Bilionários perdidos

José Horta Manzano

Com a voz trêmula de pesar, a mídia nacional anunciou ontem que, em um ano, o Brasil perdeu 23 bilionários. Meu Deus, que tristeza! Fiquei decepcionado e senti muita pena. A contabilidade é da revista Forbes.

É surpreendente constatar a que ponto a riqueza desperta curiosidade e interesse. Desde 1929, faz sucesso uma revista chamada Fortune que, como indica o nome, dirige holofotes para milionários. Em compensação, não se tem notícia da existência de nenhuma publicação chamada Misery. É compreensível. Fosse lançada, não passaria do primeiro número. No fundo, miséria não interessa a ninguém.

Banco 5Voltando ao problema dos bilionários «perdidos», é interessante observar como, sem se dar conta, a imprensa considera esses personagens como parte integrante do patrimônio nacional. Dizer que «o Brasil perdeu», francamente, é patético. Como até porta blindada de banco suíço sabe, dinheiro não tem cheiro nem pátria. O Brasil não ganhou nem perdeu nada, ora essa.

Jorge Paulo Lemann & esposa

Jorge Paulo Lemann & esposa

A maior fortuna
Segundo a revista americana, senhor Jorge Paulo Lemann aparece na 19ª posição. Nossa mídia anuncia, com indisfarçável orgulho, que ele é o brasileiro mais rico. Ainda que não se possa ter certeza, vamos dar de barato que seja realmente o mais abonado.

O que nossa mídia desconhece é que esse senhor, que se mudou definitivamente para a Suíça há dezessete anos, já nasceu com dupla cidadania. Filho de imigrante suíço, nasceu brasileiro pela lei do solo e suíço pela lei do sangue. Como se pode imaginar, a mídia suíça o inclui entre os ricaços do país. Na lista helvética, ocupa o terceiro lugar.

Fortunas ocultas
Conforme se vão desdobrando os capítulos da Operação Lava a Jato, bilionários desconhecidos vão sendo revelados. Já apareceu auxiliar do vice do sub devolvendo centenas de milhões pra salvar a pele. A gente fica aqui a cismar quantos mais haverá e… quantos bilhões possuirão.

Banco 2Fica a desagradável impressão de que a lista da Forbes mostra apenas pequena fração dos brasileiros afortunados, só a ponta do iceberg. Muitos outros deve haver. E hão de estar fazendo novena pra que ninguém descubra.

Além da fronteira ‒ 2

José Horta Manzano

Tsunami 2Quando foi deflagrada a Operação Lava a Jato, muitos imaginaram que não passaria de solavanco passageiro, uma marolinha. Presumiu-se que seria respeitada a arraigada tradição nacional de inocentar criminosos de colarinho branco.

Para espanto do cidadão comum ‒ e para «estarrecimento» de figurões, não foi o que aconteceu. Gente graúda começou a ser molestada. Pencas de acusados, alguns de fina estirpe, foram parar no xadrez. Para angústia de muitos, a marolinha converteu-se em tsunami.

O território nacional é vasto. O problema é que, assim como fronteiras não detêm revoada de Aedes aegypti, tampouco barram tsunamis. Vagas ameaçadoras já estão transbordando.

O diário Perú21, um dos mais importantes do país vizinho, traz informação alarmante. O nome do presidente da república andina, Ollanta Humala, é citado nada menos que dez vezes en documentos exumados pela Lava a Jato.

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Seu nome aparece em investigação de irregularidades perpetradas em obras de infraestrutura de bilhões de dólares levadas a cabo no Peru pela brasileira Odebrecht. A suspeita é de que desvios tenham gerado propinas milionárias, distribuídas naquele país.

Embaraçado e inquieto, o presidente convocou, às 11h da noite, o embaixador do Brasil em Lima. A transcrição da conversa não foi publicada, mas tudo indica que señor Humala está à cata de esclarecimentos.

Tsunami 1O braço da PF brasileira, por mais longo que seja, não alcança além-fronteira. Portanto, o «japonês da Federal» não periga algemar o medalhão. Assim mesmo, pode-se apostar que, se as suspeitas forem investigadas como se deve, estará aberta uma caixinha de surpresas.

O Peru pode ser só o começo. Mais está por vir.

