Notícias de Ponta Grossa

José Horta Manzano

Passeando pelos jornais de hoje, topei com um relato um tanto confuso de uma vereadora de Ponta Grossa (PR), presa por ter forjado seu próprio sequestro. Não se lançou à aventura sozinha, mas acumpliciada com Suzicleia, Idalécio e Adalto. Para espíritos mais curiosos, a notícia completa está aqui.

Se entendi a história ― mas não tenho certeza ― a edil fez o que fez para escapar da eleição da Câmara. Confesso não saber a que eleição da Câmara se refere o articulista. Pensava que, para não votar, bastasse não comparecer. Parece que é bem mais complicado.

Contra a vereadora e seus cúmplices, será apresentada denúncia por crime de formação de quadrilha, simulação de sequestro e fraude processual. Não é pouca coisa. Mas parece que a eleita municipal já providenciou advogado. O causídico, naturalmente, entrará logo com pedido de habeas corpus. E assim, vão todos para casa torcer para que o processo se eternize nos escaninhos da Justiça brasileira. E tudo bem.

Crédito: Thiago Schuina

Crédito: Thiago Schuina

Não conheço Ponta Grossa. A curiosidade me levou a consultar a Wikipédia. Fiquei sabendo de muita coisa. O município não é nenhuma Xiririca da Serra, não, senhor. A população estimada é de mais de 300 mil almas, como Genebra!

Uma outra informação me deixou pasmo. O inverno é mais frio e o verão é mais quente! Não é um fato digno de nota? Para quem quiser conferir, está lá com todas as letras, no tópico Clima. Aqui.

A Wikipédia traz um capítulo sobre a composição da população de Ponta Grossa. Fala dos desbravadores portugueses, dos tropeiros, das famílias vindas de São Paulo. Conta que, mais tarde, chegaram eslavos, árabes, italianos e outros estrangeiros. Curiosamente, nenhuma menção é feita aos habitantes primitivos do lugar, os indígenas. Não terá sobrado nenhum?

Não vamos atirar pedra nesse artigo. Não é o único, apenas segue a linha que nos ensinaram desde o curso primário. Nossa historiografia oficial menciona todos os imigrantes ― do português ao coreano ―, fala do africano trazido à força, mas faz abstração do habitante originário, como se nunca tivesse existido. O índio pode até servir como figurante de quadros épicos, mas na vida real atrapalha.

Por que razão isso acontece?

Provérbios

José Horta Manzano

Todas as línguas têm seus provérbios, seus ditos populares. São o resultado destilado da sabedoria secular. Aqui abaixo vai um breve florilégio de ditados ingleses, italianos, espanhóis e franceses, cada um com seu correspondente em nossa língua. A correlação nem sempre é ao pé da letra, mas dá uma ideia do sentido da frase original.

Roll in money
Nadar em dinheiro

All’uomo elemosiniero Iddio è tesoriero
Quem dá aos pobres empresta a Deus

A donde te quieren mucho no vengas a menudo
Visita é como peixe: depois de três dias, fede

Sagesse est dans la tête et non dans la barbe
O hábito não faz o monge

Curiosity killed the cat
A curiosidade mata

Nel monastero altrui non si va con le proprie leggi
Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso

En las malas se conocen a los amigos
Nas horas difíceis se conhecem os amigos

Ma belle est celle que j’aime
Quem ama o feio, bonito lhe parece

Alambique

Alambique

Divide and rule
Dividir para reinar

Il silenzio è assenso
Quem cala consente

Hay ropa tendida
As paredes têm ouvidos

Cela ne sert à rien de devenir un jour l’homme le plus riche du cimetière
O caixão não tem gavetas

Measure thrice before you cut once
Um homem prevenido vale por dois

Gran pericolo, gran guadagno
Quem não arrisca não petisca

La distancia es el olvido
Longe dos olhos, longe do coração

Celui qui dort dans un lit d’argent fait des rêves d’or
A avidez é insaciável

Misfortunes never come singly
Desgraça pouca é bobagem

L’occhio del padrone ingrassa il cavallo
O olho do dono engorda as reses

Muerto el perro, se acabó la rabia
Deve-se cortar o mal pela raiz

Fais ce que tu dois, advienne que pourra
Fazer o bem sem olhar a quem

Revenge is a dish best eaten cold
A vingança é prato que se come frio

Chi scherza coi pericoli, cerca lodi e trova dolori
Quem brinca com fogo acaba se queimando

Más sabe el diablo por viejo que por diablo
Macaco velho não mete a mão em cumbuca

Pain coupé n’a point de maître
Achado não é roubado

To be in a pretty pickle
Estar em maus lençóis

Madame ou Mademoiselle?

Você sabia ?

José Horta Manzano

Por mais que se considerem progressistas e ‘prafrentex’, os franceses são bastante conservadores. No trato com terceiros, a coisa sobressai. Há dois níveis de tratamento: tu e vous, ambos da segunda pessoa.

O tu, mais íntimo, é utilizado em família, entre camaradas de escola, entre adolescentes. É usado também no círculo de algumas associações sindicais ou profissionais, ainda que às vezes soe forçado. Tu denota intimidade. Quando a gente se dirige a alguém com quem não tem intimidade, o tu soa artificial, obrigatório. O vous, mais formal, usa-se nos demais casos ― a maioria.

O uso da terceira pessoa, em voga até um século atrás, é hoje considerado preciosismo démodé. Simbolizava um excessivo respeito que já passou de moda. Frases como «Madame est servie» (A Senhora está servida = o jantar está na mesa), dita por serviçais, só é ouvida hoje em dia em filmes históricos. De toda maneira, poucos são os que ainda se podem dar ao luxo de pagar empregados domésticos.

