Inteligência curta

José Horta Manzano

Em matéria de política brasileira, este escriba – assim como muitos conterrâneos – acreditava que a síndrome de inteligência curta fosse própria aos Bolsonaros. O passar do tempo está se encarregando de mostrar que não é bem assim. Que fique claro: Jair Messias & família continuam imbatíveis nesse terreno. Situam-se nas camadas mais profundas da ignorância nacional.

O ferro de solda na tornozeleira, a busca de asilo na embaixada da Hungria, as providências para prejudicar o Brasil com impostos de importação estratosféricos são provas evidentes do desvario familiar. Mas eles não estão sozinhos na pouco invejável posição de homens sem visão. (Aliás, sem visão, se me permitem, são os que persistem em votar neles.)

A penúria de bestunto em personagens de alto nível no topo da república, que é o que se tem visto estas últimas décadas, não poupa nenhum órgão, nenhuma instância, nenhum partido, nenhuma instituição. Felizmente a epidemia não atingiu toda a população: ainda há gente fina em postos decisórios; mas são poucos, bem menos do que seria necessário para tocar um país complexo como o nosso.

Outro dia, um jovem deputado federal liderou uma peregrinação rodoviária, qual um Forrest Gump seguido de uma tropa de maratonistas que não sabiam para onde se dirigiam nem o que estavam fazendo ali. Antiquado, este escriba acreditava que o papel de um deputado era fazer leis para melhorar o dia a dia de seu povo. Parece que a inteligência turva que vigora atualmente alterou as regras e impele parlamentares a dedicar seu tempo a pleitear soltura de condenados pela Justiça.

Nosso presidente, que a mídia nos vende como raposa esperta de faro infalível, passa por cima da realidade de estar na nona década de vida. Parece não se dar conta de que não é imortal. Pretende candidatar-se a mais um mandato de quatro anos, do qual sairá, se eleito for, com a respeitável idade de 85 anos. Age como se, fora de Luiz Inácio, não houvesse salvação, o que não passa de um orgulho mal controlado que pode acabar manchando sua biografia. Fosse menos deslumbrado e mais inteligente, estaria largando o osso e ungindo seu sucessor.

A carência de inteligência acaba de atingir mais uma instituição – graúda! É o STF. Com o julgamento dos participantes do golpe de Estado de 2022/23 chegando ao fim, seria hora de o Tribunal Supremo voltar à rotina tradicional, que foi, digamos assim, um tanto “extrapolada” estes últimos dois ou três anos. Qualquer observador concordaria que o espetáculo terminou e que é hora de os togados retomarem o ramerrão.

Suas Excelências, porém, têm outra opinião. Não todos, mas boa parte deles recusam que se lhes imponha um decálogo de boa conduta explicitando as linhas vermelhas a não ultrapassar no funcionamento do tribunal. É quase inacreditável que os guardiães da Constituição se julguem intocáveis e hostis a normas que regulem suas atividades.

Se parasse por aí, seria atitude prepotente, mas restrita ao campo das opiniões. Mas as excelências vão além. Fazem corpo duro, com pé no breque e declarações retumbantes contra todo manual de regras. Parece mentira.

Vê-se que a síndrome da inteligência curta se alastrou pelo STF. Ninguém gosta de regras, conceda-se. Mas opor-se frontalmente não é atitude esperta. Chama a atenção do distinto público, que acaba ficando na torcida: vão aceitar o código de boa conduta, não vão aceitar, vão aceitar… e assim por diante.

Uma aceitação, nem que fosse de fachada, seria mais razoável. Em seguida, na hora de compor o código, nos bastidores, bastaria trabalhar para que saísse mais genérico, menos rigoroso. Eles sabem como fazer. E, no final, todos ficariam contentes.

Só nos resta torcer para que o Espírito Santo baixe naquele ambiente togado e oriente as excelências. Será melhor para todos.

Insulto geral

José Horta Manzano

Estes últimos meses, quem observa a política brasileira constata uma explosão da bandalheira. Costuma-se dizer que o problema não é novo, que está aí desde a chegada do primeiro governador da América portuguesa, que a pilantragem vem de longe.

Não há quem discorde. Assim mesmo, a insolência agora chegou a um nível tão elevado, que rebaixa nosso país ao que chamamos, com desdém, “república de bananas”.

Entre nós, peculato, tráfico de influência, nepotismo ocorrem por toda parte, de dia e de noite, à vista de quem quiser olhar. Em regimes ditatoriais, a regra é essa. No entanto, não conheço nenhum grande país dito “democrático” cuja vida pública desça a nível tão profundo de cinismo como ocorre em nossa terra. São crimes e deslizes audaciosos que, de tão comuns que estão ficando, já não despertam emoção na população anestesiada.

Que dizer da situação deste começo de semana?

  • Que, na ânsia de conseguir novo mandato para o presidente da República, o Executivo está atirando nosso dinheiro pela janela – como se não houvesse amanhã?
  • Que, esquecidos de terem sido eleitos para servir ao povo, nossos parlamentares continuam ultrajantemente se servindo dele (povo), sempre em prol do enriquecimento pessoal?
  • Que, até outro dia última barreira contra a pouca-vergonha crônica, o topo da magistratura abriu o jogo e mostrou que também sabe delinquir e comportar-se como quem paira acima da ralé (que somos nós).

O cidadão comum, aquele que ganha a vida com o próprio trabalho, paga seus impostos, não tem direito a privilégios e não atenta contra o Código Penal, acaba se sentindo desamparado, sem saber que santo invocar.

  • Votar nas eleições? Para escolher quem, se todas as farinhas parecem vir do mesmo moinho?
  • Esperar que os jovens parlamentares eleitos recentemente cresçam, amadureçam e se tornem pessoas responsáveis? Alguém acredita que isso ocorra um dia?
  • Aguardar os anos que faltam para que a Regra da Bengala afaste os integrantes dos tribunais superiores e que nova leva de magistrados, menos deslumbrados e mais comprometidos com a população, venham substituir os que se foram? Quem nos garante que os vindouros serão menos obscenos?

Se o distinto leitor e a graciosa leitora tiverem alguma ideia do que fazer, rogo escrever cartinha para a Redação. Agradeço antecipadamente.

Abertura na política externa

José Horta Manzano

Sem dúvida, é sempre mais fácil lidar e conversar com gente que compartilha nossas ideias. No entanto, de um chefe de Estado, espera-se mais que a opção pela facilidade. No fundo, não precisa ter qualidades especiais para tratar com “amigos” – isso está ao alcance de qualquer um. Somente os grandes estadistas conseguem trocar ideias de maneira civilizada com adversários ou desafetos.

Lula da Silva não é o primeiro nem o último lider a torcer o nariz para chefes estrangeiros cujas ideias não coincidam com as suas. Bolsonaro, seu antecessor, bem que procurou aproximar-se de seus pares, mas em geral foi rejeitado. Já com Lula é diferente. Sua fama de “pai dos pobres” o precede e consegue abrir-lhe portas que, para um outro, permaneceriam fechadas.

Em seus primeiros dois mandatos, um Luiz Inácio deslumbrado rodou mundo e foi, com encanto e volúpia, ao encontro de reis, príncipes e todos os que o quisessem receber. E todos queriam. Já neste terceiro governo, sabe-se lá por que razão – a lassitude própria da idade que avança ou a mágoa de ter passado pela casa prisão –, o fato é que o velho demiurgo parece mais emburrado, mais rígido e menos disposto a tratar com os que não professem sua visão de mundo.

Em vez de facilitar-lhe a existência, esse agarramento a princípios por vezes obsoletos fecha-lhe portas. E, por via de consequência, bota o barco brasileiro em águas mortas, de calmaria, de não avanço, transformando nosso país em ostra que se recolhesse à própria solidão.

Há males que vêm pra bem, costuma-se dizer. O vendaval Trump, que chacoalhou o mundo e, em especial modo, nosso país, terá tido ao menos o mérito de mostrar a nossos estrategos que pular de cabeça na fantasia do tal “Sul Global” é inútil e perigoso. Nada de bom pode sair de um balaio de gatos que inclui China, Índia, Rússia e nenhum país ocidental. O terceiro-mundismo podia cair bem nos anos 1970 de Gamal Nasser, Indira Gandhi e Jozip Bros Tito. Hoje, como dizer, está meio démodé.

