Presidente Wilson dixit

José Horta Manzano

I am very much more afraid of the man who does a bad thing and does not know it is bad than of the man who does a bad thing and knows it is bad; because I think that in public affairs stupidity is more dangerous than knavery, because harder to fight and dislodge.

Tenho muito mais medo do homem que erra sem saber que errou do que daquele que erra sabendo que errou. Acho que, na trato da coisa pública, a estupidez é mais perigosa do que a velhacaria, por ser mais difícil de combater e eliminar.

Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos EUA, em seu livro The New Freedom, publicado em 1913.

Saiu corrido

José Horta Manzano

Weintraub, nosso pranteado ministro da Educassão, abandonou o Brasil às carreiras, antes de sua exoneração ser publicada no Diário Oficial. O atropelo tinha dois motivos.

Em primeiro lugar, fugiu por razões sanitárias. O governo norte-americano restringiu, em razão da covid-19, a entrada de pessoas provenientes do Brasil. O ‘esperto’ Weintraub aproveitou que ainda tinha no bolso um passaporte diplomático(*) e escafedeu-se. Conclui-se que, na curiosa contabilidade americana, diplomatas estão imunizados, razão pela qual sua entrada é permitida. É que o governo americano não sabe, mas o risco representado pelo ex-ministro é de outra natureza. O moço é bem mais nocivo do que aparenta.

Em segundo lugar, fugiu por pânico. Ao perder o cargo, o doutor perde o foro por prerrogativa de função (foro dito “privilegiado”). Em termos simples: se bobear, dança; e vai pra cadeia. Com a procissão de acusações que seu comportamento rasteiro acumula, o risco é real. Nos EUA, fica temporariamente longe dos braços da Justiça brasileira. Mas um dia acaba voltando. Que tome cuidado!

(*) Já me exprimi, em outras ocasiões, sobre o uso – e principalmente o abuso – que vêm sendo feitos do tal passaporte diplomático. Em princípio, o documento destina-se a diplomatas e a funcionários que viajam a serviço do país. No entanto, depois que Lula da Silva, no último dia de mandato e antes de apagar a luz, concedeu passaporte diplomático a todos os parentes, avacalhou de vez.

Doutor Weintraub, que não está nos EUA em missão oficial, não tem direito a viajar com o documento. Mas vivemos uma situação em que crimes maiores ofuscam ‘delitozinhos’ como esse. Estivéssemos em país civilizado, ele ainda teria de responder, diante da Justiça, pelo uso indevido de documento oficial não autorizado. Seria gratificado com pesada multa. Em país civilizado, disse eu.

Pós-crise

José Horta Manzano

A pesada crise provocada pela epidemia de covid-19 surge como inesperado revelador de realidades dormentes ou encobertas. Quando o tempo é bom, todo o mundo é capitão, todos sabem navegar. Quando o céu vem abaixo e o temporal desaba, aí é que são elas.

Nas bandas da oficialidade, o mundo está assistindo, entre surpreso e inquieto, à cena bizarra de holofotes iluminando líderes que não lideram. Se o distinto leitor voltou o olhar para os lados do Planalto, acertou. Nas altas esferas da República, o pandemônio faz companhia à pandemia. Leigos dão receita médica; médicos aconselham beijos e abraços em momento de contágio. Um mundo de ponta-cabeça.

Outras verdades, normalmente encobertas por véu pudico, vêm à luz. A solidariedade nacional corre pra ajudar os que têm menos. Mas primeiro precisa saber quem e quantos são. Constrangido, o governo reconheceu, a contragosto, que 70 milhões de compatriotas estão no grupo de trabalhadores informais. Setenta milhões! Esse imenso contingente representa quase metade da população ativa – um despropósito que, não fosse a crise sanitária, continuaria invisível aos olhos da outra metade dos ativos.

Não é um punhadinho de gente, é uma multidão. É gente que pode até ter família, mas não tem carteira assinada; que pode existir para o pastor, mas não existe para a Receita. Não é aceitável que metade da força de trabalho nacional opere nas sombras, como se abstração fosse.

Quando essa epidemia se acalmar, algo vai mudar. Tenho certeza de que doutor Bolsonaro, que, a estas alturas, já tomou ciência dessa desordem, vai agir. Preocupado que está com o bem-estar da população, vai dar início a um processo de reconhecimento do contingente oculto. Ficará na história como aquele que descobriu o outro Brasil. Ou não.

