Memento mori

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que se aprendia latim na escola. Apesar de a língua dos romanos ter me provocado muita dor de cabeça e trazido muita nota baixa, guardei certa simpatia por ela. Volta e meia, quando dá, enxerto alguma citação, alguma máxima latina. Os romanos podiam ter seus defeitos, mas tinham notável bom senso.

Memento mori – é o título de um artigo que o Correio Braziliense publicou no caderno Opinião faz dois dias. O autor é Otávio do Rêgo Barros, general de divisão e doutor em ciências militares, aquele senhor sério e comedido que foi porta-voz de Bolsonaro do primeiro dia de governo até um mês atrás. Dizem as más línguas que ele foi expelido do cargo por ter caído em desgraça junto a um dos bolsonarinhos, aquele mais desequilibrado e intriguento.

O artigo do general já começa com citação latina, coisa fina. O texto é o reflexo do jeitão do autor: claro, pausado, bem explicado, ponderado, sóbrio. E erudito. Ele cita batalhas da segunda Guerra Púnica, travadas entre tropas romanas e cartaginesas 22 séculos atrás, embates em que entra em cena Aníbal Barca, aquele que atravessou os Alpes montado em elefantes. Me lembrou as aulas de dona Leocádia – quanto tempo!

Mas vamos deixar os elefantes e voltar ao general. Seu artigo, elegante, não cita nomes. Mas descreve claramente o comportamento do antigo chefe, Bolsonaro. O título, Memento mori (=Lembra-te que és mortal), refere-se a um costume romano. Quando voltavam de uma batalha, cobertos de glória, os generais faziam-se cercar de escravos que lhes sussurravam ao pé do ouvido essa frase o tempo todo. Era para não caírem na tentação de se deixarem embevecer por aplausos e adulações, que a glória é passageira.

Batalha de Zama
Segunda Guerra Púnica, 202 a.C.

No memorável artigo, o general Rêgo Barros faz um convite à reflexão. Depois de incentivar os outros Poderes da República e a imprensa a manterem firmeza e não recuarem diante de pressões, conclama a população a exercer seu papel de «árbitro supremo da atividade política».

O general não diz isto, mas, num país em que parlamentares são corruptos e organizações de classe – se é que existem – estão anestesiadas há duas décadas, o único canal aberto para o povo mostrar descontentamento é a rua. Manifestações como as de 2013, que acabaram por derrubar Dilma e o PT, são a única porta de saída deste pesadelo. Como conclamar o povo? Não sei. Vocês, que vivem no Brasil e são peritos em feicibúquis, tuítch e zap-zap, sabem melhor que eu. Minha parte, estou fazendo aqui.

Não sei como é que Bolsonaro foi escolher Rêgo Barros para o cargo de porta-voz. O general não combinava com a súcia que gravita em torno do Planalto. Sem condições: não podia dar certo.

Se o distinto leitor tiver 5 minutos, vale a pena ler o artigo do ex-porta-voz. Não é longo. Está disponível no site do Correio Braziliense. Aqui.

Quando foi que morreram os algarismos?

José Horta Manzano

Tudo aquilo que nasceu há de morrer um dia. Isso vale não só para seres que respiram, mas também para criações do intelecto.

Palavras, por exemplo, são criadas para designar fatos humanos. Na medida que esses fatos continuam a existir, elas permanecem vivas; assim que o fato sai de cena, elas tendem a desaparecer. Se não desaparecem, ficam guardadas numa gaveta tão funda que ninguém mais lembra de espichar a mão pra encontrá-las.

Uma palavra que sempre me pareceu simpática é algarismo. Talvez os mais jovens nem saibam o que significa. Algarismos são a base da representação aritmética. São dez sinaizinhos que se combinam para formar todos os números. O número 12, por exemplo, é formado por dois algarismos: o 1 e o 2. O número 79 é composto pelos algarismos 7 e 9. O jovem distinto leitor já deve ter entendido: estou falando do que hoje se conhece por dígito.

Quando frequentei a escola, faz muito tempo, algarismo se chamava algarismo. A palavra dígito não passeava pela linguagem do dia a dia. Fiquei curioso em saber quando e por que uma substituiu a outra. Andei pesquisando os jornais dos anos 1950, 1960 e 1970 e encontrei.

Até fins da década de 1960, dígito praticamente não aparece, a não ser como palavra técnica ou como substituto chique para dedo. No finzinho da década de 60 e, sobretudo, na década seguinte, há uma ‘explosão digital’, se assim me posso exprimir. Menções do termo dígito se decuplicam, marcando o ponto em que a curva da história da língua virou a seu favor e mandou algarismo para escanteio.

A partir de 1970, os algarismos praticamente desapareceram. Chego a me perguntar se um jovem medianamente instruído conhece hoje o significado dessa palavra. Me pergunto também como é que se chamam hoje os algarismos romanos. Serão dígitos romanos?(Cartas para a redação, por favor.)