Em política externa, não há amigos, há interesses. Acho completamente estúpido ver cúpulas do Mercosul em que um chefe de Estado não comparece porque “não se dá” com outro. Ora, não estamos falando de festa de batizado de sobrinho, gente. O nível é (ou deveria ser) mais elevado.

Me alegra ver que Lula, e os que lhe sopram sugestões ao ouvido, estão finalmente despertando para a realidade. Dirigentes passam, Estados permanecem. Há que passar por cima do fato de tal governante ser de direita e tal outro de esquerda. Tanto faz. Todos temos interesses comuns.

Nunca é tarde demais para fazer o certo. Que continuem nessa via.

Decepções

José Horta Manzano

Não sei se os pequerruchos de hoje ainda acreditam em Papai Noel. De criança, acreditávamos todos, ingênua e piamente. Escrevíamos cartinha, preparávamos lista de desejos. Uma vez cheguei a envelopar minha carta e enfiá-la numa caixa de correio. Não sei que fim levou.

Cada um tem sua própria vida, com encantos e choros que às vezes começam cedo. Se nada de mau acontecer antes, a primeira grande desilusão vem no dia em que a criança descobre que o bom velhinho não existe, que era apenas invenção dos mais velhos. Mas isso acaba passando.

Mais pra diante, a gente acredita (ou gostaria de acreditar) que os heróis da juventude fossem reais. Hoje, não sei o que encanta essa moçada de telefone na mão, mas os do meu tempo faziam força para acreditar na bondade do Zorro e na existência da kryptonita que dava força ao Super-Homem. A desilusão veio logo. Mas isso acaba passando.

Um pouco mais tarde, vi multidões se entusiasmando pelos comícios do Jânio Quadros, todos condoídos com a humildade daquele que fazia pausa no discurso para morder um sanduíche de mortadela. Eu não votava naquele tempo, mas vi muitos botarem fé no demiurgo. Foi um furo n’água que acabou custando caro ao país. Longa decepção. Mas isso acaba passando.

Décadas mais tarde, veio um momento especial em que a corrupção, mais robusta que de costume, saltou aos olhos da sociedade. Foi aquela sequência de mensalões e petrolões proporcionados por um partido que, de trabalhador, só tinha o nome. No poder, eles mostraram que eram bons mesmo para ganhar dinheiro no mole. A decepção foi chocante. Mas isso acaba passando.

Naquele momento surgiu, das brumas de Curitiba, um bravo juiz de província que, tal um Zorro ressuscitado, montou a cavalgadura e prometeu varrer a bandalheira. Entusiasmado, meio Brasil acreditou. Ao fim e ao cabo, foram descobrir que o personagem era tão desonesto quanto os que prometia combater. De ex-futuro presidenciável, baixou a crista e está hoje estacionado em Brasília, longe dos holofotes que já não se voltam para ele. Foi chata, a decepção. Mas isso acaba passando.

Mais uma década escorreu. Veio um Bolsonaro, que quase levou o Brasil para o beleléu. Escapamos de nos apequenar a ponto de virarmos um El Salvador, minúsculo país ditatorial idolatrado pela extrema-direita nacional. Vejam só que despautério! Muitos dos que tinham votado em Seu Jair se arrependeram. A decepção foi brutal. Mas isso acaba passando.

Pra tirar da boca o gosto amargo de quatro anos de ignorância, insultos e agressões, nosso “monstro da pandemia” foi levado ao banco dos réus, julgado, condenado e encarcerado. A proeza se deve à ferrenha disposição do juiz a quem coube, veja a sorte que tivemos, cuidar do processo. No começo, ninguém acreditava que Bolsonaro fosse um dia levado aos tribunais. Foi. Depois, poucos imaginavam que fosse condenado. Foi. Em seguida, ninguém podia crer que fosse um dia preso. Foi. Só por essa façanha, uma estátua deveria ser erguida em homenagem a doutor Alexandre de Moraes, a quem o Brasil deve a não banalização de um golpe de Estado.

Só que… ninguém é perfeito. Talvez inebriado pela visão da futura estátua de bronze, doutor Moraes exagerou na dose. As notícias ainda não estão claras, mas há indicações de que misturou os pincéis, isto é, valeu-se de seu prestígio, de seu poder e de sua força para obter favores que, sem isso, não teria obtido. Se as acusações, por ora veladas, forem verdadeiras, ficará mais uma vez provado que a imisção do privado no público (e vice-versa) permeia as altas esferas da nação. Era assim no tempo de Tomé de Souza e continua assim nos tempos atuais.

Acho que nem é possível falar em decepção. Será que isso acaba passando?

Conselho de Paz

Conselho da Paz
20 membros fundadores

José Horta Manzano

Davos, 21 janeiro 2026
A fila de espera para entrar no recinto em que Donald Trump era esperado para discursar estava “de dobrar a esquina”. (Que se entenda essa expressão em sentido poético, pois, com o frio que faz em Davos, ninguém ia esperar na esquina.) Armaram uma fila interna, como as que se vêem em check in de aeroporto. O discursante, a estrela do espetáculo, chegou atrasado em razão de problemas técnicos no Air Force One.

Em silêncio de catedral, o presidente dos EUA foi ouvido. Falou sem parar durante mais de uma hora. Se espremermos a fala pra extrair o suco, vamos descobrir que não disse nada além do que todo o mundo já tinha ouvido antes. Passou quase todo o tempo autoelogiando-se e desdenhando o trabalho do governo Biden, seu predecessor. É um de seus esportes preferidos, uma fixação.

Nesse particular, Trump me lembrou o Lula, que passou o primeiro mandato reclamando do antecessor (FHC) e se lamentando que tinha recebido uma “herança maldita”. Quando a reclamação é repetida ao ponto de virar mantra, o ouvinte deve desconfiar.

Da Venezuela, Trump disse pouca coisa. É pena, porque esse assunto nos interessa de perto. Insultou quanto pôde seus parceiros europeus, sem ir além do que já tinha dito anteriormente. Nenhuma novidade.

Novidade mesmo é sua ideia de criar um “Conselho de Paz” para funcionar em paralelo com a ONU. Terá o mesmo nobre objetivo, que é manter a paz no mundo, mas com diferenças fundamentais. Pelo que se vê, quem vai mandar no tal Conselho é um Donald Trump secundado por sua equipe, os companheiros de sempre. A dominação dessa “equipe fundadora” já ficou visível no convite aos futuros participantes: eles decidiram sozinhos quais países seriam convidados e quais seriam excluídos.

China e Rússia fazem parte dos eleitos. Também a Ucrânia, que já declarou ser impensável sentar-se em torno de uma mesa junto com a Rússia. Todos os países europeus foram chamados, mas quase nenhum confirmou até agora. Convidado, o Canadá respondeu que nem em sonho pagaria o bilhão de dólares exigido de cada participante. Um bilhão de joia, como num clube de luxo!

Os que já correram pra confirmar presença são os bons amigos de Trump, como Argentina, Israel e Hungria. Já a França e a Noruega recusaram logo de saída. Segundo Trump, “todo o mundo quer fazer parte”. Não parece. Dos cerca de 60 convidados, nem metade confirmou até agora. Entre os que disseram sim, estão: Azerbaidjão, Kosovo, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Armênia. Uma seleção pra ninguém botar defeito.

Se posso dar um conselho à equipe de Lula, será o de pensar duas vezes antes de responder. Antes de mais nada, acho pretensioso, da parte de quem dá a festa, mandar “convite” e ainda cobrar um bilhão de dólares de entrada. Um montante assim deixa de ser simbólico e passa a significar enriquecimento ilícito à custa de quem pode menos. E, no fundo, esse dinheiro vai para quem? Para o tesouro americano? Para o bolso de Trump? Não ficou claro.

Donald está utilizando o truque da adulação. Está atiçando a vaidade de cada um. Muita gente se sentiria orgulhoso de sentar-se ao lado de Trump em volta de uma mesa – o saudoso Bolsonaro já caiu nessa, anos atrás, quando aceitou convite para jantar (e pernoitar) em Mar-a-Lago. Para ter esse privilégio, muito líder pagará o preço que for (sobretudo porque o dinheiro sairá do tesouro nacional, não do bolso do convidado).

