Insegurança de raiz

José Horta Manzano

Você sabia?

Insegurança é componente importante do espírito brasílico.

A desonestidade e a criminalidade geram insegurança e transformam o honesto cidadão em refém da violência de criminosos.

Caravela 2As artes da política transmitem tremenda insegurança – fica a impressão de que todos os do andar de cima, embora podres, sejam intocáveis.

A insegurança jurídica é proverbial. Vai-se dormir à noite sem ter certeza de que, no dia seguinte, leis e regulamentos ainda serão os mesmos.

Essas incertezas não vêm de hoje. Marcam a história do país desde o dia em que foi lavrada sua «certidão de nascimento». Falo da carta de Pero Vaz de Caminha, bordada com arte e carinho pelo escriba da esquadra de Cabral.

A missiva é cristalina ao datar a descoberta – ou o achamento, como prefiram – da terra tropical. Diz ela: «nos 21 dias de abril (…) topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho». No dia seguinte, foi avistado um «monte mui alto e redondo», além de serras e de terra chã com grandes arvoredos. Pronto o Brasil estava achado. E era 22 de abril.

Acontece que essa carta, devidamente guardada nalgum escaninho da burocracia lusa, não foi consultada durante 300 anos e acabou esquecida. Só viria a ressurgir no século XIX. Enquanto isso, o Brasil já se havia declarado independente da metrópole. Na complexa organização do novo país, foi buscada uma data de fundação. Na falta de informação segura, foi privilegiado o dia 3 de maio. E por quê?

Descobrimento 1A insegurança gerada pela ausência de provas documentais fez supor que o primeiro nome dado à terra – Vera Cruz – viesse do dia que a hagiologia católica consagra à celebração da verdadeira cruz, justamente o 3 de maio. (Entre parênteses: com o nome de Cruz de Mayo, esse dia ainda é festejado em alguns países da América Hispânica.)

Carta de Pero Vaz sobre o achamento

Carta de Pero Vaz sobre o achamento

Ao fixar os feriados oficiais, a República fundada em 1889 manteve a comemoração da chegada dos primeiros europeus em 3 de maio. Por essa altura, a carta de Pero Vaz já havia reaparecido – portanto, já se sabia que a verdadeira data não era aquela. Assim mesmo, por comodidade, deu-se preferência a manter a celebração no dia de Vera Cruz. Como o dia de Tiradentes, 21 de abril, já era dia de festa, não convinha impor dois feriados seguidos.

Não foi senão durante a ditadura de Getúlio Vargas que a História se rendeu oficialmente à evidência: estava-se comemorando no dia errado. De uma pedrada, derrubaram dois coelhos: o descobrimento passou a ser celebrado dia 22 de abril que, ao mesmo tempo, deixou de ser dia feriado.

Eu não seiMeus pais me contavam que o Brasil tinha sido descoberto em 3 de maio e eu não entendia por que, na escola, me ensinavam data diferente. A insegurança sobre as datas só se desfez muitos anos depois, quando eu descobri que eles me ensinavam tal como haviam aprendido na escola.

O distinto leitor há de convir que, numa terra que já começou com provas documentais desaparecendo de circulação, não espanta que a insegurança continue sobressaindo. Fazer sumir provas tornou-se esporte nacional. Decididamente, vivemos na terra do «eu não sabia de nada».

No entiendo

José Horta Manzano

Você sabia?

Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos do pão branco.
Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho.
Criamos os animais, mas não comemos a carne (…) (*)

Imigração 6Assim, em poucas e comoventes palavras, um imigrante italiano respondeu a um ministro de seu país, que ralhava contra conterrâneos que abandonavam a terra natal em busca de dias melhores no estrangeiro.

No século decorrido entre 1850 e 1950, a Itália viu partir 30 milhões de cidadãos em busca de dias melhores. A maior parte deles veio dar com os costados em terras americanas – Brasil, Argentina e EUA em especial. A Itália é, com folga, o país europeu que maior contingente de emigrantes despachou.

Ninguém jamais saberá o número exato dos que que lá saíram. Mais difícil ainda será afirmar, com precisão, o destino de cada um. Que dizer, então, da contagem dos descendentes, os «oriundi»? Na falta de dados exatos, restam as estimativas.

Os Missionários de São Carlos – os escalabrinianos – são uma congregação religiosa italiana que se dedica, entre outras missões, a assistir os italianos dispersos pelo planeta. São os mais bem aparelhados para fornecer estimativa sobre o número de originários da península.