Anúncio de calculadora publicado em set° 1978

Como nada acontece por acaso, tentei descobrir qual foi o responsável pela substituição das palavras. Acho que descobri. No finzinho da década de 1960, como resultado da miniaturização, começaram a aparecer no mercado brasileiro as primeiras calculadoras de bolso. Substituíam as antigas, de mesa, mecânicas e pesadonas. Na época, o preço era bastante elevado; nesse sentido, embora fossem ‘de bolso’, essas calculadoras pesavam no bolso.

Nos jornais, principalmente aos domingos, aparecia anúncio. Entre as qualidades da nova maravilha, estava o número de algarismos que a tela comportava – apresentados como dígitos, num possível decalque do original inglês.

Essa é a irônica história de como a maquineta que enfiou a matemática no bolso de todos conseguiu aposentar os algarismos e substitui-los por dígitos. Sabendo que dígito vem do latim digitus, que significa dedo, é permitido dizer que a ultramoderna maquininha reintroduziu o velho cálculo ‘com os dedos’.

Tudo passa
O tempo corre
Passa o tempo
E tudo morre

Amy e Kassio

Elio Gaspari (*)

O ministro Gilmar Mendes não gosta que se façam paralelos entre a Corte Suprema dos Estados Unidos e o Supremo Tribunal Federal.

O que aconteceria com a escolha da juíza Amy Coney Barrett, indicada para o tribunal, se dissesse aos senadores americanos que seu marido trabalha lá, mas não sabe exatamente o que ele faz? E se o senador em cujo gabinete o cidadão está lotado, também não souber?

O desembargador Kássio Nunes Marques não soube dizer aos senadores o que sua mulher faz no gabinete do senador Elmano Férrer. Nem ele.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 25 out° 2020.

Vacina obrigatória?

José Horta Manzano

Em matéria de saúde, cabe ao poder público informar, orientar e aconselhar a população; em seguida, com a informação no bolso, é a vez de cada um decidir por conta própria.

Tirando menores de idade, impotentes e pacientes com problemas mentais, nenhum cidadão deveria ser submetido a nenhum procedimento médico contra sua vontade. Em tese, é assim que funciona em país civilizado.

Por esse princípio, ninguém deveria ser obrigado a tomar vacina. Acontece que, na prática, a teoria é outra. No Brasil, a colossal desigualdade social faz que a informação não atinja com a mesma precisão todas as camadas da população.

O cidadão esclarecido entende facilmente que a vacina – “chinesa” ou não – é a única tábua de salvação disponível contra a epidemia. Já no cidadão humilde, o pavor da injeção pode superar o medo da covid; fugirá da picada e continuará exposto a ser contagiado e contagiante.

Assim, soluções que funcionam em sociedades homogêneas podem não dar certo entre nós. Em alguns países altamente civilizados, vacinação não costuma ser obrigatória. É o caso da Suíça, por exemplo, onde cada um decide por si. No Brasil, deixar total liberdade a todos os cidadãos é caso complicado.

O problema já existia antes da internet, mas o advento das redes sociais e de toda a cacofonia que ela difunde agravou a situação. Hoje, basta um indivíduo – mal informado ou mal intencionado – soltar um boato sobre supostos perigos da vacina, e pronto: logo uma multidão de “fólouers” sai por aí repetindo a mesma asneira. Quando esse indivíduo mal informado (ou mal intencionado) é o presidente da República, a difusão do pânico é mais abrangente.

Agora vem a parte irônica da situação. Quanto mais o presidente esperneia, mais seus devotos repicam o boato e mais gente foge da vacina. Nesse ritmo, o resultado será o alastramento da doença, o que concorre para a superlotação de UTIs e a falência do sistema hospitalar – situação que não interessa a ninguém.

Portanto, o esperneio do presidente surte efeito contrário ao que ele deseja: acaba reforçando a necessidade de impor a vacinação obrigatória, a fim de evitar o colapso da rede nacional de saúde.

É irônico. Mais ainda, é afligente que ele não se dê conta disso.

Visto da China

José Horta Manzano

O inacreditável papelão cometido por doutor Bolsonaro ao declarar, alto e bom som, que não permitiria a compra da “vacina chinesa do Dória”(*) continua levantando ondas muito fortes.

Leio hoje um artigo postado na edição em linha (BR=online) do portal chinês Global Times. O título já dá uma indicação do estado de espírito: Brazil politicizes vaccines, may hurt ties with Beijing – Brazil politiza vacinas, o que pode prejudicar laços com Pequim”.

Entrevistado pelo jornal, o diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Xangai declarou que o principal motivo que leva Bolsonaro a opor-se à vacina desenvolvida na China é o desejo de esmagar um concorrente potencial. Acrescentou que a recusa de Bolsonaro de aceitar a vacina serve também para alimentar sua malta de devotos.

