Era um tempo em que a música brasileira era diferente de hoje. O carnaval, que ainda não era festa tão comercial como hoje, dava ocasião ao lançamento de marchinhas especialmente compostas para a ocasião, destinadas a “pegar” durante a festa e a sair de cena logo em seguida. Algumas, no entanto, caíram tanto no gosto do povo que sobrevivem até hoje. Mamãe eu quero é uma delas.
Para o carnaval de 1955, Paquito, Romeu e Jorge Gonçalves juntaram seus talentos e criaram a marchinha “A água lava tudo”, que Emilinha Borba gravou. Atrás da letra de ar cândido, insinua-se que o personagem de quem se fala andou por aí “num lugar tão diferente”. Após reflexão, compreende-se que o lugar diferente é um bordel. Mesmo tão escrachada, a marchinha não há de escandalizar se cantada diante de senhôras.
Em 1955, não havia redes sociais. Assim mesmo, piadinhas e memes se espalhavam rápido. (Memes não se chamavam assim, mas viajavam a 120, como se dizia.) A letra original da primeira parte da marchinha era esta:
Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente
Não demorou muito pra circular uma versão alternativa que zombava de Carlos Lacerda, então deputado federal pelo DF. Lacerda era orador inflamado, dotado de língua ferina. O povo não perdoou:
Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua do Lacerda
Pra eu lembrar 70 anos depois, é que a versão bis deve ter sido bastante repetida. A história não conta se o político apreciou.
Vamos pular todas essas décadas e trazer a história para o presente. Agora vêm alguns “se”:
- Se o carnaval ainda fosse espontâneo como o antigo e menos fabricado;
- Se os memes ainda tivessem a leveza de espírito das brincadeiras de ontem;
- Se ainda fossem compostos sambas e marchas especiais para o carnaval;
- Se a marchinha da Emilinha Borba ressuscitasse e o povo se pusesse a cantá-la.
Qual seria um final engraçado, coerente e atual para a estrofe “A água só não lava a língua …………….” ?
- Da sogra?
- Do Lula?
- Do Eduardo Bolsonaro?
- Do Trump?
Alguma boa ideia ocorre a vosmecê? Mande cartinha para a Redação!
