Frase do dia — 169

«O ministro Ricardo Lewandowski assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal e imediatamente vestiu o manto de presidente do sindicato dos magistrados.

Defendeu um aumento salarial para os juízes usando uma expressão capaz de assombrar Lula e a doutora Dilma. Segundo ele, há no Brasil uma “espiral inflacionária”.»

Elio Gaspari, em sua coluna da Folha de São Paulo, 17 ago 2014.

Vaidosos, enfatuados e irresponsáveis

José Horta Manzano

A busca do objetivo não justifica o uso de todo e qualquer meio. Há golpes lícitos, permitidos, reconhecidos, legais. Há outros que se situam perigosamente no limite entre o pode e o não pode. Outros há que, desferidos abaixo da cintura, são ilícitos, proibidos, ilegais, escandalosos. Fogem claramente às regras do jogo.

Greenpeace logo 1Já falei, neste espaço, sobre o olhar pra lá de ressabiado que lanço sobre as atividades de Greenpeace, poderosa organização não governamental. Não são seus louváveis objetivos que me perturbam nem sua alegada luta por um planeta mais respeitoso do equilíbrio ecológico. Nenhum cidadão consciente pode deixar de aplaudir.

O que choca são os impactantes métodos de ação, perigosamente no limite da decência, atingindo, por vezes, a ilegalidade. Essa organização, conhecida por sua truculência, vale-se do idealismo e da ingenuidade de jovens que lhe servem de massa de manobra.

Seus altos dirigentes não costumam se expor pessoalmente em operação arriscada. Quando se trata de desafiar a marinha de guerra russa, a guarda costeira francesa ou a polícia alemã, a infantaria despachada à linha de frente é composta de jovens ― criaturas sinceramente devotadas, daquelas que acham que nada de ruim pode acontecer.

Quarenta anos atrás, quando Greenpeace apareceu, a concorrência era pequena. Pouca gente havia descoberto o filão. Hoje em dia, com a eclosão de zilhões de ongs, o mercado anda saturado. Para sobreviver, cada uma tem de se fazer notar, sob pena de cair no esquecimento. Entre uma causa e outra, a escolha recairá sobre a que causar maior impacto na opinião pública.

Antigamente, quando alguém queria «aparecer», sugeríamos que pendurasse uma melancia no pescoço. Ongs não têm pescoço, mas fazem valer o velho método. Atrair atenção por qualquer meio ― eis o lema.

Greenpeace crime eleitoralEstes dias, nossa velha conhecida Greenpeace fez das suas. A 45 dias das eleições brasileiras, espalhou cartazes por uma centena de pontos de ônibus da cidade de São Paulo. Eles trazem montagem fotográfica em que aparecem, sorridentes, políticos de partidos antagônicos ― o governador paulista e a presidente da República, ambos candidatos à reeleição.

Um metrô como pano de fundo e a frase inscrita ao pé da foto ― “Juntos pela mobilidade” ― induzem o leitor a crer que os dois políticos tenham juntado forças numa hipotética aliança eleitoral. Dado que o governador de São Paulo é dado pelas pesquisas como vencedor já no primeiro turno, a vantagem da duvidosa aliança vai toda para a chefe do Estado brasileiro.

Greenpeace member cardDas duas, uma: ou a ong adotou a técnica da melancia no pescoço, ou está dando uma mãozinha à presidente da República, sabe-se lá com que absconsa intenção.

Seja como for, o fato não pode ser encarado como mera estudantada. Tem de ser chamado por seu nome: crime eleitoral. Com um agravante: cometido por filial de organização estrangeira. Os dirigentes da entidade têm de amargar as consequências. A punição ideal seria o banimento dessa irresponsável instituição do território nacional.

Interligne 18b

Interligne vertical 7Curiosidade:
Tive a paciência de fazer uma busca no amigo gúgol sobre essa ong. O resultado fala por si.

Expressão-chave: greenpeace terrorist organisation mostra 256 mil ocorrências

Expressão-chave: greenpeace terrorist group traz 226 mil ocorrências.

É pra ministro nenhum botar defeito. Ou não?

Deus é mesmo brasileiro?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Deus triangulo 2Bom, eu não costumo achar que conheço a vontade de Deus ou seus planos para nosso futuro. Não posso nem mesmo argumentar que mantenho diálogos frequentes com a divindade, durante os quais Ele me explica os detalhes de algum acontecimento que não compreendo de imediato.