Chamada Global Times, Pequim

Essa leitura não bate exatamente com a que fazemos nós no Brasil, vejam como são as coisas. A gente põe esse ruído todo na conta da falta de educação do presidente e de sua compulsão de abastecer a turba fanatizada. Não nos passa pela ideia que ele tenha, lá no fundo do bestunto, intenção de eliminar a concorrência chinesa. Primeiro, porque ele não nos parece capaz de um raciocínio tão complexo; segundo, porque não vemos de que modo uma grande indústria farmacêutica estrangeira poderia concorrer com o Brasil – afinal, tirando pérolas como Butantã e Fiocruz, todos os laboratórios que consideramos ‘nossos’ são estrangeiros.

Veja o perigo que umas palavras irrefletidas podem representar. Na sequência das desastradas palavras presidenciais, a China já está imaginando que o governo brasileiro teme a concorrência do gigante asiático e, pior ainda, que estamos tentando prejudicar o desenvolvimento do perigoso rival. Quanto mal-entendido! A cabecinha de doutor Bolsonaro é que não é suficientemente desenvolvida pra elaborar raciocínio arrematado como esse.

Mário Quintana disse: “A gente pensa uma coisa, escreve outra, o leitor entende outra, e a coisa propriamente dita desconfia que não foi dita”.

Parafraseando o poeta, podemos imaginar que: “O doutor pensa uma imbecilidade, escreve outra, os chineses entendem outra, e a imbecilidade propriamente dita desconfia que não foi dita”.

(*) Essas são as palavras elegantes de que o doutor se serve para se referir à vacina anticovid, desenvolvida pelo respeitado laboratório chinês Sinovac em colaboração com o Instituto Butantã de São Paulo.

Couvre-feu

José Horta Manzano

Devido ao alastramento da pandemia, 46 milhões de franceses entraram neste 25 de outubro em regime de toque de recolher (couvre-feu) por um período inicial de 6 semanas. Essa medida pesada e excepcional atinge 2/3 da população do país. Entre as 21h e as 6h da manhã, é proibido sair de casa. Umas poucas exceções estão previstas.

Quem tiver de sair, tem de baixar um formulário oficial, preenchê-lo e levar no bolso para mostrar caso seja controlado. Quem for apanhado em infração vai pagar multa de 135 euros (900 reais). A dolorosa sobe a 3750 euros (25.000 reais) em caso de reincidência.

A intenção das autoridades é dupla. Por um lado, buscam reduzir o contágio, inevitável entre frequentadores de bares e outros locais noturnos. Por outro, com a eliminação da circulação noturna de automóveis, acidentes decorrentes do consumo de álcool – comuns entre jovens, em fins de semana – desaparecerão; com isso, leitos hospitalares de reanimação e de UTI estarão liberados e prontos para receber pacientes com covid.

by Bernard Jullien, artista francês

Couvre-feu
Couvre-feu é expressão muito antiga, presente na língua francesa desde os anos 1200. De origem militar, significava o toque de um sino ou de uma corneta informando aos soldados que era hora de voltar para o quartel. Nosso toque de recolher é perfeita tradução.

Com o tempo, a expressão passou a ser também usada fora do círculo militar. No entanto, num mundo civil em que liberdade individual não combina com rigidez disciplinar de quartel, seu uso é raro.  Na França, já houve imposição de toque de recolher em momentos de estado de sítio e também quando o país esteve ocupado, na Segunda Guerra. Fora isso, é a primeira vez.

Hora de inverno
É interessante anotar que, neste domingo 25 de outubro, a Europa atrasou seus relógios e voltou à hora normal, também conhecida como hora de inverno. Agora vai assim até o último domingo de março do ano que vem.

Gooood friends

Carlos Brickmann (*)

Foi só a missão diplomática americana que veio pedir apoio na guerra à Huawei chinesa deixar o Brasil, que os EUA começaram a investir – investir contra a economia brasileira: impuseram sobretaxa de 50% às importações de chapas de alumínio aqui produzidas.

Segundo a Associação Brasileira do Alumínio, a sobretaxa inviabiliza as exportações para o mercado americano, até agora o maior cliente do Brasil. Isso ocorre junto com a assinatura do acordo brasileiro-americano sobre redução de obstáculos ao comércio.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Silêncio!

José Horta Manzano

Onde muitos veem um problema, outros enxergam uma oportunidade – é axioma que se ouve frequentemente. A epidemia de covid que transtorna o mundo atualmente se encaixa nesse raciocínio. Ela traz morte e desolação, mas também acende luzes.

Quando a progressão da epidemia se intensificou, muitos países tomaram a difícil decisão de confinar a população. Em muitos deles, não foi só um suave conselho do tipo “Fique em casa”. Na França, na Itália, na Espanha e em outros países, o confinamento rigoroso foi pra valer. Os comércios fecharam, com exceção dos essenciais (farmácias e supermercados). Escolas deixaram de funcionar. E – o mais chato – o povo foi obrigado a ficar em casa, só podendo sair para fazer compra de comida ou de remédio. Tudo isso, sob controle rígido e multas pesadas.

