José Horta Manzano (*)
Um país cujo povo dá à seleção de futebol importância maior do que dá a outras prioridades gritantes não tem o direito de crescer.
Não foi investindo em futebol que a Alemanha se tornou país de Primeiro Mundo. Sua prioridade foi e continua sendo o investimento em educação básica. Isso é válido não só para a Alemanha, mas também para todos os países desenvolvidos. Sem exceção.
O povo brasileiro, que gasta seu tempo e seu esforço a lamentar-se por uma equipe esportiva, não merece prosperar. O que faz um país crescer é estudo, trabalho, honestidade e persistência.
Que pensar de um povo que que torce pra chegar a sexta e odeia as segundas? Que tenta levar vantagem em tudo? Que valoriza a improvisação em detrimento do planejamento? Que dá mais valor à embalagem que ao conteúdo?
Muitos dos que idolatram jogadores de futebol são cidadãos que nunca arregaçaram as mangas nem se esforçaram para melhorar de vida. Daí dependerem de ídolos pré-fabricados para compensar suas próprias frustrações.
Na medida que trabalharmos, estudarmos e lutarmos por dias melhores, teremos grandes alegrias já em 2018, independentemente da colocação da Seleção na Copa da Rússia. Uma eventual vitória não será mais que um complemento e não a razão de tudo ― única chance de o povo alcançar felicidade.
Viva o povo brasileiro e danem-se a Seleção e a Copa! Que sumam com a Fifa. Alegria do povo não é conquista de campeonatos. É vida digna e comida na mesa.
(*) Este texto, aqui reavaliado e reformatado, baseia-se num comentário assinado por Claudio de Castro, inserido no site Fenatracoop.
José Horta Manzano
O selecionado brasileiro de futebol foi derrotado pela equipe nacional alemã. O fato, em si, não tem nada de extraordinário. Espantosa é a amplidão do marcador. Que fazer? São coisas da vida.
Os fatos têm a importância que lhes atribuímos. Os atributos que tenho lido e ouvido ― ligados ao jogo deste 8 de julho ― são terríveis. Desonra, fracasso, desgraça, tragédia, debacle.
Não exageremos. Cabeça fria, minha gente. Daqui a alguns dias, acaba a «Copa das copas». Os jogadores voltarão para a Europa, autoabsolvidos, felizes com seus salários milionários. Para o povo brasileiro, ficarão os problemas e… as contas a pagar.
Aqui abaixo vai um elenco dos substantivos exacerbados com que o episódio foi descrito.
Lástima? Lástima é conceder habeas corpus a cartola da Fifa, preso por ter-se locupletado. Lástima é não se dar conta de que, solto, o acusado pode destruir provas e forjar álibi.
Decadência? Decadência tem sofrido a indústria brasileira desde que nossos ingênuos dirigentes permitiram que a indústria chinesa estrangulasse, pouco a pouco, a nossa.
Desonra? Desonra é constatar que, em pleno século 21, nosso País ainda tem hordas de analfabetos.
Extermínio? Extermínio é o que continua sendo praticado contra nossas florestas em plena era de monitoramento em tempo real por satélite. Habeas corpus não vale em caso de queimadas.
Vergonha? Vergonha é figurar na lista mundial dos paraísos da prostituição barata ― característica de um povo indigente.
Destruição? Destruição é o que a disseminação das drogas causa na população ― jovens e velhos ― nas barbas de autoridades coniventes.
Fracasso? Fracasso é o de uma política de assentamentos que, decorridas décadas, ainda não logrou satisfazer às necessidades dos sem-terra.
Fiasco? Fiasco é o resultado pífio da Instrução Pública.
Desgraça? Desgraça é constatar que, cinco séculos após o descobrimento, ainda perdura o sistema de capitanias hereditárias no jogo político do País.
Baque? Baque é ver jogadores brasileiros milionários, «ídolos» de um país sem heróis, chorando feito criança que perdeu o brinquedo. Alguém já imaginou jogador alemão chorar porque perdeu um jogo?
