Psiconeuroimunologia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Passeando pela seção de ciências de um conhecido jornal, dei de cara com esse palavrão. Curiosa, fui investigar do que se tratava. De início, uma certa decepção. Era apenas a designação dada a um campo interdisciplinar de estudos científicos que se propõe a revelar as conexões entre a psicologia, a neurologia e o sistema imunológico.

Fiquei intrigada. Que as emoções interferem na saúde geral do corpo é fato comprovado cientificamente há mais de meio século. Muito já se estudou a respeito do papel dos neurotransmissores na promoção de sensações de bem-estar, assim como sobre a influência potencialmente deletéria de alguns hormônios ligados ao estresse sobre a imunidade. Nada de novo, portanto.

Por que, então, querer agrupar antigas áreas de pesquisa científica e rebatizar o conjunto, emprestando a ele ares de um novo campo do saber? Pelo que entendi, ainda faltava desvendar mais precisamente através de quais mecanismos os processos mentais atuam sobre a saúde. Ou seja, descobrir como o sistema nervoso central influencia e é influenciado pelo sistema endócrino e de que maneira os dois se articulam com as instâncias psíquicas para gerar a resposta imune. Uma vez conhecidos os vetores, ainda era preciso investigar de que forma o psiquismo humano pode se tornar um aliado estratégico para reforçar a imunidade do corpo. Ou, inversamente, como evitar que ele se posicione como força motriz para o aparecimento de doenças autoimunes, como o câncer, o diabetes e a aids.

Não foi nada disso, entretanto, o que aguçou minha curiosidade. O que me encantou mesmo foi saber como tudo começou. A estória é banal e demonstra, mais uma vez, a importância do acaso para o avanço do conhecimento científico. Tudo teve início em 1986, quando um professor de psicologia teve a ideia de pedir a seus alunos que escrevessem sobre o maior trauma de suas vidas ou, se não tivessem passado por nenhum, sobre o momento mais difícil que haviam vivido.

O professor insistia para que eles fossem o mais fundo possível na reminiscência de cada detalhe e colocassem no papel seus pensamentos e sentimentos mais profundos, mesmo que nunca tivessem ousado compartilhá-los antes. A tarefa foi repetida por vários dias consecutivos, para que os participantes pudessem dar vazão plena aos meandros de seu conturbado universo emocional interior. ara dar validade científica ao experimento, foi formado também um grupo de controle, ao qual se atribuiu a tarefa de registrar pensamentos e sentimentos a respeito de eventos cotidianos neutros, pelo mesmo número de sessões.

Segundo relato do próprio pesquisador, vários alunos choraram durante as sessões e afirmaram que ficar remoendo o passado havia feito com que eles se sentissem, de início, ainda pior. Curiosamente, no entanto, quando indagados se preferiam abandonar o experimento, todos expressaram o desejo de continuar. Nos seis meses seguintes, o professor monitorou a frequência com que os estudantes iam ao médico. Descobriu, sem muita surpresa, que aqueles que haviam se envolvido com o que hoje é chamado de “escrita expressiva” haviam se consultado muito menos vezes do que os colegas “neutros”.

Ele acreditava que o efeito benéfico sobre a saúde se devia apenas à catarse. Ou seja, pelo fato de terem se livrado de uma carga emocional pesada, os participantes provavelmente estavam apenas colhendo os frutos de uma menor preocupação com sintomas de desconforto físico. Mas a pesquisa não parou por aí. Vários outros experimentos foram realizados na sequência, enfocando quais áreas da saúde eram mais impactadas positivamente, desde problemas simples, como disfunções respiratórias, até os mais complexos, como o câncer.

Alguns resultados mostraram-se decepcionantes, seja por não apresentarem relevância estatística, seja por não perdurarem no tempo. Havia uma área, entretanto, em que os exames de laboratório mostravam resultados positivos mais consistentes e duradouros: o da cicatrização de ferimentos. Alguns voluntários foram até mesmo recrutados para se submeterem a um ferimento intencional (corte no braço e retirada de uma pequena amostra de pele) para analisar como e porque isso acontecia.

Foi então que o pesquisador decidiu investigar o tipo de linguagem usada na escrita expressiva e correlacioná-la com a melhora na saúde. Descobriu que aqueles cujos ferimentos saravam mais rápido haviam iniciado seus relatos usando mais vezes a palavra “eu” e, ao longo do tempo, migraram para o uso mais frequente de relatos em terceira pessoa, o que seria um indicador de mudança sutil de perspectiva na análise dos eventos traumáticos.

Além disso, essas pessoas recorriam mais vezes à palavra “porque”, o que sugeria que elas estavam aprendendo a dar um sentido aos acontecimentos e os alinhavando numa narrativa mais pessoal e estruturada.

Não estou sugerindo com essas divagações que estamos diante de uma revolução na ciência. Claramente, ainda não há nada de muito espetacular nas descobertas feitas até aqui. O que me é altamente estimulante, porém, é saber que ainda há um campo fascinante e muito extenso de investigação científica a ser explorado pelas futuras gerações.