Lula é vaidoso e sensível a marcas de apreço dadas por dirigentes mundiais. É por isso que advirto: Lula, prezado presidente, segure-se, conte até dez, tome um chuveiro d’água fria, respire fundo, dê um passeio na grama, converse com as emas, tire férias em Garanhuns. Mas recuse esse convite. O Brasil vai deixar de gastar um bilhão de dólares e vosmicê vai evitar passar vergonha.

O que Trump quer é estar rodeado de anjos que lhe digam amém. Ou alguém imagina que esse “conselho” tem vocação para o diálogo e a negociação?

Segure-se, Lula. Fuja dessa, meu irmão.

Board of Peace – logo

Davos, 21 janeiro 2026
Trump aproveitou estar em Davos para reunir solenemente os “membros fundadores” de seu clube. Assinaram a ata de fundação os seguintes países:

• Argentina — Presidente Javier Milei
• Armênia — Primeiro-Ministro Nikol Pachinyan
• Azerbaidjão — Presidente Ilham Aliyev
• Bahrain — Xeique Isa bin Salman Al Khalifa
• Bulgária — Primeiro-Ministro Rosen Jelyazkov
• Catar — Primeiro-Ministro Xeique Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani
• Cazaquistão — Presidente Kassym Jomart Tokayev
• Emirados Árabes Unidos — Ministro Khaldoon Al Mubarak
• Hungria — Primeiro-Ministro Viktor Orbán
• Indonésia — Presidente Prabowo Subianto
• Jordânia — Primeiro-Ministro Ayman Safadi
• Kosovo — Presidente Vjosa Osmani
• Mongólia — Primeiro-Ministro Gombojavyn Zandanchatar
• Marrocos — Ministro de Relações Exteriores Nasser Bourita
• Paquistão — Primeiro-Ministro Xehbaz Xarif
• Paraguai — Presidente Santiago Peña
• Saudi Arabia — Ministro de Relações Exteriores Faisal bin Farhan Al Saúd
• Turquia — Ministro de Relações Exteriores Hakan Fidan
• Uzbequistão — Presidente Chavkat Miromonovitch Mirziyoyev

Como se pode ver, só gente fina. Nenhum europeu, com exceção da Hungria e da Bulgária. Nenhum latino-americano, com exceção de Argentina e Paraguai (nem mesmo El Salvador topou). Nem China, nem Rússia, nem Canadá. Um detalhe curioso: Israel anunciou sua adesão mas, na hora agá, não assinou. Talvez não tivessem levado um bilhão de dólares no bolso, o que era condição incontornável. Nesse caso, assinar mais tarde.

Segura-te, Lula!

Um último detalhe, pequeno, mas que diz muito. Observe o mapa-múndi do logo. Reparou em algo inusitado? Pois é claro! Pra ser mapa-múndi está xinfrim. Só aparecem a América do Norte e um pedacinho da América do Sul e da Groenlândia. Será esse o mundo de Trump? Com um logo desses, como é que ele pretende resolver problemas do planeta inteiro? Ainda precisa comer muito feijão.

Acordo Mercosul-UE: uma boa coisa?

José Horta Manzano

O Acordo de Associação Mercosul-União Europeia começou a ser negociado 27 anos atrás, em junho de 1999, ao tempo em que o Brasil era presidido por FHC. Foi assinado fim de semana passado, num convescote em Assunção do Paraguai que reuniu dirigentes do Mercosul além de Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) e António Costa (presidente do Conselho da Europa).

Durante essas quase três décadas, o futuro tratado permaneceu recôndito, perdido nos escaninhos da pesada burocracia europeia reforçada pela cacofonia sul-americana. Agora, mesmo assinado com discursos ufanistas e bandeiras festivas, a peregrinação da papelada ainda não chegou ao fim. Falta ser referendado pelo Parlamento de cada país membro da UE e do Mercosul. São mais de 30 assinaturas, cada uma requerendo discussão, voto, e todo o tralalá. Só depois de assinado pelo último parlamento nacional, entrará o tratado em vigor. Enfim.

“Carne de gado” é expressão caída em desuso. Há de ser consequência da hipocrisia que se alastra nestes tempos em que o sem teto virou “cidadão em situação de rua” e a favela se tornou “comunidade”. Uma vez banida a desagradável expressão que evoca bois cortados ao meio sendo carregados no ombro de portadores vestidos de branco, como se se buscasse acentuar a imagem sanguinolenta do espetáculo, hoje convém dizer “proteína animal”.

Pois é justamente essa “proteína”, assim como produtos agrícolas exportados pelos sócios do Mercosul que botaram medo no consumidor europeu. Se a conclusão do tratado recém-assinado tardou, foi em consequência desse nó. As autoridades europeias sabem que as regras que estipulam o que é permitido (e o que não é) não são as mesmas dos dois lados do Atlântico.

Na França, ao se referirem à carne importada de Brasil e Argentina, os agricultores costumam dizer, com desdém “bœuf aux hormones” (boi com hormônios). A mesma desconfiança se aplica a produtos agrícolas, dado que, na América do Sul, a quantidade de diferentes pesticidas permitidos é maior que na Europa. Até certo ponto, é surpreendente que, apesar desses bloqueios, a UE tenha finalmente consentido em assinar o tratado.

Em artigo desta segunda-feira, Mafalda Anjos, escritora portuguesa, considera que “as ameaças de Trump ajudaram que [a Europa] caísse nos braços da América Latina”. Pode até ser, embora me pareça uma explicação meio romanceada.

Já na Suécia, país sem grandes pretensões agropastoris, autoridades se manifestaram pela publicação “Dagens Industri” e aplaudiram contentes o acordo. Para eles, trata-se de “uma vitória para os países do mundo livre”. E acrescentam que “Numa época em que os países se voltam para dentro e a cooperação internacional é questionada, a UE e a região do Mercosul escolhem outro caminho. Um caminho caracterizado pelo comércio em vez do protecionismo, pela cooperação em vez da divisão e pelo crescimento em vez da estagnação”.

Me parece uma esperança enorme! Mas acho que os suecos têm razão. Mesmo se o acordo (ainda) não é perfeito, sempre pode ser modificado. De todo modo, mais vale um acordo imperfeito que acordo nenhum. Isso assume especial importância num mundo instável em que o nosso está se transformando.

Nesta ordem mundial que está fazendo água, os pré-náufragos que somos precisamos encontrar algum pedaço de madeira resistente ao qual nos agarrar.

Direto para o segundo turno

Pesquisa Genial/Quaest
Cinco cenários de segundo turno

José Horta Manzano

Parecia blefe. Dez dias atrás, quando o encarcerado Bolsonaro designou o filho mais velho para suceder-lhe, pouca gente levou a sério. Este escriba, aliás, publicou neste mesmo espaço um texto um tanto sarcástico. O anúncio da escolha do filho me pareceu anzol pra fisgar peixe distraído. Imaginei que um candidato de sobrenome Bolsonaro carregasse um carma pesado demais para transpor a barreira dos que querem ver essa família pelas costas.

Passadas quase duas semanas, o quadro não mudou. A família Bolsonaro parece acreditar que o lançamento do primogênito à corrida presidencial é uma boa ideia. Pode até ser. Mas é bom dar uma olhada crítica à última pesquisa da Genial/Quaest, cujo resultado saiu neste 17 de dez°.

O relativo gráfico está no cabeçalho deste post. Os pesquisadores focalizaram no segundo turno – o que já dá sinal de que não preveem vitória de ninguém logo no primeiro turno. Para o segundo, foram testados separadamente cinco cenários. Cada um mostra o presidente Lula contra um dos cinco que, bem ou mal, já demonstraram interesse em participar.

Como mostra o gráfico, todos os cenários pressupõem que Lula chegue ao segundo turno. Eles mostram a disputa de segundo turno entre Lula e os candidatos, um por vez. Para enfrentar o atual presidente, o provável adversário seria um dos seguintes:

    • Cenário 1 – Flavio Bolsonaro
    • Cenário 2 – Tarcísio de Freitas
    • Cenário 3 – Ratinho Jr
    • Cenário 4 – Ronaldo Caiado
    • Cenário 5 – Romeu Zema

Em todos os casos estudados, o desafiante recebe entre 33% e 36% dos votos declarados. Quanto ao Lula, sua pontuação oscila entre 44% e 46%. Portanto, Lula leva, com folga, contra qualquer um dos adversários.

