Sem dizer água vai

José Horta Manzano

Você sabia?

A cidade do Rio de Janeiro já ia para seus 300 anos de idade. Londres e Paris não estavam longe de completar o segundo milênio. No entanto, nenhuma delas contava com sistema de canalização de águas usadas. E como faziam as gentes?

No Rio de Janeiro, a solução era simples. Os dejetos eram acumulados em casa, em barricas de madeira chamadas cubos. Chegada a hora de esvaziar o tonel, um escravo levava a mercadoria para despejá-la na praia mais próxima ou nalgum córrego. Esse labor se desempenhava de preferência à noite, talvez para evitar que o cheiro nauseante assustasse eventuais passantes.

Já londrinos, parisienses e mesmo cariocas pertencentes à casta dos sem-escravo tinham de se virar sozinhos. Lavavam-se na bacia e faziam suas necessidades no penico. De manhã, abriam a janela e simplesmente atiravam a imundície na rua. Como sinal de cortesia para com eventuais passantes, gritavam antes: «Água vai!»(*). Não esqueçamos que o Rio de Janeiro contava já com alguns sobrados, o que não facilitava a vida de quem se encontrasse no momento errado no lugar errado.

Paraty (RJ)

As ruas, já desde a antiguidade, costumavam ter uma valeta central ou lateral ― um afundamento do calçamento de pedra. A finalidade era justamente escoar, bem ou mal, as águas servidas. O espaço público era tratado como lixeira. Sob climas tropicais, em especial, ruas e praças haviam de exalar uma abominável fedentina.

A ideia de canalizar o esgoto doméstico foi um passo admirável. Começou, naturalmente, em Londres, centro urbano mais importante do planeta em meados do séc. XIX. De lá, espalhou-se pelo mundo. Ainda bem.

(*) A expressão sem dizer água vai (ou sem gritar água vai) permanece até hoje na língua. É usada quando alguém comete um ato bruscamente, sem pré-aviso. Corresponde exatamente à expressão francesa sans crier gare e à espanhola sin decir agua va.

Classe é pra quem tem

José Horta Manzano

Classe é pra quem tem, não adianta fazer de conta. Quem não tem, fica sem. O mundo nos tem brindado com alguns figurões políticos que brilham justamente pela falta de classe.

Mr. Donald Trump tem doutorado na matéria. Suas escorregadelas são diárias. A última surpreendeu até admiradores. Foi quando, no dia de Natal, perguntou a uma criança de sete anos se ainda acreditava em Papai Noel. Fez isso diante das câmeras que levavam a cena a todas as famílias do país. Baita pisão de bola.

Chirac na praia de meia preta

Certa feita, quando era presidente da França, Jacques Chirac hospedou-se no Forte de Bregançon ‒ residência presidencial de verão. Uma bela manhã de sol, dirigiu-se à praia em companhia de dois assessores. Os acompanhantes iam convenientemente trajados de bermuda e chinelo ou sapatinho raso sem meia. Monsieur Chirac respeitou o código vestimentar com exceção de um detalhe: calçava meias pretas. A caminho da praia. De bermuda. Passaram-se anos, mas os franceses comentam até hoje.

Nos últimos anos de vida, quando já o chamavam «coma andante», Fidel Castro deixou-se fotografar algumas vezes no retiro secreto onde definhava aos poucos. A cada vez, seu agasalho portava, bem visível, o logo de conhecida marca alemã de roupas esportivas. Nas costas alquebradas do dono de uma ditadura comunista, essa adesão explícita à fé capitalista pegou mal.

Bolsonaro de Nike

Lula da Silva, quando inaugurou seu primeiro mandato, não tinha mais classe do que tem hoje. Antes de ser repreendido por seu entourage, apresentou-se mais de uma vez em público vestindo terno e gravata e levando, picado na lapela, un pin com a estrela vermelha do PT. Todos ficaram chocados de constatar que o recém-empossado não se considerava presidente de todos, mas chefe de um partido. Precisaram sacudi-lo pra ele acordar.