Um dos efeitos colaterais desse confinamento foi a drástica diminuição do tráfego urbano. Menos tráfego = menos barulho. Como se sabe, ruídos fortes produzem efeitos na audição e podem ocasionar perda irreversível do olfato e do paladar.

Os dois meses (março a maio) durante os quais a população francesa permaneceu confinada dentro de casa foram psicologicamente difíceis, mas trouxeram de volta um mundo silencioso como não se via desde os tempos de antigamente.

Uma pesquisa informa que, depois do período de confinamento, 57% dos habitantes das metrópoles ficaram mais sensíveis aos ruídos. É que, antes da pandemia, o barulho era tão intenso e constante que ninguém mais prestava atenção. Agora, sim. Todos entenderam que é bem mais agradável viver num universo pouco barulhento.

Paris: os Champs Elysées em dia de confinamento.

Pesquisadores do Instituto Francês de Pesquisa Científica (CNRS) empreenderam um estudo relevante sobre o assunto. O projeto chama-se Silent Cities e visa a modelizar os fatores que reduzem o barulho. Por exemplo, uma distribuição mais inteligente e integrada dos horários de trabalho pode contribuir para a diminuição do ruído urbano. A pesquisa pode também indicar ser mais racional instalar ciclovias nesta rua em vez de noutra.

Atualmente, diversas sociedades desenvolvem asfalto menos barulhento e edifícios que absorvem o barulho. Certas empresas chegam a criar bolhas de silêncio. Para leigos como eu, a explicação sobre o funcionamento da bolha vem a seguir.

Caixinhas com alto-falantes são instaladas nos cômodos da casa. Visto que o barulho é uma onda, quando ela é detectada pelos sensores, os alto-falantes emitem uma onda inversa para neutralizar o som. O princípio é genial. Mas é bom que funcione direitinho, porque se não, vão surgir interferências desagradáveis. A sociedade Silentium está desenvolvendo um sistema de “bolha de silêncio”. Prometem que, quando estiver pronto e for posto no mercado, deverá neutralizar 90% dos sons externos. Boa notícia pra quem vive em lugar barulhento.

Certamente muitos outros projetos só estão saindo do papel graças à pandemia. Como diziam os antigos, há males que vêm pra bem.

Candidatos 2020: origem do sobrenome

José Horta Manzano

Na Europa de 1000 anos atrás, ninguém tinha nome de família – aquilo que conhecemos como sobrenome no Brasil e apelido em Portugal. Vilas e vilarejos eram pequenos, o que dispensava a atribuição de nome às famílias. Todos se conheciam pelo nomezinho de batismo, invariavelmente nome de santo: Josés, Marias, Joões, Claras, Antônios, Anas se sucediam. Sem falar de nomes medievais como Gome, Águeda, Jácome, Sancho, Crisóstomo, Briolanja, Lopo, Violante, Mem, Iseu, Guidania, Pantaleão, Agridônia, hoje praticamente esquecidos.

Caso o povoado tivesse mais de um morador com o mesmo nome, a distinção se fazia por alguma característica. Era o início do longo caminho que, séculos mais tarde, levaria à prática institucionalizada de atribuir a cada indivíduo um nome de família.

Os nomes de família se distribuem basicamente em cinco grupos:

Patronímico
São aqueles em que o prenome do patriarca (ou da matriarca) serviu de sobrenome para a descendência. Na Espanha e em Portugal, os nomes terminados em es/ez são patronímicos: Péres/Pérez (filhos de Pero), Álvares/Álvarez (filhos de Álvaro), Esteves/Estévez (filhos de Estêvão), Nunes/Núñez (filhos de Nuno).

Toponímico
É quando o nome de família tem relação com o lugar de origem ou de residência da família. Exemplos: Aguiar (lugar alto onde havia ninhos de águia), da Costa, do Monte, Napolitano, de Toledo, Ribeiro (da beira do rio), Castelo Branco (nome da cidade), Figueiredo (lugar onde havia figueiras), Azevedo (terreno coberto de azevém – espécie de capim), Nogueira (campo onde se colhiam nozes; equivale ao francês Dunoyer, ao alemão Nussbaumer, ao espanhol Nogales e ao italiano Nocetti).

Alcunha
Alcunha é o que, no Brasil, chamamos apelido. Esta tendência é interessante e muito difundida. Famílias carregam até hoje a lembrança de alguma característica física do patriarca ou pelo apelido pelo qual era chamado. Os antigos eram raramente gentis ao atribuir alcunha: Calvo, Preto, Manso, Gago, Valente, Bravo, Ruço (cabelo vermelho), Pezão.

