Fim da fila

José Horta Manzano

Com relação ao coronavírus, o Brasil está desperdiçando a sorte (se é que se pode falar em sorte) de estar no fim da fila. Ásia e Europa estão na linha de frente e tiveram de começar a enfrentar o Covid-19 há semanas ou até meses. O que europeus e asiáticos fizeram de certo e o que fizeram de errado tem de servir de guia do que se deve fazer e do que se tem de evitar.

Atitudes como a do presidente neste último domingo são verdadeiro crime contra a nação. No espaço de uma hora, ele fez tudo o que tem de ser banido, caso se queira conter a expansão do vírus.

Fim da fila

Bolsonaro é importante, mas, por sorte (e aqui se pode falar em sorte), não é a única autoridade no Brasil. Há ministros, parlamentares, cientistas, médicos, influenciadores de todo tipo, que podem (e devem) neutralizar o primitivismo do presidente. Têm de soltar a voz e a pluma, cada um dentro de suas possibilidades.

O importante é agir. Não dá pra continuar de braços caídos à espera de uma orientação segura vinda do Planalto: ela não virá.

Das duas, uma

José Horta Manzano

Não vi as imagens, mas li que doutor Bolsonaro andou de novo fazendo das suas. Foi ontem, por ocasião das manifestações que ele ajudou a convocar, e que serviam a dois propósitos: louvação do próprio convocador (o presidente) e execração dos ‘inimigos’ (que é como extremistas primitivos enxergm todos os que não pensam como eles).

Segundo o Estadão, doutor Bolsonaro teve contacto direto com 272 pessoas, manuseou 128 celulares alheios, apertou a mão de 140 pessoas! Nestes tempos de pandemia e confinamento, é atitude nojenta. Estamos acostumados às extravagâncias do capitão, mas ontem ele subiu mais um degrau da escada da estupidez.

Das duas, uma
Primeira suposição. Doutor Bolsonaro, apesar de usar máscara cirúrgica na última ‘laive’ que fez para seu clube, não acredita na ameaça do coronavírus. Continua certo de que é «invenção da grande mídia». Se assim for, está dando prova de viver num universo paralelo. O terrível exemplo que ele está dando tem o poder de contaminar meio Brasil. Os mais humildes, que viram as imagens, vão se dizer: «Ué, se ele pode, eu também». E a porteira estará aberta para a contaminação exponencial do povo brasileiro.

Segunda suposição. Doutor Bolsonaro sabe que está infectado. Não divulgou porque é contrário a seus interesses. Mesmo sabendo que está potencialmente contagioso, teve contacto voluntário com centenas de pessoas. Se assim for, temos na chefia do Executivo um perigoso delinquente que não merece o trono em que está sentado.

E agora?

José Horta Manzano

A epidemia de Covid-19, o novo coronavírus devasta o planeta numa onda que veio do Extremo Oriente, chegou à Europa e ameaça as Américas. Escorado no comportamento fanfarrão de seu ídolo americano, doutor Bolsonaro tem se mostrado nulo. Em vez de agarrar a ocasião pra subir ao palanque e mostrar força e vigor na proteção de seu povo contra o inimigo microscópico, deu de ombros e disse que a epidemia é “invenção da grande mídia”. Que cada um cuide de si. Afligente.

Nesta quinta-feira, ao levantar-se, ele há de ter ficado sabendo do que fez Trump durante a noite. O presidente americano deu uma pirueta e mudou radicalmente o discurso. Em tom solene, anunciou haver decretado a proibição de entrada nos EUA de todo estrangeiro que tiver pisado solo europeu nas últimas semanas. Solo chinês pode. A medida só visa a Europa. Mr. Trump encontrou no Velho Continente o inimigo providencial para reforço de sua campanha eleitoral. A medida sem precedentes assustou Oropa, França e Bahia. Bolsas caíram. Aviões voam vazios. Homens de negócio não sabem que fazer. Turistas desacorçoados pousam a mala no chão.

by Luc “O Sekoer” Descheemaeker (1955-), desenhista belga

E agora, doutor Bolsonaro? Como é que fica aquela história de que «esse vírus não é mais que uma gripezinha à toa»? Vai dar uma viravolta também? Agora pode, que Seu Mestre mandou. É nisso que dá viver dentro de uma bolha, cercado de militantes, isolado do mundo. Quem se afasta, como ele, nada aprende, de nada fica sabendo, a nada reage.

Agora doutor Bolsonaro está metido numa saia justa. Se seguir o exemplo de Mr. Trump, a vassalagem vai ficar explícita – um papelão. Se persistir na negação do evidente perigo causado pelo vírus, é o entupimento que vai ficar evidente – um papelão. Dilema é isso: escolha entre duas opções ruins. Quem viver, verá.

Lula em Genebra

José Horta Manzano

O distinto leitor há de se lembrar que, pouco antes das eleições de 2018, Lula da Silva solicitou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU que desse parecer sobre a possibilidade de ele – então preso em Curitiba – se candidatar. Numa liminar, o Comitê recomendou ao governo brasileiro que deixasse o Lula ser candidato. Nosso governo repeliu a recomendação, numa decisão, a meu ver, acertada. Aceitar a injunção teria ofendido a soberania do Brasil e de seu Judiciário.

Aproveitando seu atual giro turístico em terras europeias, o ex-presidente desembarcou em Genebra faz dois dias. Veio pressionar pessoalmente o Comitê. Seu objetivo deixou de ser a candidatura às últimas eleições; essas são águas passadas. Quer agora que a entidade lhe conceda uma espécie de salvo-conduto, de absolvição ampla e irrestrita – uma carta branca que apague e anule os erros do passado, as condenações, as penas e suas consequências.

Genebra (Suíça), seu lago e seu jato d’água

A empreitada não é simples. Sem querer prejulgar o processo, é difícil imaginar o egrégio Comitê de Direitos Humanos da ONU afrontando a Justiça brasileira em decisão colegiada e final. Lula já foi condenado em três instâncias. Não dá mais pra falar em perseguição contra sua inflada pessoa unicamente por obra de doutor Moro.

