Eleições vêm aí – 3

Cantar de galo

José Horta Manzano

Quintal do vizinho
Lula às vezes parece discursar para fãs que aplaudem sem ouvir e para jornalistas sonolentos que ouvem sem escutar. No 11 de set°, durante um ato de campanha em Porto Alegre, explicou que estará na sessão de abertura da ONU daqui a uma semana. Como de hábito, será o primeiro a discursar, e dirá a Trump: “Eu não me meto nas eleções americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano”. Acrescentou que “o filho da dona Lindu (ele, Lula) gosta de respeitar e de ser respeitado”.

Estamos habituados a tanta falsidade neste Brasilzão de Deus, que ninguém se preocupou em checar as palavras de Lula. Nestes tempos em que não precisa mais consultar arquivos de jornal para verificar, levei exatamente 45 segundos para encontrar o que procurava. Dia 1° de novembro de 2024, em entrevista ao vivo a LCI, canal televisivo francês, Lula se exprimiu sobre as eleições presidenciais americanas, confirmando sua preferência pela vitória da candidata democrata, Kamala Harris, diante de Donald Trump.

A plateia que aplaudiu a fala de Lula em Porto Alegre pode ter apreciado o que ouviu. Mas Trump, que às vezes costuma ser bem informado, há de ter achado estranho ver mais um mentiroso liderando país importante. Ele deve até ter comentado: “Welcome to the club!”

“Os que me seguem”
É curiosa a capacidade que um facho de holofotes tem de fazer o enfocado subir no salto, vestir a saia justa e cantar de galo. Até outro dia, o senhor Augusto Cury, hoje candidato à Presidência da República, era autor de livros de autoajuda, conhecido apenas entre os adeptos desse gênero de literatura. A candidatura a cargos eletivos está aberta a todo cidadão brasileiro, dentro de certas regras – por exemplo, fichas sujas não podem concorrer.

Com a candidatura aprovada por seu partido político, sr. Cury decidiu concorrer. Estes dias, numa entrevista, foi questionado sobre quem apoiaria no segundo turno, caso ele mesmo não passasse pelo “vestibular” do primeiro. O candidato não se fez de rogado, deu logo sua resposta. Declarou que apoia Flavio B., mas com uma condição: de que ele prove que não houve corrupção na ajuda de milhões de dólares recebidos para financiar o filme em louvor ao pai. E tem mais: para, enfim, apoiar plenamente o filho do capitão, Flavio B. vai ter de “pegar o meu plano de governo e, num cartório, assinar que vai executá-lo”.

É aqui que entram o salto, a saia justa e o galo a cantar. Cury acrescenta: “Se ele (Flavio B.) fizer isso, as pessoas que me seguem estão liberadas para votar nele”. Disse isso com a candura dos que acreditam piamente ser donos do eleitorado, que primeiro espera que seu Mestre mande, para em seguida repensar seu voto.

Dito isso, renego o artigo que escrevi algumas semanas atrás. Deixei-me levar pelo ar sério desse senhor. Vislumbrei ali uma fresta de luz para o Brasil sair das trevas atuais. Infelizmente, não é assim. Penitencio-me.

Com alguém que recomenda voto em Flavio B., seja por que motivo for, seja com as ressalvas que forem, o facho de luz se extingue. Cury não prometeu indultar Bolsonaro pai. Mas também não prometeu deixar que o Judiciário cuide dos problemas que lhe dizem respeito. Convém guardar distância desse iluminado.

Lé com lé

Ilustração by Alcy Linares, desenhista paulista

José Horta Manzano

Na vida, é importante que lé rime sempre com lé e que cré rime sempre com cré. Na marcha da política, isso é ainda mais importante, sob pena de confundir a cabeça do eleitor. Quando o nome do jogo é eleição presidencial, então, dissonâncias podem custar votos preciosos, em especial numa disputa acirrada.

Os lés do Lula, assim como seus crés, são de conhecimento geral. Afinal, Nosso Guia já fez seis tentativas de chegar ao Planalto (três em que passou a rampa e três em que foi reprovado). Esta é a sétima e, diz ele, a última. A ver. Com passado político tão denso, Luiz Inácio parece que nem engatou a primeira para a partida. Foi direto para a quarta, tranquilo, como se candidato único fosse. Afinal, é ele o incumbente.

Quanto a seu desafiante, um certo Flavio B., marinheiro de poucas águas, a afinação dos lés é crucial. Menos conhecido que o incumbente, é proprietário de caçarolas e esqueletos que guarda discretamente no armário mas que podem, caso dê uma “fraquejada”, criar vida e sair por aí estalando ossos e batendo panela – um perigo!

