Vaia

José Horta Manzano

Levar uma vaia, taí uma coisa desagradável. Ninguém deseja isso nem a seu pior inimigo. Isto é… bem… hããã… é melhor mudar de parágrafo.

Desagradável ou não, ela está na moda mas ninguém quer saber de enfrentá-la. Todos fogem, uns discretamente, outros na caradura.

Nossa presidente, escaldada pelos apupos de que foi alvo na cerimônia de abertura, anunciou, num primeiro momento, que pretendia peitar a multidão e se apresentar na final da copinha destemidamente in personam. Com os acontecimentos quentes que se seguiram àquele dia, ela mudou logo de ideia. Pelo menos, teve o mérito de ser clara: disse que tinha decido não ir. E pronto.

Vaia

Vaia

Já um antigo presidente, escaldado meia dúzia de anos atrás quando dos Jogos Panamericanos, esgueirou-se como pôde. Mandou-se para a África. Preferiu guardar uma respeitosa distância de 10 mil quilômetros dos estádios ― que hoje têm o sugestivo nome de «arenas».

Os torcedores hão de ter sentido muita falta do antigo mandatário. Logo ele, que tinha batalhado tanto para que esse torneio se realizasse em território nacional… É realmente uma pena que obrigações imperativas o tenham retido tão longe do carinho do povo que tanto o adora. Uma pena.

Outros mandarins valeram-se de, digamos assim, «malfeitos» para estar presentes. Para chegar ao Rio de Janeiro, requisicionaram avião da FAB, que ninguém é de ferro. Discretos,  confundiram-se com a multidão, julgando-se assim a salvo de olhares indiscretos. Tiveram de aprender de forma brutal que, nos dias de hoje, está cada vez mais difícil passar despercebido.

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Etimologia

Vaia é termo que utilizamos para demonstrar desagrado com o desempenho de um artista no palco. Accessoriamente, costuma-se vaiar para mostrar descontentamento com a simples presença de determinada pessoa em determinado lugar.

Dificilmente alguém vaia sozinho. É mais comum que vaias partam de uma multidão ou, pelo menos, de um grupo consistente. É mostra de desagrado coletivo, bem mais temível que o aborrecimento de um indivíduo só. O antigo palco vem sendo substituído por «arenas» e por telões. Sinal dos tempos.

Embora não se note à primeira vista, vaia é palavra de origem onomatopaica, daquelas que tentam imitar o som original. Aliás, várias outras línguas se valem de onomatopeia para dar nome à vaia.

Os ingleses dizem to boo e os franceses huer. Os espanhois preferiram abuchar, derivado do grito com que chamavam falcões amestrados.

Vaia

Vaia

Os italianos não seguiram a norma. Preferem dizer fischiare, assobiar. Os alemães vão pelo mesmo caminho quando dizem auspfeifen, assobiar.

Mas a raiz de nossa vaia não está plantada em terras brasileiras nem tampouco lusas. Vem de mais longe.

O italiano moderno guarda o termo baia (báia), derivado do verbo baiare, já obsoleto. Usa-se sobretudo na expressão «dare la baia» a alguém, com o sentido de zombar dessa pessoa.

O francês costumava usava o termo baie com o sentido de engodo, enganação. A palavra caiu em desuso há mais de 100 anos.

A hipótese mais provável da origem de nossa vaia é uma onomatopeia, uma imitação do uivo dos cães. É parente do italiano abbaiare e do francês aboyer, ambos significando ladrar.

Políticos não temem a lei, mas abominam a vaia. Vamos em frente, brava gente: povo que vaia unido chega lá!

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Viva São João!

José Horta Manzano

Amanhã é dia de Santo Antônio, aquele que encontra as coisas. Nossas avós já ensinavam que, quando se perdeu alguma coisa, o melhor é invocar Santo Antônio. Não costuma falhar.

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Diz-se de Santo Antônio que é casamenteiro. Encontrar um par para almas solitárias há de fazer parte de suas atribuições.

Na verdade, a hagiologia é um tanto vaga e um bocado imprecisa quanto a esse personagem. Sabe-se que nasceu em Lisboa pouco antes do ano 1200, que se tornou grande orador, que abraçou a Ordem Franciscana, que morreu com trinta e poucos anos, em 1231. Descendente de Carlos Magno, nasceu em berço aristocrático e adquiriu elevada cultura. Foi canonizado a toque de caixa, menos de um ano após sua morte.

É o padroeiro da capital portuguesa, onde o conhecem como Santo Antônio de Lisboa. Já no resto do mundo é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua, epíteto que lhe foi pespegado por ter vivido algum tempo na cidade vêneta.

Por que encontra objetos? Não há consenso quanto à origem da lenda. Muito mistério envolve a vida desse santo. Atribuem-lhe o dom da ubiquidade ― dizem que conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Dizem também que tinha o poder de falar aos animais. Tão difícil é contestar quanto provar essas habilidades.

Quadrilha

Quadrilha

Mas hoje não é dia de missa, podemos nos dedicar a atividades mais profanas. A dança, por exemplo. Estamos em época de festas juninas. Falemos um pouco de quadrilha, ora pois!

A dança de grupo que se costuma praticar no Brasil nesta época não é de origem nacional. Nem portuguesa tampouco. É possível que suas raízes estejam plantadas em terras inglesas. O que se sabe com segurança é que a quadrilha se pôs de moda na França no começo do século XIX. Sobreviveu mais de um século, até a Primeira Guerra Mundial, quando foi varrida dos salões pelos novos ritmos trazidos pelos militares americanos que tinham vindo combater nas trincheiras europeias.

A quadrilha francesa era dança de salão rigorosamente codificada. Naqueles tempos anteriores à valsa vienense, liberdade de inventar seus próprios passos não era deixada a cada par. Obedeciam todos a um ritual imutável. Os participantes tinham obrigatoriamente de formar pares, cavalheiros e damas em número igual.

Os movimentos da quadrilha eram classificados em grupos e subgrupos. Alguns passos juntavam os homens e os apartavam das mulheres. Outros reagrupavam os participantes em pares. Alguns compositores se dedicaram a escrever música especialmente para essa dança.

Quadrilha

Quadrilha

Na França, algumas reminiscências da quadrilha sobrevivem, nada mais que em associações folclóricas dedicadas à conservação do patrimônio cultural. Não sei como andam as coisas no Brasil estes últimos anos, mas é bem capaz de essa dança de salão ― ou de terreiro, depende do clima… ― estar mais vivaz em terras de Pindorama do que na pátria gaulesa.

Um detalhe interessantíssimo é o fato de a quadrilha brasileira ter mantido, para alguns dos passos codificados, os nomes originais franceses. Estão um pouco arrevezados, é verdade. Assim mesmo, por detrás dos sons deturpados e amoldados à nossa fonética, ainda dá para reconhecer alguns comandos de 200 anos atrás. Em francês, naturalmente.

Eis alguns:
Balancê = balancé
movimento do corpo para a frente e para trás

Tur = tour (de main)
passo que reaparece no rockn’ roll

Alavantu = à l’avant tous
todos para a frente

Alavandê = à l’avant deux / en avant deux
dois passos à frente

Anarriê = en arrière
para trás

Changê = changer (de dame)
mudar (de dama)

Visavi = vis à vis
pra frente e pra trás com as damas paradas em frente

Quadrilha

Quadrilha

Alguns outros passos foram conservados no Brasil, mas tiveram seus nomes traduzidos ou adaptados:

Caminho da roça = promenade, demi-promenade

Grande roda das damas = chaîne des dames

Grande roda = chaîne, chaîne anglaiseInterligne 08
O importante é que Santo Antônio dê a cada um o que ele estiver procurando. E quentão, pinhão e pé de moleque para todos nós!

Sem gritar água vai

José Horta Manzano

A cidade do Rio de Janeiro já ia para seus 300 anos de idade. Londres e Paris não estavam longe de completar o segundo milênio. No entanto, nenhuma delas contava com sistema de canalização de águas usadas. E como faziam as gentes?

