Profissão e função ‒ 2

José Horta Manzano

Mais uma vez, volto ao assunto. É sempre bom repisar. Costumamos confundir profissão e função, que são duas realidades diferentes.

Profissão, mormente quando tiver sido adquirida por formação (eventualmente confirmada por diploma), tem caráter permanente. Faz parte do indivíduo. Ainda que ele quisesse, não poderia se livrar dela.

Quem completou curso de torneiro mecânico será torneiro mecânico pelo resto da vida, ainda que não exerça a profissão. O mesmo vale para o médico, o alfaiate, o padeiro, a parteira, a enfermeira.

Função é o nome do cargo ocupado, é o trabalho que o indivíduo exerce. Pode (ou não) empatar com sua profissão.

Um engenheiro de profissão pode estar exercendo função de sorveteiro. Nem por isso deixará de ser engenheiro.

Um advogado eleito deputado exercerá o cargo político sem que possa ser chamado de «ex-advogado». Já quando deixar a política, aí sim, será «ex-deputado», porque deputado não é profissão mas função.

Chamada Estadão, 27 abr 2018

A chamada do jornal fala em «ex-músicos», o que é um disparate. Um músico, ainda que, por algum motivo, se tenha afastado do instrumento, sempre músico será.

Mais um reparo sobre a chamada do jornal: por que «terceira idade»? Ninguém diz «primeira idade» nem «segunda idade», pois não? Então por que a terceira? Vamos dar nome aos bois. Jovem, adulto e velho. O termo “velho” não me parece ofensivo. Ainda assim, há quem prefira “idoso”. Ok, idoso, vá lá, ainda passa. Mas “terceira idade”, convenhamos, é de amargar…

A chamada ficará melhor se disser: «Mansão vira casa de repouso para músicos idosos».

 

Profissão e função

José Horta Manzano

Já falei sobre o assunto, mas hoje volto a ele. Trata-se da confusão que costumamos fazer entre profissão e função. Não são a mesma coisa. Profissão, em especial quando é reconhecida e obtida através de formação, tem caráter permanente. O indivíduo que tem acesso a um título profissional ao cabo de um período de instrução, de avaliação final e, eventualmente, de obtenção de diploma, ganha o que se costuma dizer “direito adquirido”. É para sempre, independentemente de exercer o ofício.

Chamada do Estadão

Para usar palavreado caseiro, é como a diferença entre ser e estar. O engenheiro que trabalha de pipoqueiro é engenheiro, mas «está» pipoqueiro. O sociólogo desempregado continua sendo sociólogo, embora esteja sem trabalho. O torneiro mecânico que se elege presidente da República será torneiro mecânico até o fim de seus dias ainda que possa ocupar temporariamente o cargo de presidente.

Músicos, psicólogos, eletricistas formados, contadores, farmacêuticos, enfermeiros são profissionais. Seguiram formação, cada um em seu ramo, e adquiriram o direito inalienável de ostentar o título. Ainda que se lhes retire ‒ por um tempo ou para sempre ‒ a licença de exercer, ninguém lhes pode cassar a formação.

Chamada da Folha de São Paulo

Função é outra coisa. O contador ganha a vida fazendo contabilidade ou vendendo pastéis. O químico exerce num laboratório ou entrega pizza. Profissão e função nem sempre empatam. (Político não é profissão, ainda que certas figurinhas carimbadas estejam há décadas fazendo política.) Diretor, porteiro de boate, gerente, office-boy tampouco são profissões. São funções transitórias.

Artigo do Correio Braziliense

Um médico formado e diplomado será médico até seu último suspiro, ainda que a licença de exercer lhe seja cassada. É impossível cassar-lhe a formação. No entanto, a mídia não é dessa opinião. Um certo senhor Abd El-Massih, ginecólogo condenado por múltiplos estupros a quase 200 anos de cadeia, era, continua sendo e será sempre médico. Como é compreensível, a Ordem dos Médicos retirou-lhe a autorização de exercer. Legalmente, não poderá mais cuidar de pacientes, mas nem por isso deixou de ser médico.

Artigo de O Globo

A totalidade da imprensa nacional o descreve como «ex-médico», perfil que me parece inadequado. Pode-se falar de um ex-pipoqueiro, de um ex-diretor, de um ex-presidente. Jamais de um ex-engenheiro ou de um ex-médico.

