José Horta Manzano
Chamada do Estadão deste 3 jul° 2015.
No “se alguém roubou”, o curioso é o “se”. Nosso guia não acredita. Considera tudo isso uma armação contra sua inefável pessoa.
José Horta Manzano
José Dirceu, bravo herói do povo brasileiro, ordenou a seus advogados que entrassem com pedido de habeas corpus preventivo. Fiquei tão comovido! Um homem tão bom descer à humilhação de implorar por clemência. Uma crueldade.
Como sabem meus distintos leitores, não sou do ramo, daí minha ignorância. Tenho dificuldade em entender certas firulas jurídicas. Como é possível um cidadão obter garantia de que não será preso antes mesmo da expedição de mandado de prisão? E sem que se conheça o exato teor de eventual acusação?
É intrigante. Se um ministro caído pode, por que não poderiam seus companheiros de infortúnio? Como é possível que Odebrecht & colegas não tenham pensado nisso antes de serem encarcerados? Estariam livres e soltos hoje. Gente imprudente…
O requerimento foi impetrado por seis (meia dúzia) dos maiores advogados criminalistas brasileiros. Presumivelmente fazem trabalho voluntário. De fato, o requerimento de 40 laudas argumenta que senhor Dirceu «nunca se pautou por fins mesquinhos ou gananciosos». Acrescentam que «com ele, não encontrarão riquezas escondidas». Afirmam ainda que «dele, não acharão contas no exterior».
Discorri, mês passado, sobre a diferença entre titular e beneficiário de conta bancária em paraíso fiscal. Que clique aqui quem quiser refrescar a memória. O homem forte da era Lula não há de ser titular de conta nenhuma no exterior, que bobo não é.
O que mais me comoveu no pedido de clemência foi a alegação de que o impetrante está hoje «no crepúsculo de sua vida», que já foi «processado, condenado, preso». Como tem apanhado da vida, esse infeliz…
Fugindo à verdade rigorosa, o documento alega ainda que o requerente está com 70 anos de idade. Admito que número redondo soe melhor, mas José Dirceu acaba de completar 69 anos, o que não faz dele propriamente um ancião. Marín, de 83 aninhos, continua enjaulado em Zurique. Sem habeas corpus.
Enfim, ficamos aqui na torcida para que o egrégio tribunal seja sensível ao drama daquele que já foi agitador de massas, prisioneiro, exilado; um homem que mudou de nome e que se casou sem revelar à esposa a verdadeira identidade; um santo, que não fez outra coisa na vida senão dedicar-se à redenção da miséria dos brasileiros, sem jamais pedir nada em troca. Um franciscano.
Observação:
Desiludido com os novos caminhos do partido, o petista histórico Hélio Bicudo, homem de cultura e fundador do PT, desfiliou-se em 2005, à época do mensalão. Tempos mais tarde, revelou a intenção verdadeira da implantação da bolsa família. O vídeo, de um minuto e meio, está aqui.
José Horta Manzano
Você sabia?
Outro assunto que está em todas as bocas estes dias é o nó financeiro enfrentado pela Grécia. Fica ou não fica na zona do euro, aprova ou não aprova restrições financeiras, o grego está na dúvida.
Em busca de respaldo popular, o primeiro-ministro decidiu convocar um plebiscito. O povo terá de responder por um sim ou por um não.
Não, no, non, nein, nej, niet – as línguas europeias costumam expressar negação com uma palavra começando por ene. Mas nem todas fazem isso. Os gregos, justamente, utilizam o termo Ναι (pronúncia: né) para dizer sim. Quando querem negar, dizem Óχι (pronúncia: óhi).
Para nós, é desnorteante. Vasto mundo…
José Horta Manzano
Você sabia?
A Europa ocidental enfrenta estes dias onda de calor saariana. Por sinal, trata-se de uma bolha de ar extremamente aquecido que escapou do deserto e chegou até aqui.
Ontem, 2 de julho, fez quarenta graus em Paris. Desde 1947, o termômetro não subia tão alto por lá. Na Andaluzia, sul da Espanha, a temperatura tem atingido os 44 graus.
