Cruz de Lorena

José Horta Manzano

No Brasil, será difícil encontrar alguém que não tenha assistido ao vídeo em que o recém-demitido Secretário Especial da Cultura fez um discurso empolado. Não quero aqui analisar as palavras pronunciadas. Acabo de ler pelo menos uma dúzia de artigos, todos pertinentes. O que me chamou a atenção foi um detalhe cujo significado parece ter escapado a muita gente.

Falo da estranha cruz que aparecia no canto direito da tela, feita com duas barras horizontais em vez da barra única à qual estamos acostumados. Esse objeto não estava ali por acaso.

É a Cruz de Lorena, ostentada desde a Idade Média. Em heráldica, leva nomes pomposos: Cruz Arquiepiscopal ou ainda Cruz Patriarcal. Já apareceu no brasão de armas de bispos, arcebispos e duques.

Nos anos 1400, um tempo em que a fronteira entre França e Alemanha se modificava ao final de cada guerra, a cruz com barra dupla começou a aparecer também na bandeira da Alsácia-Lorena, região fronteiriça que muitas vezes mudou de ‘dono’. Navegou entre França e Alemanha até ser atribuída definitivamente à França em 1945.

No final da última guerra, a Cruz de Lorena foi adotada como símbolo pelas FFI – Forças Francesas do Interior, nome dado ao conjunto daqueles que, armados ou não, se recusaram a aceitar bovinamente a ocupação do país pelas tropas nazistas. Atiraram, explodiram, sabotaram – enfim, infernizaram a vida dos ocupantes.

Mas esses são fatos históricos que o bolsonarismo, doutrina sem raíz, desconhece. O motivo da presença da estranha cruz no vídeo do personagem é outro. Nas últimas décadas, a Cruz de Lorena foi acaparrada pelas agrupações francesas de extrema-direita. O Rassemblement National (antigo Front National), partido da família Le Pen, usa e abusa dessa cruz.

O resultado final é que a nobreza do símbolo acabou desvirtuada. Hoje em dia, qualquer um que brandir a Cruz de Lorena, será imediatamente etiquetado como simpatizante da extrema-direita.

Foi dessa fonte que bebeu o discursante recém-despedido. Teve o desplante de expor, em pé de igualdade, nossa bandeira verde-amarela e o emblema da direita extrema. É simbolismo que dá arrepio.

O homem foi despedido, mas as ideias do bolsonarismo ficam. Continuam intactas para mostrar o caminho radioso da cultura nacional nos próximos anos. Preparem-se.

4 pensamentos sobre “Cruz de Lorena

  1. Pingback: José Horta Manzano: Cruz-Credo! Este mundo está perdido… | Caetano de Campos

  2. Pingback: “Cruz-Credo! Este mundo está virado!” | Caetano de Campos

  3. Boa observação! Em poucas décadas, essa cruz, também chamada cruz de Caravaca, de símbolo de resistência ao fascismo passou a símbolo da extrema-direita, portanto do mesmo fascismo. Eis aí um exemplo da dinâmica cultural e de transformação semiótica. 😦

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    • A apropriação dos símbolos da nação é característica do modus operandi da extrema-direita. Na França, a direita extrema tomou também de assalto a figura de Joana d’Arc, um dos marcos mais emblemáticos da história do país, um pouco como Tiradentes pra nós.

      Os desfiles dessa gente exalam patriotismo, com bandeiras, cores nacionais, hino nacional. Quem acaba de chegar do planeta Marte e vê aquilo acha que os legítimos representantes do país são eles e ninguém mais.

      Doutor Bolsonaro & companhia ainda não se deram conta disso. Por enquanto.

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