Abobrinhas

José Horta Manzano

Em declaração pra lá de incoerente, Arnaud Montebourg ― o explosivo ministro da Economia da França ― reclamou, este fim de semana, que a política econômica do país está «no rumo errado» e que tem de ser redirecionada.

Imaginem: um ministro que fala mal de sua própria política! Diante do escândalo, a situação ficou insustentável. Na segunda-feira de manhã, o país ficou sabendo que o primeiro-ministro tinha apresentado sua demissão ao presidente da República. Com isso, todos os ministros foram exonerados.

Blabla 2O presidente pediu ao primeiro-ministro que permaneça no cargo. Estão, os dois juntos, alinhavando o novo ministério. Amanhã saberemos quem são os escolhidos. É forte a probabilidade de o ministro afrontador não fazer parte do novo grupo.

No Brasil, se pegasse a moda de dispensar ministro que diz bobagem, não sobraria muita gente em torno de dona Dilma.

Viva o povo brasileiro

Dad Squarisi (*)

Oba! No ar, o programa eleitoral gratuito. Os presidenciáveis se apresentam. São 11. Oito parecem meteoros. Surgem, prometem milagres, batem asas e voam. Os outros dispõem de mais tempo. Eduardo Campos ressuscita e reafirma promessas. Dilma e Aécio têm complexo de Deus. Ela fez e aconteceu. Ele acha pouco. Fará mais. Ela, mais ainda.

Televisao 2Na tela, coisas de campanha. Faixas, bandeiras, santinhos. E, claro, a grande vedete — o povo. Povo? Que povo? Alguns o chamam de povinho. Outros, de zé-ninguém. Massa serve. Povão também. Na França, foi denominado de terceiro estado — tudo que não era clero nem nobreza.

Aqui ganhou outras especificações. «Apenas um detalhe», rotulou-o Zélia Cardoso de Mello. «É o dono da Praça Castro Alves», cantou Caetano. «É o porta-voz do Senhor», afirmam os pais de santo. E explicam: «A voz do povo é a voz de Deus».

Seja como for, é comovente. Os corações moles derramam oceanos de lágrimas. Os durões também. Ninguém resiste a tanto afeto. Sobram abraços, beijos e juras de gratidão. Os louquinhos pelo Planalto só dizem «esse país, nesse país». E dá-lhe povo.

Alguém (do povo) pergunta: «A que país eles se referem?». Outro (do povo) responde: «Este país não é. Deve ser uma Suécia melhorada».

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Chega rápido

José Horta Manzano

Prisioneiro 2Ninguém sabe explicar bem por que, mas o fato é que notícia boa demora a chegar, enquanto notícia ruim voa.

Ao redor do planeta, poucos estão interessados na sucessão presidencial brasileira. Um punhadinho de gente sabia quem era o empresário Antonio Ermirio de Moraes, falecido este fim de semana. Ninguém está interessado no desenrolar das novelas em cartaz. A seca persistente em algumas regiões da parte sul do País ainda não comove a humanidade.

Foto: Digital Vision

                      Foto: Digital Vision

Em compensação, barbaridades como as que estão acontecendo em Cascavel, onde uma insurreição carcerária tem posto à mostra o lado mais primitivo da alma humana, essas, sim, vão para a manchete da mídia global.

Chantagem, degola, decapitação, tomada de refém, cena de violência são ingredientes indispensáveis para o bolo midiático crescer apetitoso e perfumado. O motim da prisão paranaense seguiu a receita. Como dizia uma tia minha, que se recusava a revelar segredos sobre os quitutes que preparava, «levou tudo o que precisou».

Segue, aqui abaixo, um giro turístico pela mídia estrangeira. É resenha do tipo «falem bem, falem mal, mas falem de mim».

