Prostituta é professora?

Dad Squarisi (*)

O verbete está no dicionário. O Google o reproduz. Alguém consulta o significado da palavra professora. Ops! A tela mostra: “prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual”. Grupos se mobilizam no WhatsApp. Querem que o site da internet apague a acepção que ofende as mestras.

Internautas emitem opinião. A maior parte dos comentários fala em injustiça, machismo, desconsideração com a classe, contribuição para aumentar o sofrimento das maltratadas profissionais. Etc. e tal. Não faltou quem comparasse o feminino com o masculino. Aí, a revolta aumentou. Na definição de professor, não se encontra nenhuma acepção negativa.

Revolta semelhante ocorreu há 20 anos. Lúcia Carvalho, então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, consultou o verbete mulher, no Aurélio. Encontrou 15 vocábulos sinônimos de meretriz. Entre eles, mulher-dama, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher do mundo.

Dicionário Houaiss

E homem? No pai de todos nós, injustamente chamado pai dos burros, só aparecem significados positivos. Ela comparou homem da rua com mulher da rua. Ele é homem do povo. Ela, meretriz. E homem do mundo e mulher do mundo? Ele é homem de sociedade; ela, prostituta. A indignação da deputada foi tal que os protestos chegaram aos ouvidos de Jô Soares. O Gordo a convidou para o Programa do Jô. Ela foi. E daí?

O Aurélio, o Houaiss & cia. lexical são machistas? Devem ser condenados por registrar professora como prostituta? Ou por tratar tão desigualmente mulher e homem? Não. O dicionário é inocente. Ele sofre de incurável falta de criatividade. Incapaz de inventar, só anota as acepções que frequentam a boca dos falantes. Machista, discriminatória, injusta etc. e tal é a sociedade. O paizão repete o que ouve. É papagaio encadernado.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

6 pensamentos sobre “Prostituta é professora?

  1. Pingback: Prostituta é professora? – Blog do José Horta Manzano, BrasilDeLonge | Caetano de Campos

  2. Esse é, sem dúvida, um dos mais curiosos e apaixonantes aspectos da relação entre língua e valores culturais de uma determinada época, ainda pouquíssimo explorado. Há pouco tempo li um interessante artigo sobre o modo como o filólogo Otto Jespersen, um dos mais respeitados linguistas de todos os tempos, trata a “virilidade, sobriedade e lógica” da língua inglesa quando ela é comparada com a língua havaiana, considerada por ele como “infantil e efeminada”. O patriarcalismo e os preconceitos raciais inerentes à língua portuguesa podem ser também subentendidos nas palavras “denegrir” e “judiar”. Que tal aprofundar essa exploração de significados?

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    • Em pelo menos três ocasiões, falei sobre o assunto – que, aliás, espicaça minha birra contra o politicamente correto. Aqui vai o endereço dos posts de 2013, 2017 e 2018:

      Politicamente chato
      https://brasildelonge.com/2018/01/13/politicamente-chato/

      Quando a mulata era a tal
      https://brasildelonge.com/2017/02/25/quando-a-mulata-era-a-tal/

      Politicamente correto estilo anos 60
      https://brasildelonge.com/2013/01/13/politicamente-correto-estilo-anos-60/

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      • É verdade, eu tinha consciência disso. Mas achei tão interessante a questão da associação entre professora e prostituta que fui procurar mais referências discriminatórias na nossa língua. O assunto é inesgotável: ainda outro dia vi uma lista de nomes de doces tipicamente brasileiros que demonstram de forma inequívoca que o preconceito atinge em cheio até a gastronomia.

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        • Espero que tenha ficado claro no meu comentário que não estou propondo o banimento de termos considerados atualmente ofensivos pelos que defendem o politicamente correto. Quis apenas sugerir mais artigos explorando os significados de certas palavras da língua portuguesa e o peso que tiveram em tempos coloniais, por exemplo.

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          • Considero que é apenas um fenômeno linguístico, nada mais. Não há que ir além. Bobeia quem tenta «combater» esses usos. É esforço jogado fora, que só faz ressaltar o fato. Pouca gente se havia dado conta de que «mulato» e «mula» são cognatos. Agora, depois que ativistas raivosos se insurgiram, muitos são os que se deram conta do parentesco linguístico. A grita não deu em nada, mas agora são muitos a se darem conta.

            Il ne faut tout de même pas peindre le diable sur la muraille – não vale a pena insistir no lado negativo das coisas. Há que ter em mente que as artes da culinária têm sido tradicionalmente atribuição feminina. É natural que muito do que sai da cozinha seja visto com atributos femininos. A caricatura fica por conta do preconceito.

            Preconceito, que não deve ser confundido com racismo, é fenômeno velho como o mundo. Permeia todas as civilizações. O alvo é sempre o mais frágil, aquele que não integra o grupo dominante. Velhos, crianças, pretos, homossexuais, índios, estrangeiros e, naturalmente, mulheres entram na dança. Em outras terras, preconceitos também há.

            Na Europa, onde fronteiras nunca estão muito longe, é vivo o preconceito contra estrangeiros. «É forte como um turco», «bebe como um polonês», «inglês não sabe se comportar como os demais», «todo escocês é avarento», «italiano fala muito e trabalha pouco», «desconfie de gregos: são orientais travestidos de europeus», «todo romeno é ladrão», «os belgas não são gente séria» – há para todos os gostos. Não vou mencionar os que temos no Brasil, que é pra não acabar perseguido pelos robôs de algum ativista, cruz-credo!

            O mundo é assim feito. Quem está por cima costuma tripudiar sobre os do andar de baixo. Nem campanhas, nem passeatas conseguirão mudar o que seja.

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