“No palm oil”

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 setembro 2020.

Em países avançados, vem crescendo rapidamente a sensibilidade ecológica, impulsionada por inúmeros movimentos verdes. A cada ano, com visibilidade crescente, eles mostram que vieram para ficar. Há evidente relação entre o grau de civilização de um país e a força de suas correntes ecológicas. Elas estão mais enraizadas em nações onde o sentimento de pertencimento é mais forte. Quanto mais elevado for o PIB, mais forte vibrará a corda ecológica.

Nesses países, político ajuizado não ousa desafiar, como faz nosso despreocupado presidente, a sensibilidade verde do eleitorado. Seria suicídio certeiro. Há que convir que a atitude de nosso dirigente-mor combina com o desinteresse de grande parte dos brasileiros, que se comportam como se a vida se resumisse ao hoje e não devesse haver amanhã. «Après nous, le déluge – depois de nós, [que venha] o dilúvio» é máxima egoísta (mas profética) atribuída a um membro da corte do rei Luís XV e posta em prática no Brasil de hoje. A Revolução Francesa, que sobreviria anos mais tarde, despejou de fato um dilúvio. Não de água, mas de sangue.

Não acredito que a incúria do Planalto se deva somente à ignorância. Debaixo desse angu, tem carne – há militância por detrás disso. O descaso ostensivo que o atual governo dedica ao tema faz desconfiar que, nos bastidores, lobbies poderosos estejam atuando. Tamanho é o desdém do Planalto pelo patrimônio de todos nós, que fica a impressão de que há, no final, perspectiva de suculentos ganhos pessoais. Não é nenhum despropósito pensar assim.

Fôssemos um povo consciente de estarmos todos embarcados no mesmo planeta, nosso atual presidente seria, desde já, carta fora do baralho em matéria de reeleição. Na Europa – tanto nos zelosos países do norte quanto no resto do continente – candidato hostil à preservação do meio ambiente não seria eleito, nem muito menos reeleito. Que sejam de direita, de esquerda ou de outro quadrante, eleitores se assustariam com a ideia de eleger um patrocinador de desastres.

Desde o dia em que teve a ideia funesta de compartilhar um tuíte desairoso zombando da primeira-dama francesa, Jair Bolsonaro atraiu para si a indignação da mídia e das gentes de Oropa, França e Bahia. Antes disso, não passava de líder folclórico, daqueles que costumam brotar na América Latina. Perpetrada a ousadia, mudou de patamar: suas palavras e atos passaram a ser analisados com aquela suspeição que, em princípio, se reserva para líderes que vicejam nos arrabaldes da civilização.

Países ricos, justamente os bons clientes de produtos brasileiros, contam com um universo de consumidores esclarecidos. Ao fim e ao cabo, são eles que estão na ponta das exportações brasileiras. Mesmo quando despachamos matéria prima para consumo animal, o boi europeu alimentado com nossa soja ou nosso milho termina no prato deles. São esses consumidores os aliados preciosos que o Brasil está gratuitamente mandando às favas. Consumidores ressabiados – e conscientes da própria força – são um perigo.

Se não, vejamos. A Indonésia é o grande produtor mundial de azeite de dendê, óleo apreciado por conferir textura especial a produtos da doçaria industrial. No entanto, dado que se alastrou a informação de que a floresta equatorial indonésia está sendo abatida para dar lugar a dendezais, tornou-se de bom-tom recusar todo artigo que contenha esse azeite. Para não perder clientes, número cada dia maior de marcas importantes imprimem na embalagem, bem visível para o consumidor europeu, o logo: «No palm oil – sem azeite de dendê».

Por mais que Bolsonaro proteste inocência, seu nome estará irremediavelmente ligado ao desmatamento. O presidente passará, como passam todos. Mas permanecerá o sentimento de o Brasil estar aniquilando seu patrimônio florestal e agravando a desertificação do planeta. Nosso país continuará, por décadas, a pagar a conta desse pecado original. Nesse baile, dançaremos todos.

Não está longe o dia em que, nos supermercados europeus, todo produto passível de ter-se beneficiado da pilhagem criminosa da natureza brasileira deixará de ser posto à venda. Para tranquilizar o público, uma etiqueta será colada na embalagem: «Brazilian Forest Preserved – Floresta Brasileira Preservada». Isso valerá para suco de laranja, proteína animal, ou ainda todo artigo que possa ter recebido insumos brasileiros. Virá em todas a línguas, para que fique bem claro. Estará assim estampilhada, numa logomarca padrão, a profundeza de nosso atraso.

5 pensamentos sobre ““No palm oil”

  1. Uma reflexão pra lá de oportuna, que chega no exato momento em que o ministro da Destruição Ambiental tupiniquim consegue aprovar o fim da proteção aos manguezais. Um argumento que tem “colado” muito por aqui é o de que os países europeus não têm autoridade moral para nos cobrarem nada, já que destruíram suas próprias florestas. O ponto crucial do seu raciocínio é a sensação de pertencimento que está por trás da consciência ecológica. Como nos falta esse atributo, vamos ter de conviver ainda por um bom tempo com a esquizofrenia ambiental. Posso apostar que muitos exportadores do “palm oil” brasileiro estão vendo uma oportunidade de ouro para substituir o indonésio. Mas será exatamente a queda das exportações brasileiras a curto prazo o principal fator para ajudar a nos livrarmos em definitivo do exército de Brancaleone que se apoderou do poder.

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    • Mais dia, menos dia, o Brasil vai-se livrar do bando de criminosos que se aboletou no Planalto. (Como se sabe, neste mundo tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro.)

      O chato é que, depois que eles se tiverem tornado pesadelo do passado, não vai sobrar muito a ser salvo. O estrago ambiental terá sido feito – sem possibilidade de volta.

      Depois que antigos manguezais estiverem coalhados de mansões e de torres, quem é que vai conseguir removê-los? Depois que as zonas úmidas tiverem sido drenadas e ressecadas, e que o bioma tiver sido destruído, não haverá recuperação possível. Só depois da próxima glaciação.

      Ainda que instituíssem um tribunal internacional para criminosos ambientais – e que doutor Bolsonaro & cúmplices fossem apanhados, condenados, trancafiados em masmorras e isolados da sociedade pelo resto de seus dias –, o estrago já teria sido feito.

      Essa viagem é sem volta. Nesse barco, somos todos passageiros. Inclusive o cobrador e o motorneiro.

      PS:
      Sobre a cobertura florestal da Europa, já me exprimi num post de 2019. Aqui:
      https://brasildelonge.com/2019/07/05/ignorantoes/

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      • Eu sei, me lembrava muito bem do seu post. O triste é que, a exemplo do auxílio emergencial que elevou a popularidade do Mito a impressionantes 40% (sem ter tido ele qualquer responsabilidade pelo dito cujo), o argumento da devastação europeia de florestas “pegou” até mesmo entre pessoas com razoável grau de informação/estudos. Ninguém retira dos pronunciamentos do capitão, nem de seu ministro para passar a boiada ambiental, a mensagem de que “não precisamos de ajuda internacional, deixa que eu destruo tudo sozinho”. Uma angústia só! Aliás, não é só na área de meio ambiente que a destruição proporcionada pelo bolsonarismo de raiz que os efeitos serão irreversíveis.

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        • É verdade, não é só o meio ambiente que vai sofrer. O país está no bom caminho para se tornar uma teocracia. A honestidade manda lembrar que essa tendência não começou com Bolsonaro. Mas tem sido catapultada por ele.

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  2. Pingback: José Horta Manzano | Caetano de Campos

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