Piada de português


Piadas de português agora são de brasileiro


Nelson Motta

Estive alguns dias em Lisboa e Madri e fiquei emocionado em ver ruas cheias, comércio movimentado, bares, restaurantes, cinemas, teatros, shows e estádios lotados. As pessoas parecem mais leves e esperançosas. Máscara obrigatória em lugares fechados, sem discussões. A vida está ficando mais parecida com o que era antes, só que com mais entusiasmo para recuperar o tempo perdido.

Talvez sejam só impressões de turista egresso do inferno tropical, afinal, na Espanha e em Portugal nem todos os problemas se resolveram com o “fim” da pandemia. Mas agora eles têm um horizonte. Já se respira mais aliviado e a vida renasce sem medo, talvez mais forte. Me sinto como um dos bichos saídos da arca de Noé depois do dilúvio.

Acima de tudo a volta do mais elementar e fundamental dos direitos: poder andar sozinho (e sem máscara) pelas ruas a qualquer hora sem medo de ser assaltado ou agredido por bandidos ou pela polícia ou pela milícia.

Sim, ainda há antivacinistas, que têm a liberdade de não se vacinar, mas todos os estabelecimentos públicos e privados têm a liberdade de só permitir a entrada de vacinados. Liberdade ou é para todos ou é para ninguém.

Uma agradável curiosidade em Lisboa: uso uma daquelas maquininhas que furam o dedo e analisam a taxa de glicose do sangue (para prevenção de diabetes) e a minha quebrou, então fui a uma farmácia e, depois, meio incrédulo, a outra, e nas duas me deram a mesma resposta: “Estes aparelhos não podem ser comprados em lugar nenhum. É proibido vendê-los. Só podem ser dados — de graça — pelo Serviço de Saúde Pública mediante receita de um médico”. Como dizia Nelson Rodrigues, fiquei besta.

Depois, comentando com um amigo português, ex-ministro de governos socialistas, ele fez uma expressão de enfado e foi quase irônico: “Deve ser porque é muito mais barato gastar nessa prevenção do que tratar e salvar vidas de diabéticos, especialmente velhos e pobres”.

Ele acompanha com preocupação, espanto e compaixão o transe brasileiro, mas não acreditou que o governo gastou mais no lançamento da nota de 200 reais (que agora, em dólar, só vale 190) do que nas campanhas de prevenção da Covid.

Nas rodas políticas, todo mundo ainda comenta, e certamente aumenta, a grosseria das piadas que o Bozo contou ao professor Marcelo Rebelo de Souza, presidente de Portugal, um homem educado, respeitado e verdadeiramente querido pelo povo, que vai ao supermercado e à praia sozinho, sem seguranças. E presidiu Portugal na vitória contra a Covid.

Com sua sutileza cavalar, ele é capaz até de ter contado piadas de português ao presidente. Só não imaginava que o “português” era ele mesmo, piada do mundo, que se vangloria de ser “o único chefe de estado do planeta que defendeu a cloroquina”.

Todos os outros que estão rindo dele são burros e desinformados.

(*) Nelson Motta é jornalista, escritor, musicólogo e produtor teatral.

O Lula e a Nicarágua

Lula e Daniel Ortega, o tiranete nicaraguense

José Horta Manzano

A Nicarágua é um pequeno país da América Central, um pouco maior que Portugal e um pouco menor que o Amapá. Abriga cerca de 6 milhões de habitantes.

Pobre e vampirizado por uma classe dominante acostumada a revezar-se no poder há séculos, o país não consegue deslanchar. Vive da extração de algum minério e da agricultura. Está entre os quinze maiores produtores de café.

A família Somoza mandou e desmandou no país durante meio século, a começar dos anos 1930, instalando um desavergonhado regime dinástico, com um ditador sucedendo ao outro.

No limiar dos anos 1980, levantou-se uma revolução nacional “para acabar com tudo isso que está aí”. É estado de espírito tristemente conhecido entre nós. Quando surge um líder com esse tipo de conversa, pode apostar: vai haver muita movimentação, mas, no final, nada vai mudar. Já vimos esse filme com o Collor, com o Lula, com o Bolsonaro. Deu no que deu.

De fato, foi o que aconteceu. Um jovem Daniel Ortega era o líder daquela que ficou conhecida como Revolução Sandinista, uma guerra de guerrilha. Muita gente morreu, os EUA se meteram na confusão, mas, no final, a dinastia dos Somoza foi interrompida. O quadro guarda semelhanças com a “revolución” dos bondosos irmãos Castro, na ilha de Cuba.

Os sandinistas nicaraguenses não conseguiram tomar o poder imediatamente. Instalou-se um governo civil, não revolucionário. Mas Daniel Ortega manteve-se nas cercanias do poder, esperando sua hora. Já não tão jovem como nos tempos da revolução, conseguiu finalmente chegar à presidência pelo voto em 2006.

Eleito, tomou gosto pelo poder. Agindo como um Putin tropical, ajeitou regras e leis em causa própria, e acabou instalando um regime que não fica nada a dever à ditadura que tinha jurado combater – veja como são as coisas.

Tendo sido eleito em 2006 com mandato de 5 anos, deu um jeito de se reelejer em 2011 e de novo em 2016. Faz alguns dias, venceu sua quarta eleição seguida, para novo mandato de 5 anos. Frise-se que a vice-presidente é Rosario Murillo, esposa do tiranete, a confirmar o total domínio do clã. Considerando que ele já completou 76 aninhos, terá 81 ao término do mandato. Se chegar até lá.

Para alcançar seu objetivo eleitoral, o velho líder não hesitou em instalar o terror nos partidos de oposição. Começou seis meses atrás. Ditadorzinho descarado, mandou prender os sete adversários que poderiam representar risco para sua reeleição. Só deixou livres os cinco nanicos, que não lhe traziam perigo e que lhe eram, de certo modo, subservientes. Proibiu que observadores estrangeiros viessem conferir a lisura do voto e da apuração. Sem surpresa, venceu com 75% dos votos. Foi na semana que passou.

O mundo civilizado denunciou a farsa, mas o PT, partido do qual o Lula é presidente de honra, entrou na contramão. Soltou nota qualificando a re-re-re-reeleição de Ortega como “grande manifestação popular e democrática”. O texto ainda menciona o trabalho do ditador na “construção de um país socialmente justo e igualitário”.

Passados dois dias, diante da onda de indignação que se alevantou na imprensa brasileira, a direção do PT decidiu improvisar uma retratação. Doutora Gleisi Hoffmann jura de pés juntos que o primeiro texto não tinha sido submetido à apreciação da diretoria. Portanto, ficava o dito pelo não dito. O quê? Que uma nota daquele teor tenha saído sem o aval do comitê central? Acredite quem quiser.