O resultado da pesquisa é surpreendente. À primeira vista, Lula parece firme, ancorado em torno dos 45%, um ponto a mais, um ponto a menos. Quanto ao desafiante, parece que os entrevistados não dão muita importância a eles. Seja qual for o nome, o segundo colocado teria 34%, 35% dos votos, um ponto a mais, um ponto a menos.

Não é estranho que nomes conhecidos, como Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas, empatem com personalidades cuja fama não atinge o nível nacional? Fica a impressão de que, para o eleitor, tanto faz como tanto fez o nome do candidato. Há os que não querem saber de mudança e se preparam para votar Lula. E há os que não querem saber de Lula e se preparam para votar no candidato de oposição que ficar para segundo turno.

A um ano da eleição, Lula parece ter tirado o bilhete premiado. Se nenhum fato extraordinário acontecer daqui até lá, o Brasil se encaminha para um inédito 4° mandato do pernambucano. Mas muita coisa pode acontecer, como candidaturas surpresas, desistências, atentados, facadas, crimes, batidas da PF. Tanta, tanta coisa.

Se Flávio bater o pé e seguir firme no páreo, passaremos por um inconveniente. Vai ser muito chato ter de passar mais um ano ouvindo, à exaustão, o nome Bolsonaro.

Quem pensou que estava livre, errou. Mas o dia do ostracismo chegará. Um pouquinho de paciência, senhoras e cavalheiros.

Cleptocracia & Cia Ltda

José Horta Manzano

Aquelas listas, elaboradas por observatórios internacionais, que classificam os países segundo a “percepção de corrupção”, costumam reservar para o Brasil uma posição destacada. Entra ano, sai ano, uns países melhoram, outros pioram, mas o nosso guarda duas características imutáveis: belo por natureza e corrupto por vocação.

Aliás, o termo “corrupção”, de tão batido, anda desgastado, enfraquecido. Usado com tanta frequência, já não informa sobre a infâmia que pesa sobre os responsáveis. “Fulano é corrupto” é acusação fraca demais, daquelas que não costumam levar ao tribunal, muito menos à cadeia.

E tem mais. Por definição, corrupto é aquele que defrauda o patrimônio público. O termo não serve para qualificar o mesmo delito quando ocorre entre particulares. Não se pode chamar de corrupto o dono da venda que rouba no troco. Nem o taxista que, ao levar um estrangeiro, dá uma volta pela cidade para alongar a corrida e cobrar mais. Nem o profissional de saúde que cobra um “por fora” para escapar ao tabelamento.

A melhor expressão a usar, portanto, é a mais simples, a que todos entendem e que diz tudo, dispensando explicações: ladrão. Ladrão, ladroeira, ladroagem são os termos a aplicar quando nos referimos aos altos círculos de nossa república (e não só aos altos).

Roubar não é só levar na cueca dólares de origem duvidosa ou carregar malas abarrotadas de notas verdinhas tiradas não se sabe bem de onde. A ladroagem é mais vasta. O digno parlamentar que reserva, digamos, dez milhões de reais como emenda pessoal para, em seguida, gastar esse capital numa obra viária executada por uma empresa sua, registrada em nome de um laranja, também está afanando nosso dinheiro.

O banqueiro Vorcaro, hoje entornozelado, roubou e trapaceou em transações da ordem de bilhões. Organizou convescotes na Europa para os quais convidou ministros do STF. Sabendo-se que fundos de pensão dos pequeninos foram engolfados no turbilhão do banco, as excelências do STF se tornaram, sim, cúmplices do banqueiro espertalhão. Quem aceita uma vilegiatura em Londres custeada com dinheiro desviado dos que pouco têm está sendo desonesto. É cúmplice do ladrão.

Se o distinto leitor e a gentil leitora observarem em torno, é capaz de descobrirem que estamos rodeados de ladrões. Vivemos no meio de uma população em que uns sugam os outros, todos atrás de levar vantagem e puxar a brasa para a própria sardinha. Não me digam que ditadura é a solução. Não é. Tivemos uma braba durante 21 anos, cujo objetivo era “caçar comunistas”. Roubar, sempre pôde, antes da instalação do regime e depois de sua queda.

Isso posto, é permitido sentir um certo desalento. Nosso país nasceu torto e carrega até hoje esse pecado original. Mas o Natal vem aí. É tempo de se empanturrar e, por uns dias, imaginar que se está vivendo na Finlândia. Por lá, Papai Noel passa duas vezes: na ida e na volta.

PS – Corrigindo o título:
Cleptocracia & Cia Ilimitada

Coisa de louco

Câmara Federal
Mesa diretora

José Horta Manzano

Está em tramitação um projeto de lei que objetiva tornar obrigatório um exame de avaliação psicológica para obter e para renovar a CNH. Quanto à renovação, uma exceção será reservada para os bons condutores: os que não tiverem cometido infrações poderão renovar sem avaliação.

Se dependesse de mim, essa exceção cairia. Nem sempre um comportamento perigoso no tráfego é sancionado por infrações. Um motorista agressivo, daquele tipo que pode, a qualquer momento, se transformar em potencial assassino, não é necessariamente multado a cada vez que se exacerba.

Se essa lei já estivesse em vigor e se o exame fosse sempre bem aplicado, seriam menos numerosos os homicidas que usam carro como arma de abalroar, arrastar e esquartejar desafetos. Em teoria, os condutores mentalmente desequilibrados estariam condenados a pedir carona pelo resto da vida. Sem chance de arrastar ninguém.

Sem sombra de dúvida, o costume de exigir avaliação psicológica de todo condutor de veículo a motor é medida excelente. Se, com isso, já estamos entre os campeões mundiais de mortes no tráfego, imagine se não tivéssemos o exame. Talvez o nível de agressividade tolerado precise ser revisto.

Nestes últimos treze anos, desde que dei início ao blogue, já devo ter tocado um par de vezes no assunto que vou agora abordar. Vale a pena insistir.

Exigimos avaliação psicológica de todo candidato a condutor de veículos, o que é excelente medida. Não queremos desequilibrados trafegando. No entanto, até hoje não nos passou pela cabeça estender essa medida aos candidatos a cargos públicos, especialmente aos cargos eletivos.

Se o teste psicológico fosse já obrigatório para essa categoria de cidadãos em 1960, não teríamos eleito Jânio Quadros para a Presidência, eliminando assim um dos fatores que atiçaram o desastre do golpe militar.

Figuras de mente embaçada nunca teriam passado no teste. Teríamos evitado Tenório Cavalcânti, o deputado que jamais se separava de sua metralhadora apelidada “Lurdinha”. Naqueles tempos sem detector de metais, entrava na Câmara com ela, disfarçada debaixo de uma capa preta.

Não teríamos eleito Roberto Jefferson, aquele que atirou granadas quando da visita da PF.

Jair Bolsonaro é outro que jamais teria aparecido nas cédulas eleitorais de sua primeira candidatura à vereança do Rio, em 1989.

Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e outros desequilibrados também não teriam passado no exame. Reprovados direto, sem direito a segunda época.

Se a avaliação for aplicada nas eleições gerais de 2026, nosso Congresso estará higienizado, como se tivesse sido lavado com creolina(*).

Como é costume dizer, “Se a creolina falhar, só Deus pode salvar”.

(*) Não confie em aparências. Creolina não é palavra ofensiva nem politicamente incorreta. Não tem parentesco com crioulo. É antiga marca de desinfetante hoje praticamente em desuso. Exala cheiro forte e característico. O termo deriva de creosoto, variedade de alcatrão destilado.

Unção dinástica

José Horta Manzano

Quando o capitão Bolsonaro designou seu primogênito para suceder-lhe, muita gente se surpreendeu. Consideraram que o ungido talvez não dispusesse do estofo necessário para o sublime encargo de presidir nossa república. Outros acharam que, além de não estar à altura das expectativas do pai, o primogênito fosse ruim de voto – fato que, na outra ponta, teria deixado entusiasmada a oposição.

Em primeiro lugar, vamos nos pôr de acordo. Em monarquias tradicionais, não cabe ao monarca designar seu sucessor – antigas regras se encarregam de fazê-lo. Já num nascente arremedo de dinastia, como a dos Bolsonaros, tradições não há. Eis por que, com as regras ainda por escrever, coube ao patriarca apontar o próprio sucessor.

