Brasileiros poliglotas

José Horta Manzano

Nos anos 1930, a Biblioteca Pública Municipal da cidade de São Paulo funcionava num casarão da rua Sete de Abril, no centro da cidade. Àquela altura, a sede era suficientemente grande para conter o acervo de 110 mil livros, mapas, manuscritos e outros volumes. Os mais de 3 milhões de objetos abrigados hoje não caberiam no velho casarão.

Oitenta anos atrás, a língua inglesa ainda estava longe da posição preeminente que ocupa hoje. Em 1935, na primeira metade do mês de abril, 6.575 obras foram consultadas. A relação de livros, revistas, jornais e mapas, ordenada por língua, é autoexplicativa.

Correio Paulistano, 18 abril 1935

Correio Paulistano, 18 abril 1935

De cada três publicações consultadas, duas eram em português. Não espanta ninguém que nossa língua fosse mais lida que as demais. Assim mesmo, é interessante notar que ⅓ dos visitantes procurava obras escritas em língua estrangeira. É proporção elevada.

Entre as línguas estrangeiras, o francês era, de longe, o mais popular. Mais de metade das obras forasteiras consultadas estava escrita nessa língua. Bem atrás, vinham o espanhol e o italiano, procurados respectivamente por 20% e por 12% dos consulentes. O fato sugere duas explicações que se superpõem.

Por um lado, ainda era importante o número de imigrantes, que buscavam ler em sua língua materna. Por outro, espanhol e italiano são línguas bastante próximas da nossa. Com um pouco de esforço e prática, o estudante aplicado consegue encontrar seu caminho em publicações científicas escritas nessas línguas.

Indio 3Livros em inglês eram bem menos solicitados naquele tempo. Na ordem de procura, só apareciam em quinto lugar. Menos de 9% das publicações estrangeiras consultadas eram escritas nessa língua. De lá pra cá, é impressionante o avanço da popularidade do inglês entre nós. A propagação corresponde à difusão mundial dessa língua, ocorrida principalmente depois da Segunda Guerra.

Como última curiosidade, vale notar que um punhado de leitores daquele longínquo 1935 se debruçou sobre obras em grego, latim e até tupi-guarani. Gostaria muito de comparar com as estatísticas atuais mas não disponho de informações. Se encontrar um dia, volto ao assunto. Mas é bom lembrar que, nestes tempos de internet, ficou mais complicado.

Panama Papers

José Horta Manzano

Dinheiro voadorNossa avalanche de escândalos genuinamente nacionais tem deixado em segundo plano muito escândalo estrangeiro. Taí um caso raro em que a cotação do produto nacional é mais elevada que a do importado, algo digno de nota.

Meus cultos leitores hão de ter lido ou ouvido sobre o vazamento de informações sensíveis que se convencionou chamar Panama Papers. Acostumados que estamos a ter conhecimento de roubos bilionários, esse assunto nos pareceu mixuruca. Não tem sido muito comentado entre nós.

É natural. O escritório panamenho de onde escapou o vazamento não é banco, não tem cofre-forte, não guarda dinheiro alheio. São especializados em abertura de sociedades ditas offshore ‒ empresas de mentirinha, como o açougue do Renan ‒ situadas em países opacos, dos quais é difícil obter qualquer tipo de informação.

Dinheiro lavagemEssas empresas, que só existem no papel, são utilizadas como paravento, como biombo, pra ocultar o nome de detentores de fortunas ilícitas. Pra quem não está familiarizado, eis como funciona o esquema.

O cidadão X, dono de fortuna cuja origem prefere ocultar, pretende guardar seu botim num discreto paraíso fiscal. Antes disso, toma todas as precauções para que seu nome não apareça. Dirige-se a uma empresa especializada no assunto ‒ como essa do Panamá, por exemplo. Solicita abertura, em seu nome, de uma firma nas Ilhas Virgens Britânicas. É a firma A.

Em seguida, essa firma A abrirá uma firma B, situada noutro país opaco ‒ nas Ilhas Caimã, por exemplo. Nessas alturas, o nome do dono da fortuna já não figura nos documentos. Para maior garantia, a firma B abrirá uma terceira, a firma C, situada noutro paraíso fiscal. Como essas empresas de fachada estão domiciliadas em países pouco abertos à cooperação financeira internacional, vai ficando cada vez mais difícil encontrar o verdadeiro dono da penca de empresas.