Interligne vertical 16 3KbLa Repubblica (Itália)
Brasile: rivolta in un carcere, almeno 4 detenuti morti
Brasil: rebelião numa prisão, pelo menos 4 presos mortos

Der Spiegel (Alemanha)
Gefängnis in Brasilien: Hunderte Häftlinge meutern und enthaupten zwei Geiseln
Prisão no Brasil: Centenas de presos se amotinam e decapitam dois reféns

La Nación (Argentina)
Sanguinario motín en una cárcel del sur de Brasil
Motim sangrento em prisão do sul do Brasil

Blick (Suíça)
Blutige Knast-Revolte in Brasilien
Motim sangrento no Brasil

Expressen (Suécia)
Blodigt fånguppror i Brasilien ― två döda
Rebelião carcerária sangrenta no Brasil ― dois mortos

ABC News (EUA)
2 Beheaded, 1 More Killed in Brazilian Prison Riot
Dois decapitados e mais um abatido em rebelião carcerária no Brasil

Api Ural (Rússia)
В бразильской тюрьме начался кровавый бунт
Rebelião sangrenta começou em prisão brasileira

RTL (França)
Brésil : quatre morts dans la mutinerie d’une prison
Brasil : quatro mortos em motim carcerário

Volkskrant (Holanda)
Braziliaanse gevangenen onthoofd bij opstand
Presos brasileiros decapitados em rebelião

Zé Maria na telinha

Demétrio Magnoli (*)

Ele tinha 41 em 1998; fará 57, alguns dias antes do primeiro turno. Na telinha, de eleição em eleição, a quarta numa sequência só interrompida em 2006, nós o vemos envelhecer contando a mesma piada. Zé Maria não tem um programa de governo: ele nos propõe a revolução proletária. Seu PSTU distingue-se de incontáveis outros partidos, sopas de letrinhas da maravilhosa abóboda política brasileira, pois rejeita o escambo do tempo de tevê por cargos comissionados em algum escalão da administração pública. Por outro lado, como seus congêneres, o PSTU vive da extração compulsória de dinheiro dos cidadãos que o ignoram. Só no ano passado, o Fundo Partidário repassou-lhe R$ 772.404,41. Desconfio que Zé Maria será um ardoroso revolucionário até o fim de seus dias.

DiscursoNão há nada de especialmente errado com o PEN, o PTN, o PROS, o SD, o PSDC, o PTC, o PHS et caterva. Seus dirigentes não fingem pretender seduzir-nos com a utopia de um mundo livre de todo o mal. Eles descobriram que nosso sistema partidário propicia um negócio lucrativo –e, de modo mais ou menos explícito, exibem-se como hábeis negociantes. O PSTU, não: em nome da História (assim com maiúscula), Zé Maria convida-nos a uma luta épica: o assalto ao Céu. A sua revolução será a da maioria, quando finalmente entendermos que ele marcha na companhia da Razão (maiúscula obrigatória). O problema é que, de fato, graças ao Fundo Partidário, ele não precisa que alguém concorde com ele. No Brasil, a Revolução (maiúscula!) tornou-se um bom negócio.

Zé Maria tem o direito de retrucar que faz o que todos fazem, sofisma celebrizado pelo PT desde o “mensalão”. Preferirá, porém, se separar dos demais, alegando que explora as “contradições da democracia burguesa” para instalar a “democracia proletária”. A racionalização do interesse próprio não muda a substância do problema: o uso do Fundo Partidário isenta o PSTU do imperativo político de persuadir as pessoas de que tem alguma razão (no caso, com minúscula). Zé Maria não precisa de militantes, apoiadores ou simpatizantes: ele já tem o seu dinheiro e o meu. No Brasil, a Revolução converteu-se em álibi e pretexto.

Eleição 1Prevejo uma nota ensandecida do PSTU apontando-me como agente da CIA, da Santa Sé, do Mossad e da Mídia Burguesa. Como não os convencerei a desistir da ideia argumentando com a deselegância de maldizer um contribuinte financeiro, tento algo melhor: o problema não está neles, mas na nossa “democracia burguesa”. Ainda que nos poupem das intragáveis letras maiúsculas, os grandes partidos também financiam suas (mais modestas) utopias pelo assalto legalizado ao bolso do público. Por que singularizar no sempiterno Zé Maria uma acusação que se aplica, com igual justiça, a Dilma, Aécio e Marina?

