Tratado de Tordesilhas 2.0

O mundo segundo Trump
by 1alex06Alex/

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que, no mês de junho de 1494, embaixadores dos reinos de Portugal e de Castela (Castilha) se encontraram na localidade castelhana de Tordesilhas para firmar um tratado que dividia as terras por descobrir entre Portugal e Espanha. Aquele documento de 532 anos atrás foi posteriormente avalizado pelo papado, beneplácito indispensável num tempo em que o poder espiritual pairava acima do temporal.

Com a queda dos grandes impérios, no início do século XX, e com o processo de descolonização, nos anos 1960, a lei do mais forte, que tinha vigorado desde que o mundo é mundo, perdeu vigor. O planeta até acreditou estar assistindo a um movimento irreversível em direção a uma era de relações pacificadas entre Estados, baseadas no direito internacional e numa coexistência civilizada.

A prova dessa repulsa a guerras de conquista foi dada em 2014, quando a Rússia, tendo anexado a Crimeia pelas armas, foi afastada do círculo de países “normais” e escanteada para uma posição de “nação pária”, privada até de G8 (que se tornou G7).

A história seguiu assim, incerta, até que, sob o olhar apreensivo e impotente do resto do mundo, os eleitores americanos escolheram Donald Trump para presidir o país pela segunda vez. A partir daí, o mundo entraria em progressivo desequilíbrio. Todos os dogmas que imaginávamos definitivos e gravados na pedra ruíram. Tradicionais políticas internacionais de diálogo e dissuasão deram lugar à lei do mais forte, um recuo acentuado na história da humanidade.

Hoje assistimos, esgotados e desarmados, a um Trump voluntarioso, que ataca a vizinha Venezuela com porta-aviões, encouraçados, centenas de aviões e helicópteros, mísseis, militares e forças especiais, tudo isso para abduzir o líder do país e levá-lo para longe. Notas de “forte condenação” foram a expressão mais incisiva dos países ao redor do planeta, espantados e intimidados perante o espetáculo de força dado pelo Estado mais poderoso do mundo.

A agressividade de Trump, aliada a sua mansidão para com Putin e à distância que ele mantém de Pequim sugere que os tempos chegaram para a ressurreição do velho Tratado de Tordesilhas, agora em versão 2.0 e dispensada de bênção papal.

De fato, a cada dia que passa, nos apercebemos que, na cabeça de Trump, a ideia é ver nosso planeta subdividido em 3 zonas de influência. A primeira, que os EUA reservam para si, inclui as Américas e a Groenlândia. A segunda, destinada a viver sob influência de Moscou, cobre a Rússia, a Europa, os países da finada URSS e o norte da África. A terceira e última deve ser a área de influência de Pequim; compreende as demais regiões do mundo (ver mapa).

Acredito que Putin se sinta honrado e contente de ver que futuras agressões à Europa e aos antigos países satélites estejam, desde já, implicitamente reconhecidas por Trump. Já quanto a Pequim, não tenho certeza de que sua visão globalista coincida com o esquema que Trump parece propor. Não é do feitio chinês renunciar a comerciar com todos os países.

O mundo está entrando de pé firme numa nova era. Pode incomodar (e certamente incomoda) muita gente, mas não deixa de ser fascinante.

Uma lágrima por Maduro

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

O povo e a lágrima
Uma lágrima por Maduro… quem é que vai derramar? O caricato caudilho reinou sobre a Venezuela por anos e acabou abduzido por forças militares provenientes justamente do odiado “império”. Que ironia… Com certeza, não será seu próprio povo que vai deixar rolar uma lágrima de saudade. A imensa maioria da população venezuelana se encontra agora num estado desconfortável, em que cabem a esperança de dias melhores, uma pitada de euforia reprimida e uma visível apreensão.

A reportagem da BBC fez curtas entrevistas com transeuntes, numa Caracas em que ainda fumegavam as ferragens retorcidas de veículos militares bombardeados. Uma caraquenha, sob condição de anonimato, confessou que os venezuelanos querem apenas “viver sem medo”. Acrescentou que “o importante não é o petróleo, mas a liberdade da Venezuela e um futuro melhor para seus habitantes”. Disse ainda que “ninguém teria escolhido esse modo de fazer uma transição política, mas alguma coisa precisava acontecer”.

No amanhã do bombardeio da cidade e da captura de Maduro, Caracas esteve calma, mergulhada num ambiente pesado, em que ninguém ousava comentar os acontecimentos. Não é da noite para o dia que se destravam bocas caladas há anos sob o jugo da repressão onipresente. Regimes autoritários como o de Maduro se sustentam silenciando opositores e vozes discordantes. Na dúvida, silenciam-se todas as vozes.

Um vizinho simpático pode representar perigo: seria talez um informante a soldo do regime? O mesmo vale para a senhora transpirada, logo à sua frente na fila do caixa do supermercado: estaria assuntando as conversas dos demais? No Brasil, desde 1985, nos desacostumamos a viver dessa maneira, baixando os olhos e falando pelos cantos. Os patetas que hoje clamam por uma ditadura militar não fazem a menor ideia do que seja viver num regime desse naipe. São uns pobres bugres ignorantes, alegres mas sem noção.

Meia-volta volver
Sob todos os aspectos, o ataque à Venezuela foi acintoso, um atentado contra o direito internacional. Praticado pelos Estados Unidos, país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o fato assume proporções assustadoras. É um abalo forte nas normas de convivência internacional e anúncio sinistro de guinada ao passado, ao tempo em que o mundo se dividia entre metrópoles e suas colônias.

Contra a lei da selva, nada se pode fazer. Os EUA são mais poderosos que todos os demais países americanos reunidos. Portanto, o que está feito, feito está. A “jus sperneandi”, neste caso, não vige.

A prisão do líder
Não acho muito certo hospedarem Maduro numa prisão comum nos EUA, a exemplo do Metropolitan Detention Center (no Brooklyn, NY) prisão em que se encontra atualmente. Não digo isso por uma questão de manter privilégios, mas há que convir que personalidades públicas têm um grau de exposição mais elevado que um cidadão comum. O risco de ser maltratado, ferido ou até assassinado por outro(s) detento(s) é grande. Pelo mesmo motivo, não gostaria que Lula ou Bolsonaro fossem metidos na Papudona, no Centro de Detenção de Pinheiros ou em Bangu. Uma quentinha envenenada pode ser servida a qualquer momento.

Dado que não é possível construir uma prisão especialmente para Maduro, acredito que a melhor solução seria pô-lo em prisão domiciliar vigiada. Ele e a esposa teriam, daqui até o fim de suas vidas, tempo suficiente para refletir sobre os erros cometidos e os bilhões de dólares perdidos. Que, aliás, podem bem se encontrar abrigados, em nome de laranjas, em bancos americanos.

Conselho a Mr. Trump
Este recadinho vai direto para Mr. Donald Trump que, como todos sabem é leitor assíduo deste blogue.

Dear Mr. Trump,

Congratulações pela espetacular intervenção na Venezuela e pela cinematográfica abdução do pranteado Nicolás Maduro – que ainda há de render filmes hollywoodianos no futuro.

Agora, que as supimpas Forças Especiais americanas estão ainda mais bem treinadas, sugiro-lhe preparar uma ação para raptar aquele que – esse, sim! – tem sido a causa de milhares de mortes diárias e dores de cabeça para o resto do mundo. Falo de Vladimir Putin.

Ordene a suas Forças Especiais que infiltrem Moscou e colham aquele criminoso que lá se esconde, um personagem muitíssimo mais nocivo e perigoso que o tosco Maduro.

O senhor receberá aplausos do mundo inteiro e, de quebra, garantirá seu tão desejado Prêmio Nobel da Paz!

Agradecimentos antecipados.

Os imigrantes e o pilantra

Donald Trump by Donkey Hotey

José Horta Manzano

Já antes de assumir o mandato, Donald Trump tinha prometido limpar os Estados Unidos de todos os imigrantes ilegais. Muitos imaginaram que não passasse de bravata, que o sistema funcionaria em rotação contínua: cada ilegal expulso seria rapidamente substituído por novo imigrante.