Castro em Paris

José Horta Manzano

Quando veio a público, a notícia da construção do porto de Mariel (Cuba), financiada pelo BNDES, levantou muita poeira. Afinal, o custo da obra atingia a cifra respeitável de um bilhão de dólares. Pior que isso, parte do investimento estava sendo feita a fundo perdido, ou seja, era um presente do Brasil. Frise-se que o verdadeiro financiador, o contribuinte brasileiro, nunca foi consultado.

À época, muitos denunciaram a impropriedade da ajuda. Com tantos problemas internos, não tinha cabimento destinar todos aqueles milhões ao desenvolvimento de um país estrangeiro em detrimento das incontáveis necessidades de nosso próprio povo.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Imaginou-se que a decisão do governo brasileiro só podia decorrer da simpatia de nossos dirigentes pelo regime dos bondosos irmãos Castro. O tempo passou, o assunto saiu de foco e tudo acabou ficando por isso mesmo.

Depois que a operação Lava a Jato revelou a cascata de escândalos que conhecemos todos, vale lançar um olhar atualizado ao caso do financiamento de Mariel. Não é descabido cogitar sobre o verdadeiro propósito do “presente” oferecido à ilha caribenha.

Se a Petrobrás, que fica ali na esquina, foi espoliada na surdina, quem garante que os milhões despachados à ilha distante não terão servido a finalidades menos confessáveis? Quem pode afiançar que a bolada não terá ido parar em cofres que nada têm a ver com o porto cubano? Fica no ar a pergunta. Um dia ‒ talvez nem demore muito ‒ saberemos a verdade.

François Hollande 9Señor Raúl Castro, primeiro-irmão e dirigente atual da República de Cuba está em Paris. É a primeira visita oficial de um presidente cubano à França desde que os Castros tomaram o poder, 55 anos atrás. O anúncio da abolição do embargo comercial aguçou o apetite de muita gente.

Se a intenção do Brasil, ao contribuir precocemente para o desenvolvimento da ilha, tivesse sido de estar entre os primeiros beneficiários da abertura que se anuncia, a manobra teria sido pouco eficaz. Cuba prefere, naturalmente, relacionar-se com quem tem mais dinheiro e melhor tecnologia. É natural.

No entanto, se a hipótese que levantei estiver correta, os que nos dirigem já terão recebido seu quinhão. Com isso, devem estar satisfeitos. Eles, com certeza. O Estado brasileiro, nem tanto.

Falam de nós – 17

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não é só no Brasil que as investigações de corrupção estão sendo avidamente acompanhadas pela plateia. Uns mais, outros menos, todos os países dão notícia do desenrolar de cada capítulo.

Interessante é notar que, no Brasil, o receio de arrumar encrenca vem impondo à mídia um certo recato na escolha do palavreado. Quando o santo nome de nosso guia está envolvido, calçam-se luvas e usam-se pinças para tratar do assunto.

Jornais preferem pôr verbos no condicional ‒ «teria feito», «haveria estado», «teria sido». Abusa-se de fórmulas como «supostamente», «hipoteticamente», «por suposição».

by Henriqe de Brito, caricaturista

by Henrique de Brito, caricaturista

Para relatar a mais recente encrenca em que nosso guia (& esposa) estão metidos, a imprensa nacional preferiu expressões do tipo «estão sendo investigados por envolvimento na compra de um apartamento».

Já a mídia internacional comporta-se diferentemente. Sem sentir a mesma pressão, costuma dar a notícia com palavras cruas, sem floreios e sem firulas. Dei um passeio pelas manchetes planetárias e deixo aqui o resultado da colheita.

Nenhum veículo fez rodeios em torno do assunto. Foram todos direto ao ponto. Dizem todos qual é a acusação pela qual o antigo presidente (& esposa) estão sendo investigados:

Interligne vertical 17aAlemão: Geldwäsche (lavagem de dinheiro)

Inglês: money-laundering (lavagem de dinheiro)

Italiano: lavaggio di denaro (lavagem de dinheiro)

Francês: blanchiment d’argent (branqueamento de dinheiro)

Espanhol: lavado de dinero (lavagem de dinheiro)

Turco: yolsuzlukla (corrupção).

Como se vê, dependendo de quem chama, o boi tem outro nome. Mas é sempre o mesmo boi.

A carapuça serviu

Medo 1José Horta Manzano

Às vezes a gente joga verde pra colher maduro. Falo daquelas insinuações que se lançam ao ar, como quem não quer nada, só pra ver o que acontece. Às vezes, tudo passa despercebido; outra vezes, atinge-se o alvo.