Nome religioso
Em terras lusofalantes, muitas famílias têm sobrenome relacionado com a religião. Exemplos: de Jesus, Assunção, São Marcos, dos Santos, Batista, Santamaria.

Ofício (profissão)
Frequente em outras terras, não é comum ver o ofício do patriarca transformado em nome de família em Portugal. A profissão de ferreiro é uma das poucas que servem de exemplo: Ferreira (a ferraria é o lugar onde se malha o ferro). Temos ainda: Pastor, Farina, Molino e Trigueiro (o moleiro).

Estudo do nome dos candidatos

Na ausência de eleição nacional em 2020, escolhi trabalhar com a lista dos candidatos a prefeito da cidade de São Paulo. Entre eles, há gente desconhecida, figurinhas carimbadas, um ex-ministro, um ex-governador e até um ex-candidato à presidência da República. Vamos a eles.

Silva Orlando & Antônio Carlos
Silva, por certo o sobrenome mais difundido em nossa terra, é um claro topônimo. (Entre os 14 candidatos, 2 têm esse sobrenome.) A palavra latina silva traduz-se por selva. Bosques e matas, há por toda parte. Assim mesmo, algumas fontes designam certa localidade portuguesa como lugar de origem da estirpe. Tenho cá minhas dúvidas. Por mais férteis que fossem os primitivos portadores desse nome, não dariam conta de engendrar prole tão vasta. A grande quantidade de Silvas no Brasil há de ter outras explicações. Uma delas terá sido a atribuição desse sobrenome a escravos alforriados.

Matarazzo Andrea
Este sobrenome é originário do sul da Itália, especificamente da Campânia (região de Nápoles). É grande a possibilidade de ser um nome de ofício. O patriarca da estirpe, na Idade Média, teria sido um fabricante de colchões (materasso, em italiano atual). Também não é impossível que alguns dos atuais Matarazzo sejam originários de uma localidade com esse nome, situada bem perto de Nápoles, junto ao vulcão Vesúvio; neste caso, será um topônimo.

Hasselmann Joice
Nome alemão pouco difundido, é um topônimo. Informa que, na época em que os sobrenomes começaram a ser atribuídos, a família tinha chegado, não fazia muito tempo, do vilarejo de Hassel, na Baixa Saxônia (norte da Alemanha).

França Marcio
Não é fácil descobrir a origem desse sobrenome. Embora não muito convincente, a explicação mais evidente parece ser de que a família era originária da França. Hesito em adotar essa solução. Na Idade Média, deslocamentos eram raros e, quando ocorriam, a distância nunca era grande. Como é que uma família havia de se mudar da França para Portugal, numa viagem de 2 mil quilômetros? Para mim, este nome vai para a lista dos misteriosos.

Do Val Arthur
É claramente um topônimo. Val é um vale que perdeu o E final (ou que ainda não o ganhou). A família é originária dos baixios de um lugarejo, da parte do povoado situada à beira-rio.

Tatto Jilmar
O nome Tatto é italiano. Há duas possibilidades de abordá-lo. Tanto pode ser de origem sarda (Sardenha, Itália) quanto proveniente da Apúlia (região de Bari, sul da Itália). Seria interessante conhecer o lugar de residência dos antepassados do candidato que emigraram para o Brasil. Caso tenham vindo da Sardenha, o nome é uma alcunha. Nos dialetos sardos, tattu significa farto, saciado. Como os apelidos eram maldosos, o patriarca pode bem ter sido um homem rechonchudo, gordinho. Caso tenham vindo da Apúlia, o nome é um patronímico, alteração dialetal do nome próprio latino Tatius (Tácio). Um dos primeiros reis de Roma levava esse nome.

Covas Bruno
Não se formou unanimidade sobre a origem deste sobrenome. Parece certo que seja um topônimo. Pode referir-se a alguma localidade portuguesa, que há várias: Covas do Douro, Covas do Barroso, Covas de Ferro. Pode também ser ligado ao lugar de residência do patriarca, que teria vivido, nesse caso, numa região esburacada.

Boulos Guilherme
É nome de origem sírio-libanesa. É a forma árabe do nome cristão Paulo. (A língua árabe não tem o som P, que é substituído pelo B). O árabe tem alfabeto próprio, o que significa que a transliteração para o alfabeto latino varia conforme a língua de quem fizer o trabalho; alemães escreverão Bulos, ingleses preferirão Boolos, franceses grafarão Boulos. O nome do candidato Boulos está transcrito para a língua francesa. A pronúncia original não é Boulos (OU), mas Bulos (U). Naquela região do Oriente Médio, só famílias cristãs dão o nome Paulo a uma criança.

Fidelix Levy
Este nome parece derivar do adjetivo latino fidelis = fiel, o que o instala na categoria dos patronímicos. O x final não aparece no original latino; há de tratar-se de latinização tardia (e equivocada). Variantes são: Fidelio, Fidal, Fidèle, Fedele.