Calamidade? Calamidade é o crônico abandono reservado à Saúde Pública, da qual depende a esmagadora maioria de brasileiros.
Horror? Horror é o que sentimos quando a Fifa ― uma multinacional de características mafiosas ― consegue, sem esforço, impor sua vontade sobre nossos representantes e mudar nossas leis.
Derrota? Derrotas sucessivas são as que tem sofrido a diplomacia brasileira, outrora respeitada. As más companhias têm influenciado nossos inexperientes (e inescrupulosos) medalhões.
Vexame? Vexame é constatar, ano após ano, que a classificação do Brasil no índice Pisa não dá sinais de melhora.
Estrago? Estrago sentimos nós quando temos notícia de que nenhuma universidade brasileira se classifica entre as duzentas melhores do mundo. Até a USP perdeu sua posição.
Prostração? Prostração é o que sentem os cidadãos bem-intencionados quando se dão conta de que o País vem sendo governado por marqueteiros baseados em slogans.
Abatimento? Abatimento sentimos nós, cidadãos de bem, obrigados a viver enjaulados enquanto bandidos passeiam livres, leves e soltos.
Falência? Falência econômica é o fim garantido, a continuarmos seguindo o receituário da contabilidade dita “criativa”, feita para mascarar realidade vergonhosa.
Flagelo? Flagelo é o tratamento que nossas autoridades maiores vêm impingindo a nossos irmãos nordestinos, ludibriados com a quimera da bifurcação do Rio São Francisco.
Desintegração? Desintegração é o retrato do Brasil atual ― desintegração avançada do tecido social.
Drama? Drama é a ingenuidade do bom povo brasileiro. Apoiados nessa candura, os figurões atuais têm ampla chance de se reeleger. A má gestão do país periga, assim, se eternizar.
Declínio? Declínio é o que se constata ao ouvir um estádio inteiro proferindo insultos de baixo calão. É ver o povo substituindo o voto pelo berro, numa demonstração de declínio civilizatório.
Bancarrota? Bancarrota é o fim do caminho. Segundo abalizados especialistas, a continuar insistindo no paradigma econômico perigoso em que nos metemos, perigamos virar uma Argentina ou, pior, uma Venezuela.
Desastre? Desastre é amestrar um povo e incentivá-lo a enxergar o futebol como valor máximo, como glória maior da nação. Esse vezo pode até funcionar em tempos de bem-aventurança, mas o risco de colapso repentino e brutal é imenso. Foi o que aconteceu.
Catástrofe? Catástrofe é o fato de um povo cordial mas anestesiado ter aprovado ― e aplaudido até ― a dilapidação do erário para garantir o sucesso efêmero do futebol nacional. Desperdício cometido em detrimento de gritantes prioridades nacionais relegadas ao fim da fila.
Ruína? Ruína é a situação do transporte urbano num país como o nosso, onde a maior parte da população vive ou trabalha em grandes cidades.
Malogro? Malogro é o resultado de políticas assistencialistas que não diminuíram o fosso entre os que têm mais e os que têm menos. Malogrados nos sentimos em saber que o Brasil permanece entre os países mais desiguais.
Desgosto? Desgosto é o que se sente ao constatar que futebol, em nosso país, passa à frente do trabalho e das responsabilidades individuais. A prova? Os feriados decretados nos dias de jogo.
Tragédia? Tragédia é ter certeza de que, passadas as eleições de outubro, teremos mais do mesmo. O risco é grande de que os que lá estão sejam reeleitos e se sintam livres para continuar sua obra de desconstrução do Brasil.
«Se é verdadeira a informação segundo a qual a doutora Dilma pretende anunciar o nome do substituto de Joaquim Barbosa no STF depois da eleição de outubro, há alguém com parafuso solto no Planalto.
