As causas e os efeitos

José Horta Manzano

O site internet do Christian Science Monitor, de Boston, publica um artigo bastante didático intitulado How Brazil’s oil boom went bust ― Como o boom petrolífero do Brasil enguiçou.

Segundo a matéria, a produção brasileira de petróleo ― insignificante nos anos oitenta ― cresceu continuamente durante trinta anos até atingir 2.7 milhões de barris por dia em 2010.

Petrobras 3Nos primeiros anos deste século, com a descoberta de imensas reservas na camada pré-sal, tudo indicava que a extração cresceria vertiginosamente e que o país se encaminhava para destino inexorável de superpotência petroleira.

Lá por 2010, no entanto, algo aconteceu. Estes últimos quatro anos, a extração estagnou. A produção de 2013 foi a mesma de três anos antes. Qual a razão?

O Christian Science atribui o desempenho pífio da Petrobras à má gestão da companhia. Menciona os escândalos, a lavagem de dinheiro, as propinas, a prisão de um diretor. Ah, esse mundo moderno onde tudo se sabe…

Depois de considerações técnicas e financeiras, o jornal cita uma fala em que a presidente de nossa República deixou claro que enxerga o país como uma grande Venezuela: «A Petrobras é maior que nós todos. Ela é tão grande quanto o Brasil».

O artigo termina vaticinando: «O destino [de Dilma Rousseff], tanto quanto o do país, depende do desempenho da maior companhia do Brasil».

Poderiam também ter dito que a Petrobras é a cara do Brasil: os males que afligem a gigantesca companhia são os mesmos que atormentam o País.

É sabido que as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. A Petrobras andou pra trás, perdeu credibilidade e valor de mercado. O País vai pelo mesmo caminho.

Vamos de férias?

José Horta Manzano

Você sabia?

A revista Manager Magazin, do grupo editorial alemão Stern, anunciou estes dias o resultado de uma pesquisa interessante sobre o tempo de lazer ao qual têm direito os assalariados de dez países selecionados. O estudo, publicado sexta-feira última no meio da ponte do feriado de 1° de maio, caiu como uma luva.

Pelo levantamento da revista, o «país do samba, do Carnaval e do futebol», com 30 dias de férias legais e 11 feriados, encabeça a classificação. O único país que se lhe pode cotejar é a Lituânia. No resto do mundo, ninguém tem direito a tantos dias de folga.

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados Azul: número de dias de férias legais Verde: dias feriados

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados
Azul: número de dias de férias legais
Verde: dias feriados

Franceses e austríacos, que contam respectivamente com 40 e 38 dias por ano, não podem se queixar. Bem abaixo, vem a Alemanha com seus 20 dias de férias e 10 feriados.

Na rabeira, aparecem a China e o Canadá. Pequim concede a seu povo 10 dias de férias mais 11 feriados. Ottawa também garante 10 dias de férias mas somente 9 feriados. Os EUA, se aparecessem na na lista, se situariam entre a Índia e a China, com um total de 25 dias de folga.

Quando relatou a Dom Manuel I o achamento da nova terra, Pero Vaz de Caminha sublinhou: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo».

Infelizmente, Pero Vaz não deixou explícito quem deveria se encarregar do plantio. Até hoje estamos esperando que alguém o faça. Enquanto isso, vamos de férias, moçada, que ninguém é de ferro!

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PS: Os feriados especiais previstos no Brasil em função da «Copa das copas» não estão incluídos. Entram na categoria das receitas não-contabilizadas.

Yes, nós temos bananas

Priscila Ferraz (*)

Mais uma vez a demonstração de incivilidade é confundida com preconceito. Aqueles que não têm capacidade para se igualar a outro ser humano tendem a perder a fleuma, atacar e destruir o objeto de sua inveja.

Bananas 2

Esta semana foi amplamente divulgado um vídeo onde se via um jogador de futebol brasileiro, mulato, pegar uma banana que havia sido atirada em sua direção, descascá-la, dar uma dentada e sair jogando seu magnífico futebol. Eu, que não sou vidrada em futebol nem conhecia muito o jogador, fiquei sua fã. A segurança do rapaz mostra que ele sabe o que é, e não se envergonha disso, pelo contrário, não se deixa abater por gesto tão insignificante. Os cães ladram e a caravana passa.

Me abespinha sobremaneira ver que ainda neste século XXI pessoas tão bem informadas sobre genética ainda achem que são diferentes entre si. Ora, conheço macacos que são loiros, e mesmo assim são símios, aliás, somos todos verdadeiros descendentes dos macacos.

Raça 1

Por esse motivo mesmo, fico extremamente irritada quando se distribuem cotas para negros nas universidades. Essas pessoas têm tanta capacidade quanto quaisquer outras para competir de igual para igual nos estudos. Aqueles que não conseguem por seus próprios méritos atingir a nota mínima para cursar a faculdade têm, simplesmente, que procurar sua melhor habilidade; acho que seria ridículo tentar distribuir cotas para anões ou brancos em times de basquete. Eu, por exemplo, não tenho nenhum pendor culinário, e acho que não deveria ser admitida em uma cozinha de restaurante só porque é necessário espaço para avós sem emprego. Sei que tenho outros predicados e a eles me dedico. Eu me sentiria desconfortável de ser atendida por um médico que tenha sido admitido na escola simplesmente por ser negro.

Temos dificuldades de lidar com o diferente, é verdade, mas no Brasil é até engraçado dizer que somos preconceituosos, com a quantidade avassaladora de mulatos, ou seja, pessoas filhas de pais e mães de cores diferentes. Antes do advento do protetor solar em função do câncer de pele, ficávamos horas ao sol, somente para adquirir aquela cor de caramelo deliciosa.