Até na moderada Suíça, estamos transpirando. Em Genebra, fez ontem 35°. E aqui está a previsão para os próximos cinco dias:
Quem foi mesmo que disse que na Europa nunca faz calor?
Períodos extremamente quentes são aqui ditos caniculares. Neste momento, atravessamos uma canícula. As palavras são as mesmas em nossa língua, embora mais raramente usadas. Conhece a origem da expressão?
A estrela mais brilhante do céu chama-se Sirius. Fica na constelação do Cão Maior, donde seu apelido: Canicula – cachorrinha. Cão, em latim, é canis.
No Hemisfério Norte, entre 24 de julho e 24 de agosto, Sirius nasce e se põe junto com o Sol. Dado que é justamente nesse período do ano que sobrevêm os grandes calores, os dois fenômenos se amalgamaram na cabeça das gentes. Calor forte identifica-se com canícula. Ou seja: um calor do cão.
Myrthes Suplicy Vieira (*)
Maioridade penal: eis aí um daqueles temas cujo debate gera, como dizem os ingleses, mais calor do que propriamente luz. Fácil é arregimentar argumentos contra e a favor de sua redução. Difícil me parece ser encontrar um caminho legal que pareça justo a ambas as partes para lidar com a crescente onda de violência no país.
Durante as recentes manifestações contrárias à redução da maioridade penal pude ver um cartaz onde se lia: “Para que punir se podemos educar?” Boa pergunta! Se estamos aptos a oferecer a nossos menores uma educação de qualidade capaz de sensibilizá-los para sua responsabilidade na promoção do bem estar social, por que não o fazemos? E, caso alguém acredite que isso já está sendo feito, por que não estamos obtendo os resultados desejados?
Penetrando um pouco mais nessa polêmica, já há consenso no país quanto ao que significa educar? A quem pertence essa tarefa? Frequentar uma instituição de ensino é critério suficiente? Há já um número suficiente de escolas públicas de qualidade para acolher todos os que delas precisam? Se a educação não se restringe à escola, que outros passos estão sendo dados para envolver os demais segmentos culturais, sociais e políticos?
Faltam muitas informações não só sobre essas questões mas também e principalmente sobre os projetos de reeducação e reinserção social de menores infratores. Você sabe a que tipo de medidas socioeducativas são expostos esses menores? Quais são mesmo as taxas de reincidência? Como é feito, se isso acontece, o acompanhamento psicossocial dos adolescentes que já atingiram a maioridade legal e que tenham delinquido antes dela?
Quero jogar um pouco mais de gasolina nessa fogueira. Não é preciso ser nenhum especialista em comportamento humano para traçar o perfil psicológico padrão de um adolescente. Sensação de imortalidade, rebeldia, desejo de se destacar do grupo de referência (qualquer que seja o meio para atingir esse objetivo), impulso permanente de expandir os próprios limites e aceitação dos riscos.
Pois é, está claro que maioridade é uma coisa e maturidade outra bem distinta. Não é à toa que cientistas comportamentais vêm se esforçando em apontar as diferenças entre inteligência racional (capacidade de discernimento entre o que é certo ou errado) e inteligência emocional (capacidade de controlar impulsos e projetar consequências dos próprios atos). Se você duvida que essa seja uma tarefa relevante, por favor responda às perguntas abaixo.
Com que idade você acha que seu filho (ou filha) pode começar a agredir verbalmente outros membros da família? A partir de qual idade ele ou ela estaria autorizado a pegar o dinheiro que estava sobre a mesa da sala e usar em proveito próprio sem dizer nada a ninguém? A partir de qual faixa etária, ele ou ela estaria liberado para agredir fisicamente irmãos, praticar ‘bullying’ com colegas de escola, torturar o gato ou cachorro da família? Com que idade você diria que ele ou ela pode começar a impor seus desejos e crenças a seus parceiros sexuais?
Se você respondeu a essas questões com um número – não importa qual – certamente vai se ver às voltas com um sem número de problemas que o forçarão a rever seu conceito pessoal de paternidade responsável.