Quanto ao resultado da solicitação, quem viver verá. Pelo momento, fico imaginando que o Lula deve ter economizado um bocado pra poder se oferecer o luxo desta viagem. Paris e Genebra são conhecidas pelo elevadíssimo custo de vida. Como é que ele faz pra pagar viagem, hotel, refeições e tutti quanti? O homem deve estar com dinheiro saindo pelo ladrão. (Sem alusões.) Sua bênção, padrinho!

Boîte à bébé

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos em que vivemos sob o império do politicamente correto, o nome das coisas tem-se transformado. No entanto, de pouco adianta usar luva de pelica: a coisa continua sempre sendo a coisa, ainda que o nome tenha mudado. Mais abaixo, explico.

Desde os tempos bíblicos, existiu a dolorosa situação do recém-nascido rejeitado. Diversas razões podiam levar à rejeição:

    • O pai desconfiava que o filho não fosse seu;
    • O bebê apresentava um defeito físico;
    • A família não tinha recursos para sustentar mais uma boca;
    • A criança, fruto de amor clandestino, tinha sido dada à luz por mãe solteira.

Nos tempos de antigamente, o infanticídio era tolerado. Antes de atingir a idade em que podia servir como força de trabalho, a criança era considerada um não-ser, um objeto. Encaixava-se em estatuto análogo ao do animal.

Boite a bebe 2

Na Europa, o advento do cristianismo introduziu conceitos novos. A caridade e a compaixão foram enaltecidas. Pouco a pouco, o infanticídio passou a ser visto como ato criminoso. Vez por outra, no entanto, crianças continuavam a ser rejeitadas. Como fazer para conciliar crime e virtude?

Boite a bebe 3Pelo fim do século XII, na Itália e na França, uma solução surgiu. Conventos e hospitais (ou hospícios, como eram chamados na época) instalaram um dispositivo engenhoso. Tratava-se de um tambor, geralmente de madeira, embutido num canto discreto da parede. A peça, que girava em torno de um eixo vertical, era oca e tinha uma abertura. Quem estivesse do lado externo podia girar o tambor para inserir, no oco, um recém-nascido. Em seguida, bastava dar meia-volta ao dispositivo para o neonato se encontrar do lado de dentro.

Antes de desaparecer nas sombras da noite, a mãe puxava uma cordinha para avisar que um pequenino acabava de chegar. Assim, em toda discrição, abandonava-se um bebê sem ter de recorrer ao homicídio.

Boite a bebe 4

Na Itália, o sistema chamou-se Ruota degli esposti(1) ‒ roda dos expostos. Na França, deram-lhe o nome de Tour d’abandon ‒ torno de abandono. Aliás, também no Portugal medieval, o dispositivo era conhecido como torno. Esses tambores multiplicaram-se e espalharam-se por toda a Europa até o fim do século XIX quando começaram a rarear.

Boite a bebe 1

A partir dos anos 1950, ressurgiram. Os nomes antigos, hoje, chocam. Foram substituídos por perífrases mais suaves: Le berceau de la vie ‒ o berço da vida; Culla per la vita ‒ berço para a vida; Baby box ‒ caixa de bebês.

Boite a bebe 5Na Alemanha, existem atualmente cerca de 200 desses tambores, chamados Babyklappe ‒ caixa de bebês ou Babyfenster ‒ janela de bebês. A prática tem-se espalhado. A primeira boîte à bébés(2) da Suíça Francesa foi inaugurada estes dias. Hoje em dia, já não precisa tocar o sininho. Um detector de presença indica que a cegonha acaba de trazer um pequenino.

Boite a bebe 6

Não sei se no Brasil existem dispositivos assim. Se não existem, está mais que na hora de pensar nisso. É sempre menos desumano que abandonar recém-nascido em caçamba de lixo.

Interligne 18h

(1) Uma curiosidade
O sobrenome italiano Esposito indica que, setecentos anos atrás, o patriarca da estirpe foi abandonado, quando recém-nascido, na Ruota degli esposti ‒ roda dos expostos. O sobrenome tem variantes (Esposto, Esposti, Espositi) e é particularmente presente na região de Nápoles.

(2) Outra curiosidade
A palavra francesa boîte, que se pronuncia boate, significa caixa. A casa noturna que conhecíamos no Brasil como boate diz-se, em francês, boîte de nuit ‒ caixa de noite. Etimologicamente, a palavra descende da mesma raíz que deu box em inglês e buxo em português (um arbusto comum na Europa, mas raro no Brasil). Interessante, não?

Publicado originalmente em 3 fev° 2016.

Lula em Paris

José Horta Manzano

Já contei aqui que Lula da Silva esteve em Paris, segunda-feira passada, convidado pela prefeita Anne Hidalgo para receber o título de cidadão honorário da cidade. Considerando que o antigo sindicalista já coleciona duas dezenas de diplomas de doutor ‘honoris causa’, concedidos por universidades ao redor do planeta, um título a mais ou a menos não deveria fazer diferença. Acontece que a notícia causou rebuliço na França e, por motivos diferentes, também no Brasil.

A prefeita de Paris é filiada ao Partido Socialista. Parlamentares do campo político oposto ao dela acusaram madame de promover confusão entre o público e o privado. Censuram Madame Hidalgo – que é candidata à reeleição – por gastar dinheiro dos parisienses para promoção pessoal e fins eleitorais. Ela nega.

clique para ampliar

No Brasil, o vice-líder do governo na Câmara, deputado Marco Feliciano, foi outro que não apreciou nadinha a passagem do Lula por Paris. Fiel ao estilo escrachado de doutor Bolsonaro, trepou-se nas tamancas e mandou a equipe preparar ofício dirigido ao presidente da Casa. Em linguagem barroca, com palavras pescadas em dicionário arcaico, a carta sugere que um certo Monsieur Cassandri seja homenageado pela Câmara, em protesto contra a distinção concedida ao Lula.

A lembrança me deixou surpreso. O deputado Feliciano tem excelentes assessores. Monsieur Jacques Cassandri foi o autor intelectual do ‘casse du siècle’ – assalto milionário e espetacular perpetrado em 1976 contra um banco de Nice. Já contei a história num artigo de 2018. Foi cinematográfico. Para recordar, clique aqui.

