Vacinado

José Horta Manzano

Pronto. Custou, mas chegou. Já fazia mais de mês que este escriba tinha marcado hora pra ser vacinado contra a covid. Eu sei que hoje se diz agendar e que ‘marcar hora’ soa um tanto démodé. Mas agendar é burocrático demais para meu gosto. Vamos em frente. Vacina pouca e demanda grande alongam a fila de espera. Mas o dia chegou. Foi nesta terça-feira. Me aplicaram a Moderna, made in USA.

Não sei como estão organizando a vacinação no Brasil. Apesar das rasteiras aplicadas por doutor Bolsonaro e pelo general Cloroquina, parece que a fila está andando. O presidente deve andar desacorçoado. Ele, que sonhava com o aparecimento de uma situação de insurreição causada pelo alastramento da doença e pela falta de imunizante, há de estar pra lá de decepcionado. A tática sugerida pelos bolsonarinhos falhou e o golpe encruou.

Espero que a fila da vacina no Brasil ande rápido, assim Bolsonaro vai poder mudar de tática e esquecer essa história de criar caos nacional. Mudar de ideia, pra ele, não é difícil: todos já viram que o homem não tem princípios e que se verga conforme manda a ventania. Seus propósitos são tão efêmeros e variáveis quanto pesquisas de opinião e quanto os likes das redes.

Enfim, voltemos à situação daqui. Na Suíça, o governo apostou no cavalo certo. Tinha passado pré-encomenda aos laboratórios Pfizer (EUA), Moderna (EUA) e Astra-Zeneca (UK/Suécia). Deu sorte. São vacinas que têm mostrado boa garantia de imunização. Hoje parece uma evidência mas, no meio do ano passado, quando elas estavam ainda em desenvolvimento, ninguém tinha certeza de nada. Foi um tiro no escuro.

Eficácia vacinal conforme anúncio dos laboratórios

E olhe que não é questão de o fabricante estar baseado em país adiantado ou não. O laboratório francês Sanofi, uma potência, também se lançou na corrida. Mas anunciou recentemente ter desistido de prosseguir com os testes. Sua vacina, muito provavelmente, está morta e enterrada. Enquanto isso, China, Índia e Rússia parece que chegaram lá.

Falando nisso, a Agência Europeia do Medicamento (que equivale a nossa Anvisa) não parece muito inclinada a dar sinal verde à vacina russa. Há de ter suas razões. Dado que Moscou anunciou uma taxa de proteção em torno de 95%, acho que pareceu bom demais pra ser verdade. Deve ser por isso que a agência continua sopesando os resultados. A tecnologia russa sofre os reflexos do autoritarismo de Putin. Não se sabe até que ponto a pressão estatal está influenciando o anúncio do laboratório que desenvolveu o imunizante.

Aqui na Suíça, depois de receber a primeira dose, os velhinhos (e os jovens que têm direito à vacina por apresentarem comorbidades) são convidados a sentar-se num salão de espera e lá permanecer 15 minutos antes de ir embora. É pra ter certeza de que ninguém virou jacaré. Tirando o calombo meio dolorido que fica no lugar da picada, não vi pele virando escama, nem dente crescendo, nem rabo espichando. Acho que o mau-olhado do Bolsonaro não chegou até aqui.

Estou me preparando para o baile funk de hoje à noite. Agora posso.

Impeachment, impedimento

José Horta Manzano

Pela nossa legislação, qualquer cidadão da República pode solicitar a destituição do presidente da República. O pedido fundamentado de impeachment(*) será acompanhado de provas documentais e mencionará 5 testemunhas. Deve ser apresentado à Câmara Federal, que proverá.

É interessante fazer as contas de quantos pedidos de impeachment foram apresentados contra os seis presidentes que antecederam Bolsonaro. Fiz as contas de quanto tempo cada presidente permaneceu no trono e comparei com os pedidos de destituição que sofreu. O resultado é interessante.

Itamar recebeu
um pedido de impeachment a cada 183 dias

FHC recebeu
um pedido de impeachment a cada 108 dias

Lula recebeu
um pedido de impeachment a cada 79 dias

Collor recebeu
um pedido de impeachment a cada 42 dias

Dilma recebeu
um pedido de impeachment a cada 30 dias

Temer recebeu
um pedido de impeachment a cada 26 dias

e agora, senhoras e senhores, o campeão estourado:

Bolsonaro recebeu
um pedido de impeachment a cada 11 dias!

