Ainda não…

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-)
desenhista gaúcho, via GZH

José Horta Manzano

Dei uma vista d’olhos nos jornais e nos principais, como diria…, antigamente se chamavam “jornais falados”, hoje não sei. São aqueles noticiários que passam de manhã ao vivo no youtube, em que se leem e comentam as notícias do dia. Entre os analistas, nove em cada dez gastaram tinta e saliva esquadrinhando o caso da dinheirama que o filho mais velho do Bolsonaro pediu a Vorcaro, o estelionatário-mor da nação.

Uma fala que surge a todo instante é a de que o presidenciável ainda – sublinhe-se o ainda – não deu explicação convincente para a obscura transação. É verdade que, no princípio, o Bolsonarinho negou conhecer o ex-banqueiro e jurou não ter recebido nenhum dinheiro dele. Em seguida, pouco a pouco, como se acordasse de um sono profundo, esfregou os olhos e foi lembrando dos detalhes do negócio. Bem aos pouquinhos, em doses homeopáticas, foi distilando sua narrativa, até ser aventada a possibilidade de ter havido financiamento de um filme como justificativa para a generosa “doação”.

As alegações do pré-candidato foram evoluindo com a passagem dos dias. Parece que os ajustes finais não foram dados. Me parece curioso ouvir analistas dizerem que as explicações de “Flávio” (como é íntima e carinhosamente chamado) ainda não são convincentes. Ao deixar a porta assim escancarada, estão convidando o suspeito a ir afinando sua narrativa, a ir modelando e aparando as beiradas até chegar a um relato convincente. A meu ver, estão dando moleza demais a quem não merece tanta confiança.

A verdade tem de aparecer de golpe, logo de cara, no primeiro jato. E tem de ser inteira e irretocável. Se assim não for (e, no caso, não foi), o que ele possa vir a dizer não terá valor. Terá sempre o gosto requentado de uma história ajambrada em conselho de família com a participação de advogados mais espertos que o indigitado.

De toda maneira, pouco interessa o relato desse Bolsonarinho – nem o balbucio inicial, nem a versão retocada. Vejamos por quê:

  • Os evangélicos tendem a seguir o conselho do pastor na hora do voto.
  • Os menos letrados, que representam a maioria do eleitorado, não leem jornal nem acompanham análises sócio-políticas.
  • Lulistas roxos estão de qualquer modo com Lula e nâo desgrudam
  • Bolsonaristas roxos estão de qualquer modo com o Bolsonarinho
  • “Farialimers” e assemelhados abraçam qualquer candidato que não seja de esquerda, de medo de ver escassearem as oportunidades de enriquecer.

Portanto, maior importância mesmo terão os debates xingatórios na televisão. O que acabo de dizer pode parecer cínico e desabusado, mas é a realidade. Não?

Três espantos

José Horta Manzano

Racismo
Um cavalheiro de nacionalidade chilena causou um bate-boca num voo da Latam de São Paulo a Frankfurt. Talvez imaginando que sobrevoava terra de ninguém, ofendeu um comissário chamando-o de “mono” (macaco) e emitindo ruídos que ele julga ser simiescos. Declarou ainda que se sente incomodado com o “odor de negros” ou “odor de brasileños”. Uma alma caridosa filmou a discussão surreal entre o cavalheiro e membros da tripulação – que não aparecem na imagem.

Acontece que o avião não é terra sem dono. Acontece também que o comissário, apesar da pele mais bronzeada, não é “mono” e encontra-se protegido por nossa legislação. Convenções aéreas estabelecem que o aparelho em voo é considerado extensão do país de origem da companhia, no caso, o Brasil. Assim, dentro do avião, vigoram as leis brasileiras. Sem se dar conta, o passageiro arrogante infringiu leis nossas que reprimem ofensas baseadas em cor da pele, raça, religião, orientação sexual.

Uma semana depois, o cavalheiro ofensor fez a viagem de volta de Frankfurt para Santiago, com escala em São Paulo. Devidamente informada, a polícia já estava no aguardo dele. Foi colhido em Guarulhos e enviado à detenção provisória. Vamos ver se aprende que conosco não tem podosco.

Nota 1
A discussão, mostrada em vídeo postado no Tweeter (hoje X), é prova incontestável da atitude do cavalheiro. Mostra também um despreparo do pessoal de bordo da Latam. Embora não apareçam na imagem, ouve-se gritarem todos ao mesmo tempo cortando a palavra ao passageiro, num comportamento de quebra-pau de boteco. A companhia aérea deveria treinar aeromoços e aeromoças a enfrentar casos como esse, com sangue-frio e disciplina.

Nota 2
A mídia deu a notícia dizendo que o chileno foi preso por racismo. Não está correto. Racismo é um “defeito”, se assim podemos nos exprimir, que algumas pessoas têm. É um sentimento de soberba de quem se considera pertencente a uma raça superior. Acontece que ninguém será preso por experimentar esse tipo de sentimento. Melhor dizer que o cavalheiro foi preso por agressão racista ou por ofensa racial.

Capanga
O mundo anda ficando cada dia menor. Já vão longe os dias em que, para desaparecer do mapa, bastava se mudar para o interior e, com uma gorjetinha, tirar nova carteira de identidade. Hoje vão te buscar onde você estiver, ainda que seja pra lá de onde o Judas perdeu as botas.

Um dos capangas do clã Vorcaro, sabendo que a PF estava em seu encalço, embarcou num voo para Dubai, que fica pertinho do País das 1001 noites. A história não diz se viajou de primeira classe. Acontece que a PF tomou conhecimento da fuga e entrou em contacto com a polícia de Dubai. Resultado: o capanga foi colhido no aeroporto de lá, nem precisou passar pela alfândega. Expulso sumariamente do país, foi devolvido à origem.

Espanto boquiaberto
Diálogo pra lá de comprometedor ocorreu entre o filho de Bolsonaro, aquele que gostaria de presidir o Brasil, e o estelionatário Vorcaro, ora preso. Na conversa, o Bolsonarinho faz juras de fraternidade eterna ao espertalhão, ao mesmo tempo que pede uma soma extravagante e multimilionária. Trata o trapaceiro por “irmão”, demonstrando proximidade realmente íntima e intrigante, que denota serem velhos parceiros de ‘negócios’. O diálogo ocorreu em novembro de 2025, ou seja, seis meses atrás.

Considerando que, quando o Bolsonarinho fez essas juras ao telefone, alguns grandes da República já haviam sido pegos – e encarcerados ou processados – justamente por causa do vazamento de conversas telefônicas, é absolutamente espantosa a maneira displicente com que ele deixou seu juramento gravado no éter, numa nuvem talvez, mas certamente na memória de dois aparelhos: o seu e o do interlocutor. É impossível imaginar que o filho do Bolsonaro ignorasse a perícia da PF em reaver dados escondidos ou apagados de telefone celular.

Dito e feito. O pretendente à Presidência caiu como um patinho. Agora todos esperam explicações. Na verdade, não precisa nem explicar, que todo o mundo já entendeu o que era pra entender.

Cuidado com este!

José Horta Manzano

Estamos em plena pré-campanha eleitoral.

  • Não surpreende ninguém que Lula se comprometa a amparar os pobres e a taxar fortemente os ricos.
  • Não surpreende ninguém que o filho do Bolsonaro se deixe (re)batizar nas águas do Rio Jordão, seguindo o ensinamento paterno.
  • Não surpreende ninguém que Caiado compareça a rodeios e outros eventos ligados à agropecuária.

Agora, quando um candidato como Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, marca território afirmando que pertence à linha dura e quase caricata da extrema direita, a atitude surpreende, sim.

Banana com casca
Num vídeo recente, o ex-governador agiu como se fosse um influenciador do ramo de frutas e legumes. Reclamou da carestia e aconselhou os mais pobres a comerem banana com a casca. O objetivo era de forrar bem o estômago com gasto menor. Para não ser acusado de somente dizer “Faça o que eu digo”, comeu ele próprio uma banana com casca (coisa que nem macaco faz). Pela cara de nojo que fez, o gosto não deve ser magnífico. Ele mesmo confessou, mais tarde, que prefere o fruto “puro”, sem a casca. Ao doutor Zema, não ocorreu que as bananeiras possam ter passado por um tratamento químico para livrá-las de fungos e outras pragas. E que essa película química depositada sobre a casca possa ser nociva à saúde humana.

Trabalho infantil
Em outra aparição pública, doutor Zema propôs que o trabalho infantil volte a ser autorizado, como era nos tempos de antigamente. Segundo ele, se os jovens americanos podem correr o bairro montados numa bicicleta a distribuir jornais, como a gente vê nos filmes, os brasileirinhos também podem. “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, foi o que ele não disse, mas pensou. A criança que trabalha ajuda no orçamento familiar, segundo o doutor, encantado com essa perspectiva.

Castração química
Numa entrevista também recente, o pré-candidato se pronunciou a favor do endurecimento da pena para condenados pelo homicídio da esposa, namorada, companheira ou ex, o conhecido feminicídio. Preconiza 30 anos de prisão sem direito a nenhuma medida de alívio. E acrescenta um castigo físico: a castração química. Em sua sanha punitiva, o pré-candidato mistura alhos com bugalhos. A castração química é preconizada – e, em certos países, aplicada – para pedófilos, maníacos sexuais, tarados irrefreáveis. Faz sentido: castram-se os criminosos que cometem crimes sexuais. Feminicídio é de outra natureza.