No entanto, as investidas do governo contra comunidades ibero-americanas têm sido tão incisivas, que o fluxo de clandestinos rapidamente diminuiu; hoje não se ouve mais falar em “invasão” de gente morena e pobre.

Na época em que se declarou hostil a todos os imigrantes pobres, Trump argumentou que eram todos assassinos, ladrões e estupradores. Quando alguém chamou sua atenção para o fato de nem todos serem fora da lei, Trump teria respondido que alguns eram, e que, ao expulsar todos, os bandidos também seriam expulsos.

Algum tempo atrás, um Brasil meio constrangido ficou sabendo das estrepolias de um aventureiro, filho de brasileiros mas nascido nos EUA, que se içou ao posto de deputado federal por Nova York. George Santos é o nome do rapaz, hoje com 37 anos. Já eleito, os podres de seu passado começaram a aparecer.

No Brasil, mentiras, declarações falsas e malversações com dinheiro de campanha eleitoral podem parecer de menor gravidade, mas, nos EUA, são imperdoáveis. Além de perder o mandato, o moço foi julgado e ganhou uma sentença de sete anos de cadeia.

Quinze meses se tinham passado desde seu encarceramento quando Mr. Santos, espertalhão escolado, decidiu escrever carta aberta ao presidente Trump. O texto, escrito em linguagem melosa e bajuladora, pedia clemência ao chefe do Estado. Parece mimimi de brasileiro, mas, comportamento raro nos EUA, impressionou o presidente. E acabou dando certo.

Donald Trump escreveu uma mensagem na sua rede social Truth Social com o texto seguinte:


“Ele era meio pilantra, mas há muitos pilantras em todo este país que não são condenados a cumprir sete anos de prisão. Pelo menos, Santos teve a Coragem, a Convicção e a Inteligência de SEMPRE VOTAR NOS REPUBLICANOS! Na prisão, George esteve no isolamento por longos períodos e, segundo todos os relatos, foi terrivelmente maltratado. Portanto, acabei de assinar um indulto, libertando George Santos da prisão IMEDIATAMENTE. Boa sorte, George, tenha uma linda vida!”


Desta vez, Trump inverteu o raciocínio que havia utilizado com relação aos imigrantes clandestinos. Para os imigrantes, ainda que a grande maioria fosse de gente boa e bem intencionada, expulsavam-se todos, assim os bandidos iam embora também. Já no caso de George Santos, é o contrário. Já que não dá pra mandar todos os pilantras para a cadeia, solta-se o pilantra preso, pois é injusto manter um preso e deixar tantos soltos.

Raciocínio esquisito? Também acho. Mas vamos em frente, que atrás vem um montão de gente.

Glanage

José Horta Manzano

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso – assim reza antiquíssimo provérbio português. É verdade. O youtube está cheio de vídeos filmados, às vezes, por marinheiros de poucas águas, mostrando particularidades e curiosidades daqui e dali. Hoje vou falar de uma prática comum na França, sobre a qual ainda não assisti a nenhum vídeo. Talvez a prática esteja em vigor também em outros países, não tenho certeza. Vou falar do que sei.

Como já sabem meus atentos leitores, os franceses têm palavra para tudo. E usam. Já nós somos menos rigorosos nesse particular. Portanto, na ausência de “similar nacional”, vou usar a palavra francesa e explicar o significado. Vai aqui um glossário dos substantivos (todos masculinos em francês):

Glanage: ato de catar restos que a colheita deixou para trás
Maraudage: ato de furtar antes da colheita
Grappillage: ato de colher no pé ou na planta alheia
Râtelage: ato de colher em terra alheia com uso de ferramenta

Não sei quando começou a ser regulamentado o glanage, mas é prática antiquíssima. Acredito que estivesse codificado já na Idade Média. Trata-se da prática de catar restos da colheita, deixados para trás. As colhedeiras modernas são eficazes, mas sempre deixam cerca de 1% de restos não colhidos. Num plantio de batatas, por exemplo, numa gleba que produz 100 toneladas, ainda restará na terra uma tonelada de tubérculos não colhidos. Vale a pena procurar.

Num belo domingo ensolarado de fim de outubro, quando a colheita da batata já terminou, vale a pena gastar algumas horas com a família (especialmente com as crianças, que vão adorar) remexendo a terra à cata de batata. Quem tiver paciência volta para casa com um saco cheio. Para famílias de poucas posses, é uma economia e tanto.

Condições para o glanage legal

Para ser legal, o glanage tem de respeitar os seguintes pontos:

  •  Após a colheita: Só é permitido “glanear” os produtos que tenham caído ao solo (ou ficado enterrados no solo) ao fim da colheita principal.
  •  À mão: O uso de ferramentas (p.ex: rastelo) é proibido, pois transforma o glanage em râtelage, uma prática não permitida.
  •  Durante o dia: O glanage deve ser realizado durante o dia, à vista de todos.
  •  Em terreno não cercado: É proibido “glanear” em campos fechados com cerca, pois trata-se de propriedade privada.
  •  Respeitar os decretos municipais: Verificar com a prefeitura se algum decreto proíbe o glanage no município.

O que é proibido:

  • Maraudage/grappillage: Colher frutas ou legumes diretamente do pé ou da planta não é glanage, é furto.
  • Uso de ferramentas: O râtelage é proibido.
  • Glanage à noite: É proibido.
  • Terrenos cercados: É proibido entrar em propriedades privadas cercadas.

Recomendações importantes:

  • Peça autorização: Embora a lei permita sob certas condições, é sempre bom solicitar a autorização do proprietário ou do responsável pela terra antes de começar a “glanear”, para evitar mal-entendidos ou conflitos.
  • Respeite as quantidades: O espírito do glanage é recolher o que foi deixado para trás em quantidades correspondentes ao consumo familiar, nunca para comercialização.

Pronto, vosmecê já sabe como funciona na França. Mas não recomendo tentar “glanear” no Brasil. Garruchas, trabucos e carabinas correm soltas por aí. Prudência!

França x Brasil: condenados lá e cá

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Nicolas Sarkozy foi presidente da França por um mandato de 5 anos, de 2007 a 2012. Faz uns dias, foi condenado a 5 anos de prisão em regime fechado. A sentença estipula que Sarkozy permanece em liberdade por algumas semanas, mas que terá de cumprir a sentença, pelo menos inicialmente, atrás das grades. Um eventual recurso – com o qual o condenado já declarou que vai entrar – não terá efeito suspensivo. Em outras palavras, é cadeia ou cadeia.

A promotoria acusou o ex-presidente de ter recebido dinheiro da Líbia para sua campanha eleitoral. Observe-se que, à época, Muamar Kadafi era ditador do país. No entanto, a acusação não conseguiu provar o recebimento da alegada ajuda financeira. Assim sendo, Sarkozy não pôde ser condenado por corrupção.

Severo, o tribunal julgou que o acusado era assim mesmo culpado de formação de quadrilha, visto que ele tinha se reunido com dois amigos próximos para solicitar e receber o dinheiro vindo da Líbia, ainda que nenhuma transação tenha sido detectada na investigação.

Mesmo sem ser sarkozista, achei que os juízes foram muito severos. Enfim, se Sarkozy tivesse feito tudo certinho, dificilmente teria se encontrado diante de um tribunal. O que fica como marca desse julgamento excepcional são a pena de 5 anos e a obrigação de ser encarcerado imediatamente. Se deixaram algumas semanas de respiro ao condenado, foi em consideração por ele ter sido presidente da República e por já ter 70 anos.

Chamada Folha de S. Paulo
25 set° 2025

Todos nós conhecemos um outro ex-presidente que aprontou horrores, só que fez isso quando já estava na Presidência. Foi Bolsonaro. Como Sarkozy, também tem 70 anos – são do mesmo ano. Duas semanas atrás, Bolsonaro foi condenado, por um tribunal colegiado de 5 juízes, a 27 anos de prisão em regime inicialmente fechado. Apesar desse prontuário, está em “recolhimento domiciliar”, esperando não se sabe bem o quê.