O atual presidente eleito e excelentíssima senhora também têm, visivelmente, um problema vestimentário. Semana passada, doutor Bolsonaro mandou ao ar um vídeo com uma espécie de prestação de contas. Inspirado ironicamente no falecido ditador cubano, apareceu vestindo um agasalho de conhecida marca americana de roupas de esporte. Pra quem se declara nacionalista e defensor dos interesses da pátria, ficou esquisito. Em se tratando de presidente eleito, ficou pior ainda.

Dona Michelle Bolsonaro e seu lulu

Doutora Michelle Bolsonaro mostrou comportamento concordante com o do marido. Esta semana, passado o Natal, chegou de barco ao Iate Clube de Itacuruçá, no Rio. No desembarque, foi fotografada carregando seu lulu no colo e vestindo camiseta preta com os seguintes dizeres estampados: «Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema». Como se lembram todos, a frase foi pronunciada pela juíza Hardt, quando do mais recente interrogatório de Lula da Silva. Ficou a pergunta: o que é que tem o interrogatório do Lula a ver com as férias de madame? Tivesse ela usado camiseta com o escudo do Corinthians ou do Flamengo, não teria sido mais brega.

Faz tempo que bom-tom e presidência não rimam.

As vigílias

José Horta Manzano

Champanhe na geladeira, peru no forno, castanhas e avelãs sobre a mesa, rabanada preparada, é o réveillon que chegou. Época de confraternização, de alegria e de bons propósitos para o novo ano.

Réveillon – mas de onde é que vem essa palavra tão repetida e tão exótica? Pois é francesa. É da família do verbo latino vigilo, que significa estar desperto.

Em nossa língua, a parentela é extensa: vigia, vigiar, vigilante, velar, vigília (véspera de certas festas religiosas). Vela e velório fazem parte do clã. Todas essas palavras carregam o sentido de cuidar, de não estar dormindo.

Reveillon 1No Brasil, associamos o réveillon unicamente à noite de fim de ano. Já os franceses dão sentido mais amplo. Em princípio, qualquer noite em que se vai para a cama mais tarde poderia ser chamada de réveillon. O uso, no entanto, é dar esse atributo a duas noites especiais. A primeira é a noite de Natal, réveillon de Noël – a vigília de Natal. A segunta é a noite da passagem de ano, dita réveillon de la Saint-Sylvestre.

Bom réveillon a todos e boas-entradas, como se dizia antigamente. Que 2019 seja alegre, sorridente e traga muita saúde!

Lunfardo ‒ bis

Texto publicado originalmente em 19 dez° 2012

José Horta Manzano

Você sabia?

Lunfardo é a gíria que nasceu e cresceu em Buenos Aires, na malavita portenha, no submundo dos fora da lei. Com o passar das décadas, um número cada vez maior de expressões foi caindo, digamos assim, no ‘domínio público’. Palavras e expressões antes reservadas a bandidos são hoje utilizadas no dia a dia por pessoas comuns.

Surpreendentemente, muitos desses termos de argot argentino passaram ao português brasileiro. Não se sabe direito se atravessaram a fronteira ou se terão vindo de contrabando embutidos na letra de velhos tangos. Talvez um pouco de cada. O fato é que usamos, sem saber, gíria importada. Para os ultranacionalistas, pode até parecer um escândalo. No fundo, é simplesmente um aporte a mais, uma contribuição para a riqueza de nossa fala.

by Liliana Rago, artista argentina

Aqui está uma pequena coletânea de expressões lunfardas que aparecem na gíria brasileira.