Urna 2Na democracia sem adjetivos, partidos são entes privados; na nossa pobre democracia varguista, partidos são entes estatais. Por aqui, o seu dinheiro (e o meu) sustenta candidaturas que personificam o oposto do que quero. O PT ameaça, pelo financiamento público de campanha, ampliar ainda mais a transferência compulsória de recursos dos cidadãos para a elite política organizada em partidos. Imagine, pelo contrário, a célere transformação da paisagem partidária que decorreria da desestatização dos partidos, compelidos por esse ato a buscar dinheiro exclusivamente entre os indivíduos (isto é, as pessoas físicas) que os apoiam. Infelizmente, contudo, mesmo na oposição, ninguém –nem a Marina sonhática da “nova política”!– sugere tal iniciativa. No Brasil, o Partido dos Políticos estende-se de Zé Maria até o Pastor Everaldo.

O Zé Maria que envelhece na telinha, sempre igual a si mesmo, não é indício das “contradições da democracia burguesa”, mas o certificado da perversa coerência de um sistema que corrompe a política. Não se amofine, Zé, o problema está em nós.

(*) Demétrio Magnoli é geógrafo. Mantém coluna em diversos jornais.

Economia brasileira, enfim com crescimento cubano

Percival Puggina (*)

Na edição desta última quinta-feira, o Estadão traz artigo do economista Roberto Macedo analisando os dados de um recentíssimo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). O robusto documento de 216 páginas traz a classificação dos países segundo o crescimento do PIB 2014 estimado pela Comissão.

Trinta e três países compõem a região. Estimando o crescimento do PIB brasileiro no corrente ano em 1,4% ― expectativa otimista que sequer o Banco Central corrobora ―, o Brasil fica em 27º lugar, empatado com Cuba.

Se adotarmos a expectativa mais realista, aquela com a qual os analistas do mercado vêm operando, o Brasil ficaria em 30º, à frente apenas dos parceiros petistas Argentina e Venezuela. E logo acima de Barbados, pequena ilha caribenha de 280 mil habitantes, fragmento do Reino Unido.

Lembra o autor do referido artigo que nosso governo tem afastado das próprias costas a responsabilidade por esse desastre, atribuindo o infortúnio a um rescaldo da crise internacional de 2008.

Ora, comento eu, como pode o mesmo governo, que cacarejou como seus os ovos dos bons índices de 2007, 2008 e 2010, remeter a algum sujeito oculto no mercado mundial os ônus das contas do malfazejo período Dilma? E, principalmente, por que outros 29 países da região crescem mais que o Brasil?

Ao que me consta, todos produzem, consomem, compram e vendem no mesmo planeta que nós, embora nosso governo pareça viver no mundo da Lua.

(*) Percival Puggina é arquiteto, empresário, escritor e colunista do jornal Zero Hora.
Edita o blogue puggina.org.

Frase do dia — 173

«Quando entramos no século 21, num país onde todas as legendas eram tradicionais e iguais entre si, o inconsciente coletivo registrava a existência de apenas um partido diferente ― probo e virtuoso como almoxarife de convento.

Bastou uma década para que esse partido cometesse suicídio moral. Na degradação do Brasil contemporâneo, Getúlio Vargas dispararia contra o próprio peito uma vez por semana.»

Percival Puggina, escritor, em sua coluna do jornal Zero Hora, 16 ago 2014.

A origem da receita

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem vai ao médico, nos dias de hoje, não se dá conta de que a regulamentação da profissão ― em terras europeias e americanas ― é relativamente recente.

Da Idade Média até o século XIX, a arte de curar foi exercida por corporações disparates, tais como: homens de igreja, barbeiros, boticários, tira-dentes, curandeiros, charlatães, feiticeiras.

Prescription 2A Revolução Francesa, entre outros feitos, tornou a sociedade consciente de que certas práticas ancestrais reclamavam por normatização. O sistema métrico, por exemplo, é fruto daquela época. Até então, havia um rosário de unidades de medida ― de peso, de capacidade, de tamanho. Pés, polegadas, quintais, braças, arrobas variavam de uma região a outra.