Raça 2

Nos relacionamentos amorosos, temos que convir que preferências existem. Tem quem goste de alto, magro, cheinho, gordão, baixote, negro, japonês, endinheirados não importando o tipo físico etc. Noto que os próprios negros, quando ficam ricos, sempre procuram e acham uma loira para se relacionar ― natural, de preferência. Questão de escolha. Eu mesma sempre digo, quando me perguntam se eu gostaria que minha filha, que é branca, se casasse com um negro: “Depende. Ele é boa pessoa?”

Estudei em escola pública, e lá tinha gente de todo tipo. Brincávamos juntos, sem notar suas peculiaridades, e acho que vem daí minha estupefação quando vejo gestos como o do torcedor invejoso. Mas, se pensarmos bem, há gente muito pior do que ele. Portanto, nada de passeatas contra o racismo, e muito menos “dia da consciência negra”, a não ser que se crie também o dia da branca e da amarela e de quantas cores mais houver.

(*) Priscila Ferraz é escritora

O Terceiro Estado

José Horta Manzano

«Fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós»
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-geral da presidência da República.

«Le Brésil! Faites un effort pendant un mois, calmez-vous! (…) Eh bien, les Brésiliens, il faut qu’ils se mettent dans l’idée de recevoir les touristes du monde entier et que pendant un mois, ils fassent une trêve. (…) S’ils peuvent attendre au moins un mois avant de faire des éclats sociaux, ça serait bien pour l’ensemble du Brésil et la planète football».(*)
Michel Platini, presidente da Uefa.

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Manif 2As falas reproduzidas aí acima foram pronunciadas por duas personalidades que, em princípio, nada têm em comum tirando fora o fato de pertencerem à mesma geração.

Um é figura política, ministro da República brasileira. Sua frase foi dita faz alguns meses. O figurão se referia à conflagração popular de junho 2013.

O outro é figura do esporte, antigo profissional de futebol, há anos reciclado e transformado em presidente da União das associações europeias de futebol. Sua frase foi pronunciada faz alguns dias.

O que é que terá levado ambos a ousarem pronunciamento tão desastrado? Não vejo conotação política nem intenção oculta em nenhuma das falas. Antes, parecem desabafo sincero, suspiro de desalento.

Mas há um denominador comum aos dois pronunciamentos, ambos emitidos por pessoas que vivem num mundo de fantasia, longe da fria realidade em que vivemos mergulhados nós outros.

Salário elevado, facilidades mil, bajuladores em roda, a turma do “sim,senhor” sempre pronta a curvar-se ― esses medalhões que perderam o hábito de abrir uma porta com as próprias mãos vão, pouco a pouco, se desconectando do mundo real.

Para escapar a essa armadilha, seria preciso ter um espírito crítico ultradesenvolvido, o que, fica claro, não é o caso de nossos dois figurões.

Do senhor Platini, que vive a dez mil quilômetros do território brasileiro, ainda se pode admitir que ignore, até certo ponto, a realidade nacional. Além de viver dentro de uma redoma, convive com os clichês que lhe foram incutidos desde a infância. Continua enxergando o Brasil como o país do futebol, das mulatas sambando, do fio dental, das praias preguiçosas, da caipiriña(sic), da alegria onipresente. Assim mesmo, o desprezo embutido em sua fala incomoda um bocado.

Manif 3Já a alienação do senhor Carvalho, que vive “no coração do Brasil”, é assombrosa. “Fizemos tanto por essa gente”… mas quanta arrogância em cinco palavras!

Estamos habituados ao sectarismo do discurso oficial do atual governo federal, aquela retórica que procura dividir a população em dois campos antagônicos: “nós” e “eles”. O desabafo do ministro-chefe, no entanto, contradiz a filosofia oficial. Os campos não são dois, mas três: nós, eles e a populaça.

Fica claro que tanto o discurso de Platini quanto o de Carvalho se referiam a essa nebulosa terceira entidade, a ralé.

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(*) «Ô, Brasil! Façam um esforço durante um mês, acalmem-se! (…) Veja só, os brasileiros têm de botar na cabeça a ideia de que vão receber os turistas do mundo inteiro e que, durante um mês, têm de fazer uma trégua. (…) Se eles puderem segurar o estouro de seus conflitos sociais durante um mês, será excelente para o Brasil e para o futebol planetário.»

Frase do dia — 131

«Tra favelas in rivolta, scioperi della polizia e infrastrutture inesistenti, la kermesse del pallone potrebbe finire con il mostrare il volto del Brasile che l’Occidente ha voluto dimenticare nella fretta di trovare un posto in cui riversare capitali e speranze.»

«Entre favelas conflagradas, greve na polícia e infraestrutura inexistente, a quermesse do futebol poderia acabar mostrando a imagem do Brasil que o Ocidente quis ignorar na pressa de encontrar um refúgio onde investir capital e esperança.»

Gea Scancarello, do diário italiano Lettera 43em reportagem publicada em 25 abril 2014.

País de alto risco

José Horta Manzano

A 45 dias do pontapé inicial da «Copa das copas», o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha lançou novo alerta aos cidadãos que planejem viajar ao Brasil. Mostra como se está degradando a imagem de nosso país.

A página Reise- und Sicherheitshinweise (Conselhos de Viagem e de Segurança) é daquelas que costumam ser consultadas pelas agências de turismo e pelos próprios turistas. Dá uma imagem desoladora do Brasil.