Dinheiro 2Para terminar, a firma C abre uma conta em novo paraíso fiscal ‒ Hong Kong, por exemplo ‒ e lá deposita a dinheirama. Como o distinto leitor se pode dar conta, fica difícil até para o juiz Moro & equipe seguir o fio da meada e encontrar o dono do pecúlio.

Voltando aos Panama Papers, trata-se de informações vazadas de escritório especializado em abrir firmas. Por mais que se escrutem os livros, não se encontrarão valores. É apenas a ponta do fio da meada ‒ o resto do novelo continua emaranhado.

Interligne 28a

Capítulo linguístico
Cada língua deu à expressão inglesa Panama Papers o tratamento que lhe pareceu conveniente. A maioria optou pelo mínimo esforço e tomou as palavras como vieram:

Em holandês, italiano, tcheco e espanhol, ficou:
Panama Papers

Em francês, alemão e polonês, jornalistas têm sido um bocadinho mais cuidadosos e, para marcar a origem estrangeira, costumam botar entre aspas:
“Panama Papers”

Surpreendentemente, outras línguas foram caprichosas e encontraram soluções mais aprimoradas. São elas:

Turco
Panama belgeleri = Documentos do Panamá

Norueguês
Panama-avsløringer= Divulgações do Panamá

Sueco
Panama-härva = Meada (emaranhado) do Panamá

Por fim, russos e húngaros, mais liberais, forjaram duas expressões:

Russo
Панама плачет (Panama platchet) = Vazamento do Panamá
Панамский архив (Panámskii arkhiv) = Arquivos panamenhos

Húngaro
Panama-iratokról = Documentos do Panamá
Panama-ügyben = Caso Panamá

Quanto a nós, menos criativos, vamos de Panama Papers mesmo, com casca e tudo. Pra que reinventar o que já vem pronto, não é? Dá uma preguiça…

Outras máximas ― 22

La France est un pays extrêmement fertile. On y plante des fonctionnaires. Il y pousse des impôts.

 A França é um país extremamente fértil. Plantam-se funcionários. Crescem impostos.

Georges Clemenceau (1841-1929), homem de Estado francês

Dizem que o solo brasileiro é ainda mais fértil que o francês, portanto…

Outras máximas ― 21

LA HONTE N’EST PAS TOUJOURS LA CONSCIENCE DU MAL QUE NOUS FAISONS, ELLE EST SOUVENT LA CONSCIENCE DU MAL QU’ON NOUS FAIT.

A vergonha nem sempre é a consciência do mal que fizemos, mas do mal que nos fizeram.

Paul Morand (1888-1976), escritor francês

A escapada do ministro

José Horta Manzano

Estadio 3Sábado passado, em Berlim, teve lugar a final da Liga dos Campeões, campeonato que congrega os mais prestigiados times europeus de futebol. Os finalistas eram o espanhol Barcelona – grande favorito – e o italiano Juventus. O jogo, retransmitido ao vivo para meio mundo, prendeu a atenção de europeus, africanos, mongóis e patagões.

Gente fina veio de longe para assistir ao vivo. A procissão de visitantes incluiu o primeiro-ministro da França, Manuel Valls. Convém ressaltar que Monsieur Valls é francês naturalizado. Nasceu espanhol – barcelonês, para ser mais exato.

Caso pouco comum, o homem tem três nacionalidades: herdou a cidadania espanhola do pai, a suíça da mãe e, para coroar, tornou-se francês por naturalização. É perfeitamente quadrilíngue. Domina o espanhol, o catalão, o italiano e o francês. O Barça é seu time do coração, todo o mundo sabe disso.

Mesmo inconfesso, ficou claro que o objetivo da visita relâmpago a Berlim era assistir ao jogo. Monsieur Valls não foi sozinho: deu carona a dois de seu filhos adolescentes. Hoje em dia, como sabe o distinto leitor, não se consegue esconder mais nada. No dia seguinte, a notícia estava no jornal, no rádio, na tevê, nas redes sociais.

Manuel Valls

Manuel Valls, primeiro-ministro da França

Políticos da oposição não deixaram escapar a ocasião. Unanimemente, condenaram a largueza do primeiro-ministro, acusado de fazer turismo em família à custa do contribuinte. É verdade que cada viagem num avião Falcon do governo movimenta grande número de colaboradores, técnicos, seguranças e custa uma nota preta, coisa de quatro mil euros por hora. Sem contar o combustível.

