela que foram os chineses, há 5.500 anos, que domesticaram os gatos ―1.500 anos antes dos egípcios, a quem se creditava essa maravilha. Quando um país está com a bola branca, como a China, não apenas seu presente chama a atenção ― até seu passado fica iluminado. E, se alguns ainda se espantam com o ímpeto com que ela ocupa hoje todo tipo de espaço, só me intriga que não tenha acontecido antes.

A história nos ensina que, com sua criatividade, os chineses já mudaram o mundo pelo menos duas vezes. Uma foi quando inventaram a pólvora ― de que resultaram o canhão, o mosquete, o arcabuz e muita gente morta. A outra foi quando criaram o papel e, daí a séculos, os tipos móveis, de argila ― do que, 400 anos antes de Gutenberg, nasceu a imprensa.

Essas foram as suas grandes contribuições no atacado. No varejo, é aos chineses que devemos o macarrão e, deste, o talharim, o espaguete e a língua de pato. Eles nos deram também a seda, a porcelana, a bússola, o sismógrafo, o moinho hidráulico e até a pipa ― esta, para pescar sem barco. Sem falar no palito de fósforo, nos fogos de artifício e na tinta ― não por acaso, nanquim.

Mas isso foi lá atrás. A China moderna são os bilhões de cacarecos e cafonices que assolam o mercado mundial, empesteiam o planeta e levarão séculos para ser digeridos pelo ambiente. E ela vem agora com uma novidade ainda mais revolucionária: a desinvenção da imprensa. Seus jornalistas, se quiserem manter a licença de trabalho, terão de devorar um manual de 700 páginas para fazer uma prova sobre os princípios do marxismo e se submeter a 18 horas de treinamento para se condicionar a não contrariar o Partido.

No Brasil, havia gente no governo que queria nos impor essa medida. Mas isso foi antes da Papuda.

(*) Ruy Castro, escritor e jornalista, em sua coluna na Folha de São Paulo.

A infantaria

José Horta Manzano

Agressão só pode suscitar reação inflamada. Os ecoterroristas da (poderosa) Greenpeace ― aquela que, de paz, só tem o nome ― não conseguiram captar essa mensagem em 40 anos de ativismo.

Que ninguém me entenda mal. Sou o primeiro a preconizar a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renovável. Tanto porque a queima de gaz e petróleo polui a atmosfera, quanto porque essa riqueza que não se renova é preciosa demais para ser queimada.

O que desaprovo vigorosamente são os métodos dessa organização não governamental. You can catch more flies with honey than with vinegar ― dizem os ingleses ― é mais fácil apanhar moscas com mel do que com vinagre. O modus operandi aplicado pelos dirigentes de Greenpeace está longe de ser meloso. Está mais para vinagre.

Reunir uma trintena de idealistas jovens e ingênuos e mandá-los para a linha de frente pode lisonjear os dirigentes da organização, mas não fará avançar a defesa da «causa». Nem um milímetro.

A infantaria da ong ― falo do grupo de 30 jovens adultos ― foi escolhido a dedo. No intuito de criar um imbróglio internacional, misturaram gente de uma vintena de países diferentes. Nesse particular, conseguiram seu intento: armaram um tremendo quebra-cabeça para as autoridades russas.

Mas, sacumé, russo não brinca em serviço. O navio ― sim, senhor, a opulenta organização dispõe de dois navios ― foi apreendido. Os arrojados ativistas foram direto para o xilindró. E lá teriam permanecido ainda um bom tempo, não fosse um evento internacional do qual, compreensivelmente, pouco se fala no Brasil: os Jogos Olímpicos de Inverno. Daqui a pouco mais de um mês, em 7 fev° 2014, a cidade russa de Sochi será palco da cerimônia de abertura da versão hibernal das Olimpíadas.