Nosso sistema judiciário tem peculiaridades que o leigo tem, às vezes, dificuldade em entender. Julgado por um colegiado de magistrados da mais alta corte do país, com pena definida, o condenado continua em casa, na poltrona macia, de chinelas, dando ordens à família, à empregada e ao cachorro. Esperando o quê?

Hoje me diz a imprensa que “Bolsonaro toparia redução de penas com garantia de prisão domiciliar”. Toparia? Que quer dizer isso? Será que, antes de encarcerar o condenado, nosso sistema prisional propõe uma negociação? Tipo assim: o senhor quer redução de pena com prisão domiciliar ou prefere cumprir pena integral em regime fechado na Papuda? Francamente, não faz sentido.

Na França, o condenado Sarkozy, que está longe de ser um santinho, terá de provar a sopa rala que lhe servirão na Prison de la Santé ou outra qualquer onde for encarcerado. O camburão virá buscá-lo em casa assim que o juiz mandar. No Brasil, o condenado Bolsonaro, nosso ex-candidato a ditador mequetrefe, continua sentadinho na poltrona macia de sua mansão. Aguarda a garantia de prisão domiciliar. Com redução da pena.

Se, no púlpito da ONU, Lula tivesse lembrado de contar essa peculiaridade de nosso sistema, teria desarmado Trump. Imagine só: o bandido de estimação do presidente americano estará qualquer hora descondenado!

Wake up, America!

José Horta Manzano

O processo e o julgamento a que Jair Bolsonaro teve direito não são fato corriqueiro. De fato, não é todo dia que se assistem às consequências judiciais de um golpe dado com a intenção de tomar (ou conservar) as rédeas do poder de um Estado. Golpes há, processos são mais raros.

O malogro contribui para a raridade do que ocorreu com Bolsonaro: só golpe malogrado dá processo. Golpe bem sucedido costuma dar execução sumária (dos adversários), exílio, “desaparecimento”, cadeia ou coisa pior. Tudo longe de qualquer processo. Se o golpe urdido por Bolsonaro tivesse dado certo, só quem vive fora do país estaria em condição de comentar ou criticar neste momento. No interior das fronteiras, o silêncio seria obrigatório.

Golpes costumam ser bem planejados, bem organizados, bem disciplinados e, como consequência, bem sucedidos. Bolsonaro quis dar o seu, mas não tinha gabarito para tal. Como diziam os metalúrgicos do ABC, comeu mortadela e tentou arrotar peru. Entupido na própria mentira, dançou.

No momento atual, ao redor do mundo, não há muitos, vamos dizer assim, “pré-golpes”, como o de Bolsonaro em andamento. Há o caso da Hungria, um golpe como aquele que o capitão sonhou. Só que a versão húngara está sendo conduzida com método, paciência e disciplina, qualidades que nunca fizeram parte do arsenal bolsonárico. A distorção da democracia húngara já passou do ponto de não retorno. A meu ver, pouco ou nada se pode fazer para evitar a consolidação de um regime iliberal ali.

Há, sim, um lugar do globo em que a queda e a condenação de Bolsonaro devem servir de sinal de alarme porque ainda dá tempo: são os Estados Unidos. Não sei se por respeito, susto ou medo, os eleitores que não votaram em Trump nem têm por ele nenhuma simpatia continuam encantados, hibernados, paralisados.

Faz 8 meses que o novo presidente assumiu, já retalhou discricionariamente instituições, entrou em conflito com magistrados, com personagens da sociedade e com o eleitorado não branco, já desferiu golpes pesados em empresas importadoras, já comprou briga com países amigos com impostos de importação proibitivos, já se indispôs com a Rússia, com a Índia, com o Brasil, com a Suíça, com a Dinamarca, com o México, com o Canadá, com a Venezuela, com a Ucrânia. Meteu-se pessoalmente a perseguir juízes de nossa Corte Maior e a exigir que julgamentos em andamento fossem anulados.

Diante de tudo isso, os eleitores que não votaram nele continuam entorpecidos, sem reação, sem palavras, sem um pio. Dá vontade de gritar: “Wake up, America!” – Acordem, Estados Unidos! Está passando da hora de se agitar, desenterrar o machado de guerra (olhe lá, metaforicamente!) e agir. Juntem bons advogados, que vocês devem ter, estudem a melhor maneira de enquadrar Trump, a melhor brecha na lei para alcançá-lo, e vão em frente!

Por prudência, comecem desde já a preparar a luta a travar quando ele sair do governo, por fim de mandato ou por renúncia. Se puderem impichá-lo antes, melhor ainda. Vocês não imaginam o que perderão caso permitam que seu sucessor seja um cafajeste da mesma espécie.

Corram, que ainda dá tempo!

Na volta do futuro

Cena do filme
A máquina do tempo (1960)

José Horta Manzano

Você talvez já tenha assistido a um daqueles filmes que roçam a ficção científica e que contam a história de uma viagem ao futuro, com direito a tempo de observação e interação com populares, e com volta garantida ao presente (nem que fosse pra relatar o que o(s) viajante(s) viu(viram).

A máquina do tempo (1960) e De volta para o futuro (1985) são bons exemplos desses bate-volta para o futuro. Os protagonistas vão e acabam voltando, que é pra terem o que contar.

Eu gostaria muito de poder entrar numa dessas máquinas, com bilhete de ida e volta pra daqui a, digamos, cinquenta anos. No futuro, naturalmente. Minha curiosidade é observar o planeta e a humanidade – se humanidade existir – pra avaliar a influência, a longo prazo, de Donald Trump e Vladímir Putin.

Como se sabe, os dois representam a junção da escuridão das trevas com o poder das armas. E, cada um na medida de suas possibilidades, tem maltratado a humanidade.

Trump, ignorante, estabanado, mas ultrapoderoso, tem dado dor de cabeça a muita gente fina. Com sua doutrina de aumentar arbitrariamente impostos de importação, está espalhando decepções e dúvidas. Está colocando firmas no caminho da falência. Está desempregando levas de cidadãos que não têm nada a ver com o peixe.

Putin, raposa esperta que busca dar impressão de ter mais poder do que tem, tem martirizado a população da vizinha Ucrânia. Ele deu início a essa guerra estúpida por um erro de cálculo – contava que suas tropas seriam acolhidas com flores e que o governo de Kiev cairia em poucos dias. Não foi o que aconteceu, mas já era tarde pra voltar atrás.

O apoio cego e incondicional de Trump aos israelenses os tem encorajado a forçar a mão. Não só em Gaza, onde levam a cabo um revoltante genocídio, mas também nos territórios ocupados da Cisjordânia, onde implantam novas colônias a cada dia.

À vista do que sucede na Ucrânia, os demais vizinhos da Rússia – e são muitos! – vivem num pavor permanente, indagando-se quem será o próximo. Faz algumas décadas, foi a Finlândia que foi amputada de boa parte de sua terra. Mais recentemente, foi a vez de a Geórgia perder para os russos um terço de seu território.  Do ponto de vista econômico, a Rússia está longe das grandes nações: sua população é declinante e seu PIB corresponde, grosso modo, ao da Espanha.

Daqui a cinquenta anos, tanto Trump (79 anos este ano) quanto Putin (73 anos este ano) já terão partido deste vale de lágrimas. Quem estará no topo do poder na Rússia? Provavelmente um outro ditador, talvez menos belicoso que Putin, mas nâo muito. E quem estará na Casa Branca? Se Trump não tiver quebrado a democracia americana, um novo presidente de um dos partidos principais.

Mas pouco interessa quem vai estar no poder. O que quero saber é quais terão sido as consequências da passagem destes dois trevosos pelo poder. É muito difícil fazer uma ideia de como será um futuro tão distante. Se não se sabe ainda nem quais serão os candidatos às presidenciais brasileiras do ano que vem, imagine querer saber do estado do planeta daqui a meio século… É justamente por isso que eu adoraria embarcar numa máquina do tempo em direção a 2075.