Quem tem telhado de vidro – 2

José Horta Manzano

O inclassificável Abraham Weintraub foi-se. Homem de pouca leitura, também tinha cara de poucos amigos. Não é de espantar que tenha colecionado inimigos. Entre eles, surpreendentemente, a colônia judaica. Uma façanha!

Foi ministro durante ano e pouco, tempo insuficiente pra fazer estrago maior na Instrução Pública. Imagino que os danos sejam reversíveis, se bem que, à boca pequena, corre a informação de que o sucessor será alguém ‘terrivelmente ideológico’. Isso quer dizer que, tirando aquele inimitável ar aparvalhado de Weintraub, a troca será de seis por meia dúzia. Pobre Brasil…

Correio Braziliense: capa da edição impressa de 19 jun° 2020

Como toda a imprensa, sem exceção, o Correio Braziliense também deu a notícia em primeira página. O redator quis fazer troça com o “imprecionante”, aquele pontapé que o (agora ex-) ministro tinha dado na língua algum tempo atrás. Até aí, nada de mais, que a falta de familiaridade do moço com a língua não era segredo pra ninguém. No entanto, quem atira pedra ao telhado do vizinho deve assegurar-se de não estar coberto por telhas de vidro.

O jornal descuidou-se. Duas linhas abaixo do “imprecionante”, tascou, por conta própria, um “distencionar”. Ai, ai, ai. O verbo deriva de tenso, que se grafa com s. Portanto, toda a família acompanha. Tensão, distensão, extensão, ostensão, tensionar e, naturalmente, distensionar. Paft! – o telhado estilhaçou.

Melhor faria se tivesse usado distender, que é sinônimo e tem a vantagem de ser desprovido de armadilhas.

O presidente e os sem-voto

José Horta Manzano

Quando se dispõe a atacar o Judiciário – uma atitude que adota com frequência –, doutor Bolsonaro costuma encher a boca para proclamar a própria legitimidade. Argumenta que recebeu 57,8 milhões de votos, enquanto os magistrados não receberam nenhum.

À primeira vista, o raciocínio parece cristalino. No entanto, quando se tenta seguir essa lógica até o fundo, a imagem se turva. Se o número de votos fosse determinante da legitimidade do homem político, um bocado de gente passaria à frente dos sem-voto.

Logo após Bolsonaro, viria – adivinhem quem? – Fernando Haddad, ora pois. Seus 47 milhões de votos lhe conferem legitimidade comparável à do presidente, muito acima do magma dos que não passaram pelas urnas. Está correto o que estou dizendo? De onde sai essa salada?

O distinto leitor há de ter se dado conta de que, esticado até o limite da ruptura, o raciocínio do presidente acaba por romper-se. É que, ainda que tenha recebido um caminhão de votos, ele não será nem mais nem menos legítimo do que o vereador de pequeno município, escolhido por poucas dezenas de eleitores. A legalidade do presidente tampouco será menor que a de um ministro do STF ou de um parlamentar. Todos eles, escolhidos segundo as normas da lei, estão no mesmo nível de legitimidade.

Portanto, será falácia o presidente pretender-se mais ‘legítimo’ do que parlamentares ou ministros do Judiciário. Desde que o caminho que os levou lá tenha seguido rigorosamente os preceitos legais, gozam todos de idêntica legitimidade.

Só pra chatear 1
Pela lógica de doutor Bolsonaro, que confunde os conceitos de legitimidade e de proporção de eleitores, tanto o Lula quanto a doutora eram mais ‘legítimos’ que ele. Vejamos o resultado de cada um (em proporção do total de votos válidos):

2018  Jair Bolsonaro  55,1%
ooooooooooooooooooooooooooo
2010  Dilma Rousseff  56,1%
2006  Lula da Silva   60,8%
2002  Lula da Silva   61,3%

Só pra chatear 2
Há questão de 3 meses, doutor Bolsonaro afirmou que as eleições de 2018 haviam sido fraudadas. Garantiu ainda que tinha provas disso. Ora, desde que o mundo é mundo, a fraude em votações serve pra garantir a eleição de um dos candidatos. Quem ganhou foi ele; portanto, conclui-se que, se fraude houve, foi a seu favor. Será por isso que, até hoje, não mostrou as provas de que dispõe. Se o fizer, a fraude ficará comprovada e sua eleição será impugnada.