Esforço-me apenas para identificar os sinais de Sua intervenção em nosso cotidiano. E, se tenho feito a lição de casa com denodo e precisão, parece que Ele não se sente lá muito à vontade em ser nosso compatriota. Se não, vejamos:

Interligne vertical 11c1. Ele indicou recentemente como seu lídimo representante aqui na terra um argentino e, pior, não foi a única vez que preferiu apostar num cidadão de outro país. Ao contrário, em todos os pleitos anteriores, foi sempre um estrangeiro o escolhido;

2. Levou de nosso convívio nos últimos meses os mais doces e apaixonantes personagens de nossa cena artística, literária e educacional. Gente talentosa como Millôr Fernandes, José Wilker, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves. Acaba de atacar desta vez no plano político, levando-nos de um só golpe e sem aviso prévio um promissor integrante da nova geração de políticos brasileiros, Eduardo Campos. Não me entendam mal, não conheci Campos pessoalmente e entrei em contato com muito poucas de suas ideias. Nem o fato de ele ser neto de uma figura respeitável como Miguel Arraes me servia de garantia de que os rumos de nosso país seriam de fato mudados. Apenas ele me parecia ter um fogo que há muito tempo não se via por estas bandas e um brilho especial nos olhos. No conjunto, Deus nos levou todo um punhado de pessoas intelectualmente articuladas, bem humoradas, de bem com a vida e capazes de nos colocar na boca o gosto bom da esperança;

3. Essa última perda reeditou em meu peito a dor angustiante da perda de outro nome emblemático na história política nacional: Tancredo Neves. Depois de vinte e um longos anos de chumbo e sombras, desapareceu aquele que talvez tenha sido nosso último estadista. Já os ratos de porão de nossa elite política continuam vicejando e engordando, sempre tramando novos esquemas pelas nossas costas e levando seus parentes e pets para passear em jatos da FAB: Maluf, o clã Sarney, Renan, Collor, Arruda, Cabral, Lula, José Dirceu, Genoíno… a lista de nomes politicamente asquerosos não termina nunca;

4. Mesmo mantendo-o vivo, afastou de nós e do nosso território um personagem do calibre do ministro Joaquim Barbosa, o único magistrado em toda a história republicana que, ao menos a meus olhos, conseguiu se mostrar destemido, dando nome aos bois sem titubear e usando um linguajar simples de ser compreendido, fossem eles seus pares, governantes ou outras figuras públicas.

NuvensAnalisando esse padrão de intervenção divina na história de nossa pátria – ou seja, o de permitir que a tensão vá se acumulando, os ânimos se exacerbando e chegando próximo a um ponto de ruptura, sem que jamais haja uma real chance de descarga e alívio final da tensão – cheguei à conclusão de que só há duas hipóteses para explicar esses últimos acontecimentos: ou Deus quer que nos ferremos todos porque não temos como povo o potencial para gerirmos de maneira satisfatória nossas próprias vidas, ou Ele nos está dando, mais uma vez, um empurrão para que assumamos finalmente as rédeas de nosso destino. Na dúvida, por ignorância ideológica e por ser uma pessoa de boa vontade, opto pela segunda.

Imagino mesmo que se eu O cobrasse, ele diria algo como:

Interligne vertical 11“Mas, minha filha, não coloque toda a responsabilidade exclusivamente nas minhas costas. Eu lhes concedi o dom do livre arbítrio exatamente para que vocês pudessem relativizar o impacto de muitos de meus planos. Se não o fizeram, foi por vontade humana e não divina. Eu lhes dei um país rico em recursos, uma terra generosa e um povo amável e acolhedor. Por que vocês não colocam em prática os valores nos quais acreditam e ficam esperando que lhes caia dos céus a solução de todos seus problemas? O que você quer de mim? Que eu lhe indique o próximo salvador da pátria? Isso não é problema meu, ora bolas!”

P.S.:
Acabo de descobrir uma nova interpretação para a vontade de Deus em levar Eduardo Campos de nosso convívio. O que Ele queria, suponho eu, era assistir de camarote a disputa de quem pode se declarar seu verdadeiro – e único – herdeiro político! Como muitos de nós humanos, ouso acrescentar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sem visto

José Horta Manzano

Você sabia?

Depois de anos de limbo jurídico, o Brasil e a Suíça assinaram acordo para formalizar a prática corrente de isentar de obrigação de visto os cidadãos do outro país. O que já se fazia de facto passou a ter sustentação de jure. Agora, é de lei.

Tendo em vista as boas relações que Brasil e Suíça mantêm há décadas, os dois países firmaram acordo de isenção de visto. Todo cidadão de um dos países pode fazer visita turística de até 90 dias ao outro sem ter de pedir autorização especial. Basta ter passaporte válido. Na prática, essa formalização não muda nada. Apenas cimenta o que já era feito informalmente.

Foto: Latina-press

Foto: Latina-press

A obtenção de autorização de trabalho continua problemática. Em princípio, somente profissionais altamente qualificados costumam ser admitidos ― assim mesmo, depois de o eventual empregador provar não ter encontrado, no mercado local, funcionário de qualificação equivalente. É pra lá de complicado, feito pra desencorajar o mais paciente dos beneditinos.

De carona, o novo acordo concede mais ampla liberdade de movimento aos titulares de passaporte diplomático. Taí notícia pra alegrar a ex-primeira-família!

Toda reclamação ou eventual sugestão deve ser endereçada ao Departamento Federal de Justiça e Polícia, Quellenweg 6, 3003 Berna, Suíça.