Por seu lado, achei que o deputado Feliciano está desperdiçando dinheiro nosso. Entre bolar, pesquisar, preparar, escrever, enviar ao destinatário e publicar o ofício nas redes, horas de trabalho foram gastas nessa brincadeira. Os assessores deixaram de fazer coisa mais útil. Não devem ter grande coisa que fazer.

Para encerrar, quero relatar o trecho de entrevista que o Lula concedeu ontem, 4 de março, à rádio pública francesa. Por aqui, ninguém está muito interessado em saber se ele roubou ou corrompeu. O que preocupa os europeus é o descaso com que o Brasil cuida da Amazônia.

Na hora de enfrentar jornalistas, o Lula tem mais jogo de cintura que doutor Bolsonaro. Fez um rápido discurso em favor de maior empenho no desenvolvimento sustentável da Amazônia. E foi nesse ponto que cometeu um ato falho(*).

Declarou que a conservação da Amazônia era importante «para o bem da imunidade». Corrigiu-se em seguida, mas, para mim, já era tarde. Por sorte, a tradução simultânea passou por cima da escorregadela; assim, pouca gente se deu conta.

Fiquei com impressão de que o desejo mais ardente do Lula é conseguir imunidade parlamentar ou presidencial. Ele ainda teme ser levado de novo ao cárcere. Como se sabe, a imunidade o livraria do enrosco.

Ato falho
Segundo o Houaiss, é o «aparecimento, na linguagem falada ou escrita, de termos inapropriados que supostamente remetem para conteúdos ou desejos recalcados referentes ao objeto, à pessoa ou ao fato em questão».

Mãos ao alto

José Horta Manzano

Um dos Bolsonarinhos – aquele que é deputado e que cogitou ser embaixador – vive dizendo que todos os brasileiros deveriam possuir uma arma. E levá-la no bolso ou na bolsa.

Leio no site da Rádio Gaúcha que um restaurante de comida mexicana, situado em Porto Alegre, foi assaltado sexta-feira passada. No momento do crime, 60 comensais se deliciavam com tacos e burritos.

Segundo o portal, “apenas” 30 pessoas foram assaltadas e, além de perderem o apetite, ficaram sem celular, dinheiro e todo objeto de valor que estivessem portando. Os demais frequentadores perderam somente o apetite.

De repente me veio à ideia a imagem do que seria o Brasil, caso a receita de doutor Bolsonarinho fosse implementada: excetuadas as crianças, todos os clientes do restaurante teriam uma arma ao alcance da mão. Assim que entrassem os bandidos e dessem a ordem «–Mãos ao alto!», os mais decididos sacariam do trabuco e começariam a atirar.

Quem já assistiu a um filme de caubói com John Wayne viu como ficaria a cena: o restaurante mexicano transformado em saloon do faroeste. Um tiroteio brabo, com gritos e sangue. Nessas horas, balas perdidas não escolhem furar bandidos ou mocinhos; pegam o primeiro que encontrarem. Entre mortos e feridos, o saldo poderia ser dramático.

Como desatar o nó do enfrentamento entre os bons e os maus, se todos estão armados e atirando? Alô, doutor Bolsonarinho! Como resolver esse dilema?

Parabéns a você!

José Horta Manzano

Pergunta:
O que têm em comum o italiano Gioachino Rossini (1792-1868), o americano Herman Hollerith (1860-1929) e a francesa Michèle Morgan (1920-2016)?

Resposta:
Nasceram todos num 29 de fevereiro.

Sempre dirijo um pensamento comovido àqueles que nasceram nesta data esquisita. Imagine só, distinto leitor, como deve ser frustrante ter de esperar quatro anos pra receber parabéns! Se é chato pra adultos, pra crianças deve ser perturbador – ponha-se na pele do infeliz: vê todos os coleguinhas fazerem aniversário cada ano e ele… nada. Quatro anos, para os pequeninos, é uma eternidade!

Nestes tempos, de ditadura do politicamente correto e de hiper-judiciarização, é curioso que o legislador ainda não tenha se condoído da aflição dos que nascem neste dia fugaz. O sofrimento dos nativos desta data devia ser levado em conta quando se instituem quotas e privilégios. Como cidadãos discriminados pelos caprichos do calendário, merecem ressarcimento.

Michèle Morgan (1920-2016)
‘Les plus beaux yeux du cinéma français’
Os olhos mais lindos do cinema francês

A discriminação contra os nativos deste dia não é modismo. Ainda hão de se passar muitos séculos sem que alguém venha em socorro aos que passam a vida sob o flagelo da marginalização.

É verdade que o problema é mais amplo, tem a ver com o pas de deux entre o Sol e a Terra, um par de dançarinos que não conseguem acertar o passo. Em números arredondados, a Terra completa uma volta em torno do Sol em 365 dias e 6 horas. Fossem exatos 365 dias, nosso calendário seria simples: todos os anos teriam a mesma duração, sem necessidade de acrescentar esse dia intrometido de quatro em quatro anos. Infelizmente, assim são as coisas. Não dá pra mudar, nem com lei federal.

É verdade que podiam ter escolhido outro ponto do calendário pra intercalar esse ‘extra’ que só aparece a cada quatro anos. Podiam ter posto no final do ano, por exemplo, pra alongar as férias. Mas… que bobagem! Onde quer que pusessem o dia extra, crianças continuariam a nascer, e o problema continuaria!

Já que escolheram o fim de fevereiro, que assim seja. Deixo aqui minha solidariedade e meus parabéns a todos os que estiverem fazendo anos hoje!

Terraplanismo – primeira parte

José Horta Manzano

O jornal francês La Croix publicou ontem um artigo sobre a Confraria dos Terraplanistas do Brasil. O texto, muito sério, passa longe da zombaria. Expõe os fatos como eles são. Aponta que «para milhões de brasileiros, a Terra é plana».

Terra plana debaixo de seu domo

Este blogueiro, que vive há décadas em asilo voluntário no exterior, já tinha lido sobre isso. Da primeira vez, achei que fosse brincadeira. Duvidei que alguém pudesse acreditar nessa ideia. Em seguida, quando fiquei sabendo que o guru boca-suja, inspirador do governo atual, também apoia essa teoria, descobri que o mal está mais difundido do que eu imaginava.