Segundo a congregação, o Brasil abriga a mais numerosa comunidade de «oriundi», calculada em mais de 27 milhões de pessoas. Em seguida, vêm a Argentina (20 milhões) e os EUA (17 milhões). Os demais países seguem bem atrás – o quarto colocado, a França, não abriga mais que 4 milhões de descendentes.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Estatística não é o ponto forte do Brasil. Assim mesmo, costuma-se dizer que, nos anos 1920, metade dos habitantes da cidade de São Paulo era estrangeira. Desse contingente, metade eram italianos. Se não for verdade, não estamos longe.

Uma curiosidade: a população de nossa hermana República Argentina é constituída de 47% de «oriundi», um de cada dois habitantes do território. Sem sombra de dúvida, é o mais italiano dos países. Além da Itália, naturalmente.

Imigração 7Ainda hoje, sobrevivem por volta de duzentos periódicos editados em língua italiana fora da Itália. Nestes tempos de internet, praticamente todos abandonaram a edição em papel para dedicar-se unicamente à versão digital. A maioria espaçou a tiragem: de diária, passou a semanal; de semanal, passou a mensal. E assim por diante.

Na Venezuela, que conta com um milhão de descendentes, algumas publicações resistem. Entre elas, La Voce (= A Voz), diário fundado em 1950, hoje disponível unicamente online. Resiste em todos os sentidos.

Corajoso, o quotidiano dá notícia da incrível erosão da popularidade de dona Dilma. Talvez, por ser dirigido a público específico, seja menos visado pela truculência dos mandatários. Ou, mais provável, os censores – ignorantes por natureza – não estão em condições de entender nenhuma língua estrangeira. Melhor assim.

Interligne 18c

(*) Citação afixada no Museu da Imigração, em São Paulo. O museu nasceu em 1887 como Hospedaria de Imigrantes. Para ali eram encaminhados os recém-chegados, que desembarcavam em Santos sem lenço e sem dinheiro, mas cheios de esperança e prontos pra arregaçar as mangas.

Futuro efervescente

José Horta Manzano

O jornal francês Le Figaro publicou relato sobre a viticultura no Brasil – o cultivo da uva para produção de vinho. Em matéria vinícola, a opinião de especialistas franceses costuma ser respeitada.

Vinho 1Apresentam o Brasil como quinto produtor de vinho do hemisfério sul, classificação aparentemente importante. Mas… pensando bem, os países do hemisfério não são numerosos. Os primeiros produtores, todos conhecem: Chile, Argentina, África do Sul e Austrália. Se o Brasil não fosse o quinto, quem poderia sê-lo? Zimbábue, Madagascar, Bolívia, Zâmbia?

As primeiras videiras foram trazidas já por Martim Afonso de Souza, o português que, em 1532, estabeleceu o primeiro povoado estável reconhecido por nossa história oficial. Falo daquela aldeia que evoluiu até tornar-se a cidade litorânea de São Vicente (SP), hoje conurbada com Santos.

Vinho 2No Brasil, os primeiros plantadores de uva não eram vinhateiros. A fruta era consumida ao natural. Foi preciso esperar um século até que padres jesuítas especialistas em viticultura dessem início ao fabrico de vinho em terras portuguesas da América. O primeiro objetivo foi garantir vinho de missa.

Até vinte e cinco anos atrás, vinho era bebida pouco conhecida no Brasil e seu consumo, limitado. O produto nacional era de qualidade rudimentar enquanto o importado custava os olhos da cara.

Vinho 3A liberação da importação, a partir dos anos 90, propiciou rápido aumento na oferta de vinho estrangeiro. Mais abordável, a bebida tornou-se mais frequente à mesa. Viticultores brasileiros aproveitaram a deixa para melhorar a qualidade de seu produto. Desenhou-se um círculo virtuoso: vinhos estrangeiros mais accessíveis incentivaram o fabrico de nacionais de qualidade superior. E vice-versa.

Depois de provar os espumantes do Rio Grande do Sul e de analisar a evolução vitivinícola nacional, os articulistas do Figaro chegam à conclusão de que os vinhos efervescentes brasileiros têm futuro brilhante. Temos boa reserva de gás.

Moi non plus

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Quem foi que disse que nossa presidente não tem senso de humor?