Estas próximas cinco décadas são tempo suficiente pra consertar muita coisa no planeta. Só que precisa empenho e boa vontade, moléculas nem sempre abundantes na superfície terrestre. Que a Rússia continuará sendo uma ditadura, é quase certeza. Aquele país nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tsarista à ditadura comunista. E da ditadura não saíram até hoje.

Quanto aos EUA, o futuro é uma incógnita. Trump ainda tem três anos e meio de mandato. É tempo suficiente para escangalhar a democracia e instalar uma ditadura dinástica, como um certo capitão um dia sonhou implantar aqui em nossa terra.

Vamos fazer uma coisa? Embarco assim que puder e, na volta, conto a vocês o que tiver visto. Prometido!

Venezuela: donas de casa e aposentados

José Horta Manzano

Os atos de certos políticos são às vezes difíceis de entender. A gente lê a noticia, coça a cabeça, reflete um pouco, relê um parágrafo, e continua sem perceber a intenção por trás do gesto. O que é que está por trás? Nem sempre é claro.

Já faz meses que Donald Trump vem ameaçando a Venezuela. E não é só ameaça verbal, chegou a deslocar uma frota de três navios de guerra abarrotados de sofisticado material, transportando um contingente de 4.000 fuzileiros navais.

Uma armada desse calibre tem potencial de mandar a capital do país a nocaute em três tempos. Mas, se fosse pra mandar Caracas pelos ares, não precisava despachar uma flotilha. O exército americano tem condições de fazer isso a partir de suas bases, sem deslocar ninguém. Mas então, por que a presença dos militares no Mar das Caraíbas (Caribe)?

É aí que fica difícil entender Trump e seu movimento ostensivo de tropas. Ele acusa Nicolás Maduro de chefiar um narcotráfico sofisticado, cujo principal objetivo é contrabandear cocaína para os Estados Unidos. Outros, antes de Trump, já descreveram esse cenário com detalhes. Dada a concordância de numerosas fontes, é possível acreditar que seja assim mesmo, o que coloca os altos coturnos do governo venezuelano no topo de uma rede narcomafiosa.

Ainda assim, não vejo bem o que é que navios de guerra podem fazer para desbaratar esse sistema. Aniquilar um sistema mafioso com tiros de canhâo? Não parece sensato. Nem eficaz. Por que os navios, então?

Só vejo uma hipótese. Seria nosso amigo Trump trabalhando para mostrar que está atento ao seu “quintal” e cuidando bem dele. “Quintal dos USA” é qualificativo dado outro dia por um de seus assessores à América Latina. Quem cuida bem de seu rebanho e aí mantém paz e concórdia merece o Nobel da Paz. (Deve ser o que ele pensa.) Cada um tem direito a suas ilusões.

Agora, comovente mesmo é a ideia de um previdente Maduro que, sabendo que Caracas não será mandada pelos ares por tiros de canhão, arrebanha assim mesmo seu povo num movimento caseiro de defesa nacional. Tal um Hitler nos derradeiros dias da Segunda Guerra, quando os canhões soviéticos já ribombavam nos arrabaldes de Berlim, Maduro alista “donas de casa, aposentados e servidores” para formar um escudo humano, com cidadãos prontos a morrer pela pátria.

A foto que ilustra este artigo nos mostra alguns convocados recebendo as instruções para manejo de bazucas. Não vejo donas de casa, certamente virão mais tarde. Estão todos devidamente uniformizados. (Diferentemente do Brasil, em que patriotas costumam se vestir de bandeira, os de lá trajam vermelho vivo, uniforme decerto providenciado pelo poder.)

Num eventual combate na selva, a cor não serve como camuflagem, mas também não se pode pensar em tudo. De todo modo, Maduro sabe que combate na selva, não haverá. Trump não é besta de expor sua tropa e registrar baixas. Bastaria um marine morto, um só, para sua popularidade ir pro beleléu.

Se tem certeza de que guerra não haverá, por que razão Maduro faz essa mise-en-scène? Há de ser para contentar seu povo, para mostrar a todos que o pai da nação está de olho, ciente da ameaça do “Imperio” e preocupado com ela. Pra confirmar que patriotas de uniforme rubro estão dispostos a arriscar a vida para defender a pátria. Não é bonito?

E assim vamos indo. Para os movimentos de ambos, Trump e Maduro, não há razões claras. Só razões ocultas.

De toda maneira, ambos sabem que não é desbaratando uma rede de traficantes que se elimina o narcotráfico. O fim do tráfico só virá no dia em que não houver mais demanda, quando ninguém mais pedir sua dose diária de estupefaciente (palavra hoje em desuso, mas ainda sugestiva).

Enquanto esse dia não chegar, derrube-se uma rede, outra brotará no dia seguinte.

Alaska e a continuação

José Horta Manzano

Por mais que Donald Trump tente tranquilizar suas tropas (e o mundo) dizendo que o encontro com Vladímir Putin, no Alaska, foi “produtivo”, as evidências mostram outra coisa. O homem que tem tanto sangue nas mãos (Putin) saiu triunfante. Já o homem que imaginava sair do encontro com o conflito encerrado (Trump) naufragou. Para ele, o colóquio foi um malogro.

  • Dez horas era o tempo estimado de duração do face a face. Durou só duas horas e meia. Sinal claro de que as pretensões de Putin eram firmes e que ele esteve inarredável. Não quer devolver nem um centímetro do território que conseguiu invadir. Ao final de duas horas, o assunto estava esgotado.
  • Trump saiu tão aturdido da reunião, que disse aos jornalistas que estava “voltando aos Estados Unidos”, esquecido de que o Alaska é um estado como os demais (só que mais frio).
  • Trump deixou escapar uma parte da realidade. Disse que agora a paz “depende de Zelenski”. Com isso, quis adiantar que cabe ao país invadido fazer concessões e entregar parte de seu território ao invasor. O invasor não abrirá mão de sua conquista militar. Sentença terrível.
  • O comunicado comum, prometido para o final do encontro, não veio. Cada um acabou fazendo, por sua conta, uma declaraçãozinha protocolar e meio chocha.

Trump receberá Zelenski no Salão Oval nesta segunda-feira.

Desde o primeiro dia do conflito, três anos atrás, a União Europeia condenou a Rússia e amparou a Ucrânia. Conhecedores das artimanhas de Putin, não botavam fé no encontro do Alaska. Ficaram incrédulos com a aparente ilusão de Trump de que ia dar certo e de que a paz seria acertada durante aquele colóquio. De fato, o presidente dos EUA parecia acreditar. É que ele anda obnubilado por seu sonho de receber o Nobel da Paz, sonho que o próprio Lula acalentou durante muitos anos, mas do qual parece ter abdicado.

Os líderes dos principais países europeus se alvoroçaram quando souberam que Zelenski tinha sido convidado para um colóquio com Trump. Sozinho, sem Putin. Continua viva na memória a cena insuportável de um Zelenski apanhando sozinho, num Salão Oval repleto de aliados de Trump, jornalistas, câmeras e holofotes. Aquele linchamento público ocorreu no fim de fevereiro, mas, na memória dos europeus, é como se tivesse sido ontem. Foi a imagem de um cristão atirado a feras famélicas numa arena romana.

Macron arregimentou logo uma escolta para garantir a defesa do ucraniano, para o caso de Trump & áulicos voltarem a ter a péssima ideia de descer-lhe bordoadas como fizeram da primeira vez. Como penetras em festa de debutante, devem marcar presença: Emmanuel Macron (presidente da França), Ursula von der Leyen (presidente da UE), Friedrich Merz (chanceler da Alemanha), Keir Starmer (primeiro-ministro britânico), Giorgia Meloni (presidente do Conselho Italiano), Alexander Stubb (presidente da Finlândia), Mark Rutte (chefe da Otan). Espero que o Salâo Oval seja grande o suficiente para acolher a todos.