A haste e o pau

José Horta Manzano

Um brusco acidente de avião levou a vida de sete pessoas. Entre os desafortunados, estava um candidato ao posto de presidente de nossa República, cadeira que vai vagar dia 1° de janeiro do ano que vem.

Jornais, rádios, tevês, redes sociais, taxistas, porteiros, estudantes, manicures, ambulantes, aposentados só falam nisso. Como foi? O que é que vai ser agora? Como fica? Será que foi atentado? Cui bono ― quem é que ganha com isso?

Vamos deixar a cada um a liberdade de interpretar e de vaticinar como bem lhe parecer. De qualquer maneira, a Terra continuará a girar e, passada a comoção, as coisas vão acabar se ajeitando. Vamos aproveitar este espaço para uma observação linguística.

Bandeira a meio pauEm sinal de luto, o Planalto determinou que, nos edifícios oficiais, a bandeira brasileira fosse hasteada a meio pau. A meio pau ou a meio mastro? Valem ambas. Curioso é observar a transformação do falar. Em Portugal, a expressão mais usada é a meia haste. Por aquelas bandas, essa é a forma que predomina na hora de designar bandeira hasteada em sinal de luto.

Em terras brasileiras, faz dois séculos que a forma portuguesa perde terreno para sua equivalente nacional. Já faz cinquenta anos que a meia haste lusa praticamente desapareceu de nosso falar, sobrepujada pelo meio pau. Interessante é notar que, a partir dos anos 2000, uma terceira expressão ― a meio mastro, decalque do francês à mi-mât ― começou a dar mostra de vigor.

Nos últimos quinze anos, o mastro vem ganhando terreno entre nós. De cada três locutores, um prefere o mastro ao pau. Quem garante? Como muitos de meus distintos leitores devem saber, já faz alguns anos que o jornal O Estado de São Paulo permite acesso a seu precioso acervo. Pode-se lá consultar a totalidade das edições, de 1875 até os dias de hoje.

A tabelinha que ponho a seguir analisa as 1200 vezes em que as três expressões foram usadas desde o primeiro número do jornal. É interessante notar a porcentagem de ocorrência de cada uma delas em relação ao total da década.

Década   Meio pau   Meio mastro   Meia haste
1870        80%         —            20%
1880        87%         —            13%
1890        95%         —             5%
1900        89%         —            11%
1910        81%         —            19%
1920        86%         5%            9%
1930        90%         3%            7%
1940        75%        25%            —
1950        96%         2%            2%
1960        90%        10%
1970        92%         7%            1%
1980        96%         4%            —
1990        87%        13%            —
2000        92%         8%            —

2010        63%        38%            —

A meia haste sumiu. E o meio pau vem perdendo força em favor do meio mastro. Será sinal destes tempos politicamente corretos? Só Deus sabe.

Frase do dia — 168

«Sem mau humor, sem descrença, sem divisões, sem “eles”. O Brasil de todos nós. Agregador, assim era Eduardo Campos, um político de quem se podia discordar, mas uma pessoa de quem era absolutamente impossível não gostar.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 14 ago 2014.

Pra sua sardinha

José Horta Manzano

Os jornais brasileiros deram: «Brasileiro agraciado com o “Nobel” de matemática».

Os jornais franceses deram: «Francês agraciado com o “Nobel” de matemática».

Nunca tinha ouvido falar desse prêmio. Fui procurar e fiquei sabendo que existe desde 1936. Acredito que não sejam muitos os que já haviam tido notícia dessa distinção. Antes tarde que nunca.

De início, imaginei que o brasileiro e o francês fossem pessoas diferentes. Não são: o homem é o mesmo. Um carioca de nascimento, com pinta de galã de filme de faroeste, imagem bem distante da que a gente tem do matemático raquítico, encurvado, pele emaciada, guarda-pó e óculos de fundo de garrafa.

Artur Ávila Foto: S. Ruat, Photothèque CNRS

Artur Ávila
Foto: S. Ruat, Photothèque CNRS

Artur Ávila, o jovem que acaba de receber a cobiçada láurea, nasceu, cresceu e se formou no Brasil. Faz, porém, treze anos que reside e trabalha na França, onde dirige um departamento no prestigioso CNRS (Centro nacional de pesquisa científica).

Imagino que, bem acolhido por seu país adotivo, o moço se tenha naturalizado ― sem perder a cidadania originária. Good for him, melhor pra ele!

Além do prêmio, aliás bem modesto se comparado ao polpudo provento que um Nobel oferece, Artur recebeu congratulações de dois chefes de Estado: Dona Dilma Rousseff e Monsieur François Hollande mandaram-lhe saudações afetuosas. Não é pra qualquer um.

Cada um puxa a brasa pra sua sardinha.