Como diz Dona Cultura
Todo mal tem sua cura
Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Desde tempos antiquíssimos já se sabe que, no final, a insistência sempre acaba vencendo. Apesar da (frágil) barreira representada por cupinchas de circunstância instalados na Câmara, não custa insistir. Pedir o impeachment de Bolsonaro sai de graça e pode render dividendos inestimáveis. Livrar-se do homem não tem preço: vale mais que acertar no milhar. Já preparou seu pedido?

Na origem, o impedimento era feito por meio de um trabelho para entravar os pés e impedir a marcha.

(*) Impeachment é palavra que importamos diretamente do inglês. É substantivo derivado do verbo to impeach. Adotamos com casca e tudo, sem mexer em uma letra sequer.

O inglês importou essa palavra do francês empêcher, lá pelos anos 1300. Na travessia do Canal da Mancha, o verbo sofreu alteração de sentido. Em francês, equivalia a nosso impedir; em inglês, adquiriu o senso de impugnar, incriminar, acusar alguém de crime contra o Estado.

Por seu lado, o francês recebeu o termo do latim medieval impedicare, evolução do latim clássico impedire, que equivale a nosso impedir.

No original latino, o verbo é composto pela partícula in + pes/pedis (=pé). Impedire, na origem, traz a ideia de prender os pés, atravancar, não deixar andar, segurar.

Não é bem o sentido que atribuímos a nosso impeachment nacional. A intenção não é segurar o presidente. O que se quer é o contrário: vê-lo pelas costas. Que corra sem olhar pra trás, vá-se embora pra bem longe e não volte nunca mais.

A lagoa e o jacaré

José Horta Manzano

Com o estilo mordaz que caracteriza o espírito francês, Le Nouvel Observateur (l’Obs), órgão importante da imprensa, sintetizou o fim da Operação Lava a Jato.

Brésil: Bolsonaro enterre l’opération anticorruption à laquelle il doit son électionBrasil: Bolsonaro enterra a operação anticorrupção à qual ele deve a própria eleição.

Em matéria de logro eleitoral, é raro ver uma trapaça feita tão às claras. Mas deixe estar, jacaré, que a lagoa há de secar. Quem pelo engodo venceu, pelo engodo será vencido. Memento Lula – Lembrem-se do Lula!

Preço caro?

José Horta Manzano

Chamada da Folha SP

Barato e caro são atributos da mercadoria, não do preço nem do custo. O preço (=custo) é mero indicador do valor da mercadoria.

A mercadoria pode ter muitas qualidades. Por exemplo, pode ser:

  • barata,
  • cara,
  • bonita,
  • cheirosa,
  • pesada,
  • estragada,
  • duvidosa,
  • valiosa,

que são qualidades que o preço (=custo) não pode ter.

Por seu lado, o preço (=custo) pode ser, por exemplo:

  • elevado,
  • baixo,
  • exorbitante,
  • ínfimo,
  • nas alturas,
  • irrisório,
  • insuportável,
  • dissuasivo,

que são atributos que a mercadoria não pode ter.

Portanto, “custo caro”, “custo barato”, “preço caro” e “preço barato” são expressões a evitar. É a mercadoria que é cara, não o custo. A menção do preço nos permite saber se a mercadoria é cara ou barata. Uma vez que conhecemos o custo, concluímos se a mercadoria é barata, se é cara ou se está em conta.

Na chamada do jornal, entende-se que o voto é que chega a ser mais caro; portanto, seu custo é mais elevado. Consertando:

“Custo de voto em mulheres chega a ser quase 70 vezes mais elevado que em homens”

Mais fatos, menos mentiras

Carlos Brickmann (*)

A melhor maneira de desmentir uma notícia falsa é publicar a verdade. A destruição das fake news não se faz por censura ou por arbítrio, mas trocando o falso pelo verdadeiro.

Já ninguém diz, hoje, que quem toma vacina vai virar jacaré: a imbecilidade se desfez sozinha, e sozinha mostrou quem é o jacaré.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

País medieval

José Horta Manzano

É curioso constatar que o governo dirigido por doutor Bolsonaro nunca atira na direção certa. Se o tiro vem da direita, aponta a arma para a esquerda. E vice-versa. Não está claro se fazem isso de propósito ou se lhes falta senso de orientação. De orientação política e social, entenda-se.

No ano passado, quando governos do mundo inteiro sonhavam com o dia em que poderiam vacinar a população e livrar-se da pandemia, nosso doutor fazia pouco caso e torpedeava toda iniciativa que visasse a encomendar vacina.