A Revolução, assim como normalizou as unidades de medida, apontou para a necessidade de sistematizar outros atos e procedimentos que cada um costumava, até então, executar a seu modo. A regulamentação de certos ofícios começou naquela época.

A valorização das profissões da área de saúde ― medicina, cirurgia, farmácia ― gerou, como corolário inevitável, o rebaixamento de curandeiros e feiticeiras. Barbeiros passaram a dedicar-se unicamente à pilosidade de seus clientes, deixando sangrias e extrações dentárias para profissionais habilitados.

Olho de Horus

Olho de Horus

Embora já fosse adotada esporadicamente desde o século XVII, ganhou força aquela marca de que uma receita tinha sido prescrita por um profissional. Tratava-se de um R barrado ― este aqui: .

Está em uso até nossos dias. É muito provável, distinto leitor, que o médico que cuida de sua saúde tenha guardado o que lhe ensinaram na escola e continue a marcar suas receitas com o símbolo distintivo da corporação. Preste atenção da próxima vez.

De onde vem essa, digamos assim, logomarca? Pois parece que a origem é incrivelmente longínqua. Dizem que as raízes descem até o Egito antigo. O R barrado seria a transcrição, se assim podemos nos exprimir, do hieroglifo que simbolizava o olho esquerdo de Horus, um dos deuses da mitologia egípcia.

Olho de Horus

Olho de Horus

Por que o olho esquerdo? Ih, é uma história complicada, com briga entre deuses, assassinato, esquartejamento, muito sangue. Numa luta entre Seth e Horus, o olho deste último teria sido arrancado e picado em 64 pedaços. Toth, o deus da ciência e da medicina, foi quem conseguiu recompor o despedaçado olho de Horus.

Seja como for, é surpreendente que milhares de médicos ao redor do planeta encabecem suas prescrições, talvez sem o saber, com símbolo forjado milênios atrás.

Frase do dia — 172

«Ela está desaparecida. Não descartamos que esteja no Brasil ou em qualquer outro lugar.»

Francisco Javier Cristaldo Gómez, subchefe da Interpol em Assunción, ao referir-se à companheira do fugitivo recapturado Abd El-Massih. In Estadão, 22 ago 2014.

Não me esqueçam!

José Horta Manzano

O senhor Julian Assange, nome meio esquecido ultimamente, está mofando há dois anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres.

by Patricia Storms, desenhista canadense

by Patricia Storms, desenhista canadense

Sabe-se lá por que razão, o gajo decidiu um dia subir ao telhado e gritar ao mundo o que o mundo já sabia. Contou que agências americanas bisbilhotavam a vida e a obra de gente importante e de empresas relevantes. Por malícia ou por ignorância, nada disse sobre agências de outros países.

O primeiro caso de espionagem se deu quando um agrupamento de neandertais sofreu a primeira cisão, indo cada subgrupo morar em caverna própria. A partir do dia seguinte, cada grupo designou emissário para, discretamente, inteirar-se do que estava acontecendo na caverna rival.

E assim continua até hoje. Todos espionam todos. Marido e mulher, pais e filhos, chefes e subordinados, bandoleiros, seitas religiosas, partidos políticos. E, com maior razão, países. Democráticos, comunistas, fascistas, autoritários, liberais, republicanos, monárquicos ― todos os países se espionam entre si. Na medida dos interesses de cada um e, é claro, de suas possibilidades.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

É altamente improvável que agências americanas sejam as únicas interessadas em abelhudar altas esferas brasileiras. Não precisa ser formado em contraespionagem para imaginar que russos, chineses, argentinos, britânicos, alemães, franceses também tentem colher informações sobre o que se passa em Tupiniquínia.

Bom, eu disse tudo isso para reafirmar que, ao dar com a língua nos dentes, o senhor Assange não disse nada de extraordinário. Todos fizeram cara de espanto e ar de melindre, mas era ― ou deveria ter sido… ― só pra inglês ver.