Acuado, Monsieur Valls pediu socorro a Michel Platini, que preside a Uefa – a organizadora do campeonato. Monsieur Platini confirmou que o primeiro-ministro tinha viajado a Berlim a seu convite. Não funcionou. Na França, a grita só fez aumentar. Nesta quarta-feira, a mídia não falava em outra coisa. Uma providência tinha de ser tomada para apagar o incêndio.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Monsieur Valls decidiu vir a público fazer seu mea-culpa. Não pediu desculpas, mas fez pronunciamento contrito e apaziguador. Disse que, se fosse possível voltar no tempo, não refaria a viagem. Prometeu ressarcir o erário do valor da passagem dos filhos: 2500 euros.

Pronto, pode-se virar a página. Malfeito confessado é malfeito (quase) perdoado.

Fiquei pensando no petrolão. Fiz as contas, comparei, pesei e… achei melhor pensar em outra coisa. Pra evitar ficar deprimido. Afinal, a primavera está tão linda, as árvores com folhas novas, os passarinhos cantando. Uma beleza.

Pioneirismo helvético

José Horta Manzano

Você sabia?

«Irlanda é primeiro país onde povo, em referendo, aprova casamento gay.»

Irlanda 2Com termos assim, a mídia planetária trouxe a boa-nova: o verdejante, tradicional e ultraconservador país do trevo dava mais um passo em direção à modernidade. O aplauso foi universal.

Não sei a que agência noticiosa atribuir a autoria da ideia de que o governo irlandês teria sido o primeiro submeter ao povo a aprovação do casamento gay. A afirmação não é verdadeira.

Nestes tempos de alastramento instantâneo da informação, verdades se espalham com velocidade. Mentiras, infelizmente, também. Em matéria de casamento gay aprovado pelo povo, a primazia cabe à Suíça. Conto-lhes a história.

Desde o início deste século, a sociedade mandava sinais mais e mais flagrantes de mudança. Era passado o tempo em que homossexuais eram obrigados a viver na clandestinidade, apartados dos demais cidadãos e vistos com reserva. Tornou-se, então, imperativo que a lei passasse a refletir a evolução das mentes.

Entendendo o problema, o governo federal de Berna propôs ao parlamento nova legislação sobre o assunto. Estabelecia as bases e as regras para oficializar e sacramentar a união entre pessoas do mesmo sexo. As câmaras aprovaram a lei já em junho de 2004.

Para que ficasse bem claro que a vontade dos cidadãos estava sendo obedecida, ficou combinado que o texto seria submetido a referendo. Dia 5 junho 2005, o povo suíço aprovou, em referendo, a lei já votada pelo parlamento. A Suíça tornou-se, assim, o primeiro país onde a união entre pessoas do mesmo sexo foi aprovada pelo voto popular. Dez anos antes da Irlanda.

Suisse 18Neste país alpino, pouco dado a espalhafatos, a união não é chamada de «casamento». Para não chocar sensibilidades mais tradicionais, criou-se um nome específico. Em alemão, é Eingetragene Partnerschaft. Em francês, adotou-se a tradução ipsis litteris: Partenariat Enregistré. Em italiano, ficou Unione Domestica, nome meio sem graça. Até um novo estado civil foi criado especificamente para acomodar os que se viessem a se unir na forma da nova lei. Em português, um neologismo calcado na língua inglesa poderia servir de tradução: partenariado.

Irlanda 1O texto entrou em vigor dia 1° de janeiro de 2007. A temida destruição da família tradicional, temida por profetas do apocalipse, parece não ter acontecido. A família continua firme e forte. E manda lembranças.

É tranquilizante viver sob regras claras. Pão, pão, queijo, queijo. No Brasil, apesar da tão decantada tolerância nesse campo, até hoje não há – que eu saiba – um texto definitivo, claro, peremptório, inatacável. A omissão do legislador sobre a união legal entre pessoas do mesmo sexo abre brecha para que o judiciário faça a lei, o que não é exatamente sua atribuição.

E assim vamos, aos trancos e barrancos, como de costume.

Três sustos

José Horta Manzano

Você sabia?