As regras de uso de tu e de vous são muito rígidas. Há casos, comuns por aqui, que deixariam qualquer brasileiro boquiaberto. Suponhamos que um seu colega de escritório se sente habitualmente à mesa ao lado da sua. Se a empresa funcionar, como a maioria, à moda antiga, você e seu colega perigam passar 20 anos sentando-se todos os dias um ao lado do outro e chamando-se reciprocamente de vous mais o sobrenome. Bonjour, Monsieur Dupont! Bonjour, Monsieur Dubois! Esquisito para nós, não? Imagine só: bom dia, senhor Silva! Bom dia, senhor Souza!

Se o ambiente de trabalho for menos rígido, talvez você se sinta autorizado a chamar seu colega pelo nome. Nesse caso, teremos: Bonjour, Jean! Bonjour Paul! Mas não se engane: continuarão a se dizer vous até o fim dos tempos. Jamais ousarão transpor o muro invisível que retém as pessoas e as impede de entrar na intimidade da outra.

O que acabo de descrever é o caso genérico, representativo do estado de espírito mais disseminado. Evidentemente, há situações particulares em que o relacionamento pode funcionar de outra maneira.Bagues 1

Um homem será sempre chamado Monsieur. Basta haver saído da adolescência. Pouco importa se é casado ou não. Será sempre Monsieur. Já o mesmo não ocorre com uma mulher, não me pergunte por quê. Chegada à idade adulta, ela se apresentará como Madame, se já for casada. Ou como Mademoiselle, se não o o for. E assim será chamada. Atenção: esse termo de tratamento será sempre seguido pelo sobrenome. Se não, fica parecendo nome de vidente ou daquelas que os antigos chamavam «mulheres de vida fácil».

Mas o tempo passa e os costumes mudam. Faz anos que movimentos feministas denunciam a flagrante diferença de tratamento entre homens e mulheres. Por que todos têm de saber se uma mulher é casada ou não? Por que os homens escapam a toda inquirição sobre seu estado civil?

Depois de muita luta, senhoras e senhoritas conseguiram que uma lei fosse votada para acabar com essa diferença. Embora já estivesse em vigor desde fevereiro do ano passado, o instituto legal só alguns dias atrás foi definitivamente referendado pelo Conseil d’Etat, a mais elevada jurisdição administrativa do Estado francês.

Uma lei, por mais que queiram seus instigadores, não consegue mudar mentalidades da noite para o dia. Não se pode proibir que formas consagradas por anos de uso popular desapareçam por encanto. O que o novo regulamento determina é que, nos documentos oficiais, seja abolida a diferença entre casadas e solteiras. A partir de agora, todas as mulheres serão chamadas Madame. Ponto e basta.

Isso vale para o Imposto de Renda, a conta de eletricidade, o IPTU, documentos de identidade, passaporte, carteira de motorista, enfim, tudo o que for documento oficial. A notícia saiu no jornal 20 Minutes de 28 de dezembro. Para quem quiser conferir, está aqui. Em francês.

Para mudar as mentalidades, ainda vai levar um tempinho. Modos de pensar não se mudam por decreto.

It’s human nature

Dilma 1

Você sabia?

José Horta Manzano

Ano-novo é época de balanços, resenhas, retrospectos. Um artigo do Estadão nos informa que nossa presidente atual faz menos discursos que o mandatário anterior. Não precisa ser doutor em Ciências Auditivas para já ter percebido isso.

Outra verdade evidente: ela fala menos que o antecessor. Usa menos palavras. Longe de mim insinuar que seu vocabulário seja menos extenso ― talvez simplesmente não tenha o dom de falar em público. Terá outros, sem dúvida.

O mais interessante da pesquisa é a contagem paciente de quantas vezes a senhora Rousseff pronunciou, em seus discursos, o nome do padrinho. Deve ter custado aos autores um trabalhão digno de beneditinos. Chegaram à conclusão que, em 2011, a presidente se referiu nominalmente a seu guru 96 vezes. Já em 2012, foram apenas 67 vezes, ou seja, 29 menções a menos.

A ser mantido o mesmo abatimento anual, o santo nome deverá ser articulado apenas 38 vezes em 2013. E nada mais que minguadas 9 vezes em 2014.

It’s human nature, como dizem os ingleses. Longe dos olhos, longe do coração. Rei morto, rei posto. A mesma água não passa duas vezes debaixo da ponte.

C’est la vie…

Para fechar o ano

José Horta Manzano

Vamos terminar o ano com algo mais leve. Vou relembrar alguns versos antológicos da MPB. É verdade que são meio antigos, mas ― que fazer? ― obras-primas andam rareando ultimamente. Fiquemos com o que nos marcou. Guardemos o que ninguém jamais poderá apagar.

É impossível reunir, num só post, todos os versos bonitos que nossa música já produziu. Seria uma lista cansativa, de tão extensa. Vou relembrar algumas poucas joias que me ocorrem agora. Dentre elas, uma só não é brasileira, mas é tão bonita que merece ser citada.Musica & letra

A  felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
Tom Jobim & Vinicius de Morais, 1959

E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer. Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.
Chico Buarque, 1967

A lua, furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão.
E tu pisavas os astros distraída.
Orestes Barbosa, 1935

Na Praça Clóvis minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato
Vinte e cinco, francamente, achei barato
Pra me livrar do meu atraso de vida
Paulo Vanzolini, 1967

Tire seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Nélson Cavaquinho, Guilherme de Brito & Alcides Caminha, 1974

À noite, dos seus cabelos os grampos
São feitos de pirilampos
Que a estrelas querem chegar
Ary Barroso, 1935

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Chico Buarque, 1971

Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti
Cartola, 1976

Moi, je t’offrirai des perles de pluie
venues de pays où il ne pleut pas
Eu te darei pérolas de chuva
vindas de países onde não chove
Jacques Brel, 1959

Musical NotesSe nós, nas travessuras das noites eternas,
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir
Tom Jobim & Chico Buarque, 1980

São casas simples,
Com cadeiras na calçada,
E na fachada,
Escrito em cima que é um lar!
Garoto, Vinícius de Moraes & Chico Buarque, 1952 ― 1969

Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima
Paulo Vanzolini, 1963

FELIZ 2013 A TODOS!