Como o mundo enxergava o Brasil

Como o mundo enxergava o Brasil

Quem lê o artigo fica com a nítida impressão de que nosso país está no mesmo patamar de um Iraque ou de um Afeganistão. Diz lá que, em solo tupiniquim, não se respeitam as leis. Diz também que o turista periga ser vítima de ladrões, sequestradores ou até ver-se envolvido num conflito entre policiais e bandidos ― como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro.

O informe ministerial vai mais fundo, sempre no mesmo tom. Relata que, infelizmente, arrastões e delitos violentos não estão descartados em nenhum ponto do Brasil e que, nas cidades maiores, a taxa de criminalidade é ainda mais elevada.

Recomenda aos turistas alemães que se abstenham de vestir roupas chamativas, de usar joias e de carregar muito dinheiro. Aconselha-os também a ocultar celulares, a carregar computadores portáteis numa sacola e a deixar documentos no cofre do hotel.

Chama a atenção para o perigo que correm os visitantes ao aventurar-se por ruas desertas após o horário comercial ou nos fins de semana. Até o golpe conhecido como Boa-noite, Cinderela é mencionado. Os alemães são instados a desconfiar de bebida oferecida por estranhos. Especial atenção deve ser prestada quando estiverem em bar frequentado por prostitutas: não perder nunca de vista o próprio copo.

Como o mundo passou a enxergar o Brasil

Como o mundo passou a enxergar o Brasil

Quanto à comunicação, o ministério informa que ela não é viável em alemão nem em inglês. Diz que, no sul do país, a língua espanhola é parcialmente compreendida. E termina reconhecendo que algum conhecimento rudimentar de português é ainda a única solução. Fica patente a falta de estudo generalizada.

E essa «Copa das copas», que foi bolada justamente para projetar a imagem de um Brasil-potência, alegre, pujante, forte, generoso, bem administrado, em via de civilização!

O Brasil ficou mais conhecido, mais falado, mais comentado, é verdade. Infelizmente, não exatamente no tom que se esperava.

Que furo n’água, minha gente! Ai, ai, ai, se arrependimento matasse…

Simplificação

José Horta Manzano

Você sabia?

Burocracia 2A burocracia ― maliciosamente chamada por alguns «burrocracia» ― tem mais ou menos a idade do mundo. É praga que atravanca a humanidade desde tempos bíblicos.

Todos hão de se lembrar das aulas de catecismo. Lá nos ensinavam ― quem sabe ainda ensinam ― a razão pela qual Jesus nasceu num estábulo. Era porque seus pais estavam de viagem. Segundo nos disseram, José tinha de comparecer pessoalmente em seu vilarejo de origem por motivo de recenseamento ordenado pela administração romana. Como se pode depreender, não é de hoje que essas obrigações sem sentido nos aporrinham a existência.

No Brasil, nos últimos anos do governo militar, foi até criado um Ministério da Desburocratização, cujo primeiro e mais longevo titular foi Hélio Beltrão. Como? Se adiantou? Bem, julgue você mesmo, distinto leitor.

Burocracia 4Alguns países, talvez por terem tido a sorte de contar com dirigentes mais esclarecidos e mais persistentes, reduziram procedimentos administrativos ao mínimo rigorosamente necessário. Outros, porém, não tiveram a mesma felicidade.

O Brasil, sabemos todos, está entre os mais bem aquinhoados numa hipotética escala de empecilhos oficiais. Mas não estamos sozinhos lá no topo. A França, surpreendentemente, também sobressai nessa classificação. É impressionante o volume de papelada que se costuma exigir dos que necessitam autorização para o que for.

Ciente de que o dinheiro, o tempo e o esforço despendidos em procedimentos desse tipo são um desperdício e um atraso de vida, o atual governo central nomeou uma comissão de cidadãos de bom-senso com o objetivo específico de se debruçar sobre o problema e propor soluções.

A incumbência do comitê é de selecionar 50 gargalos. Em seguida, os sábios disporão de seis meses para esmiuçá-los e apresentar soluções. A partir daí, tudo recomeça: mais 50 casos espinhosos serão estudados. A ideia está sendo posta em prática agora, portanto, não se sabe ainda quais serão os resultados práticos.

Burocracia 3Um dos grandes estorvos ― e não só na França ― é a lentidão das diferentes repartições. Quando uma empresa tem alguma dúvida sobre o procedimento a adotar em determinada situação, é natural que faça uma consulta ao órgão adequado. Atualmente, não há legislação sobre essa matéria. A repartição pode levar meses para responder. Pode até nem responder, o que deixa o consulente em situação delicada.

Pois uma das primeiras propostas será instituir o «princípio de resposta garantida». Protocolada a consulta, o órgão terá um prazo para responder. Caso não o faça, seu silêncio será considerado consentimento. Afinal, quem cala, consente.

Outro ponto, inimaginável em outros países, é a Declaração dos Padeiros. Sabem o que é? Explico. No ano de 1790, em plena Revolução Francesa, o governo provisório tratou de garantir o fornecimento do pão, principal alimento da população. Para ter certeza de que não faltaria, ordenou que os padeiros informassem à administração, com antecedência, os dias em que, por algum motivo, tencionavam não trabalhar.

Nos primeiros anos, isso não teve grande impacto, dado que ninguém saía de férias. Nos últimos 80 anos, o panorama mudou: agora todos tiram seu mês de folga a cada ano. Como o decreto ainda está em vigor, cada pequena padaria francesa é obrigada a avisar as autoridades municipais sobre o fechamento anual por motivo de férias.