Lunfardo    Brasileiro
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Machete     Macete (ajuda-memória)
—————————————————————————————————————————————————-Malandro    Malandro
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Piráo       Pirado
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Mamado      Mamado (bêbado)
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Campana     Campana (ajudante de ladrão que vigia)
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Mancar      Se mancar (compreender)
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Cana        Cana (prisão)
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Matina      Matina (manhã cedo)
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Mortadela   Presunto (cadáver)
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Patota      Patota (bando)
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Punga       Punguista (batedor de carteira)
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Vivo        Vivo (astuto)
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Bacanazo    Bacana (refinado)
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Bancar      Bancar (pagar)
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Dar bola    Dar bola (prestar atenção)
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Bronca      Bronca (raiva)
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Chupado     Chupado (bêbado)
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Burro       Burro (ignorante) (1)
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Tira        Tira (investigador de polícia)
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Labia       Lábia
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Mina        Mina (moça)
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Llenar      Encher (aborrecer)
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Lleno       Cheio (mal-humorado)
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Cabrero     Cabreiro (furioso)
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Mangos      Reais (dinheiro)
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Caradura    Caradura
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Catinga     Catinga (mau cheiro corporal)
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Manyado     Manjado (conhecido)
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Chumbo      Chumbo (bala de revólver) (2)
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Pechar      Peitar
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Coco        Coco (cabeça)
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Gozar       Gozar (zombar) (3)
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Grupo       Grupo (mentira, história inventada)
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Gurí        Guri (criança) (4)
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(1) Normalmente, burro é usado para qualificar indivíduo cabeçudo

(2) Chumbo (o elemento) é palavra portuguesa. Em espanhol, diz-se plomo. Poderia bem tratar-se de palavra exportada do português para o lunfardo.

(3) Os espanhóis usam gozar com o sentido de passar um bom momento. Para dizer zombar, preferem mofarse

(4) Alguns etimólogos atribuem a essa palavra origem tupi, o que explicaria que se encontre no castelhano platino e também no português do Brasil

Desconvite seletivo

José Horta Manzano

Fazer política externa na base do xilique é a receita certa para o fracasso. Poucos dirigentes conseguem distinguir onde termina o governo e onde começa o Estado. E vice-versa. A maioria tende a confundir e enfiar as duas concepções no mesmo saco. Erram. Governos passam, o Estado fica.

Entre as atribuições do governo, a política externa é a que se encontra mais ligada ao Estado brasileiro. Saúde, Instrução Pública, Economia e demais funções ‒ embora devam submeter-se aos interesses maiores do Estado ‒ costumam assumir os contornos do governo de turno. A escola tornou-se mais politizada no governo do Lula. A Economia se abriu durante a gestão Collor. A Saúde teve até intervenção cubana no governo da doutora.

A política exterior e as Forças Armadas devem, mais do que as outras funções do topo da República, servir a interesses de longo prazo. Não são campo em que se deva mexer a cada instante. Estratégias diplomáticas e militares são de longo alcance.

Como ensina o manual de bons procedimentos, os dirigentes de todos os países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas são convidados para a tomada de posse do novo presidente. Por descuido da Constituinte de 1988, o mandato começa num 1° de janeiro, data incômoda que obriga muitos chefes de Estado ou de governo a mandar representante. Que fazer?

Rolls-Royce presidencial

Doutor Ernesto Araújo avisou que estava cancelando o convite feito aos presidentes da Venezuela e de Cuba. Estavam desconvidados. A quem se surpreendeu com a descortesia, logo explicou que a intenção do novo presidente era, logo no início do governo, romper relações diplomáticas com esses países. Está justificado.

Ontem entrou mais um país para a lista dos indesejados. Foi a Nicarágua. A alegação é de que está sob a férula de regime ditatorial. Só que não foi anunciado rompimento de relações com esse país, o que nos põe diante de uma incongruência. O Brasil convida todos os países com os quais mantém relações diplomáticas. Uma vez que se anunciou que as relações serão rompidas com Cuba e com a Venezuela, o desconvite faz sentido. Dado que não há perspectiva de rompimento com a Nicarágua, fica esquisito.