Meu interesse pela área da psiconeuroimunologia fica ainda mais despertado quando penso na dificuldade que os jovens de hoje em dia, educados pelo e no mundo virtual, sentem de lidar com a linguagem escrita. O “internetês” criado por eles – os kkkkk e os rsrsrs para expressar divertimento, o recurso aos emojis para comunicar emoções e aos likes para manifestar concordância ou apoio – deixa em mim uma sensação amarga de retrocesso da capacidade humana de criação de vínculos.

Em psicanálise, costuma-se dizer que um dos sinais indicadores de desenvolvimento de maturidade psíquica surge quando a pessoa aprende a dar nome aos próprios sentimentos e emoções. Mais tarde, a interlocução afetiva efetiva vai depender em grande parte da precisão dessa linguagem interior.

Outra coisa que me preocupa e assusta é que o século 21 parece ter trazido consigo uma recusa maciça das novas gerações de se aventurarem livremente nos processos de interiorização. Passamos a viver na periferia de nós mesmos, incapazes de delinear os contornos de nossa subjetividade, voltados para fora e interessados apenas em garantir nossa aceitação na comunidade virtual.

É em função de tudo isso que ouso sugerir uma nova explicação para os fenômenos de cura observados através da escrita expressiva. Talvez seja reservando um tempo para meditar e lamber nossas feridas internas que possamos, finalmente, restabelecer as fibras de nosso tecido anímico, social e existencial.

A pesquisar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Codinome

José Horta Manzano

Estante e prateleira são sinônimos? Sim e não. A linguagem popular não faz muita diferença, usa um pelo outro. Mas o fundo das coisas é o seguinte: estante é um móvel composto de certo número de prateleiras. Portanto, stricto sensu, não são sinônimos exatos.

Estada e estadia são sinônimos? À primeira vista, sim. Acontece que cada um desses dois termos se especializou. Quando recebemos uma visita, dizemos que ela veio para uma estada de três dias. Se deixamos o automóvel num estacionamento, pagaremos um montante correspondente à duração da estadia do veículo. Navios também fazem estadia no porto. Convém, portanto, usar estada para gente e estadia para veículos.

Às vezes se ouve que um personagem qualquer do mundo das artes se apresenta sob o codinome tal. Nome, codinome, apelido, alcunha, cognome, denominação, epíteto são termos semelhantes, mas estão longe de ser sinônimos perfeitos. Cada um deles tem valor e peso próprios. Para não trocar os pés pelas mãos, convém respeitar essas particularidades.

Nome, apelido, denominação e epíteto são neutras, não trazem embutida nenhuma ofensa. O apelido de Roberto é Beto. Chamar Antônio Carlos Jobim de Tom não incomoda ninguém. Já o mesmo não se dá com os outros aparentes sinônimos.

Alcunha(*) e cognome são termos com forte carga depreciativa, que caem bem na linguagem policial. Tirofijo era a alcunha de um dirigente terrorista colombiano, desaparecido alguns anos atrás. Beira-mar é o cognome de conhecido traficante.

Por último, sobrou o estranho codinome. Não se pode cobrar de jovens jornalistas o conhecimento profundo de uma realidade que não viveram. Mas vale a pena aprender. Nos anos 1970, pequenos grupos, às vezes armados, se insurgiam contra o poder central. Na tentativa de burlar a repressão, seus membros ocultavam o nome de batismo e adotavam nome(s) de fachada, nome(s) de código. Foi nessa época que o vocábulo codinome se popularizou.

Aos remanescentes daqueles indivíduos — alguns dos quais chegaram, mais tarde, a ocupar postos de mando na República — não agrada que se tragam à tona símbolos que marcaram fortemente aqueles tempos duros. Um desses símbolos é justamente a palavra codinome.

É bom tomar cuidado com esse termo. Falando de bandido (ou de ex-bandido), use o termo que mais lhe agradar. Quando se referir a gente honesta, evite palavras depreciativas. Pega mal pra caramba.

(*) Nota
O presente artigo baseia-se nos costumes brasileiros. Em terras lusas, o peso e até o significado de determinadas palavras podem ser diferentes. Os portugueses chamam apelido o que chamamos sobrenome. Já quando dizem alcunha, referem-se simplesmente ao apelido de alguém. Sem carga pejorativa naturalmente.

Votaron cuatro veces!

José Horta Manzano

«Hay ciudadanos que votaron cuatro veces!» ‒ foi uma das observações que contribuíram para desqualificar o plebiscito realizado pelo governo provincial da Catalunha no dia primeiro de outubro. Determinados eleitores são acusados de ter votado diversas vezes. De qualquer maneira, a consulta não havia sido autorizada pelo governo espanhol, fato que a tornou ilegítima e mesmo ilegal.

A organização do plebiscito, sua execução, o cômputo dos votos e a proclamação dos resultados foi feita pelo mesmo grupo de independentistas, sem controle externo. Eles próprios, ao anunciar o total de votantes, admitiram que menos da metade do eleitorado havia comparecido. Ainda que houvesse uma nesga de legitimidade, a consulta padeceu de falta de quorum. Voto descontrolado nunca dá bom resultado. Mas esses são problemas espanhóis. Vamos aos nossos.

