Placa de automóvel na Suíça

placa-23José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça é um dos poucos países onde placa de automóvel não pertence ao veículo mas ao proprietário do veículo. E como é que funciona?

Suponhamos que o cidadão compre seu primeiro carro, novinho em folha, direto da concessionária. A própria loja se encarregará de cumprir as formalidades junto às autoridades. O feliz proprietário já receberá seu carro emplacado e pode sair por aí.

No dia em que quiser revender o carro, vai entregar os documentos ao comprador mas não a placa. Deve tirá-la do carro e guardá-la. Se tiver intenção de utilizar a placa em outro veículo (novo ou de segunda mão), basta avisar o Departamento de Tráfego, completar a papelada, pagar eventuais taxas e pronto: pode instalar sua placa no novo carro.

Caso tenha aderido à filosofia do ecologicamente correto e tiver desistido de possuir veículo próprio, basta devolver as placas ao Serviço dos Automóveis e não se fala mais nisso. Vai receber reembolso da taxa de circulação e do seguro pro rata temporis.

Se tiver intenção de dar um tempo antes de comprar novo veículo, o melhor será entregá-la ao Departamento de Tráfego para armazenagem. Por módica taxa, ela será conservada por até um ano, à disposição do proprietário a qualquer momento. A vantagem dessa devolução temporária é que, durante o período de armazenagem, o proprietário não terá de pagar taxa de circulação nem seguro. Passado um ano, o direito ao uso da placa prescreverá. Caso o cidadão compre novo veículo no futuro, receberá nova placa.

Nenhum veículo pode circular sem placa ‒ é o que diz a lei. Então como é que fica no caso do comprador de carro de segunda mão? Se o proprietário antigo retém a placa, o novo dono sai por aí sem placa? Não pode. Pra remediar, a administração já pensou nesse problema. Antes de concluir a transação, o comprador terá de passar pelo Departamento de Tráfego e solicitar uma autorização provisória de circulação. O papel lhe dá direito a deslocar-se ‒ uma vez só ‒ do lugar onde está o veículo até o posto de emplacamento mais próximo. Se for parado no meio do caminho, o documento o protegerá contra toda sanção.

A grande vantagem desse sistema é evitar que, depois de haver vendido um carro, o antigo proprietário continue a receber multas cujo culpado é um novo dono que, distraída ou dolosamente, se «esqueceu» de transferir a posse. No Brasil, isso já aconteceu comigo. Dá uma dor de cabeça dos diabos, porque nem sempre é fácil localizar o novo possuidor.

Tem mais uma particularidade suíça: a placa intercambiável. Suponhamos que o indivíduo tenha dois veículos que nunca são utilizados ao mesmo tempo. Digamos que usa um deles para o trabalho, durante a semana, reservando o outro para passear no fim de semana. É possível ter uma placa só, intercambiável entre os dois carros.

As condições são duas. Por um lado, os dois automóveis nunca poderão circular ao mesmo tempo. Por outro, aquele que estiver sem placa não pode ser estacionado em via pública ‒ terá de ser guardado em lugar particular, que seja garagem, jardim, terreno ou assemelhado.

A vantagem de ter uma placa só para dois veículos é que uma só taxa de circulação e um só seguro valem para os dois. São 50% de economia.

Eutanásia

José Horta Manzano

O caso de Antônio Cícero, homem de letras e acadêmico que atravessou o Atlântico para um encontro com hora marcada com a morte, deixou amigos e conhecidos consternados quando tomaram conhecimento do caminho escolhido por ele.

Morte é matéria sempre desagradável. Quando vem acompanhada da expressão “com hora marcada” (hoje: agendada), choca ainda mais. Apanhada de surpresa, a mídia tratou de compor o obituário. Ao mesmo tempo, soltou manchetes com uma palavra inusitada: eutanásia.

Estamos todos habituados a ouvir falar em eutanasiar bicho, principalmente animais de estimação, mas… eutanasiar gente? Como é que funciona? Talvez eutanásia não seja a melhor opção para descrever o caso aqui tratado.

Do vago significado original de “boa morte”, o termo eutanásia especializou-se em descrever o caso de alguém, geralmente o médico, dar a morte ao paciente por motivo misericordioso, para abreviar-lhe a agonia. Trata-se de gesto que, por ser irreversível, definitivo e passível de questionamento, é rigorosamente enquadrado, nos países que o admitem oficialmente.

Na Europa, região do mundo em que gestos ligados à morte em ambiente clínico e hospitalar estão sendo discutidos há muito tempo, há consenso na classificação das diferentes formas de “eutanásia”, se assim podemos nos exprimir. Vamos à nomenclatura.

 


Eutanásia ativa
É o fato de pôr fim deliberadamente ao sofrimento de uma pessoa. Um médico ou um terceiro, por exemplo, injetará uma substância que causará diretamente a morte do paciente.

Em toda a Europa, somente cinco países (Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Espanha e Portugal) autorizam a eutanásia humana ativa. É uma prática que tem de ser muito bem enquadrada, para evitar deslizes e desvios de função.


Eutanásia passiva ou indireta
Ocorre quando a equipe médica responsável pelo paciente decide não tomar medidas para prolongar a vida. A morte pode ocorrer por meio da administração de drogas analgésicas ou após a desconexão do respirador.

Uma dúzia de países europeus autorizam a eutanásia passiva, que tende a evitar tentativas obstinadas de manter o moribundo em vida, quando seu mal é incurável e seu estágio, terminal.


Suicídio assistido ou suicídio assistido por médico
Refere-se ao ato de tirar a própria vida com a ajuda de uma pessoa que fornece os meios para isso. No entanto, o gesto final deve imperiosamente ser feito pelo próprio paciente, caso contrário, a prática constituiria eutanásia ativa.

O único país europeu a ter reconhecido e regulamentado o direito ao suicídio assistido é a Suíça, onde a prática é plenamente autorizada. Para seguir esse caminho, três condições dever ser preenchidas: 1) o paciente deve estar plenamente capaz de discernir, 2) é ele quem deve administrar a dose letal sozinho, 3) o médico que assiste não deve estar movido por motivos egoístas (ser um dos herdeiros, por exemplo). Na prática, para ter acesso ao suicídio assistido, é preciso inscrever-se numa das associações que se dedicam a essa matéria.


O arguto leitor e a inteligente leitora já devem ter entendido que Antônio Cícero não foi “eutanasiado”. Na verdade, optou pelo suicídio assistido, ou seja, ele mesmo deu-se a morte. Escolheu dia, hora e lugar. Veio à Suíça porque é o único país europeu em que essa prática é depenalizada.

Requiescat in pace.

Aviso aos agrotrogloditas

As redes gigantes suíças de supermercados

José Horta Manzano

Aqui na Suíça, deu hoje no rádio, na tevê e nos jornais. Greenpeace, a poderosa e respeitada ong internacional, publicou o resultado categórico de uma investigação sobre a origem de certos produtos à base de carne vendidos pelas duas redes de supermercado que dominam o mercado suíço.

A ong fez uma acusação pesada às redes Coop e Migros, que, juntas, respondem por 70% do comércio de alimentos no país. As redes estão sendo acusadas de vender derivados de carne brasileira, como ‘corned beef’ por exemplo, proveniente de zonas desmatadas na Amazônia. Isso faz o efeito de uma pancada na moleira.

Faz tempo que os dois gigantes tinham se comprometido a não comercializar produtos provindos de áreas desmatadas. A investigação, bastante aprofundada, segue o caminho dos produtos incriminados, desde o pasto até as prateleiras dos supermercados. Assim, a acusação é plausível.

As redes de supermercados reagiram imediatamente. Por meio de porta-vozes, produziram explicações um pouco remendadas, dizendo que, veja bem, não é bem assim, há uma inexatidão de contexto, blá, blá.