O pretexto de que se trata de ditadura não tem consistência. Na prática, a maior parte dos países africanos tem regime ditatorial. Todos os países árabes também entram nessa lista. Se o critério para desconvite for a falta de democracia, restam muitos por desconvidar.

Vê-se que os interesses do Estado brasileiro passaram ao largo nessa decisão do futuro ministro Araújo. Esses desconvites seletivos não respondem a critério consistente, mas a antipatia pessoal. Juntando essa presepada ao anúncio, feito pelo futuro presidente, de mudança de endereço de nossa embaixada em Israel, temos rematado contraexemplo de diplomacia. É exatamente o contrário do que deveria ser. Começamos mal.

Meio milhão

José Horta Manzano

Nalgum ponto da noite passada, nosso contador de visitantes marcou um número bonito: 500.000. Meio milhão de page views(*), minha gente! Pra um blogue modesto, despretensioso, não ligado a figurão das artes ou da política e, ainda por cima, sem fins lucrativos, é pra deixar o ego satisfeito.

Agradeço ao distinto leitor, tanto àquele que faz visitinha diária, quanto àquele que vem de passagem, que nem visita de médico. Eu me sinto feliz de poder acolher a todos e espero que tenham encontrado o que vieram buscar. E que continuem a vir, que me dá muito gosto.

Aqui vão alguns números do blogue:

  • 6 anos no ar
  • 3.650 artigos publicados
  • 500.000+ page views
  • 1,9 artigos lidos por visitante
  • 2.500 comentários
  • Visitantes de 181 países ou territórios
  • 210 seguidores inscritos

Aproveito para desejar a todos os distintos leitores um alegre período natalino e um ano-novo novo, com saúde e realizações.

(*) Page view é como convém chamar, em internetês, cada artigo lido.

Os automóveis

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos primeiros anos dos século XX, a língua francesa vivia um período de prestígio mundial. Embora já não exercesse predominância absoluta como nos anos 1700, sua influência ainda era notável. No Brasil, a moda, os remédios, os alimentos enlatados, os livros e as revistas vinham de Paris.

Aprisionado a seu desterro tropical, o brasileiro endinheirado só tinha olhos para o que chegasse da França. Tudo o que de lá viesse era bem-vindo. Chique mesmo era mandar vir uma preceptora francesa para guiar os pequerruchos ‒ privilégio só concedido a muito poucos.

Por aqueles anos, os primeiros automóveis começaram a rodar sobre os sacolejantes paralelepípedos das ruas brasileiras e pelos caminhos do interior, picadas poeirentas que só costumavam ver passar carros de boi. Dá pra imaginar o espanto das gentes que, à beira da estrada, observavam bólidos malucos, que desafiavam as leis do bom senso ao disparar a 25 ou 30 quilômetros por hora!

O ‘vehiculo automovel’ descrito no Almanaque Richards de 1909
Repare que a palavra automóvel é usada indistintamente como substantivo e adjetivo

A maior parte das peças que compõem o automóvel tem nome francês. Embreagem, capô, freio, marcha, banco, carburador, virabrequim, manivela, escapamento, volante, vela, radiador, alternador, pistão, biela, bobina, distribuidor, bateria, condensador ‒ cada uma dessas palavras é o aportuguesamento ou a tradução literal do original francês.

A palavra automóvel, naturalmente, também vem de Paris. A curiosidade é que, no início, era um adjetivo. A expressão original é «veículo automóvel», que designa o veículo que se move por si mesmo, como uma geladeira autodescongelante ou um profissional autodidata. Nos primeiros anos, a palavra importada foi utilizada como adjetivo. Na França, ainda hoje, um carro pode ser chamado indiferentemente de automobile ou de véhicule automobile.

No Brasil, essa flutuação vigorou durante uns poucos anos. Rapidamente, na certa por ser expressão muito comprida, o antigo vehiculo automovel saiu de cena e abriu passo para o substantivo automóvel. Bênção e praga dos tempos modernos.