Doutor Bolsonaro formou uma assessoria de gente esquisita. É espantoso que um pessoal capaz de avalizar o terraplanismo tenha sido alçado a cargos importantes. Como é que pode um país complexo como o nosso ser conduzido por gente assim? Ingenuidade até que passa; credulidade a esse ponto é de sair correndo sem olhar pra trás.

Se não bastassem as intuições dos antigos, as teorias de Galileu e Copérnico, o pêndulo de Foucault e os trabalhos de Coriolis, temos hoje astronautas que volta e meia fazem viagens em torno da Terra. Que precisa mais?

Onde está e que está fazendo aquele moço de Bauru, o Marcos Pontes, que é hoje ministro da Ciência, Tecnologia & outras coisas? Falo daquele que, no governo Lula, tomou carona num voo espacial da Rússia e viajou até a Estação Espacial Internacional. (Dizem que a brincadeira custou aos cofres brasileiros a módica soma de 10 milhões de dólares, pagos aos russos para fazerem o favor de aceitar o ‘astronauta-turista’ de uma viagem só; mas pode ser apenas maledicência.)

Terra redonda avistada da ISS – Estação Espacial Internacional

Primeira consideração
Doutor Bolsonaro escolheu Pontes para ministro; logo, deduz-se que sejam próximos.

Segunda consideração
Da escotilha da ISS – Estação Espacial Internacional, pode-se avistar a redondeza da Terra (veja imagem). Já faz mais de 20 anos que, sem parar, a estação dá uma volta completa em torno da Terra a cada hora e meia. Ninguém põe em dúvida a aventura de Doutor Pontes no espaço, em visita à ISS. Ele há de ter reparado nesse ‘detalhe’ da terra redonda. Logo…

Pergunta que não cala
Por que é que nosso silencioso ministro da Tecnologia não informa às excelências do Planalto (inclusive e principalmente ao guru boca-suja) que viu com seus olhos que a Terra é, de fato, redonda? Ao fazer isso, vai acabar na hora com a difusão dessa estupidez no Brasil. Estamos fartos de passar vergonha aqui no exterior. Se alguém quiser continuar acreditando na platitude terrestre, que o faça. Mas, na impossibilidade de eliminar todas as idiotices do Planalto, que se elimine pelo menos essa. Afinal, o pessoal precisa estar com a cabeça descansada pra bolar aquelas fábulas do arco-da-velha que alimentam os tuítes diários, uma doçura.

Não perca
A segunda parte deste artigo está no meu outro blogue.

Quarta-feira

José Horta Manzano

Em vídeo lançado nas redes, doutor Bolsonaro autoqualificou-se de «presidente cristão, patriota, capaz, justo e incorruptível». A falsidade intelectual contida da frase é tamanha, que faz a desonestidade petista parecer coisa pouca. Aliás, em matéria de hipocrisia, o atual inquilino do Planalto está deixando o próprio Lula no chinelo. Uma façanha!

Em atitude pra lá de temerária, Bolsonaro encasquetou de convocar o povo pra afrontar o Congresso. Levando em conta que o Congresso foi eleito por esse mesmo povo, algo está fora de lógica. Enfim, como exigir lógica de um presidente desequilibrado?

A lei permite que o mandato de um indivíduo (congressista ou o próprio presidente) seja cassado. Há regras para isso, sem necessidade de botar o povo nas ruas. No entanto, não é possível fechar o Congresso, cassando assim, de facto, o mandato de todos os congressistas. Isso tem nome: é golpe de Estado.

Posso entender a boa intenção dos que votaram no Lula em 2002, assim como a dos que votaram no Bolsonaro em 2018. Por seu lado, tenho dificuldade em captar a lógica dos que votaram no lulopetismo depois do mensalão e do petrolão, assim como dos que apoiam doutor Bolsonaro depois de um desastroso primeiro ano no poder.

Respeito todos os apoiadores de um e de outro. Assim mesmo, recomendo a todos aproveitar esta Quarta-Feira de Cinzas pra dar uma passadinha numa igreja qualquer e tomar as cinzas – prática com a qual os fieis de antigamente se penitenciavam dos excessos carnavalescos. Pode servir pra apaziguar ânimos e aclarar mentes.

Great again

José Horta Manzano

Tem coisas que a gente não entende. Parece que essa gente que nos governa tem uns parafusos soltos. É verdade que não roubam tanto quanto os lulopetistas. (Pelo menos não se divulgou, até agora, nenhum assalto maior.) No entanto, são estranhos; tomam atitudes estrambóticas; dão tiro no pé, um atrás do outro.

Alguns meses atrás, deram de insultar autoridades estrangeiras, especialmente francesas. Esquecidos de que o desenvolvimento cultural do Brasil deve mais à França do que a qualquer outro país, insultaram a esposa do presidente Macron. E não foi lapso de um desavisado. Na brecha aberta pelo presidente, entraram o ministro da Economia e o ministro das Relações Exteriores(!). Coisa de adolescente maluquinho e descompromissado com a seriedade do cargo.

Faz alguns dias, vazou – por negligência ou intenção – um relatório sobre a segurança nacional, elaborado pelas autoridades militares cuja função maior é a defesa do território. Entre outras alucinações, pode-se ler que, no horizonte do próximo quinzênio, o maior inimigo potencial do Brasil é… a França. A França! Os que queimaram as pestanas pra chegar a essa conclusão são, com certeza, mais iluminados que nós outros.

Um enredo provável da catástrofe está explicitado no dito relatório. Segundo o documento, a França aglomeraria forças na Guiana Francesa, prontas a tomar posse dos cinco milhões e meio de quilômetros quadrados da Amazônia brasileira, área equivalente a dez vezes o território francês. De quebra, ocupando Belém, Manaus e todas a cidades e vilas da região. A legitimação internacional viria da ONU, pressionada pela França.