Exatamente quatro anos atrás, em meados da gestão bolsonárica, eu já tinha escrito um artigo sobre esse fenômeno. Naquele momento, dei como exemplo o caso do azeite de dendê importado da Indonésia, produto acusado por muitos de resultar de uma política de intenso desmate.

O distinto público passou a procurar nas etiquetas se cada produto continha ou não o tal “óleo de palma”. Resultado: os fabricantes que conseguiram reformular seus produtos para deixar de conter esse ingrediente passaram a anotar na embalagem, bem visível: “No palm oil” – Sem óleo de palma.

Está mais que na hora de os agrotrogloditas, como bem os descreve Elio Gaspari, desistam de desmatar para plantio ou criação de gado. Tem gente de olho, acompanhando o abate de cada árvore, para poder botar a boca no megafone e balançar o coreto do lado dos eventuais compradores.

Não vai ser possível plantar e criar gado como se estivéssemos ainda nos séculos de antigamente. O cliente final de hoje quer ter mais informação sobre o que vai pôr no prato. Não se deixa mais engabelar assim tão fácil. Em breve, a legislação vai endurecer e o controle da origem das mercadorias deixará de ser feito na base da boa vontade. Vai ser enquadrado pela lei.

É aí que a porca vai torcer o rabinho.  (Toda alusão à salsicha de porco terá sido mera e fortuita coincidência.)

Se esqueceram

source: Câmara dos Deputados

José Horta Manzano

Em dias de tempestade, a cada trovão que arrebentava, minha avó murmurava “Santa Bárbara!”. E ia assim, de trovão em invocação, até o tempo acalmar. Anos mais tarde fiquei sabendo que, na hagiologia católica, Santa Bárbara protege contra raios e tempestades.

Vim a conhecer também um provérbio português: “Só se lembra Santa Bárbara quando troveja”. Tem algo a ver com a ingratidão. Se a santa nos salvou um dia de ser fulminado por um raio, não precisa esperar a próxima situação de perigo para só então lembrar-se dela; convém dar-lhe um alozinho fora da precisão. Apego interessado é muito feio.

Com certa frequência, tenho lido notícias de brasileiros hostilizados em Portugal. Nem sempre isso acontece por terem cometido algum malfeito, mais frequente é serem interpelados pelo simples fato de serem brasileiros. Essa atitude me preocupa e me traz à mente lúgubres precedentes.

Penso nos judeus, nos armênios e em outros grupos étnicos que, ao longo da história, foram perseguidos pelo simples fato de serem judeus ou armênios. São agressões pérfidas e imensamente covardes.

Os brasileiros que estão em Portugal – ou em qualquer outro país – não são pessoalmente responsáveis pelo fato de haver muitos recém-imigrados nesses lugares. Se alguma queixa tem de ser feita, que seja feita aos que fazem as leis.

Li outro dia que, em Portugal, uma senhora insultou uma brasileira, na rua, sem motivo que não fosse estar irritada com a abundância de estrangeiros. “Volte para sua terra! Aqui mandamos nós!”. Ouvem-se gritos desse teor, um verdadeiro horror.

Ninguém tem o direito de xingar cidadãos na rua só pelo fato de não gostar de estrangeiros. Em Portugal há até um partido político xenófobo. Chama-se Chega. Quem adere a suas ideias, que se afilie a esse partido, vote em seus candidatos, participe de suas passeatas e manifestações. Isso pode. Xingar, não.

Saíram hoje as estatísticas oficiais da Confederação Suíça que esmiúçam os nascimentos do ano passado. O que todos querem saber é quais foram os nomes mais atribuídos aos recém-nascidos. Aqui, como em outras partes do mundo, há nomes da moda. Faz alguns anos que a moda impõe nomes curtos. Ninguém mais chama um filho de Epaminondas ou Zacarias, nem uma filha de Genoveva ou Madalena.

Em 2023, o top 5 de nomes femininos foi: Mia, Emma, Sofia, Emilia, Elena. E os cinco nomes masculinos mais atribuídos foram: Noah, Liam, Matteo, Gabriel, Leano. Acho um pouco sem graça dar a uma criança um nome da moda, que, no futuro, será igual ao de primos, colegas, vizinhos, amigos. Mas, enfim, de gosto não se deve discutir.

A justificação do título deste artigo vem agora. Junto com as estatísticas dos prenomes, saíram também as dos nomes de família. Saibam os distintos leitores que, no dia 31 de dezembro de 2023, os três sobrenomes mais comuns na Suíça de expressão francesa eram, na ordem:

1° Silva

2° Ferreira

3° Pereira

É isso mesmo. Na contagem oficial dos Serviços Federais de Estatística, sobrenomes portugueses aparecem na frente dos nomes locais. Os cidadãos portugueses que insultam imigrantes brasileiros e sugerem a eles que voltem para a terra de origem deveriam pensar nisto: os imigrantes portugueses que trabalham na Suíça são multidão! E não só na Suíça, em outros países é igual: França, Luxemburgo, Alemanha, Bélgica e outros mais. E não estou falando do século 19, mas do ano de 2023.

Posso garantir que, aqui na Suíça, jamais ouvi alguém se dirigir a um desses portugueses de maneira irrespeitosa para sugerir-lhes que voltem pra casa. As senhôras que se irritam ao cruzar com imigrantes em Portugal deveriam tomar um chazinho de humildade todas as noites antes de se deitar.

Goste-se ou não, aqui está a verdade: todos nós – todos mesmo – vimos de algum lugar.

Preparando a paz na Ucrânia – 1a. parte

Bürgenstock, Suíça: local da conferência

José Horta Manzano

Em 2023, a reunião anual do G7 teve lugar em terra japonesa. Como frequentemente acontece, Lula foi convidado a ocupar uma poltrona sobressalente. Questionado por jornalistas sobre a guerra decorrente da invasão russa à Ucrânia, Luiz Inácio deu sua lição:


“Tenho repetido quase à exaustão que é preciso falar da paz. Nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo. Precisamos trabalhar para criar espaço para negociações”, afirmou.


Trabalhar para criar espaço para negociações – foram as sábias palavras de seu evangelho. Nenhum dirigente político bem-intencionado discordaria. Lula tem razão. No momento atual, com os canhões ainda troando e os tanques sulcando campos que costumavam ver brotar espigas de trigo, é complicado convocar uma conferência entre as partes com vistas ao fim das hostilidades.

A Rússia reclama para si a totalidade da Ucrânia, que considera sua propriedade. A Ucrânia, invadida de surpresa por terra, mar e ar pelo exército russo, não faz mais que se defender de forças estrangeiras que ocuparam seu território.

Paz, para a Rússia, significa rendição incondicional da Ucrânia e anexação do território ucraniano à Rússia. Paz, para a Ucrânia, significa a imediata retirada das forças russas de seu território.

Nessas circunstâncias, fica complicado colocar face a face, em volta de uma mesa, negociadores russos e ucranianos. No momento atual, a reivindicação de uma parte é inaceitável para a outra. E vice-versa.

Para se chegar a uma reunião séria e objetiva entre Rússia e Ucrânia, os países patrocinadores da paz vão ter de gastar muita conversa, usar muito poder de convicção, fazer algumas ameaças veladas nos bastidores. Não vai ser fácil nem rápido.

Para dar início a essa maratona de conversas e negociações, que perigam levar anos, a Suíça organizou uma conferência preparatória para a qual praticamente todos os países foram convidados, com duas notáveis exceções: a Rússia e a China. A Rússia, porque já tem declarado querer a rendição incondicional da Ucrânia, exigência incompatível com negociações que ainda nem começaram. E a China, porque já fez saber que não aceitaria o convite.