Quotistas expulsos

José Horta Manzano

Racismo é uma coisa, ódio racial é outra. Racismo é sentimento difuso, difícil de definir. Pode assumir formas diferentes: vai da indiferença à discriminação insolente. Ódio racial é racismo elevado ao grau supremo. Quando as circunstâncias o permitem, o ódio explode em violência.

Racismo é inerente a todas as sociedades. Basta coabitarem dois grupos diferentes, e pronto: estarão presentes as condições para o surgimento de mútua antipatia. É da natureza humana o reflexo de rejeitar o dessemelhante.

A receita pra aumentar as tensões entre diferentes grupos é simples. Basta privar uns de privilégios que serão concedidos a outros. É fermento infalível. Os EUA são exemplo do dano que tais decisões da autoridade pública podem causar. Naquele país, anos de explícita segregação racial fomentaram o ódio, que explodiu em distúrbios violentos. Tumultos começaram nos anos 1960 e continuam até o presente, numa espiral infernal e, aparentemente, sem fim.

No Brasil pós-abolição, a segregação entre grupos raciais não foi explícita. Não se chegou nem perto do ódio explosivo. Não se tem notícia de enfrentamentos violentos como os que se viram nos EUA, em Ruanda, no Biafra, no Sudão. Faz alguns anos, no entanto, uma política oficial veio jogar um grão de areia na engrenagem. É a política de quotas, dita ‘racialista’. A meu ver, é medida equivocada, um passo na direção errada, um sopro na brasa dormida. Conceder privilégio a um grupo ‒ seja pelo motivo que for ‒ e não o conceder aos demais é receita certeira pra atiçar antipatia. Não é bom caminho.

Estes dias, a Universidade Estadual Paulista prepara a expulsão de algumas dezenas de estudantes que, admitidos pelo sistema de quotas, não preenchiam as condições. Em claro: não eram pretos nem pardos, portanto não pertenciam ao grupo racial ao qual o privilégio era destinado. Uma Comissão Central de Averiguação(sic) foi criada especialmente para analisar esses casos. Levam em consideração a pigmentação da pele e dos olhos, o tipo de cabelo, a forma do nariz, a espessura dos lábios.

Dá arrepio na espinha. A gente se sente na Europa dos anos 1940, nos países ocupados pelos exércitos de Hitler. Naqueles tempos tenebrosos, judeus eram obrigados a levar uma Estrela de Davi bem visível, costurada à roupa à altura do peito. Quando havia dúvida sobre a judeidade de um cidadão, ele era submetido à análise de uma Comissão de Averiguação, constituída nos mesmos moldes e com a mesma finalidade dessa da Unesp.

Estamos a dois passos de conflitos raciais. A continuar assim, perigam explodir a qualquer momento. No Brasil, o melhor caminho será abandonar essa tresloucada ideia de separar indivíduos por raça. Que se melhore o ensino fundamental e médio para todos os alunos ‒ pretos, brancos ou azuis. E que cada um siga sua estrada conforme os próprios méritos. Se quiser cursar faculdade, que curse. Se não quiser, há mil ofícios à espera do candidato. Mas que não tenha de carregar, pelo resto da vida, o estigma de ter tido de recorrer ao privilégio das quotas pra entrar na escola.

Voto eletrônico ‒ 2

José Horta Manzano

A democracia semi-direta suíça se assenta sobre dois pilares: a representação popular e a consulta direta ao eleitor. O grande número de cidadãos impede, por razões práticas, que cada suíço seja individualmente consultado a cada decisão legislativa ou administrativa a ser tomada. Para contornar essa pedra, existe um parlamento, como nos demais países. Os eleitores elegem representantes que, agindo em seu nome, farão leis e tomarão decisões.