Falhar em?

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 17 maio 2020

O uso do verbo falhar em frases do tipo “Ele falhou em fazer tal coisa” é modismo. Poucas décadas atrás, não se via tal construção. Não sei de onde terá vindo; por ser decalque da sintaxe inglesa, imagino que tenha sido introduzida por tradutores apressados. Ou por turistas de retorno de trepidante temporada de vilegiatura na Disneylândia.

Em muitos casos, to fail se traduz por faltar. É verdade que outras acepções se traduzem por falhar. A sintaxe da chamada do jornal soa estranha, estrangeira. Talvez, no futuro, venha a ser completamente aceita; hoje, ainda não é o caso.

A norma culta não prevê ‘falhar em, mas ‘falhar a’. Falhou ao juramento, por exemplo, é forma legítima.

Pra consertar a chamada, aqui vão duas opções. Ambas conservam o verbo falhar intransitivo.

“Modelo sueco contra coronavírus falha ao não evitar recessão no país”.

“Modelo sueco contra coronavírus falha. Não evita recessão no país”.

Tuíte – 15

José Horta Manzano

A indecência do ministro da Educassão, Abraham Weintraub, escandaliza até doutor Bolsonaro – uma façanha! Acuado, o presidente procura “saída honrosa”, como se fosse possível medir comportamento de ministro jagunço por padrões de honra. Insustentável, o petulante tem de sair.

No Planalto, busca-se urgentemente uma sinecura ou um posto diplomático para acolher o banido. Este blogueiro sugere que o (quase) ex-ministro seja nomeado embaixador em Pequim. Não é excelente ideia? Volta e meia, ele se refere à China, nem sempre de maneira airosa. Uma mudança de ares e uma (longa) estada por lá haviam de fazer-lhe grande bem.

Para Weintraub, a nomeação seria prêmio e castigo ao mesmo tempo. Ele sairia de circulação e – longe dos olhos, longe do coração – sairia também da lembrança de todos. No Brasil, ninguém lamentaria. A solução contentaria Bolsonaro, que, como se sabe, é do tipo morde-assopra.

E tem uma cereja em cima desse bolo: o despudorado ex-ministro terá de comer no próprio prato em que cuspiu. E comer de pauzinho (em português: chopsticks)! Castigo agridoce.

Vou de táxi

José Horta Manzano

Na Suíça, assim que a quarentena começou a afrouxar, o tráfego de automóveis teve aumento brutal. Sumiu o canto dos pássaros e voltou a poluição por partículas finas. A volta à vida pré-pandemia foi recaída brutal.

Diferentemente do que ocorre no Brasil, as atividades econômicas deste país não estão geograficamente concentradas. Para trabalhar, não são todos obrigados a convergir em direção a alguma metrópole. Os focos de atividade econômica – indústrias ou serviços – estão disseminados pelo país. No entanto, dado que nem todos residem ao lado do trabalho, grandes contingentes se deslocam diariamente em todas as direções. Boa parte desses “pendulares” viaja de trem.

Acontece que, mesmo as autoridades tendo informado que o risco de infecção é diminuto, o povo anda ressabiado; afinal, ninguém é besta. Muitos hesitam em botar de novo os pés num trem. Os citadinos, que tinham o hábito de ir ao trabalho em transporte público, também estão com medo de apanhar covid-19 no ônibus. O resultado é que muitos habitués da estrada de ferro e do trasporte público urbano renunciaram ao costume, desempoeiraram o automóvel, encheram os pneus, completaram o tanque e agora trafegam sobre quatro rodas.

Dá pra imaginar o congestionamento provocado pelo repentino afluxo de veículos. Logo nos primeiros dias de desconfinamento, pra evitar que a pandemia fosse substituída por um pandemônio, as autoridades das principais cidades do país decidiram delimitar, às pressas, novas faixas de rolamento de bicicletas, as conhecidas ciclovias.