Mesmo agrilhoado pelos ferros que o entravam nos calabouços da república, teve lucidez suficiente para dar-se conta de que seu reino tinha chegado ao fim e que era chegada a hora de abrir mão de alguma ilusão de poder que ainda subsistisse. Está aí a grande prova de lucidez de um homem que, por fim, se deu conta de estar encarcerado.

Só se as circunstâncias forem realmente adversas, o filho primogênito deixará de ser candidato à sucessão do pai. Mas o caminho fica traçado: cabe ao rei posto designar o sucessor. Todo e qualquer pretendente que ouse apresentar-se como candidato legítimo a suceder ao monarca caído não passará de reles usurpador.

Até aqui, falamos de sonhos e fantasias. Na vida real, Bolsonaro acaba de se dar conta de que o futuro de seu sobrenome está comprometido. Um dos filhos, aquele que conspirou contra o Brasil, nâo deve voltar à pátria tão cedo. Outro rebento jogou a toalha e renunciou definitivamente à política. O filho mais jovem não parece ter envergadura suficiente para voos mais altos: elegeu-se vereador por uma estação balneária catarinense. A esposa é uma figura; dizem as más línguas que não passa de aventureira sem lastro e sem passado.

Eis por que o capitão entregou o bastão ao primogênito: por falta de opção.

Essa novela brasileira se encaixa no modelo latino-americano de tentativas pseudodinásticas. Já aconteceu no Peru, com Alberto Fujimoro, que designou a filha, sem sucesso. Já surgiu na Argentina, com Juan Domingo Perón, que transmitiu o encargo à esposa, que levou a aventura ao desastre. O caso do Haiti foi outro que terminou em tragédia, com Duvalier pai morto e Duvalier filho exilado.

O Brasil decente gostaria que a campanha eleitoral do ano que vem assinalasse o enterro dos populismos grosseiros que nos atormentam há décadas. “De direita” ou “de esquerda”, que acabem todos comendo poeira e abrindo alas para nova geração de políticos mais comprometidos com o eleitor do que consigo mesmos. Não custa sonhar.

A moléstia do general

José Horta Manzano


O caso peculiar do general que, depois de ter sido diagnosticado com Alzheimer, ainda ocupou, durante anos, um dos mais altos cargos da República.


O ônus da prova
Nos casos judiciais que viram notícia, tenho reparado a frequente ocorrência de uma prática um tanto curiosa. Não sei se é regra legal ou simples costume judicial. Tenho observado que, quando um réu (ou até um condenado) alega sofrer de uma patologia qualquer, cabe a ele mesmo, por meio de seu(s) advogado(s) trazer a prova da veracidade da informação. O caso se repete agora, com o mal de Alzheimer do general Heleno.

É verdade que é obrigação do acusado provar aquilo que alega. Se garante que estava em tal lugar (na hora do crime, por exemplo), tem de trazer testemunhas ou provas que possam ser aceitas pelo tribunal. Cada alegação sua tem de ser amparada por testemunhos ou provas, caso contrário, não será considerada.

No entanto, no caso de uma doença presente, seria mais razoável que o próprio tribunal se encarregasse de mandar o réu enfrentar uma junta médica, composta por profissionais escolhidos pela Justiça. A função da junta seria proceder aos exames necessários para confirmar ou invalidar as alegações do réu. Encarregar o doente de trazer atestados de seus médicos pessoais não me parece boa prática. Abre a porta para atestados de compadrio.

O STF deveria fixar um trato. Que o acusado se apresente diante da junta médica. Caso fique decidido que seu estado é compatível com o encarceramento, vai preso. Daqui a seis meses (ou um ano, conforme a Justiça determinar), o indivíduo passaria de novo diante da junta. E assim por diante, de ano em ano. Enquanto sua saúde fosse julgada compatível com a prisão, ele continuaria preso. Me parece solução equitativa.

A progressão do mal
Segundo artigo de Elio Gaspari de domingo 30 de novembro, o Alzheimer do general está detectado desde 2018, ou seja, sete anos atrás. De lá pra cá, Heleno já foi ministro no governo de Bolsonaro durante anos, e em seguida passou pela casa “conspiração de golpe”. Foi preciso chegar ao fim do processo e à condenação inapelável para o Brasil ficar sabendo que o militar sofre de uma patologia neurodegenerativa progressiva.

Essa moléstia progride com velocidade diferente, conforme o paciente. No caso do general, a progressão parece ser lenta. É possível que a afecção tenha sido detectada, mas que as funções cognitivas não estejam ainda comprometidas a ponto de fazer que a prisão perca o sentido. Mas esse diagnóstico, só uma junta médica independente poderá dar.

Passaporte italiano

Moggio Udinese, vila de 1.750 habitantes

José Horta Manzano

Vosmecê decerto conhece alguém que obteve, ou está tentando obter, o passaporte italiano. Até o começo deste ano, em matéria de transmissâo da cidadania, a Itália se comportava como verdadeira mãezona. Todo descendente de italiano, ainda que fosse de terceira, quarta, quinta geração (ou mais) tinha direito a recuperar a nacionalidade do antepassado – desde que conseguisse a prova documental da ascendência, o que nem sempre é fácil, quanto mais gerações separassem o aspirante do antepassado que emigrou.

Uma lei, votada no parlamento de Roma, veio dar um basta a essa prática que encantava mais e mais brasileiros. A possibilidade de transmissão da cidadania ficou restrita a filhos e netos do antepassado italiano. Mas por que razão foi esvaziado o antigo pacote de bondades?

Há várias razões. Entre as principais, estão as que cito abaixo.

A extrema direita
A Itália é atualmente governada por uma coalizão de direita, com forte componente de extrema-direita. A primeira-ministra, por exemplo, é Giorgia Meloni, afiliada a um partido com raízes no neofascismo do pós-guerra. Como se sabe, a direita extrema professa ideologia excludente, anti-imigração, antieuropeia, contra tudo o que não for legitimamente italiano.

Os descendentes de italianos emigrados, nascidos no exterior, têm poucas referências de italianidade. Em geral, o antepassado que chegou ao Brasil já faleceu, talvez seus filhos também. Com o tempo, a ligação com o pais de origem vai se esmaecendo. A língua e os costumes se perdem. Muitas vezes, o sobrenome é o único traço que distingue um italiano de terceira geração de um seu conterrâneo que não tenha antepassados italianos.

Além desse ponto, as autoridades italianas tinham chegado a um ponto de saturação com o comportamento de brasileiros aspirantes ao cobiçado passaporte.

Os candidatos
Para obtenção do reconhecimento da nacionalidade, a regra era (e continua sendo) entrar com a papelada no Brasil, por meio do consulado italiano, em seguida aguardar o andamento do processo. Estes últimos tempos, porém, a fila estava comprida e a espera era longa e angustiante.

O brasileiro, pouco afeito a se conformar a regras (que são sempre feitas para os outros, não para ele), procurou – e encontrou – atalhos para furar a fila e passar à frente dos outros.

Um caminho que os mais abonados utilizaram foi entrar com um processo administrativo na Itália exigindo a outorga dos documentos italianos aos quais tinham direito. Pouco acostumada a ver a Justiça sendo usada de atalho, a Itália não pôde deixar de dar seguimento às solicitações e fazer esses requerentes passarem à frente dos outros.

Não preparadas para enfrentar essa montanha de novos pedidos, as prefeituras dos vilarejos, lutando com falta de pessoal, tiveram de tirar funcionários de outras funções e deslocá-los para cuidar da inscrição dos “novos” cidadãos. A grita chegou aos ouvidos dos deputados em Roma.

Vosmecê pode argumentar que a imigração italiana não se dirigiu somente ao Brasil, mas também a outros países. Tem razão, mas os maiores contingentes se deslocaram para o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos. Os que foram para a América do Norte não parecem mui desejosos de recuperar a antiga nacionalidade. Os argentinos já descobriram o caminho das pedras há décadas e, hoje, já têm em mãos o precioso documento. Sobram os brasileiros, que só se aglomeraram à porta dos consulados nos últimos 20 ou 25 anos.

Bom, deu ruim, como convém dizer. Quem tem pai, mãe ou avós italianos, está salvo. Mas é bom não facilitar e correr já, porque leis podem piorar a todo momento. Quem só tem bisavô ou antepassado mais distante, pode dizer adeus.

Nossa característica nacional de achar normal passar a perna nos outros para obter vantagem pessoal, ainda que seja por vias ilegais, aprontou mais uma.