O lado surpreendentemente cômico da situação faz lembrar a canção composta em 1967 pelo francês Serge Gainsbourg e cantada por ele mesmo em dueto com Brigitte Bardot.

O título era “Je t’aime. Moi non plus”“Eu te amo. Eu também não”.

Ocaso cruel

José Horta Manzano

Lula boné 1Tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Aquele que detecta o bom momento pra se lançar e, mais tarde, percebe que é hora de se afastar, dá mostra de inteligência, de contacto com a realidade e de simples bom senso.

Há quem carregue, embutido e de instinto, esse «timing», que os dicionários traduzem como sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo. Quem tem essa qualidade, tem. Quem não tem fica devendo.

Nosso guia, a quem muitos emprestam inteligência fora do comum – será? – não foi brindado pela natureza com esse dom. Seu decantado senso de oportunidade (ou de oportunismo, se preferirem) foi incapaz de detectar que, ao final do segundo mandato na presidência da República, tinha atingido o auge. Não se deu conta de que aquele era o momento ideal para recolher-se e sair de cena.

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Rico, prestigiado, já beirando os setenta anos, deveria ter-se retirado. Teria conservado, intacto e para sempre, o fascínio que um dia havia despertado em meio Brasil. Uma palestra aqui, outra ali, talvez um livro de memórias ditado a um escriba de aluguel – essas teriam sido atividades condizentes com a aura que o circundava. É o que se espera de um ex-presidente.

Lula caricatura 2No entanto, um envaidecido Luiz Inacio acalentou a ilusão de onipotência e foi incapaz de se dar conta de que tudo o que sobe acaba caindo um dia. Tendo perdido o contacto com a realidade, pagou pra ver. E está vendo.

Para quem um dia andou de carruagem com a rainha da Inglaterra, há de ser terrível ter de viver recluso, longe do povo, fugindo de lugares públicos onde, certo como dois e dois são quatro, será vaiado. Restou-lhe enfiar um boné vermelho no cocuruto e deitar falação para plateias amestradas.

A confiar na mais recente pesquisa de opinião, nosso guia não tem esperança de voltar ao cargo maior. Se 55% não votariam nele de jeito nenhum, la messe est dite, como se diz na França: a missa acabou. Miserere nobis.

Aposentadoria ‘baby’

José Horta Manzano

Aposentadoria 2O jornal italiano La Repubblica, de Turim, publicou artigo interessante sobre inacreditáveis dispositivos que distorcem o sistema brasileiro de aposentadorias.

Os italianos falam de cátedra. Até 20 anos atrás, aquele país também concedia regalias fora do comum a determinadas categorias de cidadãos. Em alguns casos, 15 anos de contribuição bastavam para dar direito ao benefício para o resto da vida. A reforma de 1995, se não corrigiu todas as falhas, amenizou efeitos perniciosos.

A língua italiana tem até uma expressão para definir aposentadoria concedida aos que ainda estão longe de completar 65 anos. Dizem “baby pensioni” – aposentadorias de bebê. O diagnóstico de Anna Lombardi, autora do artigo, é de que essas pensões «de bebê» põem o Brasil de joelhos. E tem razão.

O estado já periclitante das finanças nacionais é agravado pelas larguezas do sistema de aposentadorias, verdadeiro poço sem fundo. Signora Lombardi explica a seus leitores o chamado «efeito Viagra».

Aposentadoria 1Segundo ela, muitos desses jovens aposentados se casam (ou se casam de novo) tarde, pelos 60 ou 70 anos. Escolhendo esposa de pouca idade, fazem da cônjuge a herdeira da aposentadoria, que lhe será paga por décadas. O sistema é perverso porque, em casos assim, dá benefício a quem ainda está em idade de trabalhar. Não é justo que toda a sociedade deva pagar.

Não sou especialista em assuntos previdenciários, mas confesso que, em meu círculo próximo, conheci casos surrealistas. Certas pensões são concedidas às filhas do falecido, sem limite de idade, desde que permaneçam solteiras. Há senhoras que, embora vivam com um companheiro, evitam casar-se para não perder o direito à pensão.

É curioso que o reconhecimento de uniões estáveis por parte do Estado brasileiro seja estrada de mão única. A união é aceita para acrescentar benefícios, mas não para coibir abusos. São coisas nossas.