O mofo nobre

Vinhedo de Bordeaux

Vinhedo de Bordeaux: denominações de origem controladas

Você sabia?

José Horta Manzano

Mofou, tem de jogar fora. Tem mesmo? Nem sempre. Há males que vêm para bem.

Na Idade Média, uma das atividades favoritas dos senhores feudais era a guerra. Por um sim, por um não, juntavam seus vassalos e partiam para medir forças com um outro senhor.

O século XVI já anunciava outros tempos, mas certos hábitos antigos continuavam arraigados. Conta uma lenda que, por aqueles tempos, um proprietário de terras de Sauternes, região de Bordeaux (França) foi à guerra. Como imaginava estar logo de volta, deixou ordens claras: fazia questão de que esperassem sua chegada para iniciar a vindima, a colheita das uvas.

Botrytis 1

Botrytis Cinerea, o mofo nobre

As coisas não correram exatamente como pensava o senhor. A contenda se prolongou e não lhe foi possível voltar a tempo para a colheita. Intimidados, seus camponeses não ousaram tocar nas uvas enquanto o patrão não tivesse retornado.

Quando finalmente voltou a suas terras, o proprietário constatou que as uvas, ainda não apanhadas, estavam já meio mofadas. Perdido por perdido, decidiu que a vindima se fizesse assim mesmo.

As uvas foram colhidas, pisadas, e o processo de vinificação foi lançado. Alguns meses depois, a abertura da primeira barrica trouxe uma surpresa muito agradável: o vinho, habitualmente medíocre e bastante ácido, desta vez parecia um néctar feito no céu. Licoroso, docinho, frutado, um luxo!

Os proprietários da região logo se deram conta de que o fato de haver esperado que as uvas mofassem tinha provocado aquela magia. Empiricamente, adotaram a nova técnica.

Passaram-se os séculos, e se manteve a técnica de só colher as uvas depois de engrouvinharem, adquirindo aspecto de uva-passa. Os enólogos têm hoje explicação científica para a miraculosa transmutação de um vinho à toa em delícia rara. Descobriram que, sob certas condições de umidade e temperatura, colônias de fungos microscópicos do gênero Botrytis Cinerea podem se formar. O microclima da região de Sauternes se caracteriza justamente por nevoeiros úmidos no início do outono, um pouco antes da época da vindima.

Esse fungo, quando afeta outras frutas, é catastrófico: toda a colheita pode estar comprometida. No entanto, quando ataca as vinhas, faz que a água dos bagos se evapore, aumentando a concentração de açúcar. Provoca o chamado mofo nobre. O resultado é um vinho naturalmente doce e ligeiramente licoroso. A cor da bebida também se altera, tornando-se um elegante amarelo alaranjado. Ambré, como dizem os franceses.

Como acompanhamento de um queijo roquefort, um gole de Sauternes é uma dádiva. O sabor ligeiramente açucarado suaviza a aspereza do queijo de ovelha. É um fecho excelente para uma refeição de réveillon.

A consumir com moderação, naturalmente.

Sauternes

Sauternes de diversos viticultores

Ao vencedor, as batatas!

Pdt 2Você sabia?

José Horta Manzano

A batata ― que antigamente chamávamos batata-inglesa, por oposição a batata-doce ― é originária da América do Sul, mais precisamente das encostas da Cordilheira dos Andes. Ainda hoje é a base da alimentação de populações inteiras naquela região.

Os primeiros europeus que visitaram a América se interessaram por aquele estranho tubérculo que alimentava tanta gente. Levaram mudas e se surpreenderam com a facilidade com que a nova planta se aclimatava às condições europeias. Não precisou muito tempo para que a batata se tornasse apreciada por todos os povos do Velho Continente. Seu consumo logo se equiparou ao do pão, chegando até a suplantá-lo na Europa do Norte.

Entre 4500 e 5000 variedades de batata estão inventoriadas pelos organismos dedicados à classificação dessa solanácea. Em muitos países, entre os quais a França, sua produção é rigorosamente controlada. Para que a comercialização de uma variedade qualquer seja autorizada, ela tem obrigatoriamente de estar inscrita Catálogo Oficial francês.

Em 2010, apenas 214 variedades estavam oficialmente registradas. Assim, somente elas tinham o direito de ser comercializadas. Antes do plantio, o agricultor prudente consulta a lista oficial. Caso tente vender uma variedade não autorizada, estará cometendo infração. Portanto, Pdt 1sujeito às penas da lei. É possível inscrever uma nova variedade no catálogo oficial, mas não é fácil. O caminho é longo e a burocracia, pesada.

Espantado? Eu também fiquei no dia em que soube da existência da lista oficial e, principalmente, da proibição de escapar dela. Mas o problema é só de princípio, tem pouca influência sobre a vida de todos os dias. Os comércios, mesmo as épiceries fines, não oferecem mais que 10 ou 15 variedades. São amplamente suficientes para o consumo da população.

Não resta dúvida, é interessantíssimo saber que, entre as nativas e as manipuladas, 5000 variedades já foram identificadas. Para o cidadão comum, no entanto, não passa de mera estatística.

Nota: caso você tenha curiosidade em se aprofundar no assunto, visite o site especializado seguindo este link (em francês).

Los apagones

BarrageJosé Horta Manzano

Quando ouvem um lugar-comum, uma banalidade, os franceses e os ingleses costumam dizer que se trata de uma platitude. Políticos soem pronunciar discursos e frases recheadas de lugares-comuns, de afirmações evidentes. Mas alguns exageram.