BaguetteSabem o que a autoridade faz, uma vez que toma conhecimento das férias de cada padeiro? Nada, absolutamente nada. A declaração vai parar numa caixa de papelão e terminará seus dias no porão da prefeitura. Essa ordenança do tempo da carochinha será, sem dúvida, uma das primeiras a desaparecer.

Mas que não se assustem os que planejam uma viagem a Paris. Com Declaração dos Padeiros ou sem ela, sempre haverá uma baguette fresquinha à espera.

Frase do dia — 129

«O presidente Barack Obama, numa economia quase oito vezes maior que a do Brasil, tem apenas 200 cargos comissionados. A presidente Dilma tem 22 mil!»

Ives Gandra da Silva Martins, advogado e professor emérito de numerosas universidades, em sua coluna do Estadão de 19 abril 2014.

Frase do dia — 128

«O Brasil é oficialmente governado pela presidente Dilma Rousseff e sua capital é Brasília, mas as decisões mais importantes da diplomacia comercial brasileira vêm sendo tomadas na Casa Rosada, em Buenos Aires, capital da República Argentina.»

Editorial do Estadão, 17 abril 2014.

PCC

José Horta Manzano

O jornal francês Libération publicou uma reportagem daquelas que incomodam.

Começa dizendo que, a dois meses da «Copa das copas», a maior cidade do País é obrigada a conviver com uma organização de narcotraficantes que, de tão poderosa, está em condições de paralisar as instituições a qualquer momento. Está falando do PCC, como você já imaginou.

Crédito: Nacho Doce, Reuters

Crédito: Nacho Doce, Reuters

Em seguida, dá um apanhado das origens e da atualidade da «principal organização criminosa» do país. Faz uma radiografia da quadrilha e cita os seguintes números:

Interligne vertical 101993: ano de criação do bando

190 mil: total de detentos no Estado de São Paulo

46 anos: idade do chefe da gangue

37 milhões de euros: receita anual do PCC, o que permite que seja incluído no grupo das 1150 maiores empresas brasileiras

200 euros: contribuição mensal paga por todo membro, ainda que esteja em liberdade

11’500: número total de membros da organização

1’800: membros atualmente em liberdade na cidade de São Paulo. É mais que o dobro do efetivo da Rota, a polícia de elite. Esses são os tarefeiros, os que executam as ordens do chefe.

Para ler o original, clique aqui e também aqui.

Palpite infeliz

José Horta Manzano

A coroa do rei não é de ouro nem de prata

A coroa do rei
não é de ouro nem de prata

Todo Noticias, site informativo do grupo argentino Clarín, classificou de «desafortunado» o comentário feito por Pelé sobre a morte acidental de um operário, dez dias atrás, nas obras do estádio Itaquerão.

O acidente foi gravíssimo e causou perda de uma vida. Apesar disso, Pelé minimizou o acontecido dizendo que «são coisas da vida, nada que assuste». E concluiu dizendo que importante mesmo é a infraestrutura e os aeroportos.

O site atribui o infeliz pronunciamento do «rei» à pressão que ele vem sofrendo por parte da Fifa e do governo do Brasil.

Como já dizia, anos atrás, conhecido futebolista carioca: «O Pelé, de boca fechada, é um poeta».

De menor

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 abril 2014

Atividades criminosas ocorrem em qualquer lugar do mundo. Em nosso país, infelizmente, sua frequência tende a ser mais elevada do que a média mundial. Refiro-me a todos os comportamentos que se enquadram no Código Penal, desde roubo de maçã até assassinato, passando por todo tipo de assalto ao erário. O volume exagerado de malfeitos tem poder anestesiante. A gente acaba nem prestando mais a atenção que deveria.

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

Crimes particularmente odiosos têm, ainda assim, o poder de sacudir a opinião pública. Quando algum feito escabroso é obra de um menor de idade, uma grita costuma se levantar para pedir que seja adiantada a idade da maioridade penal.

É o que acontece estes dias. Na sequência de crime excepcionalmente abjecto cometido por um menor de idade, o legislativo prevê desengavetar e levar a votação, ainda este mês, projeto de adiantamento da maioridade penal. A proposta é baixar o limite, em casos específicos, de 18 para 16 anos de idade.

A mim, me parece que o assunto é complexo demais para ser tratado a vassouradas. Comoção nacional não é boa conselheira. Decisão tomada na hora do abalo, sob o impacto de forte emoção, periga não ser a mais adequada. A problema complexo, solução ajuizada e bem arquitetada.

Para começar, há que encarar uma questão que roça a filosofia: que objetivo se persegue ao determinar que seja tolhida ou limitada a liberdade do criminoso condenado? Fazemos isso por simples castigo ou por vingança? Interessa à sociedade tentar a reeducação do delinquente? Ou será que procuramos simplesmente banir a ovelha negra para evitar que a contaminação se alastre aos demais cidadãos?

Basilar, essa reflexão extravasa amplamente dos limites do parlamento. Merece ser confiada a uma comissão de sábios, que inclua gente do ramo e gente de bom-senso. Antes de definir a razão pela qual mandamos o transgressor para trás das grades, não faz sentido discutir idade.

A fixação da idade a partir da qual as leis penais são aplicáveis é assunto espinhoso. Nem países europeus, que já uniformizaram longa fieira de procedimentos em variados campos, enxergam essa matéria de maneira homogênea. Na falta de acordo, cada qual procede a seu modo.

Nosso Código Penal talha a questão de modo exageradamente brusco, sem grande sutileza: a barreira que separa o adolescente do adulto cai, abrupta, no dia em que o cidadão completa seus dezoito anos. À meia-noite, mais precisamente.