Agora, que as vacinas começam a aparecer, ele levou uma trombada. Não sei se captou o anseio da população ou se os filhos o aconselharam, fato é que se tem mostrado menos veemente em sua cruzada antivacina. Mas o homem não dá ponto sem nó. Logo abaixo, veremos como, agora que era hora de gritar e bater o pé, se mantém em silêncio – o silêncio dos que calam e consentem.

No Brasil, a insegurança jurídica impera. Com isso, nunca se sabe se o que vale hoje continuará valendo amanhã. No momento em que escrevo, a Associação Brasileira das Clínicas de Vacina está em preparando a importação de cinco milhões de doses de Covaxin – a vacina indiana anticovid. Os destinatários da mercadoria são as clínicas particulares do país.

A meu conhecimento, nenhum país entre os quase 200 que há no planeta admitiu esse tipo de prática. Em todos eles, o trato da pandemia é da alçada governamental. Assim como cabe às autoridades determinar confinamento, fechamento de lojas e funcionamento de escolas, cabe também a elas adquirir, distribuir e aplicar vacina. Imagine se fosse deixada a cada comerciante a decisão sobre abertura do próprio estabelecimento: o resultado seria uma enorme confusão.

Embora o modo de agir do atual governo federal nem sempre dê essa impressão, governo serve, em princípio, para articular o funcionamento do país. Essa história de permitir que os que podem pagar passem à frente dos demais e tomem vacina antes é simplesmente escandalosa. Essa prática, indigna do século em que vivemos, tem de ser banida.

Pesquisa Instituto PoderData

Na Idade Média, o regime era outro. Quem era da classe nobre tinha filhos nobres; plebeus tinham filhos plebeus; filho do rei era príncipe. Assim, a estratificação da sociedade se perpetuava, sem permeabilidade possível. O elevador social ainda não tinha sido inventado. De lá pra cá, o mundo evoluiu.

Em muitos aspectos, nossa sociedade guarda resquícios medievais. Nosso elevador social anda emperrado e só funciona no tranco, à força de manivela. Temos um sistema de saúde pública bizarro, que segrega os usuários de segunda classe e os mantém higienicamente afastados dos que têm acesso aos mimos da primeira classe.

Se essa marca ostentiva de diferença de classe social na área de saúde costumava ser tolerada na vida de todos os dias, a pandemia baralhou as cartas e exige que seja distribuída nova mão. Não é admissível que cidadãos abastados sejam servidos antes dos menos favorecidos. A doença se alastra por toda parte. A mortalidade é ameaça para todos.

Se alguma pressão tem de ser exercida, que se pressione o governo central. Cabe a ele se mexer para suprir o sistema público de saúde com as vacinas necessárias. Isso não é – nem deve ser – tarefa de empresas particulares. A vida daquele que tem posses vale tanto quanto a daquele que não tem.

Neste momento, cabe, a quem tem o poder de fazê-lo, impedir que essa prática perversa se instale no país. Não convém dar mais uma mostra de que certos brasileiros são mais iguais que outros.

Pesquisa do Instituto PoderData mostra que um em cada três brasileiros acha justo que aqueles que podem pagar tenham o direito de procurar uma clínica privada para receber o imunizante. Sabe-se que não há 33% de gente abastada na população do país. A conclusão é terrível: boa parte dos que não têm condições de pagar pela vacina concorda com o privilégio e acha correto os mais ricos poderem se vacinar antes deles. Se isso não é mentalidade medieval, o que será?

Negar convite?

José Horta Manzano

Chamada do Valor Econômico

A reação de Donald Trump diante do convite para depor não surpreende, considerando o enorme rabo preso que o homem tem. Com as acusações que lhe pesam nas costas – incitação à violência, achaque às instituições, difusão de notícias falsas, desleixo no trato da pandemia y otras cositas –, é compreensível que ele fuja do depoimento. Já que não passa de “convite”, qualquer um fugia.

Só que o estagiário cometeu um escorrego no enunciado da chamada. Está escrito que Trump «nega convite». Não é uma construção adequada. O verbo negar, embora tenha numerosas nuances, não é sinônimo de recusar.

Negar um convite é afirmação que, neste caso, não tem propósito. Só faria sentido num caso muito especial. Suponhamos que, para o Carnaval americano (Halloween), Trump organizasse o baile das abóboras, uma festa onde só se pudesse entrar com convite. Suponhamos ainda que Biden, louco pra comparecer, pedisse pra ser convidado. Aí sim, Trump podia negar o convite (=negar-se a convidar). É que, neste caso, o emissor do convite é Trump, e ele pode conceder ou negar o convite a Biden.