Comentários
O vídeo com a dentada que ele dá na banana com casca está mais pra desafio de tique-toque do que para coisa séria de um homem que se sente à altura de ocupar o maior cargo da República. É cômica a cara que ele faz, de criança que comeu e não gostou. Esse candidato dificilmente seria aprovado no teste de aptidão que este blogueiro propõe para pretendentes à Presidência.

Quanto ao trabalho infantil, percebe-se a tentativa de volta ao século 19, obsessão de adeptos da extrema direita. Senhor Zema, homem de posses cuja família se dedica há quatro gerações a diversos ramos da indústria e do comércio, parece sonhar com a possibilidade de empregar crianças em suas fábricas, economizando assim na folha de pagamento.

Já no que se refere aos 30 anos de cadeia para feminicídio, proponho pena igual para crimes de corrupção sob todas as suas formas (passiva, ativa, suborno, peculato, prevaricação e muitos etcéteras). O problema é que aqui já estamos pisando no calo do pessoal do andar de cima. Vai ser difícil que a ideia siga adiante.

Hipóteses
Duas hipóteses me parecem plausíveis para explicar o curioso comportamento do pré-candidato.

  • 1) Está agindo assim em consequência de acordo fechado com os Bolsonaros. Assumiu o comportamento de linha auxiliar do clã. Faz o papel de durão, intransigente, cruel, linha dura – tudo isso para fazer o filho “01” parecer moderado e palatável. O pagamento virá sob forma de um ministério ou outra benesse equivalente. Se assim for, recomenda-se não votar nesse candidato, belo exemplo de personalidade vil, sorrateira, com vocação para capacho. Um sujeito assim não merece o voto de ninguém.
  • 2) Seu comportamento escancara seu caráter tal como ele é. O personagem é de fato durão, intransigente, cruel e linha dura. Se assim for, recomenda-se não votar nele, belo exemplo de personalidade insensível, incapaz de empatia, indigno de governar um país tão desigual como o nosso. O Brasil não merece um presidente assim.

Luiz Inácio: a grande bobeada

José Horta Manzano

O doutor Jorge Messias, advogado-geral da União, não foi aprovado pelo Senado para vestir a toga e ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal. A imprensa, que andava desconfiada de que isso pudesse acontecer, já tinha pesquisado e até elaborado uma listinha com o nome daqueles poucos que precederam Messias na desconfortável situação de ter levado bomba.

Desconfortável é o mínimo que se possa dizer, dado que a lista é curta e que o atual AGU é apenas o sexto pretendente rejeitado desde que a primeira Constituição republicana entrou em vigor. E olhe que as cinco ocorrências anteriores datam do século 19, no longínquo 1894, governo de Floriano Peixoto.

A soberba de Lula da Silva não tem emenda. Nosso presidente ainda vive nos eflúvios de seus dois primeiros mandatos, quando sua estrela brilhava forte e ele ganhava todas. Só que os tempos seguiram adiante, inexoráveis, mesmo Luiz Inácio fazendo força pra não aceitar. Na vida, quem fica pra trás dança – e Luiz Inácio tem levado um baile atrás do outro. Contradanças em grande parte evitáveis.

Embora a Constituição não obrigue, as escolhas das últimas décadas tinham sido feitas pelo presidente, sim, mas baseado numa lista tríplice elaborada por quem entende do recado (STJ, OAB). Assim, o presidente exercia sua prerrogativa de indicar um nome, mas evitava a suspeita de estar se baseando em proximidade ideológica ou amizade pessoal.

Traído pela soberba, Lula bobeou. Esnobou Rodrigo Pacheco, candidato de consenso que provavelmente teria sido aprovado sem tropeço. Dispensou lista tríplice e anunciou que seu candidato era o AGU. Esse tipo de decisão arrogante só funciona quando o chefe do Executivo está em posição de força, seja por ter excelentes níveis de aprovação, seja por estar longe de período eleitoral. Ora, Lula está amargando aprovação péssima, e estamos a cinco meses das eleições. Em momentos assim, é imprudente confiar apenas em ecos da popularidade passada. Ministro do STF é cargo cobiçadíssimo. Os não escolhidos se sentem frustrados, tem muita gente botando olho gordo e espetando bonecos de pano à moda vodu.

Além disso, depois que as pesquisas começaram a indicar a viabilidade da candidatura do filho de Bolsonaro, os braços ameboides do Congresso passaram a se estender para o dito “01”. A partir desse momento, o espírito do Parlamento se tornou hostil ao presidente. A tendência é negar todo pedido vindo de sua parte e escamotear todo favor que se lhe pudesse ser feito.

O presidente Lula está, pois, em posição delicada com relação aos parlamentares. Estes últimos têm a força da avidez que nunca sacia. Nesses termos, um Lula fragilizado perde toda atratividade. Suas Excelências preferem acariciar quem está na crista da onda.

O candidato Jorge Messias poderia talvez ter sido aprovado pelos senadores seis meses atrás. Em vez de titubear, Lula deveria tê-lo logo mandado à forja, enquanto o filho de Bolsonaro não passava de candidato folclórico em que ninguém botava fé. Aquele era o momento, mas Luiz Inácio deixou passar.

Do modo que as coisas estão, vai ser difícil uma nova indicação de Lula ser aprovada antes das eleições. Caso o presidente não seja reeleito e, em seu lugar vier um presidente bolsonarista, seja o filho de Jair ou um outro, em breve tempo o equilíbrio de forças terá vergado para outra vertente. Os ministros estarão, em maioria, sintonizados com ideias reacionárias ou, pior, de extrema direita.

Não se sabe se era o que Suas Excelências desejavam, mas é o caminho que hoje parece mais bem atapetado. Com pedrinhas de brilhante.

Um estrangeiro na Presidência?

José Horta Manzano

O Poder Executivo da Suíça é colegial. O governo é exercito por um colégio de sete membros, chamados conselheiros federais. Cada conselheiro federal é eleito pelo Parlamento para um mandato de quatro anos. As eleições para o Conselho Federal têm lugar a cada quatro anos, sempre após a eleição dos novos deputados e senadores. Cada conselheiro tem o direito de se recandidatar tantas vezes quanto desejar. Pode também renunciar ao mandato quando lhe aprouver.

Ignazio Cassis nasceu na Suíça, filho de imigrantes provenientes da Itália. Dado que a lei suíça de nacionalidade não reconhece o “jus soli” (direito de solo), o pequeno Ignazio herdou a cidadania italiana dos pais. Foi assim até a idade de 15 anos quando se tornou suíço “por derivação” – quando da naturalização dos pais, os filhos menores têm direito “por derivação” à nova nacionalidade. A partir daí, Cassis tornou-se binacional, italiano e suíço.

Em seguida, estudou medicina, fez mestrado e doutorado, exerceu por alguns anos e entrou para a vida política. Foi deputado durante dez anos até o dia em que o Parlamento o elegeu para o seleto clube de sete membros do Conselho Federal. Nesse momento, Ignazio Cassis entendeu que não era admissível integrar o Executivo e, ao mesmo tempo, guardar no bolso um passaporte estrangeiro. Ato contínuo, seguiu o rito de renúncia à nacionalidade italiana. Isso foi em 2017. Hoje está em seu terceiro mandato como conselheiro federal.

No Brasil, em 2005, Lula era presidente da República quando uma celeuma correu solta por Brasília e Roma. É que a primeira-dama de então, dona Marisa Letícia, fez saber que tinha conseguido reconhecimento de sua nacionalidade italiana por direito de sangue (jus sanguinis). Tanto ela, quanto os filhos passaram a ser oficialmente binacionais, brasileiros e italianos. Indagada, explicou que não fazia isso por si, mas para “garantir uma oportunidade para os meninos no futuro”. Nem todo o mundo apreciou a explicação. A celeuma também atingiu Roma, mas por outros motivos. Massimo d’Alema, deputado italiano e ex-primeiro-ministro, reclamou que dona Marisa sequer falava italiano, tinha origens peninsulares longínquas e podia votar nas eleições italianas, enquanto a babá de seus filhos, imigrante estabelecida na Itália havia muitos anos, que falava italiano e pagava seus impostos na Itália, não podia.

Passado algum tempo, o assunto morreu e ninguém mais falou disso.

Já faz alguns anos que os quatro filhos homens de Jair Bolsonaro são detentores da nacionalidade italiana, com direito a passaporte no bolso e cédula para votar por correio nas eleições. Pelas informaçôes de que disponho, o pai não requereu o reconhecimento da cidadania. Portanto, continua mononacional.

Preste atenção ao que vem agora. Um dos filhos homens do homem é candidato a ocupar o trono que já foi do pai. Ele recobrou sua cidadania italiana – é, portanto, binacional: meio brasileiro, meio estrangeiro. É impossível asseverar desde já se esse rapaz será eleito ou se vai amargar derrota e comer poeira da estrada. Suponhamos, como exercício de futurismo, que vença a corrida e se torne presidente do Brasil.

Das duas, uma. Ou renuncia, nos conformes, à cidadania italiana, ou teremos um presidente que é, certamente, brasileiro nato, mas que é também… estrangeiro. Uma situação conflituosa, que a Constituição não previu.

Está na hora de promover uma alteração da Lei Maior no sentido de proibir estrangeiros assim como binacionais de se candidatarem à Presidência. O candidato terá de renunciar a sua(s) cidadania(s) estrangeira(s) antes de ser eleito. Caso contrário, a eleição periga ser anulada, por motivo de o candidato ser estrangeiro.