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Ora, sabemos todos que o amadurecimento não acontece, como por milagre, de um dia para o outro. Ninguém vai dormir criança para, de manhã, acordar adulto. O processo de desenvolvimento do indivíduo é gradual. E como tal deveria ser encarado. Quando não se sabe que caminho tomar, não há que envergonhar-se. Tomar decisões no escuro será ainda pior. Melhor mesmo é baixar a crista e tomar o pulso em outros países. Quem sabe outros povos já não terão encontrado soluções que nos possam ser úteis?

A fixação da maioridade penal está longe de ser universal. É controversa e varia de país a país. Na Suíça, a idade a partir da qual o indivíduo pode ser considerado penalmente responsável é de 7 anos. Na Inglaterra, de 10 anos. Na Holanda, de 12 anos. Na França, de 13 anos. Na Alemanha e na Itália, de 14 anos. Na Bélgica e na Espanha, de 16 – sendo que, neste último país, está em estudo a redução para 13 anos. Em vista do volume crescente de crimes graves cometidos por adolescentes, a Alemanha e a Bélgica tencionam baixar o limite da responsabilidade penal para 12 anos.

A alteração que está sendo proposta no Brasil, de 18 para 16 anos, não vai, por si, conter a violência. Vai – isso sim – contribuir para a superlotação das prisões, que são por muitos consideradas verdadeiras escolas do crime.

Num país onde o ministro da Justiça – aquele que tem a faca, o queijo, o pão e a manteiga na mão – já chegou a declarar que «preferia morrer» caso tivesse de cumprir alguns anos em prisão brasileira, a idade em que o indivíduo atinge a maioridade penal é de importância secundária. Nenhuma reforma do sistema será eficaz se não incluir reformulação total do universo prisional. Do porão ao telhado. País rico é país sem miséria carcerária.

Era uma vez… José Wilker

Wilma Schiesari-Legris (*)

A primeira vez que vi o José foi quando ele fez o papel do arquiteto, na peça de Arrabal O arquiteto e o imperador da Assíria, montada pela primeira vez no Brasil em 1970.

A peça começou no Teatro Ipanema, com direção de Ivan Albuquerque. O elenco era formado por Rubens Corrêa e José Wilker.

Não foi no Rio que assisti à peça, mas no TBC, em São Paulo, numa matinée de domingo. O ator José Wilker havia chegado ao teatro no mesmo momento que eu, como um hippie, vasto chapéu feito de retalhos de couro ― provavelmente adquirido na feira artesanal da Praça da República ― e uma calça branca boca de sino de cintura baixa.José Wilker 1

Foi num cenário deslumbrante feito de retalhos de jornal, engolindo aquele palco de alto a baixo, que pressenti estar na presença de um enorme ator.

Jamais, durante aquele espetáculo, poderia imaginar que ele pudesse entrar também na minha vida. Explico melhor. Nos anos 70, minha melhor amiga da época, colega de escola, foi viver com ele. Um casamento de dez anos, do qual tive notícias unicamente através das cartas que me chegavam, primeiramente em São Paulo e, depois de 78, na França.

Pois bem, foi dentro dos envelopes que acompanhei a vida de ambos, que habitavam um apartamento muito simpático, no Jardim Botânico, que lhes fora alugado através da atriz Debora Duarte.

Estive uma única vez naquele lugar e o que mais me impressionou foi uma coleção de LPs, que precedeu a outra, de 4.000 filmes em videoteipe. Aquilo era um templo de cultura: os discos enfileirados ocupavam uma estante que dava a volta num cômodo amplo e os livros abarrotavam as prateleiras de outra sala.

Depois os vi aqui em Paris. Foi em 1979, atravessando um corredor do metrô na estação Trocadéro, de onde voltavam, de mãos dadas, de uma festa do Partido Socialista, quando Giscard ainda era o presidente da França. Dali, seguimos até a minha kitinete, e o José nos ofereceu, ao meu marido e a mim, um de seus livros, que ele dedicou assim:

Interligne vertical 12Para Wilma e Pierre,
Com carinho, meu primeiro livro a atravessar o Atlântico.

E assinou. Era Em algum lugar fora deste mundo, o título do livro e a situação.

Minha amiga estava grávida e desconhecia o seu estado. Quando eles souberam o que os esperava, o José também ficou grávido e dentro dos envelopes jamais havia alusões à vida artística de ambos, dois atores de muito sucesso na ocasião. Eram sempre cartas adoráveis, longe das luzes da ribalta e dos estúdios de filmagem, com fotos da minha amiga envergando uma linda barriga, depois substituídas pelas imagens da Mariana que crescia. Guardei-as todas, até ela se mudar de casa.

Um dia a sua vida se partiu e a minha amiga partiu também, instalando-se no Leblon e levando adiante a educação da pequena, até que a nossa amizade também murchou, me deixando órfã, assim, até hoje.

José Wilker 2Quando José Wilker esteve em Paris em 2007 para presidir o Festival de Cinema Brasileiro, foi condecorado com altas distinções tanto pela França como pelo Brasil.

O festival também fazia uma homenagem ao José, que esteve ali presente durante alguns dias. Sempre na plateia, eu também estive lá e tomei coragem para conversar com ele numa daquelas noites.

Será que ele se lembraria de mim, depois de mais de 35 anos sem nos vermos? De quando lhe preparei ovos fritos com linguiça, tudo o que havia na geladeira de casa?

Falamos de muitas coisas na ordem e na desordem dos meus pensamentos. Havia muito tempo que minha melhor amiga saíra de sua vida e, agora, da minha.