Fica a impressão de que os autores do enredo têm assistido demais a telefilmes de série B, daqueles em que o herói branco, alto, forte e loiro consegue – com meia dúzia de capangas – tomar de assalto uma inteira republiqueta de mestiços. E dizer que o relatório ‘vazado’ emana do Ministério da Defesa da República do Brasil. É desconcertante.

“Persiste o curto-circuito entre Paris e Brasília”
Les Echos (equivalente a nosso Valor Econômico)

Antes que o bom senso escoe de todo pelo ralo da ignorância, recomenda-se que os iluminados que vazaram o ridículo relatório se lembrem de que Brasil e França estão compromissados num negócio bilionário, em andamento há vários anos, envolvendo a compra de 4 submarinos da classe Scorpène. Um deles, o Riachuelo, já foi entregue. Faltam 3, todos eles já batizados: o Humaitá, o Tonelero e o Angostura. A França fornece; o Brasil compra.

Não convém acusar de «pior inimigo do Brasil» justamente aquele país de quem se está comprando sofisticado material militar. A repercussão desse assunto na França foi abominável. O gênio militar brasileiro está sendo motivo de zombaria.

Imagino que, por detrás dessa enormidade, esteja a paranoia de doutor Bolsonaro. Esse desequilíbrio de personalidade de nosso presidente está custando caro ao país. Quando o doutor se for, teremos de encontrar um presidente equilibrado, com parafusos ajustados, disposto a «Make Brasil great again – Fazer o Brasil voltar a ser grande». Ou, pelo menos, “parar de se apequenar”.

Ex aurea etiam sede in paludem rana resilit
Até de um trono dourado, a rã pula sempre de volta ao pântano
Máxima latina

No avião

José Horta Manzano

Pouco importa que o presidente, os filhos, os áulicos e o guru sejam tremendos bocas-sujas. Como é de público conhecimento (apesar de algumas vozes discordantes), não vivemos no país de Joseph Goebbels. O fato de uma aberração ser repetida sem cesso não a faz entrar à força nos usos e costumes nacionais.

Doutor Guedes, aquele que, em três tempos, havia de tranformar o país de calhambeque em Rolls-Royce, escorregou na mesma casca de banana que seu entourage costuma pisar dia sim, outro também. Que o tivesse feito entre amigos acomodados ao redor de um copo de pinga – que digo! – de um uísque 18 anos, passaria. O problema é que escorregou em público. E o público, como se sabe, dificilmente perdoa a quem resvala.

Pra quem esteve de quarentena em Wu Han estes dias e perdeu o último capítulo, o enredo é simples. Em fala pública sobre o valor do dólar, doutor Guedes soltou esta: “Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vou exportar menos, em função de importações, turismo, todo mundo indo pra Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia. Peraí”. (O grifo é meu.)

Seria cômico se não fosse trágico. Se Guedes ‘está’ ministro, é porque doutor Bolsonaro – seu chefe e empregador – assim quis. Bolsonaro foi eleito em contraponto ao lulopetismo, é verdade, mas unicamente porque o regime petista, na cabeça dos eleitores, tinha se tornado sinônimo de roubalheira. O que se queria era eliminar a podridão e manter as conquistas.

Empregada em avião… e daí? Pois ela já não vive dentro da casa de distintas famílias? Já não exerce a primordial função de primeira educadora de muito pimpolho bem-nascido? Por que é que no avião não pode? Será medo de coronavírus ou hipocrisia grossa?

Doutor Guedes não entendeu a cançoneta. Milionário, segundo dizem, é legítimo representante daquela gente de nariz empinado a quem o Lula apontava o dedo reprovador. Naquela época, muita gente fina acompanhou o dedo reprovador e acabou acreditando nessa conversa – que parecia generosa e humana – até que o próprio Lula escorregou no melado, se lambuzou, e foi parar na cadeia por corrupção. Será por isso que alguns narizes por aí estão se sentindo de novo livres pra se empinar. E será também por isso que certos doutores estão voltando a se horrorizar com doméstica em avião.

A chacoalhar desse jeito, o avião de doutor Guedes não chega a bom porto. Em país decente, ministro nenhum continuaria no cargo depois de dizer o que disse doutor Guedes. Vamos ver se Bolsonaro se toca.

Risco sexual

José Horta Manzano

“Plano Nacional de Prevenção ao Risco Sexual Precoce”. O nome é pomposo, digno de ser definido como *imprecionante por nosso peculiar ministro da Educação. Mas não é obra dele, não. Sai direto da escrivaninha de uma colega: dona Damares – figura não menos peculiar.

Um exame um pouco mais atento revela um lapso. A valer o título, depreende-se que, para a ministra, tudo o que tiver a ver com sexo representa um risco a merecer prevenção. Quanto mais cedo a garotada espinhuda der vazão aos instintos que brotam naturalmente nessa altura da vida, tanto maior será o risco. Conclui-se que, sempre segundo a filosofia ministerial, o risco não está na ignorância do que virá a seguir, mas na precocidade com que a fatalidade vier.

Como costumam dizer os ingleses de modo ultrapolido, não tenho certeza de estar de acordo com o pensamento da ministra. Não acredito que o perigo resida na precocidade da sexualidade, mas na ignorância dos transtornos que ela pode ocasionar a pessoas menos informadas. Não cabe ao ministério coibir práticas sexuais de jovens brasileiros, mas instruí-los sobre os comos, os porquês, as causas e as consequências de seus gestos.

Por mais que as convicções íntimas da ministra sejam legítimas e respeitáveis, elas não devem ultrapassar a esfera privada da cidadã Damares. Sua Excelência não foi guindada ao ministério para impor sua convicções morais à juventude do país. Vivemos numa República laica, de total liberdade de crença e culto. Não cabe a ministro nenhum, por mais importante ou bem-intencionado que seja, «orientar» a sexualidade juvenil. Woodstock, meio século atrás, já se encarregou de dividir as águas entre o antes e o depois.

O Brasil e seus habitantes podem muito. Podem até ouvir certos discursos que vêm do Planalto, às vezes desconectados da realidade. O que o Brasil não pode é aceitar bovinamente que lhe seja imposto um “Plano Nacional de Prevenção ao Risco Sexual Precoce”. A sexualidade não é um risco em si. Pode até oferecer risco a incautos, caso sejam mantidos na ignorância.