Não é, evidentemente, o que o estagiário quis dizer na chamada acima. No caso presente, o convidado é o próprio Trump. Esse convite para depor pode ser aceito ou recusado, sem outra opção. Trump recusou. Portanto, a chamada do jornal ficará perfeita assim: “Trump recusa convite para depor em investigação de impeachment”.

O barquinho vai

José Horta Manzano

Em tempos normais, o Thurgau – barco comercial suíço de 47m de comprimento por 9,5m de largura – leva passageiros para passeios turísticos no Lago de Constança (em alemão: Bodensee), na fronteira entre a Suíça e a Alemanha.

Nestes tempos de pandemia, viagens turísticas estão complicadas, tanto por restrições impostas pelo governo como também por mera escassez de turistas. As autoridades propuseram, e a companhia de navegação aceitou, dar novo préstimo ao Thurgau: foi transformado em vacinódromo.

Bastou uma reforminha à toa pra dar ao barco ares de hospital de campanha. Esta semana, ele começou a receber os idosos (75 anos e mais) que se inscreveram para a vacinação. À diferença de outros locais fixos, que não saem do lugar e obrigam pacientes com dificuldade de locomoção a viajar quilômetros, este vacinódromo vai de encontro aos velhinhos. À noite, desliza sobre as águas mansas do lago e atraca num dos numerosos portos da margem suíça. De manhã, já está pronto pra receber nova leva de vacinandos. E assim por diante, de porto em porto, segundo o programa. Achei uma ideia muito prática. Simples e útil.

Não sei como nosso estratego da Saúde Pública (aquele mago da logística) está organizando a vacinação no país. Para alívio de todos, é provável que tudo esteja sendo planejado estado por estado. Melhor assim.

Assim mesmo, fica aqui a ideia, se é que alguém já não pensou nisso: a criação de vacinódromos ambulantes que vão ao encontro dos pacientes. Se não for viável fazer de barco, também vale utilizar ônibus, veículo mais adaptado às condições brasileiras. Há que ter em mente que há Brasil além dos grandes centros. Os habitantes dos rincões também têm direito a ser imunizados.

A China perdeu a face

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 janeiro 2021.

O povo chinês é extremamente sensível, dono de uma sensibilidade que foge a nossos padrões. A deles é mais rigorosa, formal, à flor da pele, apegada a valores milenares. O peso do coletivo esmaga arroubos individuais. Espera-se que todos se comportem como manda o figurino. No Brasil, somos mais indulgentes; não está em nossa índole levar tudo a ferro e fogo. Situações que consideramos triviais podem chocar os chineses. Quem se relaciona com eles – se quiser ser bem sucedido – deve tomar cuidado para não se indispor com o interlocutor. Deve ter em mente que até atitudes que nos parecem anódinas podem melindrar e bloquear o que estava sendo tratado.

Em qualquer parte do mundo, “perder a face” é visto como situação desagradável. Na China, é mais grave. Por um lado, não precisa muito para uma pessoa “perder a face”; por outro, é uma das ofensas mais profundas que se possa infligir a alguém. De todas as peculiaridades da alma chinesa, talvez seja o conceito de “face” o mais difícil de assimilar. Faz séculos que tradutores pelejam para encontrar o melhor termo para traduzi-lo. É mais ou menos o que ocorre com a palavra ‘saudade’. Assim mesmo, nossa saudade, que é sentimento humano e universal, pode ser traduzida com um rodeio de duas ou três palavras. Já o conceito chinês de “face”, para ser plenamente percebido, requer um mergulho na civilização daquele país.

Se a tradução exata é difícil de encontrar, os conceitos de orgulho, brio, dignidade e prestígio se aproximam e dão uma pista. O culto da “face” regula os relacionamentos sociais na China. O simples fato de interromper alguém que fala é considerado comportamento ofensivo, porque faz o interlocutor “perder a face”. Aquele que falava vai se sentir desprestigiado. Consertar o estrago não será tarefa simples. O único modo é “dar-lhe face”, conceito complementar ao anterior. Para devolver a face ao cidadão ofendido, pedido de desculpas não vale. As palavras-chave para reaver dignidade arranhada são: elogio, prestígio, admiração, deferência. Há que lisonjear, incensar, acariciar, paparicar.

Na China, espera-se que cada cidadão respeite o próximo como respeita a si mesmo. Um exemplo emblemático é quando duas pessoas travam conhecimento. Cada um vai entregar seu cartão de visitas ao outro segurando-o com as duas mãos. E, naturalmente, toma com as duas mãos o que lhe está sendo oferecido. Esse gesto de deferência significa que o respeito que se tem pelo próximo é igual ao que se tem por si mesmo.