Urna transparente

A Secretaria de Tecnologia da Informação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) andou fazendo um levantamento no cadastro de eleitores. Descobriu irregularidades ‒ surpreendente mesmo seria não descobri-las…

Um dos casos mais emblemáticos é o de um cidadão goiano que tinha 52 títulos de eleitor, 52 identidades, 52 CPFs. Cinquenta e dois exemplares de cada documento! Esse não fez as coisas pela metade. Um caso desse quilate deixa possuidores de «apenas» dez, vinte ou trinta títulos em segundo plano. Os indivíduos que têm nada mais que duas ou três identidades, então, passam despercebidos.

Essa notícia reforça a desconfiança que tenho ‒ e não sou o único ‒ na confiabilidade do voto eletrônico. Se, com fichas de papel e arquivos, que têm existência física e podem ser consultados a qualquer tempo, cidadãos conseguem manter múltiplas identidades, a urna eletrônica potencializa o perigo de fraude. De fato, na ausência da cédula de papel como comprovante, quem garante que cada voto foi computado corretamente? Em caso de litígio, como recontar?

Ouvi, ainda hoje, que piratas informáticos da Coreia do Norte invadiram sites militares da Coreia do Sul e sugaram zilhões de dados ultraconfidenciais. Ora, quem consegue entrar na casa dos outros e roubar informação deve também ser capaz de modificar dados. A meu ver, o debate vai além da segurança garantida pelo cadastramento biométrico. O que está em jogo é aquela torrente de dados que, embora ninguém veja, correm, anônimos, pelos cabos informáticos e determinam a vitória ou a derrota de cada candidato.

O risco de manipulação e de fraude maciça é bem maior que o perigo de um ou outro bugre votar 52 vezes. Um cavalo de troia introduzido no sistema eletrônico de apuração não altera 52 votos: pode adulterar 5 milhões. Ou mais.

Tomataço

José Horta Manzano

Uma coisa que me revolta é desperdício de comida. Quando de recente visita que doutor Gilmar Mendes, ministro do STF, fez a São Paulo, um grupo de manifestantes se valeu da ocasião para demonstrar desagrado com determinadas decisões do magistrado. Para isso, não encontraram melhor maneira que lançar tomates em frente ao edifício onde se encontrava o referido doutor.

Num país onde parte significativa da população ainda depende de uns caraminguás da bolsa família para sobreviver, a iniciativa é mais que escandalosa: é indecente. Jogar comida fora quando tem gente passando necessidade? É surreal.

Na China e em outras regiões do mundo que trazem na memória coletiva o terrível espectro de séculos de fome e privações, jamais viria à mente de um cidadão desperdiçar alimento. Seria ato impensável, de uma estupidez inimaginável. Por que razão isso não deixa ninguém indignado no Brasil?

Chamada Estadão, 9 out° 2017

Mesmo se fôssemos ricos ‒ o que está muito longe de acontecer ‒ já seria irrespeitoso. Quando se sabe que, a algumas centenas de metros do local do «tomataço», famílias vegetam debaixo de viadutos, abrigadas por pranchas de papelão e cobertores ralos, é incompreensível.

Ainda que o magistrado fosse o único culpado pela miséria nacional ‒ o que não é verdade ‒ o desbaratamento de gêneros alimentícios não se justificaria.

É questão de coerência e de bom senso. Que se manifestem com bandeiras, cartazes, passeatas. Que gritem palavras de ordem, que berrem ao megafone. Que se unam em «tuitaço» de repúdio. Que organizem petição de reclamação. Há mil maneiras civilizadas de protestar. Desperdiçar comida num país como o nosso? É pecado mortal. Não tem alcance e só serve pra dar trabalho extra a mal pagos garis.

Nota
Não sou advogado do magistrado. Aliás, estou frequentemente em desacordo com posições dele. Nem por isso acho correto atirar-lhe tomates, ovos ou qualquer outro tipo de comida.

O distinto leitor há de se lembrar do dia em que, diante das câmeras do mundo inteiro, um manifestante atirou um maço de cédulas falsas sobre o então presidente da Fifa. Achei fantástico. Aquela chuva de «dinheiro» doeu mais que uma tomatada. E fez efeito: pouco tempo depois, o dirigente pediu as contas.

Família rapidinha: abreviaturas

Dad Squarisi (*)

Se o falante tem ânsia de brevidade, a língua não o deixa na mão. Colabora. Por isso, inventou a abreviatura. Reduz um palavrão a poucas letras. Doutor vira dr.; Apartamento, ap.; Quilômetro, km. Mas a ajuda tem preço. São as regras para usar as pequeninas. A mais importante: ter pena do leitor. A redução precisa ser familiar, facilmente entendida.

Não só. As abreviaturas formadas pela diminuição de palavras têm três manhas.

●   Uma: exigem o ponto final.

●   A outra: não abrem mão do s do plural.

●   A última, igualmente importante: mantêm o acento original.

Exemplos:
capítulo (caps.),
companhias (cias.),
páginas (págs.),
século (séc.),
código (cód.).

Tal como na vida, na língua há os privilegiados perante a abreviatura. É o caso do símbolo de hora, minuto, segundo, metro, quilo, litro e respectivos derivados (quilômetro, mililitro). Eles são sem-sem – sem o ponto abreviativo e sem o s indicador de plural: 5h30; 3h30min14; 4,5m; 20kg; 10ml.