Ecos na mídia francesa:
TF1 (principal canal da tevê francesa)
France info (rádio pública francesa)
Jornal Le Point
Jornal Le Figaro
Jornal Le Monde
Site do CNRS (Centro nacional de pesquisa científica)

Asfaltada pela corrupção

José Horta Manzano

O mais recente número da prestigiosa revista britânica Financial Times traz reportagem analítica sobre os escândalos na Petrobras ― que há tempos já ressoam nos mercados internacionais. O artigo é explícito e bastante didático. Dou-lhes os dois primeiros parágrafos. Primeiro, no original:

Interligne vertical 14Tarred by corruption

After years of allegedly secret dealings, the men at the centre of what is potentially Brazil’s biggest corruption case made a careless mistake.

In May 2013, convicted black market money dealer Alberto Youssef bought through third parties a luxury car for his friend and alleged accomplice, Paulo Roberto Costa, a former executive at state-oil company Petrobras. (…)

Petrobras 8E agora, em nossa língua:

Interligne vertical 14Asfaltada pela corrupção

Após anos de hipotéticas relações secretas, os pivôs daquele que é provavelmente o maior escândalo de corrupção no Brasil cometeram um pecado por negligência.

Em maio 2013, o doleiro condenado Alberto Youssef deu de presente, por meio de laranjas, um carro de luxo a seu amigo e presumido cúmplice Paulo Roberto Costa, antigo dirigente da estatal de petróleo Petrobras. (…)

Quem se interessar pelo resto do texto, vai encontrá-lo aqui. Está em inglês, é verdade, mas as traduções maquinais de nosso amigo gúgol dão boa pista da sequência.

Interligne 18h

Só para completar o cenário, segue abaixo o quadro estatístico que mostra o desempenho da Petrobrás nos últimos cinco anos em comparação com a média mundial das empresas de petróleo e gás. Os valores do dia 1° out° 2010 são tomados como índice 100.

Petrobras 7

Juízes são humanos?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma questão tão sensível quanto esta requer, sem dúvida, uma análise criteriosa e demorada. Precisamos examinar o tema sob a ótica de múltiplos fatores. Comecemos pelo mais prosaico deles: o corpo, a matéria física.

JustiçaÉ inegável afirmar que juízes desfrutam de um aparato físico completo, em tudo semelhante ao de quaisquer outros exemplares da fauna humana. A diversidade de formas que seus corpos assumem também reproduz a que podemos encontrar entre profissionais de diversas outras categorias. Há juízes altos e baixos, gordos e magros, atléticos e sedentários, velhos e jovens, homens e mulheres.

A imagem caricatural com que magistrados vêm sendo representados há séculos em todos os continentes é, no entanto, a de sujeitos atarracados, de costas encurvadas, ancas largas, barriga proeminente, pernas frágeis e sem músculos salientes, rostos flácidos e edemaciados, mãos finas e dedos longos, olhos pequenos, o mais das vezes auxiliados por óculos posicionados na ponta do nariz.

Os analistas mais sensíveis poderão objetar quanto a esse padrão corporal caricato: “Ora, é sabido que o uso do cachimbo deixa a boca torta”. Verdade, instados que são ao longo de sua vida estudantil e profissional a permanecer longas horas sentados examinando pastas com centenas de páginas e documentos com letras muito pequenas, tendo de registrar à mão inesgotáveis anotações e pareceres, não lhes restam muitas alternativas para escapar dessa configuração global. Entretanto, voltando à pergunta inicial, mesmo que não se aprecie esse enquadramento físico, a resposta será sempre a de que juízes indubitavelmente têm, sim, um corpo humano. Ponto para eles.

Examinemos agora o aspecto psicológico da questão. A magistratura é, sem dúvida, uma profissão solitária. Relacionar-se, formar vínculos afetivos, confraternizar-se podem não ser os pontos mais fortes desses profissionais. Para conhecer as percepções e opiniões de seus colegas de cátedra, por exemplo, juízes precisam se isolar em seus gabinetes e recorrer a…. papéis. Por outro lado, também haverá, é claro, ao longo da vida profissional, ocasiões em que eles poderão desfrutar de animados intercâmbios de opiniões, como quando da realização de algum congresso acadêmico, a posse de um colega de classe na Ordem, algum evento social que desperte o interesse de outros juristas, além de figuras emblemáticas da República. Alguém poderá observar quanto a isso: “Mas, em todas essas ocasiões, os juízes estarão revestidos da imponência de sua figura pública, portanto seus comentários estarão sempre atrelados ao poder da toga”. Mais uma vez, verdade.

Justiça 4E perguntemo-nos como será então a vida anímica desses servidores da Justiça no recôndito de seus lares e nas relações cotidianas com simples mortais? Parece não haver qualquer evidência em contrário de que, também nesses aspectos, juízes podem vir a ser categorizados como maníacos, fóbicos, esquizóides, equilibrados, autocentrados, paranóides, bem como todas as demais formas de funcionamento psíquico, tudo isso sem considerar que também estarão expostos a surtos, traumas diversos, desequilíbrios temporários.