Os chineses são especialmente ciosos da própria imagem quando se trata de relações internacionais. É terreno minado. Como toda nação antiga e de passado glorioso, os chineses sentem aquela nostalgia do brilho perdido, o que os torna deveras susceptíveis. Em 1999, quando de sua visita oficial à Suíça, Jiang Zemin, presidente da China, foi alvo de protestos populares. Não houve agressão física, apenas a presença de manifestantes com faixas que pediam a independência do Tibete – país anexado pela China em 1951. Furioso, o dirigente recusou-se a cumprir o resto do programa. Em rápido e inflamado discurso de despedida, declarou que aquilo não eram modos de receber um visitante, e que a Suíça havia perdido um bom amigo. As relações entre os dois países ficaram abaladas por uma década.

Imagine agora o distinto leitor como devem estar sendo recebidas, na China, as agressões proferidas por ministros e deputados nossos, compartilhadas pelos mais altos escalões sem que o presidente da República digne de reprovar. É a China inteira “perdendo a face”! A humilhação, como se sabe, é a melhor maneira de fazer inimigos duráveis. Quem faz um chinês “perder a face” arruma um inimigo vitalício.

Bolsonaro (ou quem lhe suceder) terá de tentar “devolver a face” à China para abrandar os efeitos da ofensa. Um “desculpa aí, pô!” não vai bastar. Há de ser tarefa longa e paciente. Um bom começo será convidar o presidente chinês para visita de Estado, com direito a recepção de arromba, todas as honras, desfile do 7 de Setembro ou camarote num sambódromo, giro turístico pelo Brasil, hospedagem em palácios de prestígio, banquetes de 15 pratos. Na hora da sobremesa, é bom lembrar que chinês não aprecia pratos de gosto açucarado demais. Convém evitar leite condensado.

Por que será?

José Horta Manzano

Quando alguém toma atitude fora dos parâmetros, convém desconfiar. Razões, pode haver muitas. Pode ser para ceder a chantagem, por convicção íntima, por vontade de aparecer. Há outras possibilidades. Vamos aos fatos.

É o Estadão(*) quem dá a notícia. Indusparquet, firma que se apresenta como a maior fabricante de pisos de madeira do país, é ativa na exportação. Algum tempo atrás, um lote de mercadoria sua foi apreendido pelo Ibama. Foi a maior apreensão já registrada no estado de São Paulo. A infração foi punida com multa milionária.

Foi aí que entrou em cena o modo Bolsonaro de gerir a coisa pública. A madeireira foi agraciada com perdão da dívida. Ficou o dito pelo não dito. E desculpe alguma coisa aí, hein! Não admira saber que a firma multiplicou suas exportações para EUA e Europa, nos últimos dois anos, justamente em virtude de produtos feitos de ipê e cumaru.

Se Bolsonaro insiste em liberar a pilhagem da floresta amazônica, não será por nenhuma das razões que mencionei na entrada. Que se saiba, não está sendo vítima de chantagem por parte das madeireiras. Não consta tampouco que faça isso por convicção íntima – convicção de quê? Vontade de aparecer, ele tem, é verdade; mas já aparece demais com a baixaria que sai de sua boca sem precisar aliviar multas.

Não sei como é que fica na cabeça do distinto leitor, mas na minha, espremendo bem, só sobra uma razão a explicar a estranha atitude do doutor. Se ele permite a destruição da floresta para beneficiar uns poucos neandertais, só vejo uma razão possível: ele está muito interessado em agradar a essa gente. É esquisito. Eleitoralmente, não contam. São muito poucos e não pesam na urna. O que é que sobra?

Bem, eu dei a pista. Cada um que tire suas conclusões.

(*) O artigo integral está aqui.

Orquídea

José Horta Manzano

Certas palavras têm origem surpreendente. Entre elas, está orquídea, nome da simpática flor cujas múltiplas variedades estão presentes em vastas regiões do globo, da zona tropical à temperada.

O nome vem do grego. Atribui-se o batismo da orquídea a Teofrasto, filósofo grego que viveu 300 anos antes de Cristo. Na língua dele, uma das acepções do termo órkhis designa uma variedade de azeitona. Mas não foi essa acepção que deu nome à flor.

É que órkhis também significa testículo. É daí que vem o nome da orquídea. A associação de ideias tem a ver com a forma da raiz da planta, uma espécie de bulbo que lembra o atributo da genitália masculina. O D que apareceu no meio da palavra – orquíDea – é tentativa tardia de latinização. Não consta no original grego.