O ocorrido dá margem a interpretação. Na minha opinião, foi o próprio Lula, que é falto de instrução mas cheio de esperteza, quem mandou os companheiros desdizerem aquele palavrório padronizado e carimbado anos 1970. Em plena campanha eleitoral, tudo o que nosso guia não quer é reavivar, na lembrança do eleitorado, o radicalismo e as amizades perigosas que seu partido tem alimentado durante décadas: Chaves, Maduro, os bondosos irmãos Castro, os ditadores africanos.

Mas ninguém é bobo. A primeira nota – solta, livre, espontânea e sem amarras – foi o reflexo do verdadeiro ADN (=DNA) do Lula e dos seus. O resto é lantejoula para enfeitar campanha e enganar trouxa.

Entre a permanência de um desonesto Bolsonaro e a volta de um desonesto Lula… ai, meu São Benedito! Ajude-nos a encontrar uma terceira via decente! Mas não demore muito!

O próximo presidente

José Horta Manzano


Pra ser muito sincero, não acredito que doutor Sergio Moro venha a ser o próximo presidente do Brasil.


Isso não significa que este blogueiro tenha uma quedinha por Bolsonaro ou pelo Lula. Meus fiéis leitores sabem que a verdade não é bem essa. Acredito – e principalmente espero! – que o próximo chefe de nosso Executivo não venha a ser nenhum dos três: nem Moro, nem Bolsonaro, nem o Lula.

Eliminados os três, me parece que aumentam as chances de termos um próximo presidente razoável. Nem peço nem que seja excelente; razoável já estaria de bom tamanho.

Bolsonaro dispensa apresentações: é esse estropício que está aí. Ele não deixa passar um dia sem nos lembrar quem é, de onde veio, quem são seus acumpliciados, como age, quais são suas intenções, de que estofo é feito. O homem é transparente, cristalino. Não só parece mau, é mau. Não só parece primitivo, é primitivo. Não só parece rasteiro, é rasteiro. Não só parece falto de inteligência, é falto de inteligência.

O Lula, bom, desse então, nem precisa falar. Mas não custa lembrar, que há sempre gente desmemoriada. Além de “aparelhar” toda a administração do Estado brasileiro com seus cupinchas, permitiu (chefiou?) a instalação da maior corrupção sistêmica já vista num Estado que se imagina democrático. Se sofremos hoje o castigo de ter um Bolsonaro segurando as rédeas do país, agradeça-se ao Lula. Sem a roubalheira, os excessos e os escândalos do primeiro, não haveria o segundo.

De Sergio Moro, não se conhece muito. Mas o que se sabe já é suficiente para colar-lhe algumas etiquetas. Sabe-se que é obstinado e que não hesita em lançar mão de procedimentos “quase legais” a fim de alcançar seus propósitos. Sabe-se que apoiou o capitão e que seu ardor pelo personagem foi tão grande, que o fez abandonar a magistratura para seguir o chefe. Sabe-se que, no espectro político, suas posições estão à direita da direita. Exagerando um pouco, eu diria que Moro é um Bolsonaro que não fala palavrão.

Acho muito difícil Sergio Moro chegar ao segundo turno. Se, por surpresa, chegasse lá, suas chances de vencer não seriam enormes.

Se Moro tiver de enfrentar o Lula, vai pular um cortado. Por um lado, Lula conta com um capital de eleitores cativos; por outro, duvido que os devotos do capitão, desamparados, deem uma mão a Moro, votando naquele que eles consideram “traidor” da causa. Nesta configuração, nosso guia conserva todas as suas chances.

Se Moro tiver de enfrentar o Bolsonaro, vai ser pior ainda. Alguém imagina um simpatizante do Lula votar naquele que, quando juiz, mandou o demiurgo para a cadeia? Portanto, subtraindo os votos do eleitorado simpático ao Lula e os votos dos que desconfiam de Moro, não há de sobrar grande coisa para o ex-magistrado. Nesta configuração, quem conserva todas as chances é o capitão.

Vamos torcer para sobressair logo um nome que encarne uma verdadeira terceira via. Essa que o ex-juiz representa está mais pra beco sem saída. Sem calçamento e sem iluminação.

No tiene la culpa

Jornal O Globo, 11 nov° 2021

José Horta Manzano

Todo o mundo sabe. Quando um aluno interessado e esforçado não consegue aprender, a culpa não é dele – costuma ser do professor.

Bolsonaro, com 30 anos de métier, tomou Moro como aprendiz. O ex-juiz exerceu como ministro durante quase ano e meio. Admirativo e aplicado como era, se não aprendeu, não terá sido por desinteresse. É que o professor era ruim pra diabo.

Se um culpado existe nesta história, não é o ex-ministro.

A palmatória retroativa

Eduardo Affonso (*)

O limite de velocidade de uma estrada é reduzido de 100 para 80 km/h, e são notificados todos os que trafegaram, algum dia, acima da velocidade agora permitida. Inverte-se a mão de uma rua, e fica decidido que cometeram infração grave todos os que circularam no sentido estabelecido até então. As multas não param de chegar. Milhares de carteiras de motorista são cassadas.

Faz-se um acordo ortográfico eliminando acentos e alterando grafias, e procede-se à revisão de todas as provas de Português dos últimos 800 anos, tirando ponto de quem um dia acentuou “ideia”, usou trema em “cinquenta” ou hífen em “dia a dia”. Currículos são refeitos; escritores, execrados por seus “erros crassos”.

Absurdo? É mais ou menos assim que os novos inquisidores vêm agindo em relação aos que não tinham bola de cristal e viviam em conformidade com sua época, não com a nossa. Medem os homens do século XVIII com a régua moral do século XXI. Consideram indignos de ser eternizados em bronze aqueles que tiveram escravos num tempo em que ter escravos era tão natural quanto é hoje ter empregados assalariados. E dá-lhe jogar tinta no Churchill, botar fogo no Borba Gato, mandar para o porão o Thomas Jefferson. (Ainda não se sabe se dinamitarão o Monte Rushmore, como fizeram os talibãs com os Budas de Bamiyan).

Pregam o multiculturalismo, mas deitam e rolam no cronocentrismo, imaginando o presente como o ponto culminante da evolução, o momento em que se atingiu a Verdade e as civilizações pretéritas serão passadas a limpo. É (de novo!) o fim da História, com o triunfo das suas pautas e o vencimento do boleto da dívida histórica.

E pensar que estivemos mal-acostumados com aquele princípio jurídico que garantia que a lei não retroage, a não ser em benefício do réu. E acreditávamos ser todos reféns do implacável Zeitgeist.