Com toda a pompa e todo o estrondo que o momento requer, a Polícia Federal disparou mais uma fase da operação de caça aos assaltantes de colarinho branco. Visava a pôr em pratos limpos o imbróglio que tem por núcleo um apartamento de alto luxo no Guarujá (SP).

Alguns cidadãos foram presos, outros levados a depor. Em nenhum momento, o nome de nosso guia foi mencionado ‒ nem entre os presos nem entre os convocados. Em princípio, o demiurgo nada tem a temer ‒ desde que não esteja ocultando algum esqueleto dentro do armário, naturalmente.

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

No entanto, a cúpula do Partido dos Trabalhadores está alvoroçada. Sem que o presidente de honra tenha sido acusado do que quer que seja, já anunciaram estar preparando ato para defendê-lo. Não faz sentido.

Devem defender-se aqueles que são acusados. Quem arquiteta defesa prévia, antes de qualquer acusação, mostra que tem algo a temer. O anúncio público de que defesa está sendo preparada mostra que a carapuça serviu.

O caça cassado

José Horta Manzano

O protótipo do caça francês Rafale fez o primeiro voo em 1991. Fabricado pelas indústrias Dassault, o modelo corresponde às exigências da aeronáutica militar francesa. Paris comprometeu-se a comprar 180 aparelhos, dos quais 142 já foram entregues.

Avião 6Sofisticado mas muito caro, o Rafale não foi um sucesso de vendas. Mais de vinte anos depois de lançado, nenhum país, além da França, tinha mostrado interesse. Eis senão quando, um Lula no auge da popularidade, a pouco mais de um ano de terminar o segundo mandato, faz anúncio estrondoso.

Contrariando os interesses dos que entendem do assunto ‒ as Forças Aéreas Brasileiras ‒, tomou a decisão pessoal de entabular negociação firme em vista de adquirir 36 exemplares. Para comemorar e oficializar o acordo, convidou Nicolas Sarkozy, então presidente da França, para assistir aos festejos do 7 de setembro. Estávamos em 2009.

A forte limonada servida no almoço há de ter deixado os dois presidentes eufóricos. Imprudentemente, deram o fechamento do negócio por favas contadas. Garantiram que o Brasil estava comprando os aviões franceses.

Lula e SarkozyO tempo passou, os dois presidentes terminaram o mandato, e o assunto morreu. A razão do malogro das discussões não ficou clara, deixando a cada um liberdade para imaginar o que bem entender.

Em 2015, para alegria do fabricante, o Egito encomendou 24 aparelhos. Meses mais tarde, o Catar também adquiriu duas dúzias. São pedidos firmes ‒ aliás, os três primeiros aparelhos já foram entregues ao país das pirâmides.

Interligne 18h

Monsieur François Hollande, atual presidente da França, está de visita oficial à Índia este fim de semana. A principal razão da viagem é o interesse demonstrado por Nova Delhi em adquirir 36 Rafales. Escaldados pelo fiasco quando das tratativas com o Brasil, franceses e indianos se abstêm de apregoar que o negócio está no papo.

Hollande IndiaQuando as negociações entre o Brasil e a França goraram, todos imaginaram que tivesse sido por razões técnicas ou ligadas à transferência de tecnologia. Hoje, desencadeada a Lava a Jato, sabemos que operações políticas envolvendo dinheiro gordo encerram mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia.

Assim, fica no ar a pergunta: «Por que é mesmo que deixamos de comprar os Rafales?». Que cada um imagine o que quiser.

Sem escala

José Horta Manzano

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro eram para ser a cereja em cima do bolo, a consagração do Estado Novo reencarnado. Deviam cobrir de louros a cabeça de nosso guia genial simbolizando o ápice de sua estupenda carreira. Deviam gravar, no mármore do panteão nacional, a memória imorredoura do admirável líder-mor.

Mas a vida é cruel. O Mensalão, o Petrolão, a Lava a Jato, o vexame dos 7 x 1, as delações, as condenações, o espectro da Papuda, a catástrofe econômica, a inflação paralisante, a fuga de cérebros, a humilhação imposta por agências de notação, a aproximação de Cuba com os EUA, a desaceleração da China contribuíram para o desmoronamento do projeto.