Pragas aparecem de vez em quando. A mais recente atingiu a nobre figura do professor. Os manuais dizem que a abreviatura do mestre é prof. Mas, por alguma razão alheia à vontade de Deus e dos homens, começaram a brindá-lo com um ozinho (profº). O intruso aparece até em cartazes de faculdade. É a receita do cruz-credo.

A língua detesta redundância. O masculino não precisa do o. O feminino, sim, pede a. O plural, s. Compare: professor (prof.), professores (profs.), doutor (dr.), doutores (drs.), professora (profª), doutora (dra.), professoras ( profªs), doutoras (dras.).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, só havia dois profissionais especializados: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os apetrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais, os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, era tradição que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada estava habitável. E era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição das duas águas.

Baú de memórias ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não é estória de pescador. Foram eventos reais e tão surpreendentemente reveladores das minhas limitações que eu os havia enterrado bem fundo no meu baú de memórias.

Eu era muito jovem na ocasião. Recém-formada, sem experiência no mundo profissional, carente de autoconfiança, tudo conspirava para fazer de mim uma pessoa tímida, defensiva e impressionável. Trabalhava no departamento médico de uma empresa paraestatal, respondendo sozinha pela coordenação do setor de seleção de pessoal.

Um de meus colegas de departamento era uma médica psiquiatra, já madura e experiente. Mulher muito alta e corpulenta, a simples presença dela era suficiente para impor respeito. Um sorriso sempre nos lábios e seu caloroso olhar acolhedor, no entanto, deixavam claro que ela era dona de espírito crítico e senso de humor refinado, que não precisava usar a autoridade como arma para intimidar ninguém. Foi ela quem me deu a primeira e mais preciosa lição a respeito do que significa inteligência emocional, um conceito que só seria formulado décadas mais tarde.

O chefe do departamento era um médico cardiologista um tanto limitado intelectualmente, visceralmente machista, que acreditava que todos os conflitos internos podiam ser resolvidos através de sua lábia e comportamento pretensamente sedutor. Eu me esforçava o quanto podia para driblar seus assédios, fechando a cara, me empertigando e tentando parecer séria.

A primeira vez em que a vi reduzir a pó sua fachada de segurança aconteceu durante uma reunião de departamento. Ele havia aberto o encontro com ar compenetrado, explicando que havia recebido ordens da diretoria no sentido de otimizar os recursos humanos do departamento. Para tanto, propunha ele, era necessário que nós duas elaborássemos um levantamento estatístico do número de casos atendidos por mês, separando-os por categoria diagnóstica. Ou seja, ele queria saber quantos candidatos “normais” e quantos portadores de distúrbios mentais ou psicológicos, como esquizofrênicos, psicopatas, neuróticos de todos os matizes, epiléticos, alcoólicos crônicos, etc. haviam passado por nossas mãos.

by Tania Messaoudi (1989-), desenhista francesa

Estupefata, eu buscava, sem sucesso, algum meio de comunicar a ele do modo mais educado possível a implausibilidade de seu pedido. Sentada a meu lado, a psiquiatra, ao contrário, parecia se divertir com a situação. Com serenidade, ela tomou a palavra e disse literalmente: “O senhor está parecendo um chefe de família que decide entrevistar a esposa e cada um dos filhos para saber quantas vezes eles defecam por semana para, dessa forma, poder planejar a compra de papel higiênico para o próximo mês”.

Afrontado e ridicularizado, ele reagiu com indisfarçável sarcasmo: “Da sua boca, minha senhora, só se pode esperar m… só sai porcaria mesmo”.

Gargalhando, ela prontamente retrucou: “Doutor, a merda está na sua cabeça, não na minha boca”.

Foi o que bastou. A reunião foi encerrada ali e ele nunca mais trouxe o assunto de volta à baila. Profundamente impressionada com essa aula magna de perspicácia, eu passei a buscar o aconselhamento dela para outras situações difíceis de trabalho. Poucos meses depois, a empresa foi chamada a cuidar do processo de seleção de juízes de primeira instância para uma vaga no Tribunal de Justiça Militar.

Era época de ditadura e eu me sentia extremamente atemorizada para fazer valer meu poder de aprovar ou rejeitar qualquer daquelas figuras de autoridade. Era uma tarefa hercúlea para quem sabia não dispor de suficiente isenção para avaliar o psiquismo de militares, nem equilíbrio emocional suficiente para enfrentar eventuais recursos e apelações.

Um dos candidatos era um tipo asqueroso, que não demonstrava qualquer pudor em lançar mão dos recursos mais vis para alcançar seus objetivos. Eu o havia submetido a testes psicológicos que apontavam sérios desvios comportamentais, mas hesitava em colocar no papel um diagnóstico claro de inadequação para a função.

Talvez por já antever uma reprovação, o tal indivíduo achou por bem subornar um funcionário administrativo para ter acesso ao arquivo com os exames e laudos, o que foi feito de madrugada. Inteirado de sua periclitante situação, na manhã seguinte ele procurou e pagou um psiquiatra particular para elaborar um laudo que negasse as suspeitas levantadas.