Durante a conferência

A conferência para preparar a paz na Ucrânia realizou-se nos dias 14 e 15 de junho num cenário de cartão postal, num centro de conferências situado no alto de um penhasco com vertiginosa vista para um lago. No total, uma centena de países e organizações internacionais mandaram representantes. Entre chefes de Estado e chefes de governo, eram 57. A vice-presidente dos EUA e o líder de praticamente todos os países europeus estavam presentes. Entre os latino-americanos, diversos presidentes compareceram: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala.

Por coincidência, Lula esteve pertinho dali na véspera da conferência. Estava, como no ano passado, ocupando uma poltrona sobressalente na reunião de 2024 do G7, realizada este ano na Itália, para a qual tinha sido convidado pela primeira-ministra Giorgia Meloni. Será difícil alegar incompatibilidade de agenda para não dar uma esticada até terras alpinas (até Meloni foi à conferência preparatória da paz na Ucrânia). Assim mesmo, Lula preferiu embarcar em seu jatão A330 da FAB, avião grande, que tem maior autonomia que o pequenino Aerolula. Sem escalas, levantou voo em Bríndisi (Itália) e pousou em Brasília.

O Brasil pediu para não ser contado como participante à conferência da Suíça. Solicitou ser inscrito como “observador”. Não mandou presidente, nem vice, nem ministro nenhum. Nosso país foi representado pela embaixadora do Brasil na Suíça. Fiquei com impressão de que inscrever-se como “observador” foi pretexto para não ter de assinar a declaração final (que poderia conter algum parágrafo em desacordo com o atual Itamaraty, de Lula e Amorim).

Agora vem a pergunta: Senhor presidente, com que então, aquela história de “Trabalhar para criar espaço para negociações”, repetida “à exaustão” por Vossa Excelência, era só gogó pra inglês ouvir? Que história é essa de sair de fininho justamente na hora em que finalmente se realizou a primeira conferência preparatória para a paz na Ucrânia? Medo de desagradar a seu amigo Putin?

Quem fica sempre em cima do muro um dia se desconcentra e acaba caindo. Além do vexame, pode se machucar. Que a duplinha Lulamorim se cuide!

Fronteira entre os pés e a cabeça

Hôtel Franco-Suisse
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José Horta Manzano

Você sabia?

Muitas das fronteiras entre o Brasil e os países vizinhos cruzam zonas escassamente povoadas, notadamente na região amazônica. Uma linha demarcatória tanto pode seguir cursos d’água – caso em que será dita «fronteira natural», como pode ser representada por divisor de águas ou por traçado artificial riscado num mapa. Neste caso, teremos uma «fronteira seca».

Fronteiras secas costumam ser assinaladas por balizas plantadas no solo. Antigamente, eram de pedra. Hoje em dia, é mais comum o concreto. A elas dá-se o nome de marcos divisórios ou geodésicos.

No Brasil, certos trechos de fronteira contam com balizas bastante espaçadas, uma aqui, outra quilômetros adiante. No fundo, tanto faz, que pouca gente passa de um lado para o outro. Na Europa, dada a densidade da população, fronteiras são demarcadas com bastante rigor.

Marco divisório suíço

O Tratado de Dappes, acertado em 1862 entre a França e a Suíça, delimita com precisão um trecho da fronteira entre os dois países na região dos Montes Jura. O acordo, concluído em dezembro daquele ano, ficou programado para entrar em vigor em fevereiro do ano seguinte.

Um certo Monsieur Ponthus, proprietário de um terreno no povoado de La Cure, ficou sabendo que seu lote seria atravessado pela nova fronteira. Aproveitou-se do intervalo e, pelas caladas e às pressas, erigiu imóvel provisório bem em cima da linha. A intenção era de contrabandear chocolate, tabaco e bebidas alcoólicas.

Assim que o tratado entrou em vigor, a construção era fato consumado – e com porta dos dois lados da fronteira, faz favor. E assim foi ficando. Com o tempo, os sucessores do esperto cavalheiro ampliaram o imóvel e o transformaram em hotel-restaurante. O estabelecimento funciona até hoje.

Alguns quartos do hotel oferecem ao hóspede a curiosa possibilidade de dormir com a cabeça na Suíça e os pés na França. Ou vice-versa. Na escada que leva ao segundo andar, o 7° degrau marca a fronteira entre os dois países. Alguns asseguram que a linha verdadeira passa pelo 13° degrau. A controvérsia persiste.

O hotel e a fronteira

Durante a Segunda Guerra, com a França ocupada pelo exército alemão enquanto a Suíça permanecia neutra, a singularidade do local deu margem a uma movimentação sui generis. Além do contrabando habitual, inúmeros judeus perseguidos pelos nazistas conseguiram escapar entrando pelo lado francês e saindo do outro lado, já na Suíça, onde os alemães não podiam intervir. Dizem que outros fugitivos seguiram o mesmo caminho – paraquedistas ingleses entre eles. É verdade que não durou muito tempo. Militares alemães logo se deram conta do vazamento e condenaram portas e janelas do lado francês. Depois de tudo emparedado, ninguém mais passou.

Impávido, o Hôtel Franco-Suisse continua lá até hoje. Nestes tempos modernos, sem os controles de antigamente, a alfândega é relíquia de outras eras.

O imóvel representa um quebra-cabeça administrativo tanto para a França quanto para a Suíça. A situação é tão intrincada que Paris e Berna preferem empurrar com a barriga e deixar como está. Não vale a pena travar batalha judicial por tão pouco.

Publicado originalmente em 6 jul° 2015.

Cretinice

José Horta Manzano


Em matéria de futebol, a catástrofe está sempre à espreita. Ontem foi o dia da Suíça, que perdeu para Portugal com placar caudaloso: 6 x 1. O choque equivale ao ‘mineiraço’ brasileiro de 2014. Vou aproveitar para publicar um artigo que escrevi anos atrás. Traz curiosidades do país alpino.


Você sabia?

Todo país, por menor que seja, sempre dá uma contribuiçãozinha à humanidade. É natural que países maiores e mais populosos sejam responsáveis pela criação de maior número de palavras internacionais, produtos, conceitos, invenções. Mas os pequenos também têm vez.

A Suíça, por exemplo, apesar do território exíguo e da população diminuta, está por trás de ideias, objetos e conceitos que se espalharam pelo mundo. Vamos fazer um teste pra ver se você sabe.

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Gruyère
É queijo tipicamente suíço conhecido por ser cheio de buracos. Ingrediente indispensável em qualquer fondue. Certo?

Depende. Produzido na região de Gruyère, é tipicamente suíço, sem dúvida. É o ingrediente chave de toda boa fundue. No entanto, diferentemente do que muitos acham, o queijo Gruyère não tem furos. É lisinho, lisinho. Quem tem furos é o emental, produzido no Emmenthal (Vale do Rio Emmen).Queijo 1

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Swatch
É criação suíça. Certo?

Certo. Foi bolado pelo grupo relojoeiro que hoje leva o nome do modelo: Swatch.

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Velcro
É invenção suíça. Certo?

Certo. Foi inventado pelo engenheiro suíço George de Mestral (1907-1990).

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Albert Einstein
Era cidadão suíço. Certo?

Certo. Nasceu no Império Alemão, mas naturalizou-se suíço aos 22 anos. Adquiriu outras nacionalidades ao longo da vida, mas conservou a suíça até o fim.

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Cuco
O relógio de pêndulo conhecido como cuco é antiga invenção suíça. Certo?

Errado. O cuco foi criado na Alemanha ‒ mais especificamente na Floresta Negra ‒ no século 18.

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Polilinguismo
Todos os suíços são poliglotas ou, pelo menos, bilíngues. Certo?

Errado. O país é composto de cantões. Cada um deles tem sua língua oficial. Alguns têm até duas. A maioria dos suíços, no entanto, fala uma única língua. Mais curioso ainda é o fato de a língua inglesa estar-se impondo, cada vez mais nitidamente, como segunda língua. Hoje em dia, é comum ver dois suíços de língua materna diferente se comunicarem em inglês.