Ora, é simples. No Rio de Janeiro, os dejetos eram acumulados em casa, em barricas de madeira chamadas cubos. Chegada a hora de esvaziar o tonel, um escravo levava a mercadoria para despejá-la na praia mais próxima ou nalgum córrego. Esse labor se desempenhava de preferência à noite, talvez para evitar que o cheiro nauseante assustasse eventuais passantes.Rua medieval 2

Já londrinos, parisienses e mesmo cariocas pertencentes à casta dos sem-escravo tinham de se virar sozinhos. Lavavam seus pertences em bacias e faziam suas necessidades em penicos. De manhã, abriam a janela e simplesmente atiravam a imundície na rua. Como sinal de cortesia para com eventuais passantes, gritavam antes: «Água vai!»(*). Não esqueçamos que o Rio de Janeiro contava já com alguns sobrados, o que não facilitava a vida de quem se encontrasse no momento errado no lugar errado.

As ruas, já desde a antiguidade, costumavam ter uma valeta central ou lateral ― um afundamento do calçamento de pedra. A finalidade era justamente escoar, bem ou mal, as águas servidas. O espaço público era tratado como lixeira. Sob climas tropicais, em especial, ruas e praças haviam de exalar uma abominável fedentina.

A ideia de canalizar o esgotamento doméstico foi um passo admirável. Começou, naturalmente, em Londres, centro urbano mais importante do planeta em meados do séc. XIX. De lá, espalhou-se pelo mundo.Paraty

Até cem anos atrás, o volume de lixo era relativamente baixo. Além daquilo que o esgoto canalizado podia levar, sobrava o lixo doméstico, em maior parte orgânico. Firmas e escritórios deixavam papel e papelão.

Com o inchaço das aglomerações, o volume de lixo, naturalmente, cresceu. Até os anos 1950-1960, os dejetos continuaram sendo basicamente constituídos de restos de comida e de papel. Isso favoreceu o aparecimento da figura do catador de papel, ofício exercido ainda hoje. Dos anos 60 para cá, a composição dos detritos foi-se diversificando. Com a irrupção dos diferentes materiais plásticos, já não se encontra mais lixo como antigamente.Rua medieval 3

Hoje em dia, o plástico ocupa lugar preponderante. O metal, praticamente inexistente no lixo antigo, aparece agora aos montes, usado que é para acondicionar bebidas várias.

Países mais adiantados se deram conta de que os hábitos da população tinham de ser modificados. Sete bilhões de humanos produzem milhares de toneladas diárias de lixo, em boa parte reaproveitável. Reciclável, sim, mas desde que se respeitem normas básicas. Lixo orgânico não pode estar misturado com material plástico nem com metais. Papel é um mundo à parte. Vidro, então, não combina com nada. Como fazer?

Alemanha e nações escandinavas, entre outras, já tomaram sua decisão há pelo menos 20 anos: a triagem tem de começar em casa. É muito mais fácil separar na origem do que esperar que esteja tudo misturado, melado e emporcalhado.

Hoje em dia, cidadãos de vários países ― entre os quais os suíços ― já aprenderam: selecionam os detritos antes de descartá-los. Chega-se a ter 7 ou 8 recipientes em casa, cada um para um tipo de lixo. Em seguida, os recipientes são esvaziados em caçambas específicas. O lixo orgânico será transformado em adubo. Os metais, o plástico, o vidro, o papel retornarão ao ciclo de fabricação de onde saíram. É questão de bom-senso.

Anuncia-se estes dias que o senhor Haddad, prefeito da mais populosa aglomeração brasileira, anda implementando o aperfeiçoamento das megacentrais de triagem de material reciclável. Pretende dar cursos profissionais a catadores de papel. Até empréstimo do BNDES está sendo pleiteado para essa finalidade. Veja o Estadão e O Globo.Rua medieval 1

Por mais que a sorte dos catadores de papel possa condoer nossos corações, somos obrigados a admitir que é ofício em via de extinção. Desapareceram os acendedores de lampião a gás, os amoladores de faca, os motorneiros de bonde, os funileiros que consertavam panelas, os escreventes de feira livre. Os catadores de papel desaparecerão também, que tenham ou não seguido cursos de capacitação.

Ao persistir na opção atual, que deixa a triagem do lixo a cargo do poder público, o prefeito de São Paulo não está prestando um favor à população. Como é habitual nos políticos brasileiros que o têm apadrinhado, o senhor Haddad demonstra não dispor da visão que se espera de um estadista. Afaga os catadores de papel e vai empurrando o resto com a barriga. As gerações futuras que se virem.

É, o fruto nunca cai muito longe da árvore.Interligne 05

(*) A expressão sem dizer água vai (ou sem gritar água vai) permanece até hoje na língua. É usada quando alguém comete um ato bruscamente, sem pré-aviso. Corresponde exatamente à expressão francesa sans crier gare e à espanhola sin decir agua va.

Emergentes

José Horta Manzano

A raiz merg, que aparece no verbo latino mergĕre, não foi muito produtiva. Deixou prole escassa, hoje presente em meia dúzia de palavras em cada língua românica. Imergir, emergir e submergir são os membros mais ilustres da família. Seus derivados entram também na lista: imersão, submersível, emergência.

O étimo deixou também uma descendência de ares menos eruditos. São palavras que, com um jeitão mais pobre, caíram na boca do povo. Mergulho e seus parentes mergulhar e mergulhador estão entre elas. Mergulhão é nome usado para designar uma boa dezena de famílias de aves, desde o cormorão europeu até o biguá amazônico.

Esses pássaros têm todos em comum o fato de serem predadores aquáticos.Voando em alta velocidade, quase na vertical em direção à superfície da água, conseguem mergulhar até alguns metros de profundidade e, assim, capturar o peixe ou o crustáceo que lhe servirá de almoço.

Imergir e submergir indicam movimento descendente. Quem ou aquele que sai da água emerge, volta à superfície. Em princípio, para emergir, é preciso haver estado submerso.Imersão

Até não muitas décadas atrás, o planeta se dividia em alguns poucos países desenvolvidos e uma multidão de subdesenvolvidos. Era assim que se usava dizer. Mas isso foi num tempo em que se davam às coisas e aos fatos seus nomes verdadeiros, sem ter de recorrer a eufemismos «politicamente corretos». Saber que seu país natal era subdesenvolvido não ofendia ninguém.

De uns tempos para cá, subdesenvolvimento virou tabu. Ai de quem classificar assim um país! Lá pelos anos 80, os subdesenvolvidos foram promovidos a uma categoria superior, a de «países em desenvolvimento». A denominação mudou, mas chineses, indianos, indonésios e brasileiros continuavam a viver as mesmas agruras de antes.

Desde que o século XXI despontou, os grandes «países em desenvolvimento» começaram a sentir um certo desconforto ao serem classificados na mesma categoria de territórios miseráveis. Forjou-se então uma classificação intermediária. Apareceram os «países emergentes».

Segundo os critérios geralmente aceitos, são chamados emergentes os países que apresentam um forte crescimento do PIB, um nível relativamente elevado de industrialização e de exportação de produtos industriais, uma taxa importante de abertura ao exterior e um mercado interior em expansão. Muito poucos são os que correspondem a essas quatro condições. Em rigor, somente a China e, alguns degraus abaixo, a Índia preenchem os requisitos. Ninguém mais.

Nosso País chegou a registrar excepcional e constante crescimento do PIB entre 1960 e 1980. Depois disso, hesitou. Hoje, praticamente estacionou.

A industrialização brasileira cresceu impressionantemente a partir dos anos 1940. Continuou, sem parar, até o começo dos anos 1990. Hoje tentamos segurar, mal e mal, o que sobrou. Nossa luta atual se restringe a estancar ou, pelo menos, limitar a desindustrialização.

A abertura ao exterior nunca foi nosso forte. Importações e exportações têm sido historicamente entravadas por monoculturas, chicanas burocráticas, infraestrutura cronicamente deplorável.

Sobra-nos um mercado interior em expansão. Sim, é verdade. Mas é um mercado ironicamente ávido por produtos industriais ― e até agrícolas! ― vindos do exterior.

Há solução? Certamente. Só para a morte não há remédio. Mas os problemas acumulados são tantos e a vontade de resolvê-los tão escassa que, a curto prazo, não há grande esperança.

Por enquanto, o mais cômodo seria criar uma nova categoria de países. Na base da pirâmide, teríamos os que estão «em desenvolvimento» (leia-se os miseráveis). No meio, continuariam os «emergentes», aqueles que estão já mais pra lá que pra cá, quase chegando. No topo, como de costume, os «desenvolvidos».

E o Brasil como fica? Ora, que se invente uma categoria intermediária entre pobres e remediados. Poderemos chamá-la, por exemplo, «países em via de emersão». Com isso, voltaremos a nos ufanar de nossas conquistas. Sem ficar com a consciência pesada.