Troglodita 3Primeiro susto
Se alguém, na França, lhe propuser visitar uma maison troglodyte – casa troglodita, não deve o distinto leitor se assustar. Não imagine que o cicerone vá conduzi-lo a lugar não recomendável a pessoas de boa família.

A língua francesa de hoje reserva o adjetivo troglodita para construções – em geral habitáveis, mas não necessariamente – que têm a particularidade de serem escavadas no flanco de parede rochosa. É o que, na Espanha, chamam cuevas.

Troglodita 2Troglodita 1Ideal para os sem-teto medievais, abrigos desse tipo vêm sendo aproveitados para acolher turistas em busca de alojamento fora do corriqueiro. Quando bem ajeitadas, as casas trogloditas pode exibir charme incomum.

Na Idade Média, até castelos trogloditas foram construídos. Em vales estreitos, o aproveitamento da parede rochosa fazia ganhar espaço. Os fundos do imóvel já estavam prontos, só faltava a frente. Duro mesmo devia ser a escavação no muque.

Interligne 18gSegundo susto
Ainda na França, se um conhecido se apresentar como personne ordinaire – pessoa ordinária, não tome isso como confissão de criminoso. No francês atual, ordinário é o contrário de extraordinário. Aplica-se a tudo o que é comum, corriqueiro, usual. Seu amigo está simplesmente afirmando que é pessoa comum, sem atributos especiais.

Croissant 1Se você entrar numa boulangerie e pedir um croissant, virá a pergunta obrigatória: beurre ou ordinaire? – de manteiga ou comum? Encomende o que lhe apetecer. No entanto, gordura por gordura, mais vale ficar com o de manteiga. Já que vai engordar, que seja com mais gosto.

Interligne 18gLeão 1Terceiro susto
Le lion est le roi des animaux significa o leão é o rei dos animais. Muitos e muitos anos atrás, no tempo em que a escola brasileira dava aulas de francês, esse era um dos provérbios mais apreciados por estudantes engraçadinhos. (Falando nisso, acabo de cometer pleonasmo: todo estudante é engraçadinho por natureza.)

Como a pronúncia soa «leliôn é lerruá dezanimô», a gente costumava dizer que o leão ia urrar, desanimou. Brincadeira de criança antiga. Já faz tempo que deve ter perdido a graça.

A sizuda «Pátria Educadora», coisa séria pra valer, não tolera mais esse tipo de troça. A partir de agora, a escola se compromete a ensinar, e o aluno, a aprender.

Novo hino

José Horta Manzano

Você sabia?

A história do hino nacional suíço é tão movimentada como a história do país. Imagine só: até 1961, a melodia era a mesma do hino britânico. Não cheguei a assistir pessoalmente, mas imagino que a execução dos hinos antes de encontros esportivos internacionais havia de ser um momento histriônico.

Num jogo entre Suíça e Reino Unido, bastava tocar o hino uma vez só. Os britânicos cantariam «God save the Queen» enquanto os helvetos entoariam «Rufst du, mein Vaterland» (ou «Ô monts indépendants», conforme a língua do freguês).

Suisse 16Quando o hino suíço começou a se difundir pelo país, em meados do século XIX, o fato de dois países usarem a mesma melodia não tinha tanta importância. Aliás, a melodia do hino britânico ‒ cujo autor não se conhece com certeza ‒ foi ou ainda é utilizada em numerosos outros cânticos nacionais, oficiais ou reais.(*)

Em 1961, o governo federal abandonou o hino antigo e adotou um canto provisório. Foi promovido ao estatuto de Cântico Suíço e está em vigor até hoje. A adoção de uma música definitiva foi adiada. Agora, meio século depois, a hora chegou.

Em 2014, foi lançado um concurso para a escolha de novo hino. As condições, bastante restritivas, exigem que a nova melodia lembre a antiga. Além disso, a letra tem de ser calcada na mensagem contida no preâmbulo da Constituição do país. Não sobra muita margem para inventar moda.

Das 208 composições inscritas, as seis finalistas acabam de ser publicadas na rede. Todos os residentes no país estão convidados a visitar o site oficial e votar em sua preferida. Das seis, sairão as três finalistas. Todos votarão de novo, e a grande vencedora será anunciada em 12 set°, considerado dia aniversário da fundação da Suíça moderna.