Tal como a Copa 14 é importante para a imagem do Brasil, os JOs de inverno são uma vitrina para a Rússia. Estes últimos dias, o governo de Vladimir Putin abriu um pacote de bondades. Liberou o bilionário Mikhail Khodorkovski, inimigo político do atual presidente, que apodrecia num campo de trabalho na Sibéria fazia 10 anos. Soltou também duas daquelas moças que, cabecinhas de vento, tinham tido a bizarra ideia de cantar uma oração punk em plena catedral ortodoxa.

A infantaria da Greenpeace Crédito: Daniel Teixeira, Estadão

A infantaria da Greenpeace
Crédito: Daniel Teixeira, Estadão

O perdão concedido aos ousados grumetes de Greenpeace se inscreve nessa mesma linha. Tiveram sorte. Não fosse a proximidade dos JOs e a aspiração russa de sair bem na foto, perigavam passar alguns anos pouco calorosos.

O resultado? Pois a poderosa organização conseguiu ser citada pela mída planetária, o que lhe há de granjear apoio e doações ― cada um é livre de doar a quem lhe aprouver. Os 30 incautos que, instrumentalizados, se prestaram a essa palhaçada devem estar-se sentindo heróis.

E o principal, a defesa do Ártico, como é que fica? Pois não saiu do lugar. Ninguém em sã consciência imaginaria um só instante que a gigantesca Gazprom, a Petrobrás russa, renunciasse a suas atividades na sequência de um protesto frouxo e desajeitado.

Alguém precisa avisar a esses ecoterroristas que terão muito mais sucesso se fizerem a mesma encenação nas plataformas brasileiras. Na hipótese mais elementar, receberão asilo político, se assim o desejarem. Na hipótese mais optimista, frearão a exploração petrolífera, o que não deixa de ser uma boa herança para os que virão depois de nós.

Por analogia

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Esta é do Sigismeno. Depois de ler a Frase do dia ― 64, no post anterior a este, deu-se conta de que, invertido, o raciocínio pode ser aplicado aos suíços.

Está aqui o que ele disse: «A previdência, o planejamento sistemático, a recusa de soluções improvisadas são as características que fazem do administrador um craque e do jogador de futebol, um perna de pau.»

E não é que ele tem razão? As mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos.

Frase do dia — 64

«A pista sobre quem somos de fato, naquele espelho metafórico que a Copa do Mundo erguerá diante de nós, pode muito bem estar à vista de todos no traço mais decantado de nosso estilo: o improviso, a recusa do planejamento, a solução encontrada de estalo. A mesma característica que faz do jogador de futebol um craque e do administrador, um cabeça de bagre.»

Sergio Rodrigues, escritor e jornalista, em seu artigo A Copa e a Copa no país do futebol, publicado na revista Veja.

Novo aeroporto ― mais um!

José Horta Manzano

Dois dias atrás, escrevi sobre o projeto ― já bem avançado ― de implantar um aeroporto em Caieiras, em pleno cinturão verde da cidade de São Paulo. A ideia me pareceu tão fora de propósito, que deixei aos distintos leitores a escolha do adjetivo que melhor lhes conviesse: absurda, contraditória, incoerente, insensata, disparatada.

Pois hoje fiquei sabendo que o desatino pegou nossas autoridades de vez. O espírito predatório que animava os desbravadores de 300 anos atrás permanece firme e forte. O conforto e a conveniência dos endinheirados que se podem permitir voar em jatinhos particulares passa por cima da preservação do meio ambiente. Frise-se que os jatinhos são privados, enquanto o meio ambiente é de todos os seres vivos. A distorção é enorme.

Aqueles cujos haveres lhes permitem encher piscinas e regar gramados com água mineral importada estão pouco ligando para o aperto por que vão passar os que dependem dos mananciais para se abastecer. Nosso infeliz país ― que foi um dia o país do futuro ― descamba indecentemente para se tornar um país sem passado. E privado de futuro.

Parelheiros: cinturão verde da grande São Paulo Crédito: Periferia em Movimento

Parelheiros: cinturão verde da grande São Paulo
Crédito: Periferia em Movimento

Artigo assinado por Thiago Borges, pescado no blogue Periferia em Movimento, nos informa sobre o projeto de construção de um aeroporto privado em Parelheiros, no mesmo cinturão verde que rodeia a capital paulista. A região responde por 25% do abastecimento de água da megalópole.

