Quem manda aqui sou eu!

by Arend van Dam (1945-)
desenhista holandês

José Horta Manzano

Um belo dia de fevereiro, o mundo acordou com o eco de bombas lançadas sobre o território iraniano. Tratava-se de um ataque maciço que os EUA e Israel, aliados, desferiam no Irã. Era Trump que tinha mandado suas tropas com a mensagem: “Quem manda aqui sou eu!”.

Nos dias que se seguiram, num golpe que parecia haver sido preparado por meses, um enorme palácio do centro de Teerã foi tão fortemente bombardeado que virou pó. Dentro, desenrolava-se uma reunião de altos dignitários. De uma tacada só, foram eliminados os principais cabeças do regime, incluindo o aiatolá Khamenei, o líder máximo.

A essas alturas, ninguém dava um tostão pelo futuro da teocracia. Esperava-se que o regime desmoronasse a qualquer momento e que novos dirigentes, favoráveis aos EUA, despontassem.

Com as semanas que passam, a gente vai-se esquecendo da sequência dos acontecimentos, mas a impressão era de que o Irã dos aiatolás era página virada, sobrando um país agora de joelhos e de braços abertos para as empresas americanas.

Não foi o que aconteceu.

No Irã, o regime não caiu. Outro guia espiritual foi imediatamente escolhido. Para cada guarda revolucionário caído, outro surgia não se sabe de onde. O país descobriu que era hora de pôr em prática seus planos de fechamento do Estreito de Hormuz, sua melhor arma.

Contando com uma imensa quantidade de drones, o Irã se valeu deles para sua defesa. Incapaz de disparar mísseis que atingissem o território americano, atacou interesses dos USA na região: dezenas de bases militares instaladas nos países vizinhos foram visadas.

Com seu estoque de armas baixando a olhos vistos e com bilhões de dólares sendo consumidos na guerra, os EUA insistiram na abertura de conversações visando a instaurar a paz. As tratativas ainda estão a meio, mas já se pode perceber claramente quem ganhou e quem perdeu com a guerra.

O Irã provou que a potência militar americana não é lá essas coisas. Dispõem, é verdade, de um arsenal que ninguém iguala, mas mostraram que, para ganhar uma guerra, ter armamento mais poderoso nem sempre é suficiente. Com o fechamento de Hormuz, o Irã conseguiu vergar o poderio americano.

Os EUA, que eram os protetores naturais de todos os países árabes da região, foram incapazes de proteger seus aliados, e decepcionaram. Qatar, Bahrein, Iraq e os demais têm agora maior tendência a voltar-se em direção a outros protetores, como a China, por exemplo.

O Irã, que era o país amaldiçoado da região, sai dessa guerra fortalecido e respeitado. Vai se passar um bom tempo antes que alguém ouse chuchar Teerã com vara curta. Cabe ao Irã agora proclamar:

“Quem manda aqui sou eu!”.