Suisse 17Caso o distinto leitor tenha curiosidade em conhecer as seis classificadas, pode clicar aqui. Dado que o país tem quatro línguas nacionais, cada hino conta com quatro versões: alemã, francesa, italiana e romanche. Para mudar de língua, clique na janelinha que aparece no canto superior direito da página.

O planeta está morrendo de impaciência de conhecer o vencedor. Vai ser difícil esperar até setembro.

Interligne 18b

(*) A melodia do «God save the Queen» foi (ou ainda é) adotada em outros países:

Alemanha ‒ hino do império até 1918
Liechtenstein ‒ hino nacional até hoje
Noruega ‒ hino real até hoje
Rússia ‒ hino nacional até 1833
Suécia ‒ hino nacional em vigor no século XIX
Suíça ‒ hino nacional até 1961

Hôtel de Ville

José Horta Manzano

Você sabia?

Uma distinta e cara leitora me pergunta a razão pela qual os franceses dão o nome de «Hôtel de Ville» à sede do Executivo municipal. Resolvi responder-lhe num post, assim, todos aproveitam. A explicação é interessante.

Com a popularização gerada pelo turismo, de cem anos para cá, o termo francês «hôtel» ganhou mundo com o sentido de lugar que dá cama e comida a gente de passagem. Substituiu palavras tradicionais como paragem, albergaria, pousada, estalagem, locanda, hostal.

A língua que mais resiste ao termo é o italiano. Na península, a antiga forma «albergo» continua firme e forte. Na fachada, escrevem “hotel”, que é palavra internacional. Na hora de falar, no entanto, todos se referem a «albergo». E ninguém abre mão.

Hotel des FinancesHá uma curiosidade, no entanto. Em francês, pasme!, a acepção primeira de «hôtel» é «demeure vaste et somptueuse» ― solar vasto e suntuoso. Usada nesse sentido, a palavra «hôtel» será mais bem traduzida em nossa língua por «palácio» ou, melhor ainda, pelo desueto e charmoso «palacete».

É justamente esse o sentido presente na expressão «Hôtel de Ville»: Palácio da Cidade. Que, aliás, anda de mãos dadas como nosso «Palácio da Justiça».

Os dois soberbos Palacetes Prates, em São Paulo (ambos já substituídos por insossas torres de vidro) Foto de Theodor Preising (1883-1962), fotógrafo alemão

Os dois soberbos Palacetes Prates, em São Paulo
(ambos já substituídos por insossas torres de vidro)
Foto de Theodor Preising (1883-1962), fotógrafo alemão

Ao edifício-sede do fisco também se costuma dar o nome de hotel. Temos, aqui em Genebra, o «Hôtel des Finances», correspondente genebrino da Receita Federal. Parece que, de vez em quando, algum desavisado turista estrangeiro se achega à recepção pra perguntar se tem quarto livre.

Coerência no futebol

José Horta Manzano

Panico 1Outro dia, ao perder para a Alemanha por 7 a 1, nossa equipe nacional de futebol deu susto em todo o mundo. Nem o mais ousado dos videntes, nem o mais pernudo dos polvos teria previsto placar tão elástico.

É difícil encontrar explicação. Quando sobrevém um acontecimento fora de toda previsão e de todo controle, costumamos falar em acidente. Foi a palavra mais utilizada para descrever a hecatombe.

Os ingleses se referiram ao fato como mishap. Os franceses tanto usaram mésaventure como accident de parcours. Quanto aos italianos, deram preferência a disavventura. E os espanhóis disseram percance.

Bom, isso valeu para o 7 a 1. Assim como raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar, a segunda derrota seguida da Seleção muda o cenário.

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

O fato de o «scratch»(*) nacional perder de goleada dois jogos consecutivos ― em Copa do Mundo jogada em casa! ― já não se encaixa mais no departamento de acidentes. Os bilhões de telespectadores que assistimos aos lances principais desta Copa estamos a nos perguntar se os termos da explicação não estariam invertidos.

Sim, agora tudo parece indicar que, se acidente houve, foi o resultado dos primeiros jogos da Seleção. Agora dá pra entender o que estava por detrás daquelas vitórias sofridas, estreitinhas, acudidas por pênaltis inexistentes, resolvidas na loteria do tiro ao alvo e salvas por bolas na trave.