Dessa forma, goste-se ou não de seu perfil psicológico padrão, forçoso é reconhecer que juízes também dispõem de uma psique. Será sempre possível identificar juízes curiosos, afetivos, sensíveis, autoritários, agressivos, extrovertidos, ensimesmados, etc. Outro ponto que os aproxima da espécie humana.

Se juízes têm corpo e têm alma, onde estarão, então, os pontos que podem nos levar a suspeitar de que eles se afastam da envergadura psicossocial comum de outros humanos? Gastei muitas horas refletindo sobre isso e cheguei à conclusão de que é na simples convergência de seus aspectos físicos, emocionais e sociais que reside a grande dificuldade de afirmarmos que juízes se enquadram plenamente na moldura humana padrão.

Explico melhor: todos nós sabemos ― e sentimos ― como um determinado componente de nossa configuração humana influencia outros. Se acordo com alguma indisposição gástrica ou intestinal, meus pensamentos tornam-se mais lentos, minha lucidez fica diminuída, meu estado de espírito prejudicado para o acolhimento de outras ideias ou de outras pessoas. Da mesma forma, se é um resfriado o que me incomoda, minha disposição para formar ou aprofundar laços afetivos tende a ser dissipada junto com os perdigotos que escapam em velocidade de meu nariz. Enxaquecas, dores lombares, vista cansada, artrites e artroses, tonturas, febres ― enfim, pode-se afirmar com certeza que toda essa miríade de distúrbios físicos atinge também e interfere pesadamente no raciocínio de magistrados.

TribunalInversamente, se o que me aflige é uma discussão acirrada em família, uma preocupação com o bem estar físico, psicológico ou espiritual de um parente ou amigo, um estado depressivo que toma conta de todo meu organismo ou, ainda, uma grande onda de excitação amorosa ou raivosa que precisa ser descarregada, minha isenção de julgamento escorre para o ralo imediatamente. Conflitos dessa ordem parecem ser mesmo inevitáveis sob o prisma estritamente humano.

A mesma similaridade pode ser identificada entre juízes e cidadãos comuns no plano social. Nenhum argumento racional pode eliminar a hipótese de juízes estarem sujeitos a tentações e desvios de conduta social. Há casos famosos, ao menos por aqui, de juízes que vendem sentenças, desviam recursos públicos, favorecem certas elites e até daqueles que assumem sem pudor sua homofobia e discriminam certas crenças religiosas.

Tribunal 1Por que, então, juízes parecem ignorar solenemente a existência de interrelação entre uma instância e outra de sua constituição humana ao emitirem seu parecer final numa causa? Será que o cachimbo da razão pura deixou a boca de seus afetos torta? Será que a energia libidinal represada ― ou, em bom português, seu tesão de viver inexoravelmente perdido ― os incapacitou para a dúvida, para a relativização e para o discernimento entre o que é legal e o que é moral?

Afinal, considerando que o conceito de humanidade pressupõe necessariamente a existência de imperfeições e limitações, parece que a dura conclusão a que devemos tristemente chegar é a de que juízes escapam, ainda que por poucos milímetros, da órbita comum dos seres humanos. Comportando-se como semideuses, posicionando-se acima das atribulações peculiares à espécie, eles nos deixam com uma sensação amarga de impotência. Se até na astronomia já se admite a “equação pessoal do observador” para dar credibilidade e caráter científico a eventuais descobertas individuais, será que já não está na hora de os senhores juízes incorporarem a “equação pessoal do julgador” em suas interpretações pessoais da lei?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Gotejando

Eliane Cantanhêde (*)

Censura 2Depois de o Planalto enviar um funcionário a um seminário de internet em Cuba, tudo é possível. Cuba é o último lugar do mundo para fazer curso de internet… a não ser de guerrilha digital.

Por essas e outras, é irritante, mas não surpreendente, a informação da Folha e do Globo de que a rede do Planalto é usada para adocicar perfis de aliados, azedar dos adversários e plantar calúnias contra jornalistas críticos. A operação, além de indecente e possivelmente criminosa, é também de uma burrice gritante.

Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, afora serem queridos amigos, são dois dos mais premiados jornalistas do país. Logo, o ataque não foi só aos dois, mas a uma categoria inteira e a uma cidadania que exige liberdade de expressão e de crítica.

Censura 1Do ponto de vista político, é péssimo para Dilma Rousseff, mas é sobretudo um desastre para o PT, que já enfrenta alta rejeição, candidatos assustados e atritos de toda sorte.

Segundo o marqueteiro João Santana, eleições trabalham o imaginário popular. Pois o uso da sede da Presidência para golpes rasteiros só “vai gotejando” uma imagem ruim do PT, como diz Gilberto Carvalho.

Auto de fé

Auto de fé

A hora é de falar de Mais Médicos, Minha Casa, Pronatec, não de o Planalto fazer jogo sujo que remete a mensalão, aloprados e manipulação da CPI. E também à estrela vermelha de dona Marisa no Alvorada, ao passeio da cadelinha em carro oficial, ao emprego da nora para não fazer nada no Sesi e ao contrato milionário do filho ― o Ronaldinho ― por baixo do pano.