Foi quando ele me disse que Mariana, morando com ele, estava sendo formada pelo Carlos Diegues para ser roteirista do filme deles. José tinha o peito estufado ao falar da filha, agora interessada menos por psicologia e mais por arte. A sétima!

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Hoje soube que José Wilker morreu. Constatei que deve ter partido feliz, pois ele mesmo, grande epicurista, dizia do bem que faz um bom vinho e o amor de uma mulher.

Deixa órfão o cinema brasileiro, os palcos cariocas e os estúdios de televisão. Deixa infelizes todos os que o amaram.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora

Basta, por favor!

José Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal, daí ser relegada a rodapé de página. Notícia ruim faz a alegria de todo editor. Quanto pior, maior será a manchete. É da vida.

Esta semana, saiu o assustador resultado de uma pesquisa sobre a percepção que têm os brasileiros de mulher vestida com panos mais exíguos. Segundo o Ipea, 2 em cada 3 brasileiros, na impossibilidade de despachar as pecadoras para a fogueira, acham justo e correto que seu castigo seja o assédio sexual.

Para quem vive no exterior, é dose cavalar. É daquele tipo de notícia que você torce para o vizinho do lado não ter ficado sabendo. Dá vergonha de cumprimentá-lo no elevador no dia seguinte. É muito desagradável você ver seu país de origem nivelado a um Afeganistão qualquer.

Passados 2 ou 3 dias ― catapum! ― lá vem o desmentido. Não era bem isso, o resultado foi lido pelo avesso. Como é que é? Duas versões para a mesma pesquisa? Será que se pode acreditar nalguma delas?

Sondagens de intenção de voto se chocam às vezes com a realidade. Abertas as urnas, vem o desmentido. Embora irritante, é, até certo ponto, compreensível. Por alguma razão, os eleitores não terão sido sinceros em suas respostas ou, quem sabe, terão mudado de ideia na hora agá.

Crédito: Caio Leal, AFP

Crédito: Caio Leal, AFP

Já o presente caso é de outra safra. Os entrevistados não mudaram de ideia. Foram os pesquisadores que, incompetentes, se embananaram.

É inacreditável a leviandade, a displicência, a irresponsabilidade com que informações desse calibre são dadas a público. Dizer que «nove entre dez estrelas do cinema preferem tal sabonete» não traz consequências, é informação inócua. Agora, proclamar que 2/3 dos brasileiros ainda pensam como na Idade Média é muitíssimo mais grave, é constatação acachapante.

Uma informação dessa importância deveria ter passado por várias peneiras finas antes de vir a público. Com todas as notícias ruins ― mas verdadeiras ― que têm circulado fora do Brasil estas semanas que antecedem a «Copa das copas», não precisávamos de falsas informações. O que temos de ruim já basta, é favor não acrescentar mais uma camada.

É tarde demais para desmentir. O mal está feito. A notícia de que o povo brasileiro ainda vive nas trevas já deu a volta ao mundo.

Desgraçadamente, se todos publicaram a incrível informação, nem todos publicarão o desmentido. Melhor subir pela escada, que o risco de cruzar o vizinho é menor.

Interligne 23

Quem tiver tempo a perder vai encontrar aqui um flagrante do alastramento da espantosa notícia pela mídia internacional.

Interligne vertical 12Itália
França
Espanha
Suíça
EUA
Reino Unido
Alemanha
Suécia
Emirados Árabes

Pior do que se imaginava

José Horta Manzano

A aproximação da «Copa das copas» vai girando os holofotes em direção a nosso país. Artigos, comentários, reportagens, emissões de rádio e de tevê vão pipocando aqui e ali.

Diferentemente do que imaginavam nossos ingênuos e inexperientes figurões quando «conseguiram convencer» a Fifa a atribuir ao Brasil a realização da copa, o que menos chama a atenção dos estrangeiros são os estádios. De «arenas», o mundo está cheio. Disseminado desde o tempo dos romanos, esse tipo de construção já não deixa mais ninguém estupefacto.

Jornalistas, em princípio, são bisbilhoteiros. Fogem de lugares-comuns e partem à cata do que está por detrás do cenário. No Brasil, não precisa ir muito longe. A decepção mora ao lado.

Duas jornalistas belgas vieram ao «país do futebol» para fazer uma radiografia detalhada. Passaram 5 meses em solo tupiniquim. O resultado, que está começando a ser publicado agora, não traz a imagem cintilante com que nossos medalhões sonhavam.

A edição online do jornal L’Avenir (de Namur, Bélgica) mostra um esboço do que será o trabalho final. Cito, a seguir, alguns trechos do artigo.Copa 14 logo 2

Interligne vertical 11a«Naquele país paradoxal, em pleno crescimento econômico, mas que carrega o peso de grandes desigualdades sociais e de extrema pobreza, a grande festa está sendo preparada, mas a cólera cresce e ameaça.»

«Em junho passado, milhões de brasileiros berraram seu descontentamento nas ruas do país inteiro com o slogan “Copa para quem?”»

«Fortaleza se caracteriza pelo turismo sexual, por milhares de crianças de rua e pelas favelas. Uma realidade negra, que não corresponde à imagem que o Brasil quer vender à mídia internacional.»

«O Brasil aproveita a copa para limpar as cidades, mas sem dar solução aos problemas. A miséria é simplesmente afastada.»

«Vimos coisas que, aqui na Europa, ninguém pode imaginar. Uma das piores imagens foi a de uma menina de 10 anos, magrelinha e completamente drogada, que se prostituía.»

Prefiro parar por aqui. Se alguém quiser ler o original em francês, que clique aqui.