Aposentadoria 3Uma das grandes oportunidades perdidas por Luiz Inácio da Silva – entre outras tantas – foi a reforma que nosso sistema de aposentadorias reclama há décadas. Quando ele estava no apogeu da popularidade, teria sido fácil. Hoje ficou bem mais complicado. É a herança problemática que ele recebeu dos antecessores e transmitiu, tal e qual, aos sucessores.

Seja como for, vista a desaceleração da taxa de crescimento da população, o pagamento de benefícios tende a tornar-se o quebra-cabeça maior das finanças nacionais. Do jeito que está, o sistema não aguenta mais dez anos.

Nosso guia, que julga ter ‘reinventado’ o Brasil, será lembrado por sua inação quando os ventos estavam favoráveis. É pena.

Frase do dia — 268

De presidenciável a cassável
Enquanto não ocorre o desfecho de sua novela, Cunha permanece tentando caminhar adiante, alternando gestos de afago e ataques ao governo e à oposição, carregando sempre a caneta do impeachment como uma vareta de equilibrista sobre a corda bamba.

Fernanda Krakovics & Júnia Gama, em artigo publicado no jornal O Globo, 25 out° 2015.

Boca torta

Dora Kramer (*)

Os comunistas antigamente diziam-se pautados pela “linha justa”. Os petistas atualmente demonstram se conduzir pela linha injusta. Entre outros exemplos, está a carga pesada feita contra os ministros da Fazenda e da Justiça.

Joaquim Levy e José Eduardo Cardozo desagradam ao PT não pelos defeitos, mas pelas qualidades. Levy segue a direção lógica do ajuste realista na condução de uma política econômica que, embora recessiva, é a única capaz de levar o País à correção do rumo perdido. Cardozo faz o que lhe cabe por dever de ofício e não procura interferir onde não pode: no trabalho da polícia, da Justiça e do Ministério Público.

Sinalização curva 2Na visão petista, quem faz o certo está errado e, por isso, deve deixar o governo. Por essa ótica, o ministro da Fazenda deveria ser irresponsável e o titular da Justiça, transgressor da Constituição.

O partido talvez pense assim por ter-se acostumado ao padrão de irresponsabilidade e transgressão estabelecido desde o governo Luiz Inácio da Silva – modelo este fundado na crença de que é permitido fazer tudo errado acreditando que no fim possa dar certo.

(*) Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 25 out° 2015

Falam de nós – 14

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Fosse um furacão, não causaria tanto estupor. Fosse um “malfeito” qualquer, ninguém se espantaria. Fosse uma roubalheira a mais, todos dariam de ombros, resignados. Mas quando algum problema ronda as festas de Natal, aí a coisa pega.

Em todo o Velho Continente – especialmente na Europa central – festas de Natal são sagradas. Menos por religiosidade, mais por tradição. Três fatores contribuem para reforçar a importância simbólica dos festejos natalinos:

Interligne vertical 121. Coincidem com o fim do ano civil, época em que muitos fazem exame de consciência e formulam propósitos virtuosos para o período seguinte.

2. No Hemisfério Norte, coincidem com o solstício de inverno, o período do ano em que os dias são mais curtos. O Natal prenuncia o alongamento da luz diurna e o renascimento da natureza.

3. A importância das festas é amplificada pelo marketing onipresente, obra de industriais e comerciantes.

Portanto, todo problema que possa perturbar a alegria e a paz do período provoca comoção.

Papai Noel 2Existe, no Rio de Janeiro, uma escola de Papai Noel, você sabia? Pois eu não. Fiquei sabendo pela profusão de artigos alarmantes publicados estes dias na imprensa europeia.

A escola oferece curso de 40 dias a homens de mais de 50 anos, de preferência corpulentos. Este ano, o aumento do desemprego fez dobrar o número de candidatos. Para todos eles, é importante ser contratado para representar o bom velhinho. É bico importante pra diminuir o sufoco habitual.

A perspectiva de que a crise político-financeira que atinge o Brasil possa prejudicar as festas natalinas é descrita com acentos de incredulidade e compaixão pela mídia daqui. Vejam só:

Jornal 20 Minutes (Suíça)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Canal de tevê BFM TV (França)
«Le Père Noël bientôt au chômage au Brésil?»
«Dentro em breve, Papai Noel desempregado no Brasil?»