O MP da região da Venezia Giulia (norte da Itália) ficou encafifado com o fato de Moggio Udinese, um vilarejo das redondezas, de somente 1.750 habitantes, ter recebido nada menos que 84 solicitações de reconhecimento de cidadania italiana nos últimos 6 anos, todas provenientes de requerentes brasileiros. Todos eles declaravam residir na vila, sempre no mesmo imóvel, com atestado de residência em perfeita ordem, fornecido pela prefeitura. Muito estranho.

Feitas as investigações, descobriu-se que a clientela de brasileiros era presa fácil para qualquer quadrilha, ainda que mambembe. Com atestados falsos, documentação adulterada, cumplicidade de funcionários da prefeitura e, mui provavelmente, anuência do prefeito, estava formada a corrente da felicidade. Pela módica soma de 6.000 euros (37 mil reais), às vezes um pouco mais, o aspirante acabava conseguindo seu passaporte no prazo de um ano. Talvez precisasse apresentar-se uma ou duas vezes pessoalmente na Itália, para comprovar a presença. Se preferisse não ter de vir à Itália, bastava pagar um suplemento.

A notícia saiu hoje nos jornais da região da Venezia Giulia. Não se sabe ainda quais serão as consequências da falcatrua. Por mim, confiscava os documentos italianos dessa turma toda, e mandava cada um para o fim da fila, a esperar sua vez como todos os outros. Se quisessem obter restituição dos seis mil euros, que processassem o chefe do bando.

O lampião do capitão

José Horta Manzano

Circula pela mídia nesta terça-feira um vídeo mostrando uma revoada de repórteres, microfone na mão, todos correndo atrás de um comboio de automóveis de vidros fumês que se dirige à entrada da Polícia Federal de Brasília.

Quando vi a cena, imaginei que tivessem descolado um filmezinho do Bolsonaro sendo preso. Mas logo me lembrei que ele foi levado embora no lusco-fusco matinal de uma Brasília cochilenta, na maior discrição, sem algema e sem fotógrafo.

Atrás de quem estariam aqueles repórteres, então? Seria mais um figurão sendo conduzido para se explicar com o delegado? Olhei até o fim do vídeo. Surpresa: não era novo prisioneiro, era apenas uma visita. Tratava-se de um dos filhos de Bolsonaro, aquele que é senador e que era considerado moderado, até a semana passada, quando decidiu convocar uma prece coletiva para salvar o pai da cadeia. Vinha chegando para visitar o pai encarcerado.

Agora cogito: será que não estarão dando a essa gente uma importância que não têm? Bolsonaro foi eleito em 2017, por um desses golpes de má sorte que a natureza reserva a nosso país. Setenta anos atrás, o lema de Juscelino Kubitschek era “50 anos em 5” – anos de progresso e desenvolvimento, subentendia-se. O lema que se pode hoje atribuir ao governo de Bolsonaro é “40 anos em 4” – anos de destruição e marcha à ré, entende-se.

O capitão, como figura política, está morto e enterrado. Pode até ressuscitar um dia, que nada é impossível em nosso país, mas por enquanto está fora do jogo. A partir daí, não atino com a motivação de quem despacha a revoada de microfones atrás do filho que vem à cadeia visitar o pai condenado. Será a vontade de algumas redações de manter acesa a chama do lampião do capitão? Se não for isso, qual será o motivo de tanto auê?

Nunca serei preso!

José Horta Manzano

É imprudente fazer promessas que a gente está arriscado a ser incapaz de cumprir. Numa época como a nossa, então, em que tudo o que se diz ou faz fica gravado, registrado e arquivado com som e imagem, é duplamente imprudente.

Quem cospe para o alto periga receber a cusparada de volta na moleira. Recebi esse conselho de criança, mas parece que tem gente que não recebeu. Ou nâo quis seguir.

“Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso”

Foi o que declarou um Bolsonaro triunfante em setembro de 2020 e em maio de 2021. Fez isso em plena pandemia, entre um e outro passeio de jet ski. Talvez já pressentisse, com anos de antecedência, o que o destino lhe reservava.

Êta família trapalhona! Só fazem besteira. Parece até que fazem de propósito, um trabalhando contra o outro, só para se atrapalharem mutuamente. Primeiro, teve aquele filho bobão que foi para os EUA, fez o que fez, deixou os juízes do STF mais enfezados do que estavam, prejudicou o pai, e agora, se voltar, vai direto para a Papuda. Estes dias, veio o mais velho, aquele que todos achavam fosse o menos abirutado, marcou uma aglomeração em frente à casa do pai, às vésperas do inevitável encarceramento. Pra coroar, no entrar da madrugada, o pai ainda tentou forçar a tornozeleira. (Não conseguiu, mas o mal estava feito.) Se quisessem forçar o encarceramento do pai, não teriam agido diferentemente. Gente estúpida.

O resultado da aventura é que Bolsonaro pai entrou na cadeia para uma boa temporada. Não faz mais sentido aliviar o regime para uma domiciliar – se isso fosse feito, voltaria o elevado risco de fuga. Não vejo como escapar dessa quadratura do círculo.

Uma sugestão, se me fosse permitido dar, seria bloquear uma pequena ala de um hospital de Brasília e arranjar aí uma cela para Jair Messias. O regime de cela especial da Papuda permaneceria: quarto individual, saleta, banheiro privado, cozinheta, armário individual. Ninguém poderia entrar nessa ala prisional, a não ser pessoas autorizadas.

Com isso, o prisioneiro teria seu direito a ser assistido em sua saúde 24 horas por dia. Se viesse a falecer, não teria sido por falta de hospital. Fora isso, o regime usual na Papuda seria aplicado: número de visitantes, horário das refeições. Nenhuma saída temporária da prisão seria necessária, dado que a assistência já estaria sendo fornecida in loco.

Bem, antes de nos despedir, vamos à moral da história:

Nunca se deve dizer nunca.

COP: o grande evento

José Horta Manzano

Em maio de 2023, quando o Brasil se ofereceu como sede da COP30, me senti um tanto inquieto. A COP é um evento muito importante, com delegações de mais de 150 países, conferências, colóquios, discursos, tradução simultânea. São milhares de delegados, sem contar turistas, jornalistas, repórteres, equipes de televisão. Requer organização perfeita, difícil de ser alcançada.

Em dezembro 2023, na sessão plenária da COP28 em Dubai, a candidatura de nosso país foi confirmada para sediar a COP30, a realizar-se dois anos mais tarde. Lula da Silva, eufórico e sorridente como se tivesse acertado o prêmio grande da Mega Senna, declarou à plateia que Belém, como grande cidade amazônica, estaria perfeita para acolher o evento.

Se o Lula se alegrou, eu fiquei arrasado de vez. (Em vez de arrasado, “devastado”, anglicismo da moda, também serve.) Vamos ter problemas graves, pensei. Não comentei com ninguém, que é pra não parecer ave agourenta. Não é da noite pro dia que se capacita uma cidade inexperiente a acolher tanta gente com tanto aparato. Para uma manifestação desse quilate, não temos no Brasil mais que uma ou duas capitais preparadas a receber.

De fato, Belém pode receber com esmero nossos turistas internos, sejam eles dezembristas ou julhistas. Já uma multidão de estrangeiros vem com outras expectativas. Não se lhes pode servir tacacá e tucupi todos os dias. A estrutura hoteleira de Belém não está armada para receber essa massa de visitantes de uma tacada só. O primeiro desfalque foi a decisão de certas delegações que, ou não vieram, ou diminuíram drasticamente o número de visitantes, o que é pena.

O Estadão publicou as impressões de uma fotógrafa da ONU acostumada a comparecer a eventos de magnitude importante para fazer seu registro de imagens. Em sua conta pessoal no Instagram, a moça, que se chama Kiara Worth, contou o que viu na COP30 de Belém:


“Chuvas torrenciais, inundações, uma invasão ao local, militares em cada esquina, calor sufocante, frio congelante, cortes de água e energia e, hoje, o local estava literalmente em chamas”, escreveu. “É inacreditável. Nunca aconteceu nada parecido.”


Kiara Worth descreveu a COP de Belém como a conferência mais difícil que já cobriu em sua longa carreira. Depois do incêndio, ainda teve ânimo para uma tirada filosófica: “Viemos aqui em busca de um acordo climático, mas talvez a verdadeira lição seja mais profunda. A verdade é que o mundo inteiro está em chamas e temos esta breve janela de oportunidade para escolher o que emergirá da fumaça.”