Como prova da relação entre a flor e a anatomia, note-se que, em linguagem médica, o elemento de formação orqui- (orquid-) é utilizado para designar os testículos. Orquialgia é dor testicular, orquidectomia – ablação de um/dos testículo(s). E assim por diante.

Parece que, depois disso, o encanto da flor diminui, não? Mas o imenso charme das orquídeas logo faz esquecer a pouca poesia das origens.

O buraco é mais à frente

Carlos Brickmann (*)

O presidente Bolsonaro pensa que seu maior problema é o Congresso. Não é: tudo o que pode ser resolvido com dinheiro não é problema, é custo. Sim, está sendo caro: evitar impeachment, evitar CPIs, o investimento é alto mesmo. Mas não é um problema.

Para evitar o constrangimento de levar uma proposta indecente a um parlamentar decente, o Brasil criou uma novidade tecnológica: a turma disposta a ouvir os argumentos do Poder Executivo – e, ao menos em um caso famoso, de até entubá-los – usa código de barras em local visível. Facilita o diálogo, evita incompreensões, não se perde tempo.

Mas o maior problema não é o Congresso (nem é o Congresso a solução). A turma do código de barras quer é levar vantagem em tudo. E, se já foram pagos, qual o problema de mudar de posição? Trair e coçar é só começar.

O grande problema do presidente Bolsonaro é um grupo de trabalhadores que já acreditou nele: os caminhoneiros. Como já acreditaram (e já levaram um pé no pazuello), conversar com eles é difícil. Talvez não aconteça nada, pois não há cúpulas que os comandem; mas, se acontecer, os caminhoneiros programaram sua parada para esta segunda-feira.

Se não pararem, Bolsonaro poderá continuar pensando o tempo todo no governador João Doria. Mas se houver paralisação, todo o país terá problemas sérios. Bolsonaro também.

Boa parte das mercadorias viaja de caminhão. Uma greve derruba o abastecimento. Vai faltar até leite condensado para o pão de Sua Excelência.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Finura em francês

José Horta Manzano

Dizem que o francês é a língua do amor. Talvez seja, não posso garantir. Mas uma coisa é certa:

  • palavrão, em qualquer língua que seja, cai mal;
  • quando é usado para ofender a mãe de alguém, fere a decência;
  • quando é proferido com a veemência dos insanos, é hora de dar um passo atrás;
  • quando o ofensor é o presidente da República, é bom ir chamando a viatura;
  • quando um bando de boçais faz claque e acha graça, pode chamar o camburão.

 

Le Figaro, França

O Figaro, jornal francês de referência, tentou, bem ou mal, traduzir as palavras edificantes que o presidente da República do Brasil pronunciou outro dia perante seleta plateia – todos gente fina. A tradução ficou meio assim assim, porque traduzir palavrão não é fácil.

«Quand je vois la presse m’attaquer, disant que j’ai acheté 2,5 millions de boîtes de lait concentré. Allez vous faire foutre chez votre putain de mère. Cette putain de presse. Ces boîtes sont pour vous, la presse, pour vous les mettre au cul».

Vindo de doutor Bolsonaro, já nenhuma vilania nos surpreende. Mas fico imaginando os olhos arregalados dos franceses, que estão habituados a outro nível de comunicação pública, ao lerem a frase. Se ela tivesse sido pronunciada por um cafajeste qualquer, seria impressa com tarja preta, censurada para não ferir espíritos sensíveis. Dado que veio do presidente do Brasil, por dever de ofício, o jornal se viu na obrigação de publicar na íntegra.

E assim vai a vida. A cada dia que passa, lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Terra de bandido

José Horta Manzano

A notícia estava na Folha de SP:

«Uma mulher foi tomar a vacina contra a Covid-19 hoje, em Maceió. Ao se posicionar para receber o imunizante, a funcionária responsável pela vacinação inseriu a agulha no braço dela, mas não pressionou o êmbolo da seringa.»

A informação segue e explica que um parente estava filmando a cena e captou tudo com o celular. Estava registrada a prova incontestável. A família foi falar com a responsável, que pediu desculpas e se propôs a reaplicar a vacina. A paciente tomou a vacina – corretamente injetada desta vez –, deu-se por satisfeita e foi-se. A seguir, a funcionária foi repreendida e afastada. Segundo a supervisão, trata-se de um ‘erro isolado’.

Erro? – pergunto eu. Erro? Já se viu alguém preparar a injeção, picar o braço do paciente e ‘esquecer’ de empurrar o êmbolo? Isso não é erro, senhores. É canalhice das grossas. Ignoro a razão pela qual a funcionária terá feito isso, mas coisa boa não é. Não há de ser para aplicar em si mesma; para isso, bastava servir-se na reserva, sem que ninguém visse. Resta a hipótese (mais provável) de estar separando para revenda.