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Televisão Suíça ‒ captura de tela

As Olimpíadas passaram a segundo plano. A cereja que devia enfeitar o bolo está podre. O golpe de graça está sendo assestado pelo vírus Zika. Em todas as línguas, o mundo está sendo alertado para o perigo. A mídia internacional desaconselha fortemente toda visita à América do Sul, em especial ao Brasil. A advertência é imperativa para grávidas.

No Brasil, há quem pressinta que estamos em meio a uma década perdida. Guardando as devidas proporções, a situação atual chega a evocar um panorama que não se observava havia mais de um século.

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Na virada do século XIX para o século XX, o Rio de Janeiro era uma cidade suja, infestada de focos de doenças tropicais ‒ malária e febre amarela principalmente. Antes do saneamento orquestrado por Oswaldo Cruz e apoiado pelo presidente Rodrigues Alves, europeus evitavam visitar a cidade.

Revolta da Vacina, 1904

Revolta da Vacina, 1904

Companhias italianas de navegação tranquilizavam os passageiros ‒ imigrantes que se dirigiam à Argentina ‒ garantindo que a viagem seria direta, «senza scalo a Rio de Janeiro», sem escala no Rio.

Mais cedo ou mais tarde, a epidemia de febre zika há de ser refreada. A endemia de violência e criminalidade, infelizmente, ainda vai afugentar visitantes por algum tempo.

Alguns alertas:
Televisão Pública, Suíça
Sydney Morning Herald, Austrália
La Repubblica, Itália
Portal Yle, Suécia

Destino dramático

Cláudio Humberto (*)

Experimentam destino dramático os maiores empresários que prosperaram à sombra do Lula, de quem se fizeram amigos íntimos. Acabaram vitimados pelo famoso pé-frio do ex-presidente.

Lula caricatura 2Eike Batista, quem diria, antes considerado o oitavo mais rico do mundo, hoje foge de credores (e de oficiais de justiça) como o diabo, da cruz. Mas tem razões para comemorar: ao menos ele não foi preso.

O pecuarista José Carlos Bumlai, um dos homens mais ricos do Centro-Oeste, também teve destino trágico: está preso no âmbito da Lava a Jato.

André Esteves, banqueiro favorito de Lula, foi preso. Ganhou habeas corpus, mas é forte o risco de receber longa pena de cadeia.

Também acabaram na cadeia os empreiteiros favoritos da era do Lula, de quem se tinham tornado amigos: Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro (OAS).

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Na cueca

José Horta Manzano

Leio n’O Globo que a Polícia Rodoviária deteve dois ocupantes de um veículo que trafegava por estrada de rodagem federal. A notícia não esclarece se era contrôle de rotina ou sob denúncia. Fato é que, no porta-malas, havia três valises recheadas de dinheiro.

Ao cabo de minuciosa contagem, os policiais constataram que as valises continham quase quatro milhões de bolívares venezuelanos, quantia que, convertida ao câmbio oficial, equivale a 2,4 milhões de reais.

Dinheiro 3Pacotes de dinheiro venezuelano viajando em porta-malas no Estado de São Paulo? A descoberta de dólares, euros, ienes ou francos suíços caberia dentro do molde habitual. Moeda venezuelana em volume industrial não se encaixa nos parâmetros. A ninguém viria a ideia maluca de fazer poupança em bolívares, a moeda mais corrída pela inflação. A origem do dinheiral é pra lá de intrigante.

Se, entre os desdobramentos diários da Lava a Jato, ainda lhe sobrar tempo e disposição, a Polícia Federal tem bons motivos para investigar nos detalhes esse achado. Aliás, ninguém se espantaria se fosse descoberta ligação entre nossos atuais escândalos político-financeiros e as malas de dinheiro venezuelano.

Os ocupantes do automóvel alegaram que a bolada provinha da venda de empreendimento imobiliário. Hmmm… Podiam também alegar ter encontrado as malas numa praia deserta, abandonadas, sem dono. Por que não?

Dinheiro 4Falando sério, a França encontrou meio de cercear essa circulação de dinheiro debaixo do pano. A lei que coíbe pagamentos em dinheiro vivo, que existe há muitos anos, está sendo reforçada. Para dificultar lavagem de dinheiro, grandes operações em espécie estão enquadradas. Veja alguns exemplos de limitação de transações em dinheiro:

Interligne vertical 17bVenda de imóvel: 10 mil euros.

Salário: mil euros.

Impostos: 300 euros.