Alguém já disse que educar é frustrar. A meu ver, é também a colocação de limites, o estabelecimento de uma linha divisória entre o que a autoridade familiar considera tolerável e os comportamentos julgados inadmissíveis por colocarem em risco a própria integridade ou a de terceiros.
À idade cronológica não corresponde forçosamente a mesma idade mental. Da mesma forma, à inteligência mental não corresponde o mesmo patamar de inteligência emocional. Conhecemos todos pessoas que, do dia em que nascem até seu último suspiro, são incapazes de conviver harmoniosamente em sociedade.
Colocar os interesses pessoais à frente do respeito devido a quem atravessa nosso caminho é sintoma claro de imaturidade emocional. Se a ela se agrega um quadro de permissividade social, a solução dos conflitos fica cada vez mais distante. Na adolescência, a inconformidade com a colocação de limites vem quase sempre embalada em desvios de conduta social, já que o mote dessa fase de vida é a autoexperimentação. Porres homéricos, consumo de drogas, rachas de automóvel, brigas na rua, vandalismo, práticas sexuais inconsequentes. Sinta-se à vontade para incluir outros exemplos do desejo quase incontrolável do jovem de se autoafirmar acima e além de qualquer outra forma de controle social.
A pergunta crucial que está sendo feita neste momento é se o jovem com idade inferior à constitucionalmente definida como maioridade legal deve ou não responder pelas consequências de seus atos.
Para mim, há uma diferença gritante entre responsabilizar e punir. Se não recai sobre a minha cabeça a necessidade de reparar ou compensar eventuais transtornos que eu possa ter causado voluntária ou involuntariamente a terceiros, não tenho como avançar em meu processo de amadurecimento psicológico.
O que precisamos discutir com urgência é de que forma essa reparação pode e deve ser feita. Já está suficientemente claro para todos que não basta trancafiar infratores – tenham a idade que tiverem – jogar fora a chave e fazer de conta que não haverá efeitos colaterais indesejáveis.
Adotar a tática do avestruz e deslocar as atenções para a complexa questão carcerária brasileira é, a meu ver, uma decisão tão ou mais irresponsável do que a própria delinquência juvenil que se pretende combater.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
«Para obter as provas, a Justiça e o Ministério Público valeram-se da delação premiada, um método legítimo, previsto em lei. E muito útil para desmontar esquemas de corrupção. Na Itália, contra a máfia, funcionou muito bem.»
Dilma Rousseff, em entrevista concedida à revista Carta Capital, publicada em 20 out° 2014.
José Horta Manzano
Você sabia?
Há de ter sido lindo, muito romântico. O noivo já não era tão jovem, mas pouco importa: o que conta é o simbolismo da união. Troca de alianças é sempre momento marcante.
A cerimônia foi simples e durou apenas 15 minutos. O histórico e aprazível burgo de Cananeia, no litoral sul de São Paulo, foi escolhido como palco. A bênção aos nubentes foi concedida por uma mãe de santo.
Não sei se a tevê brasileira terá dado a notícia. Na mídia escrita, não vi nada. Foi preciso consultar o jornal regional italiano Gazzetta di Parma pra ficar sabendo.
Quem era o casal? Quanto à noiva, a notícia pouco diz. Já o noivo é mais conhecido – trata-se de signor Cesare Battisti, notorio foragido da justiça italiana, país onde foi condenado, à revelia, à prisão perpétua por participação em quatro homicídios.
É exatamente aquele a quem nosso guia garantiu asilo político, em petulante escárnio à democracia italiana. Ainda pior fica o quadro se levarmos em conta que esposa, filhos e netos de nosso ex-presidente são cidadãos daquele país.
Sutileza, inteligência e coerência nunca foram características daquele que um dia imaginou ficar registrado na História do Brasil como salvador da pátria.
Que goze, abastado e tranquilo, sua velhice. E que nos deixe em paz.
José Horta Manzano
Viagem ao exterior costuma acalmar medalhões. A distância do Planalto, a rotina quebrada, o entorno diferente, os compromissos com gente desconhecida, tudo isso contribui para distender o espírito.