Nos últimos dez anos, nossos governantes foram dominados por uma ideia fixa: a permanência no poder a qualquer custo. Não sejamos fariseus. Quem alcançou posição confortável agarra-se a ela. É natural e compreensível. It’s human nature. O exagero está em aferrar-se ao poder como se ele fosse um fim em si. Não é.

Posições de mando certamente fazem bem ao ego. Em compensação exigem que o titular exerça de facto suas funções.

Pelo aumento exponencial de episódios de falta súbita de energia que temos constatado estes últimos tempos, é forçoso concluir que a devida atenção não tem sido dada ao planejamento desse setor estratégico.

Não basta cruzar os dedinhos, fechar os olhinhos e mentalizar seus desejos para que as coisas aconteçam por milagre. Os que detiveram o poder estes últimos anos não fizeram a lição de casa. Acham que posições de ministro, diretor, superintendente e que tais são apenas títulos honoríficos. Imaginam que as coisas acontecem automaticamente. Têm sido ingênuos. Sua incúria e seu despreparo têm emperrado o desenvolvimento do País.

Nossa presidente recusa o termo apagão. Talvez não lhe agrade o fato de essa palavra ter sido importada diretamente da Argentina, cujos apagones precederam os nossos. A senhora Rousseff prefere que se fale em «interrupção de fornecimento de energia», uma troca de seis por meia dúzia. Parece-lhe menos violento, mas, no fundo, reflete a mesma realidade.

Além da implicância com a expressão importada, a presidente proferiu (mais) uma platitude ao atribuir a culpa dos apagões a falha humana. É uma evidência. Alguém errou ao prever o crescimento da demanda. Alguém errou na instalação de para-raios de proteção às torres de transmissão. Alguém descuidou da manutenção preventiva. Alguém se enganou e apertou o botão errado. Alguém errou ao abrir (ou fechar) as comportas Poteaude alguma barragem. Seja o que tiver acontecido, terá sido erro humano.

Dizer que apagão é consequência de falha humana é uma banalidade. Levando nosso raciocínio até o fim, temos de considerar que o equipamento que constitui o parque energético também foi projetado, produzido, controlado, transportado, instalado e manipulado por seres humanos. Portanto, qualquer pane do material será, em última instância, efeito retardado de alguma falha humana anterior.

Será que teremos um dia dirigentes não só imbuídos de seus direitos mas também compenetrados de seus deveres?

Gol contra

José Horta Manzano

Tenho um amigo que viaja ao Brasil agora em janeiro. Como de costume, comprou sua passagem de avião por internet, no site da Swiss Air Lines. Hoje em dia é tudo tão prático, não? Você chega, se identifica, e logo aparece um hello ou um bonjour do outro lado. Você se sente em casa. Faz sua reserva, paga com seu cartão, e na hora já lhe mandam o bilhete por email. Se quiser, pode até marcar o lugar, escolher o tipo de refeição. Uma simplicidade.

Meu amigo quis comprar também uma passagem doméstica, de São Paulo para o interior, ida simples. A localidade de destino é servida por uma companhia chamada Gol (sic). Ele imaginou que fosse uma manipulação simples. Não foi. Ontem tentou, pelejou, não conseguiu. Pediu minha ajuda.Gol

Hoje resolvi dar-lhe uma mão. Imaginei fosse questão de poucos minutos. Engano meu. Obediente, li as instruções e segui tudo ao pé da letra. Nada feito. Só consegui obter mensagens de que havia um erro aqui, outro ali, que não havia sido possível, que tentasse de novo, que o login não havia sido reconhecido, enfim, um monte de baboseiras.

De repente, vejo um botão que me pareceu interessante: clicando ali, você pode conversar diretamente com um atendente ― por escrito, naturalmente ―, como numa sala de bate-papo. Tentei essa opção. Funcionou.

Do outro lado da linha, estava um rapaz muito bem educado, daqueles que transpiram boa vontade e gostam do que estão fazendo, sempre prontos a ajudar. Juntos, tentamos tudo o que se possa imaginar para comprar a passagem: como se o passageiro fosse residente no estrangeiro, como se residisse no Brasil, pagando com cartão Visa, pagando com Mastercard, entrando no site com cadastro, entrando pela porta dos fundos (sem cadastro). Todas as vias foram exploradas, mas nada adiantou.Nenhum cartão foi aceito, todos rejeitados. Impossível comprar a passagem.

O atendimento via sala de bate-papo durou das 11h26 às 13h56, exatamente uma hora e meia. Tempo perdido para o atendente e para nós aqui. Fomos derrotados por um sistema malfeito, um esquema pensado para o pão nosso de cada dia, mas despreparado para qualquer coisa que saia do ramerrão quotidiano. Um cartão emitido no exterior está, aparentemente, fora dos parâmetros. Não há meio de fazer que o sistema o reconheça.

Fico pensando na Copa do Mundo que o Brasil hospedará dentro de um ano e meio. Imagino os apuros em que vão se meter os turistas que pretenderem se deslocar de avião no interior do País. Se nós, que somos de lá, que conhecemos a língua, que temos condições de manter uma hora e meia de bate-papo online não conseguimos comprar uma simples passagem de avião, imagine a frustração programada para os temerários visitantes de 2014.

Uma coisa é «conseguir trazer a Copa para o Brasil», como alardearam os autores do feito magistral, como se isso fosse a apoteose, o objetivo final. Outra coisa, bem diferente e bem mais complexa, é preparar o Brasil para receber a Copa. Para isso, não basta desejar ardentemente, há que trabalhar.

Infelizmente, estamos ainda engatinhando. O Brasil, como destino turístico, ainda está ensaiando, hesitante, seus primeiros passos. Os resultados não vão surgir assim, de um momento para o outro. Pelo andar da carruagem, ainda vai demorar décadas.

Advertência aos incautos: se você tiver de utilizar uma companhia chamada Gol (sic), tome cuidado. Pode ser bola fora ou, o que é pior, gol contra.

