O espetáculo argentino

José Horta Manzano

Quando eu era pequeno, o Brasil era muito diferente de hoje. Era caipira, meio atrasado, e todo o mundo sabia disso. O brasileiro tentava olhar para fora do país e imaginar como seria a vida no estrangeiro.

As influências que recebíamos vinham pelo cinema, com filmes em grande maioria norte americanos. Imaginávamos que os EUA fossem um país fabuloso, em que todos tinham automóvel, viviam em casas rodeadas de jardim, eram ricos e comiam omelete com toucinho de porco logo de manhã. Mas os Estados Unidos estavam muito longe, naquele mundo em que viagens intercontinentais custavam um patrimônio.

Mais próximo de nós estava a Argentina, país que julgávamos adiantado, moderno, nosso vizinho de parede. Vizinho é modo de dizer, porque, apesar da distância relativamente pequena, quase ninguém viajava até lá. Estradas havia, mas era impensável rodar tantos quilômetros. De trem, era impossível. O melhor meio de chegar a Buenos Aires era de navio. Vosmecê não acredita? Pois era assim.

Os poucos que viajavam até lá traziam objetos que não existiam aqui. Mantas de pura lã, frutas secas de produção local, vinhos. Em nossas feiras, vendiam-se maçãs e peras argentinas, porque não havia produção brasileira. Cerejas, quando apareciam, vinham de lá e custavam uma fortuna.

Tive uma tia-avó que, toda semana, comprava uma revista feminina argentina, porque ainda não havia nada parecido no Brasil. Era o Para Ti, que trazia romances em capítulos, receitas, artigos sérios, ilustrações coloridas – um deslumbre. Foi essa revista, aliás, que me deu as primeiras lições de língua espanhola. Sempre tive grande admiração pela Argentina.

Passado tanto tempo, simpatias vindas da infância às vezes se chocam com a realidade. Assisti ao jogo de domingo, final da Copa, com o duelo Espanha x Argentina. Tendo já assistido à partida das semifinais entre a Argentina e a Inglaterra, eu já estava ressabiado. Aquilo foi uma desgraceira, uma pancadaria sem fim. Era assim, então, que a campeã da última Copa pretendia defender seu título? Que horror. Passaram 90 minutos daquela semifinal massacrando fisicamente os ingleses, como se estivessem num campo de batalha.

Um jogador argentino faz um espanhol fazer um voo acrobático e aterrissar no gramado.

Um analista creditou esse comportamento a um “rancor persistente” (pela derrota sofrida 44 anos atrás, na Guerra das Malvinas). Rancor? – pergunto eu. Por algo que ocorreu antes que todos os jogadores tivessem nascido? Não acredito. Aquilo foi mostra de agressividade própria de um grupo desclassificado, surgido não se sabe de que caverna.

No jogo final da Copa, os ferozes jogadores argentinos repetiram a dose. Deram pancada e cotovelada a granel. Abusaram das faltas e do comportamento antiesportivo. Foi constrangedor. Alcançaram um recorde nada invejável: pela primeira vez, uma seleção atravessa os 90 minutos da partida final sem chutar a gol. Não digo nem fazer um gol, mas apenas chutar em direção à meta. Não é impressionante? Acho que estavam tão vidrados na agressividade contra os adversários, que não deu tempo de pensar em fazer gol.

A imprensa mundial pouco falou desse aspecto deplorável do jogo. Artigos e análises preferiram passar batidos por esse capítulo desagradável. O New York Times não deixou passar em branco. O articulista intitulou “A Argentina desonrou a si mesma — e a final da Copa do Mundo — com sua petulância sem charme”. Leandro Paredes, talvez o mais feroz dos argentinos, teve direito ao epíteto de “vilão sorrateiro” por parte do NYT.

Barraco armado por um furibundo jogador argentino depois da derrota.

E o barraco não acabou com o apito final. Terminado o encontro, o mesmo Paredes arrumou confusão com o banco espanhol. Atracou-se furiosamente com um jovem reserva, e atirou-o ao chão com um golpe semelhante ao ippon do judô. Foi apartado, se não o assustado reserva teria ido direto para o Pronto Socorro.

Espetáculo deprimente oferecido por uma turma sem eira nem beira. Alguém sugeriu excluir a Argentina da próxima Copa. Imagine só se a gananciosa Fifa havia de perder a fonte de renda representada por um país de mais de 40 milhões de habitantes.

A Argentina vai estar presente em 2030, pode ter certeza. Resta esperar que a próxima leva seja de jogadores mais civilizados. É permitido duvidar.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.