Panama Papers

José Horta Manzano

Dinheiro voadorNossa avalanche de escândalos genuinamente nacionais tem deixado em segundo plano muito escândalo estrangeiro. Taí um caso raro em que a cotação do produto nacional é mais elevada que a do importado, algo digno de nota.

Meus cultos leitores hão de ter lido ou ouvido sobre o vazamento de informações sensíveis que se convencionou chamar Panama Papers. Acostumados que estamos a ter conhecimento de roubos bilionários, esse assunto nos pareceu mixuruca. Não tem sido muito comentado entre nós.

É natural. O escritório panamenho de onde escapou o vazamento não é banco, não tem cofre-forte, não guarda dinheiro alheio. São especializados em abertura de sociedades ditas offshore ‒ empresas de mentirinha, como o açougue do Renan ‒ situadas em países opacos, dos quais é difícil obter qualquer tipo de informação.

Dinheiro lavagemEssas empresas, que só existem no papel, são utilizadas como paravento, como biombo, pra ocultar o nome de detentores de fortunas ilícitas. Pra quem não está familiarizado, eis como funciona o esquema.

O cidadão X, dono de fortuna cuja origem prefere ocultar, pretende guardar seu botim num discreto paraíso fiscal. Antes disso, toma todas as precauções para que seu nome não apareça. Dirige-se a uma empresa especializada no assunto ‒ como essa do Panamá, por exemplo. Solicita abertura, em seu nome, de uma firma nas Ilhas Virgens Britânicas. É a firma A.

Em seguida, essa firma A abrirá uma firma B, situada noutro país opaco ‒ nas Ilhas Caimã, por exemplo. Nessas alturas, o nome do dono da fortuna já não figura nos documentos. Para maior garantia, a firma B abrirá uma terceira, a firma C, situada noutro paraíso fiscal. Como essas empresas de fachada estão domiciliadas em países pouco abertos à cooperação financeira internacional, vai ficando cada vez mais difícil encontrar o verdadeiro dono da penca de empresas.

Dinheiro 2Para terminar, a firma C abre uma conta em novo paraíso fiscal ‒ Hong Kong, por exemplo ‒ e lá deposita a dinheirama. Como o distinto leitor se pode dar conta, fica difícil até para o juiz Moro & equipe seguir o fio da meada e encontrar o dono do pecúlio.

Voltando aos Panama Papers, trata-se de informações vazadas de escritório especializado em abrir firmas. Por mais que se escrutem os livros, não se encontrarão valores. É apenas a ponta do fio da meada ‒ o resto do novelo continua emaranhado.

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Capítulo linguístico
Cada língua deu à expressão inglesa Panama Papers o tratamento que lhe pareceu conveniente. A maioria optou pelo mínimo esforço e tomou as palavras como vieram:

Em holandês, italiano, tcheco e espanhol, ficou:
Panama Papers

Em francês, alemão e polonês, jornalistas têm sido um bocadinho mais cuidadosos e, para marcar a origem estrangeira, costumam botar entre aspas:
“Panama Papers”

Surpreendentemente, outras línguas foram caprichosas e encontraram soluções mais aprimoradas. São elas:

Turco
Panama belgeleri = Documentos do Panamá

Norueguês
Panama-avsløringer= Divulgações do Panamá

Sueco
Panama-härva = Meada (emaranhado) do Panamá

Por fim, russos e húngaros, mais liberais, forjaram duas expressões:

Russo
Панама плачет (Panama platchet) = Vazamento do Panamá
Панамский архив (Panámskii arkhiv) = Arquivos panamenhos

Húngaro
Panama-iratokról = Documentos do Panamá
Panama-ügyben = Caso Panamá

Quanto a nós, menos criativos, vamos de Panama Papers mesmo, com casca e tudo. Pra que reinventar o que já vem pronto, não é? Dá uma preguiça…

Os escândalos, a caravana e a banda

José Horta Manzano

Briga 4As consequências do mensalão e do petrolão não são apenas financeiras. Atingem o momento econômico e perturbam o planejamento do Brasil de amanhã.

Faz quase dez anos que o País, estarrecido, assiste ao interminável desfile de acusações, contra-acusações, afirmações, negações, imputações, absoluções. Quando a gente acha que chegou ao clímax, aparece novidade mais espetaculosa.

Políticos, sociólogos, filósofos, ministros, artistas, jornalistas, empresários – enfim, os integrantes da nata que detém o poder – se engalfinham de embolada. Faz dez anos que o Brasil está paralisado.

Por falta de previsão e erros de aplicação, planos apresentados como salvação da lavoura deram em nada. Bifurcação do Rio São Francisco, trem-bala, exploração do pré-sal, programa espacial, extinção do desmatamento, elevação do nível de ensino, consolidação de infraestrutura rodoviária e ferroviária – tudo isso ficou no papel.

by Armand

by Armand “Apfel” Feldmann, artista francês

A corrupção, sozinha, não justifica todo esse empacamento. Corrupção, posto que nunca antes tenha atingido a magnitude atual, sempre existiu. Assim mesmo, o Brasil progrediu.

Discussão 3A incompetência tampouco é explicação para a estagnação. Nossos dirigentes nem sempre foram competentes. Assim mesmo, o Brasil progrediu.

Crises externas não servem de pretexto para o marasmo atual. Crises, tensões, conflitos, guerras sempre houve. Nem por isso, nosso País retrogradou.

Sabe o distinto leitor qual é o ingrediente que, mal percebido, junta-se às mazelas nacionais endêmicas e as reforça? Pois é justamente a exacerbação desses males congênitos, trazida à tona pelo mensalão e pelo petrolão.

Ponhamos em outros termos. Apesar da corrupção crônica e da incompetência difusa, o Brasil de 2015 é, em muitos aspectos, melhor que o de um século atrás. Bem ou mal, o País vinha desempenhando razoavelmente.

Discussão 1No entanto, estes últimos anos, petrolão e mensalão baralharam as cartas. Desmilinguiu-se o pouco que havia de competência para pensar o Brasil do futuro. O tempo e o esforço dos mais capazes tem sido consumido na fogueira dos escândalos.

Juristas, psicólogos, historiadores, sociólogos, antropólogos e outros eruditos não fazem outra coisa senão tecer considerações sobre os excessos que vêm sendo revelados a cada dia. É afligente ver desperdiçada tanta massa cinzenta, que seria tão mais útil se estivesse esboçando o Brasil de amanhã.

by Sinval Fonseca, artista brasileiro

by Sinval Fonseca, artista brasileiro

O decênio de 1980 ficou na história do Brasil como «a década perdida». Que nome darão os historiadores do futuro ao período túrbido que começou em 2005? Que nome se deve dar a um tempo que a gente terá passado se estapeando, sem preocupação com o amanhã, enquanto outros povos pavimentavam, previdentes, o próprio futuro? Quantos degraus teremos descido no processo civilizatório? Quem viver verá.

Enquanto a caravana passa e nos ultrapassa, nós, bobões, continuamos ladrando. Vendo a banda passar.