É seu direito preenchê-la logo. Caso não seja reeleita, ofenderia o país se nomeasse um ministro do Supremo em fim de governo, a caminho de casa.»
Elio Gaspari, em sua coluna na Folha de São Paulo de 6 jul° 2014.
José Horta Manzano
Você sabia?
Pode parecer contrassenso, mas, a julgar pela elasticidade do nome do país, a Alemanha ganha de longe do Brasil. Como assim? Vou mostrar.
Tomei trinta das línguas mais difundidas no mundo. Tive de renunciar a línguas cuja escrita não me é familiar como chinês, hindi, árabe. As que sobraram são, assim mesmo, significativas.
Examinei, em cada uma delas, a palavra que usam para designar nosso País. E conferi também como chamam a Alemanha. O resultado é surpreendente.
É relativamente fácil reconhecer o nome do Brasil nas trinta línguas, basta um pouco de boa vontade. Quanto à Alemanha, parece camaleão: cada um chama de um jeito.
Veja o nome de nosso País mundo afora:
Português Brasil
Alemão Brasilien
Dinamarquês Brasilien
Lituano Brazilija
Islandês Brazil
Estoniano Brasiilia
Francês Brésil
Galês Brasil
Turco Brezilya
Inglês Brazil
Grego Βραζιλία (Brasilía)
Indonésio Brazil
Irlandês An Bhrasaíl
Somali Brazil
Sérvio Бразил (Brasil)
Croata Brazil
Russo Бразилия (Brasilia)
Eslovaco Brazília
Ucraniano Бразилія (Brasilia)
Polonês Brazylia
Holandês Brazilië
Esloveno Brazilija
Italiano Brasile
Húngaro Brazília
Finlandês Brasilia
Espanhol Brasil
Haussa Brazil
Letão Brazīlija
Maori Brazil
Búlgaro Бразилия (Brasilia)
E agora veja o nome da Alemanha:
Português Alemanha
Alemão Deutschland
Dinamarquês Tyskland
Lituano Vokietija
Islandês Þýskaland
Estoniano Saksamaa
Francês Allemagne
Galês yr Almaen
Turco Almanya
Inglês Germany
Grego Γερμανία (Germanía)
Indonésio Jerman
Irlandês An Ghearmáin
Somali Jarmal
Sérvio Немачка (Niematchka)
Croata Njemačka (Niematchka)
Russo Германия (Germania)
Eslovaco Nemecko
Ucraniano Німеччина (Nimêtchina)
Polonês Niemcy
Holandês Duitsland
Esloveno Nemčija
Italiano Germania
Húngaro Németország
Finlandês Saksa
Espanhol Alemania
Haussa Jamus
Letão Vācija
Maori Tiamana
Búlgaro Германия (Germania)
No jogo marcado para hoje à tarde, vamos torcer para que a Seleção mostre a mesma maleabilidade que o adversário ostenta no nome de seu país.
Quem sabe até, fazendo das tripas coração, consegue superar os males que a afligem? Vamos ser positivos!
«O futebol brasileiro reproduz, desgraçadamente, o modelo comercial do país: exporta matéria-prima (no caso, jogadores de futebol) e importa produtos acabados ― e bem-acabados ― como são os torneios nacionais europeus, transmitidos em massa pela televisão brasileira.»
Clóvis Rossi, colunista da Folha de São Paulo, 6 jul° 2014, demonstrando que o complexo de vira-lata nacional aflora também no futebol.
Aos que creem na vitória do bem contra o mal, eis aqui o manual.
Lembre aos políticos que eles também podem ser vítimas:
de uma queda – pior que a de viaduto feito às pressas;
de falta de socorro médico porque não há hospitais de qualidade;
de bala perdida no meio de um arrastão;
de depredação, sem aviso prévio, do local onde se encontram;
de sede provocada pela falta de planejamento das autoridades medíocres que permitiram a transformação de rios em esgotos a céu aberto.