Papai Noel 3Jornal Le Figaro (França)
«Le Père Noël touché para le chômage au Brésil»
«Papai Noel afetado pelo desemprego no Brasil»

Revista L’Hebdo (Suíça)
«Les temps sont durs pour le Père Noël au Brésil»
«Tempos difíceis para o Papai Noel no Brasil»

Jornal 24 Heures (Suíça)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Jornal La Libre Belgique (Bélgica)
«Au Brésil, la crise économique n’épargnera pas le Père Noël»
«No Brasil, a crise econômica não poupará Papai Noel»

Papai Noel 4Jornal Le Dauphiné Libéré (França)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Portal informativo Romandie (Suíça)
«Les temps sont durs pour le Père Noël au Brésil»
«Tempos difíceis para o Papai Noel no Brasil»

Jornal Tribune de Genève (Suíça)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Frase do dia — 267

«Poucas vezes terá havido situação semelhante à deste nosso banquete de horrores no qual 90% dos comensais declaram ter nojo da comida que lhes tem sido servida, mas são obrigados a continuar a tragá-la simplesmente porque não sabem pedir outro prato.»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em artigo publicado pelo Estadão, 24 out° 2015.

Os 111 anos de um marco do rádio

Hamilton Almeida (*)

Padre Landell de Moura

Padre Landell de Moura

Há 111 anos, na cidade de Washington, a capital dos Estados Unidos, um acontecimento silencioso estabeleceu um dos marcos da história das telecomunicações, ainda que não seja devidamente valorizado.

No dia 11 de outubro de 1904, o Departamento de Patentes, hoje chamado US Patent & Trademark Office, outorgou a carta-patente da invenção do WaveTransmitter (Transmissor de Ondas) ao padre cientista brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928).

O Transmissor de Ondas era capaz de transmitir voz humana, música, quaisquer sons, à distância, sem fios. Nascia ali o aparelho precursor do rádio! Naquela época, o que existia de mais moderno nas telecomunicações era o telégrafo sem fio, invenção patenteada por Marconi, na Inglaterra, em 1896.

Examinado com o olhar atual, o rádio do padre Landell atingia uma larga faixa do espectro de radiofrequência, sendo captado, inclusive, na faixa de FM. A reprodução da voz não era perfeita e nem se podia esperar mais do aparelho pioneiro. Importante, contudo, é seu significado histórico.

Landell 2Padre Landell também havia patenteado o rádio no Brasil (em 1901) e não recebeu nenhum apoio para industrializá-lo, nem mesmo após o reconhecimento nos EUA. Foi um raro inventor, um gênio, porém sem glória!

Nos EUA, onde ficou três anos e meio, fez pelo menos uma experiência de radiodifusão para poder ter direito à carta-patente. Sabe-se que residiu e montou um modesto gabinete de física no distrito de Manhattan, em Nova York.

Radio 5Recebeu correspondência na famosa avenida Broadway nº 80. Atualmente, está erguido ali um enorme edifício com agências do BNY Mellon Bank e do Chase Bank. Bem perto, está a igreja anglicana Trinity Church, um marco da cidade, em pleno centro financeiro.

Antes de patentear suas invenções, padre Landell realizou várias experiências públicas na cidade de São Paulo para sensibilizar potenciais investidores: entre o Colégio Santana e a Ponte das Bandeiras, entre a avenida Paulista e a colina de Santana, por exemplo. Mas ficou à margem da história.

(*) O paulista Hamilton Almeida é jornalista e escritor. O artigo foi escrito especialmente para o Portal dos Jornalistas.

Ponte dos espiões

José Horta Manzano

Ponte 2Pense num filme de espionagem, daqueles que se passam na época da Guerra Fria. Numa manhã fria e brumosa, um espião americano, desmascarado em Moscou, ensaia os primeiros passos da travessia duma ponte sobre rio fronteiriço entre as duas Alemanhas. No mesmo momento, um espião soviético, capturado meses antes em Washington, faz o mesmo gesto em sentido contrário.

Avançam lentamente. Os caminhos se cruzam bem no meio da ponte. Sem se olhar nos olhos, cada qual continua reto até a margem oposta. «Pronto, elas por elas. Estamos quites» – suspiram aliviados os policiais e agentes que, armados até os dentes, tinham permanecido de cada lado da fronteira. Tudo correu bem. É o capítulo final de uma longa tratativa que se desenrolou nos bastidores, longe de toda publicidade.