Reformulado, depurado e despojado dos preconceitos de Sua Excelência, o nome deverá ser: “Plano Nacional de Prevenção do Risco de Gravidez Precoce”. A gravidez juvenil e as doenças sexualmente transmissíveis é que representam risco. O sexo, não.

Observação
Em qualquer dos casos, será «prevenção do risco», nunca «prevenção ao risco».

Mentes embotadas

José Horta Manzano

É impressionante como a ignorância dá filhotes. Não se passa uma semana sem que o Planalto lance nova barbaridade, filha da ignorância. A mancada de hoje bate às portas da crueldade. É negação de um dos princípios básicos da democracia: o Estado tem o dever de amparar os membros mais frágeis da sociedade.

Algumas dezenas de conterrâneos nossos vivem nas cercanias de Wuhan, o ponto central da epidemia de pneumonia viral que está assustando o planeta. Nenhum deles está lá a mando do governo; cada um terá razões pessoais: paixão, estudo ou trabalho. Todos os dias, nossos patrícios veem amigos expatriados sendo recolhidos pelo país de origem. Os EUA, o Japão, a Alemanha, a França, a Espanha, a Bélgica, a Holanda, a Itália, a Suíça e muitos outros já cuidaram de repatriar seus filhos e tirá-los do olho do furacão.

Nossos conterrâneos, sentindo-se abandonados, juntaram-se e produziram um vídeo conjunto, em que rogam ao presidente da República que dê um jeito de tirá-los de lá. Sem ajuda, não conseguem sair. Os transportes estão todos paralisados; nada de trem, ônibus ou avião. Estão de mãos atadas, à mercê da boa vontade de doutor Bolsonaro. Sabem o que ele fez?

Nosso solerte presidente declarou-se «muito preocupado». Foi só. Negou ajuda aos patrícios. Disse que nenhum avião será encomendado pelo governo brasileiro, nem avião da FAB, nem fretado. Alegou que custa muito caro. Tentou escapar da responsabilidade ao explicar que precisa da aprovação do Congresso. (O Congresso não precisou aprovar a requisição do jato da FAB que levou um auxiliar de ministro à Índia – mas essa é uma outra história.)

Bolsonaro encerrou o assunto e matou a charada ao declarar-se receoso de que aquele punhado de expatriados venha contaminar 200 milhões de brasileiros. Não disse, mas todos entenderam: «Foram para esse país comunista porque quiseram; agora, que se virem; não tenho nada que ver com isso.»

Não sei como Donald Trump, Angela Merkel e outros fizeram para evitar contaminar milhões de cidadãos seus ao repatriar os conterrâneos em dificuldade. Deram um jeito. Sei, no entanto, como fez a França. Requisitou uma espécie de colônia de férias, à beira-mar, desocupada nesta época do ano. Conforme vão chegando os franceses vindos de Wuhan, vão sendo acomodados no lugar. Hoje já chegou o segundo avião, com mais uma leva de cento e tantas pessoas. Vão ficar lá por 14 dias, que é o prazo após o qual não há mais risco de contágio. Alimentados e bem tratados, podem circular dentro do perímetro da colônia; só não podem sair. Concordo que não é a maneira mais agradável de passar férias, mas é sempre melhor do que ficar confinado dentro de casa na China.

Os aviões fretados pela França trazem também cidadãos de países vizinhos. Belgas, holandeses e luxemburgueses estão sendo trazidos assim. O Brasil tem vizinhos que, muito provavelmente, têm cidadãos perdidos naquela lonjura. Nestas horas, a prática diplomática ensina que se deve consultar Buenos Aires, Montevidéu, Assunção, Santiago e propor uma ‘rachadinha’ – no bom sentido, naturalmente. Cada uma paga na proporção do número de cidadãos repatriados. O avião faz escala aqui, depois ali e acolá até chegar ao destino final definido pelas autoridades sanitárias brasileiras.

Bom, “isso aí” é o que ocorreria se tivéssemos um governo normal. Desgraçadamente, não temos. Portanto, os conterrâneos desgarrados que se virem, que o governo está se lixando procês.

E parem com essa história, que já deu. Agora, silêncio, porque os graúdos do Planalto estão preparando a próxima live. Pô! Essas picuinhas de brasileiro em país comunista atrapalham pra caramba, taoquei?

A fama já chegou lá

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro chega à Índia como convidado especial para assistir aos festejos do R-Day, festa nacional que comemora a República.

Por essa ocasião, o jornal anglófono Times of India botou na capa um resumo da biografia do convidado. E fecha com a informação principal: “Conhecido como Donald Trump brasileiro”.

O Trump brasileiro
Times of India

Eu me sentiria incomodado com a comparação. Quanto a nosso doutor, acredito que se sinta elogiado. Cada qual com seu cada qual.

A fome e o meio ambiente

José Horta Manzano

Diante da recusa do chefe, que refugou na hora de embarcar para o Fórum Econômico Mundial, doutor Paulo Guedes se armou de coragem e foi enfrentar o frio de Davos. (Na passada madrugada, o termômetro marcou 12 graus abaixo de zero.)

Para não ir, doutor Bolsonaro alegou razões de segurança. Pegou mal porque ninguém acreditou. Por coincidência, está hoje discursando em Davos o amigo dele, Donald Trump, seguramente o homem mais protegido do mundo.

Quando o avião do presidente dos EUA pousa no pequenino aeroporto de Davos, pode-se observar um balé de dez helicópteros girando em torno da pista, em baixa altitude. A partir daí, entra em cena a comitiva de carrões pretos, blindados, com vidros fumês, cheios de homens troncudos, mal-encarados e bem armados. Essa turma acompanha Trump onde quer que ele vá. Onde estiver Trump, a segurança é pra lá de garantida. Estes dias, pode haver atentado até nos EUA – em Davos, é certeza que não haverá.

A razão do não comparecimento de nosso presidente há de ser outra. No ano passado, quando discursou, ele parecia calouro prestes a cantar um samba em programa de rádio. Provavelmente não sabedor de que há aquecimento nos países avançados, subiu ao palco de casaco. Ficou esquisito. Em seguida, leu umas frases banais, numa curta alocução em que não disse nem deixou de dizer. Vai ver que deixou de comparecer este ano com receio de ser criticado de novo por decepcionar a audiência.