Quanto a nós, o vexame já foi dado. Vamos ver se, da próxima vez, a escolha leve em conta a capacidade da cidade sede em acolher dignamente os visitantes.

Lula III – 3 anos, 11 meses

José Horta Manzano

Em matéria de governo ruim, Lula 3 decaiu e está empatando com Dilma 2. Até que tinha começado bem, com aquela subida de rampa com direito a alegre convescote multicolorido, até com cachorro abanando o rabinho. Bom, precisa dizer que o alívio de não ver mais Bolsonaro nas paragens – e, principalmente, podê-lo chamar ex-presidente – era tão intenso, que qualquer espetáculo mambembe teria encantado o distinto público.

Mas o espetáculo não foi mambembe. O desfile no Rolls Royce da rainha foi como se deve, com presidente e primeira-dama, sem filho destrambelhado aboletado no banco de trás. Naquele dia, um Brasil aliviado até acreditou que tudo seria diferente dali pra frente. Tolinho…

Transformar água em vinho pode até ser possível, mas precisa de um tempo no caldeirão da feiticeira. Da noite pro dia, só na Bíblia. Portanto, todos deviam ter desconfiado que mudança tão brusca, de um governo tenebroso para um período de sonho, não podia acontecer de um dia pro outro. Como, de fato, não aconteceu.

Hoje, três anos passados e a um ano das próximas eleições presidenciais, a miragem que a alegre subida da rampa nos tinha trazido se dissipou. O sonho não passou de uma escapada passageira. Voltamos agora à realidade, do jeito que as coisas se apresentavam in statu quo ante.

O crime endêmico que gangrena nosso país dá mostras de estar mais organizado que o próprio Estado. Já era assim quatro e oito anos atrás, só que agora está mais forte, mais ancorado, mais diversificado. Enquanto o Estado cochilava (ou colaborava, vá saber…), o crime se profissionalizou.

Se até hoje não surgiu um Eliot Ness pra dar um jeito na criminalidade, a gente vai perdendo a esperança de que apareça um dia. O crime encontra muito respaldo país adentro, no Legislativo, no Judiciário, na indústria, no agropecuário, na banca e na finança. Desalojá-lo vai ficando cada dia mais complicado. Está em votação um projeto de lei dito “antifacção”, como se o crime organizado se desmantelasse por força de lei. Acredite quem quiser.

A um ano das eleições, Lula 3 entrou em modo Dilma. Como dizia Madame, “em tempo de eleição, faz-se o diabo”. Pois o diabo está de novo solto. Contenção de gastos? Teto de despesas? Suspensão na contratação de funcionários? Tudo balela! A gastança corre abalada, desenfreada, chispada. Como de costume, há quem aproveite para tirar uma casquinha. Mas, olhe lá, pequenininha.

Talvez bem aconselhado, Lula diminuiu a frequência de besteiras pronunciadas, especialmente em política internacional e em assuntos dos quais ele tem visão viciada por algum vírus contraído na mocidade. Isso nos ajuda a passar menos vergonha fora do país, mas não diminui nossa taxa de criminalidade nem colabora com nosso ajuste de contas.

No primeiro turno das presidenciais, não sei ainda a quem darei meu voto. Mas no segundo, caso se enfrentem Lula e um outro, vai depender. Se esse outro me parecer um pouco menos pior do que os que estão por aí, leva minha preferência. No entanto, se for um dos que se comprometeram a indultar um Bolsonaro hoje condenado e encarcerado, não há dúvidas: voto no Lula.

Que remédio?

Aporofobia 2: Guarujá

Grand Hôtel, Guarujá
Primeiras décadas do século XX

José Horta Manzano

Faz poucos dias, fiquei indignado com a iniciativa da Prefeitura de Florianópolis de obrigar, a todo depenado que chegasse, fazer meia-volta antes que tentasse fincar pé na cidade. Me pareceu expressão violenta de aporofobia – repulsa a pobre.

Infelizmente, as classes dominantes (não só no Brasil, mas em todo o mundo) nem sempre são compostas por almas altruístas. Não costumam enxergar os infelizes que precisam de ajuda. Talvez vosmecê se lembre do dia em que Bolsonaro negou a existência da fome no Brasil: “Mas no Brasil ninguém passa fome!”, disse ele. Fez como fazem os que acreditam que a solução do problema consiste em negar sua existência.

Estes dias, de novo, fiquei sabendo de ocorrência de aporofobia explícita – a crer que tais fatos estão se tornando mais frequentes, com a liberação de sentimentos antes represados, mas agora permitidos, pela ascensão da extrema direita.

Guarujá, estação balneária situada no litoral do estado de São Paulo, já foi chique e livre de pobres, mas hoje, com as atuais facilidades de transporte, é cada dia mais procurada. Um século atrás, a estação era realmente para um punhado de famílias endinheiradas, que se hospedavam no Grand Hôtel para uma temporada de dois, três ou quatro meses.

Esse tempo passou. A partir dos anos 1950, prédios começaram a enfeiar a bucólica paisagem. Hoje o Guarujá se despersonalizou. Tornou-se uma fileira de edifícios sem alma, encavalados uns nos outros, com diferentes perfis, cores e alturas, a mostrar que nas orlas mal construídas nem sempre é feriado nacional.

É essa paisagem modernosa que tem atraído visitantes domingueiros, com certeza vindos da aglomeração paulistana em ônibus pretado. São turistas de poder aquisitivo modesto, que trazem a própria refeição e pisam a praia só para pegar uma cor e poder fazer inveja à vizinhança na segunda-feira.

A governança do município não tem apreciado nem um pouquinho essa moda. Impôs, a peruas e ônibus, a obrigação de pagar o que chamam “taxa de turismo” entre R$ 926 e R$ 4.630. Os visitantes indesejados, considerando os montantes exagerados, apelaram para a justiça. O tribunal acaba de publicar seu julgamento dando razão aos visitantes: os valores cobrados são incompatíveis com o o objeto da cobrança.

Concedo que, num domingo de sol (ou sem sol, dá no mesmo) é desagradável espreguiçar-se na areia ao som de um potente alto-falante que toca músicas que você não teria escolhido. Só que o remédio contra isso é mais simples do que impor taxas tão escandalosamente dirigidas contra visitantes pobres. Basta o município proibir que se toque música com alto-falante na praia. Hoje em dia, todos têm um celular e um par de fones de ouvido, pois não?

Esses domingueiros gesticulam, riem, brincam e falam muito alto? Pois acredite que não estão alegres porque são pobres – há muito bacana que, embora sizudo e mal-humorado, solta palavrão o tempo todo. Em voz bem alta, o que incomoda do mesmo jeito.

Quem considerar essa convivência insuportável, tem outra opção. Aos domingos, em vez de ir à praia no Guarujá, dê uma esticada até São Sebastião e combine com um barqueiro que o leve até uma praiazinha deserta, do outro lado da ilha, lugar paradisíaco onde dá pra sonhar que se está em Tahiti.

Mas, se quiser voltar inteiro, não se esqueça de levar um bom repelente contra mosquitos, pernilongos e muriçocas.

COP30: os zigues e os zagues

José Horta Manzano

Vamos fazer de conta que a COP30 é um zigue-zague. Vamos combinar as regras do jogo? Digamos que o zigue é o positivo, o que vai pra frente, são passos que seguem as regras do jogo. Já o zague é o negativo, o que vai pra trás, são decisões que contrariam as regras e fazem o jogo fracassar.

Quinta e sexta, nos preliminares da COP de Belém, presenciamos muito oba oba. Dirigentes do mundo todo, reis e rainhas, Macron tietado na avenida, o Príncipe de Gales, mão no coração, declarando-se encantado com o Brasil. Mas o tapete vermelho durou só dois dias. As excelências se foram e entregaram a arena aos que aqui vieram para o trabalho de salvar a vida no planeta da autoextinção que se aproxima.

Zigue
Foi num arroubo, provavelmente irrefletido, que o presidente Lula propôs que a COP30, atribuída ao Brasil, se realizasse em Belém. Segundo ele, o propósito desse tipo de reunião combinava com um ambiente amazônico.