Além desse sistema afunilado, em que um só parlamentar carrega a voz de milhares de concidadãos, o país dispõe ainda de um azeitado sistema em que o eleitor participa diretamente, passando por cima de representantes. A cada três meses, em média, todos são convocados a votar. Há vários objetos em jogo. O votante poderá dar opinião sobre leis já votadas, projetos de lei, medidas administrativas, mudanças constitucionais ‒ tanto no âmbito federal, quanto cantonal ou municipal.

Vota-se este fim de semana

Nos tempos de antigamente, no dia designado, todos se dirigiam ao local eleitoral e depositavam o boletim na urna. Já faz tempo, há uma segunda opção: o voto por correio. Um mês antes de cada voto, os eleitores recebem em casa as informações e o material necessário. Votam e devolvem pelo correio, o que não deixa de ser prático. Mas os tempos têm mudado. A chegada da internet oferece mais uma opção: o voto eletrônico.

Muitos estão ainda reticentes à novidade. O temor está ligado à insegurança do sistema. Histórias de hackers, piratas russos e invasores chineses assustam muita gente. Por enquanto, somente 3 dos 26 cantões adotaram o novo método. As autoridades garantem que se trata de sistema confiável e inviolável. Já o eleitor fica meio assim, desconfiado, com receio de que seu voto não chegue a bom porto.

Voto de cabresto

É questão de tempo. Mais alguns anos, e os temores estarão dissipados. Já no Brasil, a questão não é tão simples. Tecnicamente, o voto eletrônico podia ser instaurado. Quem consegue a proeza de organizar a urna eletrônica em todo o território nacional deve estar em condições de garantir que cada eleitor possa votar a partir do próprio telefone ou computador, em toda segurança. Só que o problema é mais complexo.

Os brasileiros se espalham num leque muito aberto de classes sociais, com abissais disparidades de nível de instrução entre elas. Essa realidade é um freio ao exercício do voto longe do olho vigilante de mesários. O voto em casa seria porta aberta para o voto vendido. Bastaria que o vendedor entregasse ao comprador o material eleitoral e a senha. O perigo é demasiado grande. Na Suíça, o voto eletrônico tende a se alastrar. No Brasil, vai demorar um bocadinho mais.

Formado e atravancado

José Horta Manzano

Na prática, a teoria é outra ‒ taí uma verdade difícil de contestar. O jovem, ao escolher uma profissão, sonha com o dia em que há de sair da escola com o canudo debaixo do braço. Já imagina o emprego de bom nível, o laboratório montado, o ateliê abrindo as portas, o consultório equipado, o escritório funcionando, clientela crescendo. É normal (e é bom) ter projetos.

Canudo recebido, no entanto, a situação pode não se revelar exatamente como sonhada. O Ipea ‒ Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ‒ acaba de publicar um levantamento cujas constatações são alarmantes. Nada menos que 38% dos que batalharam pra conseguir diploma trabalham fora da área em que se formaram. Entre a população jovem, o número é ainda maior: são mais de 44%. E a situação tende a agravar-se. A série histórica só cobre sete anos, mas já mostra que os números aumentam ano após ano.

Se o distinto leitor se encontra nessa situação, só posso apresentar-lhe minha solidariedade. Se não é o caso, tente imaginar o drama de alguém que, depois de ter sonhado, feito projetos e batalhado duro pra chegar ao objetivo, é obrigado a seguir caminho diferente do que tinha planejado. É drama pessoal que deixa gosto amargo de derrota e impotência.

Cada caso é um caso, não há dúvida. Que um indivíduo aqui, outro ali, tenha de desviar da meta é coisa que acontece. São as incertezas da vida. Um acidente, uma doença ou outro acontecimento podem fazer que a prática se dissocie da teoria. Quando, no entanto, metade dos jovens tem de sobreviver exercendo em área diferente daquela em que se formou, já não se pode falar de acidente pessoal. É praga de dimensões nacionais.