O respeito que um país inspira não provém da excelência de seus estádios, mas do grau de civilização de seu povo.

Empurrando a culpa

José Horta Manzano

Lado A
Dois anos atrás, François Hollande ganhou de Nicolas Sarkozy e foi eleito presidente da França. O sistema político francês ― a meio caminho entre o presidencialismo e o parlamentarismo ― dá grande poder ao presidente, mas impõe que ele nomeie um primeiro-ministro, que, por sua vez, deverá receber o voto de confiança da assembleia. É cargo que funciona como fusível: está na linha de frente para receber choques. Quando queima, é substituído.

Jean-Marc Ayrault

Jean-Marc Ayrault

Ao ser eleito, Hollande concedeu o posto de primeiro-ministro a um amigo de muitos anos, Monsieur Ayrault. Mas os tempos são difíceis, com estagnação econômica e taxa de desemprego nas alturas. Indústrias abandonam o território para se instalar em país de mão de obra barata. Como resultado, a popularidade de Hollande baixou a níveis jamais registrados para um presidente.

Faz poucos dias ― como lhes contei em post de 27 de março ― realizaram-se eleições para prefeito em todos os municípios do país. O povo não perdeu a ocasião de mostrar seu descontentamento: o partido do presidente levou uma surra nas urnas. Os socialistas perderam a prefeitura de dezenas de cidades importantes.

Em países civilizados, certas regras do jogo democrático, embora apenas consensuais e não escritas, costumam ser respeitadas. Quando um figurão não tem mais o apoio popular, melhor dizer adeus e ir-se embora. Foi o que fez Monsieur Ayrault, o primeiro-ministro. Fechadas as urnas, contados os votos e constatada a lavada, convocou a imprensa. Em breve discurso diante das câmeras, assumiu pessoalmente a inteira responsabilidade pelo insucesso. Dia seguinte, apresentou sua demissão ao presidente da República. E se foi.

Lado B
Estamos todos assistindo, estes dias, a espetáculo consternante proporcionado por dona Dilma. Diante da evidência de que houve «irregularidades» ― para usar palavra gentil ― nos negócios da Petrobras nos EUA durante sua gestão, vem ela com a versão 2.0 do conhecido «eu não sabia de nada».

Petrobras 3Não contente de confessar sua ignorância sobre o que se passava na empresa que estava sob sua guarda, vai mais longe: desce à baixaria de acusar um subordinado. «A culpa é daquele ali, ó! Eu sou boazinha, gentil, reta e proba ― jamais faria uma coisa dessas. Assinei sem ler! Fui traída!»

Para uma antiga revolucionária, que se vangloriou de jamais ter denunciado um companheiro, nem sob tortura, cai mal. Para quem ocupa o cargo maior da República, cai pior ainda. Um pouco de dignidade não lhe faria mal.

Não se exige a verdade integral, mesmo porque talvez nem ela a conheça. Que dê a desculpa que lhe parecer mais conveniente, mas que, pelo menos, não entregue o companheiro. Coisa feia.

Francamente, não se fazem mais revolucionários ― nem revolucionárias ― como antigamente.

Frase do dia — 124

«É sabido que os americanos vivem em estado de alerta contra doenças transmitidas por bichos. Lá, as vacinas antirrábicas de cachorros valem por três anos. No Brasil, valem só por um ano. Ou os cachorros brasileiros são viciados em vacinas ou o vício é outro.»

Elio Gaspari, em sua coluna in Folha de São Paulo, 30 mar 2014.

É no Iraque?

José Horta Manzano

Você sabia?

Quais são as cidades mais violentas do mundo? Onde é que o número de homicídios é mais elevado? Assim, de supetão, a lógica aponta para o Oriente Médio ― Bagdá, Damasco. Talvez Cabul ou mesmo alguma metrópole africana, que a coisa por lá, às vezes, pega feio. Será?

Pois o Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y Justicia Penal, organização com sede no México, fez o estudo. Apurou minuciosamente o número de assassinatos cometidos no planeta em 2013. Em seguida, confrontou com a população de cada localidade. E acaba de publicar, para cada cidade, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes .

O resultado é assustador. Entre as 50 cidades mais violentas do mundo, não há nenhuma do Oriente Médio. Estão lá somente 3 africanas ― todas na África do Sul. E o resto? Pasmem: as outras 47 estão localizadas no continente americano.

Estão lá 9 do México, 6 da Colômbia, 5 da Venezuela, 4 dos Estados Unidos, 2 de Honduras. Outros 5 países contribuem com uma cidade cada um. Mas… a conta não bate. Para chegar a 50, faltam 16 cidades. E onde é que elas estão? Uma bala perdida para quem errar.

Yes! Estão no Brasil sim, senhor! Dezesseis cidades. Das cinquenta piores, uma em cada três é nossa. Um detalhe inquietante: sete dessas capitais violentas sediarão jogos da «Copa das copas». Welcome, mister!

Nessa lista das mais violentas, uma cidade sul-africana aparece na 41a. posição. É justamente aquela que homenageia Nelson Mandela, prêmio Nobel da paz e pacificador da África do Sul.

O destino, por vezes, tem umas tiradas desconcertantes.