Dois corpos não costumam ocupar o mesmo lugar no espaço – é lei da Física, cláusula pétrea da natureza. Pra criar faixa de bicicleta, tem de diminuir a largura da faixa de automóvel. Em ruas estreitas do centro de cidades antigas, não tem perdão: ou passa automóvel, ou passa bicicleta; se vierem os dois juntos, vai dar problema.

Ciclofaixa do futuro

A grita anda feia. Automobilistas reclamam por ter perdido parte da rota habitual; ciclistas reclamam porque a nova faixa ciclável é às vezes exígua. Em resumo: muita gente descontente. Mas não há jeito. É ilusão imaginar que, daqui a 50 anos, cada um vai continuar a sair por aí no seu carrinho particular. No futuro, congestionamento de tráfego será lembrança de um passado de selvageria. Já que é assim, por que não começar desde já?

A contabilidade da epidemia

José Horta Manzano

Até a presente data, os três países que contabilizam maior número de mortos por covid-19 são, na ordem: os EUA, o Brasil e o Reino Unido. Não há como escapar à evidência de serem exatamente aqueles cujos dirigentes ousaram fazer pouco-caso da epidemia. E fizeram isso publicamente.

No começo da onda de contágio, escorregaram os mandatários dos três países. Jair Messias rotulou a doença de ‘gripezinha’ e mandou que todos saíssem às ruas. O inglês Boris Johnson declarou que não via problema em “continuar a apertar muitas mãos” como sempre tinha feito. Por seu lado, Donald Trump deu de ombros e afirmou que os melhores cientistas do mundo eram americanos, e que logo encontrariam um remédio.

Deu tudo errado. O inglês apanhou a doença, foi pra UTI e faltou pouco pra bater de dez e sair de pé junto. O americano anda contrariado por ver que seu país é campeão de mortos por covid-19, fato que hipoteca sua reeleição. Jair Messias, embora não confesse, parece que também apanhou a doença. Ele se safou, mas 40 mil compatriotas seus não tiveram a mesma sorte; são eles que deixam o Brasil na lista incômoda dos países onde a curva de contágio não quer achatar de jeito nenhum.

Países que tiveram a bênção de contar com dirigentes esclarecidos já estão saindo da fase aguda da epidemia. Ao verem desempinar a curva, estão desconfinando e voltando à rotina. Já os que tiveram o azar de serem comandados por mandatário obtuso ainda estão contando mortos aos milhares. Nada acontece por acaso.

Viva São João!

José Horta Manzano

Hoje é dia de Santo Antônio, aquele que encontra as coisas. Nossas avós já ensinavam que, quando se perde alguma coisa, o melhor é invocar Santo Antônio. Não costuma falhar.

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Diz-se de Santo Antônio que é casamenteiro. Encontrar um par para almas solitárias há de fazer parte de suas atribuições.

Na verdade, a hagiologia é um tanto vaga e um bocado imprecisa quanto a esse personagem. Sabe-se que nasceu em Lisboa pouco antes do ano 1200, que se tornou grande orador, que abraçou a Ordem Franciscana, que morreu com trinta e poucos anos, em 1231. Descendente de Carlos Magno, nasceu em berço aristocrático e adquiriu elevada cultura. Foi canonizado a toque de caixa, menos de um ano após sua morte.

É o padroeiro da capital portuguesa, onde o conhecem como Santo Antônio de Lisboa. Já no resto do mundo é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua, epíteto que lhe foi pespegado por ter vivido algum tempo na cidade italiana.

Por que encontra objetos? Não há consenso quanto à origem da lenda. Muito mistério envolve a vida desse santo. Atribuem-lhe o dom da ubiquidade ― dizem que conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Dizem também que tinha o poder de falar aos animais. Tão difícil é contestar quanto provar essas habilidades.

Quadrilha

Quadrilha

Mas hoje não é dia de missa, podemos nos dedicar a atividades mais profanas. A dança, por exemplo. Estamos em época de festas juninas. Falemos um pouco de quadrilha, vamos lá?

A dança de grupo que se costuma praticar no Brasil nesta época não é de origem nacional. Nem portuguesa tampouco. É possível que suas raízes estejam plantadas em terras inglesas. O que se sabe com segurança é que a quadrilha se pôs de moda na França no começo do século XIX. Sobreviveu mais de um século, até a Primeira Guerra Mundial, quando foi varrida dos salões pelos novos ritmos trazidos pelos militares americanos que tinham vindo combater nas trincheiras europeias.