Em terra de cego

José Horta Manzano

Em terra de cego, quem tem um olho é rei. É o que se costuma dizer.Peruca empoada 2
Mas os redatores do STF andam exagerando na dose.
Para eles, ter um olho não basta.
Não dispensam um pincenê e uma peruca empoada.

A mestra Dad Squarisi
― escritora, especialista em língua portuguesa,
editorialista e editora de opinião do Correio Braziliense ―
descreveu, em linguagem bem-humorada,
a impressão que lhe causaram
os recém-publicados acórdãos do mensalão.

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DE MAL COM A LÍNGUA

Dad Squarisi

Qual o texto mais aguardado por esta alegre Pindorama? Ganha um bombom Godiva quem respondeu a ementa dos acórdãos do mensalão. Ufa! Foram quatro meses de espera. Agora, finalmente, a obra veio à luz. Advogados, políticos, estudantes, réus, corréus, familiares, amigos, inimigos, indiferentes congestionaram o site do Supremo. Mas não desistiram. Pacientes, chegaram lá. Ao pôr os olhos no documento, ops!

Baita surpresa os espreitava. As 14 páginas parecem floresta sem clareiras. Mas percorrê-las é preciso. Vá lá. Tropeços em rimas, vírgulas, redundâncias, maiúsculas & cia. descuidada não arrefecem a avidez da leitura. O interesse no conteúdo abre trilhas. Ilumina desvios. Permite ignorar os obstáculos. Mas nem todos. Alguns freiam os pés e dificultam a marcha.

O tamanhão dos períodos impõe idas e vindas. Testes sobre a memória demonstram: o leitor retém bem frases com 150 toques. Com 200, guarda a segunda metade pior que a primeira. Com 250 ou mais, grande parte do enunciado se perde. Valha-nos, Padim Ciço. Períodos com mais de mil caracteres são regra, não exceção. Todos ostentam uma marca — o corte de relações com o ponto final.

Eis uma provinha de 296 dos 1.352 toques de um parágrafo: “Prosseguindo no julgamento quanto ao item III da denúncia, após o voto da Ministra Rosa Weber acompanhando parcialmente o Relator, divergindo somente em relação ao réu João Paulo Cunha para absolvê-lo do delito de peculato decorrente da contratação da empresa IFT – Idéias, Fatos e Texto Ltda., deixando a apreciação dos delitos de lavagem de dinheiro…” Quer chegar ao fim? Vá ao site do STF. Antes, previna-se. Peça socorro à legibilidade.

Passagens confundem. Ao passar por elas, o pobre leitor não sabe quem faz o quê: “O presidente indeferiu a suscitação de questão de ordem pelo advogado Alberto Zacharias Toron, ressalvando que poderá fazê-la por ocasião de sua sustentação oral”. Valha-nos, Deus! Quem é mesmo que vai fazê-la — o presidente ou o advogado? Com a palavra, a ambiguidade.

Qual é a da reforma ortográfica? Até 2016 convivem as duas grafias. Pode-se adotar uma ou outra. Só não vale misturar as estações. É o que fazem os acórdãos. Ora omitem o trema (cinquenta), ora o conservam (cinqüenta). Ora omitem o acento diferencial (polo), ora o ressuscitam (pólo). Ora atualizam o hífen (coautor, corréu), ora voltam ao passado (co-autor, co-réu). Cadê a coerência? O gato comeu.

E fez mais estragos. Nem o pronome escapou. O indefinido cada tem alergia à solidão. Pra evitar coceiras e brotoejas, anda sempre acompanhado. O texto às vezes respeita a fragilidade do dissílabo (cada um dos agentes), às vezes pisa-a sem piedade (multa no valor de 10 salários mínimos cada). Mais: a colocação do átono não se decide. Ou fica de olho na atração. Ou a ignora com desdém. O esta e o essa? A dupla compõe o samba do demonstrativo doido.

O ex aproveita o ritmo e dança. Fora do baile, o prefixo dá um recado claro. Diz que alguém foi, mas deixou de ser. O ex-marido dividiu a cama com a mulher, mas deixou de fazê-lo. O ex-ministro usou crachá de excelência, mas o devolveu. Enquanto foram marido e ministro, não eram ex. É o caso de João Paulo Cunha. Ele cometeu os malfeitos quando presidia a Câmara dos Deputados.

Eis o xis da questão. Os acórdãos o cassaram em pleno exercício do cargo: “Vinculação entre o pagamento da vantagem e os atos de ofício de competência do ex-presidente da Câmara, cuja prática os sócios da agência pretenderam influenciar”. Que baguuuuuuuunça. Mesmo sem poder, o homem fez e aconteceu. É mágica? Não. É cochilo da revisão.

República Federativa

José Horta Manzano

Você sabia?

Federal ― está aí um termo de uso corrente no Brasil. Pacto federal, Polícia Federal, Tribunal Federal, Câmara Federal. Alguns filhotes também estão na língua do dia a dia: federação do comércio, federação de esportes, federação estudantil. Mas de onde, diabos, vem essa palavra?

Já no sânscrito, etimólogos identificam a raiz bandh, com significação de ligar. O radical chegou ao grego antigo sob a forma feithê e, daí, passou ao latim como fides. Nessa altura já havia assumido o sentido de fé, confiança.

Com o passar dos séculos, a família foi crescendo e se multiplicando, como mandam as Escrituras. Mas o significado pouco evoluiu. Continua expressando a fé, a confiança entre pessoas ou conjuntos de pessoas. Uma federação é um grupo em que uns confiam nos outros e todos miram a um objetivo comum.

Confiar, desafiar, perfídia, confidência, fiança, fiador, fiel, fidelidade são da mesma família. Quem vende fiado, vende na confiança.

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A Confederação Helvética ― nome pomposo da Suíça ― divide-se em cantões, correto? Não, caros leitores, não é bem assim. A Confederação Suíça não se divide em cantões, mas é formada por eles. Como assim, que diferença faz?

Diferentemente da idéia que temos no Brasil, segundo a qual o País se divide em unidades mais ou menos estáveis, a Confederação Suíça foi formada pela agregação paulatina de novos estados. As unidades já existiam antes de se juntarem ao grupo.

Tudo começou mais de 700 anos atrás, quando três pequenos territórios se uniram no intuito de defender-se mutuamente de predadores externos. Uma espécie de «unidos, venceremos», ideia avançada para a época. Aconteceu na Idade Média, exatamente em 1291, reza a História.

Suisse

Suíça – Confederação Helvética

A partir de então, vendo que a união podia realmente fazer a força, outros pequenos territórios foram, pouco a pouco, solicitando sua adesão à federação. Que tenha sido em razão de perseguição religiosa ou por algum outro interesse comercial ou estratégico, outras pequenas províncias foram aderindo ao agrupamento inicial.

Não aconteceu da noite para o dia. Mais de 500 anos separam o pacto entre os três cantões e os últimos a se juntarem ao grupo. Um detalhe interessante: em listagens e estatísticas suíças oficiais, os cantões não aparecem em ordem alfabética. São sistematicamente relacionados na ordem de entrada na Confederação.

Como em toda família que se preze, desavenças também ocorreram por aqui. Em alguns casos, razões de ordem religiosa ou linguística fizeram que cantões se desentendessem e acabassem se subdividindo. Mas nem por isso abandonaram a federação.

Jamais aconteceu de a autoridade central decretar a subdivisão de cantões. A iniciativa sempre partiu do nível local para ser, em última instância, referendada pelos outros membros da confederação.

A última refrega é relativamente recente. O Cantão de Berna, dono de grande território ― para os padrões suíços, naturalmente ― conta com população majoritariamente de língua alemã e com uma minoria de francofalantes. Os de fala francesa, que, ainda por cima, são católicos, diferentemente da maioria protestante, reivindicaram durante séculos sua autonomia.

A coisa foi sendo cozinhada em água morna até que ferveu no século XX. A região chegou até a conhecer espantosos atentados terroristas! Bem, não há que imaginar homens-bomba explodindo em plena multidão, nada disso. Um ou outro artefato arrebentou alguma estátua, na calada da noite, sem que ninguém fosse atingido.

Nos anos 70, Berna finalmente concordou em organizar um plebiscito nos distritos de fala francesa para permitir que a população se pronunciasse. Em 1974, a maioria dos distritos se pronunciou pela separação. Outros preferiram continuar a fazer parte do Cantão de Berna.