O Velho Chico

Nascente do São Francisco

Nascente do São Francisco

José Horta Manzano

Faz exatamente três meses que o professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, assessorado por dezenas de pesquisadores, fez um balanço do estado atual de conservação do Rio São Francisco. Essa contribuição rara e preciosa à visão científica de um dos patrimônios maiores de nossa terra foi reunida no livro Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação, publicado por Andrea Jakobsson Estúdio.

A análise dos especialistas aponta para uma extinção inexorável do rio. Difícil acreditar, mas parece que assim é.  Um artigo do Globo Ciência, publicado em setembro, dá explicação mais extensa sobre o problema. Confira aqui.

O trem-bala

José Horta Manzano

Uma primeira licitação está sendo preparada para a construção de um trem-bala ligando três grandes núcleos urbanos brasileiros: São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro. O valor estimado? Uma bagatela: 35 bilhões. Estimativa inicial, natualmente, sujeita a dobrar ou triplicar nos próximos anos. Mas isso é detalhe. O que são 50 ou 100 bilhões para um país rico e sem problemas como o nosso?

Primeira consideração:
São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro são cidades servidas por aeroportos de primeira linha. Uma ponte aérea funciona há mais de 50 anos entre o Rio e São Paulo, com partidas a cada 10 minutos. Quem tem pressa chega logo.

Train 2Segunda consideração:
Os mais de quarenta mil mortos (40’000!) em acidentes rodoviários que o Brasil registra a cada ano revelam uma desgraça nacional, um descalabro. Assistimos, indiferentes, a um genocídio continuado. Uma diminuição no volume de tráfego rodoviário seria mais que bem-vinda.

Terceira consideração:
Falta visão aos políticos brasileiros. Simplesmente porque são gente despreparada para as funções que pretendem exercer. A mentalidade que trouxe os primeiros povoadores europeus da terra tupiniquim continua valendo entre eles: après moi, le déluge. Depois de mim, pode vir até o dilúvio, porque estou aqui apenas para passar bem e ganhar dinheiro fácil. Se a coisa ficar preta, me mando pra Miami. Tchau e bença.

Quarta consideração:
Desde que se implantaram no Brasil nos anos 50, os fabricantes de automóveis, além de montar carros, montaram um grupo de pressão ― em bom português, um lobby ― destinado a abortar todo plano de expansão da rede ferroviária. As pressões foram tão fortes que desde então o governo central deixou até de investir na manutenção da malha existente. O resultado conhecemos todos: os caminhos de ferro do Brasil foram sucateados.

Conclusão:
Mesmo sem levar em consideração os inevitáveis «ajustes» de última hora, 35 bilhões de reais já é muita coisa. Melhor seria se o governo central investisse essa enxurrada de dinheiro na reabilitaçãTrain 3o do transporte ferroviário.

Na Europa, tirando algum caso muito especial e localizado, o transporte público intermunicipal se faz por estrada de ferro. Os trens são frequentes, limpos, bem cuidados, respeitam o horário, viajam a velocidades de cruzeiro entre 100 e 140km/h. Há sistemas de assinatura para viajantes frequentes: paga-se por mês ou por ano, com bom desconto. Tanto se pode escolher assinar por um determinado percurso ou pela rede nacional.

Aviões não se arriscam a levantar voo ou a pousar sob certas condições meteorológicas. Automóveis e ônibus não conseguem trafegar em pistas alagadas. Os trens são mais confiáveis. Chuva, vento, nevoeiro, frio, calor, neve, gelo ― nada impede que cumpram o prometido. O trem leva seus passageiros do centro de uma cidade até o coração de outra. Confortável e silenciosamente e, o que é ainda mais importante: sem poluir.

No Brasil, o material ferroviário foi liquidado, mas sobrou o traçado das linhas. Pode não parecer, mas a existência dessas rotas já é um grande passo: elimina ― ou diminui drasticamente ― o gasto com expropriações.

Por que não reabilitar a linha Campinas-SP-Rio, já existente? Que se refaça o traçado de certas curvas para permitir velocidade mais elevada. Que se reinstalem os dormentes. Que se invista em material, que se reabram as antigas estações, que se construam novas. Tudo isso custará infinitamente menos que um trem-bala. E ainda sobrará muito pano para mangas. Se as malversações permitirem, vai dar para reabilitar toda a rede ferroviária do Sudeste brasileiro.

Conosco ninguém podosco.

Premi Internacional de Catalunya

José Horta Manzano

Poucos meses atrás, o governo da Região Autônoma da Catalunha solicitou, a contragosto, ajuda de Madrid. Suas contas estavam tão sufocadas que, sem um rescate de 5 bilhões de euros, simplesmente não fechariam.

Alguns dias atrás, o mesmo governo da rebelde região entregou ao Lula o Premi Internacional Catalunya, representado por uma estatueta mais um polpudo cheque de 80 mil euros (215 mil reais). Essa distinção honra pessoas «cuja trajetória tenha contribuído para promover valores culturais, científicos e humanos».

EuroPor uma dessas coincidências de que a História conserva o segredo, a cerimonia de entrega da honraria coincidiu com o desfecho do julgamento do Mensalão pelo STF. Os jornalistas queriam, a todo custo, colher as primeiras impressões e os comentários do Lula. Tirando o antigo presidente do Brasil, ninguém estava preocupado com o prêmio. O que todos queriam mesmo era ouvir o que o figurão tinha a dizer.

Perderam seu tempo. O Grande Timoneiro tupiniquim terá grandes qualidades, no entanto, a valentia não é a que sobressai. O homenageado esgueirou-se pelos muros, entrou e saiu pela porta de serviço. Tem mais: deu a sua guarda pretoriana ordens peremptórias para que não fosse tolerada a aproximação de nenhum jornalista.

Veja a informação sobre o prêmio no site da United Press International. E não perca a reportagem do enviado do Estadão sobre a entrega da honraria.