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Cretinismo
A palavra cretino é de origem suíça. Certo?

Certíssimo. O distúrbio conhecido como cretinismo, que perturba fortemente o desenvolvimento físico e mental, é causado principalmente por carência de iodo. Nos tempos de antigamente, os habitantes de aldeias de montanha salgavam os alimentos com sal gema (não marinho), pobre em iodo. A incidência de distúrbios ligados ao cretinismo era elevada.

No Valais, cantão montanhoso e então pouco desenvolvido, a patologia ocorria com frequência. O povo chamava os infelizes doentes de “pauv’ crétin”pobre cristão, no dialeto local. Descoberta a origem da doença, iodo passou a ser adicionado ao sal. O distúrbio desapareceu, mas o nome ficou. Não só ficou, como se instalou em grande número de línguas. Assim:

Português: cretino
Russo:     кретин (kretin)
Inglês:    cretin
Sueco:     kretin
Polonês:   kretyn
Lituano:   kretinas
Húngaro:   kretén
Francês:   crétin
Finlandês: kretiini

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Curiosidade final
Corrupção, corrupto & derivados não são de origem suíça. Nem brasileira, diga-se logo. Corrupção é mais velha que o rascunho da Bíblia. A raiz rup vem de longe. Encontrada já no sânscrito, passou às línguas europeias. Traduz qualidade violenta, súbita ou negativa, como romper, despedaçar, irromper, roubar.

Publicado originalmente em 23 jun° 2016.

Jiang Zemin

José Horta Manzano

Jiang Zemin faleceu dois dias atrás aos 96 anos. O homem político assumiu altas funções no governo de Pequim em 1989 e permaneceu na liderança da China por 15 anos. Jiang assumiu as rédeas em seguida ao massacre da Praça da Paz Celestial. Coube-lhe administrar o soerguimento do país da condição de pária ao status de potência.

Engenheiro de formação, aderiu a Partido Comunista quando ainda era estudante. Que se saiba, foi o único líder chinês capaz de se comunicar em inglês. Falava russo e, dizem, também outras línguas.

Na quinta-feira 25 de março de 1999, Jiang Zemin, então presidente da China, estava na Suíça em visita oficial. A recepção havia sido preparada em detalhe e tudo corria bem. Cordões de isolamento, crianças agitando bandeirinhas, percurso em limusine (dessas que começam aqui e terminam na esquina), autoridades sorridentes, flores por toda parte.

Em Berna, assim que a comitiva parou na praça do Palácio Federal à porta do edifício que abriga o governo e o parlamento suíço (que corresponde à brasiliense Praça dos Três Poderes), a coisa subitamente desandou.

Vaias, gritos, apitos se fizeram ouvir. Do alto do prédios próximos desenrolaram-se bandeiras do Tibete, país ocupado e anexado por Pequim nos anos 1950. Cartazes com os dizeres «Free Tibet» apareceram por toda parte. As autoridades suíças, que não esperavam por essa, não sabiam se riam ou choravam.

O presidente da China, homem orgulhoso e colérico, teve um ataque de fúria. Rispidamente, perguntou à presidente da Confederação Suíça se ela não tinha capacidade de controlar seu próprio povo. E emendou, enfezado: «Vocês acabam de perder um bom amigo!».

Assim mesmo, o resto do programa foi cumprido. Mas o mandachuva chinês continuava muito chateado. Como é praxe, veio a troca de presentes. O governo suíço ofereceu ao chinês uma caixinha de música de grande valor, uma preciosidade, toda esculpida e pintada à mão, uma maravilha mecânica. E o visitante, depois de examinar o presente, ousou: «Ela parece funcionar melhor que a segurança deste país».

O visitante, pouco afeito à liberdade de opinião de que gozam os cidadãos europeus, não conseguia entender que “perigosos manifestantes” pudessem ter sido deixados à vontade. Em seu país, esse tipo de acontecimento é inconcebível. Antes de eventos importantes, tomam-se as devidas providências para dedetizar o terreno, esconder a miséria e tirar de circulação potenciais manifestantes.

A visita continuou num clima azedo. Passaram-se 23 anos e nenhum dirigente máximo chinês tornou a visitar a Suíça em caráter oficial.

Da Silva

José Horta Manzano

Você sabia?

Até fins do século 19, a Suíça era um pais de emigração. Populações pobres de regiões desfavorecidas partiam, com armas e bagagens, em busca de oportunidades numa terra que lhes abrisse os braços.

Os destinos do imigrante suíço foram variados. Muitos foram para os EUA. Houve quem preferisse se estabelecer nalgum país da Europa, até na Rússia. Colônias se formaram em países da América Latina, como no Brasil, no Uruguai e na Argentina.

O tempo passou e o sentido da transumância se inverteu. Já faz um século que, de emissor de migrantes, a Suíça passou a ser receptor – um importante receptor, diga-se. Atualmente, a população estrangeira com residência permanente no país atinge a marca de 25%, ou seja, de cada quatro habitantes, um tem cidadania estrangeira.

Níveis tão altos só se encontram em países do Golfo Pérsico (emirados), onde a população operária é numerosa e inteiramente estrangeira. Ou também em microestados, como Luxemburgo ou Mônaco. Nem o Brasil, que teve, um século atrás, seu período de desembarque contínuo de imigrantes, chegou a contar com um quarto de estrangeiros.

Metade dos estrangeiros vivendo na Suíça são originários de quatro países europeus. Na ordem: Itália, Alemanha, Portugal e França. Essa população estrangeira não é distribuída uniformemente pelo território nacional. Por afinidade linguística, imigrantes vindo de determinado país se concentram numa determinada região.

A imensa maioria dos 328 mil italianos está estabelecida no Cantão do Ticino (Lugano, Locarno), região de língua italiana. Os 311 mil alemães preferem a grande região de expressão alemã (Zurique, Berna, Basileia). Os 151 mil franceses, por seu lado, estão quase todos estabelecidos nos cantões francofalantes (Genebra, Lausanne, Neuchâtel). Já os 255 mil portugueses são menos exclusivistas, embora se note certa preferência pela região de fala francesa.

O Instituto Federal de Estatística (equivalente a nosso IBGE) acaba de publicar rica edição de estatísticas da população. Entre outros pontos interessantes, informam a distribuição dos estrangeiros por região linguística, por cantão e até por município. Constata-se que, na região de língua francesa, o sobrenome Da Silva é o mais difundido. Chega bem à frente de todos os nomes de família tradicionais.

E isso não é nada. Os primeiros lugares, do primeiro ao quinto, são todos ocupados por sobrenomes portugueses. Veja:

 1 Da Silva
 2 Ferreira
 3 Pereira
 4 Dos Santos
 5 Rodrigues

Pensa que é só isso? Pois não é. A lista continua. Vamos continuar até o 20° lugar:

 6 Favre
 7 Gomes
 8 Martin
 9 Fernandes
10 Lopes
11 Martins
12 Müller
13 Oliveira
14 Alves
15 Pinto
16 Marques
17 da Costa
18 Ribeiro
19 Silva
20 Gonçalves

Não é impressionante? Entre os 20 nomes mais comuns na Suíça de expressão francesa, 17 são de origem portuguesa, 1 é de origem alemã, e somente 2 são locais.

Mas não se assuste. Todos convivem em paz e harmonia, exatamente como costumava ser em nosso país até a virada do século. Quem sabe um dia volta, quando a tempestade passar.

O crime e a punição

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 25 junho 2022

Corrupção existe no mundo todo. Em certas regiões do globo, está mais presente que em outras. Seja como for, pouca ou muita, corrupção sempre há. Em países em que a observância de leis e regras é pouco rigorosa, a corrupção acaba se instalando como fato corriqueiro, presente no dia a dia de todo cidadão.