Passarinho 2Pensando bem, até que há lógica nisso tudo. Nosso país, por decisão de seus perspicazes e ilibados líderes, caminha em marcha forçada para se tornar uma Venezuela. Nessa perspectiva, dispor de equipe nacional de futebol de padrão Fifa não combina. A lógica elementar exige que nosso futebol se aproxime do padrão bolivariano.

É o que está acontecendo. É coerente e faz sentido.

Interligne 37l

(*) Scratchera um dos nomes que se dava ao grupo de jogadores selecionados para representar o futebol do País. Falo do tempo em que o Brasil era respeitado em campo. Falo daquela época em que a simples visão de uma camisa amarela fazia qualquer adversário engolir em seco.

Frouxidão

José Horta Manzano

Não se pode esperar que todos os habitantes do planeta tenham o mesmo nível de conhecimento e de habilidade. A diversidade é uma riqueza da espécie humana. Quem não sabe construir um muro chama um pedreiro que entenda do assunto. Quem não leva jeito para redigir uma petição solicita o serviço de um advogado capaz. Quem não consegue cortar as unhas do pé vai a um pedicuro apto a executar o serviço.

Placa com erro 2

De Sul a Norte, não há quem se importe
Clique sobre a foto

Esses exemplos parecem evidentes, não é? Estou chovendo no molhado, não parece? O que eu disse salta aos olhos de qualquer indivíduo medianamente inteligente, não? Pois fique sabendo, caro leitor, que ainda há gente que não entendeu a mensagem. E gente graúda, daqueles que fazem parte do restrito clube de otoridades.

Na organização da «Copa das copas» ― segundo o slogan dernier cri bolado pelo marketing planáltico ― a acolhida ao turista estrangeiro tem recebido especial atenção.

Placa com erro 3

Estádio da Fonte Nova, Bahia
Clique sobre a foto

Sabemos todos que, em cada cidade-sede, linha especial de metrô foi inaugurada ligando o aeroporto ao centro. Dezenas de terminais aéreos foram criados, e os existentes, modernizados. Policiais, agentes e pessoal voluntário seguiram curso intensivo de língua estrangeira ― são hoje praticamente todos bilíngues. A criminalidade baixou a níveis nunca vistos. Até novenas e trezenas têm sido dedicadas a Santa Bárbara para que evite tempestades. Enfim, o turista estrangeiro voltará para casa com a impressão de ter passado uma temporada no paraíso.

Infelizmente, um grãozinho de areia anda perturbando o funcionamento da máquina. É coisa pouca, mas vistosa e capaz de estragar o todo. Autoridades encarregadas de providenciar placas informativas em língua estrangeira se distraíram: encomendaram o serviço a tradutores incompetentes. O resultado tem sido desastroso.

Placa com erro 4

Cariado de preferência
Clique sobre a foto

Já no ano passado, a inauguração de um estádio baiano foi objeto de zombaria por parte da imprensa nacional e internacional. O erro era tão monstruoso que ofuscou a notícia principal, que deveria ser a abertura da praça de esportes. Uma imensa placa dizia «Saída» e, mui educadamente, traduzia para o inglês. Nossa saída tornava-se «entrace»(sic). Entrance, em inglês, é a entrada. E se escreve entrance, não entrace.

Estes dias, foi a vez do respeitado metrô paulistano. Botaram placas em francês e em italiano para sugerir ao estrangeiro que procure um funcionário da companhia caso deseje obter informações. Por óbvia, a placa, a meu ver, é desnecessária. A quem mais se dirigiria o turista se não a um agente da empresa?

Seja como for, se placa há, que esteja bem escrita. E não está. Tanto a versão francesa quanto a italiana apresentam erros de grafia e de lógica. A frase escrita na língua de Molière soa, a ouvidos franceses, mais ou menos como se estivesse escrito: «Por informação, pergunta um emprego». Precisa um certo esforço para entender.

A versão italiana é ainda mais intrigante. Do jeito que está, sugere, com sabor dialetal, que o incauto leitor procure obter informações junto a um indivíduo cariado. Bom, ter cárie é sinal de que ainda sobra algum dente. É sempre melhor que ter de procurar um desdentado…

Duas palavras para resumir o problema: fracasso total. De otoridades incultas, displicentes, desleixadas e descompromissadas com a seriedade, não se poderia esperar mais que isso. Procuraram um pedreiro incapaz, e o muro periga desabar.