Lembre aos juízes que eles também podem ser vítimas de assaltos, de invasões e de violências – incluindo outros arbítrios praticados pelo Estado. Se continuarem julgando contra a letra da Lei, eles deixarão a seus descendentes uma terra de ninguém, zona liberada ao apetite do poderoso de então.
Lembre aos jovens:
que, se emigrarem, serão sempre estrangeiros em terra onde não têm raízes;
que tatuagem não sai;
que o álcool e as drogas os ajudam a morrer mais cedo.
Lembre aos banqueiros que são apenas parasitas: lucram emprestando, a juros altos e taxas absurdas, o dinheiro dos outros – não o deles.
Lembrem-se todos: os mais opulentos, corruptos e ladrões servirão de pasto a regimes justos, idealistas, não corrompíveis, que façam respeitar a autoridade.
«No Brasil, até o Pelé faz parte da elite branca!»
Uma amiga minha depois de ler a crônica do João Ubaldo Ribeiro publicada no Estadão de 6 jul° 2014.
«‘Vai ser uma festa‘, anunciou Marta Suplicy, ministra da Cultura, no lançamento do programa Brasil de Todas as Telas, que, segundo o governo, destinará R$ 1,2 bilhão ao setor audiovisual. Trata-se de uma peça publicitária de campanha eleitoral, evidenciando que o Planalto governa com slogans.»
Editorial do Estadão, 6 jul° 2014.
«O horário dito gratuito, como se sabe, já é devidamente financiado pelo público mediante a renúncia fiscal a que têm direito as empresas de comunicação pela cessão do espaço.
(…) Os programas dos candidatos à reeleição também acabam sendo em parte pagos pelo contribuinte. Isso sem que ele seja informado nem que perceba sua condição de doador compulsório.»
Dora Kramer, em sua coluna do Estadão de 6 jul° 2014.
José Horta Manzano
Jornal peruano El Comercio
«Brasil fue campeón sin Pelé en 1962: ¿Podrá serlo sin Neymar?»
«O Brasil foi campeão sem Pelé em 1962. Poderá ser de novo sem Neymar?»
Jornal alemão Die Welt
«Brasilien muss vor uns zittern, nicht umgekehrt»
«O Brasil tem de tremer por causa de nós, não o contrário»
Jornal italiano Blasting News
«Brasile-Germania: i mostri del calcio mondiale»
«Brasil x Alemanha: os monstros do futebol mundial»
Jornal espanhol ABC
«Brasil-Colombia, el partido más visto desde la eliminación de España»
«Brasil x Colombia, o jogo mais visto desde a eliminação da Espanha»
Jornal alemão RP-Online
«Voodoo-Priester verflucht Deutschland»
«Feiticeiro vodu roga praga contra a Alemanha»
Jornal italiano La Repubblica
«Un Brasile che quasi ‘somiglia’ al… Brasile»
«Um Brasil que quase ‘parece’ com… o Brasil»
Jornal francês Sports
«Le Brésil a mal au coeur»
«O Brasil com dor no coração»
Jornal alemão T-Online
«Löws Plan geht auf – Nun gegen “ein gesamtes Land”»
«O plano de Löw funciona. Agora contra “um país inteiro”»
Dito popular francês
«Le football est un sport qui se joue à onze. Et à la fin c’est les allemands qui gagnent.»
«Futebol é esporte de onze jogadores. E, no final, são os alemães que ganham.»
«Quem ama o feio é porque o bonito não aparece.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
José Horta Manzano
Tempos houve, faz bem mais de 150 anos, em que os habitantes da acanhada vila de São Paulo de Piratininga mandavam seus escravos ou iam pessoalmente visitar o Zuniga. Faziam isso todos os dias. Eram outros tempos, era um mundo em que a luta diária pela existência não deixava margem para distrações. De resto, não havia estádios nem futebol.
Água encanada não existia nem em sonho. Para lavar roupa ou simplesmente para aprovisionar-se em água potável, os paulistanos se valiam de riachos, fontes, alagados ou tanques naturais. Era o caso do Tanque do Zuniga.