A confusão entre público e privado corresponde às boquinhas e ao aparelhamento de Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil. Em nome de “uma causa” ― a dos poderosos e da elite de plantão. Os outros? Os outros são “contra os pobres”.

Se cabeças rolaram no Santander por avaliações de mercado, o que ocorrerá no Planalto por ações que nada têm a ver com o interesse público, o Estado e a nação?

(*) Eliane Cantenhêde, jornalista, é colunista da Folha de São Paulo

Tripla filiação

José Horta Manzano

No Brasil, a organização da família não mudou muito desde Tomé de Souza. Sempre existiu o oficial e o paralelo. Homens com famílias duplas, crianças cujo pai biológico não era exatamente aquele que estava inscrito na certidão de nascimento, bebês adotados em segredo e registrados com o sobrenome dos pais adotivos ― são casos relativamente comuns.

O que mudou, de meio século para cá, foi o olhar lançado pela sociedade a situações que, embora frequentes, fogem aos cânones. A evolução condenou antigos tabus à obsolescência. Para agravar, a popularização da internet tem contribuído para a disseminação da informação. Hoje em dia, não se trancam mais segredos de família em baú.

Certidão batismoA Folha de São Paulo de domingo 10 de agosto aponta efeito colateral da queda de antigos tabus sociais. Informa que os últimos dois anos trazem registro de pelo menos duas dezenas de processos judiciais visando a acrescentar ao registro de nascimento o nome de um terceiro genitor. Será o nome do padrasto, do pai biológico, da madrasta. Em princípio, as solicitações têm contado com o beneplácito da Justiça.

Na Espanha e, em geral, nas antigas colônias, a tradição manda que todo cidadão tenha dois sobrenomes: o do pai e o da mãe, nessa ordem. Para a descendência, o patronímico paterno prima sobre o materno. A regra costuma ser seguida.

Em países como Itália, França, Alemanha, Suíça, nunca houve dúvida: criança leva o sobrenome do pai. Até alguns anos atrás, o registro de nascimento indicava nada mais que o(s) prenome(s) do recém-nascido. O sobrenome nem precisava ser mencionado: era necessariamente o do pai. Os reclamos de igualdade dos sexos têm interferido nesses costumes. Hoje em dia, já é possível dar à criança, além do sobrenome do pai, o da mãe.

Na Rússia, até hoje, a criança recebe um prenome, seguido do prenome do pai, seguido do sobrenome paterno. Por exemplo, o nome completo de Putin é Vladímir Vladímirovitch Pútin, onde Vladímir é o prenome e Vladímirovitch indica que o pai se chamava Vladímir. Pútin é o sobrenome paterno.

Certidão nascimento russaDiferentemente do que ocorre em outros lugares do mundo, em Portugal ― e, por consequência, no Brasil e em antigas colônias lusas ― a atribuição do nome de família não é submetida a regras rigorosas. Há quem carregue o(s) sobrenome(s) do pai ou os da mãe ou uma mistura dos dois. Pode-se omitir parte dos nomes de família. Pode-se até atribuir sobrenome que não seja do pai nem da mãe ― é o caso de João da Silva Sobrinho. Isso faz que irmãos não tenham necessariamente o mesmo nome de família ― fato inconcebível alhures.

Está na hora de se regulamentarem os novos usos no Brasil ― falo da tripla menção de genitores. Novos costumes reclamam normatização. Vazios jurídicos criam insegurança desnecessária e sobrecarregam a Justiça com a avaliação caso por caso.

Visão d’África

«Au Brésil, j’ai vu beaucoup de blancs et de métis, mais peu de noirs»

«No Brasil, vi muitos brancos e mestiços, mas poucos negros»

Jean-Pierre EssoFoi o comentário de Jean-Pierre Esso, jornalista camaronense que passou um mês no Brasil cobrindo a Copa do Mundo, ao demonstrar que, por olhos africanos, o mestiço não costuma ser visto como negro.

Comprovou que a tese da “gota de sangue”, copiada do modelo americano por nosso atual governo federal, não vigora em terras d’África. Por aquelas bandas, a “gota de sangue” funciona, antes, no sentido inverso. 

Frase do dia — 167

«Com os EUA desinteressados e demonizados e o Brasil envolto em seus próprios dilemas, a Argentina é cada vez mais atraída ao campo gravitacional chinês.»

Marcos Troyjo, economista, em sua coluna da Folha de São Paulo, 8 ago 2014.

Frase do dia — 166

«O Brasil é prejudicado por dois grandes déficits estruturais: o de capital físico e o de capital humano.»

Mauro Borges, Ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior, citado em editorial do Estadão de 8 ago 2014.

O ministro matou a charada. Um país com capital humano e físico estruturalmente diminuído não tem chance de se desenvolver. Por sair da boca de ministro de um governo em fim de mandato, a constatação de fracasso tem gosto particularmente amargo.