Edificante.

Cuidado com o cadinho!

Cadinho imageJosé Horta Manzano

Terá sido a mornidão, o mormaço, a malemolência tropical? Terá sido o fato de os primeiros estrangeiros que aportaram em nosso País terem vindo sem companhia feminina? Terá sido porque o português, em matéria de cama, é menos complicado que outros europeus?

Acho que ninguém pode afirmar ― qualquer resposta clara e definitiva seria mera conjectura. O fato é que, diferentemente da esmagadora maioria dos países colonizados por europeus, o nosso transformou-se num verdadeiro país miscigenado. Pouquíssimas são as nações com população composta de aportes raciais tão imbricados quanto o Brasil.

A colonização europeia na África não produziu miscigenação. Nem na Austrália, nem na Índia, nem na Nova Zelândia, nem na Indonésia. Se algum vestígio de mistura racial há nas antigas colônias espanholas, é coisa pouca ― com a notável exceção de Cuba. Na América do Norte, pretos e brancos constituem, até hoje, comunidades apartadas, que se toleram.

No Brasil, tutto andava secondo l’antichissima regola del mondo, como canta o segundo ato da Turandot. Seguindo seu destino, o País trilhava o caminho de uma mistura racial cada vez mais acelerada. Eis senão quando… alguns luminares se instalaram no poder e decidiram intervir no cadinho.

Os neorracistas ― que preferem a denominação mais suave de racialistas ― houveram por bem forçar um Congresso dócil a legislar sobre preferências raciais. É humilhante para uma parte da população. Se você for um pouco mais moreno e estiver cursando uma faculdade, todos imaginarão que entrou pelo sistema de quotas, ainda que não seja verdade. Ninguém ousará lhe fazer a pergunta diretamente, cada um imaginará o que bem entender. A partir de agora, os brasileiros são classificados segundo critérios raciais, decisão que seria considerada indecente até poucos anos atrás.

A Química tem suas leis. E leis são feitas para serem respeitadas. Há que dar tempo ao tempo. Aprendizes de feiticeiro andam tentando manipular o cadinho intempestivamente, para acelerar a reação.

Não vai dar certo. O feitiço periga virar contra o feiticeiro. Não se eliminam preconceitos por decreto.

NOTA: Este texto foi inspirado num artigo de Cláudia Collucci, publicado pela Folha de SP online neste 23/12/2012. Siga o link.

O piscinão e o rio

José Horta Manzano

Uma reportagem do Estadão informa que acabam de abrir uma praia artificial na cidade de São Paulo. Escrita com certo desmazelo, a notícia diz que vai ser possível curtir as férias «no mar» (sic) sem sair da cidade. Diz ainda que os termômetros da Zona Leste da cidade chegam a marcar temperaturas 14°C (!) mais elevadas que no resto do município. Afirmação fantasiosa. No dia em que fizer, ao mesmo tempo, 15° na Praça da Sé e 29° no Tatuapé, certamente já terá nevado em Caruaru.

O relaxo da repórter que jogou displicentemente palavras no papel sem refletir no que estava escrevendo ― e, principalmente, sem se preocupar com as consequências de sua incúria ― é sintomático. Entra na categoria do «não-estou-nem-aí», onipresente no dia a dia brasileiro.

O fato de a cidade ter tido de esperar até o século XXI para, enfim, conseguir que as autoridades municipais instalassem uma praia para o lazer de seus habitantes é outro exemplo do mesmo espírito.

Rio Tietê

Rio Tietê há 80 anos

São Paulo, plantada em região chuvosa, cresceu à beira d’água. A natureza é sábia: zonas tropicais, onde precipitações são constantes e abundantes, possuem drenos naturais. Se assim não fosse, pântanos e lagos se teriam formado. A área habitada do município conta com dezenas de escoadouros, fios d’água, tanques, ribeirões, córregos, riachos e rios. Por sinal, a cidade nasceu na junção de dois deles: o Anhangabaú e o Tamanduateí.

A mancha urbana foi-se expandindo lentamente. Um século atrás, a urbanização aproximou-se timidamente do pai de todos, o Tietê. A partir daí, a irresponsabilidade da administração pública encontrou na indiferença da população um forte aliado. Deram-se as mãos. Os danos causados ao conforto urbano têm sido, desde então, imensos e continuados. Em muitos casos, o mal é irreparável, não há volta possível. Um dos desastres maiores é o ‘desaparecimento’ dos cursos d’água que caracterizam nossa região.

Ocultou-se o Ribeirão do Anhangabaú, encoberto pelo vale homônimo. O Córrego do Saracura escondeu-se debaixo da Avenida 9 de Julho. O Ribeirão da Bexiga e o Itororó foram enterrados pela avenida 23 de Maio. Água Branca, Ipiranga, Lavapés, Água Espraiada e tantos outros sumiram do mapa. Literalmente.

Mas a natureza não deixou de ser tropical e úmida. As chuvas continuam caindo e a água, uma vez encharcada a terra, tem de escapar por algum lugar. Privada de seus drenos naturais, ela se acumula em baixios ― daí as enchentes e as inundações.

Outro crime causado pela cupidez imobiliária acumpliciada com sucessivas administrações municipais foi a instalação de um pesado parque industrial nas margens do escoadouro maior: o rio Tietê. Um dos recantos mais bonitos e agradáveis da cidade foi assim trucidado.

Com mais de 1’500km2 de território municipal à disposição, foram escolher justamente o lugar mais aprazível para instalar indústrias poluentes. Aquela região costumava servir para pesca, para lazer e para piqueniques. Onde, até 70 ou 80 anos atrás havia regatas e competições de natação, temos hoje um escoadouro a céu aberto, negro, viscoso, malcheiroso, morto.