Cartinha ao presidente

José Horta Manzano

Prezado presidente Lula,

Escrevo como quem escreve a Papai Noel. Longe de mim estar querendo cavar um favor especial ou uma graça particular, não é isso. A comparação com o bom velhinho vem do fato de eu escrever sem certeza de que a carta vá chegar ao bom destino, exatamente como quando a gente manda cartinha ao Polo Norte. A única semelhança entre o senhor e aquele idoso do “Ho, ho, ho” é a enorme quantidade de pedidos que cada um recebe. Além da barba branca, naturalmente. Só que aquele consegue atender aos pedidos de quase todos – digo bem: quase – ao passo que o senhor não dispõe de poder igual. No seu saco, faltam presentes para muita gente.

Agora chega de divagações, se não, esta cartinha vai se alongar demais e tomar-lhe um tempo precioso. Quero falar das eleições deste ano e aproveitar para lhe dar um conselho. Não se avexe com a ousadia: este que lhe escreve sente-se à vontade para cochichar-lhe ao ouvido, dado que, com diferença de poucos meses, somos coetâneos.

O senhor não tem feito segredo de sua disposição de se candidatar a um quarto mandato. Presidente, lembre-se que tudo o que sobe acaba caindo um dia. E o que subiu muito alto faz um barulhão ao desabar. Sua ascensão, vamos lembrar, foi fulgurante. No fim do século passado, o senhor fez bem em insistir. Na época, poucos apostariam naquele barbudo baixinho, de língua meio presa, de cara sempre amarrada, com ares de quem quer implantar no país uma república sindical. Mas valeu a insistência. Um belo dia, deu certo, e o senhor se tornou o primeiro retirante e primeiro operário a conquistar o cargo máximo do país. Uma façanha!

Seguiram-se anos de deslumbre, encontros com reis, rainhas e os grandes deste mundo, implantação da Bolsa Família, respeito às instituições, ‘companheiros’ se lambuzando de mensalões e petrolões, reeleição assim mesmo, carisma inabalável, popularidade nas alturas. Mandato terminado, alijado do poder, uma Justiça estrábica o despachou para o cárcere, situação que o senhor enfrentou com galhardia, não há como negar. Mas esses quarenta anos de política lhe ensinaram muito. O Lula de hoje tem pouco a ver com o da Vila Euclides.

Na penúltima eleição, o senhor não pôde tomar parte. O Brasil elegeu uma figura estranha, que depois se descobriria ter emergido do mundo das trevas. Esse singular personagem, aliado à mortal pandemia de covid-19, resultaram num quadriênio calamitoso em que um Brasil quase pária teve de se contentar em sentar-se num banco rebatível no teatro internacional.

O senhor foi eleito em 2022. Foi por um triz, é verdade, com margem diminuta de votos. Neste seu terceiro mandato, que finda este ano, sua quota de popularidade nunca mais atingiu os picos de antigamente. Nem o julgamento, a condenação e o encarceramento de seu predecessor e da malta golpista que o cercava foram suficientes para inflar a popularidade do senhor. Só esse fato deveria fazer piscar um farolão vermelho no Planalto. Atenção, os ventos giraram!

Com as semanas que passam, outras luzes se põem a piscar. Até o governo de Washington já se deu conta. As sondagens (nada discretas) de Donald Trump mostram que ele já não põe fé na vitória de Lula em novembro, apesar da “química” que teria rolado entre os dois naquele encontro na ONU. Designou até um representante especial para vir ao Brasil visitar Bolsonaro na cadeia. A visita só não ocorreu porque o STF e vosmecê bloquearam a tempo a bizarria. Onde já se viu encarcerado recebendo enviado oficial de governo estrangeiro?

Presidente, vamos ao que eu queria lhe dizer: desista da reeleição, não concorra, abandone. Na sua idade, na condição de quem já ganhou todas, pra quê teimar em nadar contra a corrente quando a correnteza é a esse ponto desfavorável? O senhor não precisa provar mais nada a ninguém. Foi presidente por dois mandatos, foi condenado e preso, saiu da cadeia e… tornou a subir a rampa do Planalto. Agora basta! Tudo está provado e conquistado!

Resta-lhe pouco tempo para tomar a decisão. Ao insistir na candidatura, vosmecê estará pondo em risco sua biografia e seu legado, dado que a vitória periga ir para a extrema direita. Caso se candidate e perca, o senhor será lembrado como aquele que foi batido nas eleições e acabou entregando o poder aos extremistas. Se desistir, no entanto, conserva sua glória e embaralha o jogo eleitoral, abrindo boa chance de vitória para um não extremista ou até para um indicado seu, por que não?

Pense nisso! E tenha uma longa, feliz e merecida aposentadoria!

Placa com bandeirinha

José Horta Manzano

Décadas atrás, uma resolução comum dos Estados do Mercosul estabeleceu a implantação das placas de automóvel ditas “Placas Mercosul”, uniformizadas para todos os países participantes, com formato idêntico e a menção da nação em caracteres pequenos.

De fato, os meios eletrônicos atuais dispensam a presença do guarda escondido à beira da estrada anotando num caderninho o número da placa dos infratores. Os radares, sozinhos, dão conta do recado. E já enviam os dados para uma central de processamento, mais rápido do que o guarda levaria pra chegar lá, mesmo viajando a 200 km/h montado em sua moto BMW.

No começo, houve muita reclamação, principalmente dos cidadãos simpatizantes da direita na política. É que sentiam arrepios só de pensar que estariam se dobrando a exigências do venezuelano Chávez, do argentino Kirchner e de outros detestáveis ‘comunistas’. Os cães ladraram, mas a caravana passou. A placa modelo Mercosul foi adotada nos países membros do agrupamento.

O senhor Esperidião Amin, senador por Santa Catarina, completará 79 anos este ano. De espírito bastante conservador, está na política desde bem jovem. Começou a carreira na Arena, partido oficial de apoio aos militares da ditadura. Dessa agremiação, por assim dizer, ele nunca saiu. Quem mudou de nome foi o partido, que se tornou PDS, depois PPR e por fim PP. Curiosidade: é o partido de Paulo Maluf, senador cassado.

O senador Amin elaborou um projeto de lei que pede que se dê marcha à ré nas normas das placas de automóveis, embora estejam já em uso há anos e tenham entrado na rotina de todos. O projeto de lei prevê que se reintroduza o que foi banido há anos, ou seja, a menção do município e do estado, assim como a bandeirinha do estado.

O senador e o relator do projeto de lei argumentam que essa informação nas placas ajuda a polícia e as autoridades a “identificar com facilidade a origem de um veículo infrator”. Ora, não se tem notícia de que os modernos radares e aparelhos de identificação de placas tenham tido algum tipo de dificuldade em “identificar veículos infratores”.

Argumentam também que “a iniciativa resgatará o significado cultural e identitário das placas, reforçando o senso de pertencimento à região e o orgulho local e facilitando a percepção pelos locais quando se tratar de veículos ‘de fora’.”

Ora, essa ideia está de ponta-cabeça. A supressão de toda menção à origem do carro (e do motorista) foi pensada justamente para apagar essa impressão de que o veículo é “de fora”.

O desconhecimento da origem do carro evita discriminações no tráfego. Previne agressões suscitadas pela antipatia que alguém possa sentir por esta ou aquela origem. Evita furtos e roubos perpetrados por maus elementos sempre atentos a turistas desavisados. No grau elevado de polarização que atualmente vivemos, a não menção da origem do carro é um salvo conduto; sabendo-se que determinados estados têm simpatia pela esquerda (ou pela direita), os turistas poderão viajar tranquilos fora de sua região.

No ar, fica a questão: Por que razão o senador anseia por uma volta ao passado no sistema de emplacamento de veículos? Quando se pensa que o trabalho de um senador há de ser muito mais elevado que a mera preocupação com bandeirinhas nas placas, uma dúvida logo surge: seria o nobre parlamentar sócio de uma firma fabricante de placas veiculares?

Não, não acredito. Não se deve enxergar o diabo por toda parte. Cá pra mim, a razão é bem mais prosaica. Extremamente conservador, se é que me entendem, o senador, que é catarinense, apoia o antigo presidente Bolsonaro, hoje preso.

Fazendo coro à doutrina de seus companheiros, que separam a população entre “cidadãos de bem” (como ele, naturalmente) e “cidadãos de baixo” (os demais), gostaria de identificar forasteiros intrusos que, sob o anonimato de uma Placa Mercosul, ousam adentrar seu estado natal.

Se pudesse, talvez instalasse uma aduana nas divisas de seu estado a fim de impedir a entrada desses indesejados que vêm macular o que ele supõe ser a pureza de sua civilização.

Nossos sonolentos senadores já aprovaram o projeto de lei. Ele continua seguindo seu caminho. Qualquer dia, virá a notícia nas manchetes. Aí, será tarde demais.

O poder do cartão de visita

José Horta Manzano

Cartão de visita costumava ser adereço obrigatório na carteira de todo profissional. Logo depois das apresentações, vinha logo o pedido: “Pode me dar seu cartão?” Todos tinham cartão, até os que não tinham profissão. Estava ali anotado o nome do indivíduo assim como seu ofício, eventualmente o endereço e o número de telefone. Adolescente, cheguei a fabricar cartão em casa, à moda artesanal, batido à máquina e recortado com tesoura.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Não sei se o costume de mandar imprimir cartão de visita persiste ou se foi levado pela enxurrada da modernidade. Talvez uma troca de zap hoje baste. Sou incapaz de dizer, visto que meu último lote de cartões foi impresso mais de 30 anos atrás.