Não acredito que o brasileiro seja menos inteligente nem menos capaz que um alemão, um mongol, um havaiano ou um malgache. Isso posto, sobram duas possibilidades. Por um lado, pode ser que o jovem não esteja sendo corretamente orientado no momento de escolher uma carreira. Essa é a hipótese mais branda. Pra resolver, basta instituir um serviço nacional de orientação profissional, equipado e capacitado pra secundar o jovem que deixa o ensino obrigatório, no momento de eleger profissão.

Por outro lado ‒ e esta é a hipótese mais complexa ‒ é possível que o ensino oferecido pelas faculdades e escolas profissionalizantes não esteja sendo capaz de formar bons profissionais. Se assim for, o problema é bem mais espinhudo. Não é impossível de resolver, mas vai levar tempo. E é bom começar logo.

Ordem inversa traiçoeira

José Horta Manzano

Quando estamos numa roda de amigos ou papeando na cozinha de casa, temos todos o direito de soltar o verbo sem dar atenção especial à colocação dos pronomes, ao tempo verbal, a repetições e pleonasmos. Podemos “comer” um s de plural aqui, outro ali. Entre gente de casa, o clima é de liberou geral.

Quando se fala ou escreve «pra fora», ou seja, quando o que dizemos ou escrevemos é para uso externo e periga ir além do círculo mais chegado, a coisa muda de figura. Na categoria dos que escrevem «pra fora», estão, lá no topo, jornalistas e homens de imprensa. Nesse nível, um deslize em qualquer setor da gramática pode pegar mal, muito mal.

Continuo surpreso de constatar que diretores de redação ainda não se deram conta do estrago que pode causar ao jornal um erro bem na primeira página. No mínimo, deixa a impressão de desleixo. No pior dos casos, transpira ignorância.

Chamada Estadão, 17 dez° 2018

Na manchete de hoje, a ordem inversa dos termos levou o estagiário a trocar os pés pelas mãos. Não tendo entendido que o sujeito de aparecer era melhores jogadores, deixou o verbo no singular. Ficou esquisito.

No entanto, é fácil não errar. Em casos como esse aí, quando há dúvida, basta botar a frase na ordem direta, que tudo fica mais claro. «Em 2019, se melhores jogadores não aparecerem, os técnicos serão astros.» Assim, fica evidente que o sujeito no plural (melhores jogadores) exige verbo no plural (aparecerem).

O problema é que estagiários se têm comportado com crescente displicência, como se vivessem numa permanente roda de amigos. Aí, o espírito crítico afrouxa. É desastre à certa.

Ministério da Defesa

José Horta Manzano

Em 1999, a nomeação de doutor Élcio Álvares para o posto de ministro da Defesa causou frisson. Mal passados quinze anos do fim do regime militar, um civil chefiaria Exército, Aeronáutica e Marinha ‒ pela primeiríssima vez na história da República. Almirantes, brigadeiros e generais haviam de prestar continência a um civil! Uma revolução.

De lá pra cá, os espíritos estão menos toscos. Ainda assim, se um civil na Defesa é hoje visto como natural, esse civil tem de ser necessariamente do sexo masculino. Mulher comandando milico? Nestas terras de Santa Cruz, nem pensar!

No entanto, em terras menos pudendas, ninguém mais se espanta de ver alguém de saias dando instruções a fardados. No momento, dez países europeus têm uma mulher como titular do Ministério da Defesa. São eles: Espanha, França, Holanda, Alemanha, Itália, Albânia, Macedônia, Montenegro, Bósnia-Herzegovínia e Eslovênia.

Com a designação de Frau Viola Amherd para a chefia do Ministério da Defesa, com tomada de posse prevista para 1° de janeiro 2019, a Suíça entra para o clube. Serão onze países europeus.

Um século de pérolas presidenciais ‒ bis

Texto publicado originalmente em 28 jun° 2015

“Hoje eu estou saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil!”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, sobre Windhoek, capital da Namíbia, África

Presidentes

“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

Presidente 3“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

Presidentes galeria

“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes

Inspirado em coletânea organizada por Pedro Luiz Rodrigues e publicada no Diário do Poder.