A prova final era uma entrevista com minha colega psiquiatra. Eu a procurei logo cedo e falei da minha angústia para expor fatos tão graves ao juiz-presidente do tribunal. Afinal, era minha palavra contra a dele e contra a de um outro profissional, mais qualificado que eu. Ela me acalmou, sugerindo que eu deixasse a cargo dela a tarefa de desmascarar o sujeito.

Ansioso, no dia marcado ele chegou para a entrevista com algumas horas de antecipação. Aboletou-se numa cadeira da sala de espera, fingindo descontração e autocontrole. A cada candidato que saía da sala após a entrevista, ele investigava que tipo de pergunta ela fazia, que tipo de testes eram feitos e como cada um havia respondido. Descobriu dessa maneira que teria de passar por um exame neurológico, que consistia em ficar em pé no meio da sala, descalço e de olhos fechados, fazendo um quatro com as pernas.

Quando chegou sua vez, ele entrou na sala com ar arrogante e foi logo desamarrando os sapatos. Levantou-se, pôs-se na posição, sem que nada lhe houvesse sido solicitado. Ela, em total silêncio, deixou que ele passasse vários minutos na posição. Incomodado com a falta de outras orientações, o sujeito finalmente abriu os olhos e percebeu que ela o encarava com um olhar de surpresa e divertida interrogação.

Candidamente, ela então perguntou: “O senhor costuma fazer isso com frequência?“. Constrangido, ele ainda tentou disfarçar: “Isso o quê?”

“Ficar nessa posição esquisita sempre que entra num consultório médico”, respondeu ela.

Dali para frente, como bem se pode imaginar, o indivíduo perdeu o controle da situação e caiu em seguidas contradições. Quando ele saiu, ela me chamou para mostrar seu laudo. Em poucas palavras, ela havia condensado com maestria as táticas empregadas pelo candidato e redigido seu parecer de tal forma que ele não pudesse vir a contestar uma só palavra.

Estava escrito algo como: “Indivíduo ansioso, impulsivo, que atropela o bom senso, tomando iniciativas esdrúxulas, sem que tenha havido demanda externa. Falta-lhe ponderação, argúcia e controle emocional para lidar com decisões delicadas, o que o inabilita para assumir as graves tarefas pretendidas por esse egrégio tribunal”.

Sua candidatura foi inapelavelmente rejeitada pelo tribunal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O turista estrangeiro e o custo Brasil

José Horta Manzano

Em meados do século passado, era habitual que cada país contasse com (pelo menos) uma companhia aérea nacional. Era um dos componentes do orgulho e do sentimento de autossuficiência da nação. Todo país importante ‒ e até algum menor ‒ contava com «sua» empresa aérea. Se não fosse o único proprietário, o Estado era acionista majoritário.

O sistema vigorou até pelos anos 1980. Varig, Swissair, Pluna, Air France, PanAm, Iberia, Alitalia se encaixavam no modelo. Até a Bolívia tinha seu Lloyd Aereo. Estado que não possuísse empresa aérea nacional era olhado com comiseração.

Pelas voltas que o mundo dá, os últimos trinta anos trouxeram grandes turbulências. Varig, Pluna, Lloyd Aereo Boliviano sumiram do mapa. Swissair, quem diria, fez falência e foi engolida pela LuftHansa. A Alitalia, no miserê há anos, funciona sob perfusão. A Air France e a holandesa KLM, para não entrar em colapso, tiveram de se unir em casamento forçado. A PanAm, que chegou a ser uma das maiores do mundo, simplesmente fechou portas e escotilhas. Em matéria de companhia aérea, o conceito de «orgulho nacional» se esvaziou. Hoje vale quem pode, não necessariamente quem quer.

Está em tramitação no Congresso do Brasil um projeto de lei para permitir a abertura irrestrita do setor aéreo ao capital privado ‒ dispositivo considerado pecado mortal até um passado recente. Se aprovado, será passo na boa direção. Toda medida que possa trazer benefício ao usuário será sempre bem-vinda, pouco importando quem sejam os investidores da empresa. Por evidente, nenhum investidor vai botar seu dinheiro em saco sem fundo. De tabela, o risco de corrupção será menor.

Em entrevista concedida estes dias, o presidente da Embratur se pronuncia a favor da medida. Até aí, estamos de acordo. Dado que o Brasil se encontra distante dos centros geradores de turistas, os aeroportos são o principal portão de entrada. A nova lei tende a atrair companhias de baixo custo, fato que será apreciado tanto por turistas que chegam quanto por brasileiros que saem.

A certa altura, o entrevistado diz achar que o maior entrave à vinda de turistas estrangeiros é o «custo Brasil». Ignoro o sentido que ele empresta a essa expressão. Se ele se refere ao nível de preços de transporte, alojamento e alimentação, incorre em equívoco. Paris e Londres, apesar de figurar entre as cidades mais caras, encabeçam a lista das mais visitadas. Esse fato tende a demonstrar que o custo (monetário) não é empecilho.

by José Miguel Pereira de Sampaio (1927-2016), desenhista gaúcho
Charge publicada em 1949 na Revista do Globo
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Para quem vê o Brasil de longe, como este blogueiro, salta aos olhos que a criminalidade ‒ também conhecida como violência ‒ é a primeiríssima barreira. De pouco adianta mostrar fotos de praias paradisíacas quando, no instante seguinte, o candidato a turista lê na mídia que um arrastão acaba de depenar banhistas em Copacabana. Ou que um grupo que fazia trilha foi violentado. Ou que um estrangeiro desavisado, tendo entrado por engano numa favela, foi assassinado com rajada de metralhadora.