Quero tecer algumas considerações. O caso narrado pode não ter sido a primeira trapaça da funcionária. Foi o primeiro a ser documentado, mas ela pode estar fazendo isso sistematicamente desde a primeira aplicação. Isso explicaria o fato de ela não ter dado importância ao celular que filmava a cena. Tão acostumada estava com a mutreta, que não lhe ocorreu.

A cada vez que sonegou a vacina a um paciente, a funcionária expôs deliberadamente uma pessoa a risco de morte, portanto cometeu crime de tentativa de homicídio. Ao mesmo tempo, incorreu em crime de prevaricação, que é quando um funcionário retarda ou deixa de praticar ato de ofício. A essa lista, pode-se acrescentar o crime de peculato, que é a apropriação de bem público para fins de interesse pessoal.

A meu ver, essa mulher não tinha de ser apenas «afastada». Tinha de ir direto para a cadeia e lá aguardar, trancada sob 7 chaves, a instrução do processo. Solta, ela é um perigo público. Quem empurra para os braços da morte velhinhos inocentes e confiantes que pediam proteção não merece ser deixada solta, por aí, quiçá auferindo os lucros da venda das vacinas que surrupiou. Tratamento idêntico têm de receber todos os que estiverem rezando pela mesma cartilha que ela.

Sempre me perguntei se a mentalidade delinquente de boa parte da população é resultado da corrupção das classes dirigentes ou se, ao contrário, as classes dirigentes são corruptas porque são escolhidas por uma população composta, em boa parte, por delinquentes. Acho que, de certo modo, as duas afirmações são verdadeiras. A desonestidade de uns alimenta a dos outros, e assim por diante, ida e volta, num circuito fechado de bandidagem.

Eu me dou perfeitamente conta de que o que acabo de escrever é terrível. Mas, convenhamos, é o pão nosso de cada dia – como negar? O episódio das Alagoas é apenas um pouco mais sórdido do que o habitual. Mas basta percorrer os jornais nacionais e regionais para encontrar uma coletânea de fatos similares, diariamente, de norte a sul do país.

Como quebrar esse circuito miserável? Confesso que não sei. Se tivesse a receita, embrulhava pra presente e enviava a nosso diligente presidente. Ele, que não busca senão o bem do Brasil, certamente a poria em prática. Não?

Observação
Quem garante que outros funcionários tão dedicados como a anti-heroína desta história não estejam praticando a mesma mutreta? Quem garante que, mesmo quando o êmbolo é empurrado, o paciente não esteja recebendo apenas uma injeção de água? Quem supervisiona o supervisor?

Covid – desempenho por país

José Horta Manzano

O Lowy Institute da Austrália é um ‘think tank’, expressão inglesa que se traduz por ‘laboratório de ideias’ ou ‘círculo de reflexão’.

Com a intenção de pôr às claras a montanha de narrativas e contranarrativas que criam verdadeira ‘infodemia’ e embaralham a realidade da pandemia, fizeram um estudo minucioso sobre a maneira como cada país enfrentou a pandemia.

Na avaliação consideraram 6 variáveis:

  • Número de casos
  • Número de mortes
  • Casos por milhão de habitantes
  • Mortes por milhão de habitantes
  • Casos em proporção de testes
  • Testes por mil habitantes

O estudo observou o comportamento que cada país adotou a partir da 36a. semana após confirmação do primeiro caso de covid.

Uma conclusão interessante à qual chegaram foi a de que Estados autoritários não obtiveram classificação melhor do que os demais. Um enfrentamento rigoroso mas de curta duração dá resultados semelhantes aos de uma abordagem menos severa porém mais prolongada.

Outra conclusão – e esta explica, até certo ponto, a dramática situação do Brasil e dos EUA – é a de que países vastos e populosos foram mais atingidos que outros. Isso se deve ao fato de que, enquanto fronteiras se fecharam e a circulação internacional de viajantes foi reduzida, as viagens internas nesses países permaneceram livres e autorizadas. Muitos viajaram, o que permitiu o alastramento do vírus para todos os rincões. Países pequenos sofreram menos com o problema.

Apesar dessa justificativa, há que reconhecer que o Brasil não é o único país grande e populoso. Muitos outros estão na mesma situação e obtiveram resultados melhores. A pesquisa estudou o desempenho de 98 países no enfrentamento da covid. Sem surpresa, o Brasil classificou-se em… 98° lugar. O último da classe. Na rabeira, minha gente! Não estamos mais ‘entre os piores’. Somos os piores. Os campeões da indigência.