A quadrilha francesa era dança de salão rigorosamente codificada. Naqueles tempos anteriores à valsa vienense, liberdade de inventar seus próprios passos não era deixada a cada par. Obedeciam todos a um ritual imutável. Os participantes tinham obrigatoriamente de formar pares, cavalheiros e damas em número igual.

Os movimentos da quadrilha eram classificados em grupos e subgrupos. Alguns passos juntavam os homens e os apartavam das mulheres. Outros reagrupavam os participantes em pares. Alguns compositores se dedicaram a escrever música especialmente para essa dança.

Quadrilha

Quadrilha

Na França, algumas reminiscências da quadrilha sobrevivem, nada mais que em associações folclóricas dedicadas à conservação do patrimônio cultural. Não sei como andam as coisas no Brasil estes últimos anos, mas é bem capaz de essa dança de salão ― ou de terreiro, depende do clima… ― estar mais vivaz em terras de Pindorama do que na pátria gaulesa.

Um detalhe interessantíssimo é o fato de a quadrilha brasileira ter mantido, para alguns dos passos codificados, os nomes originais franceses. Estão um pouco arrevezados, é verdade. Assim mesmo, por detrás dos sons deturpados e amoldados à nossa fonética, ainda dá para reconhecer alguns comandos de 200 anos atrás. Em francês, naturalmente. Eis alguns:

Balancê = balancé
movimento do corpo para a frente e para trás

Tur = tour (de main)
passo que reaparece no rockn’ roll

Alavantu = à l’avant tous / en avant tous
todos para a frente

Alavandê = à l’avant deux / en avant deux
dois passos à frente

Anarriê = en arrière
para trás

Changê = changer (de dame)
mudar (de dama)

Visavi = vis à vis
pra frente e pra trás com as damas paradas em frente

Quadrilha

Quadrilha

Alguns outros passos foram conservados no Brasil, mas tiveram seus nomes traduzidos ou adaptados:

Caminho da roça
promenade, demi-promenade

Grande roda das damas
chaîne des dames

Grande roda
chaîne, chaîne anglaise

O importante é que Santo Antônio dê a cada um o que ele estiver procurando. E quentão, pinhão e pé de moleque para todos nós!

Publicado originalmente em 12 jun° 2013.

Propaganda

José Horta Manzano

Você sabia?

O Ministério das Comunicações está sendo recriado. Más línguas predizem que será, na verdade, o Ministério da Propaganda de doutor Bolsonaro.

A palavra propaganda, que 9 entre 10 línguas adotaram tal e qual, sem mudar nem uma letra, tem origem curiosa. É substantivo que provém de um gerundivo latino. Embora não seja a única a ter seguido esse caminho, suas congêneres vieram por via erudita (o formando, o educando) ou são de uso jurídico (o considerando, o adendo, o alimentando). Já propaganda entrou por via religiosa e instalou-se na língua nossa de todos os dias. Está aqui a história.

A publicação do protesto do monge alemão Martinho Lutero, consignada em 95 teses pregadas no ano de 1517 na porta da catedral de Wittenberg, levantou um tsunami na Europa. Lutero, sem ter tido intenção, acabava de dar início a um cisma que perdura até hoje e que divide o cristianismo ocidental entre católicos e protestantes.

Naquele início dos anos 1500, as potências dominantes eram a Espanha e Portugal, que tinham partilhado os territórios da América – e as riquezas que vinham das novas colônias. A Igreja, preocupada com o avanço do protestantismo, obteve dos reis de Espanha e de Portugal a garantia de que, nos territórios americanos, o catolicismo seria defendido.

Palazzo di Propaganda Fide
Piazza di Spagna, Roma

Um século mais tarde, as riquezas americanas já davam sinais de exaurimento. Empobrecidos, Espanha e Portugal não tinham mais condições de prover à defesa vigorosa do catolicismo em suas colônias. Preocupada, a Santa Sé decidiu agir. Uma bula emitida em 1622 pelo papa Gregório XV criou a Sacra Congregatio de Propaganda Fide – Sagrada Congregação para a Propagação da Fé (*).