A América Latina, com o Brasil em destaque, é conhecida como um dos polos mundiais no assunto. Que se chame gorjeta, propina, cervejinha, cafezinho, molhadela, suborno, jabaculê, lambidela, joia – tanto faz: são variações em torno de um mesmo tema.

Dado que a corrupção crônica é vista no exterior como realidade indissociável de nosso país, ninguém se comoverá com o fato de este cidadão roubar mais que aqueloutro. Está aí, por certo, o segredo da persistente popularidade de Lula da Silva além-fronteiras. Processo, condenação e encarceramento não foram suficientes para manchar-lhe o retrato. Verdadeira ou não, a imagem que o mundo reteve dele foi a de um dirigente que cuidou seus compatriotas humildes e desvalidos – atitude incomum em nossos trópicos. Isso marcou.

O atual presidente martela: “No meu governo, não tem corrupção!”. Pode ser que o mantra funcione entre devotos mais crédulos; no estrangeiro, tem efeito nulo. Quando já se dá por favas contadas que todo dirigente sul-americano é desonesto, não é uma figura farisaica a bater no peito e a repetir “Eu, não!” que vai comover alguém. Portanto, fica claro que o fator corrupção não é suficiente para abalar a reputação do Brasil.

Passemos a um exercício de futurologia política. Vamos trabalhar sobre uma hipótese cujo peso, neste momento, é difícil avaliar. Inventemos um roteiro fictício.

Apesar da algaravia armada em torno da urna eletrônica, o capitão sofre derrota estrepitosa nas eleições. Dia seguinte, num balé incubado de longa data, tropas evacuam Congresso, STF e TSE, e lhes impõem rendição. Em cadeia nacional de rádio e tevê, o presidente aparece cercado por uma penca de fardados estrelados – generais, almirantes, brigadeiros. Todos ostentam o cenho franzido e o ar grave que convém aos momentos cruciais da vida nacional. O capitão anuncia o golpe.

Na sequência, estado de sítio é decretado. Garantias e liberdades individuais são suspensas. O Congresso é fechado, assim como o STF e o TSE. As personalidades que possam causar estorvo ao regime que se instala são detidas e encarceradas – o primeiro da lista é naturalmente o vencedor da eleição. Senadores e deputados têm os mandatos suspensos.

Nos dias que se seguem, manifestações internacionais de protesto pipocam. Os EUA são os primeiros da lista, instando o novo regime a repor o Brasil nos trilhos. Seguem-se a União Europeia, o Japão, o Reino Unido. Logo atrás, vêm os países da América Latina, num coro uníssono. A OEA e a ONU reiteram a mesma injunção: o resultado das eleições tem de ser respeitado e o Congresso, reaberto. Indiferentes às súplicas internacionais, o capitão e seu generalato levam adiante o golpe. Dada a vacância do Legislativo, o presidente passa a governar por decreto. É a estreia de um regime autocrático.

Fosse o Brasil um país pequenino e desimportante, talvez o mundo não se comovesse com a situação. Mas não é assim. Nosso país tem o peso de 200 milhões de habitantes e uma economia significativa. Nessas condições, ao ver que o novo ditador e a junta que o apoia sonegam resposta à súplica internacional, as nações, capitaneadas pelos EUA, decidem engatar a segunda.

Assim como foi feito com a Rússia, sanções contra o Brasil são decretadas. No primeiro pacote, a mais vistosa delas é a decisão de proibir cidadãos envolvidos no golpe de entrarem nos EUA e nos países adiantados. Os haveres desses indivíduos no exterior ficam bloqueados.

A notícia dessa decisão cai como bomba no Planalto. “Como assim? Quer dizer que não tenho mais acesso a minha conta bancária na Suíça? E não vou mais poder passar férias no meu apartamento de Paris? E nunca mais vou poder andar de xícara na Disneylândia?”

O mundo não precisa editar um segundo pacote de sanções. Esse basta. Tendo dado com os burros n’água, os golpistas encerram a brincadeira. Rapidinho.

Reescrevendo o passado

José Horta Manzano

Benito Mussolini (1883-1945) foi o criador e chefe supremo do fascismo, regime personalista e autoritário que vigorou na Itália de 1922 a 1945.

Sua entrada na vida adulta não foi gloriosa. Aos 19 anos, saiu da Itália para fugir do serviço militar obrigatório. Foi parar na Suíça, onde viveu dois anos durante os quais levou vida agitada e sobreviveu de expedientes. Morou em diversas cidades. Trabalhou de pedreiro, ajudante de obras, balconista. Chegou a ser preso por vadiagem.

Por curto período, tomou aulas na Universidade de Lausanne. Só voltou à Itália quando, por ocasião do nascimento do príncipe herdeiro, uma anistia geral foi concedida. O ditador subiu na vida, tornou-se poderoso e conhecido, mas manteve aquela aura sulfurosa e aquela cara de poucos amigos.

Corria o ano de 1937. Num descuido que viria a dar muito que falar, a Universidade de Lausanne decidiu outorgar ao ditador (e ex-aluno) um diploma de doutor honoris causa.

O que tinha de acontecer, aconteceu. Sua aliança com Hitler conduziu o povo italiano à desgraça de uma guerra perdida, milhões de mortos e um país destruído. Mussolini morreu de morte violenta e passou para o lado sombrio da História. Apesar disso, o doutorado suíço nunca lhe foi cassado.

Nos últimos 75 anos, o diploma conferido ao antigo ditador “por motivo de honra” incomodou um bocado. Não foram poucos os que preferiam que que a homenagem lhe fosse retirada. Mas não era chegado o tempo de decidir. Nestes dias em que o “politicamente correto” se impõe, não foi mais possível adiar.

A direção da universidade encarregou um grupo de trabalho interno, composto por quinze integrantes oriundos de sete diferentes faculdades, de se debruçar sobre a questão. Depois de dois anos de reflexão, a comissão entregou suas recomendações num relatório de 29 páginas. Saiu na sexta-feira que passou. As conclusões são surpreendentes.

“O grupo de trabalho considera que a outorga do doutourado ‘honoris causa’ a Benito Mussolini constituiu um erro grave cometido pelas instâncias universitárias e políticas da época. Esse título constitui a legitimação de um regime criminoso e de sua ideologia. Recomenda-se à Universidade de Lausanne reconhecer e assumir esse fato.”

A universidade aceitou a recomendação da comissão, e reconheceu ter falhado em sua missão e “ter desvirtuado os valores acadêmicos fundados sobre o respeito do indivíduo e a liberdade de pensamento”.

No entanto, em vez de renegar ou apagar esse episódio, optou por deixá-lo “servir de advertência permanente para possíveis derivas ideológicas que possam vir a vitimar a sociedade”. Em resumo, um banimento equivaleria a bloquear o debate democrático.

Talvez os que hoje pregam tratar personagens do passado como se nunca tivessem existido devessem se inspirar na decisão da Universidade de Lausanne, que me parece cheia de sabedoria.

O título foi conferido ao ditador, isso é ponto pacífico. Nada nem ninguém será capaz de apagar esse fato. Ocultá-lo e fingir que nunca existiu não é a melhor solução. Portanto, melhor será deixá-lo intacto para servir de exemplo de um erro que nunca mais se deverá repetir.

Crônica policial

Fábrica Nespresso nas bucólicas colinas de Romont (Cantão de Friburgo, Suíça),
onde foi descoberta a droga.

José Horta Manzano

A marca Nespresso pertence à multinacional suiça Nestlé, maior grupo de laticínios do planeta e uma das gigantes do ramo alimentício. É interessante notar que as cápsulas de café Nespresso são todas fabricadas na Suíça e, em seguida, exportadas para o mundo todo.