Na obra de Machado de Assis, a escravidão, o patriarcado, o preconceito, a hegemonia da Igreja Católica são um pano de fundo naturalizado — e não tinha como ser diferente. Defender direitos iguais para brancos e pretos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, crentes e incréus era uma exceção, uma extravagância. O que não significa que o autor fosse escravocrata, machista ou homofóbico. Mas é muito mais fácil exumar discriminações caducas que combatê-las, vivas, nas trincheiras do cotidiano.

O que pensarão os progressistas do século XXII dessa gente que, em 2021, ainda se vestia para tomar banho de mar, levava cães ao pet shop e vacas ao matadouro, torturava plantas com as refinadas técnicas da topiaria e do bonsai, pregava a tolerância sendo intolerante e se julgava a palmatória do mundo?

Convém ler Dickens: “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos; era a idade da sabedoria, era a idade da loucura; era a época da confiança, era a época da incredulidade; era a estação das Luzes, era a estação das Trevas; a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós; íamos todos direto ao Paraíso, íamos todos no sentido contrário”.

A História não é o aqui e o agora, mas o conto de todas as cidades, de todos os povos, de todos os tempos.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Pesquisa demais faz mal?

José Horta Manzano


“Para quê consultar os cidadãos, se é tão mais simples aguardar as pesquisas? Por que quebrar a cabeça bolando um programa político, se, em troca de pequeno investimento, as pesquisas vão lhe dizer o que a população espera? Por que se aborrecer com debates entre militantes e primárias para designar um candidato, se as pesquisas podem se encarregar disso?”


É com essas palavras que o jornalista François-Xavier Lefranc, redator-chefe do Ouest France (3° maior quotidiano francês), abriu o editorial do jornal faz alguns dias. É que, exatamente como ocorre entre nós, o país de Monsieur Lefranc anda “viciado” em pesquisas na área política.

Imagino que seja fenômeno mundial. Não sei se é impressão minha, mas, no lugar do velho Ibope, que era um e único, temos hoje numerosos institutos de pesquisa. Alguns já se tornaram referência, como o Datafolha ou o Ipsos, mas outros aparecem sem que a gente saiba de onde saíram. Todos analisam uma eleição 11 meses antes do dia de votar. Já estão todos no segundo turno, num momento em que o eleitorado sequer sabe quem serão os candidatos.

Nas eleições, a população está cada vez mais acostumada a conhecer o resultado antes mesmo de ir votar. Pesquisadores lembram sempre que seu trabalho apenas reflete uma imagem do momento, com margem de erro e todas as precauções de hábito. Mas não adianta: o eleitor vê o resultado da pesquisa como se fosse cash, dinheiro na mão. E sabemos que dinheiro na mão é vendaval.

O editorialista francês acredita que, em vez de esclarecer o eleitorado, as pesquisas ultrafrequentes tendem a confundir. Na melhor das hipóteses, têm efeito nulo, não interferindo no voto de eleitores cujo propósito é firme e inabalável. Na hipótese mais tóxica, tendem a distorcer o pensamento dos hesitantes e dos indecisos, e a incitá-los a votar no candidato A em vez do candidato B pelo simples fato de aparecer melhor nas pesquisas. O chamado “voto útil“, aquele que se dá a um para evitar a vitória de outro, entra nessa categoria. Se não fossem as pesquisas, essa modalidade distorcida de voto praticamente desapareceria.

Por meu lado, acredito que, as pesquisas contribuíram fortemente para a eleição do capitão. Foi efeito bola de neve. Cada nova pesquisa que mostrasse um avanço de seu nome era seguida de novas adesões, o que acabava fazendo o candidato subir nas pesquisas. Foi essa espiral ascendente que o elegeu e não uma base ideológica – que era minúscula e assim continua até hoje.

Fechando o editorial, o Ouest France informa aos leitores sua nova (e drástica) política para as eleições presidenciais francesas, marcadas para daqui a 6 meses: diferentemente de como costumavam proceder no passado, nenhuma pesquisa será encomendada pelo jornal desta vez.

Confesso que a atitude tem seus atrativos. A população tem, sim, o direito de ser informada. Mas até que ponto a informação “do que poderia ser” – entendida como “o que certamente vai ser” – não atrapalha mais do que ajuda? Propaganda, debates, discussões, mesas redondas, análises, sim. Mas números, às vezes até com decimais(!), podem representar aquele excesso de democracia que resulta em desserviço a ela.

COP26

José Horta Manzano

A COP26, megaencontro realizado em Glasgow, não se restringiu aos dois primeiros dias, quando chefes de Estado deram o ar de sua presença. Os encontros, as palestras e os seminários continuam. Vão do domingo 31 de outubro até a sexta-feira 12 de novembro.

Alguns dirigentes, como nosso capitão, preferiram dar o ar de sua ausência – fato contra o qual ninguém reclamou. Ele deixou de ir por não ter nada a dizer, é de crer. Comida e bebida grátis, ele já tem todos os dias, sem precisar enfrentar a chuva escocesa.

Apesar de não ter grande coisa a apresentar além de boas intenções (que cairão no colo e serão cobradas dos próximos dirigentes), o Brasil mandou a maior delegação entre todos os 180 países presentes. Nada menos que 479 participantes integram oficialmente a comitiva brasileira. Para alguns, é dever de ofício; para muitos, é uma grande festa. Em Glasgow venta muito e faz frio, mas há excelentes cervejas e uma quantidade de excelentes pubs.

O governo brasileiro peneirou (com peneira própria) os candidatos a participar da comitiva oficial. Entre os eleitos, estão grandes industriais, personalidades do ramo de investimentos e até grandes empresários do biodiesel. Corporações e federações industriais também estão lá. A CNI (Confederação Nacional da Indústria), sozinha, mandou 10 representantes.

A comitiva oficial inclui primeiras-damas de quatro estados, duas recepcionistas, dois fotógrafos e até uma barmaid, mas, curiosamente, nenhuma ONG. Essa ausência é estranha, dado que são justamente as ONGs que põem a mão na massa de verdade, confrontadas que estão com os problemas reais, no varejo de todos os dias.

Li na mídia que o stand das ONGs brasileiras, embora menor que o da delegação oficial, é muito mais concorrido e está sempre cheio, apesar de, no oficial, servirem (excelentes) salgadinhos e bebidinhas preparadas por profissional.

Sabia que há uma delegação ainda mais numerosa que a do Brasil? Por incrível que pareça, a presença mais forte é a dos lobistas ligados à indústria petrolífera. Uma jornalista suíça fez as contas e identificou 503 membros dessa “corporação”. Não mantêm um stand próprio, à vista de todos. Trabalho de lobista não é na linha de frente. Eles estão espalhados, infiltrados em cada uma das delegações nacionais. Na do Brasil também há.