Por sorte, os distritos que votaram pela autonomia formavam um território contínuo. Como havia sido combinado, ganharam o direito a formar um novo cantão. Faltava ainda ver se os cidadãos da Confederação aceitavam o novo membro. O povo se pronunciou favoravelmente. Ufa! Em 1978 nasceu, assim, o último cantão suíço. Chama-se Jura.

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No Brasil, fala-se frequentemente em subdividir estados. Aliás, a teoria já foi posta em prática algumas vezes no século passado. Taí uma visão enviesada da ideia de federação. Criar novos estados sem que haja uma real demanda da população contraria o figurino.

Faz ano e meio, escapamos por pouco de ver o Pará fragmentado em unidades menores. Numa república federativa que se preze, tentativas assim não fazem sentido. O anseio pela independência deve vir de baixo para cima. Não é o que acontece no Brasil.

A fé e a confiança têm de nortear decisões graves como essa. Uma federeção não é criação artificial decidida por um poder central. Pelo contrário, é um agrupamento voluntário de unidades autônomas ou semiautônomas. Tudo isso não foi feito para satisfazer a interesses particulares deste ou daquele clã.

Há uma alternativa: é rasgar a Constituição atual, votar uma nova, eliminar a palavra federativa do nome da República e anular a autonomia dos Estados. Teremos então, como a França e tantos outros países, uma república unitária, na qual o poder emana unicamente da autoridade central. Aí, sim, estaremos entendidos.

Não é proibido, evidentemente. Mas não acredito que seja o anseio maior dos brasileiros.

Maioridade penal

José Horta Manzano

Tem gente que diz ser a favor da redução da maioridade penal. Outros se pronunciam contra. E você?

Antes de responder, vamos nos preocupar um instante com a propriedade vocabular. É a arte de utilizar a palavra mais adequada para cada contexto. É de grande  importância para evitar mal-entendidos. As palavras devem ser tratadas com mais respeito. Não se deve simplesmente jogá-las ao vento.

Vamos analisar juntos.Grammatica 1

A maioridade
O que é a maioridade penal? É a condição em que vivemos todos os que já completamos 18 anos de vida. Se for o seu caso, caro leitor, você é penalmente maior. Vive seu período de maioridade penal. E, sou obrigado a dizê-lo, nunca mais deixará de ser penalmente maior. É para o resto da vida, até seu último suspiro.

Portanto, a maioridade penal é o período que vai do dia em que o indivíduo completa 18 anos até o dia em que deixa este vale de lágrimas. Aos 18, o jovem atinge a maioridade penal.

A redução
Quando Pedro (ou João ou Paulo) diz ser a favor da redução da maioridade penal está usando palavras tortas. O que ele quer, suponho, é que o jovem seja imputável já antes de completar 18 anos. O que Pedro quer, no fundo, é que a duração da maioridade penal seja aumentada (prolongada), isto é, que já entre em vigor a partir do momento em que o cidadão completa 16 ou 17 anos. Estão percebendo o duplo sentido? Pedro diz querer reduzir, mas o que ele quer mesmo é espichar. Confuso, não?

Por que evitar essa palavra
Reduzir, diminuir, ampliar, aumentar não são as melhores palavras para este caso. Trazem embutido o sentido contrário do que o indivíduo gostaria de exprimir.

Quando entra em vigor a hora de verão (curiosamente conhecida como «horário» de verão), o que é que fazemos? Aumentamos o relógio? Ampliamos os ponteiros? Prolongamos as horas? Nada disso. O verbo mais apropriado é avançar. Avançamos os relógios em uma hora.

Quando volta a hora de inverno, que fazemos? Não reduzimos relógios, não diminuímos ponteiros, não encurtamos horas. Atrasamos.Grammatica 2

Sempre que se quer modificar uma data é melhor fugir de palavras como aumentar, diminuir & correlatos. Uma data pode ser mantidaavançada ou atrasada.

Como dizer, então?
Se Pedro acredita que um jovem de 18 anos, ainda imaturo, não deve ser penalmente imputável, e que seria melhor esperar até que completasse 20 anos, dirá que a maioridade penal deve ser atrasada em dois anos.

Caso João ache que, aos 16 anos, o indivíduo já é suficientemente maduro ― e responsável por seus atos ―, dirá que a maioridade penal deve ser avançada em dois anos.

Todos vão entender e a língua vai agradecer.

De olhinhos puxados

José Horta Manzano

Você sabia?

O tomate, tal como o conhecemos hoje, é resultado de uma longa aventura. Originário da região onde se encontra atualmente o Peru, esse legume que alguns classificam como fruta já era cultivado pelos incas, nas encostas andinas, desde tempos pré-colombianos. Seu nome primitivo era tomalt.Tomate

Com o passar dos séculos, migrou até o México, onde teve o nome alterado para tomatl, mais adaptado à fonética dos dialetos astecas. Era uma frutinha minúscula, de gosto um tanto amargo, cuja maior atração era a cor, variando de amarelo a vermelho vivo.

Os conquistadores espanhóis se encantaram com a beleza da frutinha, mas readaptaram-lhe o nome para facilitar a pronúncia. Virou tomate, termo que nos chegou até hoje. Entre outras mudas de espécies exóticas, a frutinha também foi levada para a Europa. A aclimatação não foi difícil, dado que a solanácea é de natureza rústica e resistente.

No entanto, nos primeiros tempos, os europeus estranharam a novidade. Hesitaram em consumi-la, imaginando que pudesse ser venenosa. Serviu como planta ornamental.

Foram os italianos os primeiros a quebrar o tabu, assim mesmo uns dois séculos mais tarde. Assim que a provaram, aprovaram. E a polpa vermelha passou logo a colorir pratos peninsulares.

Tanto foi apreciado na Itália, que recebeu ali o nome excepcional de pomodoro (= fruta de ouro), denominação que guarda até nossos dias e que difere do original que, bem ou mal, se manteve em outras línguas.

Foi preciso que mais algum tempo passasse para que o tomate entrasse na culinária de outros países da Europa e da orla mediterrânea. Até não muitos anos atrás, os Estados Unidos e a Itália dominavam, soberanos, a produção mundial.

O tomate nunca foi adotado nas mesas do Extremo Oriente. Mas os chineses, bons comerciantes, deram-se conta de que valia a pena investir em seu cultivo. Para exportação, naturalmente.Tomate 2

Um conglomerado baseado em Ürümqi, na província de Xinjiang ― no longínquo Turquestão chinês, região fria e árida, onde o plantio só é possível durante 70 dias por ano ― encarregou-se da produção em escala industrial. Outras culturas exigem mais tempo para germinar, crescer e atingir a maturação, enquanto o tomate frutifica rápido. A produção é gigantesca, à moda chinesa. Catorze usinas espalhadas pelo território daquele país são atualmente capazes de processar 50 mil toneladas diárias da fruta.

O fato é que em poucos anos a semiestatal chinesa apoderou-se de respeitável fatia do mercado mundial de tomate industrializado. Abrange o leque completo, da fruta enlatada ao extrato concentrado, passando, naturalmente, pelo ketchup.

Em 2004, o conglomerado engoliu o maior produtor francês de tomate enlatado, uma cooperativa que vendia sob a tradicional marca Le Cabanon. Como não são bobos, os chineses mantiveram as aparências: conservaram o nome e a marca tradicionais. As etiquetas são as mesmas. A propaganda continua aludindo à romântica região da Provence, sul da França ― sem divulgar, naturalmente, a verdadeira proveniência geográfica do conteúdo.Xinjiang

Na França, poucos sabem que, ao consumir tomates Le Cabanon, não estão degustando produtos locais, mas mercadoria produzida a 10 mil quilômetros de distância.

Estes dias, jornais brasileiros andaram discretamente informando que «a polpa de tomate importada da China é mais barata que a brasileira». Isso é só o começo.

Não seria espantoso se, dentro de muito pouco tempo, conservas de tomate deixassem de ser fabricadas em Pindorama. Preparem-se. Nossas pomarolas e nossos elefantes perigam ter olhinhos puxados.

Mas… nada de pânico! Ainda temos soja para vender. Por enquanto.

Vesgo

José Horta Manzano

Acostumados que estamos a ouvir políticos de alto coturno discursando ou dando entrevista diante de câmeras, tendemos a imaginar que a boa postura e o recato fazem parte da personalidade de cada um deles.