Depois de dois anos sem botar o nariz fora do imóvel onde se encontra, é compreensível que Assange esteja à beira de um ataque de nervos. Como bom súdito da Coroa, ele sabe que as autoridades britânicas não costumam largar o osso. Uma vez que decidiram negar-lhe salvo-conduto e vigiar a saída da embaixada 24 horas por dia, irão até o fim.

Outro dia, o refugiado bateu um papo telefônico com um jornalista do Estadão. Percebendo que, no Brasil, alguns ainda se lembram dele, decidiu requentar o prato já servido dois anos atrás.

Para botar medo nas autoridades brasileiras ― e tentar, quem sabe, cavar uma oferta de asilo ―, ressaltou o fato de que «os EUA são capazes de cortar o Brasil do resto do mundo em qualquer momento que queiram». É grande o risco de sua advertência cair em ouvidos de mercador.

EspiãoEm primeiro lugar, porque é de conhecimento geral que o grosso das telecomunicações planetárias transita pelos Estados Unidos. Assim é e assim continuará a ser. Não faz sentido instalar centenas de cabos submarinos para ligar o Brasil diretamente a cada país.

Em segundo lugar, porque o refugiado agita espantalho na hora errada. Período eleitoral não é momento adequado para esse tipo de polêmica.

Em terceiro lugar, vem a razão mais importante. O Brasil não precisa de interferência dos EUA para desligar-se do mundo. Nosso governo federal, com a inestimável ajuda dos aspones que cuidam de nossa diplomacia, já está cuidando, faz anos, de apequenar nossa importância na cena planetária. Mais alguns anos, conseguirão.

Thank you anyway, Mr. Assange. Valeu!

Rapidinha 29

José Horta Manzano

Biométrico
A Venezuela adota sistema biométrico para espionar o que o povo compra no supermercado. Dada a carência crônica de itens básicos, o cidadão tem direito de comprar cada tipo de alimento somente uma vez por semana.

É a tecnologia moderna a serviço do atraso.

Reviravolta

José Horta Manzano

Depois de 24 horas de reflexão, a Folha de São Paulo decidiu retratar-se. Até ontem, o jornal descrevia o cidadão Abd El-Massih como médico. Hoje, mudou de opinião. Como se pode constatar em sua edição online, o periódico cassou o diploma do fugitivo recapturado.

A Folha se retrata: El-Massih deixa de ser médico.

A Folha se retrata: El-Massih deixa de ser médico.

Como dizem os franceses, “só os idiotas não mudam de opinião”.

Frase do dia — 171

«Dilma Rousseff tenta transmitir ao eleitor a mensagem de que o Estado é tutor do bem-estar dos cidadãos e que, sem a continuidade do PT no poder, este ente provedor e “solucionador” se desmantela.

Aécio Neves tenta mostrar justamente o contrário: que o problema do País é o governo, ao atribuir à administração ‘dos últimos quatro anos’ tudo o que deu errado e ‘ao esforço dos brasileiros’ tudo o que deu certo.»

Dora Kramer, colunista do Estadão, ao comentar o primeiro dia de campanha política compulsória na tevê. Em 20 ago 2014.

É ou não é?

José Horta Manzano

Com alarido, toda a imprensa brasileira noticiou, em primeira página, a prisão do senhor Abd El-Massih, cidadão brasileiro. Condenado a quase 300 anos de cadeia(!) mas foragido da Justiça, o “elemento” ― como se diz no jargão policial ― foi capturado no vizinho Paraguai.

Até aí, morreu o Neves. Disso todo o mundo já sabe. O curioso vem logo a seguir. O homem tem diploma de medicina e exerceu seu ofício durante décadas. Desde que foi condenado, pendurou estetoscópio e bisturi. Como é que fica? Ainda é médico ou deixou de sê-lo?

A imprensa brasileira não é unânime. Alguns o consideram médico de direito pleno, enquanto outros já o privaram do título. Vejam só a cacofonia:

O jornal Tribuna do Norte já lhe aboliu a formação.

O jornal Tribuna do Norte já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal Zero Hora, ele ainda é médico.

Para o jornal Zero Hora, ele ainda é médico.

Interligne 28a

O jornal O Tempo já lhe aboliu a formação.

O jornal O Tempo já lhe aboliu a formação.