Esses lobistas representam o outro lado da moeda. Todo o mundo sabe que uma das medidas principais para paliar a agonia do planeta é o total e imediato banimento da queima de petróleo. Se essa regra passasse a ser seguida com rigor, isso significaria a asfixia da indústria petrolífera e a ruína de países cuja riqueza é principalmente baseada na extração do óleo. A função do lobista é esticar a corda e prolongar a agonia do planeta até não poder mais.

Mas não adianta. A queima de combustíveis fósseis para produção de energia está com os dias contados. Com ou sem lobistas.

A arte de redigir nota de falecimento

José Horta Manzano

Com o falecimento de Nélson Freire, ocorrido semana passada, o Brasil perdeu seu mais importante intérprete de música erudita, o único conhecido e reconhecido universalmente. Muitos anos hão de se passar até que outro filho desta terra entre no rol dos maiores do mundo.

Em horas assim, quando falece um grande nome da música nacional, é praxe haver manifestação imediata da Secretaria da Cultura, da Presidência da República e do Ministério das Relações Exteriores.

Como já mencionei alguns dias atrás, doutor Frias, secretário nacional de Cultura não deu um pio. Por certo, nunca tinha ouvido falar de um dos maiores pianistas do mundo. Mais inquietante ainda é ver que falta, no staff, um encarregado de seguir o que acontece fora da bolha em que todos eles vivem.

O presidente Bolsonaro, grosseiro como de costume, nem falou nem disse nada. Silêncio absoluto. Não sabia, não sabe e nunca saberá quem foi Nélson Freire. Talvez achasse que, como todo artista, “esse daí” também era comunista. Vai ver até que votou no PT. “Pô.”

O Itamaraty, que ainda guarda algum resquício do que costumava ser a diplomacia brasileira, manifestou-se. Soltou um comunicado formal, protocolar, que não chega a 1000 toques, com 155 palavras. Descrever em 155 palavras a carreira de um artista maior é complicado. Não dá.

Apesar da exiguidade do comunicado, o Itamaraty ainda encontrou jeito de encaixar a seguinte frase: “Muitas de suas apresentações internacionais contaram com apoio do Itamaraty”. Jogar flores em si mesmo pode cair bem em outras ocasiões; em nota de falecimento, pega mal pra caramba. Além de prepotente, é o cúmulo da deselegância. Nélson Freire não dependou do “apoio” do Itamaraty para correr mundo e firmar seu renome em 70 anos de carreira.

No dia seguinte ao do anúncio da morte do artista, o Palácio do Eliseu soltou nota de falecimento, assinada pelo presidente Emmanuel Macron. Como todos sabem, o palácio presidencial francês não é agência funerária. Comunicados da Presidência francesa são poucos, caem a conta-gotas.

A nota de falecimento francesa traz uma minibiografia do homenageado, com 437 palavras espalhadas por 2800 toques (quase três vezes a extensão do bilhetinho do Itamaraty). Vê-se que foi escrita por quem é do ramo. Dá um apanhado preciso da obra do artista, cita sua discografia, relembra seus compositores favoritos, menciona as peculiaridades de seu toque e da sonoridade que conseguia extrair do instrumento.

Não esquece a velha amizade que unia o brasileiro a Martha Argerich, considerada a maior pianista viva. E termina declarando: “o presidente da República e esposa saúdam o excepcional intérprete de Debussy, que nos brindou frequentemente com sua presença, e dirigem suas condolências sinceras aos que lhe eram próximos, assim como a todos os que se emocionavam com a poesia de seu toque”.

Se Bolsonaro, logo no início do mandato, não tivesse insultado a primeira-dama francesa, até que podia mandar um ou dois emissários para um estágio no Eliseu, a fim de serem iniciados nas artes de redigir um elogio fúnebre digno de país civilizado.

O encargo fica para o sucessor do capitão.

Para saber mais:

O original da nota do Itamaraty

O original da nota do Palácio do Eliseu

Honraria envenenada

Repercussão mundial
No Brasil, 21 cientistas que discordam de Bolsonaro recusam uma medalha
Le Monde, Paris

José Horta Manzano

Tive um bisavô inglês. Chegou ao Brasil quando era um jovem adulto, no fim da década de 1850. Nunca mais voltou ao país natal. Cruzar o oceano, naquele tempo, não era coisa que se fizesse com frequência.

No Brasil, casou-se e teve uma renca de filhos, como era costume. Na juventude, trabalhou para os ingleses que exploravam minas de ouro na região. Na maturidade, fez coisas incomuns para um estrangeiro de sotaque. Chegou, por exemplo, ao cargo de prefeito de Ouro Preto, então capital da província de Minas Gerais.

Passados mais de cem anos de seu falecimento, as informações sobre a vida do antepassado vão se perdendo. Um detalhe, no entanto, ficou gravado na memória familiar. O inglês foi agraciado com a medalha da Ordem da Rosa, no grau de comendador. Foi o próprio imperador a entregar a honraria.

Até hoje, nas raras vezes em que algum descendente se refere ao antepassado, fala do “comendador”. É que, na família, nunca houve outro. Para receber tal homenagem, ele há de ter tido méritos, fato que ainda hoje desperta nos descendentes uma pontinha de orgulho.

“Indignação, protesto e repúdio” – são os termos fortes com que 21 cientistas, agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, recusaram a honraria.

É atribuição do presidente da República designar os que serão homenageados com medalhas e comendas. Normalmente, a escolha é feita por quem é do ramo e entende do assunto; o presidente só entra no final, com a caneta, pra assinar o decreto.

Mas Bolsonaro não é um presidente normal. Aconselhado sabe-se lá por quem, decidiu cortar dois nomes da lista já publicada no Diário Oficial. Pegou muito mal. O capitão fez isso porque, por alguma razão, encasquetou a ideia de que o pensamento dos dois divergia do seu.

Os demais nomeados ficaram numa situação complicada. Se aceitassem a condecoração sem piar, o silêncio poderia até ser interpretado como evidência de que se alinhavam com Bolsonaro. Que fazer? Não tenho detalhes do conciliábulo, mas o resultado foi espetacular (e inusitado no Brasil atual): os 21 recusaram, coletivamente, a homenagem.

Não utilizaram os termos rasteiros em voga no Planalto, do tipo “enfia tua medalha lá onde estou pensando”. A rejeição foi feita em linguagem erudita e polida, mas firme.