Compra de moeda estrangeira: mil euros.

Pagamento de compra em loja: mil euros.

Acima desses montantes, só se pode pagar com cheque, cartão de crédito ou remessa bancária. Ainda que essa regulamentação não elimine todo risco de lavagem de dinheiro ilícito, cria forte empecilho. Pagamentos com cheque, cartão e remessa bancária deixam rastro. Está mais que na hora de implantar medidas rigorosas no Brasil.

Grande burrada

José Horta Manzano

Para o Lula, tentativa de Delcídio de barrar a Lava a Jato foi uma grande burrada.

Interligne 18c

Burro 3Esse foi o título de matéria publicada pelo Estadão de 26 novembro. A declaração de nosso guia, proferida em fino e típico linguajar, foi dada num almoço havido na sede da CUT, em São Paulo.

O encontro era particular, do tipo ação entre amigos. No entanto, sacumé, ninguém consegue costurar língua alheia. Sempre há os que saem por aí dando nos dentes. Segredo confessado a uma pessoa – umazinha só – deixa de ser confidência.

Burro 4Provocado por companheiros que botaram o termômetro pra medir a reação do chefe, o Lula tentou escapulir. Com respostas lacônicas do tipo “que absurdo!” ou “que loucura!”, imaginou esgueirar-se. Não deu certo. Os comensais da boca-livre exigiam mais. Sem estender-se em longo discurso, o demiurgo declarou que o que o senador fez “foi uma grande burrada”.

Burro 5Todos entenderam que o Lula se estivesse referindo ao mérito. Interpretaram o pronunciamento como censura e repúdio às intenções criminosas do senador. Quanto a mim, habituado que estou a observar mui atentamente o ex-metalúrgico, entendi diferente. E acho que não estou enganado.

Mais adiante, o artigo do Estadão diz que, para o Lula, o senador preso é político experiente, sofisticado, que não poderia ter-se deixado gravar de forma simples como foi feito por Bernardo Cerveró.

Burro 6Pronto, para mim, esse complemento de informação deixou as coisas claras. Ao acusar Delcídio de haver cometido “uma grande burrada”, o antigo presidente da República não alude ao mérito, mas à forma. A grande burrada foi ter caído na armadilha. Nosso guia não censura os planos do senador, mas a ingenuidade na execução. Pouco importa que projetos urdisse, desde que agisse discretamente e resguardasse os malfeitos de comprometedora exposição pública.

Por enquanto, fica no ar a pergunta: por que será que o senador teme e treme ante revelações que possam ser feitas? Que segredos escabrosos ainda estão por vir? No próximo capítulo da Lava a Jato, saberemos.

Interligne 18c

Burro 7PS: Tenho grande simpatia pelo burro – falo do animal, não de demiurgos nem de senadores. Acho deveras injusto atribuir o epíteto de burro a humano de pouca inteligência.

Suficientemente rica, a língua cobre a supressão do humilde animal. Tapado, idiota, bronco, ignorante, parvo, estulto, tolo, estúpido, imbecil, lerdaço, néscio, inepto, palerma dão o mesmo recado.

Pais e filhos

Ricardo Noblat (*)

Furioso 1Sinal dos tempos!

A Polícia Federal e a Receita Federal investigam a empresa de um dos filhos de Lula, que por causa disso está possesso.

A Lava a Jato prendeu e investiga Marcelo Odebrecht e os negócios da empreiteira dele. O pai, Emídio, ameaça derrubar a República se o filho não for solto logo.

Também é alvo da Lava a Jato o advogado filho do presidente do Tribunal de Contas da União que, se está furioso, ainda não passou recibo.

Sem falar dos filhos de Gilberto Carvalho – que foi chefe de gabinete de Lula e ministro de Dilma. Os filhos também são alvo da Operação Zelotes, da Polícia Federal. Gilberto está furioso e se diz chocado.

(*) Ricardo Noblat, jornalista, em seu blogue alojado no jornal O Globo, 29 out° 2015.

Limão galego

José Horta Manzano

Em matéria de discrição, a Suíça é escolada, numa atitude típica de país pequeno. No país alpino, a secretividade foi elevada ao status de tradição nacional. Cada um luta com as armas que tem, não é mesmo? Países grandes e fortes impõem-se pelo tamanho e pela força. Nações sem esses atributos procuram outros caminhos.