Para espíritos masoquistas, estou anexando a lista completa. Lá estamos nós, assim como os mais bem classificados, ou seja, o resto do mundo. Para sofrer, basta clicar na ligação (=link) aqui abaixo:

Covid-19 – Desempenho

Ganha uma caixa de Cloroquina quem descobrir a causa principal do vergonhoso desempenho brasileiro. Repare que os 3 países governados por dirigente negacionista – Brasil, EUA e México – estão entre os 5 últimos da lista de 98 nações. Precisa fazer um desenho?

Vão morrer na rua!

José Horta Manzano

Chamada Fato Amazônico, 29 jan° 2021.

O corpo do artigo informa que o recém-nomeado ‘assessor de Pazuello’ é general. Como o chefe. O que está fazendo essa leva de generais da reserva em postos que requerem tato e diplomacia? Foram para a reforma e estão sendo pagos por nós para ficar em casa, de pijama, bonitinhos, assistindo às novelas. Que cumpram o combinado. Não faz sentido receberem ordenado extra para soltar ameaças.

Quando se lê nas entrelinhas, as palavras do aspone soam como ameaça aos enfermos. É como se o imbecil tivesse dito: “Olhaí, vagabundos, tratem de melhorar, se não vão sofrer as consequências!”.

Lugar de elefante não é em loja de porcelana, principalmente quando o país enfrenta uma pandemia altamente letal. Quem é que essa gente pensa que é?

O grau de civilização de uma sociedade se reconhece pelo modo como trata seus elementos mais frágeis.

Tuíte – 19

José Horta Manzano
“– Lamento, pessoal, quer que continue (o auxílio emergencial), vai quebrar o Brasil […]”

Meus distintos leitores, que são todos fãs do presidente, certamente assistiram ao vivo à ‘live’ de ontem. Por problemas de diferença de fuso horário, não tive ocasião de assistir, mas os jornais de hoje me socorreram. Foi de lá que tirei a simpática citação acima.

“Vai quebrar o Brasil”, disse ele. Confesso que a declaração – que não foi conversa de botequim, mas pronunciamento à nação – me deixou perplexo. Como é possível dizer que o auxílio de emergência vai quebrar o Brasil, se ainda outro dia ele mesmo anunciou que o país já estava quebrado?

Vai ver que, de lá pra cá, já consertaram. Ou então ele entrou pr’a escola da desacreditada Dilma Rousseff, que de vez em quando soltava o bordão: “– FHC quebrou o país três vezes”.

Ódio à ciência

José Horta Manzano

Artigo do jornalista Vinicius Sassine, publicado no Estadão, dá a informação:

«O governo Jair Bolsonaro cortou 68,9% da cota de importação de equipamentos e insumos destinados à pesquisa científica. A medida afeta principalmente as ações desenvolvidas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz no combate à pandemia da Covid-19. Em 2020, o valor foi de US$ 300 milhões. Para 2021, serão apenas US$ 93,3 milhões.»

O distinto leitor leu corretamente. No meio da epidemia mais grave que o país já enfrentou, quando o pouco que temos de institutos de pesquisa se descabelam pra tirar do chapéu uma solução para prevenir o alastramento da doença, doutor Bolsonaro gira a faca na ferida. Cortou mais de 2/3 dos incentivos que deviam beneficiar a pesquisa.

Ele segue firme e bate o pé. Odeia a ciência. E continua apostando na derrocada do país. Em sua cabecinha, sobrevive a ideia fixa: com a nação em ruínas, montanha de mortos, caos total, ele se atribuirá plenos poderes e se tornará o salvador da pátria.

É por caminho semelhante que ditadores subiram ao trono. Napoleão se aproveitou do caos provocado pela Revolução Francesa. Josef Stalin valeu-se da bagunça que se seguiu à Revolução Bolchevique. Adolf Hitler surgiu das cinzas da Alemanha derrotada e humilhada em 1918. Só que tem uma diferença importante. Todos esses ditadores cresceram de um desmoronamento que não tinha sido provocado por eles. Já nosso doutor procura, por conta própria, provocar esse desmoronamento.

Essa teoria é a única que explica tim-tim por tim-tim todas as suas atitudes que, à primeira análise, parecem desconjuminadas e incompreensíveis. No delírio presidencial, há método.

A meu ver, a sua destituição não deveria passar pelo impeachment, caminho pedregoso e incerto; ele devia mesmo é ser interditado. Tinha de sair do Planalto direto para o hospital psiquiátrico. Lugar de Napoleão de hospício é o hospício.