Uma notícia que li hoje – e que reproduzo na cabeceira deste texto – me lembrou o velho hábito da apresentação do cartão pessoal. Neste artigo, aquele retangulozinho de papel tem o significado de etiqueta. A etiqueta que se leva grudada na testa e que nos define com relação aos demais.

“Aquele senhor é médico”, cochichava-se discretamente à passagem do homem grisalho de ar sério.

“Olha o vendedor de aspirador! Ele bate perna de porta em porta, um trabalho estafante”, é o que se comentava sobre o rapaz de paletó surrado e calças idem.

“Puxa, repare na elegância do distinto. É deputado”. Bom, falava-se assim num tempo antigo. Hoje em dia, elegância não é exatamente o que salta aos olhos quando se fala de um parlamentar.

Mas não vamos escapar do assunto. Quero falar de segurança, aquela que o cidadão sente (ou deixa de sentir) no dia a dia, na estrada, na cidade, na praia, no tráfego e até dentro de casa de portas trancadas. O sentimento de insegurança que submerge o brasileiro não é produto de sua fértil imaginação. É a realidade inescapável, esmagante, oprimente, sufocante.

Dentro do bagageiro do inocente entregador de pizza, pode se enconder uma arma pronta a mandar para o paraíso qualquer um que ouse resistir a um assalto. Formicida pode se esconder dentro do pedaço de bolo que a vizinha gentilmente ofereceu ao pequerrucho. A vida da família inteira pode ser ceifada pela violenta colisão provocada pelo cidadão que usa seu veículo de luxo como arma abalada a 180km/h numa avenida urbana.

Há exemplos a cada minuto e em cada esquina. A violência verbal tornou-se marca típica de muita conversa antes pacífica. Há perigo em casa, na escola, no trabalho, no carro, no ônibus, no parque, no restaurante, no bar, até na igreja. O sentimento de insegurança não é produto de uma paranoia coletiva, antes, é real.

Ano sim, outro também, aumenta a percepção que o brasileiro tem do clima de violência em que vive. Os maiores espantalhos do país, em outros tempos, já foram o comunismo, a inflação, a corrupção. Hoje, sem sombra de dúvida, a assombração maior é a insegurança.

Acho curioso ver “ex-gestores da área de Segurança”, qual salvadores da pátria, se candidatarem a postos eletivos com base na experiência adquirida nesse ramo. Ora, num país em que a insegurança se tornou a preocupaçao número 1, esses “ex-gestores da área de Segurança” deviam mais é fugir dos holofotes, bater sua mea culpa, se envergonhar de não terem sido capazes de pôr fim ao problema, e desaparecer do picadeiro.

Pedir voto de confiança ao eleitor me parece petulância. Quem não resolveu o problema enquanto tinha poder para tal deveria reconhecer a própria incapacidade, dar adeus e ir-se embora.

O cartão de visita tem, sim, o poder de exaltar a personalidade de quem o apresenta. Mas não têm o condão de dourar o currículo de gestores fracassados.

Afinal, o ser humano esteve na Lua ou não?

José Horta Manzano

Deusa grega da Lua, da caça e da natureza selvagem, Artemisa corresponde a Diana, deusa romana. É o nome de batismo que a Nasa decidiu dar a seu foguete que deve levantar chispando estes dias a levar quatro tripulantes dar umas voltinhas pras bandas de nosso astro noturno.

Voltinhas é o termo exato, não é figura de linguagem. Devem girar umas quantas vezes em volta da Lua sem lá pousar. É que, depois de mais de 50 anos sem missões de convescote espacial tão distante, a mecânica pode estar um quanto enferrujada. Ou também, e isso é fato, as atuais exigências de segurança são bem mais estritas que as de meio século atrás. Imagine se a sonda não devesse retornar e os quatro passageiros se perdessem no espaço?

Mês passado, o Datafolha aproveitou para fazer uma sondagenzinha. Perguntou a mais de 2.000 maiores de 16 anos, habitantes de 123 municípios situados em todas as regiões administrativas do país, se o indagado acreditava que seres humanos já tinham viajado um dia à Lua – fato que ocorreu em diversas ocasiões na virada dos anos 1960 para os 1970. Se eu tivesse de jogar um número no ar sem ter lido os resultados, teria respondido que, fora meia dúzia de excêntricos, todo o mundo acreditava. Que pergunta, ora!…

Pois veja só, surpreso fiquei eu ao conferir as respostas. Grosso modo, ao extrapolar as respostas dos entrevistados, um de cada três brasileiros maiores de 16 anos acha que é mentira, ou seja, que o homem jamais esteve na Lua. Como testemunha ocular da História, posso dizer que vi (pela televisão na vitrine de uma loja) os primeiros passos de um certo Neil Armstrong na superfície de nosso satélite. Como é possível que hoje, passados 57 anos, ainda tem gente que não ficou sabendo?

É verdade que, no dia seguinte aos primeiros passos, começaram a aparecer as primeiras teorias da conspiração. Até eu já recebi ecos de algumas. Seja como for, é surpreendente que, dos duzentos e tantos milhões de brasileiros, a grande maioria ainda não nascidos em 1969, se ponham a “não acreditar” em fatos do passado. Costuma-se dizer que, no Brasil, até o passado é duvidoso; só que a ida à Lua não foi façanha brasileira, portanto é passado universal. Sacudam-se, incréus!

Se vosmecê imagina que os que acham que o homem jamais foi à Lua são bolsonaristas, está enganado. Se acha que são lulopetistas, também está enganado. Os dois contingentes estão praticamente empatados, dentro da margem de erro. Se acha que os incrédulos estão no Nordeste, engana-se. Se imagina que estejam no Sul, engana-se também. Foram 37% de incrédulos no Sul e 34% no Nordeste: empate técnico.

Cristãos de rito romano x cristãos neo-pentecostais? De novo, empate técnico: 34% dos católicos afirmam ser mentira contra 37% dos evangélicos. No recorte por renda familiar, encontra-se um fator de distanciamento. Entre os que ganham até dois salários, 37% acreditam ser mentira. Já entre os que estão na faixa superior, acima de dez salários mínimos, somente 20% acreditam que é mentira. Assim mesmo, esses 20% me parecem um número elevado.

Como esperado, o fator que mais distancia os que acreditam na realidade dos que não acreditam, é o nível de instrução. Entre os indagados que não foram além do ensino fundamental, 42% juram que é mentira. Entre os que avançaram até o ensino médio, 33% pensam que é mentira. E entre os que completaram o ensino superior, somente 19% engoliram alguma teoria da conspiração – o resto entendeu que a ida à Lua era coisa séria.

Agora, o que mais me impressionou: o recorte por idade. Entre os mais jovens (16 a 24 anos), que se supõem mais abertos, mais embebidos de informação, 27% persistem em negar as evidências e não acreditam que o homem tenha ido à Lua. Na outra ponta, dos maiores de 60 anos, mais próximos dos fatos do começo dos anos 1970, 37% afirmam que é mentira o homem ter ido à Lua.

À vista desses números, a gente fica meio sem saber que pensar. Tirando o nível de instrução, os outros recortes mostram uma população praticamente igualada na negação da História.

No entanto, há outras verdades meio duvidosas que dariam lugar a questionamentos que, estranhamente, ninguém se faz. Por exemplo, como é possível que o Tiradentes, um bugre analfabeto que só sabia manejar alicates enferrujados, pôde ser o cabeça de uma revolta contra uma cobrança de impostos – que, aliás, não lhe dizia respeito? E como é possível que só ele tenha recebido a pena máxima, sendo os outros todos poupados? Está aí, sim, uma questão que me interpela, mas que, aparentemente, não incomoda mais ninguém.

Ganha um passeio de pedalinho no Estreito de Ormuz, quem der pistas para resolver esse mistério. Não o do Tiradentes, o da descrença na pisada do homem na Lua.

Negócios fraudulentos

José Horta Manzano

Estes últimos tempos, é difícil abrir uma página de notícias sem encontrar lá o sobrenome Vorcaro. Está por toda parte, é invadente. O dono do sobrenome é um senhor do qual, até seis meses atrás, só iniciados tinham ouvido falar. Algo ele há de ter feito para ser elevado a celebridade nacional, equiparável a um BBB, só que mais fotogênico.

Não tive a ocasião de conhecê-lo pessoalmente, portanto devo fiar no que encontro na mídia e na internet. Seu passado, do qual não se fala com frequência, me parece um tanto esfumaçado. Uma breve biografia publicada na revista Piauí informa que seu avô, o imigrante Serafim, era pastor italiano. Que fosse italiano, não duvido. Mas… pastor? Há de ter sido um dos raríssimos italianos a professar o cristianismo reformado. E a abandonar suas ovelhas na Itália para emigrar. Raro mesmo. De onde terá saído essa informação?

Costuma-se dizer que só há duas maneiras honestas de ficar rico da noite para o dia. Uma delas, todos sabem, é ganhar na loteria. A outra, casar-se em comunhão universal de bens com uma mulher muito rica (ou com um noivo milionário). Há algumas outras maneiras, mas todas rodam fora dos trilhos da honestidade pura.

Vorcaro não cresceu na miséria, longe disso, mas também não chegou à maioridade em condições de comprar um banco. Pois ainda em seus anos de jovem adulto não só comprou um banco, como também aumentou o balanço do estabelecimento para atingir a casa das centenas de bilhões de reais. Foi nesses anos que, coincidentemente, entrelaçou seus negócios aos dos que mandam e decidem em Brasília. Mas não só lá.