A notícia me deixou feliz. Não tanto por imaginar a cara de tacho do capitão, que, de toda maneira, não tem capacidade de entender o que está ocorrendo. Sutil demais para ele. O que me alegra é saber que, apesar do adesismo de tantos personagens que povoam nosso andar de cima, ainda se encontra gente íntegra. É um raio de esperança a indicar que nem tudo está perdido.

Com essa atitude, os cientistas que ousaram dar com a porta na cara do presidente ganharam mais do que se tivessem se curvado para receber o colar com a medalha. Uma coisa é certa: cem anos depois que tiverem falecido, os descendentes de cada um deles ainda se orgulharão do antepassado que manteve corpo ereto e cabeça erguida numa época em que todos se vergavam.

Tempus rationis dominus est.
O tempo é o senhor da razão.

La Torre di Pizza

Bolsonaro rebatiza Torre Pisa como “Torre de Pizza”

José Horta Manzano

A função de uma agência de notícias é… dar notícia. Um jornal, sozinho, não tem condições de manter centenas de correspondentes espalhados pelo país e pelo mundo. Uma agência de notícias tem – é sua razão de existir. Veículos da mídia são assinantes das principais agências globais, que fornecem o material informativo.

No seleto clube das maiores do mundo, estão as americanas AP (Associated Press) e UPI, a britânica Reuters, a francesa France-Presse. Um membro menos conhecido desse clube é a italiana Ansa (Agência Nacional de Imprensa Associada), fundada em 1946. Também é uma agência importante.

A Ansa acompanhou cuidadosamente a vilegiatura de Jair Bolsonaro em terras italianas e diariamente relatou tudo o que viu, tim-tim por tim-tim. Não deixou escapar nenhum momento, dos mais insignificantes aos mais grotescos. Um dos mais hilariantes ocorreu justamente quando o capitão já estava de volta a seu quartel-general, longe do sufoco de ser o chefe de Estado menos importante entre duas dezenas.

Como a resumir o passeio do presidente brasileiro, o artigo da Ansa que reproduzi na imagem, relata algumas das gafes cometidas pelo capitão. O ponto alto foi atingido quando ele declarou, com aquele jeito pretensamente blasé de quem é profundo conhecedor do planeta inteiro, que tinha visitado a Torre de Pizza.

“Bolsonaro rebatiza Torre Pisa como ‘Torre de Pizza’ – relata a Ansa. Passado o espanto, muita gente deve ter se esborrachado. Preciso, o artigo ainda acrescenta a troca de nome que o capitão atribuiu John Kerry, enviado especial dos EUA, chamando-o de Jim Carrey.

E fiquei sabendo de mais uma peripécia de nosso confuso corruptor-mor, que não tinha visto nos jornais nacionais. Aconteceu quando Bolsonaro estava em Pistoia, em frente ao monumento que homenageia os pracinhas caídos em combate contra a extrema-direita (repare na ironia!). A seu lado, estava Matteo Salvini, líder da extrema-direita italiana (re-repare na ironia!). Foi nessa hora e nesse lugar que nosso capitão trocou o nome do companheiro de ideologia: chamou Salvini de Salvati.

Realmente, fica patente que o homem está tão centrado em si mesmo que as coisas e gentes que o rodeiam simplesmente deixam de existir. Essas repetidas trocas de nome de lugar e de nome de gente reafirmam, a todo momento, o distúrbio de personalidade que o acomete.

Francamente, tem seres que melhor fariam se não abrissem a boca. O capitão é um deles.

Observação onomástica
Signor Salvini, o extrema-direita italiano cujo nome foi estropiado, não deve ter apreciado o escorregão do colega Bolsonaro. Salvini é patronímico derivado de Salvus, prenome popular na Idade Média. Já Salvati tem outra origem. Era sobrenome atribuído a recém-nascidos abandonados.

A deposição do presidente

José Horta Manzano

Envolvido no inquérito que procura esclarecer os comos e os porquês de uma troca de comando na PF, ocorrida um ano atrás, Bolsonaro foi compelido a prestar depoimento. Tergiversou quanto pôde, mas acabou cumprindo a ordem ontem.

Em princípio, a não ser que, por alguma razão, o depoente esteja impossibilitado de se locomover, depoimento se presta nas dependências da polícia. Ou diretamente no tribunal, a depender do estágio do processo.

Em atenção ao fato de Bolsonaro se encontrar atualmente investido da função de presidente da República, foi-lhe concedida deferência especial. Para evitar o transtorno de se locomover até a PF, foi-lhe permitido depor em casa, no Palácio do Planalto.

A transcrição do depoimento está na rede, pra quem quiser conferir. Por minha parte, não achei que valesse a pena ler palavra por palavra. Depoimento de acusado costuma seguir a tradição de alegar inocência. Vai caber ao juiz sopesar fatos e dar decisão.

Quanto à descrição do ocorrido, a imprensa se dividiu em duas metades “de tamanho desigual”, se é que assim me posso exprimir.

A “metade maior” optou por dizer que o presidente “depôs à PF” ou “prestou depoimento à PF”, (o que é a mesma coisa).

Só uma “metade menor” preferiu mencionar o local do depoimento e omitir a PF. Ficou assim: “depôs no palácio” ou “prestou depoimento no palácio”.

Gramaticalmente falando, quem teria razão? A metade maior ou a menor?

Uma consulta ao Dicionário de Regência Verbal de Celso Luft explica. O verbo depor tem numerosas acepções, poucas de uso corrente. Uma delas, pertencente ao vocabulário jurídico, aparece com frequência, confirmando o grau de judiciarização do Brasil. É justamente o caso de que estamos falando.

O dicionário ensina que, no sentido de declarar em juízo (prestar depoimento em juízo), o verbo depor é intransitivo. Portanto, não se deve dizer que Fulano “depôs à PF”. Se ele for do andar de baixo, terá ido à PF para depor; se for do andar de cima, como nosso capitão, terá tido o privilégio de depor em casa ou no palácio. Mas não depôs a ninguém. Simplesmente depôs, prestou depoimento.

A gramática ensina que é correto dizer:

Fulano foi chamado a depor.
O presidente prestou depoimento em casa.
Seu João teve de tomar ônibus para depor na PF.

Já o traquejo político inteligente (friso bem: inteligente) ensina que é bobagem tentar se esquivar, por um ano, de prestar depoimento, uma vez que tenha havido convocação. O capitão espichou o assunto de maneira boba, mas não escapou e acabou sendo obrigado a depor. Que é que ele ganhou com isso?

Se tivesse prestado logo seu depoimento na época em que foi convocado, a página já estaria virada há um ano. Hoje, como estamos mais perto da eleição, o risco de repercussão negativa é maior. Pouca visão e maus conselheiros acabam piorando os problemas.