O buraco é bem mais embaixo. Em massa, turistas europeus visitam a China, que fica a 12 horas de voo. Em massa, norte-americanos fazem turismo na Europa, numa viagem que não sai em conta. Multidões de japoneses e outros extremo-orientais atravessam o Pacífico, numa viagem cansativa e interminável, para conhecer os EUA.

Por que é que tão poucos chegam até o Brasil? Por que será que desprezam praias, florestas tropicais, metrópoles gigantescas, pousadas encantadoras, relíquias coloniais, fauna e flora prodigiosos, sol e calor garantidos? Não será pelos preços elevados nem pela falta de conexões aéreas. A maior barreira é o temor de serem vítimas de assalto ou de bala perdida.

Pensando bem – 16

José Horta Manzano

0-Pensando bem

A Polícia Federal
‘Tá botando pra quebrar
Inda hoje foi buscar
Dirigente maioral

Diz que é por compra de voto
Diz que é por corrupção
Mas o acusado, seu moço,
Não botou a mão no bolso
Teve outro modo de ação

Todo o dinheiro do crime
Não saiu do bolso dele
No tempo das vacas gordas
Ele dirigia o COB
E nós “ficava” mais pobre

Palavra certa no lugar certo

José Horta Manzano

Muitas vezes, uma palavra ou expressão pode causar incômodo. Não me refiro a palavrão nem a expressão vulgar. Falo daquele termo que deixa uma sensação de estar fora de lugar, de ser palavra certa no lugar errado.

Na linguagem oral, nem sempre dá tempo de mergulhar ao fundo dos miolos para encontrar a boa expressão. Já quando se escreve, a coisa muda. Dá tempo de pensar e se expressar apropriadamente. É hora de praticar a adequação vocabular.

Termo inadequado não é necessariamente sinônimo de erro. Uso inadequado pode, no limite, até passar adiante a mensagem. Mas, convenhamos, deixa o discurso desgracioso. Se é possível fazer melhor, por que hesitar? Não há nada a perder.

Chamada Estadão
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Bafômetro
O aparelhinho que leva o sugestivo nome de bafômetro mede a concentração de álcool no sangue. A lei brasileira proíbe ao motorista dirigir com mais de 0,6g de álcool por litro de sangue. Dependendo da corpulência da pessoa, a mesma quantidade de bebida alcoólica não faz efeito idêntico. A ingestão de dois copos de vinho, que não deixará um indivíduo tipo «dois por dois» alterado, pode deixar um magricela trançando as pernas.

Portanto, não é adequado falar em «ingestão de álcool acima do permitido». Previdente, a lei não mede a quantidade ingerida, mas a concentração remanescente no sangue. A expressão utilizada na chamada foi inadequada. Melhor dizer que o teste constatou presença de álcool no sangue superior ao limite legal.

Chamada Estadão
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Sujeito boa-praça
Nem sei se os jovens ainda conhecem essa expressão. Boa-praça se dizia de um indivíduo simpático, sorridente, sempre bem-disposto. De uma pessoa assim, dizem hoje que é «amigável». A mim, soa estranho. Sou do tempo em que esse adjetivo era reservado para definir desquite, divórcio, negociação, trato comercial. Nunca se descrevia pessoa como «amigável». Há de ser contaminação do inglês “friendly”.

No lugar de qualificar o sujeito de «amigável», mais vale dizer que é amistoso, amical, amável, simpático, cordial, gentil. Ou, simplesmente, amigo. A expressão utilizada na chamada soa esquisita.

Chamada Estadão
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Thank you
Pelos serviços que tem prestado ao país, doutor Sergio Moro foi homenageado com um prêmio conferido pela Universidade Notre Dame. Ao receber a honraria, o juiz pronunciou palavras de agradecimento. Na chamada da notícia, o jornal qualificou a fala do magistrado de «discurso de gratidão». Como é que é? Ficou esquisito. A palavra gratidão tem forte carga emocional (e até moral), enquanto agradecimento é gesto de boa educação.

«O acidentado demonstrou gratidão para com o bombeiro que o salvou do incêndio» ‒ é situação em que a palavra cabe perfeitamente. Doutor Moro, que não deve gratidão à universidade que o homenageou, apenas proferiu «discurso de agradecimento». Mostrou que é educado. Educado e esperançoso. Segundo o doutor, «a era dos nossos barões da corrupção está chegando ao fim»

Inxalá!(*)

(*) Inxalá é livre transcrição de interjeição árabe que significa «Queira Deus!». Está na origem de nosso oxalá, de mesmo sentido.

A Cesare o que é de Cesare

José Horta Manzano

Notícias importantes atropelam e mandam pra escanteio as de menor peso. Grandes manchetes abafam fatos considerados de menor importância. No entanto, a régua que mede a importância de cada acontecimento varia de um lugar a outro.