Crédito: Ginette Ayral

Crédito: Ginette Ayral

Não é necessariamente assim. Como qualquer ser humano, eles também têm seus momentos de descontração, contam pilhérias em rodas de amigos, se soltam quando se sentem em ambiente menos pomposo.

Embora isso aconteça frequentemente, o mais das vezes o público não chega a ficar sabendo. São momentos reservados a plateia cúmplice e reduzida.

Mas todo cuidado é pouco. Nestes tempos em que cada um carrega no bolso uma máquina fotográfica, uma filmadora e um gravador, há que redobrar o cuidado. Melhor pensar duas vezes antes de pronunciar palavras desairosas.

Faz alguns dias, o presidente do vizinho Uruguai se viu numa situação embaraçosa. Momentos antes do início de uma palestra oficial, acreditando que os microfones estivessem desligados, referiu-se à mandachuva do outro lado do Rio da Prata com palavras pouco elegantes.

Para azar dele, os microfones já estavam ligados. E deu no que deu. A cena foi vista, ouvida, fotografada, gravada e filmada. Não tem como deixar o dito pelo não dito.

Ao referir-se à presidente da Argentina, o figurão, entre outras amabilidades, saiu-se com esta: «Esta vieja es peor que el tuerto. El tuerto era más político, esta es más terca».

Em vernáculo tupiniquim, ele disse nada menos que: «Esta velha é pior que o vesgo. O vesgo era mais político, esta é mais cabeça-dura».

Todos entenderam que «o vesgo» era o falecido Nestor Kirchner e que «a velha» é a viúva, a atual presidente.

Pegou muito mal. Já não não bastasse que os recatados habitantes das Falkland/Malvinas se refiram amavelmente a Doña Cristina como «old plastic face», vem agora o muy amigo vizinho pisar a ferida e chamá-la de «vieja». A presidente há de ter apreciado o cumprimento.

.:oOo:.

Fiquei pensando que, com uma pequena adaptação, a observação do senhor Mujica cairia como uma luva para nossos dois mais recentes mandachuvas maiores. Bastaria substituir «o vesgo» por uma palavra mais condizente, mais clara, mais branquinha. Deixo que cada leitor encaixe o termo que lhe parecer mais adequado.

O resto da frase fica como está.

Nicósia ou Nicosia?

José Horta Manzano

A crise econômica cipriota tem trazido ao noticiário o nome de um país do qual pouco se costumava falar. Trata-se de Chipre, grande ilha situada não longe das costas turcas.

Alguns se referem a Chipre como «uma ilhota». São considerações um tanto depreciativas que, sobretudo, não correspondem à realidade. Um território de 240km de comprimento por 100km de largura não constitui propriamente uma «ilhota». Aliás, no Mediterrâneo, a superfície da ilha é superada apenas pela da Sicília e pela da Sardenha.Chipre

No entanto, o que mais me surpreende é a maneira como o nome da maior cidade da parte grecofalante da ilha vem sendo pronunciado. Dizem e escrevem Nicósia, com acento tônico no ó. Soa muito estranho.

Os gregos ― e os cipriotas, naturalmente ― pronunciam as palavras terminadas pelo hiato ia com acento no i.

Em nossa língua, as palavras proveniente do grego e terminadas em ia, com raras exceções(*), são pronunciadas com acento no i. Dizemos democracia, filosofia, anemia, hipocrisia, homeopatia, neurastenia, zoologia, hemorragia, analogia, uremia. Por coerência, deveríamos dizer também Nicosia, como Alexandria, com a tônica no i. Os cipriotas agradecerão.

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(*) Entre as pouquíssimas exceções estão: farmácia, peripécia e polícia.

Os descendentes de Jacó

José Horta Manzano

Você sabia?

A tradição hebraica, atestada pela Gênese ― um dos livros que compõem o Antigo Testamento ― ensina que, muitos anos antes de nossa era, viveu Yakov. Neto de Abraão, filho de Isaac e de Rebeca, é um patriarca bíblico.

Acreditam alguns que seu nome derive de uma palavra significando calcanhar, dado que Yakov teria nascido agarrado ao calcanhar de Esaú, seu irmão gêmeo. Afirmam outros que o termo poderia ter o sentido de suplantar, numa alusão ao prato de lentilhas que Yakov deu ao irmão para adquirir os direitos atinentes à condição de primogênito.

À primeira vista, podemos até não nos dar conta de que está aí um dos nomes mais comuns no planeta. Sua propagação teve início com a conquista dos territórios do Oriente Médio pelos romanos. Os invasores, sabe-se lá por que razão, apreciaram o nome e logo trataram de latinizá-lo. Assumiu a forma Jacobus ou, mais raramente, Jacomus.

Passaram-se alguns séculos. A expansão do cristianismo por toda a Europa, aliada ao fato de numerosos Jacobus terem sido santificados, fez que o nome se alastrasse pelo continente. O passar do tempo se encarregou de adaptá-lo ao vernáculo de cada região.

Em algumas línguas, o antigo Yakov mantém-se ainda muito próximo da forma original. Em outras, contudo, sofreu importantes transformações gráficas e fonéticas que o tornaram quase irreconhecível.

Assim, encontramos hoje, em praticamente todas as línguas europeias, filhotes de Jacó. Dou-lhes abaixo uma lista. Ela está longe de ser exaustiva.

Bible

Inglês:
Jacob, Jakob, Jake, Jack, Jackie, Jock, Cobb, Cobby, Jeb, James, Jim, Jay, Jimmie, Jamie

Alemão:
Jakob, Jakobus, Jeckel, Jockel, Jocki, Jakel, Kobi, Köbes

Francês:
Jacques, Jacob, Jacquot

Espanhol:
Jacobo, Jaime, Diago, Diego, Iago, Santiago
(Santiago é contração do nome do santo. Sant’Iago = Santiago)

Catalão:
Jaume

Sueco, dinamarquês e norueguês:
Jakob, Jacob

Italiano:
Giacobbe, Giacobbo, Giacomo

Húngaro:
Jakab, Jákób, Jákó, Jakus

Occitano:
Jacme, Jaume

Polonês:
Jakub, Kuba, Kubuś

Armênio:
Hagop

Russo:
Яков (= Yakov)

Grego:
Ιάκοβος (= Iákovos)

Estoniano:
Jaagup, Jaak

Tcheco:
Jakub, Jakoubek, Kuba, Kubík, Kubas, Kubis

Letão:
Jekabs

Finlandês:
Jaakob

Árabe:
Yakub

Galego:
Xacobe, Xaime, Iago

Lituano:
Jokubas

Georgiano:
Iakobi

Turco:
Yakup

Ucraniano:
Яків (= Yakiv)

Albanês:
Japku, Jakup, Jakub

Napolitano:
Giacumino, Jacuviello, Jacuvo, Cuviello

Milanês:
Giàcum, Giàcumin

Piemontês:
Giàcom, Giàco, Giacolino

Curdo:
Ya’qub, Aqo

Bretão:
Jagu, Jagut, Jak, Jakez, Jakou, Iagu, Jalm

Português:
Jacó, Jaime, Diogo, Diego, Iago, Tiago, Santiago
(Santiago e Tiago provêm da mesma contração do espanhol).

.:oOo:.

Conheço dois irmãos, um chamado Tiago e o outro, Diego. Ambos fazem parte da grande família dos filhotes de Jacó.

.:oOo:.

Num outro dia, dou-lhes uma lista expressiva de sobrenomes derivados do mesmo Jacó bíblico.

A visitante

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 março 2013

Pelos anos 70, no auge de sua produtividade, a dupla formada por João Bosco ― mineiro de ascendência libanesa ― e Aldir Blanc ― carioca de nome francês ― lançou o samba Incompatibilidade de gênios. Clementina de Jesus, com sua inimitável voz andrógina, deu-lhe o empurrão definitivo para a celebridade.

Muitos se lembrarão do trecho que dizia «se eu tô devendo um dinheiro e vem um me cobrar, a peste abre a porta e ainda manda sentar». A genialidade reside, muita vez, na simplicidade. Essa frase é resumo dos princípios de polidez que nossa civilização levou séculos para destilar.

Quando se recebe alguém, antes de tratar de negócios, antes mesmo de oferecer um cafezinho, propõe-se ao convidado que se sente. Todos já ouvimos um comentário do tipo «imagine que nem me mandou sentar!», percebido como afronta.