É difícil especular como teriam sido as coisas se a Propaganda Fide não tivesse sido insituída; é de notar que as colônias americanas da Espanha e de Portugal mantêm até hoje contingente pequeno de adeptos do protestantismo. Talvez isso se deva ao trabalho da Congregação. Os protestantes se concentram nas antigas colônias inglesas (EUA e Canada), povoadas principalmente por imigrantes do norte europeu.

Faz meio século, a Sacra Congregatio de Propaganda Fide mudou de nome. Passou a ser conhecida como Congregação para a Evangelização dos Povos. A sede continua ocupando o mesmo imóvel da Piazza di Spagna (Roma), onde a Congregação se instalou 400 anos atrás. O imóvel tem estatuto de possessão extra-territorial do Vaticano. Leva até hoje o nome de Palazzo di Propaganda Fide – Palácio da Propaganda Fide.

(*) Propaganda fides = a fé que deve ser propagada; a fé a difundir-se; a fé a ser espalhada.

A regra da não cuspida

José Horta Manzano

Precisou uma epidemia varrer o globo para os dirigentes do futebol acordarem para uma realidade esquisita: jogador é o único esportista que cospe no campo em que está jogando (ou que gospe, como se ouve às vezes na minha terra). Cospe na relva em que ele mesmo vai rolar mais tarde, ou porque se machucou, ou porque está feliz com um gol.

Em virtude do alastramento da covid-19, a CBF está editando novas regras de decoro destinadas aos jogadores. Entre elas, está a recomendação de cortar as unhas. E eu que não sabia que precisava regra escrita pra animar alguém a cortar as unhas! Aparece também a proibição da cusparada. “Não cuspir no chão” – diz a nova regra. Sabendo-se que o que não é proibido é permitido, deduz-se que, na mão, pode cuspir.

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

Por que é que jogador de futebol cospe no gramado? Altos e baixos, escuros e claros, ocidentais e orientais, todos cospem. Às vezes se vê até algum que ‒ desculpem-me os estômagos mais sensíveis ‒ raspa a garganta lá no fundo e escarra bonito.

Alguém já viu jogador de basquete cuspir? Ou jogador de vôlei? Ou tenista? Tentem imaginar Roger Federer acertando o gramado de Wimbledon ou o saibro de Roland Garros com uma cusparada das boas.

A regra da não cuspida foi prevista pra durar enquanto a epidemia não se for. É medida provisória que podia bem ser efetivada antes que caduque.

Números

Eduardo Affonso (*)

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos. O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando como no reencontro o abraço que não tinha podido dar de despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis. Moacir mais imóvel que os outros. Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Prostituta é professora?

Dad Squarisi (*)

O verbete está no dicionário. O Google o reproduz. Alguém consulta o significado da palavra professora. Ops! A tela mostra: “prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual”. Grupos se mobilizam no WhatsApp. Querem que o site da internet apague a acepção que ofende as mestras.

Internautas emitem opinião. A maior parte dos comentários fala em injustiça, machismo, desconsideração com a classe, contribuição para aumentar o sofrimento das maltratadas profissionais. Etc. e tal. Não faltou quem comparasse o feminino com o masculino. Aí, a revolta aumentou. Na definição de professor, não se encontra nenhuma acepção negativa.

Revolta semelhante ocorreu há 20 anos. Lúcia Carvalho, então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, consultou o verbete mulher, no Aurélio. Encontrou 15 vocábulos sinônimos de meretriz. Entre eles, mulher-dama, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher do mundo.

Dicionário Houaiss

E homem? No pai de todos nós, injustamente chamado pai dos burros, só aparecem significados positivos. Ela comparou homem da rua com mulher da rua. Ele é homem do povo. Ela, meretriz. E homem do mundo e mulher do mundo? Ele é homem de sociedade; ela, prostituta. A indignação da deputada foi tal que os protestos chegaram aos ouvidos de Jô Soares. O Gordo a convidou para o Programa do Jô. Ela foi. E daí?

O Aurélio, o Houaiss & cia. lexical são machistas? Devem ser condenados por registrar professora como prostituta? Ou por tratar tão desigualmente mulher e homem? Não. O dicionário é inocente. Ele sofre de incurável falta de criatividade. Incapaz de inventar, só anota as acepções que frequentam a boca dos falantes. Machista, discriminatória, injusta etc. e tal é a sociedade. O paizão repete o que ouve. É papagaio encadernado.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

O nome da coisa

José Horta Manzano

Algumas expressões andam na crista da onda estes dias de doença alastrada. Nomes novos também circulam, mas nem sempre estão sendo usados com propriedade. Que tal dar o nome certo ao boi certo?