Estes dias, enquanto o Brasil continua mergulhado em sua crise político-policial crônica, a França mostra grande preocupação com o problema catalão. De fato, as manobras secessionistas do vizinho podem abrir uma brecha na estabilidade do continente e acabar se alastrando, tal fogo morro acima.

Os alemães acompanham com interesse as tratativas, empreendidas pela mais que provável futura chanceler, para formar coalizão capaz de garantir o contrôle das câmaras e a governabilidade. Em tempo: governabilidade, por aquelas bandas, não é sinônimo de cooptação nem de corrupção. Costuma ser negociação lícita, em que acertos políticos não rimam com assalto aos cofres da nação.

Cesare Battisti
Crédito: Cláudio Lahos

Já a Itália anda alvoroçada com a possibilidade de revisão do asilo político concedido pelo Lula, em seu último dia de governo, a signor Cesare Battisti. Os italianos não esqueceram que esse senhor, julgado à revelia pela Justiça de seu país, foi considerado culpado por participar de quatro assassinatos e condenado à prisão perpétua. Passaram-se quarenta anos, mas as famílias das vítimas ainda guardam os estigmas dos homicídios. As autoridades italianas receberam a bizarra decisão do Lula como uma afronta. E não se conformaram até hoje.

Semana passada, o jornal O Globo deu notícia de pedido apresentado pela República Italiana ao Planalto no sentido de rever a incompreensível decisão de conceder ao fugitivo o estatuto de asilado político. Diz o jornal que, após uma primeira análise técnica, o governo brasileiro não vê empecilhos jurídicos na reabertura do dossiê.

Signor Battisti, que hoje se apresenta como escritor, está casado com uma brasileira, com quem tem uma filha. Aos 62 anos, vive em São José do Rio Preto (SP). Mesmo sem o respaldo dos antigos «companheiros», hoje fora do poder e dizimados pela prisão de alguns e pela ameaça de encarceramento de outros, o asilado se diz tranquilo. Acredite quem quiser.

Bem farão nossas autoridades competentes se, finalmente, se decidirem a fazer o óbvio: devolver o estrangeiro aos italianos. Repararão, assim, a afronta cometida contra a Itália na desvairada era lulopetista. Mostrarão que o Brasil deixou de ser valhacouto de criminosos. De quebra, retribuirão o gesto da Justiça italiana, que nos devolveu o criminoso Pizzolato ‒ que, não nos esqueçamos, era cidadão daquele país.

Temos quantidade suficiente de criminosos nacionais de sangue nas mãos ou de colarinho branco. Não nos fazem falta estrangeiros. Xô!

A doutora na Finlândia

José Horta Manzano

A Finlândia me é simpática. Não fosse por outro motivo, foi ali que passei meu exame de motorista e recebi minha primeira carteira. Já faz muito tempo, mas guardo o documento de lembrança até hoje ‒ uma cadernetinha, como se usava na época, com páginas hoje amarelecidas. Os dados eram todos inscritos à mão numa língua que poucos conseguem ler. Bons tempos.

Doutora Dilma está estes dias na Finlândia. Ninguém sabe direito o que madame estará fazendo por lá além de desancar com nossas instituições e denegrir ainda mais a imagem do país. Por falar nisso, ninguém sabe ao certo o que a doutora tem feito estes últimos vinte anos. Além da saudação à mandioca e ao ET de Varginha, a memória coletiva nacional não guardou lembranças imperecíveis de sua passagem pelas altas esferas.

Em vista da viagem, ela solicitou ao Planalto que lhe fossem concedidos três assessores ‒ pagos com nosso dinheiro, naturalmente. O pedido foi acolhido. Assim, estamos nós todos financiando o alegre giro turístico da antiga presidente e de seus esforçados companheiros. Segundo a revista Época, ela pretende espichar a vilegiatura por 12 dias, entre Finlândia e Rússia. Rancorosa, continuará insistindo, em palestras diversas, na demolição das instituições do país.

Ao final do passeio, madame terá perdido mais uma vez. Não conseguirá ser reintegrada na presidência nem terá convencido finlandeses ou russos, quem têm outras fontes de informação além da fala confusa da palestrante. Aliás, nós outros, na qualidade de financiadores do giro, também teremos perdido. Pagaremos para dar à doutora a ocasião de admirar as cores deste começo de outono naquela região de floresta boreal.

Já na primeira palestra, proferida na Universidade de Helsinque, madame asseverou que o Lula estará na eleição de 2018 «vivo ou morto». Taí afirmação que, em matéria de surrealismo, rivaliza com a saudação à mandioca. Disse mais a ilustre palestrante. Assegurou que o Lula «sempre estará presente porque ele não é mais uma pessoa: já é um projeto».

Quem não há de ter apreciado é o próprio Lula. Ao dizer que o demiurgo, mesmo morto, pode participar de uma eleição por já se ter transformado em projeto, a doutora não faz um favor a seu criador. Admite, nas entrelinhas, que, ainda que esteja detrás das grades acolhedoras de Curitiba, nosso guia participará ‒ em espírito ‒ da eleição. Com amigos assim, o ex-presidente não precisa de inimigos.

Resumo da ópera: segundo a doutora, o projeto lulista continuará assombrando a próxima eleição. A candidatura do torneiro mecânico, na ótica de madame, não é indispensável. Qualquer um que encarne o suposto projeto serve. Te esconjuro!