O parágrafo que transcrevo abaixo é edificante.

Interligne vertical 14«O aeródromo (…) tem como sócios os empresários André Skaf e Fernando Augusto Botelho. O primeiro é filho de Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), enquanto o segundo é herdeiro da construtora Camargo Correa.»

É de arrepiar. E que ninguém duvide: o aeroporto tem fortes chances de vir a ser construído. Em nome do «bem público», naturalmente. Se alguém não estiver contente, que se mude para Marrakech. Ou para Ushuaia, que é mais pertinho.

Vale a pena dar uma olhada no texto original. São só 350 palavras. Clique aqui.

Frase do dia — 63

«Ao propor a fundação da Alba, Chávez disse que a integração latino-americana por ele projetada era vital: “Ou nos unimos ou afundaremos”. Pelo visto, os países bolivarianos estão se afastando da Venezuela justamente para evitar esse abraço dos afogados.»

A fonte chavista secou, editorial do Estadão, 27 dez° 2013

Unesco tomba as Sete Maravilhas do Caos da Copa

Diego Rebouças (*)

Notícia azeda de tão velha: Brasil não vai conseguir maquiar todos os seus problemas até a Copa do Mundo! Pensando nisso, a Unesco decidiu tombar as «Sete Maravilhas do Caos da Copa do Brasil». Não é o máximo? Agora, os gringos não vão poder reclamar. E nem você, mané! A não ser que queira levar de brinde da PM uma arma que eles chamam de não-letal, mas que mata que é uma beleza. Papel e caneta na mão para a lista:

1) O caos aéreo
Welcome, gringaiada! Primeira parada obrigatória: o aeroporto. Nós temos tanto orgulho de termos aeroportos que nenhum brasileiro passa menos de duas horinhas preso em um. Tanto é que a gente vota na mesma corja que promete ajeitar as coisas e não ajeita nada. Ajeitar pra quê? A gente gosta assim! Filas, malas trocadas, voos superlotados. Se espremam na confusão e welcome!

Parece cheio, mas cabe mais gente by Roberto Capote, Folhapress

Parece cheio, mas cabe mais gente
by Roberto Capote, Folhapress

2) Trens, metrôs e ônibus superlotados
Conseguiu sair do aeroporto, Gringo? Mas a superlotação continua nos trens, metrôs e ônibus. Esse assunto irritou alguns brasileiros em 2013, muitos foram até pras ruas protestar, dizendo que “Não é só por 20 centavos”, mas a CPI dos Ônibus do Rio de Janeiro morreu, todo mundo esqueceu do assunto e tenta entrar aí no trem, Gringo, com mala e tudo. Não conseguiu? Não tem problema, porque a gente acha que Gringo é tudo rico e por isso temos a honra de apresentar a Terceira Maravilha do Caos da Copa!

3) Taxistas monolingues
Símbolo do nosso folclore, o taxista fala pouco quando você precisa de uma informação crucial e entope os seus ouvidos quando você não está nem aí pra saber a opinião dele sobre como as novelas das 21h prejudicam a educação das crianças. Gringo, saiba desde já uma coisa: seu taxista vai falar pouco. Ou vai falar muito. Mas quase nunca vai falar o que você quer. Ainda bem que isso não importa porque nós temos a Quarta Maravilha do Caos da Copa!

4) Os maxiengarrafamentos
Bem-vindo, Gringo! Seu taxista não diz coisa com coisa e esse táxi bandeira dois não sai do lugar. É que nós, brasileiros, adoramos ficar parados. Em aeroporto, transporte público ou no carro. Tanto que todo ano a gente vota em pessoas que têm até uma cara diferente, mas são financiados pelos mesmos empreiteiros. Que ganham maravilhas fazendo megaviadutos, que tapam a visão e dão uma maquiada no trânsito daqui, só pra meio quilômetro mais na frente afunilar tudo de novo. Isso é que é bacana do Brasil, gringo! Não importa em que cidade você esteja, você sempre estará em Gambiarra City. E olha, que máximo! Enquanto você lia esse item, clic, clic, o precinho do seu taxímetro só fez aumentar. Tá achando ruim? É porque você ainda não viu o próximo item da lista, o…