Seu joguinho particular de pirâmide inchou, inchou, até que não havia mais ninguém para entrar na roda e alimentar os que estavam no topo a esperar seus ganhos. Foi aí que um pé d’água reduziu o belo castelo de areia a uma poça rasa. Vorcaro é hoje um turista nas malhas do sistema prisional, frenético como um foragido, viajando de prisão em prisão, à espera de ser chamado para o exame oral, a delação premiada.

Na minha lógica caipira, os papéis estão invertidos. Supõe-se que Vorcaro seja o corruptor, aquele que ofereceu dinheiro e vantagens em troca de depósito de dinheiro público em seu banco. Corruptos são os outros, aqueles que receberam dinheiro e vantagens e depois assinaram ordens de depósito de dinheiro público no banco de Vorcaro. Vamos ver se, depois da tal “delação”, todas as partes entram na dança.

Pode parecer inacreditável, mas Vorcaro não é o único self-made man a enveredar pelo caminho perigoso dos negócios fraudulentos. De memória, me vêm dois casos emblemáticos.

O primeiro é o empresário francês Bernard Tapie (1943-2021). Saindo do nada, passou pelos palcos e pela televisão (foi cantor e apresentador), pela política (foi deputado e ministro), pelas artes (foi colecionador de quadros), pela recuperação de empresas (chegou a comprar uma dezena de empresas praticamente falidas por 1 franco simbólico, que revendeu por centenas de milhões – entre elas, a alemã Adidas). Comprou o time de futebol OM (Olympique de Marseille), que andava mal das pernas, e tirou-o do buraco. Só que exagerou na gestão do clube e andou subornando clubes adversários para entregarem o jogo. A mutreta acabou se tornando pública, e Tapie passou uma temporada na cadeia. Morreu de câncer em 2021.

O outro de quem me lembro era o homem de negócios americano Madoff (1938-2021), esse também de nome Bernard. Seu caso foi mais sórdido do que o do francês Tapie, visto que traiu a confiança de amigos pessoais que lhe confiaram dinheiro grosso para investir. Madoff prometia rendimento muito acima do mercado, recebia somas importantes, mas nunca investiu um centavo. Depositava tudo em sua conta bancária pessoal Quando alguém vinha retirar dinheiro, ele retirava de sua conta e entregava ao cliente. Era a típica pirâmide. Foi até o dia em que estourou. Ele pegou 115 anos de cadeia. Morreu na prisão.

Quanto a nosso Vorcaro, ninguém o quer numa prisão, onde ele seria um arquivo vivo. Seria até perigoso para ele, que poderia “acordar morto” a qualquer momento. Ele vai sair livre mais dia, menos dia. Sua clientela é transversal e atravessa o que há de mais “respeitável” na Brasília dos mandos e desmandos. Todos de rabo preso e bem preso. Todos puxando a corda no mesmo sentido, fazendo o que podem para que a delação do ousado banqueiro seja fraquinha, orientada para alvos menores, passando ao largo dos maiorais.

E assim segue a barca que leva políticos e magistrados, todos bem-intencionados, imaculados, sorridentes, altruístas e puros.

Peixoto Gomide

José Horta Manzano

O processo de revisão histórica, que ganhou força duas décadas atrás, ressurge no presente e exige o “cancelamento” de certos personagens do passado que tenham virado nome de rua ou logradouro público.

A fase atual do movimento é menos ideológica do que estávamos acostumados. Prescreve a mudança de nome dos logradouros que levem o nome de assassinos e outros criminosos. A causa me parece justa. Onde já se viu eternizar de maneira honrosa o nome de criminosos?  É um disparate.

Um dos primeiros a serem postos na berlinda foi doutor Peixoto Gomide, nome de rua da cidade de São Paulo, via importante, de 2 quilômetros, que cruza a avenida Paulista. O homenageado foi presidente do Senado estadual de São Paulo, bem como presidente do mesmo estado. Resumindo seu fim de vida, matou a própria filha, crime conhecido em direito penal como filicídio. E suicidou-se em seguida. Sua história está bem resumida na Wikipedia, para quem quiser mais detalhes.

Os que pediram a mudança do nome da rua que o dintingue sugeriram que a homenagem seja feita a sua filha, a assassinada. Concordo, repito, que o nome do assassino seja apagado da placa. Quanto a homenagear a vítima, tenho cá minhas dúvidas. Com tantas pessoas assassinadas todos os dias no Brasil, por que critério umas teriam mais direito que outras a virar nome de rua?

Ampliando o raciocínio, acho que, quando se faz alguma coisa, é melhor fazer bem-acabado. Se permanecermos no caso Peixoto Gomide, uma rápida consulta a Google Maps me informou que há mais três ruas com o nome desse senhor em cidades paulistas: uma em Franco da Rocha, outra em Piracicaba e mais uma em Ribeirão Pires. Então, como é que fica? Muda-se aqui, mas não ali?

Sei que a fixação de nome de logradouro cabe à vereança do município. Assim sendo, o assunto está a merecer estudo em nível federal. Para evitar contradições, uma lei, decreto ou imposição legal de alcance nacional deveria regulamentar a questão e estipular o que pode e o que não pode.

O tema abre excelente perspectiva para formandos e/ou recém-formados em História, Geografia e áreas afins. O trabalho consistirá primeiro em obter a lista dos logradouros de cada município do país. Numa segunda fase, será pesquisada a origem de cada nome de logradouro: quem foi e o que se sabe sobre o homenageado. Casos escabrosos de criminosos ou delinquentes serão anotados e entrarão numa terceira fase, a do “cancelamento” propriamente dito.

Evidentemente, esse trabalho tem de ser normatizado, pontas aparadas, rebarbas limadas. Quanto a mim, já fiz minha parte: lancei a ideia.

Curra

José Horta Manzano

Só quem tem por volta de 80 primaveras, daí pra mais, pode se lembrar de um fait divers que chocou o Brasil em julho de 1958. Era uma época em que escândalos costumavam ocorrer e morrer entre quatro paredes sem que ninguém ficasse sabendo.

Mãe solteira, por exemplo, havia menos que hoje. Uma vez a moça engravidada, o normal é que terminasse em casamento, de bom grado ou à força. E era bom que fosse rápido, antes que o vestido começasse a encurtar.

Era um Brasil mais pobre, mais apegado a imposições da Igreja, talvez mais hipócrita que atualmente. Se era melhor ou pior que hoje? Tudo é relativo, mas uma coisa é certa: a solidariedade, que a pobreza favorece, estava mais presente. A família era ampla e incluía numerosos irmãos e irmãs, primos, tios e tias, agregados, padrinhos. Essa roda de gente era um ponto positivo, mas, ao mesmo tempo, o controle social exercido por esse largo círculo era forte, nem sempre fácil de suportar.

Foi nesse ambiente que se armou o drama de 1958, no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. Aída era uma jovem de 18 anos, ingênua e virgem como convinha naquele tempo. Num fim de tarde, voltando a pé da escola para casa, foi abordada por dois ou três rapazes do tipo “filhos de papai”, que se distinguiam pelo blusão de couro e óculos usados de dia e de noite, com lentes em geral escuras, armação preta espessa. O protótipo de como se imaginava a terrível ‘juventude transviada’.

O mais afoito chamava-se Ronaldo. Convidou-a para uma visitinha num apartamento situado no prédio ali ao lado. Aída recusou e fez menção de ir embora. Para impedi-la de partir, o rapaz tirou-lhe das mãos um objeto e saiu andando na direção do tal prédio. Aída, que precisava do tal objeto, não teve outro remédio se não seguir o moço, implorando-lhe de devolver o que tinha roubado. Uma vez passada a porta de entrada do edifício, auxiliados pelo porteiro (que era cúmplice do estratagema), subiram todos à laje superior, localizada na altura do 12° andar.

A sequência dos acontecimentos, quem nos fornece é a polícia do então Distrito Federal. Horas mais tarde, um corpo de mulher semidespida foi encontrado na calçada, jazendo numa poça de sangue. A moça era Aída. Chamada para constatações, a polícia científica concluiu que a jovem tinha sido primeiro currada(1), em seguida atirada da mureta da laje, no 12° andar. A marca do solado de suas sandálias ao longo do muro exterior do edifício excluía a hipótese de Aída ter dado um salto voluntário.

Seguiram-se processo, recurso, novo processo. David Nasser, conhecido jornalista, utilizou o espaço de que dispunha semanalmente na revista O Cruzeiro – a de maior circulação no país – para acusar o ‘playboy’ Ronaldo e seu comparsa, com argumentos, provas, evidências, testemunhos. Todo o poder da comunicação foi utilizado em favor da memória da infeliz vítima. O libelo durou semanas e meses. Não adiantou.

A mentalidade do Brasil de 70 anos atrás ainda estava longe de desabrochar. Assuntos como esse tinham sempre o mesmo pré-julgamento popular: em casos de estupro, a mulher era sistematicamente culpada. Se ela subiu ao 12° andar com os rapazes, foi porque quis. Afinal, tinha 18 anos e devia saber o que estava fazendo. Os curradores foram condenados por atentado violento ao pudor, mas foram absolvidos da pior acusação, a de homicído.

Estes dias, lembrei muito desse caso. O que aconteceu algumas semanas atrás, na mesma Copacabana, quando uma jovem da idade de Aída foi atraída para uma emboscada e currada por quatro bostinhas, guarda certa semelhança com o caso de 1958. Muito felizmente, o caso não terminou em homicídio. Acabou com os quatro criminosos marchando calmos em direção ao elevador, burocraticamente consultando mensagens e notificações ao celular.