O café, importado em quantidades industriais dos grandes países produtores – Brasil, Vietnam, Colômbia, Indonésia, Etiópia –, é torrificado, moído, preparado e acondicionado numa das três usinas suíças.

A notícia saiu na quinta-feira 5 de maio, mas os fatos podem ser anteriores. Numa das fábricas de cápsulas Nespresso, em meio a sacas de café em grãos, foram encontrados 500 quilos de cocaína “padrão exportação” com grau de pureza de 80%. A polícia foi chamada. Por alto, calcula-se que o valor da carga atinja os 50 milhões de francos suíços – em torno de 250 milhões de reais.

Aberto o inquérito, descobriu-se que a droga estava distribuída em 5 contêineres provenientes do Brasil. Segundo a polícia, trata-se de uma das mais importantes apreensões de droga jamais efetuadas no país.

O que se sabe até agora é que a carga desembarcou no porto de Antuérpia (Bélgica), de onde subiu o Rio Reno de barco até o porto fluvial de Basileia (Suíça). A quantidade de cocaína é tão enorme, que se supõe tenha havido um erro de logística no meio do caminho. O mercado suíço é pequeno demais para tanto pó.

Sem esboçar um sorriso, o porta-voz da polícia suíça informou que em nenhum momento a droga entrou em contacto com o café. O apreciador (de Nespresso) pode continuar degustando sem susto seu café favorito, seja ele Intenso, Volluto ou Fortissio.

Dificilmente se saberá quem despachou a droga e quem era o destinatário. Há sempre muito laranja no meio, o que dificulta chegar aos verdadeiros donos do negócio. É certo que, no meio do caminho, tinha uma pedra. E alguém tropicou. Francamente, com um prejuízo de 250 milhões de reais, alguma cabeça é capaz de rolar.

De cara limpa

José Horta Manzano

Dia 16 de fevereiro, faz mais de um mês, o governo federal suíço fez um aviso importante: a partir da zero hora do dia seguinte, o uso de máscara anticovid deixava de ser obrigatório no país inteiro. A liberação incluía todos os lugares públicos fechados: supermercados, lojas, centros comerciais, igrejas, teatros, cinemas, bibliotecas, universidades. O uso da máscara continuava obrigatório apenas no transporte público e em hospitais, clínicas e casas de repouso para idosos.

Pois acredite: a partir do dia 17 de fevereiro, todos tiraram a máscara. Excetuando um gato pingado aqui, outro ali, todos acreditaram nas autoridades. Foi como se o Conselho Federal (o Executivo colegiado) tivesse o poder de expulsar os vírus para fora das fronteiras e decretar o fim da pandemia. Com hora e dia marcados.

Passado mais de um mês, este blogueiro, que é prudente, não põe os pés nem no elevador sem ostentar aquela mascarinha esverdeada, modelito básico made in China, incômodo, mas precioso. Às vezes sinto que me olham como se eu fosse um E.T. que acaba de desembarcar de um disco voador.

Um mês depois da Suíça, o governo paulista aliviou – ou “flexibilizou”, que é a palavra oficial – as regras de uso de máscara em ambiente fechado, em todo o território do estado. Em “shoppings”, faculdades, escritórios e estabelecimentos comerciais, pode-se de novo mostrar o sorriso. E qual foi a reação popular? Lançaram “hurras!” de alegria e alívio?

No primeiro dia, repórteres de campo fizeram contagem da população e repararam que os passantes se distribuíam entre os que, adotando imediatamente a liberação, saíram sem máscara (30%) e os mais prudentes, que preferem esperar pra ver o que vai dar (70%).

Como a situação evoluiu, não sei. Mas no início, apenas 3 de cada 10 paulistas acataram imediatamente as diretivas oficiais. Houve até gente que confiou ao repórter que, no transporte coletivo, pretendia continuar usando máscara “pelo resto da vida”. É grave, doutor?

Meu diagnóstico não tem a pretensão de estabelecer nenhuma verdade estatística, mas mostra uma tendência. Uma linha demarcatória pode ser traçada entre a reação de cada um dos povos mencionados.

Os suíços
1) Botam fé (até demais) nas autoridades. Acreditam no que ouvem, não se rebelam e seguem as ordens.

2) Têm consciência de que os eleitos realmente representam o povo e que a voz das autoridades é, no fundo, a voz da população.

Os brasileiros
1) Em princípio, desconfiam das próprias autoridades. Têm dificuldade em acreditar em diretivas oficiais e em segui-las. Não acreditando no que ouvem, costumam rebelar-se. Dependendo da época, essa revolta já se exprimiu pelas armas, pelas revoluções, pelas marchas, pelos protestos, pelos panelaços; hoje, a rebeldia marca presença nos comentários, raivosos ou não, lançados em redes sociais.

2) Têm consciência de que os eleitos constituem uma classe à parte e que vivem desligados do povo que os elegeu. Sabem que os valores que movem as autoridades não representam necessariamente os valores dos eleitores.

A Suíça é formada por 26 cantões, cada um com sua própria Constituição, suas regras fiscais, seu sistema escolar. Uns cantões são de maioria católica, outros têm mais protestantes, outros são “mistos”. Há cantões predominantemente urbanos, enquanto outros são rurais. Uns são ricos, ao passo que outros são bem menos abastados.

Se esse complexo quebra-cabeça – com populações que não se entendem nem frequentam a mesma igreja – conseguiu, há séculos, encontrar uma fórmula de convivência harmoniosa, por que continuamos nós, no Brasil, a cavar fossos entre “nós e eles” e a alimentar campanhas de ódio contra os que não pensam como nós?

Quando a gente não consegue fazer um mingau que preste, convém pedir a receita ao vizinho.

O mal que Bolsonaro nos faz

Em azul: países que condenaram a invasão russa
Em vermelho: países que aprovaram
Em amarelo: países que ficaram em cima do muro
Crédito infográfico: Le Temps, Genève

José Horta Manzano

A Guerra de Putin, como vem sendo apropriadamente descrita por vários órgãos de imprensa, tem feito efeito de um tsunami: repentino, violento, não deixa escapar ninguém, cada um se protege no lugar que escolhe. Há quem corra para o morro, mas há alguns que correm para a praia.

Coisas nunca vistas têm acontecido. Desde que Adolf Hitler invadiu metade da Europa, na virada dos anos 1930 para a década seguinte, nada de parecido tinha voltado a ocorrer.

Em 48 horas, a Alemanha encontrou saída legal que lhe permita enviar armas a zona de guerra – ato inconcebível até a semana passada.

Após pequena hesitação inicial, o Conselho Federal Suíço (o Executivo colegiado) decidiu arranhar a histórica neutralidade do país, em vigor desde o Congresso de Viena, de 1815. Essa brecha, que permitiu a Berna opor-se à Guerra de Putin e designar Moscou como agressor, deu base legal para a adesão total da Suíça às sanções aplicadas pela União Europeia.

Os países da União Europeia inteira, mais a Suíça, fecharam seu espaço aéreo para todo e qualquer avião russo. Aviões de carreira e jatinhos privados esbarram na mesma proibição.

A China, que, faz poucas semanas, tinha recebido Vladímir Putin com tapete vermelho e juras de amor, começa a tomar suas distâncias de Moscou. É sintomático da visão longa que os chineses têm do futuro. O que a Rússia está fazendo na Ucrânia é exatamente o que a China gostaria de fazer em Taiwan. No entanto, Pequim prefere esperar. Não gostaria de sofrer as duríssimas sanções aplicadas a Moscou. Taiwan fica para quando der.

A Finlândia e a Suécia, que sempre preferiram manter-se neutras e nunca aderiram à Otan, dão sinais de rever sua posição. Quer Putin goste ou não, a realidade atual na Ucrânia mostra que abrigar-se sob o guarda-chuva do Tratado do Atlântico Norte não é mau negócio. Não há que esquecer que a Rússia é vizinha de parede da Finlândia, com 1.340 km de fronteira terrestre, em terreno absolutamente plano. Com um Putin no trono, nunca se sabe.