Os dirigentes europeus acham que seria uma grande perda se Trump “obrigasse” Zelenski, garrucha colada na têmpora, a abrir mão de 20% do território da Ucrânia para entregar ao invasor russo. Pelo raciocínio de todos, o presidente americano vai deixar a selvageria pendurada no cabide da entrada, nem que seja em respeito diante de tanta gente fina.

Na verdade, Trump está fazendo o papel de menino de recado de Putin. Vai expor aos visitantes as exigências da Rússia, e colher a resposta.

Deve ser um dia importante. Vamos ver.

Carla está presa

Carla Zambelli
by Jeribeto (via Twitter)

 

José Horta Manzano


La signora Carla Zambelli è stata arrestata a Roma.
A senhora Carla Zambelli foi detida em Roma.


Se vão extraditá-la para ser encarcerada no Brasil, se vai cumprir pena na Itália mesmo ou se será solta, tanto faz. O importante é que, diferentemente do que imaginava, foi alcançada pelas garras da lei. Talvez esteja entendendo agora que ela não é melhor que ninguém e que deve explicações à sociedade.

De pouco valeu ser casada com militar, ter sido unha e carne com o capitão, gozar de imunidade parlamentar. Exibiu um passaporte vermelhinho, correu, mas o bicho acabou pegando. Assim como vai pegar todos os trapaceiros que, como ela, se imaginaram mais espertos que o povão.

O povo italiano não está nada de acordo com a ideia de transformar o país num depósito de foragidos da justiça. Em matéria de imigração, preferem receber gente de bem, não bandidos. O fato de o delinquente ser titular de um passaporte nacional não lhe confere mais direitos, antes, acentua o fato de que descendentes de italianos só requerem a nacionalidade dos antepassados para obter vantagens, como entrar nos EUA sem visto ou refugiar-se na pátria para escapar à justiça .

Esse tipo de transgressor não é bem-vindo na Itália.

Os zigue-zagues de Trump

José Horta Manzano

Donald Trump tem personalidade forte e imponente. É do tipo que costuma ganhar no grito: quando ele troveja, espera que todos abram imediatamente o guarda-chuva. Não suporta que um indivíduo o enfrente, nem que fosse apenas continuando de pé, ao relento, guarda-chuva fechado.

Mais de uma vez já ouvi a anedota que contam sobre suas partidas de golfe. Como se sabe, ele é apaixonado por esse esporte e, volta e meia, convida gente graúda para jogar com ele, políticos, dignitários, personalidades estrangeiras. Logo antes do início da partida, um de seus guarda-costas sussurra discretamente ao pé do ouvido do visitante: “Deixe que ele ganhe”. É que Donald não suporta perder. Para ele, qualquer jogo é bom desde que ele ganhe. A derrota pode deixá-lo num estado de fúria incontrolável – um perigo!

Sua relação com Putin tem variado ao longo do tempo. O ditador da Rússia, homem forte e poderoso, exerce um certo fascínio sobre Trump, que o admira e respeita. Só que, como veremos logo abaixo, essa admiração e esse respeito só vão até o ponto em que Trump também se sente admirado e respeitado. Seu sentimento não é, portanto, incondicional. Assim, pode desvanecer rapidamente.

Já antes de seu primeiro mandato, Trump elogiava Putin. No começo de 2022, quando as tropas russas ainda estavam se preparando para invadir a Ucrânia, Trump lançou um baita elogio a Putin chamando-o de “gênio”. A Donald, a ideia de invadir um país vizinho para conquistar território pareceu fantástica. Talvez a ideia de conquistar o Canadá no porrete já estivesse germinando em sua mente.

Conforme a guerra se desenvolvia, a apreciação de Trump por Putin oscilou entre sorrisos e dentes arreganhados. Trump chegou a criticar certas ações de Moscou, como o sequestro de crianças ucranianas, mas a careta sempre durou pouco.

Uma das promessas mais midiáticas de Trump durante sua campanha eleitoral do ano passado foi a de “acabar com a guerra da Ucrânia em 24 horas!”. Ninguém, no fundo, botava muita fé, mas, como se costuma dizer, promessa é dívida. Ficamos todos curiosos à espera do que estava pra acontecer; queríamos saber como é que Trump ia se virar para parar essa guerra.

Desde que assumiu o posto de presidente, Donald bem que vem tentando domar Moscou e Kiev. Foi bem acolhido por Moscou, mas encontrou um Putin tão flexível quanto uma porta de aço. Fechada. Um Putin que só pararia de bombardear o vizinho se os 20% de território ucraniano que havia invadido lhe fossem atribuídos. Quanto a Zelenski, apesar da tunda pública que lhe deram no Salão Oval, bateu pé firme: “Não posso ceder 20% do território pátrio assim, de mão beijada, ao invasor; vamos lutar até o último homem”.

Diante disso, Trump começou a se enervar. Não é homem de entrar numa briga e sair de mãos no bolso, sem vencer e sem conseguir nada de nada. Deve ter considerado que, politicamente, enfrentar Putin não era boa ideia. Além de inflexível, o ditador russo está sentado em cima de imenso arsenal nuclear.

Seja por que razão for, Trump decidiu dar mais uma guinada em seu zigue-zague. Anunciou esta semana sua intenção de liberar, em favor da Ucrânia, certa quantidade de baterias de defesa antiaérea, arma de defesa que tanta falta está fazendo diante dos ataques quotidianos de mísseis e drones qua a Ucrânia vem sofrendo.

Se não mudar de ideia amanhã, como volta e meia faz, Trump estará dando continuidade à ajuda americana que, há 3 anos, vem permitindo à Ucrânia conter o avanço russo.

Com isso, sai de cena a aberração de uma aliança entre russos e americanos, coisa que não se via desde 1945 e que não faz sentido no contexto atual. As coisas voltam a seu lugar.

É sempre “nós x eles”, mas… “nós pra cá e eles pra lá”.

Se benzer

José Horta Manzano

A sabedoria popular ensina que ‘cão que ladra não morde’. Com variantes regionais, esse ditado ecoa em todas a línguas. ‘Os cães ladram e a caravana passa’ é uma variante.

Isso dito, tenho observado a atitude de Donald Trump com relação ao Irã. Já faz dias que ele ameaça sem morder. Abandonou a reunião do G7 antes do fim, dizendo que tinha decisão iminente a tomar. A “decisão” não passou de um ultimátum lançado ao Irã ordenando que se rendessem imediatamente e sem condições. Em resposta, os aiatolás deram-lhe uma banana.

Trump voltou a ameaçar lembrando que está cogitando destruir o sítio onde os iranianos enriquecem urânio. Acontece que essas instalações estão enterradas longe do alcance de bombas tradicionais. Trump, por enquanto, continua ladrando sem morder. Por que será?

Há quem diga que está aplicando nos iranianos a estratégia do pavor. Procura atormentar os habitantes com a iminência dos ataques, lembrados diariamente. Pode ser, mas não é o que me parece. A meu ver, o que está emperrando um ataque fulminante é outra coisa.

O Irã é supermontanhoso. Sua orografia acidentada, que percorre praticamente o território inteiro, conta com elevações que ultrapassam 4.000 metros. Ao construir suas instalações subterrâneas, os iranianos sabiam que os EUA possuem esse tipo de bomba perfurante, que pode atravessar 60m de terra, rocha ou até concreto antes de explodir.

Assim sendo, com tanta montanha à disposição, não me parece que tenham optado por cavar uma cova rasa para colocar as centrífugas. É mais simples abrir um túnel no flanco de uma montanha bem alta e, lá no fundo, alargar a galeria e instalar a maquinaria. Dado que a bomba perfurante fura na vertical (e não na horizontal), as instalações estão protegidas pela própria montanha. Quero crer que tenham escolhido esta última solução.

Isso explicaria a longa hesitação de Trump em lançar um ataque. Sacou, tem de atirar – olhaí outra expressão conhecida. Se a tal bomba perfurante for lançada sem sucesso, isto é, se não destruir completamente o sítio nuclear, como é que fica? Trump não pode dar de ombros, virar as costas e tirar o pé fora. Terá de dar continuidade ao ataque. Terá de se meter numa guerra, sem esperança de vencê-la rapidamente.