Sabará Filipe
Tudo indica tratar-se de toponímico ligado à velha Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, hoje cidade de Sabará, que começou como acampamento bandeirante nas Minas Gerais. Tendo em vista que, no século 18, todos já tinham sobrenome, a adoção do nome do povoado (Sabará) pode se explicar pelo desejo de uma pessoa de jogar fora o passado e recomeçar a vida com nova identidade.

Russomanno Celso
De origem italiana, este nome é uma alcunha. Tem inúmeras variantes, conforme a região: Russomanda, Rossomanno, Russumanno, Rossomandi, Rossumando, Russomanno. Vista a profusão de variantes e a presença deste nome em todo o território italiano, os estudiosos convergem para uma explicação simples. Russomanno é de formação híbrida, envolvendo uma raiz latina e outra germânica. Ross/russ (latino) significa vermelho. Mann (germânico) é o homem. Os dois juntos designam o homem de cabelo vermelho, ou seja, o ruivo. O patriarca da família devia ter esse atributo cromo-capilar. (Essa foi chique!)

Salgado Vera Lúcia
Não há certeza quanto à origem deste nome. Algumas fontes acreditam que seja uma alcunha pespegada a um patriarca cheio de vivacidade, daqueles que animam o grupo, como o sal anima uma refeição. Pode ser, embora a explicação me pareça tortuosa. Prefiro acreditar numa explicação mais simples, isto é, que se trate de um topônimo. O nome teria sido atribuído aos que viviam num terreno junto ao mar, encharcado de sal, um solo salobro impróprio para cultivo.

Helou Marina
É nome árabe, trazido ao Brasil por imigrantes sírio-libaneses. Designa aquilo que tem sabor doce. Não conheço suficientemente os nomes daquela região; assim, não posso afirmar se é topônimo ou alcunha. Se algum distinto leitor souber, uma cartinha para a redação será bem-vinda!

É interessante ter, na mesma eleição, uma candidata do time doce concorrendo com uma do time salgado. Com as duas, a mesa estará completa e farta. E a eleição terá sabor.

Sai Cofrinho, entra Cofrinho Jr.

Carlos Brickmann (*)

Chico Rodrigues, DEM, o senador cuja história entrou para os anais, tirou 121 dias de licença do Senado. Assim, a decisão do ministro Barroso – que nome predestinado! – de afastá-lo do cargo por 90 dias foi suspensa pelo próprio ministro, por ter-se tornado desnecessária. Mas o importante nem é isso: é que, licenciando-se por 121 dias, um senador automaticamente passa o cargo ao suplente.

No caso, o suplente é Pedro Arthur Ferreira Rodrigues (DEM), filho de Chico Rodrigues e herdeiro, pelo menos temporário, de seu mandato. E passa a desfrutar das mordomias do cargo. Citando a frase clássica, a família é a base da sociedade. E ninguém, claro, criticará tão belo exemplo de solidariedade entre pai e filho.

A história não termina por aqui. Chico Rodrigues insiste em dizer que o dinheiro localizado no insólito esconderijo era destinado ao pagamento de seus empregados. Vá lá, vá lá, mas que é que pode ocorrer se suas empresas crescerem, graças a seu trabalho e seu tino gerencial, e contratarem mais funcionários? Chico Rodrigues, em vídeo que enviou aos senadores, também diz que, ao enfiar o dinheiro no providencial esconderijo sob suas cuecas, tomou “a decisão mais irracional de sua vida”.

Engano: a decisão mais irracional de sua vida foi candidatar-se; e a dos eleitores, dar-lhe o voto. Mas aceitemos. Só que, quando alguém está prestes a ser preso, costuma mastigar e engolir as provas. Errar o lado do aparelho digestivo é novidade.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Banguecoque e Estugarda

José Horta Manzano

«A firma me propôs um estágio de três meses em Amesterdão. Fui e gostei muito de lá. Aproveitei para viajar um pouco. Conheci Copenhaga, Helsínquia e até Bordéus. Uma viagem e tanto.»

O enésimo acordo ortográfico que entrou em vigor faz alguns anos se propunha a encurtar a distância entre a escrita lusa e a nossa. Se o vão era de quilômetros, o acordo encurtou alguns centímetros, se tanto. O grosso da questão continua aberto.

O Acordo Ortográfico de 1990 é, a meu ver, o menos feliz de todos os que já conhecemos nos últimos cem anos. Incomodou a todos, sem resolver o problema de ninguém. Serviu, isso sim, para acentuar a insegurança ortográfica que nos persegue desde sempre. Os hífens, então, são uma catástrofe. Os que escrevem com frequência, como é meu caso, têm de conviver com um dicionário aberto e pronto a ser consultado a cada instante. Uma chateação.