Sentar-se antes dos outros, pôr-se à cabeceira da mesa, ficar num cantinho, ser guindado a um lugar de honra são variantes do mesmo tema, cada qual com sua simbologia. E não é de hoje: faz dois milênios, assembleias romanas já mediam o prestígio ou a irrelevância de cada participante pelo lugar que ocupava.

Era prerrogativa do chefe do parlamento sentar-se à frente dos demais. Daí o termo præsidentem, formado pelo prefixo præ (=antes) e pelo particípio presente do verbo sideo (=sentar-se). A palavra assim formada designava aquele que dirigia os trabalhos. Por caminhos tortuosos, acabou desembocando em presidente, que entre nós qualifica, por extensão de sentido, aquele que manda. Quando a função é temporariamente exercida por uma mulher, há quem prefira «presidenta», forma exótica e pouco natural para um descendente direto de particípio presente. Mas não nos percamos, continuemos em Roma.

Se todos os homens fossem iguais e pensassem da mesma forma, o mundo seria muito sem graça. Ainda bem que não é assim. No Senado e em outras assembleias romanas, alguns participantes podiam não compactuar com o chefe. Podiam até discordar da maioria. Concedo que, no Brasil de hoje, tal atitude tornou-se inusitada, mas, acreditem, não é incomum em outras paragens. Aqueles cujas ideias se chocavam com as do chefe e da maioria sentavam-se a certa distância dos outros. Cada um deles era um dissidentem, termo formado pelo prefixo dis (=separado) e pelo particípio presente do mesmo verbo sideo (=sentar-se). É fácil deduzir que a palavra latina equivale ao que hoje chamamos dissidente.Visitante 1

Brasília recebe visitas frequentes de dirigentes estrangeiros, chefes de Estado, primeiros-ministros, presidentes de assembleia e outros graduados. Acolhe também figurões que não estão necessariamente de acordo com as diretivas políticas de seus respectivos países: candidatos a cargos eletivos, por exemplo. Generosos, nossos dirigentes geralmente dão um jeito de homenagear todos os visitantes, estejam eles ou não de acordo com a maioria governante em seus respectivos países.

Um fato pra lá de curioso, no entanto, envolve a palavra dissidente. Ela é hoje usada exclusivamente para designar indivíduos que militam contra regimes autoritários. Já reparou? Ninguém qualificaria de dissidente uma figura contrária ao presidente Hollande, ao presidente Obama, ao primeiro-ministro Cameron. Nem o Lula, que só se tornou conhecido quando o autoritarismo agonizava, jamais foi chamado de dissidente. Designar alguém por esse termo implica qualificar de autoritário ― se não despótico ― o governo de seu país. É um quase ato falho de que nem todos se dão conta.

Faz alguns dias, recebemos uma visita insólita. Como nunca antes na história deste país, uma blogueira foi recebida no Congresso Nacional, com toda a pompa e circunstância devidas a um visitante notável. Veio de Cuba e chegou ao cabo de mil peripécias que não vale a pena repetir aqui.

Não é todos os dias que um visitante estrangeiro é, ao mesmo tempo, alvo de manifestações hostis e centro das atenções de congressistas. Parece que, passado o choque das primeiras carantonhas que a receberam no Recife, a moça guardou a impressão de um Brasil menos agressivo. Chegou até a dizer que levaria a recordação da pluralidade de opiniões. Melhor assim.

Um fato, porém, vale ser lembrado. Em junho de 2011, nossa atual presidente recusou-se a receber Shirin Ebadi, dissidente iraniana, já então detentora de um Nobel da Paz(!).Visitante 2

O cartão de visita de Yoani Sánchez não menciona nenhum Nobel. Ainda. É apenas blogueira e dissidente, mas isso já lhe valeu visto de entrada e homenagem do Congresso brasileiro. É um progresso.

Vai arco aí, doutor?

José Horta Manzano

A partir do começo dos anos 70, justamente quando a briga entre árabes e judeus começou a esquentar, os países produtores de petróleo se deram conta de que tinham nas mãos um fabuloso instrumento de pressão.

De repente, o planeta ficou sabendo que havia um organismo chamado Opep, fundado já em 1960. Até então, pouco se ouvia falar desse clube que reunia os grandes fornecedores do ouro negro.

O Brasil, cuja produção era pouco significante, passou a sofrer com a súbita elevação de preço do óleo bruto. O governo federal teve então um (raro) rasgo visionário. O país não podia continuar a depender de desentendimentos que se passavam do outro lado do planeta, desavenças que escapavam a seu controle. Era mais que urgente encontrar um substituto nacional para o produto importado.

Foi essa a agulhada que impulsionou a pesquisa acelerada e que, em pouco tempo, elevou a produção brasileira de álcool combustível a níveis comercialmente viáveis.

O novo líquido não tinha a mesma eficiência da gasolina, mas, de certa forma, liberava o País da dependência total dos grandes produtores. A importação continuou ― continua até hoje ― mas em escala bem mais modesta.

Foram logo lançados os primeiros automóveis com motor apto a digerir o novo carburante. O nome químico é algo pomposo: álcool anidro ou álcool etílico. Mas o povo tratou logo de acabar com essa reverência toda. Desde o primeiro dia, todos chamaram a novidade simplesmente de álcool. Quando o cidadão encostava seu veículo junto à bomba, o frentista costumava perguntar: «álcool ou gasolina?».

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Alcool 3

 

No dia 8 de março de 2007 ― está para fazer 6 anos justamente estes dias ― o presidente dos Estados Unidos, um certo George Bush (o filho), já no apagar das luzes de um mandato pra lá de criticado, fez uma rápida visita ao Brasil. Quem quiser rememorar a ocasião, que releia a reportagem da Folha de São Paulo daquele dia.  Nota: a releitura não é obrigatória.

Dizem as más línguas que George W., quando jovem, tinha uma certa quedazinha pelo álcool. Nunca me encontrei com o figurão pessoalmente, portanto não tive ocasião de fazer-lhe a pergunta diretamente. Fico-lhes devendo a  confirmação.

Não sei se terá sido para poupar más recordações ao visitante ou se alguma outra absconsa razão terá influído. O fato é que, a partir daquele exato dia, nosso álcool combustível mudou de nome. Passou a chamar-se etanol.

A etimologia e a história das línguas me atraem muito. Em tudo o que li até hoje, nunca ouvi falar de uma palavra que tenha sido espontaneamente banida e substituída por outra em 24 horas. E de maneira peremptória. Merecia até entrar para o Livro Guinness de Recordes.

Se alguém tiver alguma ideia, que se manifeste, por favor.

Emérito

José Horta Manzano

Você acha que alguns meses de serviço militar é muita coisa? Pois não viu nada! Os guardas pretorianos da Roma antiga tinham de cumprir 16 anos. Para os legionários, então, era mais duro ainda: 20 anos. Depois desse tempo todo ― ufa! ― tinham direito a receber um prêmio.Coroa de louro

Há dúvidas sobre o fato de a língua latina ter sido, em algum momento, a língua vernacular, ou seja, aquela que todos utilizavam no dia a dia. Muitos autores acreditam que o latim, como o português culto, estava distante do falar popular. Era reservado para pessoas de grande erudição. O povão falava diferente.

Meu próprio professor de latim dizia que, se Cícero usasse com seus empregados domésticos o mesmo linguajar erudito que utilizava nas altas esferas, não seria entendido. Acredito que ele tinha razão.

Seja como for, a língua escrita era o latim. As leis e os regulamentos tinham de se valer dele para serem difundidos.

A língua culta usava a palavra meritum, com significado próximo de nosso atual mérito. Era a coisa merecida, o prêmio, a recompensa.

Pretorianos e legionários, uma vez cumprido seu longo serviço à pátria, adquiriam direito ao descanso. Era um prêmio a que faziam jus por mérito. Ex-meritum, dizia-se. De ex-meritum, foi um pulinho chegar a emeritum e, de lá, a emérito.

.:oOo:.

Bento XVI, a partir deste 1° de março, conservará seu título de papa. Mas será papa emérito. E expressão feliz e honrosa. Significa que o papa cumpriu seu serviço e aposentou-se por mérito.

Não sei se é a opinião de todos, mas, no que me tange, minha admiração por Joseph Ratzinger tem crescido a cada dia. É uma figura surpreendente.