Situado em terras de um certo Manuel Zuniga, era uma pequena lagoa natural. Escravas frequentavam o lugar onde enchiam seus cântaros e lavavam roupa. Ficava na região onde hoje está o Largo do Paiçandu, entre a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e o edifício do Correio Central.
O tanque sumiu com a drenagem da região, entre 1850 e 1860. O nome Zuniga, que havia desaparecido da memória dos paulistanos, reaparece agora de repente, sob a forma de um desastrado jogador colombiano de futebol, autor de um verdadeiro atentado contra o astro maior da Seleção.
Zuniga é nome ibérico, originário do País Basco. No original, a pronúncia é proparoxítona ― Zúnhiga. Seja qual for a história do tanque, o nome há de ser lembrado como triste capítulo da história do futebol.
Exatamente como o nome do goleiro alemão Harald Schumacher, autor de uma violenta «voadora» que, na Copa de 1982 , demoliu o jogador francês Patrick Battiston, que teve de ser retirado desacordado. Hoje, 32 anos depois do que ocorreu aquele dia em Sevilha, os franceses ainda lamentam o episódio que contribuiu para tirá-los da Copa.
Se você quiser saber ou relembrar como foi a “voadora” de 1982, clique aqui.
José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jul° 2014
Teve Copa, sim, senhores. Contradizendo pessimistas, o megaevento fez sucesso estrondoso. Como escrevo antes das quartas de final, não sei se a Seleção terá avançado ou tropeçado. De todo modo, o que interessa mesmo são os efeitos colaterais e o legado. Nossas autoridades, quando aceitaram organizar o campeonato, tinham objetivo ambicioso e múltiplo.
No plano interno, o torneio congregaria duzentos milhões em ação num só brado: «pra frente, Brasil, salve a Seleção». Seria a prova maior da concórdia e do contentamento do povo brasileiro ― a consagração lógica e brilhante destes anos de obstinado marketing. A magnificência do espetáculo havia de satisfazer aos apetites mais exigentes. O crédito de simpatia do mandarinato só poderia crescer.
No plano externo, a fabulosa exposição midiática seria o vetor da afirmação do Brasil-potência. Alto e bom som, ecoaria no planeta a prova da inserção definitiva de nosso país no restrito clube do Primeiro Mundo. Membro de carimbo e carteirinha, faz favor!
Teve Copa, sim, senhores. E foi um sucesso! Por irrisórios 25 bilhões, temos agora uma dúzia de soberbos estádios de futebol, dois deles estrategicamente plantados na Amazônia Legal. É inacreditável relembrar que o País tinha chegado ao século 21 sem essas imprescindíveis «arenas». O espírito visionário de nossos dirigentes preencheu a lacuna.
É verdade que a Copa poderia ter servido de incentivo ao aprendizado de línguas. Afinal, centenas de milhares de turistas forasteiros foram recebidos por um povo monoglota. É pena ninguém ter pensado em planejar esse detalhe. Tem nada, não. Fica pra próxima. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo.
É verdade que nosso padrão de Instrução Pública continua baixo. Nos grotões, o ensino é ministrado em condições africanas. Mas isso é ninharia. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo. Dispositivo impressionante foi preparado para cuidar da saúde de atletas. Equipes médicas paramentadas, macas padrão Fifa, helicópteros para emergências. Os esportistas socorridos encontraram atendimento de primeira linha, rápido, eficaz.
É verdade que nossos hospitais públicos ainda não atingiram tal grau de excelência. Mas isso é mixaria, problema antigo que pode esperar. Não dá pra resolver tudo ao mesmo tempo.
Até linhas aéreas se esforçaram. Não houve greve. Atrasos estiveram abaixo do habitual. Atletas boquiabertos cruzaram os céus sem um pio de reclamação.