Não por acaso, dei a este artigo o título de A deposição do presidente. Deposição é o testemunho que se dá perante o juiz. Mas é também a destituição (de alguém) do cargo que ocupa.

Eu preferia que ontem, em vez de ter assinado uma declaração, o capitão tivesse assinado a renúncia ao cargo, aprontado as malas e embarcado para uma ilha paradisíaca, bem longe daqui. Que tivesse renunciado ou até mesmo que tivesse sido deposto por incompetência.

Ainda não foi desta vez. Fica pr’a próxima.

Não vai dar

Folha de SP, 4 nov° 2021

José Horta Manzano

Dizem que quem vê cara não vê coração. Dizem também que o rosto é o espelho da alma.

Sei não. A julgar pela expressão dos dois, a chapa Lu-Gê tem pouca chance de dar certo. O primeiro está chateado por ter estado, mas não estar mais lá. O segundo está amargurado por ter tentado, mas nunca ter chegado lá.

Uma parceria, pra funcionar, exige, em primeiríssimo lugar, que os parceiros estejam satisfeitos e animados. Pela expressão mal-humorada, parecem estar cumprindo tabela, longe do objetivo. Não pode dar certo.

Ciência, devotos e rebotalho

José Horta Manzano

93%
Esse é o percentual da verba cortada pelo governo de Jair Bolsonaro para gastos com estudos e projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas nos três primeiros anos da sua gestão – a comparação é com os três anos imediatamente anteriores.

Dados levantados pela BBC News Brasil mostram que, nos três anos anteriores (2016 a 2018), os investimentos nessa área foram de R$ 31,1 milhões. Ja na gestão Bolsonaro (2019-2021), foram R$ 2,1 milhões.
A notícia é do portal G1

Os devotos
Como provam os números levantados pela BBC, temos um presidente que, enquanto suborna parlamentares, foge da ciência. E atrás dele, vai a corte obediente, exatamente como nos tempos do “Ancien Régime”. De fato, quando o rei Luís XV se deslocava de Paris a Versailles, por exemplo, toda a corte ia junto – centenas de pessoas, com armas e bagagens. Todos diziam amém ao rei, pois dele dependiam.

Quando menciono os “devotos” de Bolsonaro, que nada mais são que a versão 4.0 da corte dos Luíses, não me refiro unicamente aos que se enrolam na bandeira para aclamar o “mito”. Incluo os personagens que têm mais destaque na vida nacional. São todos aqueles que, por ideologia ou interesses variados, fazem parte dos “agregados” do clã presidencial expandido: militares palacianos, parlamentares bolsonaristas, ministros de ocasião, blogueiros remunerados, e tanta gente mais.

A bandeira
Essa história de aparecer em passeatas e manifestações enrolado na bandeira brasileira não é costume habitual em outras partes do mundo. Bandeira foi feita para ondular ao vento, solta, livre, altaneira, desprendida de agarras humanas.

Esses que adquiriram o bizarro hábito de se enrolar nela, como se manipulassem um trapo ou um cobertor, deveriam saber que, se fizessem esse gesto nos tempos da ditadura militar (cuja volta eles reclamam ingenuamente), iriam direto para a prisão.

Os militares eram – imagino que ainda sejam – ciosos do bom uso dos símbolos nacionais. A execução do hino e a exposição da bandeira e do brasão de armas eram objeto de regras precisas e minuciosas. A cadência (velocidade) de execução do hino é normatizada, assim como a tonalidade (fá maior).

Querem um exemplo das limitações da exposição da bandeira? Nos anos 1960, surgiu um movimento global de liberação dos costumes. Muitas proibições caíram. Na Grã-Bretanha, popularizou-se o uso de roupa com o desenho estilizado da bandeira. Não me consta que isso tenha causado escândalo. Já no Brasil daqueles anos, ninguém ousaria estampar bandeira na camiseta. Sair à rua enrolado no pavilhão nacional dava cadeia. Direto.

Para entrar em conformidade com o regulamento, os que apreciam sair às ruas enrolados em bandeira deveriam abandonar o pavilhão nacional e criar um uniforme qualquer que os distinguisse. Sugiro um retalho de tecido tamanho bandeira – de flanela no inverno, de algodão no verão.

A cor tanto faz, mas é indispensável que haja um imenso B desenhado atrás. O B, é claro, se refere a Bolsonaro. Para os mais exaltados, pode até lembrar o nome de nosso país (sem ferir as regrar que proíbem o uso da bandeira como peça de vestuário). E pode ainda, para os não-devotos, evocar a letra inicial da palavra que designa o excremento dos bovinos. Deixa a todos sorridentes. Não é uma maravilha?

Rebotalho
Há uma emissora paulista de rádio, antiga, tradicional, que chegou a ter certa importância. Um dia, por razões que ignoro (embora desconfie), tornou-se abertamente bolsonarista, daquelas que preferem fechar os olhos para todos os horrores da administração atual, como se não existissem. Agem como blogueiros de aluguel.

Essa empresa acaba de contratar, como comentarista, o doutor Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente refugado alguns meses atrás. Salles caiu por ter sido acusado de estar acumpliciado com contrabandistas de madeira extraída ilegalmente da Amazônia.

Depois que ele saiu de cena, não se ouviu mais falar do andamento do respectivo processo penal. Talvez agora, com sua volta aos holofotes, alguém se lembre de desenterrar o assunto. (Se é que a dita estação de rádio ainda conta com alguma audiência além dos devotos do capitão.)

Bolsonaro na Itália – benvenuto?

José Horta Manzano

Saudades do tempo em que visita de chefe de Estado estrangeiro era um acontecimento. Tanto cá quanto além-fronteiras, era a mesma festa. Algumas visitas chegaram a marcar a história.

Em 1961, finzinho de maio e começo de junho, John F. Kennedy, então presidente dos EUA, esteve de visita à França, presidida pelo general De Gaulle. Durante a estada, Jacqueline Kennedy, a esposa do visitante, chamou a atenção de todos. Era bela, tinha uma graça especial e, qualidade maior: falava francês. O velho general se derreteu.

Foi engraçado o dia em que a senhora Kennedy, orgulhosa das origens de sua família, contou a De Gaulle: “O senhor sabe, eu tenho ascendência francesa!”. E o general, de bate-pronto: “Pois imagine a senhora que eu também!”.