E não se esqueça de que o conceptor, o tradutor, o grafista, o pintor e o batedor de prego foram pagos com nosso dinheiro. Sem contar alguma eventual propininha aqui e ali, que ninguém é de ferro.

A Copa é nossa!

Em estado de dúvida

José Horta Manzano

Estádio é estádio. Arena é arena. Picadeiro é picadeiro. Palco é palco. Palanque é palanque. Não viria à ideia de ninguém dizer que a peça de teatro será apresentada no picadeiro do teatro. Não seria concebível relatar que, para pronunciar seu discurso, o candidato subiu à arena. Ficaria ridículo contar que o jogo de vôlei teve lugar no palanque.

Picadeiro é termo ligado ao circo. Palco traz à mente o teatro. Palanque lembra imediatamente um comício político. Arena é expressão intimamente conectada a tourada, corrida de bigas, luta de gladiadores. Estádio é construção ― geralmente de grandes dimensões ― onde se praticam esportes atuais, entre os quais o futebol.

O povo brasileiro, sabe-se lá por que, sempre foi bastante permeável a modismos vindos do estrangeiro. Cem anos atrás, a linguagem era recheada de palavras e expressões francesas, a língua de cultura da época. Hoje é vez do inglês. Amanhã, só Deus sabe o que virá.

Há neologismos bem-vindos. Quando falta uma palavra em nosso vocabulário, por que não adotar aquela que já nos vem prontinha do exterior? Comprar feito é tããão mais fácil que inventar um similar nacional, não é mesmo? No entanto, há modismos que perturbam. Um deles, muito em voga atualmente, é o surpreendente e repentino abandono do tradicional termo estádio, substituído pelo bizarro arena.

Será que os brasileiros logo estarão dizendo que, domingo que vem, vão à arena assistir a um jogo? Pode ser, melhor não botar a mão no fogo. Os franceses são mais duros na queda. Naquele país, ninguém jamais em tempo algum conseguiria impor uma novidade desse calibre. Stade continua significando estádio. Arènes (que é normalmente usada no plural) é a palavra empregada para designar um campo de touradas.

Le Monde ― o jornal mais prestigioso da França, traz, em sua edição datada de 12 dez° 2013, artigo de Nicolas Bourcier sob o título Le Brésil au stade du doute. A expressão contém um jogo de palavras. Stade tanto significa estádio como estado (=situação). Portanto, tanto se pode traduzir por O Brasil em estado de dúvida, como por O Brasil no estádio da dúvida. Trocadilhos e brincadeiras com palavras são comuns na imprensa francesa.

O texto, naturalmente, tece considerações sobre a próxima Copa do Mundo e sua organização. Menciona o espetáculo horripilante que se viu recentemente num estádio de Joinville. Fala também do acidente que dizimou uma parte do estádio dito Itaquerão. Relata atraso na construção dos estádios de Curitiba, Manaus e Cuiabá. Para coroar, conta que a previsão de custo das construções esportivas teve aumento de um bilhão de reais de um ano para cá. Diz ainda que o total de investimentos em infraestrutura deve ultrapassar os 25 bilhões de reais. No finalzinho do escrito, fica no ar uma dúvida maliciosa sobre a serenidade do clima no qual ocorrerá o megaevento do ano que vem.

O artigo de página inteira está engalanado por vários desenhos humorísticos. Estão aqui abaixo.

Le Monde ― 12 dez° 2013 página inteira

Le Monde ― 12 dez° 2013
Artigo completo

Interligne 28a

Le Monde ― 12 dez° 2013 O texto

Le Monde ― 12 dez° 2013
O texto

Interligne 28a

Le Monde ― 12 dez° 2013 "Ainda bem que estão todos em frente à tevê!" by Mix & Remix, desenhista suíço

Le Monde ― 12 dez° 2013
“Não vejo a hora em que eles se sentem todos em frente à tevê!”
by Mix & Remix, desenhista suíço

Interligne 28a

Le Monde ― 12 dez° 2013 by Payam Borumand, desenhista iraniano

Le Monde ― 12 dez° 2013
by Payam Borumand, desenhista iraniano

Interligne 28a

by Boligan, desenhista mexicano

by Boligan, desenhista mexicano

Interligne 28a

by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

O custo da Copa 2014  –  by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

Interligne 28a

by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

Interligne 28a