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br
É verdade que o transporte urbano dos brasileiros comuns continua caótico, caro, raro, desconfortável, lento, inseguro. Diante da grandiosidade da organização da Copa, porém, isso é bagatela. Metrô? Pura babaquice.
Last but not least, a projeção do País no exterior. Nas muitas décadas que tenho vivido expatriado, posso garantir que jamais o Brasil tinha sido alvo de exposição midiática de tal magnitude.
Até nos rincões da Mongólia e da Birmânia, sabe-se hoje que nosso país tem estádios magníficos. Sabe-se também que nossa terra tem sol e calor. Muitos se arrependem de não ter planejado uma viagem ao Brasil durante a Copa. Agora é tarde.
Visitar o País depois? Visitar o quê? A novidade mostrada foram só os estádios. Fora isso, a exposição midiática serviu para reforçar conhecidos clichês. Repórteres repisaram os horrores de sempre: prisões superlotadas, violência urbana, desigualdade social, gente hospitalizada em corredores, prostituição, carestia. Coisa de frear os ímpetos do turista ajuizado.
Uma detalhe pouco divulgado: teve Copa, sim, mas não para todos os brasileiros. Cerca de um milhão de conterrâneos ainda não dispõem de energia elétrica. Como no século 19, vivem nas trevas ― no próprio e no figurado.
No exterior, muitos me perguntam por que a presidente do Brasil não assiste aos jogos nem mesmo quando chefes de Estado estrangeiros estão presentes. Nessas horas, desconverso.
Na conta de perdas e danos, o resultado da «Copa das Copas» terá sido neutro. O brasileiro agora tem estádios esplêndidos, mas as mazelas do dia a dia continuam como dantes. O resto do mundo encharcou-se de ouvir e ler sobre o Brasil, mas nossa imagem não mudou: Carnaval, malemolência, criminalidade, anarquia perduram no imaginário forasteiro. Nossa ineficiência ficou patente.
Perdemos excepcional ocasião de melhorar a vida dos habitantes e de soerguer a imagem do Brasil. Fica para quando der. E vamos torcer para que, na próxima Copa, a Fifa nos conceda os segundos que faltam para a execução decente do Hino Nacional. O povo brasileiro, desde já, agradece.
João Eichbaum (*)
Suponhamos o seguinte: um marginal com 18 anos de idade, de tocaia na saída do colégio, rapta uma menina. Leva-a consigo, sem fazer qualquer exigência de resgate, e a mantém em seu poder por longo tempo. Tenta seduzi-la, mas ela resiste, não se entrega. Vencido pela obstinação da garota, o raptor resolve se descartar dela. Então, vende-a a uma rede de prostituição. Da menina, levada para outro Estado da Federação, a família nunca mais terá notícia.
A pena do raptor não chegará a oito anos, o que lhe dá direito ao regime semiaberto. De acordo com a lei, o condenado ao regime semiaberto cumprirá pena em colônia penal agrícola ou industrial. Ou melhor, cumpriria. Desde a semana passada, por decisão do STF afinada pelo diapasão do STJ e de outros juízos e tribunais, o preso condenado ao semiaberto terá o direito humano de levar vida muito melhor do que a de suas vítimas. Desde que consiga emprego, nem que seja de faz de conta, ele só dormirá na prisão.
À desgraça da menina, que se perdeu para sempre, poderá o destino acrescentar mais um script infame: seus pais e familiares nunca mais a verão, mas o raptor, que foi causa da desgraça, poderá cruzar com eles todos os dias, sorridente e impune.
Essa torpeza foi incrustada na axiologia jurídica sob inspiração do ministro Barroso. Com seu ar evangélico, ele e mais oito acompanhantes estenderam a graça descolada para José Dirceu a todos os malfeitores do país condenados a menos de 8 anos de prisão.