Zague
No entanto, ao propor Belém, Lula deu mostra de que, como muitos conterrâneos, não se dá plenamente conta da utilidade de um congresso desse tipo. Ele parece imaginar que ali se discute unicamente a preservação da floresta equatorial e mais nada. No entanto, o tema é bem mais amplo. O abandono da utilização de combustível de origem fóssil é tão premente quanto o fim do desmate.

Problema colateral não previsto por Lula ao designar Belém: a cidade não está capacitada a abrigar tantos hóspedes estrangeiros ao mesmo tempo. Falta infraestrutura decente, falta alojamento, faltam restaurantes, falta quem pelo menos balbucie inglês. Simpatia é bom, mas não basta.

Zigue
O Brasil tem mostrado aplicação no sentido de que o saldo desse congresso seja positivo e resulte em avanço real da causa. É sempre importante que o anfitrião abrace o tema que estará sendo debatido.

Zague
Continua um mistério o fato de os barões do agronegócio brasileiro não estarem implicados na luta contra as mudanças climáticas. Eles estão entre os maiores interessados. Tanto na agricultura quanto na pecuária, o regime de chuvas é essencial. Sem precipitações regulares, que caiam na temporada certa e em quantidade razoável, não é possível obter boa colheita nem criar gado saudável. Sabendo-se que o gradual desaparecimento da floresta amazônica já está modificando o clima brasileiro, com longas secas e enchentes catastróficas, cruzar os braços para o clima e divertir-se num rodeio é suicídio programado.

Zigue
Bom de bico que sempre foi, o presidente Lula tem feito belíssimos discursos, que incluem até ousados beliscões em Donald Trump.

Zague
A escutar nosso presidente, ninguém diria que ele não vê a hora de fazer os primeiros furos de prospecção de petróleo na margem equatorial. Ele me faz lembrar o bêbado e a equilibrista, sendo que, no caso, o bêbado e o equilibrista são o mesmo personagem. É difícil exercício de equilibrismo entre a proteção do clima e a candidatura do Brasil à OPEP.

Um Zigue para resumir
Está passando da hora de os brasileiros aprenderem, desde a escola elementar, que a proteção do meio ambiente começa em casa, nos pequenos gestos do quotidiano. Plantar uma mudinha no Dia da Árvore é bonito, mas não basta. A água que escorre sem necessidade da torneira, o pão de ontem que, em vez de ser jogado fora, pode ser guardado num saco plástico e esquentado no forno ou na chapa. Há mil e um conselhos que se devem dar a todos para se conscientizarem de que a natureza não está só na distante Amazônia, mas também aqui. Somos todos parte da mesma natureza.

A natureza somos nós!

Aporofobia explícita (e inconstitucional)

José Horta Manzano


“Chegou sem emprego e local para morar, a gente dá a passagem de volta”


A frase, clara como o sol do meio-dia, foi pronunciada pelo prefeito de Florianópolis (SC). Não há como não entender a mensagem: não queremos pobres importados, basta os que temos aqui. Ou há outra tradução?

O nobre alcaide informou que um posto de ‘Assistência Social’ está sendo montado na estação rodoviária. O objetivo não é exatamente prestar assistência aos que chegam atordoados com o burburinho da metrópole. A intenção é barrar ali, na raiz, a entrada de forasteiros indesejados. Os que chegarem sem emprego e sem ter onde ficar serão gentilmente convidados a dar meia volta. De brinde, a Prefeitura oferece a passagem de volta. Não está claro se o infeliz escorraçado terá direito a uns trocados para um pf no Sujinho.

Segundo reportagem do Estadão, o prefeito já negou acolhida a 500 indesejados e os devolveu ao lugar de onde tinham vindo. Seu diagnóstico é cortante: “Não podemos impedir ninguém de tentar uma vida melhor em Florianópolis, mas precisamos manter a ordem e as regras. Quem aqui desembarca deve respeitar as nossas regras e a nossa cultura. Simples assim”.

Aporofobia é termo cunhado por uma filósofa espanhola nos anos 1990. É o medo das pessoas pobres e a rejeição a elas. Em outras palavras, é a hostilidade e a aversão contra os desamparados e os que têm poucos recursos.

A decisão do prefeito de Florianópolis – que suponho tenha sido validada pela Câmara – é ao mesmo tempo aporófoba e xenófoba. Rejeita o pobre e o forasteiro. A desculpa que ele dá, de que os chegantes devem “respeitar nossa cultura” não faz sentido. Se o indivíduo nem bem desceu do ônibus em que viajou, como acusá-lo de “não respeitar nossa cultura”? É desculpa esfarrapada do prefeito.

Não precisa muita imaginação para adivinhar que o prefeito é simpatizante da extrema direita, inclinação política conhecida por pregar a exclusão dos que não se assemelham a um determinado ‘homem ideal’, que varia conforme o país e o período histórico. Na Alemanha dos anos 1930, eram os judeus que destoavam. Em certos pontos do Brasil atual, são os pobres que representam o papel de indesejados. A Florianópolis atual ousou inscrever nas regras a rejeição com que muitos sonham.

PS
O Artigo n° 5, por certo o mais importante de nossa Constituição, reza, em seu parágrafo LXVIII (68): “Conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”.

Um advogado esperto que instalasse sua banca ao lado do posto de ‘Assistência Social’ faria fortuna. De fato, a justiça teria de conceder habeas corpus a cada um dos escorraçados, visto que estão sofrendo coação em sua liberdade de locomoção.

“Faria fortuna” é modo de dizer. Infelizmente para o causídico, os rejeitados não têm condições de pagar.

O sucesso da atrocidade

José Horta Manzano

Ainda não consegui me despedir do drama que se desenrolou num conjunto de favelas cariocas em 28 de outubro. Notem que, por coincidência, foi no dia de São Judas Tadeu, o padroeiro das causas desesperadas. É o santo a quem os devotos se voltam em momentos de grande aflição. Temo que o mal, de tão grande que é, já esteja fora do alcance do santo, que deveria ter sido invocado anos atrás.

O Rio de Janeiro atual cimentou em duas letrinhas – CV – a expressão de um dos polos do crime na cidade. No outro polo, estão as milícias. Entre os dois, se esgueira a população da cidade, quem de carro blindado, quem sacolejando num trem de subúrbio, todos em permanente estado de alerta.

Os que acompanharam as notícias da última semana (e como se havia de escapar?) sabem hoje um pouco mais sobre o funcionamento das duas facções: a miliciana e a dos entorpecentes.

O problema é que hoje em dia todos se acham especialistas em qualquer assunto e se permitem dar opinião em temas que não conhecem. Isso causa cacofonia inútil. Ao final, ninguém avança, ninguém aprende e a ignorância generalizada fica como dantes. Melhor ouvir quem sabe do que está falando.

Gabriel de Santis Feltran é pesquisador brasileiro, professor, mestre, doutor e pós-doutor das áreas de Ciências Políticas e Ciências Sociais. É escritor, poliglota, palestrante e pesquisador junto a Sciences Po (França), Goldsmiths College (Grã Bretanha), Instituto Humboldt (Alemanha). Há vinte anos estuda o funcionamento das organizações criminosas brasileiras, e tem livros publicados sobre o assunto.

Gabriel Feltran foi entrevistado pela Folha de São Paulo. Cito aqui abaixo um trecho da fala dele.

Não há mais tabu em reivindicar explicitamente, e em linguagem popular, o sucesso fulgurante da atrocidade mais cruel. Governantes e secretários inflamados, unidos em uma espécie de gozo doentio, mostraram-se para as câmeras ao final da operação.

Governadores de outros cinco estados manifestaram imediatamente sua cumplicidade política, acolhida na grande imprensa e na opinião pública dominante como uma organização legítima, que em seguida leva adiante sua proposição legislativa imediata de exceção: garantir na lei o extermínio já praticado, transformando qualquer um que seja qualificado como traficante ou membro do crime organizado em “terrorista”.

Basta essa classificação para que se amplie enormemente o contingente das pessoas expostas ao extermínio sumário, em institucionalidade que protege sua fachada democrática. Assim os “narcopesquisadores”, os “narcojornalistas” e o “narcopresidente” podem igualmente ter o mesmo destino dos “narcoterroristas” mortos na favela.

A turma do “eu prendo e arrebento”, assim como os adeptos do “deixa essa meninada em paz” deveriam parar de falar bobagem, e refletir um pouco sobre o que está por trás das manchetes de jornal e das palavras de ordem das redes.

Entrevista integral (para assinantes da Folha)