Doutor Guedes disse hoje que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Pontificou que «destroem porque estão com fome». Esse é o senhor –graduado em escolas americanas – que governa nossos dinheiros. Para ele, a degradação do meio ambiente se resume ao deflorestamento da Amazônia. Nada mais.

Nossos dirigentes continuam mal assessorados. A destruição da floresta é apenas um entre muitos fatores que afetam o clima. E não é o mais importante. Se é tão falado atualmente, é porque nosso presidente agitou ao mundo uma bandeirinha vermelha ao mostrar-se favorável ao desmatamento. Aí, caíram matando. Não fosse essa imprudência, ninguém estaria falando em Amazônia.

Entre os dez maiores emissores de CO2 por habitante, não há nenhum país «pobre», pra citar doutor Guedes. São eles, na ordem: Arábia Saudita, Austrália, Canadá, EUA, Coreia do Sul, Taiwan, Rússia, Japão, Alemanha e Polônia. São grandes poluidores porque produzem eletricidade a partir de petróleo ou, pior, a partir de carvão. Se considerarmos somente a emissão total de CO2, sem levar em conta a população do país, a China, os EUA, a Índia, a Rússia, o Japão e a Alemanha aparecem à frente dos outros. Por um lado, têm vasta população; por outro, volta o fator carvão. São eles os grandes vilães do aquecimento do clima.

A zona equatorial africana é muito mais populosa do que a Amazônia. A população é eminentemente pobre. Se pobreza destruísse floresta, a África já teria perdido a cobertura vegetal, o que está longe de ser o caso. O caminho não é esse, doutor Guedes.

Cruz de Lorena

José Horta Manzano

No Brasil, será difícil encontrar alguém que não tenha assistido ao vídeo em que o recém-demitido Secretário Especial da Cultura fez um discurso empolado. Não quero aqui analisar as palavras pronunciadas. Acabo de ler pelo menos uma dúzia de artigos, todos pertinentes. O que me chamou a atenção foi um detalhe cujo significado parece ter escapado a muita gente.

Falo da estranha cruz que aparecia no canto direito da tela, feita com duas barras horizontais em vez da barra única à qual estamos acostumados. Esse objeto não estava ali por acaso.

É a Cruz de Lorena, ostentada desde a Idade Média. Em heráldica, leva nomes pomposos: Cruz Arquiepiscopal ou ainda Cruz Patriarcal. Já apareceu no brasão de armas de bispos, arcebispos e duques.

Nos anos 1400, um tempo em que a fronteira entre França e Alemanha se modificava ao final de cada guerra, a cruz com barra dupla começou a aparecer também na bandeira da Alsácia-Lorena, região fronteiriça que muitas vezes mudou de ‘dono’. Navegou entre França e Alemanha até ser atribuída definitivamente à França em 1945.

No final da última guerra, a Cruz de Lorena foi adotada como símbolo pelas FFI – Forças Francesas do Interior, nome dado ao conjunto daqueles que, armados ou não, se recusaram a aceitar bovinamente a ocupação do país pelas tropas nazistas. Atiraram, explodiram, sabotaram – enfim, infernizaram a vida dos ocupantes.

Mas esses são fatos históricos que o bolsonarismo, doutrina sem raíz, desconhece. O motivo da presença da estranha cruz no vídeo do personagem é outro. Nas últimas décadas, a Cruz de Lorena foi acaparrada pelas agrupações francesas de extrema-direita. O Rassemblement National (antigo Front National), partido da família Le Pen, usa e abusa dessa cruz.

O resultado final é que a nobreza do símbolo acabou desvirtuada. Hoje em dia, qualquer um que brandir a Cruz de Lorena, será imediatamente etiquetado como simpatizante da extrema-direita.

Foi dessa fonte que bebeu o discursante recém-despedido. Teve o desplante de expor, em pé de igualdade, nossa bandeira verde-amarela e o emblema da direita extrema. É simbolismo que dá arrepio.

O homem foi despedido, mas as ideias do bolsonarismo ficam. Continuam intactas para mostrar o caminho radioso da cultura nacional nos próximos anos. Preparem-se.

Visto negado

José Horta Manzano

Não sei se a ideia terá saido direto da cabeça de Mr. Trump ou da de algum acólito. Tanto faz. Combina com o estilo de caubói truculento que, para azar dos americanos e do resto da humanidade, está aboletado na Casa Branca. O fato é que os EUA negaram, esta semana, visto de entrada no país ao ministro de Relações Exteriores do Irã. O estrangeiro não tencionava fazer turismo nos Estados Unidos, mas participar de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. Como todos sabem, a sede principal da organização está situada exatamente em Nova York.

Que fique claro: não estou aqui louvando o regime dos aiatolás e tampouco recebi procuração para defendê-los; o problema não é esse. O nó está em outro lugar.

Em 1945, a Organização das Nações Unidas estava em formação sobre os escombros da Segunda Guerra. A primeira assembleia teve lugar em 1946, em Londres. Naquela ocasião, os países-membros decidiram aceitar a proposta do Congresso americano de instalar a sede principal nos EUA. Depois de longa hesitação na escolha da cidade que acolheria a organização, ficou acertado que seria em Manhattan, Nova York.

O imenso edifício levou 5 anos pra ser construído. Foi inaugurado em 1951. Um tratado foi então assinado entre a ONU e os EUA. Entre outras especificidades, a sede nova-iorquina goza de estatuto de extraterritorialidade, exatamente como qualquer embaixada. O governo dos EUA comprometeu-se a conceder visto de entrada a toda autoridade estrangeira que o solicitasse. Isso demonstra que, tendo em vista que a sede da ONU goza de estatuto extraterritorial, a entrada do estrangeiro nos Estados Unidos nada mais é que passagem. Ele faz o percurso do aeroporto até Manhattan como qualquer passageiro em trânsito.