Assalto 6Nos tempos em que ainda vigorava rigoroso sigilo bancário, todo ditador digno desse título fazia questão de que o cobertor helvético agasalhasse o grosso da fortuna mal granjeada. Mas nem só de ditadores vive o mundo. Corruptos, ladrões, desonestos e que tais seguiam a mesma via: banco suíço era o lugar mais apropriado pra enfurnar dinheiro de origem duvidosa.

Só que… o tempo passou, a Terra girou, costumes mudaram. Dez anos atrás, ninguém acreditava que a situação fosse evoluir tão rapidamente. Mas evoluiu: em poucos anos, o sigilo bancário suíço praticamente desapareceu. O pouco que resta está vivendo os últimos momentos.

Teve gente, mais esperta e avisada, que se deu conta, a tempo, de que algo estava mudando. Foram os que retiraram suas barras de ouro in natura e saíram carregando na sacola. Encerraram as contas e nenhum rastro ficou. Foram ancorar o iate em portos mais seguros.

Houve os menos atentos (ou mais ingênuos) que, com a mente talvez absorta por outras negociatas, não se deram conta de que a banca suíça perdia rapidamente suas características. Tranquilos e confiantes, deixaram dormir sua fortuna. Deram-se mal.

Ladrão 3O Estadão noticiou, faz alguns dias, que cerca de cem contas suspeitas, cujos beneficiários são cidadãos brasileiros, estão bloqueadas. Uma centena, minha gente! A Lava a Jato está muito longe de terminar. Deve haver muita gente em Brasília com dificuldade em pegar no sono. Não só em Brasília.

As relações entre o Ministério Público do Brasil e seu homólogo suíço nunca estiveram tão íntimas, tão cordiais, tão proveitosas como atualmente. Enquanto outros países, como a Ucrânia e a Malásia, reclamam há meses contra a falta de cooperação da Suíça, o Brasil tem conseguido, com facilidade, informações, documentos, provas, atestações e até restituição de depósitos.

Jornal 2O jornal suíço 24 Heures traz um resumo do escândalo Petrobrás. Cita a declaração de Monsieur André Regli, embaixador da Suíça em Brasília: «L’image de la Suisse auprès des Brésiliens a fortement évolué grâce à cette coopération judiciaire» – a imagem da Suíça melhorou muito, junto aos brasileiros, graças a essa cooperação judicial.

Tremei, mensaleiros, petroleiros & congêneres! Limão galego, relou tá pego! Tem muita gente que nem sabe que já foi relada.

Que ninguém durma

José Horta Manzano

Num país onde cultura – convenhamos – não é a preocupação central, acontecem lances de pasmar. Não sei quem será o responsável pelo nome atribuído a cada operação da Polícia Federal. Seja(m) ele(s) quem for(em), tiro o chapéu.

Giacomo Puccini (1858-1924), compositor italiano

Giacomo Puccini (1858-1924), compositor italiano

Quando, em 1957, surgiu a chanchada Tem boi na linha, o velho Felipe Jorge, meu professor de Português, escandalizou-se: «Como é que ousaram lançar filme com erro gramatical no título?» – exclamava. Para o venerando mestre, o fim do mundo devia estar se aproximando.

Turandot 2Apesar da apreensão do lente, o mundo não acabou. Sessenta anos depois, o filme Que horas ela volta?(sic) prova que o boi continua na linha. Decididamente, o zelo pela linguagem correta ainda não entrou no rol das preocupações de quem dá título a filmes.

Já a PF mostra um surpreendente esmero nesse aspecto. Confesso que tive de pesquisar pra saber que diabo significava Satiagraha. A vistosa operação atual, que uns escrevem Lava Jato, outros Lava-jato, mas que pessoalmente prefiro grafar Lava a Jato, é outro exemplo de presença de espírito. Faz alusão à lavagem de sujeira oculta debaixo do tapete e avisa que não será feita com vassoura de piaçaba, mas com jateamento dos bons.

Boi Barrica, My Way são outros títulos sugestivos. Mas, com este novo que saiu ontem – Nessun dorma –, chegamos a um patamar músico-poético-simbólico nunca antes atingido.

Turandot 1Nessun dorma é a grande ária do personagem Calaf, cantada no terceiro ato da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. Fazendo eco à ordem dada pela princesa Turandot, Calaf repete que ninguém deve dormir aquela noite em Pequim.