Calote argentino

 

Credit: Bloomberg

                                                                                                                              Credit: Bloomberg

 

Ser grandão tem suas vantagens

José Horta Manzano

Dizem que o Brasil não é para principiantes. É verdade, mas não é o único país nessa categoria. Outros lugares do planeta também são bastante complicados. Quando se espatifou, a URSS deixou despojos. São terreno minado.

Durante os 70 anos que durou a União Soviética, as quinze repúblicas que a constituíam eram pouco mais que mera formalidade. Com o esfacelamento do império, fronteiras internas tornaram-se fronteiras internacionais. Isso trouxe tensões.

Localizado no Casaquistão, o centro russo de lançamento espacial de Baikonur se encontrou, da noite para o dia, em território estrangeiro. Mas o Casaquistão, país pobre e encravado no centro da Ásia, é totalmente dependente da Rússia. Um acordo entre Moscou e Astana foi logo encontrado.

Povoada por esmagadora maioria de russofalantes, a Crimeia tinha sido atribuída em 1954, por razões burocráticas, à Ucrânia. Na época, a cessão territorial se resumira a simples canetada. Boa parte da frota de guerra russa está baseada ali, mas, enquanto faziam todos parte da URSS, isso não incomodava ninguém.

O esfacelamento do império russo fez que a marinha de guerra se encontrasse ancorada em país estrangeiro. Um problemão. Os ucranianos do oeste, em maioria de língua materna ucraniana, adorariam unir-se à União Europeia e desligar-se definitivamente da tutela de Moscou. Já os ucranianos do leste, russofalantes, ficariam felizes se pudessem reintegrar a pátria mãe e tornar-se independentes de Kiev.

A Crimeia era importante demais para Moscou. Quando as ambições de Kiev começaram a se tornar muito nítidas, os russos organizaram um plebiscito e, em três tempos, se apossaram da península. Com toda a frota, naturalmente. E não se fala mais nisso. Já no leste russofalante da Ucrânia, a briga é mais complexa. O território é vasto. E a maioria de origem russa não é tão esmagadora quanto na Crimeia ― boa parte da população é constituída de ucranianos.

Crédito: Cosmovisions.com

Crédito: Cosmovisions.com

O resultado é o que vemos atualmente. Tanques de guerra, bandeiras arriadas e substituídas por outras, guerrilha urbana, ataque a avião civil. As democracias tradicionais (Europa, América do Norte, antigas colônias britânicas) impuseram sanções comerciais à Rússia. Dizem que é para castigá-la por estar fornecendo armas aos rebeldes ucranianos. Em represália, Moscou anunciou que está estudando proibir o sobrevoo de seu território a aviões matriculados em países que estiverem aplicando as sanções. Parece bobagem, mas, se a ameaça for levada a efeito, vai causar um senhor problema.

Praticamente todos os aviões que saem da Europa em direção ao Extremo Oriente sobrevoam território russo. Muitos dos voos que seguem da América do Norte à China ou ao Extremo Oriente utilizam rota que corta caminho pelo espaço aéreo russo.

Não acredito que Moscou ponha em prática essa proibição. Se o fizer, vai criar um enorme quebra-cabeça para viajantes, companhias aéreas, aeroportos, controladores de voo, horários, conexões. Toda a logística terá de ser revista. Vai ser um pandemônio.

Com seu território superlativo, equivalente ao dobro da superfície do Brasil, a Rússia demonstra que ser grandão tem suas vantagens, sim, senhor.

Novo sufoco vem aí

José Horta Manzano

O portal RFI (Radio France International ― conglomerado estatal da mídia francesa) publicou, neste 6 de agosto, artigo sobre o atraso nas obras para os Jogos Olímpicos de 2016. Segundo a reportagem, John Coates, vice-presidente do CIO (Comitê Internacional Olímpico) criticou abertamente os preparativos, qualificando-os de “os piores” que havia visto em 40 anos de carreira.

Faltando apenas dois anos para o evento, somente 70% das obras previstas foram iniciadas. Isso significa que 30% delas se encontram ainda em estado de projeto. Não nos esqueçamos de que o Rio acolherá 15 mil atletas oriundos de 200 países. Sem contar as delegações e cerca de 8 milhões de turistas.

Um trecho do artigo é especialmente marcante. Transcrevo abaixo no original. Traduzo em seguida.

JO 2016Interligne vertical 9La baie de Rio où auront lieu les épreuves de voile toujours pas dépolluée

Une régate de voile a eu lieu ces derniers jours dans la baie de Rio de Janeiro, une épreuve test pour les autorités. L’occasion pour les sportifs de voir l’avancée de cette dépollution. Leur constat est amer. «Si les Jeux olympiques avaient lieu demain, nous aurions réellement un problème», c’est ce qu’a affirmé l’Australien, Mathew Belcher, médaillé d’or olympique de 2012 à Londres.