Interligne 18b

    Cidade              País       Homicídios   Habitantes     Taxa
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01  San Pedro Sula      Honduras        1,411      753,990   187.14
02  Caracas             Venezuela       4,364    3,247,971   134.36
03  Acapulco            México            940      833,294   112.80
04  Cali                Colômbia        1,930    2,319,684    83.20
05  Maceió              Brasil            795      996,733    79.76
06  Distrito Central    Honduras          946    1,191,111    79.42
07  Fortaleza           Brasil          2,754    3,782,634    72.81
08  Guatemala           Guatemala       2,123    3,103,685    68.40
09  João Pessoa         Brasil            515      769,607    66.92
10  Barquisimeto        Venezuela         804    1,242,351    64.72
11  Palmira             Colômbia          183      300,707    60.86
12  Natal               Brasil            838    1,454,264    57.62
13  Salvador            Brasil          2,234    3,884,435    57.51
14  Vitória             Brasil          1,066    1,857,616    57.39
15  São Luís            Brasil            807    1,414,793    57.04
16  Culiacán            México            490      897,583    54.57
17  Ciudad Guayana      Venezuela         570    1,050,283    54.27
18  Torreón             México            633    1,167,142    54.24
19  Kingston            Jamaica           619    1,171,686    52.83
20  Cidade do Cabo      África do Sul   1,905    3,740,026    50.94
21  Chihuahua           México            429      855,995    50.12
22  Victoria            México            167      339,298    49.22
23  Belém               Brasil          1,033    2,141,618    48.23
24  Detroit             EUA               332      706,585    46.99
25  Campina Grande      Brasil            184      400,002    46.00
26  New Orleans         EUA               155      343,829    45.08
27  San Salvador        El Salvador       780    1,743,315    44.74
28  Goiânia             Brasil            621    1,393,575    44.56
29  Cuiabá              Brasil            366      832,710    43.95
30  Nuevo Laredo        México            172      400,957    42.90
31  Manaus              Brasil            843    1,982,177    42.53
32  Santa Marta         Colômbia          191      450,020    42.44
33  Cúcuta              Colômbia          260      615,795    42.22
34  Pereira             Colômbia          185      464,719    39.81
35  Medellín            Colômbia          920    2,417,325    38.06
36  Baltimore           EUA               234      619,493    37.77
37  Juárez              México            505    1,343,406    37.59
38  San Juan            Puerto Rico       160      427,789    37.40
39  Recife              Brasil          1,416    3,845,377    36.82
40  Macapá              Brasil            160      437,256    36.59
41  Nelson Mandela Bay  África do Sul     412    1,152,115    35.76
42  Maracaibo           Venezuela         784    2,212,040    35.44
43  Cuernavaca          México            227      650,201    34.91
44  Belo Horizonte      Brasil          1,800    5,182,977    34.73
45  Saint Louis         EUA               109      319,294    34.14
46  Aracaju             Brasil            300      899,239    33.36
47  Tijuana             México            536    1,649,072    32.50
48  Durban              África do Sul   1,116    3,442,361    32.42
49  Porto Príncipe      Haiti             371    1,234,414    30.05
50  Valencia            Venezuela         669    2,227,165    30.04

As 16 cidades brasileiras estão assinaladas

O Brasil aguenta ou não?

José Horta Manzano

Enluminure Q 1uando se tem uma eleição majoritária pela frente ― para presidente da República, por exemplo ― qual é a postura que se espera de cada candidato? Ora, que mostre que é melhor que os demais. Que incite os eleitores a votar nele, seja pelo que já demonstrou ser capaz de fazer, seja pelo programa que propõe.

Nas Orópias e em recantos civilizados do planeta, é isso que costuma ocorrer. Aquele que pleiteia a reeleição tem, pelo poder que o cargo atual lhe assegura, mais meios que os outros. No entanto, paradoxalmente, é o mais exposto. O que fez, fez. O que deixou de fazer, não dá para recuperar. Ao contrário do que parece, é mais fácil eleger-se pela primeira vez do que ser reeleito. Em princípio, é assim. No entanto…

Vencedor 1…no entanto, em certos países, o desvio da norma é curioso. No Brasil, por exemplo. Os que estão no poder, em vez de mostrar honestamente seus feitos, adquiriram o estranho hábito de forjar dossiês, armar cabalas, criar armadilhas contra os que ousam desafiá-lo. Para suprir falhas de sua gestão, inauguram obras inacabadas, falseiam estatísticas, maquiam contas, douram pílulas.

E os que pretendem desalojar os que estão no poder, que fazem? Surpreendentemente, não ousam criticar a magreza das realizações do mandatário de turno. Se reprovam atos do governo, fazem-no timidamente, como se sentissem vergonha. O mais longe que conseguem ir é: «O que Fulano fez está muito bem, não há que criticar, mas eu farei melhor».

É atitude consternadora. Não é assim que eu encaro uma disputa ― e talvez seja uma das razões pelas quais nunca me candidatei a nada. Se pretendo ejetar alguém de seu trono, não basta prometer que farei a mesma coisa, só que um pouco mais benfeito. Tenho de escancarar defeitos, malfeitos e não-feitos de meu adversário.

Vencedor 2Mas não há noite que dure para sempre. Parece que, aos poucos, essa lição vai entrando na cabecinha dos que pleiteiam erguer-se ao trono presidencial.

Daniel Carvalho, em artigo publicado alguns dias atrás na Folha de São Paulo, nos dá conta da fala de um dos prováveis candidatos à eleição de outubro. O homem disse que o Brasil «não aguenta» dona Dilma por mais quatro anos. E reforçou afirmando que a presidente «não sabe de nada».

Arre! Até que enfim os pretendentes estão encontrando a coragem de dizer as coisas como elas são. É um bom começo.

Que ganhe este ou aquele candidato, tanto faz. Mas é importante que os brasileiros não sejam tratados como idiotas. Não se deve prejulgar a inteligência do eleitor. Se há verdades a dizer, que sejam ditas. Se há programas a propor, que sejam propostos. Agora é a hora.