Por enquanto, estão na cadeia. Em vez de blusão de couro, vestem bermudão. Em vez de botinas lustradas, calçam chinelo de dedo. Em vez de óculos de sol, abrem os olhos descaradamente, como se dissessem: “E aí, vai encarar?”.

Um dia, serão julgados. A sentença demonstrará se as peripécias que nosso país atravessou nesses 70 anos terão valido a pena. A mansuetude dos juízes para com esses rebentos, nascidos bem mas criados mal, continuará a mesma de 1958?

Currada(1)
Particípio passado do verbo currar. É termo que entrou em obsolescência, segundo o Houaiss. Até pouco tempo atrás, era usado para descrever o que hoje se diz “estupro coletivo”, um atentado ao pudor feminino cometido por uma associação de dois ou mais criminosos, com uso de coerção e violência.

A palavra currar não era tabuísmo, antes, podia ser pronunciada diante de senhoras. Talvez o receio de que pudesse ser percebida como vulgar seja responsável por sua substituição por “estupro coletivo”, expressão cujo som despretensioso parece diluir a culpa do ato abominável entre os diversos participantes.

Sem cartão de crédito

José Horta Manzano

Nunca fui de ter heróis. Os meninos da minha infância se encantavam por tipos como Mandrake, Super Homem, Batman. Eu achava muito mais divertido ler as aventuras de Frajola & Piu Piu, Pato Donald & seus sobrinhos, Pernalonga & Holtelino Tlocaletla.

Como se vê, todos os personagens daquele tempo eram importados dos EUA. Aliás, o Grande Irmão do Norte é país carente de heróis. Como nem sempre os teve à mão, inventou como pôde. De tanto buscar o herói perfeito, desembocaram num Trump, veja você, encarnação da carência americana: o homem forte, viril, que, para impor sua vontade, esmaga quem lhe estiver pela frente. O mocinho que sempre vence os índios, nem que seja com bomba atômica.

Até outro dia, eu tinha grande admiração pelo juiz Moraes, do STF. Me pareceu o homem providencial, aquele que surge no momento certo. A tarefa não era caçar índios, evidentemente, mas dar um jeito no galinheiro e mandar para a cadeia aquela curriola que vinha ameaçando nossa ordem e nosso progresso, e que tinha ousado preparar um golpe de Estado. Que pretensão…

Deu tudo certo no final: o chefe da quadrilha e todos os asseclas foram julgados, condenados e, em maioria, encarcerados. E isso se deve, em grande parte, à mão firme de doutor Moraes, que não soltou as rédeas enquanto não viu o dramalhão chegar ao fim. Se o Brasil se livrou daquele bando de ignorantes presunçosos, o juiz relator do processo merece um agradecimento especial.

Quando o governo americano (chuchado pelo inefável Bananinha, filho do ora encarcerado Bolsonaro) aplicou a doutor Moraes & digníssima esposa os raios e as calamidades da Lei Magnitsky, achei que era tremenda injustiça. Fiquei imaginando como é que os dois, expulsos do mundo digital como Adão e Eva do paraíso, iam se virar sem cartão de crédito? Me deu pena. De bom grado, teria emprestado meu cartão ao casal, desde que se comprometessem a não gastar muito, que é pra não estourar o teto.

O tempo passou, os raios e as calamidades da Magnitsky se foram, tudo voltou ao normal.

Ultimamente, fiquei (ficamos todos) sabendo que o maior estelionatário de que este país tem notícia havia sido preso. A história completa de suas peripécias talvez nunca se fique sabendo. Alguns fatos são conhecidos, no entanto. A firma de advocacia da digníssima esposa de doutor Moraes mantinha um contrato de 129 milhões de reais(!) com o banco de propriedade do estelionatário. De tão estratosférico, o valor suscita desconfiança. Madame jura que se tratava de contrato real, que cobria serviços prestados e a prestar. Acredita quem quer.

Mas isso não é tudo. Há forte suspeita de continuados contactos pessoais e telefônicos entre o estelionatário e doutor Moraes. Este nega. Mas as evidências o acusam. A ver.

E pensar que quase ofereci meu cartão a esse casal! Com todos aqueles milhões no bolso, quem precisa de cartão? Tem de fazer como em comédias americanas, em que, na hora de pagar a conta do jantar, o protagonista tira um vistoso maço de notas do bolso. E ainda deixa cem dólares de gorjeta.

Agora fica a dúvida para pensar em casa. Aquele que foi herói um dia, mas que já tinha uma longa folha corrida que ninguém conhecia, pode deixar de ser o herói que foi? Em outros termos: pilhado no erro, o antigo herói perde seu status?

Latinidade

José Horta Manzano

Afinal, somos latinos ou não? Está aí uma dúvida que vem percorrendo o Brasil estes últimos tempos. Acredito que, na origem dessa onda, esteja o inoxidável Donald Trump, com sua guerra declarada contra imigrantes legais e ilegais. Nos EUA, às pessoas originárias de países hispano-americanos, dá-se o nome genérico de “latinos”. Parece que a apelação não se aplica a nós. De qualquer modo, brasileiros nunca fizeram questão fechada de ser considerados “latinos”.

Abre parênteses. Não é tanto que imigrantes sejam nocivos à economia dos EUA, nem que roubem empregos dos americanos. Afinal, costumam executar tarefas que os nacionais recusam. E tem mais: se esses estrangeiros estão lá, é porque trabalham, se assim não fosse, já teriam voltado a seus países. Mas o presidente americano faz esse espalhafato todo porque acredita que livrar-se de imigrantes seja o desejo profundo de seu eleitorado. Seus eleitores podem não ser portentos das ciências, mas sabem contar dinheiro. Ainda que estejam instalados numa fazenda perdida no Meio-Oeste, por certo apreciam poder contar com mão de obra barata dos imigrantes no momento em que precisam. Fecha parênteses.

Eu estava falando de latinidade. No fim de semana passado, um artista porto-riquense cujo nome artístico está longe de ter sonoridades latinas (Bad Bunny) deu shows em São Paulo. Dia seguinte, a imprensa informou que o “Coelhinho Mau” (em tradução livre e não autorizada) tinha incitado o povo brasileiro a reconhecer-se como latino. Enxergar-se como latino depende muito do significado do termo “latino”.

Se, para ser considerado latino, basta ter uma língua latina como língua oficial, o povo brasileiro é tão latino quanto os guatemaltecos, os angolanos e os romenos. Sendo assim, há duas dúzias de “povos latinos” nas Américas, mais uma dúzia na Europa, mais meia dúzia na África.

Se, por seu lado, para ser considerado latino, precisa pertencer a uma suposta etnia latina, aí a coisa se complica. Nem os Romanos, dois milênios atrás, se diziam latinos. Consideravam-se simplesmente Romanos. A nacionalidade do Império Romano não era concedida assim tão facilmente. Portanto, falar em etnia latina exclui muita gente.

Se admitimos que a definição de “latino” depende da língua falada, as coisas se descomplicam. Nesse caso, as Américas contêm vinte e poucos países de fala espanhola, um de fala lusitana (nós), mais alguns intrusos de língua francesa, que não deixa de ser língua latina (Canadá e algumas ilhas caribenhas).

Muitos puristas, por razões que me escapam, preferem excluir a língua francesa da lista de línguas latinas faladas nas Américas. Preferem fazer de conta que há só espanhol e português. Nesse caso, melhor seria falar de América Ibérica, que faz mais sentido.

Os que se entusiasmam com o despertar de nossa latinidade merecem ser informados de que mergulhar no repertório deste ou daquele artista, fosse ele o “Coelhinho Mau”, não significa adotar a integralidade da cultura hispano-americana, e muito menos as músicas que se tocam do México à Patagônia.

Nos cinquenta anos mais produtivos da música popular brasileira – dos anos 1930 aos anos 1980 –, a música latino-americana cantada em espanhol era bastante tocada e apreciada por aqui. Tango, carnavalito, mariachi, bolero, rumba, mambo, valsa venezuelana, cumbia, valsa peruana, milonga, guarânia, cha-cha-cha eram ritmos bastante apreciados, cantados e dançados.

Lucho Gatica (cantor chileno, o Rei do Bolero), José Mojica (tenor mexicano que abandonou Hollywood para tornar-se sacerdote franciscano), Trio Los Panchos (um porto-riquense e dois mexicanos), Pedro Vargas (cantor mexicano), Cantinflas (cômico de cinema) eram conhecidíssimos e vendiam bem por aqui.

Em 1937, Amado Régis compôs a música “O samba e o tango”, que foi gravada por Carmen Miranda. A letra tinha uma parte em português (o samba) e outra em espanhol (o tango), com o ritmo que se alterava no meio da música, variando entre tango e samba. Está no youtube pra quem quiser ouvir.

Dolores Duran (1930-1959), que escreveu letra e música de “A noite do meu bem”, um marco do cancioneiro nacional, não tinha sido batizada com esse nome. Seu sobrenome verdadeiro não era Duran e seu prenome não era Dolores. Foi registrada como Adileia Silva da Rocha. O pseudônimo foi adotado na onda das músicas da América Hispânica, onipresentes naquela época. Dolores, dona de uma bonita voz, cantou samba, samba-canção, muito bolero (em espanhol) e outros ritmos.

Pois veja vosmecê. A profusão de músicas em espanhol daqueles anos não nos insuflou sentimentos de “latinidade” ou de pertencimento à América Hispânica. O “Coelhinho Mau” ainda vai ter de comer muito feijão antes de incutir esse tipo de sentimento a nossa gente.