Entre as promessas de campanha, Trump garantiu que, como adepto da paz, não envolveria mais os EUA em guerras. Uma nova guerra no Oriente Médio desmoralizaria o personagem. Ele perderia o apoio de muitos de seus fãs. Portanto, ele só interviria no Irã se tivesse certeza de vencer em poucos dias e, sobretudo, sem que nenhum soldado americano tenha de pisar o solo persa.

Outro fator pode ajudar a explicar a hesitação trumpiana. Faz muito tempo que o Irã deixou de permitir a entrada de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. Ninguém é capaz de dizer com exatidão a quantas anda, neste momento, o enriquecimento de urânio. Na última inspeção estava a 60%, mas como estará agora? Sabe-se que, para o fabrico da bomba, o urânio tem de estar enriquecido a 90%.

Assim sendo, supondo que o urânio enriquecido esteja próximo do teor necessário para explosão atômica, quais seriam as consequências de uma bomba perfurante explodindo no recinto em que o urânio enriquecido está estocado? Fica por isso mesmo? Quem garante que a poeira contaminada não vai escapar e se espalhar pela atmosfera? Tendo em mente que o Irã tem uma população de 90 milhões, quem vai assumir a responsabilidade de ter contaminado, pelo ar e pela água, toda uma nação?

Aí estão, a meu ver, as razões da demora de Trump. Em conclusão:

    • Se simplesmente abandonar, ele será visto como pusilânime.
    • Se atirar a bomba perfurante e não conseguir atingir o alvo, será ridicularizado, ele e seu exército.
    • Se lançar a bomba e contaminar milhões, será considerado um genocida de galocha.
    • Se entrar em guerra tradicional, com desembarque de tropas e de tanques, estará abrindo conflito para uma década, com milhares de americanos mortos, sem garantia de vitória.

É um drama em que todas as saídas são ruins. A sinuca é de bico. De bico entortado, com penas pretas por cima. Trump precisa se benzer.

Zambelli e os Bolsonaros: sempre juntos

Alfândega italiana

José Horta Manzano

Parlamentares da oposição italiana estão furiosos. Acusam o governo de Giorgia Meloni — ela mesma de extrema direita — de hipocrisia ao permitir a entrada de Carla Zambelli no país. A ex-deputada brasileira, foragida da Justiça, chegou recentemente à Itália via Estados Unidos. A revolta do grupo de oposição ecoou no Parlamento.

O deputado Angelo Bonelli, do Partido Verde Esquerda, numa interpelação ao Ministério do Interior, exigiu explicações sobre pontos obscuros referentes à chegada de Zambelli ao aeroporto de Roma. Segundo ele, sua vinda à Itália era amplamente conhecida — inclusive anunciada por ela mesma dias antes. Ela parecia acreditar que, como cidadã italiana, estivesse protegida de extradição, o que tornaria o país um porto seguro. Bonelli questiona: como é possível que a Justiça italiana não tenha se antecipado? Ainda que a ordem de prisão da Interpol não tivesse sido recebida, o mínimo seria monitorar discretamente seus passos.

“O que não pode acontecer é a Itália virar refúgio de criminosos”, disse Bonelli. “Com ou sem cidadania italiana, um fugitivo é um fugitivo.” Ele também levantou a suspeita de que Zambelli esteja sendo protegida por ordem do alto escalão do governo italiano — que, segundo ele, sabe muito bem onde ela está, mas guarda o segredo.

No mesmo discurso, Bonelli trouxe outro nome à tona: Jair Bolsonaro. Perguntou se o ex-presidente brasileiro também é cidadão italiano. A resposta do Ministério foi evasiva: até o momento, Bolsonaro não solicitou o reconhecimento de sua cidadania. Seus filhos, no entanto, sim — e já foram oficialmente reconhecidos como cidadãos italianos. Flávio, Eduardo e Carlos estão devidamente documentados.


É curioso como, apesar das rusgas, Zambelli e os Bolsonarinhos insistem em subir juntos aos palcos – no presente caso, no Parlamento Italiano…


Mas a informação mais intrigante veio da subsecretária do ministério, que afirmou com naturalidade que os filhos de Bolsonaro têm cidadania italiana, mas não o pai. Como assim? De onde, então, herdaram essa nacionalidade? Se não veio do pai, de onde terá vindo? Acharam na rua?

Pela lei do sangue (ius sanguinis), a cidadania italiana é transmitida por ascendência. Para que os filhos a obtenham, é necessário comprovar a linhagem desde o último antepassado nascido na Itália até o requerente. Isso passa obrigatoriamente pelo pai. Portanto, ele está necessariamente inscrito nos devidos registros italianos. Assim sendo, Jair pode solicitar o passaporte a qualquer hora.

Quem sabe, como italiano de papel passado, Bolsonaro não acaba se juntando a Zambelli para trilharem juntos as espinhosas veredas da fuga e do exílio…

Donald Trump e os limites do poder

José Horta Manzano

by Darío Castillejos (1974-), desenhista mexicano

Nos últimos anos, psiquiatras e psicólogos americanos vêm observando com preocupação um aumento na frequência de episódios que sugerem sinais de confusão cognitiva por parte de Donald Trump. Durante seus discursos, que hoje se estendem por cerca de 82 minutos – quase o dobro da média de 45 minutos registrada na campanha de 2016 –, o ex-presidente muitas vezes demonstra dificuldades de articulação. Há casos em que palavras são pronunciadas pela metade, frases ficam incompletas ou se encerram com terminações inventadas, o que torna suas falas, em vários momentos, desconexas e de difícil compreensão até mesmo para seus apoiadores mais fiéis.

Mais do que simples lapsos verbais, essas manifestações vêm acompanhadas de um padrão preocupante: decisões impulsivas, tomadas sem planejamento estratégico, que muitas vezes são revertidas pouco tempo depois. Esse comportamento errático tem gerado instabilidade tanto na política externa quanto na condução da economia americana. A volatilidade das posições presidenciais cria um ambiente de expectativa constante, em que aliados e adversários se veem obrigados a reagir a movimentos inesperados, dificultando qualquer esforço de governabilidade a longo prazo.

Diante desse cenário, até mesmo figuras influentes do Partido Republicano passaram a se perguntar à boca pequena se Trump estaria fisica e mentalmente apto a exercer a função de chefe de Estado. Embora tais dúvidas ainda sejam tabu em parte do eleitorado, o desconforto é palpável entre especialistas em saúde mental, analistas políticos e líderes institucionais.

Esse ambiente de incerteza, com contornos de pré-catástrofe, tem levado muitos americanos a refletir sobre os limites do poder presidencial. Afinal, será que o modelo criado no final dos anos 1700, com o objetivo de substituir a figura do rei da Inglaterra por um presidente forte e autônomo, ainda é compatível com a complexidade dos tempos atuais?

O sistema presidencialista dos Estados Unidos foi, à sua época, uma inovação. Mas os desafios do século XXI exigem nível mais elevado de equilíbrio entre autoridade e responsabilidade. A atual configuração concentra um volume extraordinário de poder numa única pessoa. Num mundo interconectado e repleto de tensões geopolíticas, um único erro de cálculo – e Trump já cometeu vários – pode ser suficiente para desencadear um enfrentamento bélico de proporções calamitosas.

Talvez seja chegada a hora de um debate nacional mais amplo, não apenas sobre a saúde e a aptidão dos candidatos à Presidência, mas sobre a própria estrutura de comando da maior potência do planeta. Rever as atribuições e os limites do cargo pode ser um passo essencial para proteger a democracia americana de seus próprios excessos – e dos riscos representados por lideranças instáveis.

Crioulo

Árvore genealógica

José Horta Manzano

O mundo parece gostar de se surpreender com o novo papa. A cada dia, surge nova informação, nova faceta de sua vida e de sua trajetória, incitando à curiosidade por seu passado. Como nos velhos tempos, cada um parece estar correndo atrás de um pequeno retalho de batina, de fáscia ou de peregrineta para fazer uma relíquia. Esse fascínio pelo chefe da Igreja já se registrava nos primeiros papados mas, com a visibilidade das redes sociais, está se tornando mais intenso e globalizado.