Uma das grandes pérolas do Lula, por exemplo, foi soltada durante viagem a Paris. Se um pequeno excesso de vinho de Bordeaux ajudou a relaxar o então presidente, não se sabe. Fato é que nosso guia fez aquela famigerada confissão sobre caixa dois. Alegou que seu partido fazia o que todos os outros sempre tinham feito. Algo do tipo: «Sou, mas quem não é?»
Dona Dilma – não é a primeira vez que o demonstra – parece fugir ao padrão. Passeia atualmente sua ranzinzice pelos EUA, de onde continua nos remetendo chispas mal-humoradas e arrevesadas.
Ainda ontem, acuada pelas acusações que se aproximam perigosamente de sua augusta pessoa, soltou nova pérola: «Eu não respeito delator». Desvairada, foi buscar no fundo do baú uma lição recebida de dona Mariquinhas, no grupo escolar, lá pelos anos 50. Lembrou-se de que os inconfidentes mineiros foram traídos por um delator. E deixou no ar a analogia pérfida: delação premiada equivale a traição.
No fundo, dona Dilma tem razão. Hemos de convir que, pelas leis de toda organização criminosa, entregar comparsas é atitude imperdoável. No entanto, a coerência manda que a presidente rechace todas as delações que lhe disserem respeito, tanto as que a atormentam quanto as que a favorecem.
Aos olhos de dona Dilma, delatores da megarroubalheira da Petrobrás são infames, desprezíveis, levianos, e a eles não se deve dar crédito. Como justificar, então, a acolhida que a presidente reservou às revelações de um certo senhor Snowden, aquele jovem destrambelhado que delatou as práticas da agência nacional de segurança de seu país?
Sem dúvida, meus distintos leitores se lembram que, quando a delação daquele funcionário «arrependido» foi espalhada aos quatro ventos, dona Dilma não se mostrou indignada nem disse que não respeitava delatores. Muito pelo contrário. Baseada unicamente na delação – que, por ironia, nem premiada era – cancelou visita de Estado programada para os EUA. E fez beicinho durante dois anos.
Tsk, tsk, francamente… A coerência não é a qualidade primeira de nossa presidente. Se eu fosse ela, reduziria a frequência de viagens ao estrangeiro. Não lhe fazem bem.
José Horta Manzano
A Grécia está numa sinuca de bico. Como costuma acontecer, o drama vem de longe, não começou semana passada. E os culpados são muitos.
Tradicionalmente, fugir de impostos, burlar leis e dar jeitinho têm constituído esporte nacional naquele país. O mal não se restringe aos do andar de cima, mas se espalha por todas as camadas sociais.
Na hora do vamos ver, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Quem tinha dinheiro já abrigou seus lingotes de ouro em lugar seguro. Vai caber aos despossuídos pagar o preço da incúria pela qual são apenas parcialmente responsáveis.
Semana passada, o governo mandou afixar em bares e restaurantes um cartaz informando que, caso não lhe seja fornecida nota fiscal, o cliente tem o direito de não pagar pelo que tiver comido ou bebido. É folclórico, engraçado, provavelmente eficaz, mas chega tarde demais. Tivessem tomado atitudes firmes como essa dez ou vinte anos atrás, não estariam hoje em situação tão precária.
A União Europeia pecou por ingenuidade e excesso de confiança ao aceitar a Grécia no clube do euro sem impor um controle fiscal permanente. Não digo que o mau comportamento de dez milhões de gregos comprometa o bom andamento de uma Europa de meio bilhão de habitantes. Mas funciona como calo no pé: é pequenino, mas dói e incomoda.
A situação grega guarda algumas semelhanças com o que acontece no Brasil. Sucessivos governos gregos maquiaram contas públicas. Contaram com a cumplicidade de firmas internacionais de auditoria. Abusaram do que conhecemos como pedaladas fiscais. Foi indo, foi indo, até que um dia a bolha estourou e não deu mais pra ocultar a malandragem. Isso lembra nossa penosa situação fiscal, né não?