Epidemia
Vocábulo que nos vem do grego por via erudita. Composto de epí (=sobre) e dêmos (=povo, população). Designa o aumento súbito, brutal e inabitual de casos de uma doença contagiosa – endêmica ou não – numa região ou numa população.

Pandemia
Também vem do grego. É composto de pan (=tudo) e dêmos (=povo, população). Designa uma epidemia que atingiu ou que ameaça atingir a totalidade de uma população ou de um território. Manda o uso atual que a OMS (Organização Mundial da Saúde) determine o ponto em que uma epidemia se transforma em pandemia.

Coronavírus (abreviado CoV)
É o nome de uma família de vírus. A denominação (coronavirus = virus com coroa) vem do latim por via erudita. Os coronavírus levam esse nome porque, examinados ao microscópio eletrônico, parecem estar cobertos por uma franja de projeções bulbosas que fazem lembrar a coroa solar (solaris corona).

Coroa solar (solaris corona)

Covid-19
É a doença causada pela cepa de coronavírus que circula atualmente. É sigla formada a partir da expressão inglesa COronaVIrus Disease 2019, a doença causada pelo coronavírus notificado em dezembro de 2019.

SARS-CoV-2
É o nome técnico da cepa atual de coronavírus. É sigla do inglês Síndrome Aguda Respiratória Grave. Por ser nome longo e difícil de memorizar, a forma Covid-19 tem sido utilizada.

Pronto! Agora não há mais por que se enganar. Bom mesmo é não apanhar essa doença feia. Cuide-se e… fique em casa quanto puder. O bichinho ainda está circulando por aí.

Polindo a biografia

José Horta Manzano

Se, antes da eleição, Jair Messias tivesse sido sincero e confessado aos brasileiros que seu futuro governo se resumiria a passar o tempo manobrando pra escapar da cadeia, em defesa do clã e esquecido do povo, certo não teria sido eleito. Não era de conhecimento público que a família Bolsonaro estivesse tão envolvida com milícias e outros círculos perigosos. O Brasil já elegeu muito estropício, mas capo mafioso é a primeira vez. Foi descuido terrível, que nos está custando caro.

Já houve presidentes bons; já houve presidentes medíocres; já houve presidentes ruins. Mas não me lembro de ter visto presidente sem projeto para o Brasil, que governasse exclusivamente para si e para o clã.

Se espremer bem esse primeiro ano de mandato, o que é que sai? Um caldo esquisito, com ministro do Meio Ambiente trabalhando pra destruir o meio ambiente; ministro da Educassão semianalfabeto; benesses distribuídas, à luz do dia, a parlamentares fisiológicos; incentivo oficial ao armamento da população; negacionismo escancarado da maior pandemia global do último século.

Os Três Patetas (os originais)

A lista de «esquisitices» é longa e conhecida. Não vale a pena gastar tinta com isso. A mais recente delas é a ocultação das estatísticas da pandemia no Brasil. Ignaro por falta de estudo e mal aconselhado por falta de visão, doutor Bolsonaro acha que, uma vez camuflada, a realidade some. Em sua estratégia rudimentar, acredita poder assim driblar a contagem macabra e dar a todos a impressão de que os mortos são poucos. «Não é tudo isso que dizem aí, pô!»

Será desmentido rapidinho por instituições sérias que já organizam contagem paralela – que vai acabar se tornando oficial. A biografia do moço vai guardar para sempre a marca do dirigente apavorado, que não teve peito pra enfrentar a grande peste de 2020.

Nos anos 1970, ao dissimular a realidade da epidemia de meningite que grassava em São Paulo, a ditadura deixou para a história a lembrança do bizarro triunvirato militar que tinha assumido o comando do país em 1969. De tão atrapalhado, o conjunto ficou conhecido com o apelido que lhes pespegou Ulysses Guimarães: «Junta dos Três Patetas». Doutor Bolsonaro tem lugar reservado nessa galeria de horrores: será o quarto pateta.