Já se disse que o Papa Leão XIV nasceu nos Estados Unidos e passou cerca de 20 anos no Peru, o que torna sua trajetória ainda mais interessante. Não foi alguém que permaneceu na retaguarda, longe da ação; pelo contrário, ele se envolveu ativamente como missionário e percorreu diversas regiões, espalhando sua fé e vivenciando culturas distintas. Esse papel de missionário é um reflexo do dinamismo que caracteriza sua personalidade, sempre buscando se conectar o mundo que o circunda, um traço que tem sobressaído desde que ascendeu ao papado.

Uma questão particularmente interessante diz respeito à análise das suas origens, um fator carregado de sensibilidade, especialmente em sua terra natal, um país cuja história está entrelaçada com questões de raça e identidade. As origens de Leão XIV, longe de serem meramente um detalhe biográfico, oferecem uma chave de leitura para a compreensão da história contemporânea, na qual o Papa surge como uma figura que atravessa fronteiras culturais e étnicas.

Em artigo publicado há dias no The Conversation, Chelsea Stieber, historiadora e pesquisadora, traça um retrato mais detalhado das descobertas feitas por uma genealogista a respeito de Robert Francis Prevost, nome de batismo do novo papa. De acordo com Stieber, do lado materno, o Sumo Pontífice tem origens ‘creoles’, um termo que, na língua inglesa, pode gerar confusão, dada sua ambiguidade. Tradicionalmente, a palavra “creole” é usada para se referir a indivíduos de ascendência europeia, descendentes dos primeiros colonizadores franceses ou espanhóis nas Américas. No entanto, esse termo também pode se referir a indivíduos mestiços, fruto da união entre colonizadores e negros, particularmente nas vizinhanças da antiga América Francesa, a atual Luisiana.

O artigo de Stieber, no entanto, não esclarece com precisão de que categoria de ‘creole’ Leão XIV descende. Numa possível interpretação, ele poderia descender de “gens de couleur libres” – expressão histórica utilizada para descrever escravos alforriados, que viviam à margem da sociedade colonial. Documentos de pesquisa indicam que o avô materno do papa, Joseph Norval Martínez, nasceu no Haiti, o que adiciona uma camada fascinante à genealogia do pontífice.

O papado de Leão XIV, que acaba de começar, abre um vasto campo para investigações. Genealogistas e estudiosos têm diante de si boa oportunidade de desenterrar documentos, consultar cartórios, registros de paróquias e arquivos esquecidos. No entanto, é importante destacar que essas descobertas, ainda que interessantes, não passam de curiosidade. No fundo ninguém é responsável por seu passado longínquo.

O que realmente importa, e o que permanecerá para a história, são os fatos e gestos de Leão XIV. O que virá a partir de agora é mais importante do que qualquer descoberta genealógica ou fofoca de rede social.

Quem viver, verá.

As derrotas de Trump

Tambores rufando

José Horta Manzano

Apesar de ter descido à arena com passos duros e rufar de tambores, Donald Trump, personagem grandioso e teatral, está murchando estas últimas semanas.

Prometeu expulsar 11 milhões de imigrantes clandestinos. Fiz as contas: com aviões de 200 lugares, seriam necessários 55 mil voos. Suponhamos uma frota de 10 aeronaves dedicadas exclusivamente à missão, cada uma fazendo um voo de ida e volta por dia, de domingo a domingo, feriados e dias santos incluídos. Seriam necessários 5.500 dias – cerca de 15 mandatos presidenciais. Mesmo os menos afeitos à matemática (como este escriba) percebem que a meta é uma miragem. Uma promessa de palanque que não resistiu à aritmética. Derrota, portanto.

Depois veio o plano mirabolante de quebrar a espinha dorsal da economia chinesa com pesados impostos de importação, como se a China fosse uma loja de esquina em crise. Imaginou que o “Império do Meio” se ajoelharia. Não se ajoelhou. Em um país de governo centralizado, acostumado a ordens verticais, a população seguiu em silêncio. Quem cedeu foi Trump, que engoliu em seco e aceitou a mediação suíça. O leão rugiu, mas acabou se afinando. Mais derrota, portanto.

A bufonaria de entregar pastas de governo a Elon Musk, um parvenu com aspirações a Messias digital, teve vida breve. O corte em instituições, o descontentamento geral e a gritaria nas redes dissolveram rapidamente a “grande aliança”. Musk está fora – ou quase. Mais uma derrota para o currículo.

Há outras, menores, internas, administrativas, que se acumulam como entulho. Mas o quadro geral é claro: por trás do gestual arrogante e da retórica grandiloquente, o messianismo de Trump está em processo de derretimento. A cada bravata, nova fissura. A cada promessa não cumprida, fiasco mais evidente.

A verdade é que o presidente, que se pinta como salvador do mundo, parece hoje mais um personagem trágico de ópera bufa: ruidoso, solitário e, sobretudo, declinante.

Prevost

Hábitos clericais na Idade Média

José Horta Manzano

Prevost, sobrenome do papa recém-eleito, é palavra de origem francesa. O significado variou com o tempo, como também variou a grafia. Ao longo dos séculos, o termo já se escreveu provost, prevoz, prevost e de outras formas pitorescas até chegar a prévôt, grafia atual.

Etimologicamente, é palavra descendente do latim, especificamente do verbo praeponere, onde prae = antes/à frente, ponere = pôr/colocar, ou seja, colocar à frente. Prévôt é aquele que, num grupo, ocupa a posição de chefia. Prévôt tem similaridade semântica com nosso preposto. Ambos indicam alguém que exerce funções de chefia ou direção.

Na Idade Média, prévôt podia ser, por exemplo, o oficial com poder jurisdicional sobre um determinado território, o chefe de uma companhia de arqueiros (atiradores de flecha), o magistrado encarregado de instruir processos de marinheiros acusados de crime. E outras tantas possibilidades.

Leão XIV certamente teve um prévôt em sua árvore genealógica, personagem longínquo mas importante por ter transmitido o nome à descendência.

Pelo que a mídia noticiou, o novo papa tem origem francesa e italiana, nasceu nos EUA, adquiriu a nacionalidade peruana. Sua língua materna é inglês e, além disso, fala também italiano e espanhol muito bem. Fiquei sabendo que fala também francês, mas não posso julgar porque não o ouvi nessa língua.

O domínio do italiano é condição indispensável para ser eleito papa. Afinal ele será o dirigente absoluto (chefe dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) do Vaticano, Estado cuja língua oficial é o italiano. Alguém imaginou eleger um presidente do Brasil que não falasse português?

Por causa dessa ascendência multinational, no dia seguinte de sua eleição, genealogistas puseram mãos à obra para desvendar os passos dos antepassados do papa. Não sei como conseguiram ir tão rápido, mas o fato é que, tanto nos EUA quanto na França, logo surgiram informações.

Na terra natal de Leão XIV (onde Leão se escreve “Leo” e se pronuncia “Lío”), logo encontraram os irmãos do papa, todos com idade regulando com ele. Fotos de família e declarações ao vivo de irmãos enfeitaram os programas do horário nobre da televisão.

Já na França, genealogistas seguiram a linha dos antepassados e descobriram que a avó do novo papa era filha de confeiteiros da Normandia, nascida na cidade do Havre em 1894 e falecida nos EUA em 1979. Todos os antepassados dessa senhora eram normandos – é verdade que mudanças de uma região a outra eram raras naqueles tempos.

Um jornal da região de Grenoble chegou a descobrir, em poucas horas, que os antepassados do papa teriam raízes naquela região. Vasculharam longe pra chegar a essa descoberta. Afirmam que a tetravó (avó do bisavô) de Leão XVI, uma certa Marie-Thérèse Rancurel, poderia até ter origens nobres(!).