Se o distinto leitor imagina que cenas como essa fazem parte de um passado poeirento e enterrado para sempre, convido-o a reconsiderar a questão. A imprensa italiana em peso afirma hoje que, sem a dramaticidade cinematográfica da travessia da ponte, nova troca de prisioneiros acaba de ocorrer.

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília 23 out° 2015

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília
23 out° 2015

A verdadeira história da extradição do mensaleiro Pizzolato, que acaba de chegar a Brasília para uma temporada na Papuda, é menos charmosa e bem menos jurídica do que se possa imaginar. Nosso mensaleiro interpreta o papel de um dos prisioneiros que atravessam a ponte. E quem é o outro?

Segundo a imprensa italiana, que deve ter seus fundamentos para afirmá-lo, a outra moeda da negociação chama-se Pasquale Scotti. É antigo membro da camorra (máfia napolitana), condenado à prisão perpétua por mais de 20 homicídios. Gente fina, como se vê. O bom moço estava no Brasil havia mais de 30 anos. Sob identidade falsa, vivia no Recife.

Ponte 1Foi capturado pela Polícia Federal em maio. Informada pela Interpol, a Itália logo pediu extradição do cidadão. O que se segue não foi publicado, mas pode ser imaginado. Autoridades italianas e brasileiras concluíram acordo na base do «eu te mando este, você me devolve aquele».

De fato, o STF autorizou a extradição de signor Scotti no dia 20 de outubro. Dois dias depois, a Itália entregou signor Pizzolato a agentes da PF brasileira. Baita coincidência, né não? Parece que a imprensa italiana sabe do que está falando.

Os detalhes da troca de prisioneiros estão na Agência Brasil (em português) e no jornal turinês La Repubblica (em italiano).

O legado da nossa miséria

Helio Gurovitz (*)

Machado de Assis 1Machado de Assis encerra Memórias Póstumas de Brás Cubas com um capítulo intitulado “Das Negativas”, em que o narrador elenca tudo aquilo que não fez na vida: não foi ministro, não foi califa, não vendeu seu emplasto, não conheceu o sucesso. Conclui com aquela frase que todos conhecemos de cor: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Em vez de proclamar sucessos, o narrador nem sequer lamentava seus fracassos. Machado foi irônico como só ele sabia ser.

Hoje em dia, estamos acostumados a ouvir negativas de outra natureza, como resultado da Operação Lava Jato e de seus desdobramentos.

Interligne vertical 16 3KeDa presidente Dilma Rousseff:
“Meu governo não está envolvido em corrupção”.

Do presidente da Câmara, Eduardo Cunha:
“Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu imposto de renda”.

Do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre o lobista Fernando Baiano:
“Não há fato, não conheço a pessoa, nunca vi”.

Do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em depoimento ao Ministério Público Federal a respeito dos contratos firmados pelo BDNES:
“Jamais interferi”.

Do presidente do PT, Rui Falcão, a respeito das denúncias de dinheiro do petrolão na campanha eleitoral:
“O PT desmente a totalidade das ilações de que o partido teria recebido repasses financeiros da Petrobrás”.

Do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht:
“Podem investigar à vontade que não acharão nada sobre nós”.

Em alguns países, sobretudo na Ásia, políticos flagrados em escândalos de corrupção chegam até a cometer suicídio. Foi o caso do ministro da Agricultura do Japão, Toshikatsu Matsuoka, em 2007; do ex-presidente sul-coreano Roh Moo-hyun, em 2009; do deputado de Cingapura Teh Cheang Wan, em 1986; do almirante chinês Ma Faxiang, em 2014; e do teatral senador Budd Dwyer, da Pensilvânia, que se matou diante das câmaras em 1987.

Todos esses casos trágicos, presume-se, são resultado de algum conflito moral que a mente dos acusados foi incapaz de resolver. Por aqui, esse conflito – quando existe – costuma ser resolvido na base do cinismo mesmo.

(*) Helio Gurovitz é jornalista e colunista de O Globo. O trecho reproduzido é excerto de um artigo. Para ler na integralidade, clique aqui.

Ladrão? Eu?

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 22 out° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 22 out° 2015

Conclusão lógica: os outros podem.

Foi seu mestre quem mandou. Esqueceu-se de que 90% dos brasileiros rejeitam o “modo petista de governar”.

Repare o distinto leitor que nosso guia já se resignou com o fato de correligionários serem adeptos da ladroagem. Só não admite ser tratado como tal por colegas de ofício.

São particularidades destes tempos estranhos.