Interligne 28a

Para o jornal Tribuna Hoje, ele ainda é médico

Para o jornal Tribuna Hoje, ele ainda é médico

Interligne 28a

O Jornal do Brasil já lhe aboliu a formação.

O Jornal do Brasil já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal R7, ele ainda é médico.

Para o jornal R7, ele ainda é médico.

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O jornal Gazeta do Povo já lhe aboliu a formação.

O jornal Gazeta do Povo já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal O Globo, ele ainda é médico.

Para o jornal O Globo, ele ainda é médico.

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O jornal G1 já lhe aboliu a formação.

O jornal G1 já lhe aboliu a formação.

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Massih med Folha

Para o jornal Folha de São Paulo, ele ainda é médico.

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O jornal O Estado de São Paulo já lhe aboliu a formação.

O jornal O Estado de São Paulo já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal Correio Braziliense, ele ainda é médico.

Para o jornal Correio Braziliense, ele ainda é médico.

Interligne 28a

O jornal Estado de Minas já lhe aboliu a formação.

O jornal Estado de Minas já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal 247, ele ainda é médico.

Para o jornal 247, ele ainda é médico.

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O jornal Circuito Mato Grosso já lhe aboliu a formação.

O jornal Circuito Mato Grosso já lhe aboliu a formação.

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O jornal Cidade Verde prefere ficar em cima do muro. Não é, nem deixa de ser médico.

Para fechar com chave de ouro, o jornal Cidade Verde, hesitante, prefere ficar em cima do muro.

Interligne 28a

No meu parecer, não há que confundir profissão com função. Às vezes elas podem se sobrepor ― é o caso do advogado formado e diplomado que exerce a advocacia.

Podem também divergir. Há engenheiros formados que deram uma guinada e se tornaram comerciantes. Continuam sendo engenheiros de profissão, mas exercem atualmente a função de comerciantes.

O senhor do qual falamos neste artigo, ainda que tenha tido sua licença de exercer cassada, não deixou de ser médico de formação, de diploma e de profissão. E assim será até seu último suspiro.

Cargos políticos, embora às vezes nos pareçam eternos, são exemplo de função. Um presidente que já foi torna-se ex-presidente. Não existe a “profissão” de presidente, ainda que alguns assim imaginem.

Diretor, proprietário, empresário, chefe, vereador, encarregado são funções. São meros cargos com começo, meio e fim. Já médico, psicólogo, biólogo, geógrafo, bibliotecário são profissões regulamentadas. Para exercê-las, é preciso ser reconhecido pelo órgão que cuida dessa determinada área.

Resumo da ópera
O senhor Abd El-Massih pode até passar os próximos 300 anos no xilindró sem examinar nenhum paciente ― nem por isso deixará de ser médico.

Os avaliadores

José Horta Manzano

O Estadão noticiou que a correção das provas de redação da última edição do Enem ― Exame Nacional do Ensino Médio ― pôs em evidência a incompetência de alguns avaliadores. Eram gente que já tinha sido aprovada em primeira instância.

«Alguns avaliadores» é eufemismo meu. Foram 845(!) indivíduos de um total de 7121. Parece pouco? Pois são 12% dos contratados. Ainda parece pouco? Pois vale dizer que um em cada oito corretores é incompetente.

Estudante 2Segundo a reportagem, os contratados são submetidos a reavaliação permanente, razão pela qual tem sido possível separar o joio do trigo e, assim, apontar e eliminar os incapazes.

Como diz o outro, o buraco é bem mais profundo. A detecção de revisores ineptos não deveria ser confiada a processo permanente de reavaliação. A correta avaliação é incumbência dos selecionadores ― é lá que se situa a falha. Não é aceitável que, em oito corretores admitidos, um seja incapaz. Isso prova que a peneira está furada.

Para o concursando mal avaliado, as consequências podem ser graves. Maus corretores tanto podem reprovar bons candidatos, quanto podem deixar passar ― como já aconteceu ― gente que insere na redação receita de macarrão instantâneo ou hino de clube de futebol.