É certamente uma linda história para contar para os sobrinhos-netos. Mas o que importa realmente não são tanto as origens de Leão XIV, mas como ele orientará seu trabalho. O papa não tem exército, não é pela força bruta que ele poderá ajudar a humanidade. De todo modo, força bruta nunca serviu pra ajudar ninguém.

Na minha recatada opinião, o chefe da Igreja Católica deveria ter a coragem de enfrentar as questões que, na atualidade, empacam a instituição. Não acredito que a ordenação de mulheres seja a questão primeira. Há outros assuntos que não adianta varrer para debaixo do tapete, como se não existissem.

Aborto voluntário e casamento entre pessoas do mesmo sexo são temas do nosso tempo. Ambos já estão regulados em dezenas de países – muitos deles, católicos –, enquadrados por leis ou por decisões de justiça. A Igreja não pode fugir a debates que a sociedade civil já resolveu e sacramentou.

Resta esperar que Leão XIV queira e consiga extirpar a Igreja do torpor timorato em que está mergulhada. Que o apego ao passado se limite aos hábitos medievais do clero.

Caiu do céu

José Horta Manzano

Durante milênios, o céu foi apenas o lar dos astros, das nuvens e dos sonhos humanos. Hoje, ele é também o depósito de um perigoso quebra-cabeça metálico. Desde que o primeiro satélite artificial foi lançado em 1957, uma silenciosa e crescente multidão de objetos passou a orbitar a Terra. No começo, eram poucos e gloriosos marcos da corrida espacial. Depois, viraram dezenas, centenas e, com o tempo, milhares de artefatos — satélites ativos, lixo espacial, partes de foguetes, painéis solares desativados, parafusos soltos. Tudo isso formando uma espécie de anel invisível ao olho nu, mas cada vez mais denso, caótico e ameaçador.

Nosso céu, antes limpo e infinito, virou um carrossel de lixo.

E como já sabiam os antigos – e como confirma a física – tudo o que sobe acaba caindo. A gravidade, paciente e constante, cobra seu tributo com o tempo. E foi assim que, recentemente, veio a notícia de que um pedaço de 495 kg de uma nave lançada em 1972 – uma missão fracassada com destino a Vênus – deve reentrar na atmosfera terrestre nos próximos dias. Essa peça em particular é o estágio superior de um foguete soviético, vagando feito alma penada há mais de meio século, agora prestes a voltar para casa. Mas onde, exatamente, vai cair? Ninguém sabe.

O risco de atingir área habitada é pequeno. Estimativas apontam para uma probabilidade ínfima – mas não nula. E esse é o ponto que deveria nos preocupar. Porque, se não for esse específico destroço, amanhã pode ser outro. Existe uma classe crescente de zumbis espaciais – objetos não-funcionais que continuam em órbita – esperando sua vez de despencar sobre a Terra. Em geral, se desintegram ao reentrar, mas pedaços maiores, como esse, podem resistir e chegar ao solo.

A questão não é mais “se” algo vai cair em local povoado, mas “quando”. E o que temos feito para evitar isso? Ainda muito pouco. Existem planos, estudos e promessas de futuros satélites com sistemas de reentrada segura ou mecanismos de autodestruição. Há empresas e agências espaciais estudando “aspiradores” espaciais para recolher o lixo orbital. Mas são iniciativas pontuais, caras e lentas.

Enquanto isso, o número de satélites só aumenta. Com projetos como o Starlink e outros similares, a expectativa é que dezenas de milhares de novos objetos sejam lançados nos próximos anos. Multiplicam-se as conexões, mas também os riscos.

É hora de levar a sério o que vem do céu. Precisamos de regras internacionais mais firmes, de fiscalização real e de planos concretos para lidar com os resíduos espaciais. Porque esperar a desgraça para agir depois é a receita certa para ela acontecer.

Afinal, quando alguma coisa cai do céu, nem sempre é uma bênção.

Putin quer mesmo o fim da guerra?

José Horta Manzano

Dizer que Vladimir Putin deseja o fim da guerra é uma falácia, uma ideia que não resiste à menor análise. Desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o objetivo do Kremlin foi muito além de uma mera operação militar. Para Putin, a guerra não é um acidente de percurso, mas um instrumento essencial de sua estratégia de enfraquecer a Europa e impor-se num novo equilíbrio de forças no continente, quiçá no mundo.

Interessa ao líder russo que o conflito se prolongue indefinidamente – ou pelo menos até que os Estados Unidos se cansem de financiar e apoiar Kiev. Em sua lógica, trata-se de um jogo de paciência: enquanto a Rússia, acostumada a resistir a longos períodos de privações e adversidades, segura o terreno, ele aposta que o Ocidente, sujeito a pressões internas e a ciclos políticos curtos, acabará desistindo.

O cálculo é cínico, mas não desprovido de realismo: sem o respaldo militar, financeiro e diplomático dos EUA e da União Europeia, a Ucrânia se verá sozinha diante do colosso russo. A partir daí, Putin acredita que a resistência ucraniana acabará por desmoronar e que Kiev, isolada e exaurida, terá de se render – ou aceitar a paz nos termos impostos por Moscou.

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Cada trégua aparente, cada discurso em favor da paz vindo do Kremlin deve ser entendido como parte de uma estratégia maior: ganhar tempo, dividir o Ocidente, sem nunca perder de vista o objetivo final. Para Putin, a guerra não é algo a ser encerrado; é uma ferramenta a ser utilizada até a exaustão do adversário.

Enquanto houver esperança de ver o apoio ocidental à Ucrânia enfraquecer, a paz naquela região continuará sendo apenas o que é: uma linda palavra, útil para discursos diplomáticos e “tréguas” de ocasião, mas distante da realidade.

E agora, para onde vai a Igreja?

José Horta Manzano

Conduzir a Igreja Católica não é tarefa para amadores – nem mesmo para santos. Desde que Pedro trocou as redes de pesca pelo governo das almas, o sucessor de Cristo na Terra tem vivido o angustiante dilema de apascentar um rebanho que, com o passar das décadas, vem mostrando tendência a afastar-se dos preceitos. Com o papa Francisco, esse drama atingiu novos e intricados capítulos.

Desde o início de seu pontificado, Jorge Bergoglio deixou claro que não seria apenas o “papa simpático” das selfies e dos discursos emocionantes. Ele tinha convicções firmes: uma Igreja pobre para os pobres, aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo e mais preocupada em acolher almas do que em policiar comportamentos. Mas querer é uma coisa; fazer, especialmente no Vaticano, é outra bem diferente.

Francisco viu-se sitiado entre duas frentes surdas: de um lado, a ala conservadora, sempre pronta a acionar o freio de mão dogmático a cada aceno de mudança; de outro, o progressismo ansioso, que muitas vezes lhe cobra avanços com a impaciência típica de quem desconhece a lentidão peculiar do tempo eclesiástico – um “sim” pode levar décadas e um “não” pode durar séculos.

Os conservadores escrutaram com desconfiança cada gesto pastoral do papa: se ele visitava uma prisão, era “populismo”; se falava em mudança climática, era “desvio de missão”. Já os progressistas, que sonham com reformas profundas – ordenação de mulheres, revisão do celibato, reconhecimento de novos modelos de família –, frequentemente se frustraram com a cautela e as meias palavras do pontífice argentino. Entre uns e outros, Francisco governou o barco como pôde, entre escolhos e sargaços.

Para impor uma visão de Igreja, é preciso mais do que carisma: é necessário ser uma força da natureza. Desde João XXIII – aquele que, com candura e astúcia, abriu as janelas do Vaticano ao mundo – não se viu outro papa com perfil verdadeiramente transformador. Paulo VI teve a intenção, mas não o apoio. João Paulo II, o vigor, mas o apego a velhas práticas. Bento XVI, o intelecto, mas não o pulso. E Francisco? Teve o sonho, mas faltou-lhe o exército.

No fundo, a Igreja continua esperando aquele homem providencial capaz de, com mão firme e sorriso sereno, romper o imobilismo e trazer a barca de Pedro a nossos tempos. Desta vez, ainda não foi possível. Mas resta a todos a esperança: essa, sim, uma virtude teologal.