Pra corrigir distorções e repor a Grécia nos eixos, os sócios europeus exigiram rigor fiscal e outras medidas de austeridade. Descontentes, os gregos entregaram as rédeas do governo a um político jovem, boa-pinta, que prometia solução mágica e indolor. Aperto fiscal? Restrições? Ajustes? «Jamais faremos isso!» – prometeu de pés juntos. Isso lembra a última campanha eleitoral de nossa presidente, né não?
Eleito, o salvador da pátria teve de aceitar a realidade. Fora da responsabilidade fiscal, não há salvação. Alemanha, França e os demais sócios não estão dispostos a manter a Grécia sob assistência respiratória. O povo helênico tem de fazer o esforço que não fez durante anos.
Como dona Dilma, o primeiro-ministro grego se viu em saia justa. Não ia poder cumprir o que havia prometido. Como fazer? Dona Dilma optou pela caradura – fez tudo o que tinha jurado não fazer. E dane-se quem não gostar.
Mais prudente, senhor Tsipras convocou o povo para um voto no fim desta semana. Pouco importa a pergunta que será feita, o que se quer saber é se os gregos desejam permanecer na zona do euro. Seja qual for o voto dos eleitores, senhor Tsipras sairá bem na foto: ele estará simplesmente cumprindo a decisão do povo.
Prevê-se um não maciço. Se se confirmar, a Grécia deverá abandonar o clube da moeda única. Do qual nunca devia ter feito parte.
«Dilma encerra a viagem pela bela Califórnia. Irá à Universidade Stanford, ao Centro de Pesquisas da Nasa e à sede do Google onde, se tiver sorte, dará um passeio e tirará boas fotos nos carros inteligentes. Um carro sem marchas, sem espelhos, sem volante – e sem motorista. Mais ou menos como o atual governo brasileiro, mas não aos trancos e barrancos.»
Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 28 jun 2015.
“Hoje eu estou saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil!”
Presidente Dilma Vana Rousseff
“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff
“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff
“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula
“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula
“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, sobre Windhoek, capital da Namíbia, África
“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso
“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso
“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco
“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco
“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello
“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello
“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney
“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney
“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas
“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo
“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo
“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel
“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici
“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva
“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco
“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart
“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros
“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.
“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira
“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira
“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira
“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas
“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas
“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas
“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza
“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes
Inspirado em coletânea organizada por Pedro Luiz Rodrigues e publicada no Diário do Poder.
Francisco de Paula Horta Manzano (*)
Lá pelos idos anos 70, eu não poderia ser considerado exatamente um fã de visitas ao barbeiro, a quem hoje chamam cabeleireiro. Nos dias de hoje, moderninhos toda a vida, ainda existem os salões de barbearia, que só atendem a homens e os salões de beleza, que dão atendimento a mulheres. Há ainda os chamados unisex, que eu não imagino a quem atendam. Coisas dos tempos.
Naquela época, eu ia a um salão de barbeiro lá muito de vez em quando, geralmente quando minha mãe ameaçava me deserdar, ameaça que só fui descobrir muito tempo mais tarde não ser verdadeira, pois nunca houve herança nenhuma. Mas, na época, funcionava sempre.
Enfim, era até interessante quando eu ia cortar o cabelo. As más línguas diziam que eu ia, na verdade, podar os cabelos. Intriga apenas. Eu ia cortá-los mesmo. Mas era, de fato, interessante. Meus sobrinhos, pequenos àquela época, ficavam ansiosos esperando por minha volta, na esperança de ter sido encontrado algum dos carrinhos de brinquedo deles em meio a minha longa e farta cabeleira enfim cortada (ou podada, se preferirem).
Mas os tempos mudaram. Hoje eu vou frequentemente ao barbeiro e desconfio que ele só trocou de carro este ano graças a minhas repetidas visitas. Agora ando torcendo para que ele troque a tesoura, que já não corta mais nem água. O pente ainda é um daqueles Carioca, banguela de alguns dentes. Calculo que deve datar de quando ele (o barbeiro) ainda era mocinho. Agora ambos são velhinhos, o barbeiro e o pente.