Neste país, não se julga. O ato de julgar implica juízo de valor a partir de duas premissas: a da norma, que é a premissa maior, e a do fato, que é a premissa menor. Entenda-se por norma a lei, o regulamento, a portaria, em suma, qualquer ato jurídico coercivo. Se o ato coercivo for ignorado, não existe premissa e, não existindo premissa, julgamento não há.
Assim, a jurisprudência que ignora a ordem legal do cumprimento de um sexto da pena para a progressão do regime ― e o trabalho externo implica progressão de regime ― não merece o nome de julgamento. Não passa de uma concessão gratuita de benefício, contaminada pela política ou sublimada pela caridade. Em nenhuma dessas hipóteses se vislumbra a obra de juiz autêntico, porque o verdadeiro juiz apenas julga, não faz caridade, nem política.
Agora é oficial: à omissão do Executivo, acrescenta-se a do Judiciário. Barroso juntou-se aos juízes que soltam bandidos por falta de vagas e de condições padrão Fifa nos presídios. “Para não sobrecarregar o sistema penitenciário”, ele mandou soltar os malfeitores. Quer dizer, é maior o direito destes do que o dever dos governantes. A sociedade que se lixe.
Nesta hora soam como rojões de advertência as palavras do advogado e escritor gaúcho Ricardo Giuliani: “o Judiciário só existe para si próprio e não para a sociedade”.
(*) João Eichbaum é advogado e escritor.
Edita o site joaoeichbaum.blogspot.com.br
Sebastião Nery (*)
Era cabo do Palácio Bandeirantes, sede do governo paulista, quando Adhemar era governador. Todo dia 30 do mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado ― muito bem fechado ― para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grosso, fechado, bem fechado.
Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã cedo, bem cedo, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grosso. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo seu dever.
E o segredo era o preço primeiro do dever. Um dia, o cabo não se conteve. Abriu pela ponta, discretamente, o pacote grosso. Era dinheiro, muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão, escrito à mão: “― 50 contos no bicho que der.” O cabo não resistiu. Pegou uma caneta num botequim e emendou: “― 50 contos no bicho que der. Aliás, 55”.
Nunca mais lhe deram o envelope fino e muito menos o pacote grosso. Foi demitido. Bons tempos aqueles em que a corrupção ia de envelope fino e voltava de pacote grosso. O caixa das maracutaias era desovado no jogo do bicho.
Depois que o PT inventou o “Presidencialismo de Corrupção”, criado por Lula e ampliado por Dilma, a rota das negociatas passa pelos cofres insaciáveis das empreiteiras, é garantido pelos gorduchos favores do BNDES e sangra as gavetas amanteigadas do Tesouro Nacional.
Lula chegou como o guerreiro dos sindicatos, Dilma como a mãe do PAC. Em dez anos os dois tiraram a máscara. O guerreiro virou lobista de negócios dos ditadores africanos e de Cuba. E o PAC da Dilma empacou. O “Presidencialismo de Corrupção” é a maior fonte de negociatas do país. Nunca houve coisa igual, nem no Império ou na República Velha. Corrupção sempre houve. O Poder é uma instituição voraz. Mas nos níveis em que o PT a instalou, aberta, escancarada, escrachada, jamais houve igual.
A desculpa é que a “base aliada” é insaciável, que quase 30 partidecos são incontroláveis, que, com mais de 30 ministérios, ninguém administra nada. Ora, quem alimenta, engorda, sova essa maquina infernal? Era Lula, hoje é Dilma. Os dois são a alma do PT. Vivem dele. Sangue do sangue.
Chegou a campanha eleitoral, o PT saltou no pântano. Vale tudo. São os “blogs de assalto”, os “colunistas de aluguel”. É a guerra suja. E o Palácio do Planalto comprando tudo com dinheiro público.
Já não bastam os asquerosos convescotes vespertinos em que a presidente da República distribui dinheiro e cargos aos partidos como banana a macacos. E Lula diz a Dilma, debochando, que senadores e deputados “não se dão ao respeito”.
(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.
http://www.sebastiaonery.com.br/