Pouco antes de embarcar de volta para os EUA, o presidente americano deu uma entrevista coletiva. Logo na abertura, o homem mais poderoso do planeta mostrou que tinha forte senso de humor. Fez cara dramática e declarou, sério: “I do not think it altogether inappropriate to introduce myself to this audience. I am the man who accompanied Jacqueline Kennedy to Paris. And I have enjoyed it.” Trocando em miúdos, fica mais ou menos assim: “Pensando bem, não acho inapropriado me apresentar a esta plateia. Sou o homem que acompanhou Jacqueline Kennedy em Paris. E gostei muito.

A tradição de visitas de dirigentes brasileiros a países estrangeiros é antiga. Começou já nos tempos do imperador, quando viagens eram vagarosas e podiam demorar semanas. Das menos antigas, lembro de JK nos EUA, de FHC na França, de Lula passeando de carruagem com a rainha da Inglaterra. Todos sempre foram bem recebidos. Aliás, todos os dirigentes brasileiros sempre foram recebidos com simpatia aonde quer que se dirigissem. Correligionário ou não do presidente, todo brasileiro sentia uma pontinha de orgulho.

Agora que terminou a vilegiatura que nosso capitão fez em terras italianas, a gente sente muita tristeza. Não me lembro de ter jamais visto, no exterior, manifestações de protesto contra a visita de presidente nosso. Essas viagens costumam ser instantes de confraternização, aqueles momentos em se põem (temporariamente) as querelas de molho. Com Bolsonaro, não foi possível. Como dizem por aqui, “sua fama o precede” – antes mesmo de ele apontar na esquina, todos já sabem de que barro é feito o personagem.

Falando do capitão, Elio Gaspari resumiu com maestria: “Pisou no pé da chanceler alemã Angela Merkel, teve uma conversa desconexa com o presidente turco, conversou com garçons e, por não usar máscara nem tomar vacina, ficou sem o aperto de mão do primeiro-ministro Mário Draghi.”. Foi um vexame atrás do outro.

O capítulo mais impressionante ocorreu justamente no deslocamento sentimental ao vilarejo de origem da família. Era pra ser um momento apolítico, que não se prestava a manifestações. Mas deu chabu. A proverbial belicosidade do capitão suscita sentimentos pouco pacíficos. Aconteceu o contrário do esperado.

Em Pádua, os manifestantes estavam tão exaltados, que a polícia teve de intervir com canhões de água. A visita à basílica de Santo Antônio teve de ser cancelada. O bispo da diocese negou-se a receber Bolsonaro. Disse que, se o presidente desejasse, podia vir como um fiel comum, mas que não seria recebido com honras de visitante especial. O capitão desistiu.

Em Anguillara Veneta, a cidadezinha de origem da família, estava prevista uma recepção na prefeitura, para entrega do diploma de cidadão honorário. A intensidade das manifestações de rua não permitiram. De última hora, mudou-se o programa. O almoço e a entrega do canudo foram feitos num restaurante situado fora da cidade, instalado num casarão do século 19. Para não fomentar uma revolta entre os moradores, a prefeita resolveu pagar do próprio bolso. Pelo jeitão sofisticado do restaurante (e pelo volume da comitiva presidencial), imagino que a prefeita se  arrependeu da hora em que teve a ideia de conferir o título de cidadão a Bolsonaro.

 

 

E assim continuamos. Se já era malvisto, o capitão confirmou a fama e virou empestiado, daqueles que todos querem ver pelas costas. Nenhum dirigente estrangeiro quer ser visto em sua companhia, que é pra não perder popularidade nem votos no país natal.

Na COP26, Ninguém acreditou nas boas intenções do Brasil; a ausência do chefe dá dois recados. Primeiro, de que ele não esta ligando a mínima para aquele circo; segundo, de que o compromisso brasileiro não passa de encenação pra inglês ver – perdão! – pra escocês ver (a conferência é na Escócia).

Se a Lega (partido da extrema-direita italiana) já era vista com desconfiança, as honras oferecidas a Bolsonaro hão de ter tido o efeito contrário. Fortaleceram a convicção de que se trata de um agrupamento de gente pouco recomendável. Quem é amigo de Bolsonaro bom sujeito não é.

Resumo da ópera
Eles, que estão longe, ainda podem dar-se ao luxo de se esquivar do capitão, de ignorá-lo, de dar-lhe as costas, de fingir que não viram. Os que estão no Brasil e são obrigados a sobreviver com os sustos diários aplicados no país por aquele estropício, ah!, isso já é uma outra história. Deve fazer parte de nosso carma coletivo.

Disclaimer
No título, usei a palavra italiana benvenuto, que se traduz por bem-vindo. É ironia.

Medalhões ignorantes

Lauro Jardim (*)

Morreu o maior pianista erudito do Brasil, Nelson Freire, e não houve nenhuma manifestação do Secretário de Cultura, Mario Frias.

Já o Itamaraty ao menos manteve sua tradição de civilidade. Emitiu nota oficial em que lamentou “a perda de um dos maiores artistas, que engrandeceu a cultura brasileira no exterior” e evocou a “trajetória que o coloca entre os mais destacados pianistas de sua geração e entre os maiores músicos brasileiros de todos os tempos”.

Frias, do mesmo modo que não tinha ideia de quem foi Lina Bo Bardi, talvez não soubesse da importância de Freire.

(*) Lauro Jardim é jornalista e mantém coluna no jornal O Globo.

Baixo risco

Jornal O Globo, 2 nov° 2021

José Horta Manzano

Com certeza seguindo instruções do governo, a alentada delegação brasileira presente em Glasgow (mais de 100 pessoas, pelo que li!) “adere a acordo” e se compromete a cortar 30% das emissões de gás metano daqui a 2030.

Em 2030, se vivo ainda estiver, Bolsonaro terá 75 anos. Por mais que seus devotos desejem sua permanência eterna no trono, ele já estará gozando merecida aposentadoria nalguma ilha paradisíaca dos mares do Sul.

Portanto, será o sucessor de seu sucessor a responder pelo compromisso assumido agora. Prometer e deixar a conta para os que virão é moleza. Assim, até eu assino.

A verdade torturada

Salvini: “Agradeço a Bolsonaro pela extradição de Battisti”

José Horta Manzano

A distorção da verdade é matéria prima indispensável ao trabalho de populistas e extremistas. A mais recente pérola foi cometida neste 2 de novembro.

Nesta terça-feira, nosso capitão presidente esteve de visita ao cemitério militar brasileiro de Pistoia, erguido em memória dos pracinhas da FEB caídos nos campos de batalha italianos durante a Segunda Guerra.

Surgido não se sabe de onde, apareceu Matteo Salvini, líder da extrema-direita italiana, cujo percurso já o levou a ser vice-primeiro-ministro, cargo de que foi apeado dois anos atrás. Hoje, em Pistoia, alegou ter sido convidado “pela embaixada do Brasil”. Admitamos.