Bem, desabafo feito, gostaria de ressaltar uma discrepância entre os falares de lá e de cá. Trata-se de certas cidades estrangeiras cujo nome se fixou de maneira diferente em Portugal e no Brasil. Pelo costume luso, sempre se escreveu Nova Iorque, enquanto, no Brasil, usa-se Nova York. No fundo, onde está o problema, se todos entendem?

Conheça Estugarda!

O exemplo que pus no cabeçalho deste artigo é uma amostra do nome que os portugueses costumam dar a cidades pra lá de conhecidas. São diferenças que resistem a todo engessamento produzido por acordos ortográficos.

Vai aqui uma lista longe de ser exaustiva:

Portugal       Brasil
==========================
Telavive       Tel Aviv
Banguecoque    Bangkok
Orleães        Orleans
Nova Orleães   New Orleans
Amesterdão     Amsterdã
Nova Iorque    Nova York
Bilbau         Bilbao
Helsínquia     Helsique
Zagrebe        Zagreb
Copenhaga      Copenhague
Nuremberga     Nuremberg
Moscovo        Moscou
Marraquexe     Marrakech
Bordéus        Bordeaux
Estugarda      Stuttgart

Tanto lá quanto cá, alguns nomes, por inusitados, surpeendem. Falta de hábito, nada mais. No final, a gente acaba se acostumando.

Tuíte – 16

José Horta Manzano
Seguindo uma tradição da América espanhola iniciada em 1692, quando indígenas atearam fogo ao Palacio Nacional da Cidade do México, arruaceiros incendiaram e destruíram ontem a Igreja da Assunção de Santiago (Chile), que tinha sido inaugurada em 1876.

O templo chileno é o mais recente exemplo desse bizarro pendor hispano-americano de exprimir insatisfação queimando edifícios públicos e religiosos. Outro exemplo desse comportamento medieval é o Palacio Quemado, de La Paz (Bolívia), criminalmente incendiado em 1875.

No Brasil, temos grande respeito por edifícios, templos e toda obra humana. Preferimos incendiar e arrasar florestas, o que traz vantagem dupla. Por um lado, nos livramos do mato; por outro, abrimos espaço para erguer edifícios e templos à vontade.

Ah, e tem mais um benefício: dado que a destruição da vegetação enxuga a atmosfera e desertifica o clima, o problema das enchentes das metrópoles brasileiras se resolve sozinho. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Ardido

José Horta Manzano

Em setembro de 2018, o mais significativo repositório da memória nacional virou tragédia e deixou de existir. Quando queimou o Paço de São Cristóvão, que abrigava o Museu Nacional, uma onda de comoção bateu nos costados do mundo civilizado. Uma catástrofe.

Na ocasião, escrevi um artigo contando curiosidades do passado de um edifício que foi residência de quatro gerações de monarcas. As eleições presidenciais estavam próximas e, naturalmente, não se sabia ainda quem havia de vencer. Eram tempos de suave esperança para os que não suportavam mais o descalabro dos governos lulopetistas.

Formulei então votos de que o próximo presidente, fosse ele quem fosse, fizesse uma visita à Biblioteca Nacional logo no início do mandato. Em matéria de memória nacional, é certamente a joia que nos restou depois da perda do museu arso(*).

Ai de nós, quem é que podia imaginar! Acho que ninguém se tinha dado conta de que estava subindo ao trono o indivíduo mais ignorante jamais eleito no Brasil. Pra piorar, apesar de não ter aprendido nem o básico, doutor Bolsonaro despreza a Educação, pisoteia as Relações Exteriores e tem feito o que está em seu poder para a destruição de nossa cobertura vegetal e para a desertificação do país.

É muita desgraça junta. Acho que o presidente aplaudiria se a Biblioteca Nacional ardesse e se, no terreno, fosse instalada uma filial da Disneylândia. É lastimável que, desde que virou o século, o Brasil tenha sido presidido por ignorantes. Para a cultura nacional, o golpe tem sido duro.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

Com o Lula, a intenção era boa, mas o resultado foi pífio. Numa projeção que a psicologia talvez explique, pensou em dar ao país a possibilidade de fazer os estudos que ele não tinha feito. No entanto, passando por cima da instrução elementar, fomentou a abertura de dúzias de faculdades de beira de estrada. (É fato que uma faculdade é mais visível que um grupo escolar, mas ninguém chega lá sem ter passado por aqui.) Botou Gilberto Gil no Ministério da Cultura; o moço é excelente músico, mas… ministro da Cultura? No espremer dos limões, o Lula relegou a formação elementar à ventura.

Da Dilma, esperava-se uma ‘gerentona’ firme e forte. Ao fim e ao cabo, tivemos uma ‘presidenta’ autoritária, falsificadora do próprio currículo, de mente confusa, que não deu a mínima atenção à formação dos brasileirinhos. Sua ‘Pátria educadora’ não passou de slogan.