A perspectiva de escassez de gás e de petróleo, matérias primas que a Rússia exporta em quantidade, está levando a Europa a reconsiderar rapidamente sua matriz energética. Em vez de depender da Rússia, os europeus terão de encontrar, da noite para o dia, outro fornecedor. A longo prazo, quem vai sentir os efeitos duradouros é a própria Rússia.

É de apostar que todos os países europeus, que tinham afrouxado seus investimentos militares desde a queda do Muro de Berlim, voltem a dedicar maior fatia do orçamento a despesas bélicas. É o rearmamento em marcha forçada.

Como se vê, que Putin anexe a Ucrânia ou que aquilo se transforme num atoleiro como o Vietnã, pouco importa. A loucura de Putin teve o condão de despertar um medo que todos imaginavam morto e enterrado há 30 anos. Durante todo o período da Guerra Fria, que durou 45 anos, o mundo ocidental cultivou o pavor dos russos. Agora, justamente quando todos começavam a esquecer e considerar a Rússia como um país normal e igual aos outros, catapum! Eis que a estupidez de um autocrata de visão limitada nos traz de volta um passado de pesadelo.

Desde já, a Rússia já está excluída do conjunto das nações civilizadas. E por décadas. E a Guerra de Putin, tenha ela o desenlace que tiver, terá dado um resultado positivo: pôs a Ucrânia no mapa. Um país obscuro, perdido nos confins das estepes, pobre, do qual ninguém sabia grande coisa, agora entrou para o time dos países europeus. E não é impossível que, dentro de algum tempo, seja aceito como membro da União Europeia. E até da Otan. Ou será otimismo demais?

Enquanto isso, o Planalto resiste. No infográfico que aparece na abertura, os países que condenaram a invasão russa aparecem em azul – coincidentemente, são os mais civilizados e avançados. Em vermelho, estão os que aprovam Moscou. Em amarelo, aparece a turma que ficou em cima do muro, incluindo o Brasil de Bolsonaro, naturalmente.

Repare que estamos em má companhia. Na América Latina, nossos companheiros são Cuba, Nicarágua e Bolívia. Em seguida, vêm a China, a Índia, o sudeste asiático, o Irã, as autocracias petroleiras árabes e a África praticamente inteira.

Como dizia um antigo chanceler do capitão, o Brasil tem orgulho de ser pária. Bolsonaro segue o ensinamento à risca.

Vacina para crianças

José Horta Manzano

Para futuros turistas que se preparam pra visitar determinados países ou regiões, recomenda-se tomar (ou exige-se que tomem) vacina contra doenças como tifo, febre amarela, raiva, hepatite A, poliomielite.

Para crianças, independentemente de qualquer viagem turística, a vacinação é obrigatória ou recomendada para proteger contra bom número de doenças: difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola.

Como se sabe, a vacinação dos pequerruchos é coisa corriqueira, sabida e aceita por todos. Não há mãe que deixe de levar seu filho ao médico ou ao posto de saúde pra ser imunizado.

Os mais antigos se lembram de um tempo em que essa proteção simplesmente não existia. Dá impressão de que vivemos hoje num mundo abençoado. Há quem diga que não passa de impressão. Mas essa é uma outra discussão.

Fico abismado – e meus leitores habituais sabem disso – com essa gente que recusa a vacina anticovid. Na Europa, espantosamente, são muitos. É verdade que, no Brasil, são poucos. Felizmente.

Fico boquiaberto com certos cidadãos de miolo mole, em geral apoiadores do capitão, que combatem a liberação da vacina anticovid para crianças. Como é que pode? Levam o filho para tomar vacina contra difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola, mas, na hora da vacina contra a maior pandemia que castigou a Terra nos últimos séculos, se afinam. Expõem os próprios filhos – e o resto da família – só pra obedecer à mente doentia do capitão. Não pode ser gente normal.

E tem mais. Não se está impondo nenhuma obrigação de vacinar crianças. O que se propõe é a autorização de vacinar. Ao fim e ao cabo, só vacinará seu filho quem quiser.

Vamos ver como está a situação além-fronteiras. Dia 25 de novembro, a Agência do Medicamento Europeia (que corresponde a nossa Anvisa) autorizou a vacina para crianças na faixa de 5 a 11 anos. Desde então, a Dinamarca e a Áustria já organizaram a campanha de vacina para os pequeninos. Na Alemanha, que é um país federal, como o Brasil, Berlim e a Baviera (Munique) já entraram para o time.

A Hungria – dirigida por Viktor Orbán, colega extremo-direitista de Bolsonaro – vai lançar sua campanha para a vacinação dos 5-11 anos quarta-feira. Na Grécia, os pais de 20 mil pequerruchos já inscreveram os rebentos para a picada, que também começa a partir de quarta-feira.

A Espanha, que está na categoria dos bons alunos no quesito vacinação, também já abriu sua campanha para vacinar os 5-11 anos. Portugal já planificou a imunização dos pequenos: começa esta semana e vai até 13 de março, os de 11 anos primeiro, e pouco a pouco baixando até chegar aos de 5 anos.

A Itália, a Lituânia, a Letônia, a Estônia, a Polônia (dirigida por colegas de Bolsonaro), a Eslováquia, a Tchéquia e a Suíça vão dar partida na campanha de vacinação infantil contra a covid estes próximos dias.

Enquanto isso, no Brasil… nosso respeitado capitão subiu a serra quando ficou sabendo que a Anvisa tinha conferido à criançada o direito de também ser imunizada contra a pandemia. Prometeu publicar, para execração pública, o nome dos diretores e funcionários que autorizaram “essa barbaridade”. O ministro da Saúde Pública, um sabujo interesseiro, repetiu como papagaio o discurso do presidente.

Destoando da covardia que os propósitos absurdos e cruéis de Bolsonaro costumam suscitar, a Anvisa soltou uma nota dura, indignada, inflexível.

Ai, que saudades do tempo em que nossos governantes se empenhavam em amparar os brasileiros, não em os assassinar.

A eficácia da vacina

José Horta Manzano


Nosso capitão era até capaz de ficar desagradado com este artigo. Mas, que fazer? É o que eu tenho a dizer.


Dependendo do efeito que se busca, cada acontecimento será relatado desta ou daquela maneira – é da vida. Nestes tempos de “narrativas” e de meias-verdades, essa versatilidade na apresentação dos fatos está na crista da onda.

Tive acesso a um levantamento estatístico sobre as hospitalizações na Suíça nesta fase da pandemia de covid. Foram levadas em conta todas as internações ocorridas entre 11 de outubro e 12 de dezembro deste ano. As tabelas cobrem o país inteiro.

No primeiro quadro, que aparece logo abaixo, foram utilizados números absolutos. Cada linha representa o total de pessoas hospitalizadas em cada faixa etária. Na primeira coluna, em vermelho vivo, estão os cidadãos que, ao serem internados, já haviam cumprido o ciclo integral de vacinação. Na segunda coluna, em salmão, estão os não-vacinados.

Quadro 1
Hospitalizações – números absolutos

Esta primeira tabela há de alegrar qualquer negacionista da vacina. Constata-se que, principalmente nas faixas de idosos (70-79 anos e mais de 80 anos), há mais cidadãos não-vacinados do que vacinados. Ao ver o quadro, devotos e terraplanistas hão de dar pulinhos.

“– Tá vendo? Eu sempre disse que essa porcaria de vacina não serve pra nada! Óiaí, no hospital tem mais gente vacinada do que não-vacinada. E olhe que é na Suíça, país sério, onde a gente pode acreditar nesse tipo de levantamento.”