Remédio, há. Se os londrinos conseguiram reabilitar seu rio, por que não conseguríamos nós? Pois o governo brasileiro não se vangloriou recentemente de a economia brasileira ter ultrapassado a britânica? E então? O País há de ter capacidade tecnológica e econômica para tratar os dejetos lançados in natura pelas indústrias. Ou não?

Mãos à obra, minha gente! Um Tietê recuperado e despoluído oferecerá possibilidades de lazer bem mais amplas que o acanhado «piscinão» do Tatuapé.

É Natal. Não custa sonhar, não é mesmo? Sai baratinho.

PS: Por coincidência, um dos editoriais do Estadão deste 23/12/2012 discorre sobre uma das tantas consequências do descaso com que vêm sendo tratadas as águas paulistanas desde os tempos de Anchieta.

O desleixo

No Brasil, o desleixo é marca nacional. Poucos povos serão tão negligentes quanto o nosso. Para quem passou a vida em terras de Pindorama, o que digo pode parecer um exagero. No entanto, aqueles que tiveram ocasião de viver alguns anos fora do País hão de se dar conta da veracidade de minha afirmação.

O tristemente conhecido «jeitinho» brasileiro é caminho obrigatório para paliar consequências e efeitos colaterais do desmazelo nacional. Tem-se muitas vezes de apelar para soluções não convencionais ― às vezes até ilegais ― para compensar falhas de planejamento. Em resumo: aquele que tinha sido pago para planejar não fez sua parte direito; esse desleixo deu origem a um mau funcionamento da coisa planejada; o problema terá de ser resolvido, em caráter de urgência, por meio de um jeitinho qualquer.

Nosso País funciona à base de remendos. O descaso faz a vida parecer uma colcha de retalhos. Para dar um exemplo atual, todos sabemos que o País não tem infraestrutura decente para acolher Copas do Mundo. Mas todos ― a começar pelas autoridades maiores ― fecham um olho, fazem de conta que acreditam que tudo está em ordem, e vamos que vamos. Na última hora, se o milagre não acontecer, inventaremos um remendo, uma solução temporária.

Enquanto isso, o erário, fruto do trabalho suado dos brasileiros, continua sangrando. O que escapa ao assalto das quadrilhas de mandachuvas oficiais acaba escorrendo pelo ralo da incúria. Os remendos e os emplastros de última hora saem muito caro.

Qual é a solução? Só há um caminho: conscientizar a população para o problema. Para chegar lá, é preciso alargar a capacidade do povo de entender as falhas que se repetem cronicamente. Só a elevação do nível geral de instrução permitirá chegar lá.

É demorado? Um pouco, sim. Não se preenche em uma semana o vazio deixado pelo descaso de meio milênio. No entanto, vai bastar uma fagulha inicial, que terá de partir, necessariamente, da Autoridade central. Em seguida, acreditem: uma coisa puxa a outra. A universalização e, principalmente, a valorização do ensino tende a alargar as mentes. Profissões Pere Noeltécnicas, hoje desprezadas, também têm de ser valorizadas. Não há por que considerar que um artesão que trabalha com suas mãos vale menos que um intelectual que trabalha com seu cérebro.

No Brasil atual, o título parece ter mais importância que a formação do titulado. Qualquer dia lhes falo da formação profissional na Europa e na Suíça, em particular. Um povo pouco instruído tende a perpetuar esse secular desleixo. E, pior que isso, a porta continua escancarada para oportunistas de todo gênero: gurus, homens providenciais e autodeclarados salvadores da pátria.

Um povo pouco instruído vai continuar acreditando em Papai Noël. Combina com esta época do ano. No debería serlo, pero así nos están saliendo las cosas. Desgraciadamente.

O homem do saco

Você sabia?

José Horta Manzano

Homem do saco

Homem do saco

Quando éramos crianças, ouvíamos palavras estranhas sem entender direito o que significavam.

Dorme, Nenem
Se não a cuca vem
Papai foi na roça
Mamãe saiu também

Quem é essa tal de cuca? Até hoje não descobri.

Tem um outro que nos assustava mais ainda. Quando alguma das crianças era impertinente, como se dizia, a mãe vinha logo com a chantagem: «Menino, sossega, se não o homem do saco vem e te pega!».

As crianças não sabiam direito quem era esse homem do saco, mas a perspectiva de ser atirado dentro de um embornal e carregado no escuro para lugar desconhecido, longe de casa, costumava ser eficaz. A criança birrenta se acalmava. Pelo menos, por algum tempo.

A imagem do saco já não assusta como antes. O que atrapalha os adultos que agora somos não é mais o medo do saco ― é o preço dele. Explico.

Estes dias, todos os habitantes do município suíço em que vivo receberam um aviso da prefeitura. Estamos avisados que, a partir de 1° de janeiro de 2013, um esforço financeiro será exigido de todos, com vistas a financiar a incineração ou a reciclagem do lixo doméstico.

Taxa do lixo

Taxa do lixo

Por um lado, uma taxa anual de 70 francos (85 dólares) será cobrada de cada habitante maior de 18 anos. E não adianta espernear. Não escaparão nem os que, porventura, tiverem apenas uma casa de campo no município. Todos terão de contribuir, é de lei.

Por outro lado ― e essa é mais doída ― uma segunda taxa será cobrada. Essa outra mordida será já incluída no preço dos sacos plásticos que já faz anos que somos obrigados a usar para o lixo doméstico. O valor irá às alturas: o saco mais utilizado, de 35 litros, passa a custar 2 francos cada (2.50 dólares), preço salgado.

Para uma família de dois adultos que utilize, digamos, 3 sacos por semana, a conta final vai sair por uns 450 francos/ano (550 dólares). É muito.

É muito? Pode ser. Mas foi a maneira encontrada para forçar a população a fazer a triagem do lixo doméstico. Andaram estudando a composição do lixo do município e se deram conta de que, em média, apenas 28% do que é coletado nos sacos é realmente lixo alimentar (cascas de legumes, restos de comida). O resto é reciclável, principalmente embalagens de papel e papelão, plásticos, vidro.