Les navigateurs ont été confrontés à l’extrême pollution de la Baie de Rio. Elle est tellement contaminée qu’il est interdit de s’y baigner. Certaines zones sont même devenues des égoûts à ciel ouvert. Car à l’heure actuelle, la moitié des eaux usées de la ville sont rejetées dans la baie sans être traitées. La ville s’est engagée auprès du Comité international olympique (CIO) à ce que 80% des eaux usées soit retraité d’ici les Jeux olympiques, mais les associations de protections de l’environnement n’y croient tout simplement pas.

Même si la Mairie de Rio affirme qu’il n’y aura aucun danger pour la santé des athlètes, il vaudra mieux que ces derniers ne tombent pas par-dessus bord. La situation à Rio de Janeiro reste extrêmement préoccupante, voire choquante.

JO 2016 2

Interligne vertical 9Baía de Guanabara, que acolherá as competições de vela, ainda não foi despoluída

Faz poucos dias, realizou-se uma regata à vela na baía do Rio de Janeiro, um teste para as autoridades. Era momento propício para os esportistas verificarem o andamento das obras de despoluição. A constatação é amarga. «Se os JOs tivessem de começar amanhã, teríamos um problema de verdade», afirmou o australiano Mathew Belcher, ganhador de ouro olímpico em Londres 2012.

Os navegadores viram de perto a poluição extrema da baía. O nível de contaminação é tal que é proibido entrar n’água. Algumas zonas são, de verdade, esgoto a céu aberto. Atualmente, metade do esgoto urbano é lançado, sem tratamento, na baía. A municipalidade prometeu ao CIO (Comitê Internacional Olímpico) que, antes da abertura dos JOs, 80% do esgoto da cidade já estará sendo tratado. As associações de proteção do meio ambiente simplesmente não acreditam.

Apesar de a prefeitura do Rio tranquilizar os espíritos garantindo que não há risco para a saúde dos atletas, será melhor que ninguém despenque do barco e caia na água. A situação no Rio de Janeiro permanece extremamente preocupante, pra não dizer chocante.

Interligne 18b

Preparem-se. O sufoco tende a se acentuar daqui a 2016.

Leveza ideológica

Dora Kramer (*)

Nos tempos de oposição, o PT sempre foi um ferrenho adversário do chamado Sistema S, o conjunto de entidades corporativas voltadas para aprendizagem profissional, assistêcia técnica e similares, como Sesc, Senai, Sesi, Senac e várias outras. Pregava sua extinção.

Depois que virou governo, o partido nunca mais deu uma palavra contra. Uma boa parte da explicação pode ser encontrada em reportagem da revista Época desta semana.

Sesi SenaiMostra como funciona um cabide de funcionários fantasmas no Sesi de São Bernardo do Campo (SP). Nele se encontram pendurados um assessor de Lula na época do Planalto, uma das noras do ex-presidente e a mulher do ex-deputado João Paulo Cunha.

Jair Meneghelli, ex-deputado federal, ex-presidente da CUT, preside o Sesi. Ganha até 60 mil reais mensais, tem dois carros com motorista à disposição ― um em São Paulo, outro em São Bernardo.

(*) O texto transcrito é excerto da coluna de Dora Kramer publicada no Estadão de 6 ago 2014.

A Itália e suas firmas familiares

José Horta Manzano

Você sabia?

Moeda antigaDiferentemente da Idade Média, quando um golpe de punção bastava para cunhar moeda, os tempos atuais são bem mais exigentes. Apesar de toda a inflação sofrida pelo real de 1994 para cá, as moedas metálicas ainda fazem parte do quotidiano dos brasileiros.

As máquinas usadas para a cunhagem tornaram-se aparelhos de alta precisão. Empregam tecnologia a raios laser e software sofisticado. Dada a exiguidade do mercado, poucas são as firmas especializadas no ramo. A saber meu, não há quem produza maquinário desse tipo no Brasil.

Por estes dias, a Casa da Moeda do Brasil passa a produzir as moedinhas de real com novo aparelho. A ultrassofisticada máquina vem de muito longe: da província de Treviso, ao norte de Veneza, Itália.

Um dos pilares da força econômica da Itália é o dinamismo de suas pequenas indústrias. A península não vive só de Fiat e de Pirelli. São dezenas de milhares de pequenas firmas que movimentam a economia, criam empregos e impulsionam a exportação.

Moeda realA máquina que acaba de ser importada pela Casa da Moeda vem de uma pequena indústria familiar de apenas 40 funcionários. Orgulhosos, os sete mil e poucos habitantes do vilarejo em cuja periferia se situa a fábrica estão em festa. Imagine só: uma fabricazinha de 40 pessoas que fornece os meios de produzir moedas para 200 milhões de usuários!

Envaidecidas, as gazetas regionais deram a notícia com destaque. Gabam-se de um «piccolo miracolo italiano», um pequeno milagre italiano. A firmazinha enfrentou concorrentes internacionais de peso e acabou vencendo a concorrência.

Aqui está a notícia, de tom ufanista, publicada na imprensa regional italiana:

Treviso Today

La Tribuna di Treviso