Reviravolta

José Horta Manzano

Depois de 24 horas de reflexão, a Folha de São Paulo decidiu retratar-se. Até ontem, o jornal descrevia o cidadão Abd El-Massih como médico. Hoje, mudou de opinião. Como se pode constatar em sua edição online, o periódico cassou o diploma do fugitivo recapturado.

A Folha se retrata: El-Massih deixa de ser médico.

A Folha se retrata: El-Massih deixa de ser médico.

Como dizem os franceses, “só os idiotas não mudam de opinião”.

É ou não é?

José Horta Manzano

Com alarido, toda a imprensa brasileira noticiou, em primeira página, a prisão do senhor Abd El-Massih, cidadão brasileiro. Condenado a quase 300 anos de cadeia(!) mas foragido da Justiça, o “elemento” ― como se diz no jargão policial ― foi capturado no vizinho Paraguai.

Até aí, morreu o Neves. Disso todo o mundo já sabe. O curioso vem logo a seguir. O homem tem diploma de medicina e exerceu seu ofício durante décadas. Desde que foi condenado, pendurou estetoscópio e bisturi. Como é que fica? Ainda é médico ou deixou de sê-lo?

A imprensa brasileira não é unânime. Alguns o consideram médico de direito pleno, enquanto outros já o privaram do título. Vejam só a cacofonia:

O jornal Tribuna do Norte já lhe aboliu a formação.

O jornal Tribuna do Norte já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal Zero Hora, ele ainda é médico.

Para o jornal Zero Hora, ele ainda é médico.

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O jornal O Tempo já lhe aboliu a formação.

O jornal O Tempo já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal Tribuna Hoje, ele ainda é médico

Para o jornal Tribuna Hoje, ele ainda é médico

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O Jornal do Brasil já lhe aboliu a formação.

O Jornal do Brasil já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal R7, ele ainda é médico.

Para o jornal R7, ele ainda é médico.

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O jornal Gazeta do Povo já lhe aboliu a formação.

O jornal Gazeta do Povo já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal O Globo, ele ainda é médico.

Para o jornal O Globo, ele ainda é médico.

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O jornal G1 já lhe aboliu a formação.

O jornal G1 já lhe aboliu a formação.

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Massih med Folha

Para o jornal Folha de São Paulo, ele ainda é médico.

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O jornal O Estado de São Paulo já lhe aboliu a formação.

O jornal O Estado de São Paulo já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal Correio Braziliense, ele ainda é médico.

Para o jornal Correio Braziliense, ele ainda é médico.

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O jornal Estado de Minas já lhe aboliu a formação.

O jornal Estado de Minas já lhe aboliu a formação.

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Para o jornal 247, ele ainda é médico.

Para o jornal 247, ele ainda é médico.

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O jornal Circuito Mato Grosso já lhe aboliu a formação.

O jornal Circuito Mato Grosso já lhe aboliu a formação.

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O jornal Cidade Verde prefere ficar em cima do muro. Não é, nem deixa de ser médico.

Para fechar com chave de ouro, o jornal Cidade Verde, hesitante, prefere ficar em cima do muro.

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No meu parecer, não há que confundir profissão com função. Às vezes elas podem se sobrepor ― é o caso do advogado formado e diplomado que exerce a advocacia.

Podem também divergir. Há engenheiros formados que deram uma guinada e se tornaram comerciantes. Continuam sendo engenheiros de profissão, mas exercem atualmente a função de comerciantes.

O senhor do qual falamos neste artigo, ainda que tenha tido sua licença de exercer cassada, não deixou de ser médico de formação, de diploma e de profissão. E assim será até seu último suspiro.

Cargos políticos, embora às vezes nos pareçam eternos, são exemplo de função. Um presidente que já foi torna-se ex-presidente. Não existe a “profissão” de presidente, ainda que alguns assim imaginem.

Diretor, proprietário, empresário, chefe, vereador, encarregado são funções. São meros cargos com começo, meio e fim. Já médico, psicólogo, biólogo, geógrafo, bibliotecário são profissões regulamentadas. Para exercê-las, é preciso ser reconhecido pelo órgão que cuida dessa determinada área.

Resumo da ópera
O senhor Abd El-Massih pode até passar os próximos 300 anos no xilindró sem examinar nenhum paciente ― nem por isso deixará de ser médico.