Se o capitão recebesse uma informação dessas, faria um retuíte, mais um compartilhamento, mais uma declaração na laive da semana.

No fundo, a informação não deixa de ser verdadeira. Os números são reais. Só que… notícias têm de ser relativizadas. Vamos então relativizar esses números absolutos.

Os serviços informativos da Televisão Suíça, de onde tirei os dados, já fizeram isso. Tomaram os números absolutos de internações e compararam com o contingente de cidadãos já totalmente vacinados. Isso feito, chegaram a um segundo quadro. A tabela que está abaixo mostra as hospitalizações por 100 mil vacinados / não-vacinados.

Quadro 2
Hospitalizações por 100 mil vacinados / não-vacinados

A diferença entre as duas tabelas surpreende. Mas há explicação. Dado que a imensa maioria dos idosos estão vacinados, constata-se que, na faixa dos maiores de 80 anos, o número de hospitalizados não-vacinados (por 100 mil não-vacinados) é 10 vezes superior ao de vacinados (por 100 mil vacinados). Em outros termos, para cada velhinho vacinado, há 10 não-vacinados.

Entre os 60-69 anos hospitalizados, há 14 não-vacinados para cada cidadão vacinado. Mais dramático ainda é o que se vê na faixa dos 40 a 49 anos: para 1 vacinado hospitalizado, há 16 não-vacinados hospitalizados.

São provas capazes de silenciar o mais renitente dos antivax. A não ser que ele seja presidente do Brasil. Aí, já é perda de tempo.


You can lead a horse to water, but you can’t make it drink
Pode-se levar o cavalo até a água, mas não se pode forçá-lo a beber


Belonofobia

José Horta Manzano

Depois que a covid, firme e vigorosa, se agarrou ao mundo e não soltou mais, vêm sendo ressuscitadas palavras e expressões que cochilavam no fundo do armário junto aos saquinhos de naftalina.

Epidemia e pandemia, por exemplo, só saíam do armário pra lembrar surtos de tifo, varíola ou peste bubônica, coisa dos séculos de antigamente.

Ouvi ontem – pela primeira vez, que eu me lembre – a misteriosa palavra belonofobia. É composição erudita formada pelos elementos gregos βελόνα (belóna = agulha) + φοβία (fobia = pavor). Portanto, belonofobia (ou belenofobia) é pavor de agulha.

O único dicionário de língua portuguesa em que encontrei a palavra foi o Estraviz, dicionário benfeito mas pouco conhecido, que congrega o léxico português, o galego e o brasileiro. Ensina que belonofobia é o “receio mórbido em tocar agulhas, alfinetes e objetos que podem picar”.

Atrás dessa palavra, talvez se esconda o verdadeiro motivo de tanta gente rejeitar a vacina, a começar pelo capitão: pavor de agulha. No mundo, muitos entram nessa categoria.

Por alguma razão que desconheço, o povo brasileiro, com raras exceções, foge a essa recusa irracional. Estatísticas informam que apenas 2% de nossos conterrâneos entram na categoria dos antivax. Note-se que, em certos países da Europa, mais de 30% dos habitantes rejeitam a picada.

Eu desconfio que a imensa maioria dos ‘vacino-hesitantes’, embora não ousem confessar, têm mesmo é medo da agulha. À vista de uma seringa, já sentem as pernas bambeando.

Pra tentar convencer os hesitantes, a Suíça abriu um estágio de sensibilização. Gratuito e com duração de duas horas, o cursinho conta com a participação de enfermeiras e psicólogos que ‘apresentam’ seringas e agulhas aos participantes, suavemente, como quem leva as crianças ao serpentário pra mostrar cobra. O objetivo é esconjurar o medo irracional.

Se a técnica vai diminuir a quantidade de ‘vacino-hesitantes’, só o tempo dirá. Se funcionar, seria interessante pagar uma passagem para nosso capitão, pra permitir que ele participe também. Proponho fazer uma vaquinha pra comprar esse bilhete. De ida simples, de preferência, sem volta possível. Contribuo com gosto.

Falem de mim

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Outro dia, estava escutando um programa numa estação de rádio suíça. Era um diálogo em que os dois conversavam de algo banal, nem me lembro exatamente qual era o assunto.

Lá pelas tantas, um faz ao outro uma pergunta meio cabeluda, daquelas que demandam um tempo pra reflexão. Enquanto pensava na resposta, o indagado enrolou um pouco:

Ô, mais c’est compliqué ça!
Rapaz! Mas isso é complicado!

E o que tinha perguntado, na lata:

Eh, oui. C’est aussi compliqué que de chercher un peu d’humanité chez Bolsonaro.
É verdade. É tão complicado quanto procurar um pouco de humanidade no Bolsonaro.

Os dois continuaram a conversa, mas eu parei, surpreendido pela menção do nome do capitão, assim, de supetão, no meio de uma conversa amena, que não tinha nada a ver com ele.

Me lembrei de um antigo político que costumava dizer “Falem bem, falem mal, mas falem de mim”.

Parece que o autor da frase não é bem o político, mas o escritor e poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1900). No original, era: “There is only one thing in life worse than being talked about, and that is not being talked about.”“Só há uma coisa na vida pior do que ser falado; é não ser falado”.

Não tenho dúvida de que deve ser agradável ser popular; faz bem ao ego. Mas tornar-se sinônimo de desumanidade é pesado. Imagino que não faça bem ao ego de ninguém. Nem do próprio Bolsonaro.

A che punto siamo arrivati! – como dizem os italianos – A que ponto chegamos!

Caminhão elétrico

José Horta Manzano

Você sabia?

Para preparar este artigo, tive de mergulhar no mundo do transporte por caminhão. Mergulhar não é o melhor termo; só molhei a pontinha do pé. É que eu precisava conhecer o nome em português de um determinado tipo de caminhão conhecido aqui como semi-remorque.

Para leigos, caminhão é caminhão, tudo a mesma coisa. Mas não é assim tão simples. Aprendi que o mundo dos caminhões se subdivide em dois grandes ramos: o caminhão propriamente dito e a carreta. O caminhão é um veículo fixo, feito de um bloco só. Já a carreta é articulada, com o cavalo mecânico na frente e o semirreboque atrás.

Talvez o distinto leitor já soubesse dessas minúcias. Quanto a mim, acabo de aprender.

Nota
Muitos escrevem semi-reboque, que leva jeito de ser mais correto. No entanto, a ortografia oficial manda grudar tudo e, ainda por cima, acrescentar um R no meio: semirreboque. Fica esquisito, mas é assim. É como semirreta, semirrei, semirrígido, semirrústico, semirrisonho. Um espanto.

A Suíça acaba de fabricar o maior caminhão do mundo movido a eletricidade. Na verdade, é uma carreta, um veículo articulado, com cabine + plataforma (ver imagem). O cavalo mecânico (cabine) tem dois eixos e o semirreboque tem mais três. O mastodonte é capaz de levar até 40 toneladas de carga. Vazio, tem autonomia de 900 km; carregado, roda até 500 km sem recarregar as baterias de lítio.

Esse primeiro modelo saiu em dois exemplares, que tiveram até direito a uma cerimônia especial realizada no Museu dos Transportes de Lucerna. A parte mecânica, qualquer um sabe construir. O grande feito tecnológico está nas quatro baterias de lítio de mais de uma tonelada cada uma. O veículo roda em silêncio quase total. Quando ele passa, ouve-se um leve zumbido, semelhante ao de um patinete elétrico.

A proeza, inimaginável até um ano atrás, se insere na onda mundial da transição energética. A queima de combustíveis fósseis vai sendo rapidamente abandonada em prol de outros meios, renováveis e sustentáveis. As crianças que nascerem daqui a 20 anos, se quiserem conhecer um veículo de motor a explosão, terão de ir ao museu.