Na ópera, o objetivo da vigília é descobrir o nome do príncipe, custe o que custar, antes do romper da aurora. No Brasil, o propósito da PF é relembrar aos que tiverem cometido «malfeitos» que ainda há tapetes por levantar e que o jateamento está longe de terminar.

Interligne 18h

Há uma excelente gravação da ária Nessun dorma, feita ao vivo em 1994 em Los Angeles, quando do encontro dos três grandes tenores da época: Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti com orquestra dirigida por Zubin Mehta. Foi justamente a peça que encerrou o concerto. Clique aqui quem quiser recordar.

300 + 1

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 11 set° 2015

Chamada do Estadão, 11 set° 2015

Não vejo motivo para espanto, que não é só deputado que advoga em nome de outros. Tem até ex-presidente(!) que se tornou lobista de construtora. Que faz um lobista? Defende os interesses de seus mandantes.

Se faltava encontrar o elo entre nosso guia e os «300 picaretas» que ele um dia denunciou, não precisa procurar mais: a conexão agora está clara. São 300 picaretas… mais um.

O custo da desratização

José Horta Manzano

Dona Dilma afirma que a Operação Lava a Jato causou queda de um ponto percentual no PIB.

Não ficou clara a metodologia que lhe permitiu chegar a número tão preciso. Pouco importa. Ainda que ela tivesse tentado explicar, é provável que sua sintaxe peculiar nos impedisse de entender.

Estatísticas 2A ser verdade, até que saiu barato. Eliminação de praga sempre tem um custo.

Mensalões e petrolões, pragas impingidas ao País por Lula, Dilma & cia, hão de ter custado a nosso já raquítico PIB muitos e muitos pontos percentuais.

Pensando bem, o preço de um ponto percentual está de bom tamanho.

Tudo sobre todos

José Horta Manzano

Você sabia?

Big Brother 4Os caminhos da internet são insondáveis. Que não se ofenda algum distinto leitor perito nas artes informáticas. O que quero dizer é que o uso da eletrônica na comunicação e na estocagem de dados começou faz pouco tempo, portanto somos todos principiantes. Internet e mídia eletrônica estão no estágio em que estava a aviação no tempo de Santos Dumont.

Há muito por vir, coisas que nem a imaginação mais delirante pressente. Sem os modernos meios de comunicação, por exemplo, não teria havido petrolão nem Lava a Jato. Vai longe o tempo em que Jânio Quadros se comunicava com ministros por meio de bilhetinhos manuscritos.

Enquanto isso, vamos tateando. A cada dia, surpreendentes e assustadoras, novidades aparecem. A última delas surgiu semana passada. Trata-se de um site assaz misterioso: é registrado na Suécia, utiliza servidores franceses, tem sede social nas Ilhas Seychelles, vem escrito em português brasileiro – a espalhação necessária para fugir a todo rastreamento. Confirma que ninguém mais escapa do Big Brother.

Big Brother 3Qualquer visitante pode inserir o nome ou o número de CPF do cidadão que procura. Numa fração de segundo, será exibido sexo, data de nascimento, endereço, nome de parentes e de pessoas vivendo sob o mesmo teto. Até o nome de vizinhos aparece!

Todo trabalho merece remuneração. Ao visitar o site, o simples curioso não obtém grande coisa como informação. Depois de pagar em torno de um dólar, aí sim, terá direito a detalhes. Informação sobre empresas está também disponível.

Big Brother 1Testei – sem pagar – a eficácia do sistema. É rápido e impressionante. Sem pôr a mão no bolso, qualquer consulente recebe o CEP e um mapinha google da região onde vive o cidadão procurado. É, em geral, suficiente para saber se realmente bate com a pessoa que temos em mente. A partir daí, para ter acesso a todos os detalhes, só pagando.

Como todo sistema, esse também tem seus limites. Busquei pessoas falecidas há dez, vinte ou trinta anos: pois continuam aparecendo. De evidência, o programa consulta sites públicos, foros, diários oficiais, redes sociais, mas… negligencia verificar livros de cemitérios ou registros de óbitos. Ninguém é perfeito.

À atenção do leitor curioso, dou o endereço: tudosobretodos.se.

Pirotecnia

José Horta Manzano

Bronca 2Desde que o mundo é mundo, todos sabemos que as grandes decisões, aquelas realmente capazes de mudar o curso da história, não são tomadas em reuniões sob a luz dos holofotes. Não precisa ter seguido curso por correspondência de espionagem para entender que o segredo é a alma do negócio. Faz séculos que todo comerciante conhece o caminho. Cochicho de corredor vale mais que pronunciamento diante de uma selva de microfones.