Logo nós, que estamos há 500 anos olhando para o Atlântico, de costas para nossos vizinhos…

O pastor misericordioso

José Horta Manzano

Já muito tempo passou desde a última vez em que entrei numa igreja para ouvir a missa. Visitas turísticas a catedrais góticas e românicas não contam, que essas, vi muitas.

Só para vosmecê ter uma ideia, no tempo em que eu ia à missa, ela ainda era dita em latim. Já na época, ouvia-se dizer que o Vaticano estava considerando substituir o latim pela língua vernácula. Eu não sabia exatamente o que era “língua vernácula”; só mais tarde aprendi que era a que se falava no dia a dia, no nosso caso, português do Brasil.

Embora antigos, esses tempos não se confundem com o do Deus dos tempos bíblicos, aquele personagem sisudo e implacável que inspirava mais pavor que amor. Sem chegar a ser propriamente liberais, os preceitos da Igreja da minha época já eram menos engessados do que, digamos, no tempo de meus avós. O fogo eterno já não ameaçava os pobres mortais por um sim, por um não.

No púlpito, na hora do sermão, o vigário brandia o indicador apontado para um ponto no horizonte, percorria com os olhos o conjunto do fiéis e os alertava do perigo do pecado mortal. Os que caíssem em tentação tinham de se confessar e comungar rapidamente porque, se morressem naquelas condições, seria quase impossível alcançar a salvação. Hoje, acredito que a fala visava mais é a manter unido o rebanho de fiéis. Em todo caso, funcionava.

Afagos e ameaças eram sempre dirigidos aos paroquianos. Párocos não pronunciavam discursos farisaicos do tipo “Nós somos puros e vamos para o céu; aqueles ali são pecadores e têm entrada garantida no inferno”.

O Globo informa que o distinto pastor de uma “denominação” neopentecostal da periferia de São Paulo, apoiador de Bolsonaro, não gostou da apresentação da escola de samba carioca que teve a ideia esquisita de homenagear o Lula e desancar com a oposição. Gosto por gosto, eu também não gostei. Com tanto assunto por aí, homenagear presidente candidato à reeleição me pareceu péssima escolha.

O pastor tampouco apreciou que a tal escola de samba tenha menosprezado certos valores religiosos que lhe são caros. Quanto a mim, não discordo: apreciei menos ainda. Acho que não se deve nunca zombar da religião alheia.

O ponto em que o pastor e este escriba estão em desacordo vem agora. No que me diz respeito, ainda me prendo aos preceitos que aprendi.

    • Roupa suja se lava em casa;
    • fuja-se de farisaísmos do tipo “eu sou bom, eles é que são maus”;
    • religião e política não se misturam;
    • temos direito de gostar ou não, mas quem julga e condena é Deus.

Já nosso pastor assumiu comportamentos que considero indignos de um sacerdote.

    • Lavou sua roupa em público, via redes sociais;
    • não se vexa de pôr religião e política no mesmo balaio;
    • não se restringiu a criticar a apresentação da alegoria, foi além;
    • apontou culpados, condenou-os e fixou-lhes a pena.

O pastor misecordioso disse que os integrantes da escola que homenageou o Lula terão câncer de garganta(!). Dado que ele não especificou, a maldição vale para todos os integrantes, dos diretores aos faxineiros, passando por passistas, porta-bandeiras, criadores, mecânicos, costureiras, modistas, músicos.

É verdade que a escola de samba desafinou, mas o pastor trocou os pés pelas mãos e atravessou o passo. Fez aquilo que o Cristianismo condena: rogou praga para todo o pessoal da escola. E fez isso publicamente, na frente de fiéis e de infiéis. Será pecado mortal?

Me sobrou uma curiosidade. Se, por assustadora hipótese, a escola tivesse homenageado Bolsonaro e ridicularizado a imposição de cinzas da quarta-feira, qual teria sido a reação de nosso pastor rogador de praga? Uma maldição virulenta ou um gostoso afago em cada integrante da escola de samba?

Ponto fora da curva

Lucas Pinheiro Braathen e seus dois “coroinhas” suíços

José Horta Manzano

De repente, os brasileiros descobriram várias coisas ao mesmo tempo. Ficaram sabendo:

  • que, enquanto aqui faz um calor saariano, em outros lugares a neve acumulada forma um tapete branco;
  • que, enquanto por aqui se dança, do outro lado do mundo tem gente trabalhando;
  • que, para ter a nacionalidade brasileira, não é necessário nascer no Brasil; basta ter pai brasileiro (ou mãe brasileira) – nesse caso, a cidadania se transmite pela lei do sangue.

Surgiu do nada um jovem de seus vinte e poucos anos, nascido na Noruega, de sobrenome complicado, rosto sorridente que talvez não fizesse sucesso como galã da novela das nove, cabelo alourado de corte démodé, denotando no falar um bom conhecimento de nossa língua embora esteja há anos sem praticar – uma figura peculiar.

Até sexta-feira passada, poucos brasileiros haviam ouvido falar dele. A esta altura, vosmecê já sabe que me refiro a Lucas Pinheiro Braathen, atleta do esqui alpino.

O moço deixou de ser um desconhecido no Brasil imediatamente depois de arrasar na prova de slalom gigante, aquela capaz de destroncar o joelho de qualquer um, com o esportista descendo montanha abaixo, de esqui, a uns mil por hora, contornando piquetes plantados na neve, num rapidíssimo jogo de cintura pra lá e pra cá. De fazer o coração sair pela boca.

Ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos da Itália, que se desenrolam atualmente na região de Cortina d’Ampezzo, Alpes italianos. Ao descer a montanha, Lucas subiu ao topo da escala de simpatia do público nacional. Imagine só, logo o Brasil, que nunca tinha ganhado nenhuma medalha nos JOs de inverno, nem de ouro, nem de prata, nem de chocolade. Iniciar a coleção logo com uma de ouro!

O rapaz só não será recebido pelo presidente da República se não quiser. Especialmente em ano eleitoral, como este, prefeitos, governadores e o presidente estão ansiosos para tirar uma selfie ao lado do novo herói.

Que aproveitem, porque nosso quadro de medalhas nos JOs de inverno não deve se enriquecer assim tão já. Esportes de frio e de neve não são, como é sabido, a especialidade nacional. Vivemos num país de território gigantesco, mas que carece de montanhas. Ademais, nossa posição geográfica, entre Equador e um dos trópicos, não favorece o aparecimento de pistas de esqui polvilhadas de “ouro branco”.

Para treinar, o aspirante brasileiro teria de ter boa folga financeira, pois o campo de treinamento mais próximo no (nosso) inverno está a 3 horas de avião, no Chile ou na Argentina. No (nosso) verão, é pior: para encontrar neve fresca, são 12 horas de viagem até os Alpes. Não está ao alcance de qualquer um. Isso posto, a medalha de ouro do esqui fica como agradável ponto fora da curva.

O que vai contar mesmo é a Copa do Mundo, daqui a alguns meses. Se Donald Trump não atrapalhar, naturalmente.

Carnaval no STF

José Horta Manzano

Carnaval costuma ser tempo de alegria, de confete, serpentina e buzina. Mas não para todo o mundo. No STF, por exemplo, o clima estes dias está mais para velório que para a louvação de Momo.

São Benedito nos acuda! Os guardiães da Lei enlaçados em trevosas amizades e enroscados em obscuras transações com gente que vive à fímbria da civilização, no limiar da delinquência! As altas esferas da Justiça de uma nação andarem de braço dado com a bandidagem é sintoma inegável do apodrecimento e da rápida falência das instituições.

Segundo o parecer de todos os analistas, o envolvimento de doutor Toffoli com o réu principal de um processo o obriga a declarar-se impedido. Assumir a relatoria do caso, então, está absolutamente fora de questão. Pois o doutor não teve pejo em manter-se no caso além de conservar a relatoria.

Desde o princípio, o país inteiro entendeu que ele estava claramente impedido, mas sua excelência agarrou-se à causa como náufrago que se agarra a um destroço. Dependesse dele, não largava o osso. Foi preciso ser de lá desalojado pelos colegas e escorraçado como um pedinte incômodo.

Doutor Toffoli queria manter a relatoria para salvar a cara e a honra. Acabou perdendo a relatoria e a cara. Sobrou-lhe a desonra.

Acho curioso que, para abraçar a carreira de juiz, o cidadão tenha de ser aprovado em exame específico e rigoroso. Enquanto isso, para assumir o posto máximo da magistratura nacional, uma indicação e uma “sabatina” fajuta bastem. Os escândalos que temos visto no STF são herdeiros diretos dessa prática laxista, que faz que cidadãos mal preparados e inaptos ao serviço assumam cargos de extrema responsabilidade.

Doutor Toffoli não é o único enroscado em casos que mereceriam aparecer na coluna policial. Bem ou mal, cada ministro tem seus deslizes, uns mais, outros menos. Limpos de corpo e de espírito, são muito poucos.

Este novo banzé dá fôlego novo a um projeto que percorre a sociedade, mas que ainda não recebeu a homenagem de um projeto de emenda constitucional. Falo da abolição do mandato vitalício concedido aos ministros do STF e a substituição por um mandato limitado no tempo.

Cinco anos, sete ou dez? Cabe ao legislador fixar os detalhes. O rito de escolha dos magistrados também merece ser revisto. A escolher, havia de ser um colégio eleitoral composto de políticos, magistrados, gente do métier.

Assim, o ungido já estará ciente, desde a nomeação, de que, como qualquer político ou ocupante de alto cargo, poderá responder, terminado o mandato, por desvios de conduta cometidos no exercício de suas funções. Nunca será questionado por seus votos, que somente a ele dizem respeito. Mas poderá ser processado por crimes e delitos em que tenha porventura incorrido.