Pois bem, este candidato desafiante sofreu um golpe seco logo no evento de apresentação de sua campanha ao distinto público. Marcou o comício para a praia de Copacabana, expressão máxima de nossa pretensa tropicalidade. Afinal, o Rio de Janeiro é o berço de onde irradiou o clã ao qual Flávio B. pertence. O ato tranformou-se num tremendo fiasco. No mesmo lugar em que o hoje preso Jair B. tinha atraído 64,6 mil pessoas na festa de 7 de setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, seu filho não recebeu mais do que 8,9 mil apoiadores. Em outros termos, menos de 1 em cada 7 adeptos compareceram para louvar o candidato.

Com certeza, a conclusão que se impõe é que o bloco de apoiadores do passado está esfarelado, virou as costas a Flávio B. Ou não?

Pois parece que não. Nenhuma das pesquisas publicadas após o ato inicial da campanha de Flávio B mostra o mais leve tremelico na porcentagem de votos que lhe é atribuída. Nem na porcentagem do Lula, diga-se.

Passado um momento de estranheza, uma conclusão surge como obrigatória: os apoiadores cariocas de Flávio B já não estão dispostos a enfrentar sol de Copacabana para aplaudir seu herói. Até votam nele, mas preferem fazer isso na sombra amiga da cabine de votação. É o único jeito de fazer lé rimar com lé, e cré com cré. Fora isso, desafina e ninguém entende mais nada.

Com medo de virarem vidraça e serem acossados de perguntas e acusações constrangedoras, tanto o incumbente quanto o candidato desafiante já anunciaram não terem intenção de comparecer a debates televisionados. De novo, repito. O atual presidente, velho de guerra e sobejamente conhecido nos rincões e nos grotões, até que pode se permitir esse luxo. Já o desafiante está apostando alto.

A massa de eleitores que pretendem votar nele não está apenas constituída de devotos incondicionais. Há também um contingente de insatisfeitos com o governo Lula, grande número de indecisos (sim, isso existe), e outras parcelas menores. É justamente essa parcela que interpretará o fiasco de Copacabana como sinal de perda de força da candidatura de Flávio B, e a ausência nos debates, como confirmação da derrocada.

Quem busca a façanha de se eleger contra um Lula velho de guerra – e loga na primeira tentativa – não pode se permitir emitir esses sinais dúbios, que podem ser interpretados como os de um homem que está baixando os braços.

Tome cuidado, Flávio B.!

Trump de la pampa?

by Luis Grañena, caricaturista espanhol

José Horta Manzano

No caso da rápida passagem de Milei, presidente da Argentina, pela convenção que lançou a candidatura de Flávio B. à Presidência da República, tem sido dada mais atenção à forma que ao fundo do pronunciamento do argentino. A virulência dos insultos foi notada (e reprovada) por todos, mas o objetivo central do visitante ainda está por esclarecer.

Olhando de repente, Javier Milei parece um sujeito sem noção por natureza e palhaço por vocação. Um bobalhão, em resumo. Acontece que a realidade não é bem essa. Dono de uma licenciatura em Economia, duas pós-graduações em Economia e Teoria Econômica e autor de uma dezena de livros de Economia, seu lado histriônico não passa de encenação.

A pretensão de Donald Trump de reavivar a Doutrina Monroe – a América para os americanos – fez brotarem caraminholas na cabeça de Javier Milei. Ao se dar conta de que os três maiores países americanos (Brasil, México e Canadá) estavam governados por opositores políticos de Washington (Lula, Sheinbaum e Carney), o argentino teve a peculiar ideia de se autopromover a xerife regional de Trump, uma espécie de interventor do poder americano nesta parte da América.

É dentro dessa óptica que deve ser analisada a ingerência de Milei no processo eleitoral brasileiro. Tratou-se muito mais de autopromoção que de apoio ao filho de B. Mas por que os insultos? O argentino trata de arremedar seu ídolo, que reina na Casa Branca. Falta-lhe o talento teatral, não mente com a mesma convicção que o mestre, sua estridência mais ofende que mete medo. Mas… e daí? O objetivo não era escandalizar? Pois foi amplamente atingido.

Milei sabe que Flávio B. tem certa chance de ser eleito. Não fosse assim, não teria se abalado até aqui colar sua imagem num cavalo fora do páreo. Se de fato o filho de B. ganhar a eleição, Milei saberá cobrar gratidão do novo presidente. Nesse sistema neofeudal, Flávio deve vassalagem a Milei, que, por seu lado, deve vassalagem a Trump. Se funcionava assim no século 13, não há razão para que não funcione hoje, não é mesmo?

Se porventura Lula vencer a corrida, Milei não terá perdido a viagem. Continuará macaqueando no seu canto na esperança de, também ele, ser reeleito em Buenos Aires. Para espichar esta tragicomédia que, se não contribui para o progresso de nossa região, pelo menos entretém a plateia. E rende artigos como este.