Do presidente atual, dá tristeza falar. É esse estropício tosco que está aí. Deu vexame na escolha de titulares para a Educação e para a Cultura. Não visitou (nem visitará) a Biblioteca Nacional. Talvez nem saiba que ela existe. Livro não é seu terreno de predileção. Só nos resta torcer pra que ele vá se embora logo. E que o próximo seja um bocadinho melhor. Será difícil ser pior, mas, no Brasil, nada é impossível – principalmente a piora.

(*)Nota etimológica
Arder corresponde diretamente ao verbo latino ardeo/ardere, que significa estar em chamas, queimar. O particípio perfeito latino é arso, palavra que, segundo o Volp, existe em português. Tanto pode ser adjetivo como substantivo.

É curioso que nenhum dicionário online traga esse verbete. Consultei Houaiss, Priberam, Aulete, Michaelis, Porto Editora, Cândido de Figueiredo e 7 Graus – sem sucesso. O Volp é um vocabulário que se limita a atestar a existência da palavra, dar a grafia e o gênero gramatical; porém, não dá o significado. Assim, resta supor que arso tenha o sentido que tinha na língua latina.

Em português, os descendentes de arder não são multidão: ardido, ardor, ardência, ardente, aguardente. E, naturalmente, arso(=queimado, que ardeu, ardido).

Le caleçon du sénateur

José Horta Manzano

Certas notícias se alastram feito rastilho e fazem as delícias da imprensa internacional. Em geral, vêm de países exóticos como os da África e da Ásia Central, mas não só. O Brasil, desde que entramos no século XXI, anda abrindo muito o flanco e deixando escapar muita notícia assim. Será que estamos nos tornando um povo folclórico, daqueles dos quais não se pode esperar nada de sério?

A história do dinheiro na cueca do senador – um senador da República! – provoca sorrisos e abanos de cabeça ao redor do mundo. Cada jornalista explica com as palavras de sua língua.

Le Figaro

Le Figaro, jornal francês, até que foi bastante comedido. Disse: «Brésil: des liasses de billets retrouvés dans le caleçon d’un sénateur – Brasil: maços de notas encontrados na cueca de um senador». Mandou um genérico «dans le caleçon – na cueca», deixando a cada um a liberdade de imaginar o conjunto: o dinheiro, a cueca e o senador. Publicou a foto do indigitado, um bigodudo de tez morena, protótipo do medalhão latino-americano.

DW in English

Em sua edição em língua inglesa, a plataforma Deutsche Welle traz a mesma notícia com palavras mais cruas: «Brazil senator caught hiding money ‘between buttocks’ – Senador brasileiro apanhado escondendo dinheiro ‘entre as nádegas’». Escreveu assim mesmo, botando as nádegas entre parênteses, talvez numa pudibunda tentativa de encobri-las.

Der Spiegel

Der Spiegel, a grande mídia alemã, além de dar a notícia com palavras inequívocas, vai mais longe e ilustra a reportagem com uma foto de Jair Bolsonaro. Para quem não houvesse entendido, fica sugerida a ligação entre o dinheiro e o presidente. Saiu assim: «Mutmaßlich veruntreutes Geld “zwischen den Pobacken” gefunden – Dinheiro suspeito desviado encontrado ‘entre as nádegas’».

Em qualquer mídia, em qualquer língua, em qualquer país, a mensagem é uma só: quem acreditou na lorota da «decolagem» do Brasil, em voga poucos anos atrás, se iludiu. Desde que estourou o Mensalão, faz 15 anos, nada mudou. Se mudou, foi pra pior.

Quem tem medo?

José Horta Manzano

Dois dias atrás, o Estadão publicou em editorial:

«O senador Renan Calheiros, alvo de 17 inquéritos em curso no Supremo, resolveu dar seu apoio explícito a Bolsonaro, dizendo que o presidente “pode deixar um grande legado para o Brasil que é o desmonte desse Estado policialesco que tomou conta de nosso país” – em referência à Operação Lava Jato.

Segundo Renan Calheiros, a nomeação de Kassio Marques para o Supremo, bem como a de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República e a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, faz parte desse “desmonte”.»

Renan Calheiros
by Lucas ilustrador

O distinto leitor tem medo da Lava a Jato? Receia ser apanhado e terminar na Papuda, em Bangu 8 ou noutro estabelecimento penitenciário? Tenho certeza de que não. Corruptos não frequentam este espaço, que isto aqui é lugar de gente séria. Eu também não receio a Lava a Jato nem nenhuma outra operação contra ladrões do dinheiro do Estado.

Pois então, como é que fica? Quem é que tem medo da Lava a Jato? Quem e por que – a começar pelo presidente da República – sonha com seu “desmonte”?

Não precisa nem perguntar, pois não? Quando alguém, seja quem for, se mostrar favorável ao fim de operações de caça aos corruptos, desconfie. É bem provável que esteja com o rabo preso.