Ainda na semana passada, fiz minha mais recente visita ao salão. É um salão antigo, tradicional. O barbeiro é velhinho, já sofreu derrame e treme muito, justamente com a mão direita, o que, para quem não o conhece, pode assustar um pouco, uma vez que ele é destro. Mas, por hábito, após frequentar o mesmo lugar por anos e anos, confesso que me afeiçoei ao profissional e talvez até sentisse falta dele se um outro mexesse em meus cabelos sem que a mão tremesse. Acharia muito estranho.
O salão é uma festa permanente com todo aquele pessoal que vai apenas para conversar, contar piadas, contar mentiras, fazer hora. Uma opção inclusive para aqueles que querem chegar um pouco mais tarde em casa, fugindo da sogra. E eu lá, ajudando o seu Antenor a trocar de carro. Assim é o salão O Pente de Ouro. Luxuoso, não se pode dizer que seja, mas pelo menos nome pomposo, isso com certeza ele tem.
Em minha mais recente aventura (é literalmente uma aventura) n’O Pente de Ouro, cheguei, cumprimentei todos os presentes, um a um, e levei certo tempo até descobrir quem realmente esperava para ser atendido e quem apenas se escondia da sogra.
Depois de algum tempo, consegui finalmente sentar-me na cadeira para ser atendido. Tirei meus óculos e meu aparelho de surdez. As pernas não tirei porque, por enquanto, ainda são minhas mesmo. (E procuro aproveitar bem enquanto elas ainda o são!) Estava pronto para ser atendido. Eu disse que queria que ele desse apenas uma aparadinha. Ele perguntou se eu não gostaria de um corte mais moderninho, uma coisa assim mais ou menos entre Ronaldinho e Chico César quem sabe. Eu agradeci pelo oferecimento, mas insisti que queria apenas uma aparadinha.
Já sem meus óculos, portanto, sem ter como enxergar a mim mesmo no espelho, ainda tive a cadeira virada de tal forma que fiquei de costas para o dito. Cá entre nós, comecei a sentir um certo temor naquela hora.
Ele me perguntou alguma coisa sobre como deveria cortar na parte de trás da cabeça, mas eu, já sem aparelho para surdez, não entendi direito e, antes que eu pedisse para repetir a pergunta, ele empurrou minha cabeça para a frente, forçando o pescoço para baixo, de forma que eu não consegui mais falar. Mesmo que falasse, não seria ouvido daquele jeito.
E ele continuava a cortar, fazendo pequena pausa a cada duas ou três tesouradas para olhar para o lado, segurando o pente e a tesoura no ar, enquanto fazia algum comentário em voz muito alta e animada com o pessoal que estava por lá. Ele conversava, a prestação, sobre futebol, mulher, sogra, política. E fofocava, coisa que a gente acha que só ocorre em salão de mulheres. Assim continuou até que eu percebi que ele se afastou um pouco de mim, foi até perto do colega, barbeiro da cadeira ao lado, e cochichou alguma coisa enquanto os dois olhavam para mim. Percebi um movimento negativo da cabeça de um dos dois, não soube definir qual deles – os dois eram apenas vultos para mim, sem óculos naquela hora. Aquilo me causou um mau pressentimento. Mesmo assim, continuei firme em meu lugar.
Quando ele voltou para continuar o corte moderninho, percebi que não falava mais com o pessoal do salão. Agora se concentrava no trabalho como deveria ter feito desde o início. Apenas dava algumas tesouradas, assim meio no ar, como se tentasse aparar um pouco mais aqui e ali, parecendo não saber mais onde deveria cortar.
Não demorou muito até que ele fez minha cadeira voltar à posição inicial, de frente para o espelho. Quando finalmente consegui pôr meus óculos, dei-me conta de que minha cabeça estava com uma aparência muito semelhante a, eu diria, uma pizza calabresa com orelhas…
Só após reposicionar meu aparelho de surdez consegui ouvir a voz dele, agora baixinha, meio sem jeito, me dizendo que, com aquele sol todo de verão, seria aconselhável eu usar um chapéu bem grande para me proteger. Considerando o corte que ele havia feito, ficou patente que a sugestão do chapéu era para me proteger, sim, não do sol mas do ridículo. Com certeza.