Os antigos diziam que, quando não vai por bem, vai por mal. Para aqueles em cuja cabecinha a consciência ecológica não havia ainda despertado, a nova fórmula será radical. Vão aprender rapidinho.

Como sabemos todos, a parte mais sensível do ser humano é… o bolso.

O fim do mundo

José Horta Manzano

O francês Luc Mary, nascido em 1959, historiógrafo de formação, é escritor sui generis. Para seus livros, tem o dom de escolher temas e títulos irresistíveis, daqueles que nos incitam a comprar sem hesitar.

Desde a primeira, de 1980, já assinou mais de uma vintena de obras, praticamente todas variando ao redor de temas histórico-geográficos. Em tradução caseira, aqui está uma pequena coleção de seus títulos:

     * Viagem à extremidade da galáxia : Primeiro guia turístico da Via Láctea
     * Verdades e invencionices da História da França
     * Os quatro Napoleões
     * Essas descobertas que escondem da gente
     * As decisões mais absurdas da História
     * Os últimos segredos da Guerra Fria
     * As mentiras mais incríveis da História
     * O mito do fim do mundo

Após minuciosa pesquisa, Monsieur Mary catalogou nada menos que 183 previsões de fim do mundo já registradas por nossa História ocidental. Dentre aquelas de que sobrou notícia, as mais antigas datam da alta Idade Média.

Conforme a época em que eram feitas, as predições pressagiavam catástrofes baseadas na atualidade de então. Erupções vulcânicas, dilúvios, terremotos, línguas de fogo eram o apocalipse imaginado até meiFim do mundoo século atrás.

A partir da invenção da arma atômica e do surgimento da Guerra Fria, passou-se a conjecturar que o mundo acabaria em consequência de contaminação nuclear.

Desde que, nos anos 60, o homem voltou os olhos para o espaço e imaginou que poderia haver vida alhures, pareceu evidente que o fim do mundo só podia ser obra de invasores alienígenas verdes, baixinhos, orelhudos e mal-intencionados.

Esta 183a. previsão é clara quanto à data: será amanhã, 21 de dezembro de 2012, sem falta. No entanto, o presságio é menos preciso quanto aos meios. Um asteroide? Uma invasão de homenzinhos verdes? Um dilúvio universal? Sabe-se lá.

Para quem fizer questão de sobreviver, há um meio infalível ― pelo menos é o que assegura um guru da localidade de Bugarach, aldeia de menos de 200 almas, situada no sul da França. Segundo a previsão do guia, um vórtice se abrirá naquele ponto preciso do planeta, sugará os humanos que por lá se encontrarem e os transportará para lugar seguro.

A municipalidade, assustada com o previsível afluxo de turistas, de crédulos e de curiosos, pediu ajuda a Paris. O governo tratou de despachar forças policiais para cingir o vilarejo e impedir a entrada desse povaréu todo. A partir de hoje, já ninguém mais pode entrar.

É pena. Poucos serão salvos pelo remoinho providencial. Quem viver verá.

Lunfardo

Você sabia?

José Horta Manzano

Lunfardo é a gíria que nasceu e cresceu em Buenos Aires, na malavita portenha, no submundo dos fora da lei. Com o passar das décadas, um número cada vez maior de expressões foi caindo, digamos assim, no “domínio público”. Palavras e expressões antes reservadas a bandidos são hoje utilizadas no dia a dia por pessoas comuns.

Surpreendentemente, muitos desses termos de argot argentino passaram ao português brasileiro. Não se sabe direito se atravessaram a fronteira ou se vieram de contrabando embutidos na letra de velhos tangos. Talvez um pouco de cada. O fato é que usamos, sem saber, gíria importada. Para os ultranacionalistas, pode até parecer um escândalo. No fundo, é simplesmente um aporte a mais, uma contribuição para a riqueza de nossa fala.

by Oskar Weiss (1944-), artista suíço

Aqui está uma pequena coletânea de expressões lunfardas e suas correspondentes brasileiras

Lunfardo       Brasileiro
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Machete          Macete (ajuda-memória)
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Malandro         Malandro
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Pirao                 Pirado
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Mamado            Mamado (bêbado)
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Campana         Campana (ajudante de ladrão que vigia)
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Mancar             Se mancar (compreender)
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Cana                 Cana (prisão)
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Matina              Matina (manhã cedo)
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Mortadela         Presunto (cadáver)
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Patota               Patota (bando)
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Punga              Punguista (batedor de carteira)
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Vivo                  Vivo (astuto)
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Bacanazo         Bacana (refinado)
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Bancar               Bancar (pagar)
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Dar bola           Dar bola (prestar atenção)
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Bronca             Bronca (raiva)
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Chupado         Chupado (bêbado)
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Burro                Burro (ignorante) (1)
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Tira                   Tira (investigador de polícia)
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Labia                 Lábia
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Mina                 Mina (moça)
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Llenar               Encher (aborrecer)
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Lleno                Cheio (mal-humorado)
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Cabrero            Cabreiro (furioso)
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Mangos            Reais (dinheiro)
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Caradura          Caradura
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Catinga             Catinga (mau cheiro corporal)
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Manyado           Manjado (conhecido)
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Chumbo            Chumbo (bala de revólver)
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Pechar               Peitar
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Coco                  Coco (cabeça)
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Gozar                 Gozar (zombar) (2)
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Grupo                Grupo (mentira, história inventada)
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Gurí                    Guri (criança) (3)
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(1) Normalmente, burro é usado para qualificar alguém cabeçudo
(2) Os espanhóis usam gozar com o sentido de passar um bom momento. Para dizer zombar, preferem mofarse
(3) Alguns etimólogos atribuem a essa palavra origem tupi, o que explicaria que se encontre no castelhano platino e também no português do Brasil