O eco do escândalo

José Horta Manzano

Num sábado frio e sem noticia, num dia em que Trump não assustou, em que o Irã não derrubou nenhum avião, em que ninguém fugiu do Japão dentro de mala, a fala do bizarro Secretário da Cultura do Brasil caiu como luva. Não há site nem jornal europeu que não tenha publicado um eco da esquisitice. Deu até no rádio.

Doutor Alvim, homem de pouca visão, certamente não se dá conta de que a doutrina nazista não combina com nosso país. O primeiro e principal postulado do pensamento nazista é a pureza racial. Num país como o nosso, onde a maior parte da colorida população tem sangue mestiço, a doutrina pode servir pra marchinha de Carnaval. Na vida real, não serve.

Quando a intenção de aplicá-la é externada por um medalhão da República – num vídeo oficial, com bandeira e retrato do presidente – já não é caso de manicômio, mas de polícia. Tivesse acontecido na França ou na pátria de Goebbels, doutor Alvim já teria sido convocado para rigoroso interrogatório policial. Com perspectiva de sanção pesada podendo levar até à cadeia.

Trago um apanhado das manchetes da mídia europeia sobre o assunto.

No Brasil, importante dignitário da Cultura demitido por discurso com alusões à propaganda nazista.
The New York Times, EUA

 

No Brasil, o Secretário de Estado da Cultura apeado depois de discurso em que repetiu palavras de Goebbels
L’Obs, França

Citações de Goebbel em discurso escandaloso: vídeo obriga o Ministro da Cultura do Brasil a demitir-se.
Focus Online, Alemanha

Ministro da Cultura do Brasil é demitido – citou Goebbels
Televisão Sueca, Suécia

Brasil: o ministro usa as palavras de Goebbels. O responsável pela Cultura é demitido por Bolsonaro.
La Repubblica, Itália

Escândalo no Brasil: o Secretário da Cultura copiou Goebbels e Bolsonaro o despediu.
La Nación, Argentina

Cruz de Lorena

José Horta Manzano

No Brasil, será difícil encontrar alguém que não tenha assistido ao vídeo em que o recém-demitido Secretário Especial da Cultura fez um discurso empolado. Não quero aqui analisar as palavras pronunciadas. Acabo de ler pelo menos uma dúzia de artigos, todos pertinentes. O que me chamou a atenção foi um detalhe cujo significado parece ter escapado a muita gente.

Falo da estranha cruz que aparecia no canto direito da tela, feita com duas barras horizontais em vez da barra única à qual estamos acostumados. Esse objeto não estava ali por acaso.

É a Cruz de Lorena, ostentada desde a Idade Média. Em heráldica, leva nomes pomposos: Cruz Arquiepiscopal ou ainda Cruz Patriarcal. Já apareceu no brasão de armas de bispos, arcebispos e duques.

Nos anos 1400, um tempo em que a fronteira entre França e Alemanha se modificava ao final de cada guerra, a cruz com barra dupla começou a aparecer também na bandeira da Alsácia-Lorena, região fronteiriça que muitas vezes mudou de ‘dono’. Navegou entre França e Alemanha até ser atribuída definitivamente à França em 1945.

No final da última guerra, a Cruz de Lorena foi adotada como símbolo pelas FFI – Forças Francesas do Interior, nome dado ao conjunto daqueles que, armados ou não, se recusaram a aceitar bovinamente a ocupação do país pelas tropas nazistas. Atiraram, explodiram, sabotaram – enfim, infernizaram a vida dos ocupantes.

Mas esses são fatos históricos que o bolsonarismo, doutrina sem raíz, desconhece. O motivo da presença da estranha cruz no vídeo do personagem é outro. Nas últimas décadas, a Cruz de Lorena foi acaparrada pelas agrupações francesas de extrema-direita. O Rassemblement National (antigo Front National), partido da família Le Pen, usa e abusa dessa cruz.

O resultado final é que a nobreza do símbolo acabou desvirtuada. Hoje em dia, qualquer um que brandir a Cruz de Lorena, será imediatamente etiquetado como simpatizante da extrema-direita.

Foi dessa fonte que bebeu o discursante recém-despedido. Teve o desplante de expor, em pé de igualdade, nossa bandeira verde-amarela e o emblema da direita extrema. É simbolismo que dá arrepio.

O homem foi despedido, mas as ideias do bolsonarismo ficam. Continuam intactas para mostrar o caminho radioso da cultura nacional nos próximos anos. Preparem-se.