Era uma daquelas situações em que você percebe logo que o melhor que tem a fazer é resignar-se e ficar quieto, pois não vai adiantar nada dizer ou fazer o que seja. Definitivus est.
Despedi-me e ainda agradeci. Tive dificuldade em fazê-lo aceitar o pagamento. Ele deve ter achado injusto deixar-me pagar por aquilo. Para minha tristeza, eu estava a pé e assim voltei para casa. Agradeci a Deus por não ter encontrado nenhum conhecido pelo caminho.
Agora, caso precisem de mim, continuo em casa tentando descobrir onde foi que guardei o chapéu que usei no último baile do cafona a que compareci, muitos anos atrás, mas que agora vai ficar até bonitinho em meu cocuruto. Pelo menos até eu conseguir consumir um pouco da cobertura da pizza. Aceita uma linguicinha?
(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.
José Horta Manzano
Todos os brasileiros com mais de quarenta anos hão de se lembrar da Casa da Dinda, aquela que entrou para a história como objeto de grande jogada de marketing de Collor de Mello.
Todo presidente da República tem direito a duas residências oficiais: o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. Ao ser eleito na onda da promessa de «caçar marajás», senhor Collor tomou decisão desconcertante: renunciou às residências oficiais. Para não desperdiçar dinheiro público, segundo declarou, preferiu instalar-se em mansão familiar às margens do Lago Paranoá.
A lógica ensina que, com presidente ou sem ele, residências oficiais continuam tendo de ser mantidas e conservadas com todo o seu pessoal. Portanto, a ausência da primeira-família resulta em economia próxima de zero. Mas, na hora, a decisão causou frisson.
Meses depois, o Brasil descobriu que os fundos «economizados» tinham sido reinvestidos – com juros e correção! – em melhoramentos na Casa da Dinda. Suspeita-se que dinheiro da corrupção tenha sido usado para plantar centenas de árvores e construir cachoeiras motorizadas. Contam ainda que, para maior conforto dos peixes que povoavam os tanques, a água era filtrada.
Quem dá mais? Em matéria de residência presidencial, o máximo que vimos nestes últimos anos foi um reles triplex no Guarujá. De uma banalidade constrangedora. Mas na Turquia, terra de sultães e de odaliscas… ah, no Oriente exuberante, não se fazem as coisas pela metade!
Senhor Erdoğan, que foi primeiro-ministro por mais de onze anos e hoje oficia como presidente da República, mandou construir um palácio presidencial. O suntuoso imóvel, projetado para abrigar condignamente o mandatário, já está pronto. Fica em Ânkara, capital do país.
Sua área construída de 200 mil m2 – duzentos mil metros quadrados! – espalha-se por 1.150 cômodos e custou a bagatela de 490 milhões de euros. O prédio serve de residência para o presidente. Dado que há salas suficientes, é também usado como sede do governo.
Quase todos os turcos são maometanos. Pelo calendário religioso, um dos meses do ano lunar, o Ramadã, é dedicado à oração, ao recolhimento e ao sacrifício. Os preceitos são rígidos: durante um mês, os fiéis devem jejuar do nascer ao por do sol. É natural que o jejum absoluto, sem comida e sem água, resulte em fome de leão ao final do dia.
Para reunir os ministros para a quebra de jejum, senhor Erdoğan mandou montar uma mesa gigantesca que está fazendo furor. Tem a superfície de uma quadra de squash e custou um milhão de libras turcas: 1.200.000 reais.
Como pode constatar o distinto leitor, desperdício de dinheiro público não é exclusividade tupiniquim.
Uma curiosidade
Contei 29 pessoas ao redor da mesa. Incluindo o lugar vago, cabem 30. Os lugares não seriam suficientes para o espaçoso ministério de dona Dilma. Dez auxiliares teriam de sentar-se à mesa das crianças.