A retribuição de 3,61 reais por redação não permite ao corretor dedicar mais que uns poucos minutos a cada texto. Barbaridades tendem a passar despercebidas ― é inevitável.

ExameUma amiga minha, professora de uma faculdade cujo nome prefiro não citar, contava-me outro dia que já foi convidada a ser avaliadora da prova de redação do exame vestibular. Dona de grande honestidade intelectual, a moça preferiu declinar da oferta por não ser especialista no ramo. Ficou sabendo depois que a paga proposta aos corretores era de 1 real (unzinho só!) por prova.

Muitos aceitaram. Entre eles, houve que ficasse sem comer e ser dormir a fim de sapecar seu jamegão no maior número possível de textos. O distinto leitor fará, por si mesmo, ideia da qualidade do trabalho de avaliação. Assim como o demagógico «Mais Médicos» não resolveu o problema da Saúde Pública, nem um hipotético «Mais Escolas» ou, sabe-se lá, um «Mais Avaliadores» resolveriam, sozinhos, o problema da Instrução Nacional.

Só uma ação conjunta, planejada, bem arquitetada, bem executada, abrangente, lenta, gradual, segura e definitiva poderá tirar o Brasil do atraso cultural em que se encontra há 500 anos. Depende de cada um de nós e… dos que vierem depois.

Voto nulo funciona?

Rainer Sousa (*)

Você sabia?

Em nosso regime democrático, vários partidos políticos oferecem candidatos a cada disputa eleitoral. Em contrapartida, cabe aos cidadãos avaliar e escolher os mais afinados com seus interesses e anseios. Considerando a grande variedade de opções, chegamos à conclusão de que vivemos num regime político de amplas liberdades, onde o cidadão tem direito a todo tipo de discurso e de proposta.

urna 4Contudo, quando percebemos quanto é grave o problema da corrupção entre nossos representantes, acabamos por enfrentar séria questão. Que sentido faz, afinal, perder tempo avaliando e escolhendo um candidato que, cedo ou tarde, será denunciado pela participação nalgum esquema de corrupção ou de desvio de verba pública? É justamente por causa desse questionamento que vários eleitores acabam optando pelo voto nulo.

Ultimamente, boatos insinuaram que o voto nulo seria capaz de invalidar todo o processo eleitoral. Caso mais da metade dos votos fossem nulos, novo processo eleitoral deveria ser organizado. A hipótese se assenta no artigo 224 do Código Eleitoral, que diz que “se a nulidade atingir mais da metade dos votos do país nas eleições, (…) o Tribunal marcará nova eleição dentro do prazo de 20 a 40 dias”.

Para muitos, esse artigo faz que o voto nulo se transforme não só em arma de protesto, mas também em forma de alterar o cenário eleitoral. Entretanto, segundo recente interpretação do TSE, essa nulidade só invalida as eleições quando os votos são anulados por alguma fraude que determine sua desconsideração. Portanto, se mais de cinquenta por cento dos votos dos cidadãos forem nulos, prevalecerá a escolha daqueles que votaram em algum candidato. E não se discute.

Voto de cabresto

Voto de cabresto

Dessa forma, quando um cidadão vota nulo, acaba abrindo brecha para que um candidato ruim acabe vencendo a eleição ― com necessidade de número de votos até menor. Pensando bem, mais vale depositar confiança em legenda ou em candidato parcialmente satisfatório a facilitar a vida de algum perfil questionável. Ao fim das contas, a opção pelo voto nulo acaba denotando passividade diante do cenário político.

Há os que votam nulo por razões de ordem ideológica. Os anarquistas, por exemplo: costumam anular o voto por não reconhecerem a necessidade de autoridades nem de políticos para reger a vida da sociedade. Ao dilapidar o voto, expressam repúdio ― de princípio ― ao Estado, a leis, a governantes. Assinalam total falta de interesse pelas propostas, sejam elas quais forem.

Quer estejam certos, quer estejam errados, os anarquistas demonstram uma das facetas de nossa democracia: o direito de não escolher e de se submeter, sem lutar, à escolha de outrem.

(*) Rainer Sousa é diplomado em História.