Água lava tudo

José Horta Manzano

Era um tempo em que a música brasileira era diferente de hoje. O carnaval, que ainda não era festa tão comercial como hoje, dava ocasião ao lançamento de marchinhas especialmente compostas para a ocasião, destinadas a “pegar” durante a festa e a sair de cena logo em seguida. Algumas, no entanto, caíram tanto no gosto do povo que sobrevivem até hoje. Mamãe eu quero é uma delas.

Para o carnaval de 1955, Paquito, Romeu e Jorge Gonçalves juntaram seus talentos e criaram a marchinha “A água lava tudo”, que Emilinha Borba gravou. Atrás da letra de ar cândido, insinua-se que o personagem de quem se fala andou por aí “num lugar tão diferente”. Após reflexão, compreende-se que o lugar diferente é um bordel. Mesmo tão escrachada, a marchinha não há de escandalizar se cantada diante de senhôras.

Em 1955, não havia redes sociais. Assim mesmo, piadinhas e memes se espalhavam rápido. (Memes não se chamavam assim, mas viajavam a 120, como se dizia.) A letra original da primeira parte da marchinha era esta:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente

Não demorou muito pra circular uma versão alternativa que zombava de Carlos Lacerda, então deputado federal pelo DF. Lacerda era orador inflamado, dotado de língua ferina. O povo não perdoou:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua do Lacerda

Pra eu lembrar 70 anos depois, é que a versão bis deve ter sido bastante repetida. A história não conta se o político apreciou.

Vamos pular todas essas décadas e trazer a história para o presente. Agora vêm alguns “se”:

  • Se o carnaval ainda fosse espontâneo como o antigo e menos fabricado;
  • Se os memes ainda tivessem a leveza de espírito das brincadeiras de ontem;
  • Se ainda fossem compostos sambas e marchas especiais para o carnaval;
  • Se a marchinha da Emilinha Borba ressuscitasse e o povo se pusesse a cantá-la.

Qual seria um final engraçado, coerente e atual para a estrofe “A água só não lava a língua …………….” ?

  • Da sogra?
  • Do Lula?
  • Do Eduardo Bolsonaro?
  • Do Trump?

Alguma boa ideia ocorre a vosmecê? Mande cartinha para a Redação!

O mundo segundo os aiatolás

 

Piadinha publicada no site da embaixada do Irã na Tunísia

José Horta Manzano

É comum ouvir dizer que o Brasil não deu certo. Não há como discordar. De fato, ainda falta muito para nosso país tornar-se normal, justo e harmônico. É curioso que assim seja, visto que, diferentemente de muitos outros países, não temos linhas de fratura que oponham contingentes de população uns aos outros. O que temos atualmente, e que chamamos “polarização”, é fenômeno passageiro. Antes da coexistência de Lula e Bolsonaro, não havia; e depois que esses personagens tiverem descido do palco, deve desvanecer.

Por sorte, temos duas características de suma importância que deveriam nos unir – e, de fato, nos unem: a língua e a religião. O fato de falarmos a mesma língua, o que faz que qualquer cidadão possa entender e ser entendido em todo o território nacional, é uma qualidade rara para um país gigantesco e populoso como o nosso. Por seu lado, a imensa maioria da população é cristã – entre católicos, protestantes e neo-pentecostais. Portanto, os principais fatores de crispação simplesmente não estão presentes.

Nosso atraso e nossa inarmonia devem, assim, ter outra origem.

Ninguém aprecia que brinquem com sua religião ou com seus símbolos religiosos. Esse tipo de acontecimento, além de incomodar, é de extremo mau gosto. No Brasil, não estamos acostumados a vilipêndios ou ultrajes religiosos.

Os fiéis de certas religiões são mais susceptíveis a brincadeiras com seus símbolos, ainda que a intenção não tenha sido de ofender. Maometanos têm prevenção especial contra quem se atreva a usar seus símbolos em vão.

O atentado contra a revista francesa Charlie Hebdo, cometido em janeiro de 2015, foi exemplo dessa intolerância. Doze profissionais foram assassinados e onze outras pessoas foram feridas pelos dois atiradores armados de fuzis. A chacina ocorreu como castigo aos profissionais que tinham ousado publicar desenhos cômicos com personagens ligados ao Islã.

A incentivar (e às vezes financiar) esse tipo de ataque, em geral estão os aiatolás do Irã. Pois são justamente esses aiatolás que estão por trás de uma brincadeira – um meme talvez? – publicado no site da embaixada do Irã na Tunísia. Apareceu na sequência dos desaforos que o Brasil vem sofrendo do presidente Trump e seus acólitos. Representa o Cristo Redentor que destrói a Estátua da Liberdade.

Como sabemos, a estátua do Corcovado é um símbolo duplo: de nosso país e de nossa religiosidade. Já a Estátua da Liberdade simboliza os Estados Unidos. O regime iraniano pôs em cena os dois símbolos, que se comportam da única maneira que o regime iraniano conhece: a força bruta que leva à destruição do adversário.

Entendo que a intenção era mostrar solidariedade para com o Brasil, um abraço entre vítimas do mesmo verdugo. O problema é que, para ilustrar o teatrinho infantiloide que bolaram, usaram um símbolo religioso respeitado por todos os brasileiros, católicos ou não. E isso não se faz. Queria ver o que aconteceria se o governo brasileiro tivesse a ideia debiloide de usar a figura do profeta deles se engalfinhando com a turma do Trump. Acho que não haviam de deixar por isso mesmo.

Pra não complicar, é melhor deixar como está, e não levar a coisa adiante. Mas bem que valia a pena fazer chegar a Teerã uma mensagem discreta para que eles, da próxima vez, evitem usar um símbolo religioso. Que ponham o Pelé, por exemplo, dando um chute magistral na estátua americana, ninguém há de se ofender.