Em seu discurso, agradeceu a Bolsonaro “pela extradição de Cesare Battisti”. Para impressionar na retórica, espichou a mentira e acrescentou que, se dependesse “de presidentes de esquerda”, alguns terroristas estariam ainda livres no Brasil. Não se sabe bem a que “outros terroristas” ele se refere. O que se sabe é que um perigoso miliciano ocupa a Presidência de nosso país, mas essa já é uma outra história.

Salvini não é tão ignorante quanto Bolsonaro. Era ministro de Assuntos Internos da Itália em janeiro de 2019 e sabe perfeitamente como terminou a aventura de Battisti em terras sul-americanas. Mas está apostando na memória curta de seus compatriotas. Nós, que acompanhamos o caso passo a passo durante anos, sabemos bem como ocorreu.

Assim que Bolsonaro foi eleito e declarou que tinha intenção de extraditar o condenado Battisti, este escafedeu-se e refugiou-se clandestinamente na vizinha Bolívia. A polícia italiana, que acompanhava à distância, seguiu os passos do fugitivo.

Não se sabe que tipo de tratativas ocorreu entre Roma e La Paz. O fato é que, um belo dia, policiais bolivianos (acompanhados por policiais italianos) deram voz de prisão a Battisti. Em poucas horas, o homem foi oficialmente expulso do país e entregue aos policiais italianos. Que o conduziram diretamente a Roma. Nem fizeram escala em território brasileiro, que é pra não arriscar expedição de um habeas corpus – num país judiciarizado como o nosso, toda prudência é pouca.

Naquele momento, Bolsonaro ainda nem tinha vestido a faixa. Era presidente eleito, não empossado. Portanto, não tem nada a ver com o que aconteceu. Que Salvini lhe tenha agradecido “pela extradição de Cesare Battisti” é desonestidade pura.

A verdade torturada é sempre a melhor arma de quem não tem realizações a mostrar. Uma mentira bem apresentada é sempre melhor que nada.

Bolsonaro e Salvini
Pistoia, 2 nov° 2021

Ironia
Para o espírito dos pracinhas que tombaram na Itália para liberar o mundo de nazistas e fascistas, deve ter sido uma tortura ver dois aprendizes fascistoides rindo em cima das tumbas.

Bolsonaro cabulou

G20 em Roma
O isolamento do negacionista Bolsonaro: os outros líderes o evitam e o brasileiro se comporta como turista.
Il Messaggero, Roma

José Horta Manzano

Na escola, quando alguém fugia pra não assistir a alguma aula, a gente dizia que “fulano cabulou a aula”. Muito tempo depois, quando a escola tinha ficado no passado, aprendi que cabular é verbo intransitivo. Segundo o dicionário, não se deve dizer que “fulano cabulou a aula”, mas simplesmente que “fulano cabulou”.

Soa esquisito, concordo com o distinto leitor. Mas dado que são os falantes que fazem a língua, acho que já passou da hora de o dicionário registrar essa maneira nossa de falar.

Dito isso, chegamos aonde eu queria: Bolsonaro cabulou. Cabulou o quê, minha gente? Cabulou o miolo do G20, a cúpula que reúne os dirigentes dos países que respondem por 80% do PIB mundial. Não é coisa pouca.

Mas ele foi a Roma!, dirão vocês. É verdade, foi, mas não participou de todas as palestras. Tirando o encontro com o presidente da Itália – que, por ser o anfitrião, recebeu protocolarmente todos os dirigentes estrangeiros –, não aproveitou a proximidade física dos grandes do planeta para nenhum colóquio bilateral. Nenhum. Cabulou boa parte do encontro.

E o que é que o capitão foi fazer em Roma? Turismo. Aproveitando o bom tempo e o clima ameno destes dias de outono, visitou a Fontana di Trevi – aquela onde se joga uma moedinha. Mas evitou ir lá com os demais dirigentes, que foram todos juntos. Foi numa “excursão privada”, cercado por seus 20 ou 30 cães de guarda. Sentindo-se protegido, passeou por ruas e ruelas, comeu de balcão, fez o que todo turista faz. Vê-se que o G20 não passou de pretexto para a vilegiatura.

Il Messaggero, tradicional jornal romano com história de quase século e meio, reparou na solidão do negacionista Bolsonaro: “os outros líderes do G20 o evitam, e o brasileiro vai de turista”. Sublinha a “boa ação” da alemã Merkel que, condoída do isolamento a que o capitão estava sendo submetido, deu com ele algumas palavrinhas de cortesia. Me pergunto em que língua ele terá respondido à boa ação. Se é que respondeu.

O jornal lembra a seus leitores o pesadíssimo relatório da comissão do Senado brasileiro (CPI), um ato de acusação de mais de 1.200 páginas no qual 9 crimes e delitos lhe são atribuídos, entre os quais, crime contra a humanidade. Menciona ainda os mais de 600 mil mortos de covid no Brasil.

Il Messaggero ressalta ainda que, se Bolsonaro se mostrou inerte nos trabalhos do G20, esteve ativíssimo nos giros turísticos pela capital. É verdade que ninguém imaginava que, da noite para o dia, ele se transformasse em soldado engajado na luta contra o aquecimento global, mas é incompreensível que, ao não organizar nenhum encontro bilateral, tenha deixado escapar todas as ocasiões de se entreter com os colegas.

Mas Bolsonaro está em boa companhia. Dois grandes poluidores globais também esnobaram o G20: o chinês Xi Jinping e o russo Vladimir Putin. Só que os dois tiveram a decência de manter-se à distância de Roma, enquanto nosso capitão não resistiu a levar sua avantajada comitiva de dezenas de participantes para um alegre passeio turístico pela capital italiana, enquanto líderes mais civilizados discutiam o futuro da humanidade. Ir a Roma e não ver o papa, pode?

Diferentemente dos demais dirigentes, Bolsonaro negou-se a conceder entrevista coletiva à imprensa. Mas deixe estar, já está previsto um encontro dele com Matteo Salvini, o líder da extrema-direita italiana. Será esta terça-feira em Pistoia, cidade toscana que abriga o cemitério militar brasileiro. O capitão participará de cerimônia em memória dos quase 500 pracinhas da Força Expedicionária Brasileira caídos na Segunda Guerra.

O trágico da história é que os soldados brasileiros foram enviados à Itália em 1944 justamente para combater o nazi-fascismo, doutrina admirada por Bolsonaro, Salvini e respectivos devotos. Os gestos, os atos e as falas dos dois tendem a confirmar que teriam preferido que nazistas e fascistas tivessem vencido a guerra.

Como se vê, cá como lá, a hipocrisia não tem limites.