Numa operação tão espalhafatosa quanto esquisita, a PF chamou câmeras para testemunhar apreensão de bens do Collor. Foi surpreendente por várias razões. Apreender bens e deixar o dono solto é estranho. Anunciar a notícia aos quatro ventos é mais bizarro ainda. Fica no ar desagradável impressão de pirotecnia, de cortina de fumaça para impressionar a galeria e para ocultar fatos mais estorvantes.

Se o objetivo era impressionar (e pressionar) figurões políticos, os mentores da operação merecem nota dez: semearam desespero. Quem deve, teme. Muitos devem, logo muitos temem.

Bronca 1Em reação vexaminosa e reveladora, nosso guia precipitou-se para confabular com a atual presidente e aconselhá-la. Não se tem notícia de antigos presidentes que se tenham permitido levar, pessoalmente e de vontade própria, conselho ao ocupante do trono. Se aconteceu, ficou nas sombras.

Muito a seu hábito, o antigo mandatário não se contentou com discreta reunião, daquelas em que realmente se decidem rumos. Deixou que detalhes das discussões «vazassem». Ficamos sabendo que sua antiga excelência esbravejou – ora vejam só – com dona Dilma, nossa orgulhosa presidente.

Bronca 3«Você não tem que ficar falando de Lava a Jato!», «Vovê tem de governar, ir pra a rua!» – são expressões desabusadas do pesado esbregue que nossa altiva presidente teve de engolir do guru. O raciocínio peculiar do ex-presidente não evoluiu. Em sua visão de mundo, basta deixar de mencionar a realidade para fazê-la desaparecer. Segundo relato do jornal, a conversa foi «cordial». Permitam-me duvidar.

Pode-se classificar o episódio como encenação para a galeria ou como expressão de terror pânico. Fico com esta última explicação. De toda maneira, reunião decisória é que não foi. Também, pudera: com a água chegando ao nível da cintura, está a cada dia mais próxima a hora do “abandonem a nave e salve-se quem puder”.

CuritibaLeaks

José Horta Manzano

Prisioneiro 3A julgar pela frequência com que algum fragmento de processo judicial aparece na imprensa, ouso supor que a divulgação dessas informações esteja dentro das normas legais brasileiras.

Dia 23, o blogue do repórter Fausto Macedo, alojado no Estadão, contou as peripécias que a PF empreendeu para colher o hoje notório senhor Odebrecht.

A reportagem desce a minúcias e conta tudo tim-tim por tim-tim. Mostra a ficha policial do acusado, descreve a tocaia da polícia, reproduz documentos oficiais. Como é possível que peças de um processo ainda não concluído cheguem às mãos de jornalistas e sejam publicadas? É surpreendente.

Dia 24, repeteco. A mídia tornou a divulgar peça dos autos. Desta vez, foi um manuscrito do acusado, interpretado como ordem para que se destruam certos papéis. Como é possível que documento desse jaez chegue à imprensa numa fase tão precoce do desenrolar do processo?

Carta 2Não sou do ramo. No entanto, pela facilidade com que tais documentos são servidos a jornalistas, é de imaginar que se trata de procedimento ordinário, lícito e normal. É surpreendente.

Por um lado, o fato de escancarar, a conta-gotas, fragmentos de processo é péssimo para o acusado. É complicado entender detalhes desmembrados de um todo. Esse desembrulho público pode induzir não iniciados a pintar o diabo ainda mais feio do que ele é.

Por outro lado, a divulgação temporã pode ser excelente para o acusado, pois deixa a seus advogados tempo pra montar uma explicação credível. Caso essas revelações continuassem adormecidas até a hora do julgamento, o efeito poderia ser muito mais incisivo.

Policia 2Enfim, se estamos dentro da legalidade, nada resta a fazer além de aceitar. O contraste com o funcionamento de processo em outras terras é marcante. Vejam o caso do senhor José Maria Marín.

O medalhão do futebol foi preso em Zurique dia 27 de maio, faz praticamente um mês. O processo de extradição segue seu curso, mas nenhuma informação vazou. Aliás, não foi comunicado ao distinto público sequer o nome do estabelecimento penitenciário onde o extraditando está hospedado.

Cada terra com seu uso.