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

5) Alagamento pós-chuva
Recapitulemos a sua situação, Gringo: você levou uma surra no aeroporto, está preso numa avenida que não anda, com um taxista que consulta um dicionário cada vez que você pronuncia uma palavra. Eis que começa a chover. Carros começam a buzinar. Uns sobem na calçada, outros sobem no posto e quem não consegue sobe sua prece em direção a Deus. Mais 15 minutos e tudo estará debaixo d’água.
Mas antes temos a Sexta Maravilha do Caos da Copa, a…

6) Violência urbana
Com os carros parados e a chuva caindo, décadas de negligência dos governos municipais, estaduais e federal de todos os partidos dão suas caras: crianças que não tiveram acesso à escola viraram jovens sem acesso ao mercado de trabalho e pior –sem acesso à autoestima. Vão respeitar pra quê, se o Estado brasileiro nunca os respeitou? Eles não estão nem aí. Tanto que estão mandando você entregar sua carteira e sua mala no meio do engarrafamento, antes que a rua alague. E é bom entregar, Gringo.

7) Estádios überfaturados
ÊêÊêÊê!!! Chuva passou, táxi andou, Gringo precisou parar num caixa 24 horas para poder pagar a corrida, mas é hora de comemorar. Sem malas nem carteira, você está muito mais leve. E como o taxista não entendeu onde ficava o seu hotel, então, ele te trouxe para um dos nossos estádios überfaturados. Isso mesmo: über. Afinal, nem a Muralha da China e as pirâmides do Egito JUNTAS custaram tanto. E daí que mais da metade da população brasileira não tem cacife para assistir os jogos da Copa? Se você tem ingresso, Gringo, pode entrar. Por isso, seja muito welcome. Entre no estádio. Ache a sua cadeira-padrão-Fifa, que a partida vai começar.

(*) Diego Rebouças é roteirista e jornalista. O artigo acima foi publicado pela Folha de São Paulo, 26 dez° 2013.

Frase do dia — 62

«Desde maio de 2012, por decisão do Planalto, vigora a pirâmide social redesenhada pelo ministro Wellington Moreira Franco, chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Segundo esse monumento ao cinismo, a faixa dos miseráveis abrange quem ganha individualmente até 70 reais. A pobreza vai de R$ 71 a R$ 250. A classe média começa em R$ 251 e a acaba em R$ 850.

Os que embolsam mais de R$ 851 são ricos, e é nessa categoria que se enquadram milhares de seres andrajosos que se plantam de manhã à noite nos principais cruzamentos.»

Augusto Nunes, colunista, em seu blogue alojado na revista Veja, 25 dez° 2013

Novo aeroporto

José Horta Manzano

Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.

O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.

Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…

Reinventando o avião by Glen Baxter, desenhista inglês

Reinventando o avião
by Glen Baxter, desenhista inglês

O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.

O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:

    Dubai       = 58 milhões
    Djacarta    = 58 milhões
    Dallas      = 59 milhões
    Paris       = 62 milhões
    Los Angeles = 64 milhões
    Chicago     = 67 milhões
    Tóquio      = 68 milhões
    Londres     = 70 milhões
    Pequim      = 82 milhões
    Atlanta     = 95 milhões (!)

Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.

Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário by Ross Thomson, desenhista inglês

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário
by Ross Thomson, desenhista inglês

Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.

Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.

Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.

Frase do dia — 61

«Na famosa Reserva Extrativista Chico Mendes, a principal atividade atualmente não é o extrativismo, mas a pecuária de corte, de fato proibida pelas normas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Nem por isso, no entanto, muitos deixam de receber a Bolsa Verde.