Tem a bravura de um ariano aliada ao senso do real de um europeu do norte. Renunciou ao cargo, quebrando assim um tabu que já durava meio milênio. E, para coroar o feito, teve o destemor de declarar, em sua derradeira homilia, que, em certos momentos de seu pontificado, «o Senhor parecia dormir». Não é qualquer um que, na sua posição, ousaria proferir essas palavras.

Que tenha uma aposentadoria longa e tranquila! Esse personagem singular ganhou-a por mérito.

.:oOo:.

Caso alguém tenha saltado esse capítulo, o Corriere della Sera traz o relato da última audiência pública de Bento XVI. Se você preferir, o Estadão online também dá a notícia.

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 2a. parte

José Horta Manzano

Agradeço aos estoicos que se esforçaram em ler o post de ontem. Não é à toa que justamente aqueles que residem fora do País formaram a maioria. Hão de estar menos envolvidos pelo grande evento carnavalesco.

Quero lhes contar como é o Carnaval por aqui, mas hoje não dá tempo. Fica para a próxima.

Para este ‘sábado de folia’, mais algumas pérolas.

Não entendo 2
From a brochure of a car rental firm in Tokyo:
When passenger of foot heave in sight, tootle the horn. Trumpet him melodiously at first, but if he still obstacles your passage then tootle him with vigor.

In an advertisement by a Hong Kong dentist:
Teeth extracted by the latest methodists.

A translated sentence from a Russian chess book:
A lot of water has been passed under the bridge since this variation has been played.

In a Rome laundry:
Ladies, leave your clothes here and spend the afternoon having a good time.

In a Slovakian tourist agency:
Take one of our horse-driven city tours – we guarantee no miscarriages.

Advertisement for donkey rides in Thailand:
Would you like to ride on your own ass?

On the faucet in a Finnish washroom:
To stop the drip, turn cock to right.

In the window of a Swedish furrier:
Fur coats made for ladies from their own skin.

On the box of a clockwork toy made in China:
Guaranteed to work throughout its useful life.

Detour sign in Kyushi, Japan:
STOP. Drive sideways.

In a Swiss mountain inn:
Special today ― No ice cream.

In a Bangkok temple:
It is forbidden to enter a woman even a foreigner if dressed as a man.

In a Tokyo bar:
Special cocktails for the ladies with nuts.

In a Copenhagen airline ticket office:
We take your bags and send them in all directions.

On the door of a Moscow hotel room:
If this is your first visit to this country, you are welcome to it.

In a Norwegian cocktail lounge:
Ladies are requested not to have children in the bar.

At a Budapest zoo:
Please do not feed the animals. If you have any suitable food, give it to the guard on duty.

In the office of a Romanian doctor:
Specialist in women and other diseases.

In an Acapulco hotel:
The manager has personally passed all the water served here.

In a Tokyo shop:
Our nylons cost more than common, but you’ll find they are best in the long run.

From a Japanese information booklet about using a hotel air conditioner:
Cooles and heates: if you want just condition of warm in your room, please control yourself.

Two signs from a Majorcan shop entrance:
English well talking. Here speeching American.

Outside a Paris dress shop:
Dresses for street walking.

At the entrance of a Nairobi building:
Mental health prevention center.

Y se acabó!

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 1a. parte

José Horta Manzano

O Carnaval está aí, minha gente! É hora de esquecer, nem que seja por alguns dias, as agruras da vida real.

Cem anos atrás, quando nossa festa maior ainda se confundia com o entrudo, não havia internet. Mas todo cidadão medianamente escolarizado possuía alguns rudimentos de francês, língua dominante da época. Minha avó sabia até a letra da Marseillaise ― na sua visão muito pessoal, entenda-se.

Hoje em dia, somos quase todos navegantes da rede. O mundo mudou, o francês foi suplantado pelo inglês, e todos os que se aventuram na internet têm de ter, queiram ou não, alguns rudimentos de inglês. Se não, estão perdidos.

Vamos aproveitar estes dias para atenuar a dureza do quotidiano. Vamos observar um pouco como se ajeitam outros povos para se comunicar numa língua que nem sempre lhes é familiar. Diversão garantida.

Quem preferir, pode mudar de canal e torcer por sua escola preferida no desfile da avenida. Ou do sambódromo.Não entendo

Dry cleaners in Bangkok:
Drop your trousers here for best results.

In a Nairobi restaurant:
Customers who find our waitresses rude ought to see the Manager.

On the grounds of a private school:
No trespassing without permission.

On an Arctic River highway:
TAKE NOTICE: When this sign is under water, this road is impassable.

On a sign in Japan:
Do not lean on gate for it occurs you Trouble.

On a poster at Fight Illiteracy:
Are you an adult that cannot read? If so, we can help.

In a City restaurant:
Open seven days a week and weekends.

A sign seen on an automatic restroom hand dryer:
DO NOT ACTIVATE WITH WET HANDS!

On a Japanese hotel’s website:
Beautiful green, seasonal flowers, and carps in the pond are waiting for you.
Is the public bath hot spring?
Tofu is made of soybeans, water, and magnesium chloride.
Here is tasteful Kyoto that you have been thinking of!
The link is free and there is not getting in touch on the occasion of the link in this page, being necessary.
Is there a laundry machine? Yes. It is on the roof top of our hotel.

In a maternity ward:
NO CHILDREN ALLOWED.

In a cemetery:
Persons are prohibited from picking flowers from any but their own graves.

Sign in Japanese public bath:
Foreign guests are requested not to pull cock in tub.

Tokyo hotel’s rules and regulations:
Guests are requested not to smoke or do other disgusting behaviours in bed.

Hotel room notice in Chiang-Mai, Thailand:
Please do not bring solicitors into your room.

Hotel brochure in Italy:
This hotel is renowned for its peace and solitude. In fact, crowds from all over the world flock here to enjoy its solitude.

In a Shanghai Hotel:
Is forbitten to steal hotel towels please.
If you are not person to do such thing is please not to read notis.

In another Chinese hotel room:
Please to bathe inside the tub.

In a Bucharest hotel lobby:
The lift is being fixed for the next day. During that time we regret that you will be unbearable.

In a Leipzig elevator:
Do not enter the lift backwards, and only when lit up.

In a Belgrade hotel elevator:
To move the cabin, push button for wishing floor. If the cabin should enter more persons, each one should press a number of wishing floor. Driving is then going  alphabetically by national order.

In a Paris hotel elevator:
Please leave your values at the front desk.

In a hotel in Athens:
Visitors are expected to complain at the office between the hours of 9 and 11 a.m. daily.

In a Serbian hotel:
The flattening of underwear with pleasure is the job of the chambermaid.

In a Japanese hotel:
You are invited to take advantage of the chambermaid.

In the lobby of a Moscow hotel across from a Russian Orthodox monastery:
You are welcome to visit the cemetery where famous Russian composers, artists, and writers are buried daily except thursday.

In an Austrian hotel catering to skiers:
Not to perambulate the corridors in the hours of repose in the boots of ascension.

On the menu of a Swiss restaurant:
Our wines leave you nothing to hope for.

On the menu of a Polish hotel:
Aalad a firm’s own make; limpid red beet soup with cheesy dumplings in the form of a finger; roasted duck let loose; beef rashers beaten up in the country people’s fashion.

In a Hong Kong supermarket:
For your convenience, we recommend courteous, efficient self-service.

Outside a Hong Kong tailor shop:
Ladies may have a fit upstairs.

In a Rhodes tailor shop:
Order your summers suit. Because is big rush we will execute customers in strict rotation.

From a Russian Weekly:
There will be a Moscow Exhibition of Arts by 15,000 Russian Federation painters and sculptors. These were executed over the past two years.

In an East African newspaper:
A new swimming pool is rapidly taking shape since the contractors have thrown in the bulk of their workers.

In a Vienna hotel:
In case of fire, do your utmost to alarm the hotel porter.

A sign posted in Germany’s Black Forest:
It is strictly forbidden on our Black Forest camping site that people of different sex, for instance, men and women, live together in one tent unless they are married with each other for that purpose.

In a Zurich hotel:
Because of the impropriety of entertaining guests of the opposite sex in the bedroom, it is suggested that the lobby be used for this purpose.

Amanhã tem mais.

No spams!

José Horta Manzano

Avisa-me uma fiel leitora que propaganda indesejada e intempestiva tem aparecido quando se põe a ler meu blogue. Pergunta-me se decidi abrir este espaço a chamadas comerciais. A resposta é um redondo e sonoro NÃO!