Só fico com pena dos encarregados de traduzir o dialeto em que a doutora exprime seu pensamento confuso. Pra traduzir, é obrigatório ter entendido. Nós não entendemos, e intérpretes estão no mesmo barco. Que mensagem estarão passando a atônitos finlandeses e russos?

À míngua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Hoje minha alma acordou nublada. Uma sensação vaga de desconforto aqui, uma espécie de insatisfação ali, um certo desalento acolá.

Preocupada com tanta apatia, perguntei a ela: “O que está acontecendo com você?”

Ela respondeu num muxoxo: “Nada…”

“Como assim? Estou vendo que você está muda, murcha, acabrunhada”, insisti.

“Pois é.… parece que estou anestesiada…. Será que você não percebe que a causa do meu mal-estar é exatamente o fato de que não estou sentindo nada?”

A resposta me chocou. Num exame rápido, constatei que ela estava dizendo a verdade. Nada parecia ter a força de tocá-la, afetá-la, sensibilizá-la. Minha mente começou a divagar, tentando ajudá-la a identificar o momento em que ela perdeu o rumo e se deixou cobrir por uma grossa camada de indiferença. De onde vinha esse anestesiamento emocional?

Até ontem, ponderei, meu cérebro estava febril, correndo alucinado de um lado para outro, tentando estabelecer novas conexões, como nunca havia ousado antes. Eu estava até me sentindo orgulhosa desse arroubo juvenil tardio. Mas, pensando bem, havia algo mais no fundo da consciência que me incomodava. A sensação, recordei, era a de que não havia tempo a perder.

A taquicardia, a sensação de urgência e a inegável voracidade da procura bem podiam ser sinais de que a energia elétrica estava se esgotando em todos os meus circuitos cerebrais. Talvez, no desespero de chegar a algum lugar antes que o Alzheimer me pegasse, eu inadvertidamente tenha consumido toda a reserva de oxigênio disponível.

Mas, se isso era verdade, me perguntei, onde encontrar novos fornecedores desse combustível? A resposta explodiu como uma bomba em meu peito. Na troca com outras pessoas! Era dessa falta que tanto minha cabeça quanto minha alma se ressentiam, afinal.

Fez-se subitamente luz. Eu tinha passado as últimas semanas acionando todo mundo que se dispusesse a dialogar comigo sem compromisso, a pensar junto. Poucas, muito poucas pessoas reagiram bem ao convite. A imensa maioria simplesmente preferiu ignorar a solicitação. Sabe como é, o trabalho, o cuidado com a família e os imprevistos tomavam todo seu tempo.

Passei a procurar no mundo virtual algum estímulo minimamente personalizado que tivesse o condão de me retirar daquele tédio existencial. Tudo o que encontrei foram respostas prontas e genéricas, típicas de manual de autoajuda. Nenhum sinal de vida humana inteligente realmente interessada em indagar, especificar, relativizar, contraditar ou acrescentar ângulos pessoais para as minhas questões. Era como morrer de fome em meio a um festim pantagruélico. Tanto alimento para o pensamento e nenhum específico para o tipo de satisfação que minha alma buscava.

Lembrei da tese de um estudioso das conexões corpo-mente que dizia que a psique humana é como uma sanfona. Para produzir sons harmônicos, ela precisa ser capaz de se expandir e contrair totalmente, abrindo-se de forma igual para os dois lados. Se a vareta de um dos lados do fole está quebrada, já não é possível a plena expressão dos sons do lado oposto.

Em outras palavras, se a gente se recusa a vivenciar a dor, torna-se, sem querer, inapto para experimentar alegria. Se tememos ser tomados cegamente pelo rancor ou pela raiva, não conseguimos mais nos deixar inundar pelo sentimento de ternura. Talvez fosse exatamente isso o que os gregos queriam dizer quando afirmavam que só se conhece os sabores por seus opostos. Difícil de aceitar, mas só quem já provou do amargo pode conhecer o que é doce.

Seja como for, ainda me parecia que o que estava acontecendo com minha alma não era, em definitivo, a falta de variedade, de contraste. Ao contrário, lembrava algo mais próximo ao cansaço com tanto estica-e-puxa de suas fibras. Algo parecido com a sensação de déjà-vu diante de tantas manifestações de extremismo, passionalidade. Mais propriamente, era algo como uma vontade de se recolher, de passar desapercebida, de não incomodar.

Para quem ainda não chegou lá, eu explico. Na velhice, não é nada raro a gente se sentir como uma caixa colocada no meio da sala da casa de outras pessoas, que atrapalha a livre circulação dos moradores. E, como ninguém se preocupa em retirá-la do caminho, a gente vai acumulando pó. A sensação de não-pertencimento ao ambiente começa a causar deformações profundas na estrutura da caixa e, finalmente, a incapacidade de sentir prazer se instala.

Sem sombra de dúvida, concluo, minha alma está de volta ao limbo. Como dizia um amigo, já não importa se eu estou certa e o mundo errado, ou se é o contrário. Se sou minoria, sou eu quem tem de mudar. Alguém aí para me jogar uma corda redentora?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.