Aliás, por essa razão, em outra reserva, no Alto Juruá, o líder da comunidade afirma: “O que mais se produz aqui é menino, pois é o que rende mais” – em referência ao recebimento da Bolsa Família e de outros benefícios, como a bolsa que a mãe poderá pleitear do Programa Brasil Carinhoso.»

Zander Navarro, sociólogo. In Estadão, 25 dez° 2013.

Frase do dia — 59

«Dentre os destinos possíveis para o americano desterrado, o Brasil desponta como ecossistema promissor. Afinal, é um portento entre os emergentes, democrático e dono de uma diplomacia independente. Respeita a liberdade de expressão e nutre um certo dissabor frente ao poderio americano. Tanto que o Palácio do Planalto parece até teleguiado por Snowden, que se manifesta pela caneta do jornalista Glenn Greenwald.»

Mac Margolis, colunista dominical do Estadão e editor do site Brasilinfocus.com, discorrendo sobre Mr. Snowden e a sinuca em que se meteu. In Estadão, 22 dez° 2013.

Observação natalina: neste começo de estação, a temperatura em Moscou anda anormalmente clemente: estacionou no zero grau faz alguns dias. Mas a previsão é de que, nas próximas semanas, volte ao costumeiro e desça uns 10 ou 15 graus. O inverno moscovita pode tardar, mas não falha nunca, que diabos!

Igualdade, pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Outro dia andava ele muito pensativo. Veio me contar o problema que o estava atormentando. O pobre Sigismeno acha que eu tenho resposta pra tudo. Enfim…

Ele me confiou seu pensamento ― que, no fundo, tem certa lógica. Ele lembrou que, até não muitos anos atrás, era impensável que o titular do Ministério da Defesa fosse um civil. Inimaginável, fora de cogitação. Aliás, algumas décadas atrás, o nome da instituição era explícito: Ministério da Guerra. Como tantas outras expressões, essa denominação tornou-se politicamente sensível depois da hecatombe 1939-1945. Pouco a pouco, todos os países adaptaram o nome do ministério aos novos tempos.

Em 2003, o presidente de nossa República editou, de afogadilho, a Medida Provisória número 111, que instituía a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Alterada, adaptada e burilada, a medida foi mais tarde tranformada em lei. Seu titular é equiparado a um ministro de Estado e goza das mesmas prerrogativas que seus pares. Responde diretamente ao presidente da República.

Nestes quase onze anos de existência, o Ministério da Igualdade Racial teve três titulares, Sigismeno os contou. Primeiro foi a paulista Matilde Ribeiro, seguida pelo fluminense Elói Ferreira Araújo. A ministra atual é a gaúcha Luiza Helena de Bairros. Pra dizer a verdade, eu nem sabia. Há que reconhecer que não são os nomes mais conhecidos do pletórico gabinete de dona Dilma.

Sigismeno me contou sua grande descoberta: todos os três são afro-brasileiros. Eu perguntei onde estava o problema. E ele: «Será que é condição obrigatória para ocupar esse elevado posto? Quando veremos um asiático-brasileiro, um euro-brasileiro ou mesmo um brasileiro ab origine (*) na chefia desse ministério?»

Fiquei meio embasbacado. E não é que Sigismeno tem razão? É de crer que a cartilha do partido (atualmente) dominante permite que centenas de milhares de militares de carreira sejam encabeçados por um civil, mas não admite que um não africano dirija o Ministério da Igualdade. Será possível que não exista nenhum índio, nipo-brasileiro, euro-brasileiro, médio-oriental-brasileiro à altura da tarefa?

Resolvi brincar com Sigismeno. Disse a ele que talvez esse ministério tenha sido criado só para acalmar a galeria. Seria como se dissessem: «Estão vendo? Tem até ministro preto. Que mais vocês querem?».

Pela cara que ele fez, tive a forte impressão de que Sigismeno ― que não brinca em serviço ― não apreciou a gracinha. Virou as costas e foi-se embora abanando a cabeça.

(*) Ab origine é expressão latina que designa aquele ou aquilo que está ali desde o início. No texto acima, faz referência, naturalmente, aos habitantes primitivos de Pindorama: os índios.