Este é um cantinho onde pessoas de boa vontade se reúnem. Não é um encontro de vendilhões. Vem quem quer, não paga nada para entrar, só fica se lhe interessar. Não há nenhuma espécie de reclame, anúncio, propaganda. Nem proselitismo. Digo o que penso, da maneira que sinto, mas ninguém é obrigado a estar de pleno acordo. Para reparos, está aí o campo de comentários.

Também eu já fui vítima desses anúncios que se intrometiam, de repente, no meio de alguma leitura calma. Imaginei que outros internautas também pudessem estar sendo incomodados pelo mesmo tipo de intrusão. Dito e feito. Andei pesquisando em alguns fóruns e me dei conta de que se trata de uma praga que começa a se disseminar. É insidiosa, porque faz o leitor pensar que a propaganda foi inserida com a anuência do site onde aparece. Não é assim.

Os computadores não utilizam todos os mesmos sitemas, as mesmas versões, por isso não lhes posso dar uma receita única para livrá-los dessa coceira. Se essa intrusão estiver acontecendo com vocês, recomendo procurarem conselho em algum fórum que reúna outras vítimas. Não é difícil se desembaraçar desse mal, acreditem. Posso até dar algum bom conselho, mas prefiro não fazê-lo aqui. Se alguém estiver padecendo do mesmo ataque, que me contacte por email, e lhe direi como procedi. O endereço está lá em cima, no menu Contacto.

Este blogue não tem patrocinadores, nem mecenas, nem anunciantes, nem spammers. Não os tem e não deseja tê-los.

Politicamente correto estilo anos 60

José Horta Manzano

Você sabia?

Você acha que essa irritante moda do politicamente correto é novidade, uma importação recente? Pois prepare-se para uma decepção.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Um movimento eclodiu neste Brasil brasileiro muitos anos antes de importarmos essa maneira estranha de nos comunicar, em que cada palavra tem de ser sopesada antes de ser pronunciada.

Um rascunho de cartilha politicamente correta foi apresentado décadas antes de trazermos, de importação, essa novidade tão distante do jeito irreverente de se exprimir de nossa gente.

Mais de cinquenta anos atrás, já havia gente enxergando o mal por toda parte. Na época, a solução preconizada era bem mais radical que hoje. Se, atualmente, certas expressões são apenas desaconselhadas, há meio século a ideia era francamente bani-las, removê-las do dicionário. ¡Vaya radicalismo! ― diriam nossos hermanos.

A capital paulista contou, durante mais de setenta anos, com um jornal de qualidade que, infelizmente, já desapareceu. Chamava-se A Gazeta. Circulou de 1906 a 1979. Quem se interessar em conhecer um pouco da história do jornal pode visitar esta página.

O professor Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), filólogo e lexicógrafo, era autor do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, adotado no ensino público.

Em 20 de julho de 1961, o professor Silveira Bueno foi entrevistado por um jornalista da Gazeta. O assunto era justamente a ameaça que sofria seu dicionário de ser amputado de algumas palavras julgadas ofensivas.

Era o prenúncio dos tempos estranhos que vivemos. Já então, confundia-se o recado com o portador. Já então, imaginava-se ingenuamente que, eliminado o mensageiro, estaria automaticamente eliminada a mensagem.

É erro antigo que perdura. A língua é maior que dicionaristas. A língua pertence a seus falantes. Lexicógrafos e dicionaristas nada mais fazem que registrar fatos da língua, não são seus criadores, nem responsáveis por eles.

Inseri no post de hoje a entrevista de 1961. Ela se explica por si mesma, dispensa maiores comentários.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Naquele começo dos anos 60, os Estados Unidos ― grande democracia ― ainda viviam tempos de segregação. Ainda se construíam banheiros públicos separados para pretos e para brancos, ainda se reservavam lugares para não brancos no fundo dos ônibus.

Está aí a prova do pioneirismo de nosso País. Para dizer a verdade, eu bem que preferia que tivéssemos sido os primeiros em outros campos mais proveitosos para a população, mas ― que fazer? ― não se muda a História.

Só mais um detalhe picante. Quem tiver a paciência de ler a entrevista de Silveira Bueno verá que a birra da época era contra a palavra negro, considerada, então, pesada e ofensiva. Os descendentes de africanos haviam de ser chamados de pretos, essa era a forma suave, delicada e correta.

O tempora, o mores!

Glossário

José Horta Manzano

Aqui está um Pequeno Glossário do Português Atual. Alguns de vocês já devem ter visto, mas sempre vale a pena ver de novo. É boa receita para alegrar um sábado.Glossario

ABREVIATURA    —    ato de abrir um carro de policia
ALOPATIA    —   dar um telefonema para a tia
BARBICHA    —   boteco para gays
CÁLICE    —   ordem para ficar calado
CAMINHÃO    —   estrada muito grande
CATÁLOGO    —   ato de apanhar coisas rapidamente
COMBUSTÃO    —   mulher com peito grande
DESTILADO    —   tudo o que estiver do lado de cá
DETERGENTE    —   ato de prender indivíduos suspeitos
DETERMINA    —   ato de prender uma garota
ESFERA    —   animal feroz já amansado
HOMOSSEXUAL    —   sabão em pó indicado para lavar as partes íntimas
LEILÃO    —   Leila com mais de 1m80 de altura
KARMA    —   expressão usada em MG para serenar ânimos
LOCADORA    —   uma mulher de nome Dora com problemas mentais
NOVAMENTE    —   diz-se de indivíduos que renovam sua maneira de pensar
OBSCURO    —   “OB” de cor preta
QUARTZO    —   partze ou aposentzo de um apartamentzo
RAZÃO    —   lago muito extenso e pouco profundo
RODAPÉ    —   aquele que já teve carro mas agora vai a pé
SAARA    —   muulher do Jaacó
SEXÓLOGO    —   sexo apressado
SIMPATIA    —   quando se concorda com a irmã da mãe
SOSSEGA    —   mulher desprovida de visão
TALENTO    —   característica de movimento reduzido
TÍPICA    —   o que o mosquito nos faz
UNÇÃO    —   erro de concordância muito freqüente (o correto seria um é)
TIÇÃO    —   variante do mesmo erro
VATAPÁ    —   ordem dada por prefeito de cidade esburacada
VIDENTE    —   dentista relatando seu trabalho
VOLÁTIL    —   sobrinho avisando aonde vai

Estalactite

Estalactite 2José Horta Manzano

Você sabia?

Estalactite, sabemos todos o que é. Damos esse nome àquelas curiosas formações encontradas principalmente no interior de grotas úmidas. São como colunas, como cones invertidos ― de cabeça para baixo, com a base presa no teto.

O nome, que soa tão científico, entrou na língua pela via erudita. Começou a ser mencionado cerca de 200 anos atrás, mas só foi dicionarizado bem mais tarde. Provém de uma raiz grega ― stalaktos ― que significa gotejante, aquilo que escorre gota a gota.

No dia a dia, usamos palavras descendentes dessa mesma família. Entre outras, instilar e destilar. Ambas trazem embutida a ideia de gota a gota, pouco a pouco.

Nas grutas, as estalactites são formadas por precipitação de matéria calcária. Muito lentamente, gotículas de água escorrem pelas colunas. Com o passar do tempo, a água evapora e o cálcio solidifica. Resultam imagens um tanto fantasmagóricas, mas, ainda assim, belíssimas. Daquelas que nos remetem a antigos desenhos animados.

Nestes tempos em que crianças não hesitam em trucidar criaturas monstruosas em jogos de computador, uma floresta de estalactites não deve mais assustar ninguém. Mas garanto-lhes que esses cones invertidos já cumpriram seu papel atemorizante na mente de muitos dos adultos em que nos convertemos.Estalactite 4

Não é só em grutas e cavernas que se encontram formações desse tipo. No inverno, caprichos climáticos de latitudes mais frias proporcionam às vezes espetáculos impressionantes.

Após uma boa nevada, às vezes o sol aparece. Seus raios, embora tênues, podem ser suficientes para derreter uma parte da neve acumulada. O resultado é um filete d’água que goteja de telhados, de amuretas, de rochedos. Quando não há vento, as gotículas vão-se congelando à medida que escorrem. Formam-se então estalactites de gelo, de muita beleza.

Não resistem muito tempo, mas encantam os olhos. O que é bom dura pouco.Estalactite 5