Portanto, se a notícia da não concessão de visto ao ministro iraniano for verdadeira, temos aí escândalo de proporções planetárias. Pode-se discutir se o assassinato do general iraniano, ordenado por Donald Trump em pessoa, foi ato de guerra ou não. Pode-se também discutir se a retaliação iraniana foi atentado terrorista ou não. Toda opinião é respeitável e cada um tem a sua. Já quanto ao visto negado, no entanto, nenhuma discussão é permitida: trata-se de atentado contra o bom senso. É não cumprimento de palavra dada. Os EUA estão renegando o compromisso que assumiram ao acolher a ONU. O presidente do país não tem o direito de atropelar o que foi combinado.

Quando doutor Bolsonaro, com seu linguajar tosco, ofende a honra e a dignidade de jornalistas que o vêm entrevistar, ninguém diz nada. Todos enfiam o rabo no meio das pernas e engolem qualquer patacoada como se natural fosse. Espero que a banda pensante dos dirigentes do planeta não se acovarde. Não se pode conceder a Donald Trump o poder de tomar esse tipo de decisão por conta própria. Da próxima vez, pra contornar esse estropício, a ONU devia usar sua sede europeia, situada em Genebra (Suíça). O civilizado governo suíço jamais negará visto a ministro nenhum.

Motor lento

José Horta Manzano

Atiçar a paranoia presidencial é mau negócio. Weintraub, ministro da Educação, parece ser lento no aprendizado. Já andava meio assim assim, balança mas não cai, como bêbado tentando caminhar no meio-fio. Descabeçado, provocou de novo o iracundo chefe. Pisou-lhe bem no calo que dói. E com força! Fez o que não devia: repercutiu a seus seguidores um tuíte alheio que tratava o presidente de traidor. Nem mais nem menos – traidor! Com isso, não só assegurou que concordava com a afirmação, como também ajudou a propagar a difamação.

Apagou depois, em tentativa de jogar a sujeira pra debaixo do tapete. Mas o estrago estava feito. O que as modernas tecnologias têm de efêmero têm também de indelével. Parece paradoxal ser descartável e eterno ao mesmo tempo, mas assim é. Antigamente, para apagar um escrito, bastava jogar a folha de papel no lixo. Hoje mudou. Cada letrinha que se escreve fica gravada para sempre. Tudo estará estocado nalgum banco de dados ultrassecurizado em Utah ou nas redondezas. E lá permanecerá até o dia do Juízo Final.

Weitraub, que não passa de peixinho, está assustado com o peixe graúdo que o nomeou ministro. Tem um medo danado de perder a boquinha. Tratou de dar explicação para mitigar a ofensa feita ao chefe. Disse que está num navio e, sacumé, fica horas sem internet. Pergunto eu: que tem uma coisa a ver com a outra? Caso houvesse internet o tempo todo, Sua Excelência teria se comportado de modo diferente? Essa é muito boa. Atribuir os próprios erros à falta de internet… Só faltava.

Vamos supor que, para economizar, Weintraub tenha dispensado o avião para embarcar num navio cargueiro em direção a Miami, aonde deve chegar daqui a uns 15 dias, se tudo correr bem. Numa embarcação dessas, internet realmente funciona piscando feito vagalume. Mas ninguém acredita que ele esteja num cargueiro filipino. Olhe, minha gente: pra encontrar navio sem internet, hoje em dia, precisa procurar muito. Ou alguém imagina que aqueles imponentes palácios flutuantes que carregam milhares de turistas em cruzeiro pelo Caribe não dispõem de internet?

Mentira tem perna curta. Tenho a impressão de que senhor Weintraub não vai esquentar cadeira no ministério da Educação por mais muito tempo. Quem sabe a Instrução Pública tem agora uma pequena chance de entrar nos trilhos? Não tenho muita esperança, mas tudo é possível. O tempo dirá.

Crescendo e minguando

José Horta Manzano

Você sabia?

O interesse pelos astros começou na noite em que o primeiro homem levantou a cabeça e viu aquele mundaréu de pontinhos luminosos no céu. Faz muito tempo, muito mesmo.

Cinco mil anos atrás, quando papirus e papel não haviam sido inventados, tabuinhas de argila já registravam informação sobre os astros e seu movimento aparente.

O Sol e a Lua, maiores e mais rápidos que os demais, foram os primeiros a chamar a atenção. O Sol, que aparecia sempre redondo e do mesmo tamanho, passou impressão de regularidade. A ideia de firmeza e constância foi reforçada pelo fato de o astro levantar-se e pôr-se, com pequenas variações ao longo do ano, sempre à mesma hora. Já a Lua variava de aparência com frequência. Embora os ciclos fossem regulares e graduais, a impressão que ficou foi de inconstância.

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

Num tempo em que o Direito da Mulher ainda não havia entrado nas preocupações humanas, vigorava a lei do mais forte. O mundo era machista, bem mais que hoje. As línguas que atribuíam gênero aos substantivos puseram o Sol no masculino e a Lua no feminino. Assim aprendemos nós, nunca ninguém reclamou nem achou esquisito.

É interessante notar que a língua alemã ‒ caso único, a meu conhecimento ‒ fez o inverso. Em alemão, Lua é palavra masculina (Der Mond) e Sol é do gênero feminino (Die Sonne). Curioso, não?

Quando a professora pede aos aluninhos, já no Kindergarten (Jardim da Infância) que desenhem o Sol e a Lua, já se sabe: o Sol virá de batom e trancinhas enquanto a Lua terá chapéu e bigode.

Crescendo e minguando
Continuando nosso assunto selenita(*), lembro que todos nós aprendemos, desde pequeninos, que a Lua crescente forma um C, enquanto a minguante desenha um D no céu. É fácil reter: C para crescente e D para decrescente.

É possível que o distinto leitor não saiba que, vista do Hemisfério Norte, a imagem é invertida. Por estas bandas, quando a Lua desenha um C é porque está na fase minguante. E vice-versa. Vasto mundo…

(*) Selenita
Selene vem de raiz grega que traz ideia de esplendor, luz. Os antigos não sabiam que a Lua não faz mais que refletir a luz do Sol. Pouco importa. Deram ao astro noturno um nome que traduzia essa luminosidade.

Publicado originalmente em 26 maio 2016.