A meu ver, é chegada a hora de pensar seriamente em enquadrar esses doutores que estão convencidos de não dever contas a ninguém. Não pode ser assim. Eles devem contas, sim, a todos nós, que lhes pagamos os polpudos salários e as generosas mordomias. Até os infelizes que recebem Bolsa Família contribuem, com o imposto embutido no preço do feijão.

Não dá pra sustentar paçudos que desdenham de seus conterrâneos.

Inteligência curta

José Horta Manzano

Em matéria de política brasileira, este escriba – assim como muitos conterrâneos – acreditava que a síndrome de inteligência curta fosse própria aos Bolsonaros. O passar do tempo está se encarregando de mostrar que não é bem assim. Que fique claro: Jair Messias & família continuam imbatíveis nesse terreno. Situam-se nas camadas mais profundas da ignorância nacional.

O ferro de solda na tornozeleira, a busca de asilo na embaixada da Hungria, as providências para prejudicar o Brasil com impostos de importação estratosféricos são provas evidentes do desvario familiar. Mas eles não estão sozinhos na pouco invejável posição de homens sem visão. (Aliás, sem visão, se me permitem, são os que persistem em votar neles.)

A penúria de bestunto em personagens de alto nível no topo da república, que é o que se tem visto estas últimas décadas, não poupa nenhum órgão, nenhuma instância, nenhum partido, nenhuma instituição. Felizmente a epidemia não atingiu toda a população: ainda há gente fina em postos decisórios; mas são poucos, bem menos do que seria necessário para tocar um país complexo como o nosso.

Outro dia, um jovem deputado federal liderou uma peregrinação rodoviária, qual um Forrest Gump seguido de uma tropa de maratonistas que não sabiam para onde se dirigiam nem o que estavam fazendo ali. Antiquado, este escriba acreditava que o papel de um deputado era fazer leis para melhorar o dia a dia de seu povo. Parece que a inteligência turva que vigora atualmente alterou as regras e impele parlamentares a dedicar seu tempo a pleitear soltura de condenados pela Justiça.

Nosso presidente, que a mídia nos vende como raposa esperta de faro infalível, passa por cima da realidade de estar na nona década de vida. Parece não se dar conta de que não é imortal. Pretende candidatar-se a mais um mandato de quatro anos, do qual sairá, se eleito for, com a respeitável idade de 85 anos. Age como se, fora de Luiz Inácio, não houvesse salvação, o que não passa de um orgulho mal controlado que pode acabar manchando sua biografia. Fosse menos deslumbrado e mais inteligente, estaria largando o osso e ungindo seu sucessor.

A carência de inteligência acaba de atingir mais uma instituição – graúda! É o STF. Com o julgamento dos participantes do golpe de Estado de 2022/23 chegando ao fim, seria hora de o Tribunal Supremo voltar à rotina tradicional, que foi, digamos assim, um tanto “extrapolada” estes últimos dois ou três anos. Qualquer observador concordaria que o espetáculo terminou e que é hora de os togados retomarem o ramerrão.

Suas Excelências, porém, têm outra opinião. Não todos, mas boa parte deles recusam que se lhes imponha um decálogo de boa conduta explicitando as linhas vermelhas a não ultrapassar no funcionamento do tribunal. É quase inacreditável que os guardiães da Constituição se julguem intocáveis e hostis a normas que regulem suas atividades.

Se parasse por aí, seria atitude prepotente, mas restrita ao campo das opiniões. Mas as excelências vão além. Fazem corpo duro, com pé no breque e declarações retumbantes contra todo manual de regras. Parece mentira.

Vê-se que a síndrome da inteligência curta se alastrou pelo STF. Ninguém gosta de regras, conceda-se. Mas opor-se frontalmente não é atitude esperta. Chama a atenção do distinto público, que acaba ficando na torcida: vão aceitar o código de boa conduta, não vão aceitar, vão aceitar… e assim por diante.

Uma aceitação, nem que fosse de fachada, seria mais razoável. Em seguida, na hora de compor o código, nos bastidores, bastaria trabalhar para que saísse mais genérico, menos rigoroso. Eles sabem como fazer. E, no final, todos ficariam contentes.

Só nos resta torcer para que o Espírito Santo baixe naquele ambiente togado e oriente as excelências. Será melhor para todos.

Insulto geral

José Horta Manzano

Estes últimos meses, quem observa a política brasileira constata uma explosão da bandalheira. Costuma-se dizer que o problema não é novo, que está aí desde a chegada do primeiro governador da América portuguesa, que a pilantragem vem de longe.

Não há quem discorde. Assim mesmo, a insolência agora chegou a um nível tão elevado, que rebaixa nosso país ao que chamamos, com desdém, “república de bananas”.

Entre nós, peculato, tráfico de influência, nepotismo ocorrem por toda parte, de dia e de noite, à vista de quem quiser olhar. Em regimes ditatoriais, a regra é essa. No entanto, não conheço nenhum grande país dito “democrático” cuja vida pública desça a nível tão profundo de cinismo como ocorre em nossa terra. São crimes e deslizes audaciosos que, de tão comuns que estão ficando, já não despertam emoção na população anestesiada.

Que dizer da situação deste começo de semana?

  • Que, na ânsia de conseguir novo mandato para o presidente da República, o Executivo está atirando nosso dinheiro pela janela – como se não houvesse amanhã?
  • Que, esquecidos de terem sido eleitos para servir ao povo, nossos parlamentares continuam ultrajantemente se servindo dele (povo), sempre em prol do enriquecimento pessoal?
  • Que, até outro dia última barreira contra a pouca-vergonha crônica, o topo da magistratura abriu o jogo e mostrou que também sabe delinquir e comportar-se como quem paira acima da ralé (que somos nós).

O cidadão comum, aquele que ganha a vida com o próprio trabalho, paga seus impostos, não tem direito a privilégios e não atenta contra o Código Penal, acaba se sentindo desamparado, sem saber que santo invocar.

  • Votar nas eleições? Para escolher quem, se todas as farinhas parecem vir do mesmo moinho?
  • Esperar que os jovens parlamentares eleitos recentemente cresçam, amadureçam e se tornem pessoas responsáveis? Alguém acredita que isso ocorra um dia?
  • Aguardar os anos que faltam para que a Regra da Bengala afaste os integrantes dos tribunais superiores e que nova leva de magistrados, menos deslumbrados e mais comprometidos com a população, venham substituir os que se foram? Quem nos garante que os vindouros serão menos obscenos?

Se o distinto leitor e a graciosa leitora tiverem alguma ideia do que fazer, rogo escrever cartinha para a Redação. Agradeço antecipadamente.

Abertura na política externa

José Horta Manzano

Sem dúvida, é sempre mais fácil lidar e conversar com gente que compartilha nossas ideias. No entanto, de um chefe de Estado, espera-se mais que a opção pela facilidade. No fundo, não precisa ter qualidades especiais para tratar com “amigos” – isso está ao alcance de qualquer um. Somente os grandes estadistas conseguem trocar ideias de maneira civilizada com adversários ou desafetos.

Lula da Silva não é o primeiro nem o último lider a torcer o nariz para chefes estrangeiros cujas ideias não coincidam com as suas. Bolsonaro, seu antecessor, bem que procurou aproximar-se de seus pares, mas em geral foi rejeitado. Já com Lula é diferente. Sua fama de “pai dos pobres” o precede e consegue abrir-lhe portas que, para um outro, permaneceriam fechadas.

Em seus primeiros dois mandatos, um Luiz Inácio deslumbrado rodou mundo e foi, com encanto e volúpia, ao encontro de reis, príncipes e todos os que o quisessem receber. E todos queriam. Já neste terceiro governo, sabe-se lá por que razão – a lassitude própria da idade que avança ou a mágoa de ter passado pela casa prisão –, o fato é que o velho demiurgo parece mais emburrado, mais rígido e menos disposto a tratar com os que não professem sua visão de mundo.

Em vez de facilitar-lhe a existência, esse agarramento a princípios por vezes obsoletos fecha-lhe portas. E, por via de consequência, bota o barco brasileiro em águas mortas, de calmaria, de não avanço, transformando nosso país em ostra que se recolhesse à própria solidão.

Há males que vêm pra bem, costuma-se dizer. O vendaval Trump, que chacoalhou o mundo e, em especial modo, nosso país, terá tido ao menos o mérito de mostrar a nossos estrategos que pular de cabeça na fantasia do tal “Sul Global” é inútil e perigoso. Nada de bom pode sair de um balaio de gatos que inclui China, Índia, Rússia e nenhum país ocidental. O terceiro-mundismo podia cair bem nos anos 1970 de Gamal Nasser, Indira Gandhi e Jozip Bros Tito. Hoje, como dizer, está meio démodé.

Em política externa, não há amigos, há interesses. Acho completamente estúpido ver cúpulas do Mercosul em que um chefe de Estado não comparece porque “não se dá” com outro. Ora, não estamos falando de festa de batizado de sobrinho, gente. O nível é (ou deveria ser) mais elevado.

Me alegra ver que Lula, e os que lhe sopram sugestões ao ouvido, estão finalmente despertando para a realidade. Dirigentes passam, Estados permanecem. Há que passar por cima do fato de tal governante ser de direita e tal outro de esquerda. Tanto faz. Todos temos interesses comuns.

Nunca é tarde demais para fazer o certo. Que continuem nessa via.